Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Chovia muito, e o cientista voltou a se queixar de que no Rio “passa-se a metade do tempo em viagem ou esperando por outros”. Na visita anterior tentara encontra-se com Nuno de Andrade, diretor-geral de Saúde Pública, e com o cirurgião Pedro Affonso, diretor do Instituto Vacinogênico e do Instituto Soroterápico de Manguinhos. Desencontrara novamente deles, mas estivera com Simond, da missão francesa, “que me parece o mais instruído dos três” (os outros dois eram Marchoux e Salimbeni). “Eles se ocupam muito com a questão dos mosquitos à qual dão muita importância.”
No Instituto Bacteriológico, Lutz iniciara a reprodução controlada, desde a fase larvária, dos Stegomyia fasciata capturados no Rio de Janeiro, ali-mentando-os com substâncias que não fossem o sangue, de maneira a excluir qualquer infecção indesejada.
Em 28 de novembro foram enviados exemplares a Meyer, que se achava em São Simão, em meio a novo surto de febre amarela. Sua missão era infeccionar os mosquitos, fazendo que sugassem o sangue de doentes recém-chegados ao hospital de isolamento daquela cidade, situada a 730 quilômetros da capital paulista, por estrada de ferro. Em carta a Lutz, datada de 1° de dezembro, Meyer referia-se às condições clínicas dos doentes submetidos à operação, e às dificuldades envolvidas em fazer que os mosquitos picassem de maneira adequada e se mantivessem vivos até a viagem de retorno à capital. Recebidos no Instituto Bacteriológico em 2 de dezembro, foram mantidos à base de mel e tâmaras secas por mais 12 dias, prazo considerado mínimo para se tornarem infectantes. Foram acrescentados mais três para compensar a temperatura inferior àquela reinante em Havana, à época de Reed.
Nas experiências realizadas no Hospital de Isolamento da cidade de São Paulo foram usados mosquitos infeccionados em Alexandrina, Joaquim Farquinio e Nicola Rassoti (este qualificado como caso de “marcha longa e de caráter grave”), especificando-se sempre, nas atas de cada sessão, o dia em que se procedera a essa contaminação, o dia de adoecimento dos infectantes humanos, e as condições clínicas em que se achavam então, expressas por dois números: pulso e temperatura. Os pormenores das experiências foram registrados em atas assinadas por Ribas, Lutz, Carlos H. Meyer (ajudante do Instituto Bacteriológico), Candido Espinheira (diretor do Hospital de Isolamento), Victor Godinho (médico desse Hospital), e uma “comissão de clínicos” composta por Antonio Gomes Silva Rodrigues, Adriano Julio de Barros e Luiz Pereira Barreto.
Médicos, farmacêuticos e enfermeiras do Hospital de Isolamento,
nos fundos do Instituto Bacteriológico de São Paulo (Algumas
Instalações do Serviço Sanitário de São Paulo. São Paulo:
Vanorden, 1905. Acervo Museu Emílio Ribas).
Hospital de Isolamento, em São Paulo (atual Emílio Ribas). Pavilhão
de Observação (Algumas Instalações do Serviço Sanitário de São
Paulo. São Paulo: Vanorden, 1905. Acervo Museu Emílio Ribas).
Militante do movimento republicano, o médico Pereira Barreto presidira a Assembléia Constituinte estadual em 1891 e fora o primeiro presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Já fora ardoroso defensor da transmissão da febre amarela pela água. Telarolli Junior (1993, p.153-4) analisa as candentes controvérsias a esse respeito na imprensa paulista, em 1896, em larga medida simétricas àquelas que tinham lugar no Rio de Janeiro: “Tornou-se comum, por exemplo, que as famílias mais abastadas, quando em viagem ferroviária ao interior do estado, levassem um farnel de água mineral de Minas Gerais, para prevenir-se contra a febre amarela”.
Na condição, agora, de presidente do Senado do estado, lente honorário da Escola Politécnica de São Paulo, autor de trabalhos conhecidos sobre medicina, filosofia, política e religião, Luiz Pereira Barreto empenhava toda a sua autoridade em legitimar os resultados das experiências destinadas à transmissão pelo mosquito.
A primeira série de experiências, visando provar que eram os Stegomyia os transmissores da febre amarela, envolveu cinco sessões entre 15 de dezembro de 1902 e 20 de janeiro de 1903.
A preferência por voluntários já ‘aclimatados’ e por casos leves para a infecção dos mosquitos, assim como a dilatação do prazo para a maturação do germe no organismo destes, obedeciam ao propósito de se produzir infecções de pouca gravidade nas cobaias humanas. Não se tinha tratamento para a febre amarela, e a morte de qualquer uma seria desastrosa.
Às 11 horas da manhã de 15 de dezembro, na presença da comissão médica já referida, foram lidas declarações assinadas por Oscar Marques Moreira e Domingos Pereira Vaz – este um paranaense solteiro, de 22 anos de idade – segundo as quais se sujeitavam às experiências “sob a sua livre vontade e exclusiva responsabilidade”. Em seguida, foi lido e assinado por todos o documento que expunha as condições em que elas iam ser realizadas. Fizeram, então, que dois mosquitos picassem o braço de Ribas, e dois outros, o de Lutz, e só depois disso aquela operação foi executada em Moreira e Vaz. “Foi verificado por todos” – lê-se na ata daquela sessão -”que os mosquitos picaram bem em vista da quantidade de sangue que se observava no abdome deles e pelos sinais evidentes que deixaram sobre a pele no lugar das picadas.”
Os dois voluntários ficaram sob observação no Hospital de Isolamento, até a sessão seguinte. Sua anamnese levava a crer que não possuíam imunidade à febre amarela, mas Ribas e Lutz provavelmente já a tinham adquirido durante as epidemias que haviam combatido no passado.
A segunda sessão começou três dias depois (18 de dezembro), quase à mesma hora. Os médicos presentes verificaram que nenhum dos picados apresentara alteração de saúde. Ribas, Lutz e os dois voluntários fizeram-se picar novamente pelos Stegomyia. A ata daquela sessão torna a registrar o histórico de cada mosquito usado e as condições dos doentes em que se tinham infeccionado. À terceira sessão, em 22 de dezembro, as cobaias humanas mais uma vez compareceram “no gozo de saúde”. Iniciada ao meio dia, foi mais demorada porque os mosquitos pareciam menos dispostos a picar. Tiveram de fazer nova aplicação às 5 da tarde e, dessa vez, “picaram bem o que por todos foi verificado”. Em 12 de janeiro de 1903, na quarta sessão, as pessoas submetidas à experiência continuavam “no gozo de saúde, tendo sido portanto negativos os resultados das aplicações do Stegomyia nas 3 sessões anteriores”. Às 12h30, quatro mosquitos sugaram o sangue de Domingos Vaz. Outros, da mesma procedência, não quiseram fazer o mesmo com Oscar Moreira. Às 18h30, tentaram outra vez, sem resultado. Somente no dia seguinte, às 7 horas da manhã, Meyer conseguiu fazer que um mosquito infeccionado sugasse o sangue de Moreira. Meia hora depois, outro picou-o duas vezes, mas não chupou sangue. A operação foi repetida ao meio-dia, sem sucesso, não obstante o mosquito estivesse em jejum havia 53 horas. A ata foi lavrada nessas condições por todos os presentes, certamente exaustos. Resolveram fazer nova aplicação de estegomias infeccionados na manhã do dia 20 de janeiro de 1903. Nessa quinta sessão entraram em cena dois voluntários novos, Januário Fiori – italiano, residente no Brasil há 11 anos, solteiro, com 23 anos de idade – e André Ramos, “pardo, brasileiro, de 40 anos de idade, casado”. Foram expostos a mosquitos cujas larvas tinham vindo de Itu para São Paulo, sendo depois os mosquitos adultos infeccionados em São Simão. Todos picaram bem, como se verificou não só pelos sinais que deixaram no braço como pelo sangue contido no abdome.
Segundo Lemos (1954), três dos quatro voluntários contraíram a febre amarela, mas ela não se manifestou no quarto e nas duas cobaias extras, Lutz e Ribas.
Na verdade, os materiais reunidos no presente volume mostram algumas discrepâncias em relação a essa versão tão ‘concludente’ dos fatos. De acordo com um dos manuscritos anexados às atas das experiências, concernente a Domingos Pereira Vaz, vê-se que foi picado em 12 de janeiro (quarta sessão) por quatro mosquitos infeccionados em Benjamim Rosanini no dia 24 de dezembro. No dia 15 – portanto entre a quarta e a quinta sessão – foi “novamente picado por 3 dos mesmos mosquitos à h. da tarde”. No dia 15, às 16h45, começou a sentir mal-estar, manifestando: “inapetência, dor de cabeça, fotofobia, principalmente na região frontal, dores generalizadas pelo corpo, e forte raquialgias. Estes sintomas foram aumentando progressivamente à proporção que a temperatura se elevava”.
Esse caso é apresentado pelos três integrantes da comissão de
clínicos, em relatório a Emílio Ribas,131 mas sem nenhuma referência à operação com os mosquitos no dia 15. Aliás, consta aí que o “corajoso moço” começara a se sentir “ligeiramente incomodado” já na noite anterior, quando “vomitou 3 vezes até as 10 horas”. Embora qualificassem aquele caso como “típico da forma benigna da febre amarela,” admitiam ser passível de questionamento: “A ausência de albumina nas urinas poderá parecer a alguns espíritos mais exigentes um sério motivo de dúvida quanto à exatidão do diagnóstico”.
Outro caso benigno, igualmente questionável, era o de André Ramos. Picado no dia 20, começara a sentir quatro dias depois dores nas pernas e no estômago, raquialgia, ardor nos olhos, hiperemia intensa das conjuntivas e do tórax. Passara mal a noite de 25, com fortes dores na cabeça e no estômago e ansiedade precordial. Apesar desses sintomas, o exame da urina “nunca revelou a presença de albumina”.
O tom com que os médicos da comissão clínica relatam o terceiro caso revela, nas entrelinhas, os aspectos questionáveis que procuravam esconder nos outros dois: o de Januário Fiori “não admite hesitações de diagnóstico. Nada absolutamente faltou para ser completo o quadro mórbido da febre amarela”. Picado no mesmo dia que Ramos, começou a sentir-se indisposto no dia 23. “Às 7 horas da tarde ainda tomou chá, porém, sem apetite. Às 7h30 sentiu cefalalgia. Acusava então fortes calafrios, cefaléia super-orbitária e dores nas pernas. Às 9 horas já era bem visível a hiperemia das conjuntivas, da face e do tórax.”
A ironia da história é que a evidência experimental mais dramática se desenrolou às costas da comissão médica: os laudos relativos à urina dos doentes, como o que se vê anexo às atas, no presente volume, eram de autoria de Bonilha de Toledo, que faleceu em 24 de abril de 1903, de febre amarela, provavelmente infectado em seu laboratório (Lemos, 1954, p.74).
A segunda série de experiências – 11 sessões que se prolongaram de 20 de abril a 10 de maio de 1903 -, teve por objetivo demonstrar “o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes desta moléstia”. Envolveu três italianos que foram mantidos em reclusão no Pavilhão II do Hospital de Isolamento de São Paulo, num quarto protegido com tela de arame contra mosquitos, e repleto de roupas e objetos sujos com urina, vômito e fezes de amarelentos. Submeteram-se a esse suplício sem manifestar sinais da doença – o que, no caso, era o desejável.
O primeiro voluntário, Giuseppi Malagutti, filho de Antonio Malagutti, nascera na província de Emilia, tinha 31 anos, era mecânico, viúvo, chegara ao Brasil em 30 ou 31 de março de 1902. Morava na rua Américo Brasiliense n° 5. Angelo Paroletti provinha de Milão. Filho de João Paroletti, tinha 43 anos, era solteiro e trabalhava como pedreiro. Estava no país desde 15 ou 20 de junho de 1902, residindo na rua Líbero Badaró n° 117. Giovanni Siniscalchi, filho de Fu Pascholi, natural da Lombardia, era o terceiro voluntário. Casado, com 41 anos, era “professor técnico” e estava no país há mais tempo: chegara em 30 de agosto de 1901. À época das experiências, residia na rua Conselheiro Crispiniano n° 12. Os três tinham embarcado em Gênova como passageiros de 3a classe com destino ao porto de Santos.
Apenas Malagutti compareceu à primeira sessão, na noite de 20 de abril de 1903. Sob os olhares atentos dos médicos do Serviço Sanitário e da comissão de clínicos, foi introduzido num quarto, expurgado, na véspera, com enxofre para que morressem os mosquitos que porventura ainda houvesse lá. Uma estufa a gás mantinha-o mais aquecido que o ambiente externo, de modo que funcionasse como estufa propícia à atividade dos microrganismos que seriam os supostos responsáveis pelo contágio da doença. Nessa série, a temperatura foi monitorada com o mesmo zelo com que se tinham registrado as condições de infecção dos mosquitos usados na série anterior. Malagutti então retira de uma caixa dois sacos que contêm roupas usadas por doentes recém-falecidos de
febre amarela. 132 Com aquelas peças manchadas de sangue e vômitos, reveste o leito em que vai dormir e espalha o restante pelo chão. Durante a noite, um funcionário observa-o para ver se permanece deitado no leito poluído.
Da segunda e da terceira sessões (21 e 22 de abril), participam Giuseppi Malagutti e Angelo Paroletti. A quarta, no dia seguinte, conta já com a presença de Giovanni Siniscalchi. Além das roupas usadas nas noites anteriores, forraram os travesseiros com fronhas manchadas com vômitos de doentes de Taubaté. Paroletti vestiu um paletó contaminado. Na quinta sessão, em 24 de abril, os três italianos repetiram o ritual das noites anteriores, figurando entre as testemunhas mais um observador: Vital Brazil, diretor do Instituto Soroterápico do Butantan. O inspetor sanitário Theodoro Bayma foi um dos presentes à sexta sessão (25 de abril), ao lado dos médicos já referidos. Na noite de 26 de abril, a única variação foi a exigência de que os voluntários vestissem camisas de dormir novas, acrescentadas a seu estoque de roupas poluídas. Na oitava sessão, em 27 de abril, tiveram de sacudi-las bem antes de se deitarem. Em seguida, abriram três frascos: um continha urina de um doente de febre amarela de Casa Branca; e os outros dois, vômitos pretos e fezes sanguinolentas procedentes de Ribeirão Preto. Essas substâncias repugnantes foram despejadas sobre as peças de roupa. A nona sessão, em 28 de abril, não teve novidades. Na décima, os observadores daquela série de experiências atestaram que os três italianos continuavam em perfeitas condições de saúde e os dispensaram, considerando que transcorrera tempo suficiente para excluir a incubação e contágio pelos fomites da febre amarela.
Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950) em 1919 (Arquivo
Histórico do Instituto Butantan).
Os médicos encarregados de expor os resultados foram categóricos no relatório final:
As experiências dos norte-americanos em Havana e as nossas
… demonstram que só no organismo do mosquito encontra o
germe amarílico as condições necessárias para a sua
reprodução.
Ficou definitivamente demonstrado e fora de toda possibilidade
de contestação, que um pernilongo – Stegomyia fasciata – pode
conduzir a febre amarela a grande distância e transmiti-la do
indivíduo doente ao indivíduo são. A experiência feita aqui na
Capital de São Paulo remove para sempre todas as objeções.
Não temos aqui o concurso tumultuário das agências
climatológicas ou mesológicas, como as que se dão em muitas
localidades flageladas para embaraçar as conclusões. As belas
experiências dos médicos americanos em Havana … não
conseguiram fazer calar todas as controvérsias, só pelo fato de
ser aquela populosa cidade um lugar em que reinava a febre
endemicamente, havia mais de um século. Objetava-se que os
casos experimentais ali observados não constituíam uma prova
absoluta, porque os indivíduos podiam ter contraído a infecção
por um outro canal que não o dos mosquitos. Essa objeção em
São Paulo seria simplesmente um caso de improbidade
científica. (apud Lemos, 1954, p.73, 75-7)
Ainda sub judice, as conclusões da comissão Reed eram checadas por outras comissões em lugares onde a febre amarela criara raízes tão antigas quanto em Cuba. O Public Health and Marine Hospital Service, criado a 1° de julho de 1902, enviou a Vera Cruz, no México, os drs. Herman B. Parker, do laboratório de higiene daquela repartição, George E. Beyer, professor de higiene da Universidade de Tulane, em Luisiana, e Oliver L. Pothier, anatomopatologista do
Charity Hospital de Nova Orleans. 133 Adiante comentaremos as conclusões a que chegaram. Na série de artigos que publicou em meados de 1901 sobre o papel dos mosquitos na propagação de doenças, Hilário de Gouveia (O Brazil-Medico, 1.6.1901, p.208-10) referiu-se às pesquisas feitas no Pará pelos médicos de Liverpool: suas conclusões iniciais colidiam com as de Reed. De acordo com artigo publicado em The Lancet, no começo de 1901, os ingleses tinham descartado os protozoários como agentes da febre amarela, e só encontravam bacilos nos órgãos de amarelentos mortos. Além de não se coadunar com doenças bacterianas, a transmissão pelo mosquito parecia não se adequar a certas características “endemiológicas” observadas no Pará.
No Brasil esteve também uma missão alemã, organizada pelo Hospital dos Marinheiros (Seemannkrankenhauses) e o Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo (Intitutes für Schiffs-und Tropenkrakheiten), ambos de Hamburgo. Os negociantes dessa cidade tinham, há muito tempo, fortes ligações com o país, e aquela missão teve, assim, caráter quase privado. Durante quase cinco meses (10 de fevereiro a 4 de julho de 1904), os drs. Hans Erich Moritz Otto e Rudolf Otto Neumann visitaram algumas cidades brasileiras, especialmente o Rio de Janeiro.
Aí já se encontravam três pesquisadores do Instituto Pasteur de Paris: Émile Marchoux, Paul-Louis Simond e A. Tourelli Salimbeni. Sua vinda foi patrocinada pelo governo da França que, como o da Alemanha, tinha grande interesse em aplicar em suas colônias – especialmente o Senegal – a nova estratégia profilática, que permitia a abolição das ruinosas quarentenas impostas aos navios mercantes. Durante o tempo que permaneceram na capital brasileira, franceses e alemães puderam observar, de perto, os fatos biológicos e sociais produzidos na cidade que serviu como primeiro laboratório a céu aberto para o teste de uma campanha calcada na teoria culicidiana, sob condições que não eram as da ocupação militar, e sem saneamento prévio que turvasse os resultados (na realidade, a reforma urbana concomitante criou problemas à campanha levada a cabo por Oswaldo Cruz).
Hans Erich Moritz Otto (1869-1918) (Olpp, 1932, S.305).
Rudolf Otto Neumann (1868-1952) (Olpp, 1932, S.294).
Carta do general George M. Sternberg para Adolpho Lutz, em
7.6.1903, em que agradece separatas de artigos que o médico
brasileiro lhe enviara e elogia as experiências por ele conduzidas para confirmar os resultados obtidos pela comissão norte-americana
em Cuba (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 215, maço 1).
Missão Pasteur no Rio (1901-1905) 134
Depois de concluir os estudos de medicina em Paris, em 1887, com tese sobre as epidemias de febre tifóide nas forças da marinha baseadas no Oriente, Emile Marchoux (1862-1943) atuou como médico da marinha nas colônias francesas do Daomé e da Indochina (1888 a 1893) e, em seguida, dirigiu o laboratório de Saint-Louis, no Senegal (1895 a 1899).
Paul-Louis Simond (1858-1947) também ingressou na marinha, em 1882, depois de trabalhar como preparador de história natural na Faculdade de Medicina e Farmácia de Bordéus. Obteve o doutorado em medicina somente em 1887, com tese sobre a lepra. Como médico naval, realizou missões na Guiana, Indochina e China, onde, em 1893, travou seu primeiro contato com a peste. Ao retornar a Paris, foi admitido no Instituto Pasteur. Seus primeiros trabalhos em microbiologia versaram sobre o hematozoário do impaludismo e os coccídios em geral, tendo sido o primeiro a demonstrar a existência de um ciclo sexual nesses parasitas. Foi enviado à índia em 1897 para continuar a campanha de aplicação do soro antipestoso iniciada por Alexandre Yersin (1863-1943) no ano anterior. Fez, então, importante descoberta: a do papel da pulga do rato na transmissão daquela doença. Antes de vir para o Brasil, foi diretor do Instituto Pasteur de Saigon (1898-1900).
Paul-Louis Simond em traje militar, em Valence, France. Studio
‘Blain Frère’, 1905-1910 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur, D2089).
O terceiro integrante da missão médica francesa, Alexandre Salimbeni (1867-1942), era italiano e formara-se em medicina pela Universidade de Siena, da qual se tornou professor, especializando-se em anatomia patológica. Ingressou no Instituto Pasteur de Paris em novembro de 1895, trabalhando inicialmente no laboratório de Elie Metchnikoff (1845-1916) e, em seguida, como preparador de Emile Roux (1853-1933). Em 1898, publicou com eles seu primeiro trabalho sobre a toxina e a antitoxina colérica. Na mesma época, colaborou com Amédée Borrel (1867-1936) e Edouard Dujardin-Beaumetz (18681947) num estudo sobre o micróbio da peripneumonia publicado por Roux e Edmond Nocard (1850-1903). Em 1899, foi enviado a Portugal com Albert Calmette (1863-1933), para investigar a pandemia de peste que chegara ao Porto e que, naquele mesmo ano, alcançaria Santos, através de navio vindo daquela cidade com imigrantes. Salimbeni ajudou a aperfeiçoar a técnica de preparação do soro antipestoso, ao mesmo tempo em que eram criados no Brasil os institutos soroterápicos de
Manguinhos e do Butantã.135
Simond e Marchoux deixaram Bordéus em 4 de outubro de 1901, junto com o sargento enfermeiro Hébrard. Salimbeni partiu três semanas depois. Fizeram breve escala em Dakar, no Senegal, onde se informaram a respeito da epidemia de febre amarela que grassava naquela colônia; em 3 de novembro desembarcavam na capital brasileira. Nuno de Andrade, diretor-geral de Saúde Pública, e Carlos Seidl, diretor do Hospital São Sebastião, puseram à disposição deles um pavilhão nesse hospital para que instalassem aí seus laboratórios. Uma chalupa ficou à disposição para levá-los, diariamente, à Prainha (atual Praça Mauá). Lá atracava o vapor que fazia a ligação com o cais, no outro lado da baía, de onde partia o trem para Petrópolis. A conselho do dr. Brissay, médico da legação da França, Simond, Marchoux e Salimbeni fixaram residência naquela cidade serrana onde, desde o século anterior, se refugiavam as elites durante a “estação calmosa,” para escapar à febre amarela.
No salão da residência dos Simond, vêem-se, da esquerda para a
direita, Salimbeni, a sra. Simond, seu marido e, em pé, Marchoux.
Petrópolis, 1901-1905 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur, D803).
O início da missão foi estabelecido na lei votada em 12 de julho de 1901, mas não sua duração. Uma tuberculose pulmonar obrigou Salimbeni a regressar à França em 7 de março de 1903. Preocupações com o financiamento da missão durante aquele ano levariam o dr. Emile Roux, vice-diretor do Instituto Pasteur, a fixar a data do regresso de seus companheiros para julho, mas a resistência destes e o interesse das autoridades sanitárias brasileiras em que prolongassem sua estada resultaram num compromisso: deixariam o Brasil provisoriamente para regressar em dezembro de 1903. Simon ausentar-se-ia entre abril e dezembro de 1904 em virtude do estado de saúde da mulher. Só Marchoux permaneceu no Rio de Janeiro durante os 37 meses da missão, até a partida definitiva em 3 de maio de 1905.
Na residência dos Simond, em Petrópolis, vêem-se sentados, da esquerda para a direita, Salimbeni, Paretti de la Roca, sra. Simond e
Paul-Louis Simond, com duas pessoas não identificadas em pé;
1901-1905 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur, MP31354).
Residência dos Simond em Petrópolis, na Rua Monte Caseiros
(Acervo Musée de l'Institut Pasteur, D2097).
Em dezembro de 1901, um mês após a chegada dos pesquisadores franceses, os primeiros pacientes de febre amarela internados no São Sebastião começaram a ser usados para infectar mosquitos que seriam posteriormente utilizados em experiências de inoculação. Ao longo de 1902, foram hospitalizadas mais de oitocentas pessoas, a maioria no primeiro semestre. Em fevereiro e março, à época em que Adolpho Lutz fez sua primeira visita ao Rio de Janeiro, para capturar e infectar exemplares de Stegomyia fasciata, as internações, como dissemos, chegavam a cerca de dez por dia. Em carta a um amigo, o dr. Charrin (9 de setembro de 1902), Simond comentaria que, até julho, o hospital recebera, em média, mais de cinqüenta doentes por semana, a grande maioria estrangeiros chegados há menos de um ano à cidade:
É essa população flutuante, quase que exclusivamente, que dá
sustentação à epidemia. Não se deve avaliá-la em mais de 7 ou
8 mil pessoas … 10 mil no máximo. Se tiver em mente que os
casos internados no hospital não representam mais que o terço
do total de atingidos, dar-se-á conta da intensidade dela. Por
baixo, 150 doentes por semana durante seis meses … Isso
deveria ser o bastante, não acha, para desencorajar qualquer
estrangeiro de por os pés no Rio. (Tran, 1998, p.58)
Hospital São Sebastião, fachada do pavilhão central. Rio de Janeiro,
1901-1905 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur, PLS29).
Pavilhão da febre amarela (enfermaria 11) e, em primeiro plano,
enfermaria para mulheres variolosas no Hospital de São Sebastião,
Rio de Janeiro, 1901-1905 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur,
MP31336).
O programa de pesquisas que delinearam era mais abrangente do que o implementado em São Paulo: ia além da verificação dos resultados da comissão Reed e, como veremos, iria muito além dos limites éticos que Ribas e Lutz estabeleceram no trato com seus voluntários. Os principais itens eram o estudo microscópico do sangue dos doentes; a anatomopatologia e clínica da febre amarela; o estudo da biologia e parasitologia do Stegomyia fasciata, especialmente depois de infectar-se com o sangue de doentes; a pesquisa da ação desse sangue quando injetado em animais; as tentativas de cultivo do ‘vírus’ amarílico in vitro e in vivo, inclusive no homem, que serviria de cobaia para experimentos relacionados à transmissão, à soroterapia com fins curativos e à prevenção por meio de vacina.
O enfermeiro Hébrard cuida de um doente de febre amarela no
sexto dia da enfermidade, no Hospital de São Sebastião, 1901-1905
(Acervo Musée de l'Institut Pasteur, MP31342).
Marchoux, Salimbeni e Simond publicaram quatro memórias nos Annales de L'Institut Pasteur, no Brazil-Medico e na Revista Medica de S. Paulo. No Brasil foram publicados também estudos de Marchoux e Salimbeni sobre “O garrotilho” (O Brazil-Medico, 8.10.1903) e “A espirilose das galinhas” (O Brazil-Medico, 15.11.1903), e de Marchoux, “Febre amarela e malária em Veracruz e no México” (Imprensa Médica, 1906).
Otto e Neumann, da missão alemã, passaram pelo Brasil quando estava prestes a encerrar-se o programa de pesquisa dos franceses, no auge da campanha contra o Stegomyia fasciata levada a cabo por Oswaldo Cruz, paralelamente a outras ações sanitárias e à reforma urbana da cidade do Rio de Janeiro.
Hans Erich Moritz Otto (1869-1918) fora assistente no Hospital Geral Eppendorf, em Hamburgo, de 1895 a 1900, ingressando em seguida no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, inaugurado em 1° de outubro de 1900. Quando viajou para o Brasil, apresentava-se também como assistente clínico do Hospital dos Marinheiros, que começou a funcionar em 1° de janeiro de 1901.
Rudolf Otto Neumann, por sua vez, formara-se como farmacêutico em Erlangen, em 1894. Seu talento para o desenho e sua perseverança impressionaram o professor Karl B. Lehmann, que o contratara para trabalhar no atlas de bacteriologia que estava organizando – Atlas und Grundriss der Bakteriologie und Lehrbuch der speciellen bakteriologischen Diagnostik – uma obra de referência que teve sete edições e foi traduzida para quatro idiomas. Como vimos no volume anterior da Obra Completa de Adolpho Lutz, em 1896 Lehmann e Neumann incluiriam os bacilos da lepra e da tuberculose no gênero Mycobacterium. Neumann começara a estudar medicina tarde, formando-se em Würzburg somente em 1899. Depois fizera seu doutoramento em Kiel. Em sua biografia consta que trabalhou em vários institutos científicos importantes: Heidelberg, Paris (Institut Pasteur), Liverpool, Cairo (Escola de Medicina Kasr el Aini) e, em Hamburgo, no Instituto de Higiene e no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais. Investigaria não apenas a febre amarela, mas também esquistossomose, ancilostomíase e malária. Quando veio ao Brasil, era livre-docente da Universidade de Heidelberg e agregado ao Hospital e ao Instituto em que
trabalhava Otto. 136
As autoridades alemãs tiveram o cuidado de informar previamente Simond e Marchoux da vinda dos dois médicos, para evitar que ressurgisse, naquele distante porto, a luta sem tréguas que cientistas dos dois países travavam desde a guerra Franco-Prussiana, bem como as célebres animosidades entre Louis Pasteur e Robert Koch. Segundo Tran (1998), a colaboração entre as duas missões foi cordial, tendo sido publicado um comentário elogioso sobre o trabalho de Otto e Neumann no Bulletin de L'Institut Pasteur.
Eles visitaram primeiro Pernambuco, mas não encontraram febre amarela lá; depois do Rio, a meta principal da viagem, estiveram na capital paulista, e em duas cidades – Campinas e Santos – que consideravam mal afamadas por causa das epidemias de ‘tifo americano’. Antes de regressarem à Alemanha, aportaram ainda na Bahia, que nos últimos anos permanecera livre da doença. Publicaram versões preliminares de seus resultados em alguns periódicos alemães e, em 1906, extenso relatório com mais de 150 páginas, 55 mapas, croquis, fotos e plantas e sete tabelas em
impressão colorida. 137
No Rio de Janeiro, onde permaneceram quase três meses (entre 6 de março e o fim de maio), os estudos de Otto e Neumann foram realizados também no Hospital São Sebastião, e boa parte deles consistiu na verificação de resultados já adquiridos pelos investigadores do Instituto Pasteur. Os dois alemães tiveram muito medo de sofrer uma infecção, pois eram “altamente suscetíveis” à febre amarela e chegaram até a se ferir durante as autópsias. Usaram, é claro, mosquiteiro todas as noites.
Os doentes que examinaram estavam isolados em compartimentos revestidos de tela, as chamadas ‘Câmaras Marchoux’, com capacidade para dois leitos cada, levantadas no interior dos pavilhões mais antigos – os alemães, na verdade, falavam em “barracas,” porque esse era o conceito, oriundo das campanhas militares, que embasava os projetos hospitalares para isolamento de doenças consideradas contagiosas: unidades móveis, facilmente descartáveis quando contaminadas. O São Sebastião, inaugurado em 1889, às vésperas da deposição da monarquia, chegou a ter pavilhões de papel machê importados da Alemanha.
Interior de uma enfermaria de febre amarela provida de cabines
revestidas de tela metálica, no Hospital de São Sebastião, 1901-
1905 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur, MP31340).
Apenas três dos 24 doentes examinados por Otto e Neumann não tinham ainda ultrapassado o terceiro dia da doença, o que dificultou a investigação do agente patogênico, que desaparecia do sangue dos humanos já no quarto dia. A mortalidade elevada (60%) favoreceu, por sua vez, os estudos necroscópicos.
Verificaram que a febre amarela era uma doença infecciosa aguda com características de septicemia hemorrágica de evolução muito rápida. O exame anatomopatológico não lhes mostrou nenhuma característica específica, exceto a ausência de esplenomegalia, o que ajudava a distinguir a febre amarela da malária. A prognose era sempre grave, e só podia ser feita com alguma segurança no segundo período. O diagnóstico não apresentava dificuldade em casos graves; a diagnose diferencial era importante graças às semelhanças com a forma hemoglobinúria da malária, a febre tifóide biliosa e a intoxicação por fósforo. Os principais sintomas da febre amarela registrados por Otto e Neumann eram: o rosto avermelhado; o odor do doente, “parecido com o de carne recém-abatida;” a intensa angústia epigástrica e o surgimento de albumina na urina já nos primeiros dias da doença; na febre amarela (como também no tifo) a freqüência do pulso não combinava com a temperatura da febre. O vômito negro, o sangramento nasal e as fezes sanguinolentas podiam não ocorrer em casos pouco hemorrágicos, ou retroceder diante dos sinais de distúrbio na função renal. O quadro clínico tornava-se impreciso, e podia sugerir ao médico inexperiente uma uremia quando fosse imperceptível a hemorragia, e intensa apenas a icterícia.
O Stegomyia fasciata foi o principal objeto de estudo de Otto e Neumann. Deixariam o Brasil convencidos de que era o transmissor da febre amarela, mas não que fosse a única forma de transmissão possível. Em Hamburgo dariam prosseguimento àquelas experiências.
“O material inicial veio de Santos, do Rio e da Bahia – ao todo de 30 a 40 mosquitos, e boa quantidade de larvas.” Foram transportados num compartimento aquecido no navio, e transferidos para o “quarto de mosquitos” no Tropen Institut, um amplo recinto mantido à temperatura constante de 27°C, com gaiolas e um grande aquário dotado de gaze metálica à prova de mosquitos. Lá teriam a oportunidade de ver 12 gerações se criarem em 6 meses. “Infelizmente, os Culex fatigans e os Anopheles argyrotarsus, trazidos ao mesmo tempo, não se reproduziram.”
Para coletar mosquitos no Rio tinham utilizado “vidros de captura” desenvolvidos por Nocht, mas nas paredes e em lugares de difícil acesso usaram o tubo de captura indicado por Adolpho Lutz. “Trata-se de um tubo de vidro simples, um pouco encurvado, com um tubo de borracha tendo um algodão numa das extremidades. Coloca-se facilmente o tubo sobre o mosquito e suga-se ele através do tubo de borracha até o algodão.”
Gaiolas e dispositivos para captrar mosquitos. A figura 5 indica o
tubo para aspirar criado por Lutz (Otto & Neumann, 1906, p.28). A criação do estegomias na capital brasileira apresentara certas dificuldades, em especial pequeninas formigas que se mostravam ávidas devoradoras de mosquitos:
Os nossos vidros de criação tinham que ser colocados sempre
com cuidado numa tigela com água. Mesmo assim,
ocasionalmente, as formigas conseguiam, de algum modo,
encontrar um caminho até os vidros à noite, atravessando a fina
rede de gaze, e comer os nossos estegomias. Finalmente
untamos a parede das tigelas com uma massa viscosa, na qual
as formigas ficavam grudadas.
Para alimentar os insetos em cativeiro usaram açúcar, mel, bananas e água embebidos em algodão umedecido. Para fins de criação, era necessário o sangue. No laboratório e durante a viagem do Brasil para a Alemanha, puseram canários e ratos brancos nas gaiolas dos mosquitos. “Nem é preciso dizer que o Stegomyia fasciata prefere o sangue humano a qualquer sangue animal, e que procura obtê-lo de todas as maneiras.” Suas experiências tinham demonstrado “imperativamente” que somente as fêmeas picavam. E mais: observaram que os mosquitos pareciam preferir uma “pele branca e delicada” à das pessoas de cor.
Em sua primeira memória, de novembro de 1903, Simond, Marchoux e Salimbeni tinham apresentado detalhada análise do Stegomyia fasciata. Citavam pesquisas de Adolpho Lutz, e também de Finlay e da comissão Reed, mas apesar disso ainda não se conheciam bem os hábitos e a biologia daquele mosquito. Não havia sequer como afirmar que era a única espécie capaz de servir de hospedeira intermediária do germe ainda desconhecido da febre amarela. Era essencial esclarecer esta questão, pois o Stegomyia se tornara o pivô de candentes controvérsias e a pedra angular da campanha sanitária que começava no Rio de Janeiro.
Os médicos franceses investigaram todos os mosquitos que conseguiram capturar aí, entre eles o Anopheles albitarsis e os Culex fatigans, singulatus e confirmatus (estes não existem mais como Culex). Verificaram que o Stegomyia fasciata era o único vetor da febre amarela.
Confrontando sua distribuição geográfica – em princípio, todas as regiões compreendidas entre 40° de latitude norte e 40° de latitude sul – com as observações feitas no Rio de Janeiro, Simond, Marchoux e Salimbeni puseram em evidência a sua sensibilidade à temperatura: a faixa entre 27 e 30° era a ideal para seu desenvolvimento; abaixo de 25°, aquela espécie perdia grande parte de suas faculdades. Isso permitia explicar a imunidade de Petrópolis à febre amarela, mesmo durante as epidemias que grassavam a tão pouca distância (menos de 100 quilômetros), e apesar das ligações cotidianas intensas entre a cidade serrana e a capital.
Muitos investigadores acreditavam que o Stegomyia era um inseto de hábitos diurnos. Esta característica estava em contradição com a idéia corrente de que a febre amarela era uma doença que se contraía apenas à noite. Não se tinha notícia de casos notórios de ‘contágio’ no seio daquela multidão que descia diariamente de Petrópolis para o Rio, por volta de 9 horas de manhã, para retornar à serra às 4 da tarde. Porém, eram freqüentes os acometimentos entre os que passavam a noite no Rio, nem que fosse numa simples soirée. Estar aí depois que o sol se punha para contrair a febre amarela “é uma exigência que parece quase absoluta” – escreveu Simond num de seus cadernos de nota (apud Tran, 1998, p.65).
Simond em seu laboratório no pavilhão destinado à missão Pasteur,
no Hospital São Sebastião, 1901-1905 (Acervo Musée de l'Institut
Pasteur, PLS33).
Pavilhão destinado à missão Pasteur no Hospital São Sebastião,
1901-1905, vendo-se, em primeiro plano, Paul-Louis Simond
(Acervo Musée de l'Institut Pasteur, D2808).
Aquela cláusula do senso comum foi justificada quando os franceses verificaram que as fêmeas, de fato, picavam sobretudo à noite; os insetos jovens, recém-fecundados, podiam fazê-lo de dia, mas ainda não eram capazes de transmitir a doença, levando-se em conta que eram necessários 12 dias desde que sugavam sangue contaminado para que se tornassem infecciosos.
O relatório de Otto e Neumann revela a intensidade das controvérsias a esse respeito:
Segundo as informações do Dr. Lutz,138 o Stegomyia pica de
preferência nas horas diurnas. De acordo com George Gray, a
maioria das picadas acontece entre 13 e 15 horas. No relatório
de Durham sobre a … febre amarela no Pará, indica-se
igualmente a hora do almoço como a principal para picadas …
Finalmente, Finlay observou que o Stegomyia pica de dia, e
Bandi, como nós, teve a oportunidade, em S. Sebastião, no Rio,
de capturar de dia mosquitos que tinham acabado de picar. …
Pelo exposto pode-se ser tentado a proclamar o Stegomyia
simplesmente como mosquito diurno; contudo, ele também pica
ao anoitecer e durante a noite … conseguimos capturar
diversas vezes à noite debaixo do mosquiteiro estegomias
fêmeas depois que estas haviam sugado sangue. Assim
também nos picaram no nosso chalé no Hotel Internacional,
quando, vestidos levemente, ainda estávamos sentados à
mesa, tarde da noite. Ribas também constata a picada sem
distinguir dia e noite … no fundo é estranho que todas as
pessoas que permanecem no Rio durante o dia, e seguem
apenas à tarde para Petrópolis … sejam poupadas pela febre
amarela. …
Marchoux, Salimbeni e Simond … pensam … que, uma vez que
o Stegomyia sugou sangue, não picará novamente de dia, mas,
sim, à noite. Bandi se opõe a essa concepção, dizendo não
haver nenhum motivo para que os mosquitos, depois de uma
sucção, não picassem logo em seguida … De modo que a
opinião de Marchoux, Salimbeni e Simond não pode ser citada
como prova para a teoria dos mosquitos.
Da esquerda para a direita, Paretti de la Roca, Carlos Seidl (diretor
do Hospital São Sebastião, Simond e, em pé, às suas costas,
Salimbeni e duas outras pessoas não identificadas (Acervo Musée
de l'Institut Pasteur, PLS40).
Para Otto e Neumann, as infecções se davam principalmente à noite devido a uma característica notável do Stegomyia fasciata, tanto das formas aladas como das larvas e ninfas: a aversão à luz. Aqueles mosquitos preferiam os cantos ou objetos escuros. No laboratório, eram vistos ou capturados quase sempre em calças escuras ou no tecido que cobria o aparelho fotográfico: “Chegam ao ponto de não picarem um braço colocado na gaiola iluminada repentinamente com uma forte luz elétrica, mas logo o atacam com a luz apagada”.
As pessoas que moravam ou trabalhavam no Rio de Janeiro não ficavam tão expostas a seus ataques de dia porque em geral se achavam em ruas ou habitações claras. Fora das casas, as estegomias gostavam de desovar em canais abertos, tanques, barris usados para acumular água de chuva, poças, garrafas, caixas de conserva, cacos de vidro; no interior dos domicílios, procuravam os cantos escuros e punham ovos nos escoadouros de pias e tanques, na água das latrinas, nos pratos de vasos de plantas, em escarradeiras e objetos semelhantes. Tinham predileção por locais úmidos e abafados, como depósitos, bares, porões e bordéis. A atração por alimentos doces as levavam a se concentrar em cervejarias, padarias, refinarias de açúcar e restaurantes.
Não gostavam de correntes de ar mas podiam subir a altitudes de várias centenas de metros. Não faziam grandes migrações, mas viajavam longas distâncias em trens, bondes, carros e navios, especialmente em cargas de açúcar, melado, frutas e em pacotes úmidos. Otto e Neumann puseram estegomias em malas contendo roupas secas e úmidas, e verificaram que as fêmeas, mais resistentes, sobreviviam até 15 dias.
Segundo Tran (1998), numa visão retrospectiva, o feito mais original da missão francesa foi a demonstração de que podiam transmitir o ‘vírus’ da febre amarela a sua descendência, de maneira hereditária (vertical ou transovariana). O que motivou essa linha de investigação foi o enigma colocado pela ocorrência de casos esporádicos, às vezes muito espaçados, entre períodos epidêmicos. As teorias correntes eram capazes de explicar a “importação” da doença aos lugares flagelados através dos objetos ou viajantes infectados pelos micróbios, atribuindo as revivescências esporádicas à transformação que o germe sofria no solo, por efeito de fatores telúricos ou climáticos. Não havia como explicar isso à luz da ‘teoria havanesa’, uma vez que o mosquito tinha tempo de vida limitado.
Em artigo para o grande público (1903), Lutz afirmou que os Stegomyia fasciata podiam viver
durante dois ou três meses de verão com a condição de serem
alimentados, e sabe-se que não somente entre nós, mas até
em países mais frios, podem perdurar todo o inverno. Sendo a
temperatura baixa as estegomias não picam, cessando assim
as novas infecções até o reaparecimento do calor. Se durante o
inverno a temperatura sobe muito, podem sair dos seus
esconderijos e picar, o que explica os casos observados nessa
estação.
Tanto os casos esporádicos como os surtos independentes de importação ganhariam nova explicação a partir de 1932, quando a equipe de Soper descobriu a febre amarela silvestre, demonstrando-se, em seguida, que havia um ciclo selvático dependente de reservatórios não humanos do vírus amarílico, sobretudo primatas que habitavam as florestas. No começo do século XX, na ausência de modelos animais comprovados, não se podia suspeitar de outro hospedeiro vertebrado que não fosse o homem. A equipe de Walter Reed chegara a tentar verificar a hipótese de que os mosquitos pudessem formar uma cadeia de transmissão autônoma, mas chegaram a resultados negativos.
As experiências feitas pelos franceses no Rio de Janeiro consistiram em criar em laboratório os ovos postos por fêmeas que houvessem picado doentes; depois as larvas até o estágio adulto, mas, para demonstrar a capacidade infectante desses mosquitos e de sua descendência, era preciso recorrer a voluntários humanos. As tentativas feitas em 1903 não deram resultados, mas em 1905 conseguiriam reproduzir os sintomas da doença num voluntário (Tran, 1998, p.66). Simond e Marchoux (1905) apressaram-se a publicar essas observações, antes mesmo do aparecimento da terceira memória, no ano seguinte.
Em artigo intitulado “Mystère de la Fièvre Jaune. Les découvertes des docteurs Marchoux et Simond expliquent l’épidemie inexplicable de Panama,” o jornal Le Matin (1.8.1905, p.1-2) levantava dúvidas a respeito das medidas anticulicidianas implementadas em Cuba e no Brasil. Isso porque, no Panamá, não impediram que a doença grassasse com intensidade redobrada de maio a junho de 1905, apesar de se ter combatido o mosquito no ano anterior. A irrupção de uma epidemia em Nova Orleans também levara o jornal a indagar a Marchoux e Simond se a febre amarela, naqueles lugares, não teria meios de propagação diferentes de Havana e do Rio de Janeiro.
Com a autorização do ministro das colônias, os dois médicos franceses deram conhecimento ao público de informações que constariam de seu relatório. Rejeitavam com veemência aquela suspeita. Seus estudos tinham confirmado a teoria de Finlay, mas na capital brasileira verificaram que o mosquito incriminado possuía duas novas fontes de infecção. Uma eram os casos de febre amarela atenuada que passavam despercebidos aos médicos e, no entanto, forneciam ao mosquito os elementos necessários para a propagação da epidemia. O principal combustível dessa endemia invisível eram os bebês ainda em fase de amamentação: recém-chegados às zonas infectadas, eram suscetíveis como qualquer imigrante, mas opunham notável resistência ao ‘veneno’ amarílico. A outra fonte de infecção invisível era a transmissão hereditária do ‘vírus’ da febre amarela aos descendentes da fêmea do Stegomyia fasciata que houvesse sugado o sangue de doentes. “Esse fato não deixará de causar enorme sensação nos meios científicos” – registrava o jornal: “Sua verificação baseia-se numa experiência direta … Foi impossível à missão francesa conseguir outro voluntário no Rio para prosseguir essa experiência, mas espera-se que venha a ser retomada no Panamá pelos médicos americanos”.
Matéria publicada à mesma época no Le Journal (2.7.1905), por Fernand Hauser, também destacava “aquela coisa assustadora, a infecção microbiana da febre amarela que se estende aos ovos do
mosquito infectado”.139
O enigma etiológico
Apesar dos esforços da comissão Reed para demonstrar que o agente da febre amarela era um “vírus filtrável,” os trabalhos recentes sobre o impaludismo haviam disseminado a suposição de que talvez fosse um parasito com características análogas às do plasmódio de Laveran.
Em artigo publicado na Revista de Medicina Tropical (Havana, abril de 1903), o próprio Finlay defendia essa hipótese: seria um protozoário ultramicroscópico com fases de desenvolvimento mais ou menos similares às do parasito da malária. Supunha que sua reprodução sexuada ocorresse no homem, seu hospedeiro definitivo, e a esquizogônica, no mosquito. Tal inferência baseava-se na observação de que a infecção do Stegomyia tinha duração indefinida, ao passo que a do homem era curta; além disso, no caso da malária, a infecção do homem era de duração indefinida, e a do Anopheles, aparentemente limitada.
À mesma época, divulgou-se o primeiro relatório de Parker, Beyer e Pothier (1903; também em Parker, 1903). Os médicos da comissão da marinha norte-americana não encontraram nenhum organismo específico no sangue de doentes de febre amarela, nem em seus tecidos, após a morte. A observação dos Stegomyia fasciata revelou-se, porém, promissora. Depois que se alimentavam num paciente, seus ovários primeiro se hipertrofiavam, como numa refeição de sangue normal, depois sofriam completa atrofia. As glândulas salivares também apresentavam excessiva hipertrofia. Tanto nelas como no estômago, três a quatro dias após a absorção de sangue contaminado, encontraram um “pequeno protozoário fusiforme” com desenvolvimento análogo ao de coccídios. Em experiências futuras, os autores esperavam poder determinar melhor o ciclo de vida e o papel etiológico daquele organismo que denominaram Myxococcidium stegomyiae.
Parker, Beyer e Pothier davam como fato científico definitivo a “transferência da doença” por meio do Stegomyia fasciata. Mas não sabiam ainda dizer se era ou não “o único meio de transferência”: “Para se provar a afirmação negativa devem ser proporcionadas as condições para se produzir a doença à vontade ou sob condições constantes” – uma alusão indireta à experimentação com cobaias
humanas.140
Sob a influência daquelas idéias e dos trabalhos que já fizera sobre coccídios, Simond (1897), no Rio de Janeiro, voltou-se com grande entusiasmo para um microsporídio do gênero Nosema, semelhante ao Myxococcidium stegomyiae, que encontrou no tubo digestivo dos Stegomyia, já em março de 1902. A descoberta gerou grande expectativa na legação francesa que informou confidencialmente Théophile Delcassé, o ministro dos Negócios Estrangeiros daquele país:
Imagem de nosema. Fonte:
www.tc.umn.edu/~reute001/images/disease/F6-nosema-guts.jpg,
acesso em 22.6.2005.
Os doutores Marchoux, Simond e Salimbeni … confidenciaram
a mim o feliz resultado de suas primeiras pesquisas: querem
que se guarde o maior segredo a respeito de suas experiências
até que se tenha pronunciado o diretor do Instituto Pasteur.
(apud Tran, 1998, p.56)
Este despejou água fria sobre aquele entusiasmo em carta de 28 de março de 1902: no mosquito que picara um amarelento havia, de fato, um coccídio, mas não eram convincentes as preparações que lhe tinham enviado; Roux não vira no sangue nem no fígado nada
que sugerisse o agente etiológico da febre amarela.141
Os três pesquisadores franceses acabariam por reconhecer que o parasito era freqüente nos Stegomyia, mesmo nos que não houvessem picado doentes de febre amarela.
Emile Roux, que um ano depois publicaria “Sur les microbes dits invisibles,” julgava que o causador da doença poderia ser um microrganismo desse grupo ainda enigmático, mas considerava mais provável a etiologia bacteriana. Escreveu a Simond:
Uma coisa me impressiona muito; os americanos mostraram
que o sangue é virulento, e o exame microscópico não revela
nada aí que se possa relacionar a uma forma parasitária.
Nessas condições, seria preciso investigar na direção dos vírus
invisíveis. A experiência a fazer seria filtrar soro ou sangue
diluído em água e inocular o filtrado no homem. Sei que a
experiência não é possível no Rio, e eu me sinto bem
incomodado por sugerir-lhe uma experiência tendo em mira o
vírus invisível … Enfim, é preciso tentar a inoculação dos
macacos … É preciso tentar todos os modos de inoculação:
intra-cerebral, intravenosos etc. (apud Tran, 1998, p.57)
Como mostra Tran (1998), a partir de maio de 1902, Simond, Marchoux e Salimbeni deram início a uma série de experiências, a princípio com coelhos, depois com cinco espécies de macacos: injetaram não só os parasitas suspeitos, como corpos e glândulas salivares de Stegomyia infectados; fizeram esses mosquitos picarem os animais. Nenhuma das experiências trouxe resultados, o que reforçou a suposição de que a febre amarela era uma doença que, além do homem, não possuía outro hospedeiro vertebrado.
Otto e Neumann reiteraram essa suspeita e ainda outra observação dos franceses: seu germe podia passar à prole do mosquito que picara um doente, mas o inseto contaminado hereditariamente só era capaz de ‘expelir’ o germe após 22 dias – e não 12, como acontecia com o mosquito que se infectava diretamente.
Apesar do tempo gasto ao microscópio, os dois médicos alemães não conseguiram determinar o agente etiológico. Em seu relatório (1906), aludiam a todos aqueles micróbios que tinham sido encontrados no sangue e nos tecidos dos doentes: os bacilos de Richardson, Gibier, Havelburg e Sanarelli, os micrococos de Freire, Finlay e Delgado, e os fungos de Carmona y Valle e de Lacerda. Embora estivessem convencidos da irrelevância desses microrganismos, já invalidados por Sternberg em 1890, ficaram atentos à sua eventual aparição nos materiais colhidos em doentes e nas autópsias; especialmente ao bacilo de Sanarelli, que era defendido com vigor por médicos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Procuraram, também, o organismo semelhante ao da influenza que fora descrito em 1902 por Durham e Myers, e o que Laveran propusera no mesmo ano à Sociedade de Biologia de Paris. Em relação a todos esses micróbios foram negativos os resultados das investigações de Otto e Neumann.
Mas no sangue dos doentes havia indiscutivelmente um organismo muito pequeno, uma vez que se conseguia transmitir a febre amarela a pessoas saudáveis inoculando-lhes aquele líquido orgânico, mesmo parcialmente desfibrinado, ou soro diluído em água esterilizada, depois de passar através de um filtro de Berkefeld, capaz de reter as menores bactérias. Já fora determinado pelas comissões norte-americana e francesa que esse efeito deixava de ocorrer se o sangue fosse aquecido a 55°C, por cinco minutos, ou se fosse utilizado depois do terceiro dia da doença. Simond, Marchoux e Salimbeni tinham verificado, também, que o soro guardado por mais de 48 horas em contato com ar perdia sua virulência, mesmo sem ser aquecido. O sangue desfibrinado e mantido sem contato com o ar ainda produzia a febre amarela após cinco dias; mas depois de oito dias podia ser injetado sem perigo.
Tal como os franceses, Otto e Neumann não obtiveram resultados com o exame microscópico de preparados frescos e corados de estegomias infectadas.
Puseram-se então no encalço de uma hipótese levantada por Fritz Richard Schaudinn, protozoologista do Instituto de Moléstia Tropicais de Hamburgo, que se achava a um passo da descoberta
do causador da sífilis, o 142 Treponema pallidum. O agente da febre amarela poderia ser também um espiroqueta. Durante o desenvolvimento desse protozoário formavam-se estruturas tão ínfimas que poderiam, talvez, atravessar um filtro bacteriano. Porém, em outro estágio, poderia adquirir formas visíveis que ainda não houvessem sido reconhecidas como específicas à febre amarela.
Fritz Schaudinn (1871-1906) (Acervo Instituto Bernhard-Nocht).
“De acordo com essa premissa, foi traçado o caminho das nossas pesquisas ulteriores” – afirmaram Otto e Neumann. Para dar cabo delas, traziam uma novidade tecnológica que despertou grande curiosidade entre os médicos franceses e nativos: um “ultramicroscópio,” um dos primeiros fabricados pela firma Zeiss. Seriam freqüentes as visitas de médicos e leigos a seu laboratório para ver o instrumento; os do “Hospital São Sebastião, como também o Dr. Marchoux, não perdiam a oportunidade de olhar … os nossos resultados”.
Otto e Neumann tiveram de se familiarizar com a manipulação do aparelho, que ainda não fora testado nos laboratórios alemães. A princípio, tiveram grandes dificuldades. O instrumento desenvolvido pelos físicos Siedentopf e Zsigmondy (1908) para tornar visíveis as partículas ultramicroscópicas só podia ser usado com luz solar, porque supunham os fabricantes ser ela abundante nos trópicos, não se encontrando, ali, fontes de energia suficientemente boas. Por causa disso, os pesquisadores tinham de interromper as pesquisas toda vez que uma nuvem toldava o sol. Paravam também em dias de céu encoberto, e quando as árvores sombreavam as janelas no sol poente. Trabalhar à noite, nem pensar!