Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Esses médicos, sobretudo os da comissão paulista, realizavam visitas diárias aos domicílios dos doentes, nos quatro distritos em que a cidade foi dividida. Vistoriavam pântanos, latrinas, poços e depósitos de águas servidas, interditando alguns e despejando sobre todos os possíveis focos da febre amarela – inclusive os caixões de defunto – antissépticos em quantidade, principalmente o
preparado ferruginoso,29 o gás sulfuroso e o ácido fênico. A Câmara Municipal ameaçou arrombar as casas dos campineiros que haviam fugido, para as desinfetar (Santos Filho & Novaes, 1996, p.45).
“Gastou-se muito dinheiro (não somente em Campinas, como em outras cidades) com desinfetantes que se despejava nas latrinas e mandava-se vir de fora água potável, enquanto se deixava os mosquitos criarem-se à vontade” – registraria Lutz num tempo em que já mudara radicalmente o modo de encarar a transmissão da doença (Lutz, 1930, p.142).
A água era então um dos agentes etiológicos incriminados. Como ainda não havia sido canalizada em Campinas, a partir de 17 de abril a Companhia Paulista de Estradas de Ferro passou a transportar, diariamente, 24 mil litros de Valinhos para os tanques que alimentavam os chafarizes da cidade, fornecendo a Câmara pipas para o transporte dessa água aos arrabaldes mais distantes.
Segundo Santos Filho & Novaes, a comissão paulista atestou 27 óbitos, em abril e maio, número bem pequeno em relação ao total de mortes causadas pela epidemia. Desse total, firmado por apenas quatro médicos, a maior parte (15) levava a assinatura de Adolpho
Lutz, “o que mais pacientes atendeu”. 30 Os autores citados justificam o número baixo com o argumento de que a função daqueles médicos era “essencialmente de profilaxia e desinfecção”. Observam que era baixo, também, o número de pacientes internados nos hospitais em comparação com os medicados em casa: o povo tinha horror a tais estabelecimentos e, como em muitas outras cidades, encarava-os como ‘antecâmaras da morte’. Houve, assim, médicos que efetuaram “cerca de noventa visitas domiciliares, diariamente” (Santos Filho & Novaes, 1996, p.10).
Com o declínio da epidemia, permaneceram em Campinas apenas Góis, Homem de Melo e dois desinfetadores. Do grupo enviado pelo governo central, ficaram Correia Dutra, que assumira a chefia da comissão após o retorno de José Maria Teixeira, e Eufrásio José da Cunha, além dos acadêmicos Vito Pacheco Leão e Alberto de Castro Meneses (Santos Filho & Novaes, 1996, p.57). Foram os últimos a deixar a cidade, no fim de junho ou início de julho. Nesse mês, o juiz de direito reabriu os trabalhos forenses, e no dia 15 recomeçaram as aulas. Campinas “ressurgiu das cinzas, e a Fênix
ressurrecta 31 foi de propósito escolhida para símbolo da cidade”.
A febre amarela espalha-se pelo Sudeste
Retrospectivamente, escreveria Adolpho Lutz (1930) que
Na história moderna da febre amarela no Brasil o ano mais
infausto foi 1889, quando na estação quente, durante três
meses, quase não choveu e a temperatura subiu a elevações
desconhecidas em outros anos. No Rio e em Santos
apareceram pirexias fortes e rapidamente fatais em forma
epidêmica. Estas, antes desconhecidas, foram geralmente
classificadas como acessos perniciosos ou, mais raramente,
como febre amarela fulminante. Só depois de muitas
discussões chegou-se a reconhecer que se tratava apenas dos
efeitos do calor, vulgarmente chamados de insolação.
No mesmo verão … em Santos, onde nos últimos dez anos não
tinha havido febre amarela, a epidemia foi muito forte. Notou-se
que o clube alemão, em quinze dias, perdeu a quarta parte dos
seus associados.
Nessa cidade, apenas no mês de março, houve 580 óbitos por febre amarela, de acordo com Santos Filho & Novaes (1996, p.38), ou 650 segundo Freire (1890a), quinhentos dos quais estrangeiros. No Rio de Janeiro, a mortalidade em 1889 chegou a 2.408 pessoas (1.926 estrangeiros) conforme esta última fonte. Os primeiros autores indicam 2.156 mortes. A conta sobe se incluirmos aquelas ocorridas em Niterói: 177, dos quais 63 estrangeiros.
Embarque de café no porto de Santos. Fotografia de Marc Ferrez,
1880 (Walker & Braz, 2001, p.45).
Lutz (1930) alude ao aparecimento da febre amarela em Rio Claro e em Belém do Descalvado. Outras cidades invadidas foram Cataguases (MG), Barra Mansa (RJ), Vassouras, Resende, Desengano, Serraria, e aí também houve fuga de parte da
população, inclusive médicos.32
Os surtos nessas cidades puseram a pique, de vez, o conceito de que a febre amarela era específica às regiões litorâneas intertropicais. Não é à toa que os médicos buscavam com tanta insistência seu agente químico ou biológico nos porões dos navios, comparando a eles as habitações insalubres das cidades de porto de mar.
Acompanhando a vaga imigratória que se derramou Brasil adentro após o colapso da escravidão e por efeito do surto de prosperidade econômica ocorrido na passagem da Monarquia para a República, o alastramento da febre amarela colocou na ordem do dia uma controvérsia que recrudesceria ainda mais com a sucessão de picos epidêmicos na década de 1890: era o “tifo americano” um mal enraizado em nosso meio ou uma ‘pestilência’ continuamente importada, uma doença que se podia arrancar pela raiz, através de drásticas intervenções no meio ambiente, ou ainda um mal contagioso que só admitia paliativos e atenuantes?
“Naquele tempo” – escreve Lutz (1930) – “muita gente ainda acreditava no contágio direto e o vômito preto era considerado uma espécie de essência da febre amarela”. Nenhuma outra doença infecciosa, afirmava João Batista de Lacerda, transmitia-se com tanta facilidade por meio de corpos inanimados. O caso paradigmático desse modo de ver o problema era o do dr. Caio Prado, presidente da província do Ceará, que morreu a 25 de maio de 1889, depois de receber cartas e jornais da pestilenta Campinas. Esse e outros casos semelhantes seriam usados com freqüência como provas indiscutíveis do transporte de seu germe pelos mais variados objetos; a matéria infectante aderia a roupas, ao carvão, à película dos frutos, ao papel das cartas, introduzia-se nos porões de navios, nos vagões dos trens e viajava, assim, longas distâncias. (Lacerda, 1900, p.16-30; O Brazil-Medico, 8.6.1899, p.212-4).
Mais tarde, os partidários da transmissão da febre amarela por mosquitos teriam muito trabalho para refutar o “monolito que vive a ser arremessado de encontro à nova doutrina” – o caso de Caio Prado e todos os congêneres (Quinto Congresso, p.36, 150).
As Reminiscências de Adolpho Lutz foram escritas numa época (1930) em que a transmissão culicidiana já era fato consumado. Ele então explicava a propagação da febre amarela, após sua “exportação” do Rio de Janeiro para Campinas, pela conjunção de três fatores: a disseminação do Stegomyia fasciata e de pessoas infectadas em regiões habitadas por gente que não tinha imunidade à doença.
Em Campinas, houve surtos em 1890, 1892, 1896 e 1897. O pior foi o de 1896, mas “já não provocou o mesmo movimento de solidariedade. Todos se conformaram. Não houve mais debandada de médicos nem campanhas caritativas” (Santos Filho & Novaes, p.35, 10).
Para Adolpho Lutz (1930), foi o transporte de mosquitos infectados pela estrada de ferro que determinou os surtos de Rio Claro e Belém do Descalvado em 1889, bem como vários casos isolados em pessoal do correio e da ferrovia, inclusive “numa senhora em Valinhos, que era casada com o chefe da estação e nela morava. Nunca tinha visitado Campinas, enquanto lá havia febre amarela”. Em anos subseqüentes, a doença
invadiu o estado de São Paulo seguindo primeiramente a
estrada de ferro Paulista. Devastou Limeira, onde eu tinha
clinicado durante cinco anos sem ver estegomias, mas poupou
Araras e Jundiaí, onde as vilas ficam muito distantes das
estações. Depois da Paulista, foi invadida a Mogiana, e só
muito tarde tocou também a vez da Sorocabana. O que impediu
uma expansão mais rápida foi, sem dúvida, o fato de que, sem
a importação prévia ou simultânea da estegomia, os numerosos
casos, que apareceram entre as pessoas fugidas de centros
epidêmicos, não podiam propagar a febre amarela.
À época em que pipocavam esses surtos, as explicações que se impunham como as mais inovadoras eram as que os relacionavam não mais a miasmas indissoluvelmente ligados a determinados ambientes, e sim a microrganismos capazes de viajar por diferentes ambientes e de indivíduo a indivíduo, por intermédio do ar e de outros veículos. A corrente majoritária acreditava que o germe sofria alguma transformação no meio exterior antes de se tornar infectante, somente em algumas zonas geográficas e em determinada estação do ano.
Em busca do micróbio da febre amarela
Quando Adolpho Lutz iniciou sua carreira, no começo da década de 1880, os micróbios começavam a se tornar os pivôs de candentes discussões sobre a doença que constituía o principal problema da saúde pública brasileira. Em dezembro de 1879, quando as ruas e casas do Rio de Janeiro reverberavam o sol inclemente da ‘estação calmosa’ ou submergiam debaixo de suas chuvas torrenciais, o dr. Domingos José Freire, catedrático de química orgânica da
Faculdade de Medicina daquela capital,33 anunciou pelos jornais a descoberta de um micróbio que julgava ser o causador da febre amarela. Nos “humores” dos doentes havia encontrado grânulos e vibriões que, ao se desenvolverem, tomavam a forma de corpúsculos negros. Seus detritos e os esporos que liberavam, em número incalculável, dariam ao vômito dos amarelentos sua característica cor negra (Gazeta de Noticias, 29 e 30.2.1880).
No primeiro semestre de 1883, Freire desenvolveu uma vacina contra a doença, atenuando por meio de técnicas recém-concebidas por Louis Pasteur a alga microscópica que denominou Cryptococcus xanthogenicus. Excetuando-se a anti-variólica, não havia outro profilático dessa natureza para doenças humanas. As realizações de Pasteur, nessa área, restringiam-se ainda às vacinas contra o cólera das galinhas (1880) e o antraz ou carbúnculo hemático (1881). Seu ingresso nas patologias humanas, com a vacina anti-rábica, envolveria complexas injunções sócio-técnicas somente superadas em 1886, como mostram, entre outros, Geison (1995), Debré (1995) e Salomon-Bayet (1986).
Charge de Angelo Agostini sobre o Dr. Domingos Freire, médico que
produziu uma vacina contra a febre amarela (Revista Illustrada,
1889, ano 14, n.533, p.8. Arquivo Geral da Cidade do Rio de
Janeiro).
Uma crise envolvendo a anti-variólica na Bahia catapultou Freire à presidência da Junta Central de Higiene Pública, em fins de 1883, tornando, assim, mais fácil a difusão pelos cortiços do Rio de
Janeiro de sua vacina contra a febre amarela.34 A surpreendente receptividade que teve primeiro entre os imigrantes, depois entre os nativos deveu-se ao medo que a doença inspirava e, também, ao apoio dos republicanos e abolicionistas aos quais Freire era ligado.
Na imprensa e na Academia Imperial de Medicina houve reações contraditórias, especialmente depois que a vacina recebeu o apoio tácito do imperador Pedro II e a entusiástica adesão de um “discípulo” de Pasteur, Claude Rebourgeon, veterinário francês contratado pelo governo brasileiro para iniciar, no Rio Grande do Sul, a produção da vacina animal contra a varíola. Rebourgeon apresentou a descoberta de Freire às academias de Medicina e das Ciências de Paris (Freire & Rebourgeon, 1884), onde obteve reações favoráveis de parte de personagens importantes da medicina francesa, como o patologista Alfred Vulpian e o veterinário Henry Bouley.
Diga-se de passagem que tinham sido mal-sucedidas tanto as tentativas feitas por Pasteur, em 1881, para identificar o micróbio da febre amarela, como as do imperador Pedro II, de trazê-lo ao Brasil
para decifrar a doença (Vallery-Radot, 1951).35
Entre 1883 e 1894, pelo menos 12.329 imigrantes e nativos da capital e de outras cidades brasileiras foram inoculados com a vacina de Freire, que alcançou Porto Rico, Jamaica, as Guianas e outras colônias da França (Benchimol, 1999, p.119-68). A propagação daquele ‘invento’ deveu-se, em parte, à trama cada vez mais densa de relações que enredavam o bacteriologista brasileiro a interesses coloniais e comerciais, a outros caçadores de micróbios, a associações médicas e científicas e a autores de tratados que sistematizavam resultados alcançados pela microbiologia.
Durante sua estada na Europa, entre dezembro 1886 e julho 1887, Freire submeteu duas comunicações à Academia de Ciências de Paris, em co-autoria com Rebourgeon e um pesquisador do Museu de História Natural daquela cidade chamado Paul Gibier (Freire, Gibier & Rebourgeon, 1887a e b). Este e outros fatos ocorridos na capital francesa repercutiram com força na capital brasileira e, ao regressar a ela, Domingos Freire foi recebido como herói da “ciência nacional” por estudantes e professores das escolas técnicas e superiores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, por jornalistas de diversos periódicos, militantes dos clubes republicanos e sociedades abolicionistas. Semanas depois, viajava para Washington, para participar do IX Congresso Médico Internacional, que aprovou resolução recomendando sua vacina à atenção de
todos os países afetados pela febre amarela. 36
A dilatação social e geográfica da vacina pode ser medida pela quantidade e qualidade dos nomes que abonavam os dados estatísticos apresentados por Freire, ou que relatavam sintomas pós-vacinais, avalizando a ação imunizante de seu líquido profilático; e, ainda, pelo número de médicos e autoridades envolvidos em sua disseminação.
Em 1883-1884, um punhado de moradores de Vassouras se
vacinou.37 Em 6 de fevereiro de 1889, quando a Câmara Municipal dessa cidade se reuniu para deliberar sobre os meios de evitar a importação da doença, que já a flagelara por duas vezes, foi unânime a decisão de recorrer à vacina. Os termos da carta enviada a Freire mostram a que ponto chegara sua fama. Rogavam-lhe que facilitasse à população atemorizada o acesso “(a)os meios individuas de profilaxia, mais seguros sem dúvida que os meios gerais, e cuja descoberta e vulgarização são devidas a … vosso vasto talento, que soube conquistar não só as bendições da pátria reconhecida … mas também um lugar proeminente entre os
benfeitores da humanidade”. 38
Joaquim Caminhoá (filho), auxiliar de Freire, vacinou lá 199 pessoas.
Os apelos enviados pelas Câmaras de Pomba, Macaé e Niterói não foram diferentes. A primeira pediu a remessa do líquido vacínico em junho, depois que o flagelo se abateu sobre a vizinha Cataguases (MG), onde as vacinações foram feitas pelo dr. Araújo Lima. Em Macaé, quem executou o serviço foi o médico da Câmara e delegado da Junta de Higiene, dr. Carneiro Mattoso. Em Niterói, foram praticadas 163 vacinações, boa parte pelo próprio Freire, no prédio da Câmara, em presença de seu presidente, Prosper David, do médico Victor David e dos vereadores. As ruas ficaram a cargo do inspetor de higiene da província do Rio de Janeiro, dr. Henrique Baptista. Encerrada a campanha, a Câmara ofereceu ao cientista um de seus salões para que prosseguisse a “obra humanitária” durante todo o ano de 1889. Em Juiz de Fora e Serraria (MG), quem vacinou foi um clínico local, dr. Avelar Andrade: trinta e cinqüenta pessoas, respectivamente. As 54 inoculações feitas em Resende (RJ), todas em nacionais, deveram-se, também, à iniciativa de dois médicos locais, os drs. Gustavo Gomes Jardim e Carlos Augusto de Oliveira e Silva. Em Desengano (ES), a epidemia foi combatida pelo dr. Henrique Baptista, com o auxílio dos drs. Rodrigues Guião, delegado de higiene, e Edmundo Lacerda, clínico do lugar. Dos 425 habitantes, 102 receberam o suposto ‘vírus atenuado’ da febre amarela (24%).
Angelo Agostini denuncia, com humor, um dos flagelos da cidade, a
falta d’água, que assumia proporções críticas no verão, quando a febre amarela aparecia. Esta assiste à discussão entre o presidente
da Junta de Higiene (Freire) e a comissão de saúde sobre as
vantagens da “vacinação micróbica”. Agostini ridiculariza as
precauções tomadas pelos vizinhos do Prata contra o contágio oriundo do Brasil. Os passageiros são esguichados com ácido
fênico e água de Labarraque e postos a secar por cima de plantas
aromáticas e desinfetantes. Galés e condenados à morte abrem as
cartas vindas do Brasil e as exibem de longe aos destinatários.
Quando o vento sopra do Norte, a direção do Brasil, os sinos dão o
alarme para que os habitantes se protejam. Pulando fogueiras, por
exemplo, para se purificarem dos miasmas (Revista Illustrada, 1889,
ano 8, n.362, p.4-5. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro).
Este chegou a Santos. No prédio da Câmara, 133 pessoas foram inoculadas em fevereiro de 1889 pelo dr. Barata Ribeiro, professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, sob as vistas dos
notáveis da cidade.39
Em 9 de março, o já mencionado José Paulino Nogueira, presidente da Câmara Municipal de Campinas, pediu ao Inspetor de Higiene Pública da Província de São Paulo a remessa, com a “máxima urgência de quantidade de fluido vacínico contra a febre amarela, que é solicitado por alguns munícipes” (Santos Filho & Novaes, 1996, p.46).
Campinas foi a cidade onde se praticou o maior número de inoculações: 651. Isso se deve à gravidade da crise sanitária, à falta de recursos terapêuticos eficientes para socorrer suas vítimas e, ainda, certamente, à acolhida que Freire teve entre os republicanos e liberais da cidade. Ele esteve lá junto com Clemente Ferreira e Azevedo Correa, os médicos da comissão enviada pela Imprensa Fluminense. Consta terem sido homenageados com um banquete republicano em junho de 1889. No auge da epidemia, as vacinações foram feitas por Soares da Câmara, o farmacêutico comissionado pelo governo central, e principalmente pelo dr. Angelo Simões (1860-1907), diretor clínico da Santa Casa de Misericórdia, médico, também, do hospital da Beneficência Portuguesa e, na opinião de Santos Filho & Novaes (1996, p.81-2), “figura exponencial” da medicina em Campinas na década de 1880. Simões formaria entre os mais fiéis seguidores de Domingos Freire. Seus dados em favor da vacina eram avalizados pelo presidente da Câmara, o delegado de polícia, um padre, o cônego, o diretor do Correio de Campinas e
os redatores da 40 Gazeta de Campinas e do Diário de Campinas.
De dezembro de 1888 a junho de 1889, período em que a febre amarela se propagou por todas aquelas localidades interioranas, muitas atingidas pela primeira vez, foram vacinados, ao todo, 3.576 indivíduos, dos quais 988 eram estrangeiros e 2.537, brasileiros (70,94%). A mortalidade média entre os vacinados foi de 0,79%, caindo a zero em Santos, Resende, Serraria e Cataguases. “Em presença desses sucessos evidentes … quem ousaria duvidar da eficácia de nosso meio profilático e da verdade das fecundas doutrinas fundadas por nosso eminente mestre Pasteur?,” indagava Domingos Freire (1896, p.22, 25).
Á
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DAS INOCULAÇÕES
REALIZADAS POR FREIRE
Fonte: Freire (1896).
À medida que as camadas médias urbanas aderiam a seu invento, mais vulnerável se tornava à crítica dos adversários, já que se ampliava a defa-sagem estatística entre a população vacinada – nativos, negros e imigrantes considerados “aclimatados,” portanto imunes à febre amarela – e a população dos suscetíveis a ela, constituída principalmente por imigrantes recém-chegados. As mudanças na composição social dos vacinados estão relacionadas a mudanças na forma pela qual a vacina se difundia. Numa época de crescente ceticismo em relação tanto aos remédios para a febre amarela como à viabilidade do saneamento da capital brasileira, aquele produto biológico se tornava componente muito bem-vindo na relação dos clínicos com seus pacientes, e dos estabelecimentos filantrópicos com seus protegidos.
Não há como saber a posição adotada por Adolpho Lutz perante a vacina de Freire. É certo que testemunhou seu uso em Campinas, e tudo indica que começou a analisar a questão, com sua característica minúcia e rigor, num artigo não assinado, mas cuja autoria lhe foi atribuída pelos organizadores de seu arquivo, os filhos Bertha e Gualter Adolpho Lutz. “Sobre a questão da eficácia da vacinação contra a febre amarela” parece ser o primeiro artigo de uma série, mas não conseguimos localizar edições subseqüentes do periódico em que foi publicado para sabermos se Lutz prosseguiu a análise iniciada, ainda em São Paulo, em 11 de maio de 1889.
O artigo saiu em Freie Presse. Zeitung für Deutsche in Brasilien [Imprensa Livre. Jornal para alemães no Brasil], periódico fundado naquele ano mesmo, com três edições por semana. Tinha representantes não apenas em Campinas – Guilherme Trippe, residente e/ou com negócio na Rua Lusitana n° 99 – mas também em nove outras cidades paulistas – Araras, Botucatu, Piracicaba, Pirassununga, Ribeirão Preto, Rio Claro, Santos, São Carlos do Pinhal e Sorocaba – e ainda em Curitiba, Joinville e Leipzig, a
cidade das grandes casas editoras da Alemanha.41
Em 1889, Domingos Freire e seus aliados empenharam-se por obter o respaldo do Estado à generalização da vacina. A resolução aprovada em Washington foi, por diversas vezes, invocada para
legitimar o teste final em toda a população.42 As vacinações foram, em larga medida, impulsionadas pelos movimentos abolicionista e republicano, seus grupos organizados e sua ampla rede de simpatizantes. O apoio da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro refletia a apropriação da vacina não ainda pela higiene oficial mas principalmente pela prática molecular da clínica médica.
A proclamação da República, em novembro daquele ano, aconteceu no momento em que se iniciava outra epidemia de febre amarela, e enquanto o novo governo negociava a federalização dos serviços de saúde, a vacina transformou-se em instituição governamental – o
Instituto Bacteriológico Dr. Domingos Freire. 43
No entanto, o microrganismo que essa vacina atenuava não era o único incriminado como agente da febre amarela. Na verdade, a passagem da Monarquia à República coincide com uma transição entre dois ciclos de teorias concernentes à etiologia da doença, transição que não se restringe ao Brasil e que nada tem a ver com os processos que conduziam à mudança de regime político em nosso país. Apesar disso, os institutos bacteriológicos que se corporificaram no Rio de Janeiro e em São Paulo, nos primeiros anos do novo regime, adotariam posições antagônicas a esse respeito.
O mexicano Manoel Carmona y Valle era um dos concorrentes do bacteriologista brasileiro, e chegou a desenvolver uma vacina, de largo uso em seu país, com o cogumelo que encontrou na urina dos
doentes. 44 Carlos Juan Finlay propôs outro fungo, o Micrococcus tetragenus, como alternativa à alga de Freire, à época em que usava, em Cuba, mosquitos previamente infectados em amarelentos
como imunizantes vivos contra a doença.45
No Brasil, o principal competidor de Freire era João Batista de Lacerda, por longo tempo (1895-1915) diretor do Museu Nacional do
Rio de Janeiro. 46 Em 1883, quando aquele ultimava a preparação da vacina, Lacerda incriminou como o verdadeiro agente da febre amarela o Fungus febris flavae. Esse microrganismo e outros similares descritos na época tinham uma característica em comum: o polimorfismo, isto é, a capacidade de mudar de forma e função por influência do meio, sobretudo dos fatores climáticos. Zoólogos, botânicos e bacteriologistas tinham opiniões conflitantes a esse
respeito. 47 Pasteur e Koch consideravam o polimorfismo incompatível com procedimentos experimentais rigorosos e com a noção de especificidade etiológica – um microrganismo singular como agente de cada doença —, mas diversos investigadores reconheciam aquela propriedade nos fungos, algas e bactérias que estudavam. A questão tinha a ver com a classificação ainda muito problemática dos ‘infinitamente pequenos’. O termo genérico “micróbio” acabara de ser cunhado com o propósito, justamente, de contornar as confusas categorias taxonômicas usadas nos textos científicos da época, que prejudicavam a discussão da teoria dos germes entre os não especialistas, inclusive os clínicos e higienistas (Benchimol, 1999, p.191-200).
O polimorfismo foi o cimento utilizado por Lacerda para compor sua mais abrangente teoria sobre “O micróbio patogênico da febre amarela,” apresentada à Academia Nacional de Medicina e ao Congresso Médico Panamericano em 1892-1893: todas as descrições produzidas até então dariam conta apenas de diferentes fases ou formas de um fungo extremamente proteiforme.
A vazante do ciclo de descobertas desses microvegetais começou com a conversão de vários caçadores de micróbios à hipótese formulada, ao que parece, por Robert Koch, de que a febre amarela era causada por bacilo similar ao do cólera, por ele descoberto no Egito e na Índia em 1883, uma vez que o principal sintoma da primeira doença, o chamado ‘vômito negro’, também se localizava no intestino.
João Batista de Lacerda no Laboratório de Fisiologia do Museu
Nacional, em 1902 (Acervo Iconográfico do Museu Nacional).
À mesma época em que Lacerda defendia aquele fungo que mudava de forma o tempo todo, George Sternberg, presidente da American Public Health Association e Cirurgião General dos Estados Unidos, produzia demolidor inquérito sobre as teorias e vacinas em voga no continente (United States Marine Hospital Service, 1890). Ao mesmo tempo, buscava evidências em favor de um microrganismo parecido com o Vibrio comma. A tábula rasa criada por ele no campo então atulhado de fungos e algas abriu caminho aos bacilos, que competiriam pela condição de agente
causal da febre amarela na década de 1890.48
O Instituto Pasteur, que mantivera prudente reserva, corroborou o inquérito norte-americano (Annales de llnstitut Pasteur, n.4, 25.4.1890, p.253), e ele foi aceito por grande parte da comunidade científica internacional como prova de que os sul-americanos haviam fracassado em suas tentativas de isolar o micróbio e produzir uma vacina eficaz. Outras fontes mostram, porém, que Sternberg conduziu de forma tão inábil sua investigação no Rio de Janeiro que ajudou a robustecer o prestígio de Domingos Freire junto aos nacionalistas, positivistas e republicanos do país.
Um dos ‘caçadores de micróbios’ que buscava comprovar a hipótese de Koch era Felix Le Dantec. Médico da marinha francesa, estivera em Caiena, em 1887, durante uma epidemia de vomito. A cultura desse líquido orgânico lhe fornecera três variedades de bacilos, e ele os reencontrara na mucosa estomacal e no intestino grosso. Indagara então: “A febre amarela é uma doença microbiana de localização estomacal? Os micróbios do estômago são apenas produtos secundários?”. Consciente de que não cumprira as regras postuladas por Koch para provar a relação causal entre o agente microbiano e a doença, limitava-se a reiterar “o papel considerável, desempenhado pelo tubo digestivo na evolução da febre amarela,” assegurando que daí já se podiam extrair “indicações preciosas para a terapêutica” (apud Bérenger-Féraud, 1890, p.733).
Em 15 de dezembro de 1892, Le Dantec tomou posse como diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, uma das repartições do Serviço Sanitário instituído naquele estado seis meses antes. As autoridades paulistas tinham obtido do próprio Pasteur a indicação de seu nome, por intermédio do cientista francês Henrique Gorceix, diretor da Escola de Minas de Ouro Preto. Le Dantec prometeu implementar um programa ambicioso para inaugurar a bacteriologia em São Paulo, contudo, menos de um ano depois (5.4.1893), retornou à Europa “sem mais outro serviço” – observaria acidamente o secretário do Interior, Cesário Mota Junior – “que o de fazer algumas preparações sobre o assunto da febre amarela, preparações que levou consigo ao retirar-se, sendo, ao que parece,
este seu único intuito ao vir ao Brasil” (Lemos, p.16-9). 49
Quando Le Dantec regressou à França, Adolpho Lutz, nomeado subdiretor em 18 de março de 1893, assumiu o comando da pequena equipe formada por três ajudantes e dois serventes, com a ajuda dos quais daria cabo de pesadas incumbências:
Felix Alexander Le Dantec, em desenho de Alicia Büller Souto
(Museu Emílio Ribas).
o estudo da microscopia e bacteriologia em geral e,
especialmente, com relação à etiologia das epidemias,
endemias e epizootias mais freqüentes no estado; o preparo e
acondicionamento dos produtos necessários à vacinação
preventiva e aplicações terapêuticas que se tornarem indicadas;
os exames microscópicos necessários à elucidação do
diagnóstico clínico. (Lemos, 1954, p.16)
Efetivado no cargo somente em 18 de setembro de 1895, Lutz exerceu-o por 15 anos, até transferir-se para o Instituto Oswaldo Cruz, em novembro de 1908. Nesse período, realizou com seus auxiliares investigações de grande relevância sobre as doenças infecciosas que grassavam endêmica ou epidemicamente no estado, e enfrentou duras controvérsias com parcela majoritária do campo médico e outros atores sociais.
Instituto Bacteriológico de São Paulo, início do século XX (Coleção
Secretaria da Agricultura Comércio e Obras Públicas do Estado de
São Paulo, Centro de Memória, Unicamp).
A febre amarela foi um dos seus objetos de estudo, tendo se norteado, também, pela convicção de que havia “muita probabilidade” de se encontrar o organismo causador no tubo digestivo.
Num primeiro momento, Lutz seguiu as pegadas de seu antecessor. As investigações histológicas e bacteriológicas realizadas em 1893 com materiais colhidos nas autópsias de cinco indivíduos falecidos de febre amarela levaram-no, por várias vezes, a “um bacilo do tubo gastrintestinal, que parece ser o anteriormente isolado por Le Dantec do vômito preto neste mesmo laboratório”. Lutz e seus ajudantes encontraram espécies muito parecidas no estômago e no intestino de pessoas falecidas, cultivaram esses organismos e fizeram demoradas análises com o objetivo de diferenciá-los. Escreveu então o diretor do Bacteriológico:
podemos dizer que até agora o bacilo de Le Dantec não foi
encontrado senão em casos de febre amarela. Mas só outra
epidemia dessa moléstia poderá nos fornecer material
suficiente para o esclarecimento desta importante questão, de
um modo definitivo.50
No começo de 1894,51 o Hospital de Isolamento da capital paulista recebeu diversos casos, em sua maioria provenientes do Rio de Janeiro, de Santos e de Porto Ferreira. Foram autopsiados oito indivíduos falecidos em São Paulo, um em Belém do Descalvado, outro em Santos.
O exame dos cortes de vísceras desses cadáveres, assim como do vômito e das fezes de doentes, deram resultados quase sempre negativos. Lutz julgou sem importância as bactérias encontradas, supondo que houves sem invadido os tecidos depois da morte. Numerosas culturas foram feitas a partir do sangue das vísceras e do conteúdo do estômago e intestino, mas não apresentaram germe que pudesse ser considerado novo para a ciência. Lutz chegou à conclusão de que o bacilo de Le Dantec, sempre ausente, era “introduzido com certos alimentos (leite?) ou medicamentos”. Várias vezes foram isoladas colônias semelhantes às do Bacterium coli commune.
Hospital de Isolamento de São Paulo. Pavilhão de Observação,
fachada lateral (Algumas instalações do Serviço Sanitário de São
Paulo. São Paulo: Vanorden, 1905. Acervo Museu Emílio Ribas).
Por falta de doentes em São Paulo, os estudos só puderam prosseguir em fevereiro de 1895, no Hospital de Isolamento de Santos, onde Arthur Vieira de Mendonça permaneceu dez dias, e o
próprio Lutz, cinco dias.52 Aí puderam observar pessoas no começo da doença, e cultivar materiais extraídos dos órgãos das que viriam a falecer em conseqüência dela.
Ainda dessa vez, não encontraram nenhum parasita “constantemente presente,” nem pelo exame microscópico direto nem depois de empregar, nos preparados e cortes histológicos, os processos conhecidos de coloração e alguns recém-descobertos “e pela primeira vez empregados no estudo da febre amarela”. Inoculado em vários meios de cultura, o sangue na maior parte das vezes conservou-se estéril por mais de quinze dias. “Raras vezes desenvolveram-se variedades de sarcinas brancas ou amarelas, que se podem considerar como contaminações acidentais”. As culturas feitas a partir do sangue de doentes que se achavam no último período da febre amarela deram, às vezes, microrganismos parecidos com Bacillus coli-communis, e com estreptococos e outras variedades de cocos “ainda não determinadas”.
Nos cortes da parede do estômago e do intestino, assim como na mucosa do duodeno e do íleo verificaram, com freqüência, “bacilos invadindo, em grande número, o epitélio mais ou menos necrosado e não raras vezes a submucosa” – principalmente o Bacillus mesentericus vulgatus, o subtilis e o albuminis. Chegaram à conclusão de que se tratava
de invasão post mortem por espécies banais, cujos esporos
resistentes estão sempre presentes no estômago e se
desenvolvem principalmente onde há um amolecimento péptico
da mucosa … Temos encontrado processos semelhantes em
caso de moléstias completamente diferentes da febre amarela.
No relatório que redigiu em fevereiro de 1895, Adolpho Lutz continuava a julgar provável a hipótese de que o agente da febre amarela residisse no tubo digestivo, como o do cólera, mas, até aquele momento, não conseguira isolar nenhum organismo diferente dos encontrados em outras doenças:
Foi à custa de muito trabalho ingrato que chegamos a obter
estes resultados, a maioria negativos perfeitamente de acordo
com aqueles obtidos por Sternberg. Julgamos que o problema
da febre amarela não só ainda espera a solução, mas também
consideramos esta como bastante difícil … Ou seu germe é tão
pouco característico que se confunde com os germes banais,
ou só pode ser encontrado em bastante abundância durante um
período muito limitado, ou, finalmente, falta-nos ainda o método
para reconhecê-lo e cultivá-lo.
Em 1897 arrefeceu a febre amarela no estado de São Paulo, tendo sido internados no Hospital de Isolamento somente 41 doentes, nos primeiros cinco meses do ano. Lutz e seus ajudantes autopsiaram sete dos 28 indivíduos que faleceram aí, procedentes de Rio Claro (3), Dois Córregos (2), Araraquara (1) e Leme (1). Outros cinco casos que terminaram pela cura forneceram materiais para exames bacteriológicos do conteúdo do estômago e do intestino, da bile, urina, de raspagem do baço, do sangue e outros líquidos orgânicos (Lutz, 1898). Os resultados foram frustrantes, como das outras vezes.
O bacilo de Sanarelli na ordem do dia
Na fachada do Instituto Bacteriológico Domingos Freire, no Rio de Janeiro, já tremulava uma bandeira tricolor em que o preto simbolizava o vômito, o amarelo, a icterícia e o vermelho, as hemorragias, reforçando a imagem de um baluarte erguido para a defesa de uma descoberta que tantos cobiçavam. A bandeira foi hasteada no momento em que a imprensa insuflava a expectativa da iminente revelação dos segredos da febre amarela por Giuseppe Sanarelli, bacteriologista de renome que o governo uruguaio contratara para fundar e dirigir o Instituto de Higiene Experimental, inaugurado em Montevidéu a 16 de março de 1896. Com 31 anos de idade, Sanarelli já trabalhara no laboratório de Camilo Golgi (18441926), na Universidade de Pavia, no de Max von Petenkoffer, em Munique, e no laboratório de Elie Metchnikoff, no Instituto Pasteur de Paris. Aí realizara estudos sobre a imunidade na febre tifóide e no cólera, que tornaram seu nome respeitado na comunidade científica internacional (O Brazil-Medico, n.24, jun. 1896, p.218).
Três meses após a inauguração do instituto de Montevidéu, o bacterio-logista italiano viajou para o Rio de Janeiro para obter as matérias orgânicas de que necessitava para estudar a febre amarela. Em janeiro de 1897, seu caldeirão fervia. Nos salões e cafés da capital brasileira, era assunto obrigatório de conversa a notícia de que concluíra suas investigações e mandara à Academia de Medicina de Roma um pli-cacheté – uma comunicação lacrada – para assegurar a prioridade da descoberta. No período decorrido entre essa iniciativa e o descerramento da descoberta, por mais de uma vez adiado, deu-se o ingresso na cena pública de vários outros postulantes ao título de descobridor da causa e/ou cura da febre amarela.
Vista geral de Montevidéu tomada da serra. Desenho de Taylor, a
partir de uma fotografia (Reclus, 1894, p.567).
Wolf Havelburg anunciou seus resultados parciais numa conferência proferida em 22 de abril de 1897 no Hospital dos Lázaros, que possuía, diga-se de passagem, um dos mais bem equipados laboratórios bacteriológicos do Rio de Janeiro. O bacilo que encontrara no estômago e no intestino dos doentes de febre amarela causava uma doença típica quando inoculado em coelhos e cobaias. Injetara sangue de convalescentes nesses animais, e eles resistiram à injeção subseqüente de cultura mortal, o que provava a
viabilidade da soroterapia.53 Assistida por representantes de todas as instituições médicas da capital, autoridades do governo, jornalistas e outros cavalheiros que ainda se esforçavam por acompanhar as novidades das ciências, já por demais complexas, a conferência de Havelburg (1897) “destampou” outras investigações sobre a febre amarela.
Eduardo Chapot Prévost (26.1.1897, Recortes/COC) quebrou o silêncio que vinha guardando por receio de divulgar estudos que julgava “insuficientemente corroborados para merecerem publicação, principalmente em assunto tão escabroso, tão controvertido, tão difícil”. Fizera suas pesquisas em colaboração com Francisco Fajardo,
ora passando dias inteiros no Hospital São Sebastião a fazer
autópsias ou exames químicos e microscópios do sangue, do
vômito, da urina, das fezes, a fazer culturas em placas e em
tubos dos líquidos, humores e fragmentos de órgãos, em
diversos meios … ora seguindo a marcha da moléstia junto ao
leito do doente … ora passando noites sucessivas até duas e
três horas da madrugada a estudar ao microscópio os
preparados feitos durante o dia.
Prévost e Fajardo verificaram também a presença constante de um bacilo, isolaram-no em culturas puras e inocularam-no em porquinhos-da-índia, cães e galinhas que morreram com lesões análogas às da febre amarela humana.
Outro que exibiu estudos incompletos, em março de 1897, foi Johannes Paulser, assistente do Instituto Bacteriológico de São Paulo. Ele procurou isolar todos os germes encontrados nos órgãos das vítimas da epidemia que grassou naquele estado, no verão de 1895-1896, com o objetivo de identificar os que apareciam com regularidade. Acabou incriminando uma espécie de bolor e duas espécies de levedura que floresceram em suas culturas, e que encontrou nos 25 cadáveres autopsiados com a ajuda de Arthur Vieira de Mendonça (Jornal do Com-mercio, 8.3.1897; O Brazil-Medico, mar. 1897, p.78-86). O bolor de Paulser forneceu a João Batista de Lacerda a oportunidade para recolocar em circulação o fungo polimorfo que apresentara em 1892-1893 à Academia Nacional de Medicina e ao Congresso Médico Pan-Americano (Jornal do Commercio, 10.3.1897). Adolpho Lutz exonerou o assistente dois meses antes de ele divulgar sua descoberta pela imprensa. “Com efeito,” lê-se em O Paiz (18.3.1897), “o trabalho do dr. Paulser tinha impressionado mal o grupo de médicos que nesta capital se entregam à bacteriologia, e é pois com júbilo que agora vemos dele afastada a responsabilidade do nome brilhante de Lutz.”
54
Esta nota, agora o sabemos, foi redigida por Fajardo, que, na mesma data, enviou ao “Amigo e Mestre” a página de O Paiz, “com o lugar da publicação marcado em azul”. E perguntava: “Queira
dizer-me si está conforme?”. 55 Nessa carta, o bacteriologista carioca comunicou a Lutz que recebera notícias de Sanarelli: “vai fazer sua comunicação em maio próximo; é decisivo em relação ao micróbio. Se eu tivesse tempo iria antes disso a Montevidéu”.
Dr. Eduardo Chapot Prevóst (1864-1907), médico brasileiro
celebrizado ao realizar a separação das xifópagas Maria e Rosalina
(Acervo COC, DAD, FOC [P], Chapot-Prévost, E-1).
Em janeiro de 1897, quando a imprensa do Rio de Janeiro começou a ventilar aquela questão, um jornalista externou “grande ansiedade” em conhecer os resultados a que já tivesse chegado o “sábio fluminense” (11.1.1897, Recortes/COC), mas este era o mais cauteloso investigador e, com certeza, o mais avesso à publicidade.
Um indicador da importância que a febre amarela adquirira no Instituto chefiado por ele são os dados relativos às autópsias: de 1893 a 1908, seus bacteriologistas abriram 121 cadáveres de amarelentos e 92 de vítimas da febre tifóide (o cólera morbus vinha em terceiro lugar, com 62). A defasagem aumenta quando se examina apenas o período de 1894 a 1897: realizaram 86 necropsias para a febre amarela e 67 para a tifóide. Em 1896, foram necropsiadas 43 vítimas da primeira doença e apenas 18 da
segunda.56
Em comunicação endereçada exclusivamente ao diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, Lutz faria, em meados de 1897, um balanço de seus estudos sobre a etiologia da febre amarela. Não encontrara germe algum que pudesse incriminar, nem nos órgãos de doentes falecidos de febre amarela bem caracterizada, nem no sangue tirado durante a vida:
Os poucos resultados positivos explicaram-se perfeitamente
pela possibilidade da invasão de germes de infecção
secundária ou pelo princípio de decomposição cadavérica … As
culturas, feitas independentemente pelo pessoal do nosso
laboratório em muitas autópsias de febre amarela, revelaram
formas correspondentes às espécies conhecidas como
produtoras de infecções secundárias em outras moléstias
(como, por exemplo, a febre tifóide), principalmente micróbios
parecidos ou idênticos ao bacilo coli commune e aos cocos
piogênicos. (Lutz, 1897)
Evitando a discussão sobre “certos trabalhos feitos com métodos defeituosos e sem os conhecimentos considerados indispensáveis,” Lutz se limitava a constatar que “os pretendidos resultados positivos, alegados nesses trabalhos, não foram verificados por outros investigadores”. Em artigo publicado na Revista Médica de São Paulo, externaria a opinião de que o bacilo descrito por Havelburg parecia ser apenas “uma das inúmeras variedades do Bacillus coli communis, que, como verificamos, freqüentemente é muito virulento para os animais, quando isolado de casos de febre amarela” (Lutz, 1898).
Num relatório escrito anteriormente,57 Lutz havia registrado que as lesões anatômicas observadas nas vísceras pelos proponentes das teorias etiológicas em circulação vinham sendo “muito exageradas por terem os autores examinado peças mal conservadas, ou retiradas de cadáver muito tempo depois da morte. Deste modo as alterações devidas à decomposição que na febre amarela sobrevém muito depressa, foram adicionadas às da moléstia”. Nos rins que se encontravam nessas condições Lutz via sempre “coágulos de albumina e cilindros no lume dos tubos renais, mas nas peças bem conservadas os epitélios acham-se todos colocados no seu lugar próprio, e os núcleos tingem-se com facilidade”. Isso também acontecia com o fígado: “as células contêm sempre grande número de grânulos de pigmento amarelo; estes, em certos processos de coloração conservam a cor de anilina empregada, mas só um observador pouco cauteloso pode confundi-los com microrganismos”. A observação clínica mostrava que as vísceras depressa reassumiam suas funções, passado o momento crítico da doença, o que parecia demonstrar que as lesões não eram muito profundas: “tudo indica que, antes, se trata dos efeitos de uma intoxicação por toxinas, do que uma localização do processo infeccioso no parênquima das vísceras”.
Esta linha de investigação anatomopatológica levou Adolpho Lutz a orientar o estudo feito por um de seus assistentes – o dr. José Martins Bonilha de Toledo – sobre a urina na febre amarela. Com especialização em química biológica na Bélgica, Toledo realizou detalhadas análises químicas e microscópicas da urina de treze indivíduos vitimados pela doença. Concluiu que a lesão renal era uma constante, diretamente proporcional à gravidade do caso, confirmando a suspeita de que se devia a uma toxina secretada pelo micróbio ainda desconhecido que causava a febre amarela. Em janeiro de 1897, Bonilha de Toledo publicou aquelas observações sobre as alterações renais, as variações dos cloruretos, fosfatos e da uréia nas micções dos amarelentos. Dava apenas pistas para o esclarecimento da questão etiológica, mas firmava pontos ainda
obscuros do diagnóstico e prognóstico da doença.58
Graças à sua circunspecção e prudência, e graças, também, à densidade relativa do laboratório que chefiava, superior à dos que funcionavam no Rio de Janeiro, Adolpho Lutz, o “sábio fluminense,” dono de credenciais tão sólidas quanto as de Giuseppe Sanarelli, o “sábio italiano,” destacou-se como principal “verificador” dos micróbios, soros e vacinas propugnados pelos bacteriologistas que competiam tão impetuosamente. Sobretudo um personagem que buscou a vitória pelas vias mais anômalas, indo mais longe que os demais na manipulação da imprensa, na busca de vantagens econômicas e na mobilização de aliados surpreendentemente fortes durante o tempo em que permaneceu em evidência.
Em 11 de novembro de 1896, o médico gaúcho Felipe Pereira Caldas subiu à tribuna da Academia Nacional de Medicina para falar do soro que desenvolvera contra a varíola (O Brazil-Medico, nov. 1896). Nos jornais que circularam naquele dia fervilhavam notícias (desmentidas) de que Sanarelli acabara de desvendar o segredo da febre amarela. Dias antes, imitando o gesto do italiano, Caldas entregara à Academia comunicação lacrada para assegurar a prioridade sobre a descoberta do soro contra a febre amarela. Em janeiro de 1897, quando Havelburg fez aflorar a competição pela descoberta do micróbio amarílico, Carlos Seidl testou as primeiras doses do soro Caldas no hospital que dirigia, o São Sebastião, no Caju. O lobby gaúcho, liderado pelo dr. Severo Macedo, conclamou o vice-presidente da República, o médico baiano Manuel Victorino Pereira, a patrocinar nova viagem de Caldas ao Rio de Janeiro, pois julgava essencial que a prioridade da descoberta fosse de um cientista brasileiro.
Felipe Caldas e seu profilático alcançaram o auge da fama em meados de 1897, precisamente quando Giuseppe Sanarelli anunciava, em Montevidéu, a descoberta do bacilo icteróide e o prosseguimento de seus trabalhos com vistas à obtenção de um soro curativo. Em mensagem lida em 26 de junho, Prudente de Morais informou ao Congresso Nacional que a Academia de Medicina, por unanimidade de votos, solicitara ao governo o ensaio em larga escala do soro Caldas na capital da República e em outras localidades durante a próxima epidemia de febre amarela (Diário Oficial, 1.7.1897; O Brazil-Medico, 1.5.1898, p.145). A mensagem era acompanhada de declaração de Nuno de Andrade, diretor de Saúde Pública, segundo a qual
o soro antiamarílico do dr. Caldas não é uma fantasia de
descobridor visionário, mas um remédio capaz de ter franca
entrada na terapêutica da febre amarela, e cujo proveito integral
só será definitivamente medido após a verificação de sua
utilidade em considerável número de casos.
Em agosto de 1897, foi objeto de um parecer arrasador firmado por Adolpho Lutz, Arthur Mendonça e Bonilha de Toledo. Efetuada exclusivamente em laboratório, a verificação oferecia contraste gritante com os resultados do estudo clínico dos médicos cariocas. Lutz pôs entre aspas as declarações de Caldas para destacar os aspectos questionáveis de seu método e de seu produto: a dupla ação atribuída a ele (preventiva e curativa); a possível contaminação dos materiais colhidos no Rio de Janeiro e transportados até Rio Grande; a indeterminação do micróbio correlacionado à febre amarela.
Perguntado se não empregava um dos métodos conhecidos
para isolar o germe, respondeu negativamente, pois que “só
dispunha do soro líquido, no qual, segundo sua opinião,
nasciam unicamente germes que julga ser os da febre
amarela”. Perguntado se os animais inoculados apresentavam
os sintomas da febre amarela, respondeu que não (Lutz &
Toledo, 1897).
Embora não aniquilasse a invenção gaúcha, que ocuparia intermitentemente as manchetes dos jornais até 1902, o parecer da equipe de Adolpho Lutz desobstruiu o caminho para a mais entusiástica aceitação da descoberta do bacilo icteróide, anunciada por Giuseppe Sanarelli em 10 de junho de 1897, no Teatro Solis, em Montevidéu.
Adolpho Lutz e Arthur Vieira de Mendonça viajaram para aquela capital em junho como delegados do governo paulista. Logo chegaram João Batista de Lacerda, representante do governo brasileiro, com Francisco Fajardo, Chapot Prévost e Virgílio Ottoni, delegados da Sociedade de Medicina e Cirurgia (Rio de Janeiro) e
do Grêmio dos Internos dos Hospitais.59
Um parêntese. Na volta dessa viagem, Lutz passaria por Buenos Aires para conhecer o patologista Robert Johann Wernicke (1854-1922) e seu discípulo Alejandro Posadas (1870-1902). Examinaria de perto as preparações microscópicas e os casos clínicos que tinham dado origem à comunicação publicada pelo primeiro no Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde (v.12, p.859-61, 1892) com o título “Ueber einen Protozoenbefund bei mycosis fungoides,” e por Posadas, no Circulo Médico Argentino (v.15, p.585-97, 1892): “Un nuevo caso de micosis fungoidea con psorospermia”. A visita de Lutz tinha relação com estudos que fazia em São Paulo, e que culminariam com a publicação, em 1908, do trabalho que seria reconhecido como sua principal contribuição à dermatologia brasileira: a descoberta no país, pela primeira vez, de uma doença que se caracterizava por graves lesões na boca, hoje
conhecida, entre outros nomes, por doença ou micose de Lutz. 60
Em Montevidéu, assistiu à conferência feita por Sanarelli para “um público misto de profissionais e leigos,” que incluía o presidente da República, a alta administração e a alta sociedade do Uruguai e
delegações médicas de vários países americanos. 61 Fez diversas visitas ao laboratório do bacteriologista italiano para colher informações técnicas suplementares sobre os fatos por ele anunciados. No relatório que apresentou em agosto de 1897 ao diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, Lutz (1897a) afirmou que não podiam ser negados “senão sobre a base de outras observações e, na falta destas, devem ser aceitos pela garantia de seu autor. A habilidade e competência deste são provadas pelos seus trabalhos anteriores, e tivemos ampla ocasião de verificá-las
pessoalmente”.62
Da esquerda para a direita, doutores José Sanarelli, José Scosería
e Juan Morelli (Acervo do Instituto de Higiene da Universidad de la
República, Faculdad de Medicina, Montevideo, Uruguay).
Sanarelli teria confirmado a freqüência das infecções secundárias constatada por Lutz. “Chega até a atribuir-lhe um papel mais importante na grande mortalidade desta moléstia, do que nos parece justificado pelas observações anatômicas e clínicas.”
O italiano isolara seu bacilo a partir do sangue extraído dos órgãos de amarelentos mortos, que a Lutz dera sempre resultados negativos. Este explicava a contradição pelas seguintes circunstâncias: era tão difícil de encontrar o germe que Sanarelli só conseguira isolá-lo na metade dos casos examinados, “proporção muito desfavorável quando comparada com a das outras moléstias microbianas” (O Brazil-Medico, 15.12.1898, p.416-7). Dotado de forma “banal,” não se diferenciava dos bacilos do tifo abdominal e do Bacillus coli communis. Em condições normais, sequer produzia colônias em placas de gelatina e, por isso, teriam sido mal sucedidos os trabalhos feitos até então com este meio de cultura, considerado o melhor para diferenciar as espécies microbianas. Além disso, a presença de outras bactérias impedia o desenvolvimento do bacilo incriminado por Sanarelli: “O próprio autor considera um caso muito feliz tê-lo encontrado em cultura quase pura no segundo dos casos observados por ele. Julga que, ainda hoje, o isolamento desse germe continua a ser difícil e, em certos casos, até impossível” (Lutz, 1897a).
Sendo tão pouco característico, não teria chamado sua atenção “se não fosse o estudo extenso, verdadeiramente colossal, feito por ele sobre a ação patogênica de todas as bactérias então isoladas” (O Brazil-Medico, 15.12.1898, p.416-7).
Em obediência às regras postuladas por Koch, Sanarelli verificara a ação patogênica do bacilo icteróide em várias espécies de mamíferos. Conseguira induzir
processos mórbidos típicos para cada espécie, mas diferentes
de uma para outra. Esses processos reproduzem … parte dos
fenômenos observados no homem acometido de febre amarela.
Assistimos a um certo número dessas experiências e vimos
peças anatômicas provenientes de outras; tivemos, assim,
ocasião de verificar, em vários pontos, a exatidão das
descrições de Sanarelli, e, como os outros fatos foram
presenciados por pessoas competentes, podem ser
considerados como estabelecidos. (Lutz, 1897a)
Na opinião de Lutz, a probabilidade de que aquele bacilo fosse o causador da febre amarela tornara-se uma certeza após cinco experiências feitas no próprio homem:
Não podemos falar de observação pessoal, mas os médicos
que tiveram ocasião de observá-las reconheceram os sintomas
típicos da febre amarela. As curvas de temperatura
provenientes desses casos certamente correspondem
completamente às da febre amarela espontânea. De mais, em
Montevidéu não se tem levantado uma só voz para contestar
essas experiências, que foram julgadas absolutamente
comprovantes e decisivas.
Em 22 de julho de 1897, os delegados do Rio de Janeiro subiram à tribuna da Academia Nacional de Medicina para relatar aquela descoberta a uma platéia “excepcionalmente” numerosa, formada por médicos, estudantes e espectadores de “diversas classes sociais” (O Brazil-Medico, ago. 1897, p.283-5). Lacerda falou do orgulho que sentiam os uruguaios pelo Instituto de Higiene, “sem igual na América do Sul,” e descreveu as investigações que culminaram no isolamento de um bacilo extremamente virulento e as experiências subseqüentes de inoculação numa ordem zoológica de crescente complexidade: roedores, ruminantes, símios, por último o homem. Relatou, por fim, as contraprovas que obtivera no laboratório da Diretoria Geral da Saúde Pública, com ajuda do dr. Emilio Gomes e a assistência de Chapot Prévost, Affonso Ramos, Zacharias Franco e Antonio Pimentel. Naquela mesma sessão da Academia e, dias depois, na Sociedade de Medicina e Cirurgia, Francisco Fajardo apresentou os resultados igualmente positivos das inoculações que efetuara com Miguel Couto no Laboratório
Militar de Bacteriologia.63
A semelhança do bacilo icteróide com bacilos banais, aliada à dificuldade de o isolar e cultivar inviabilizavam, por ora, um método seguro para o diagnóstico diferencial, muito importante para os clínicos e higienistas, sobretudo em conjunturas epidêmicas. Dos trabalhos de Sanarelli resultavam, porém, algumas diretrizes úteis para a saúde pública, que Adolpho Lutz resumiu da seguinte forma. Primeiramente, legitimavam as práticas correntes de destruição do bacilo por meios químicos e pelo calor. O bacilo era raro no sangue e nas secreções dos doentes, o que explicava o reduzido perigo do contágio direto e, mesmo, de transmissão indireta nas infecções leves e no primeiro período da doença, que formavam o grosso dos casos. Em compensação, um caso grave ou fatal, sobretudo no período hemorrágico, criava “verdadeira epidemia”. Reconhecido a tempo, e tomadas as medidas necessárias de isolamento e desinfecção, conseguir-se-ia evitar que as habitações dos doentes se tornassem focos epidêmicos. O germe que escapava com o sangue dificilmente chegava a uma dessecação completa, e assim podia permanecer vivo por longo tempo, em roupas, colchões e outros objetos, ou misturado ao pó e à terra, sobretudo nas frinchas de assoalhos mal conservados, esperando a ocasião favorável para se tornar infeccioso e invadir os humanos suscetíveis à doença. Lutz julgava que o bacilo icteróide podia ser transmitido através de excrementos e vômitos, e também pelo ar e a água.