Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 7 de 56 · parte 5/8

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Apresentação Histórica/Historical Introduction

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

É por isso que me oponho a que … sejam postas de parte com

o comentário de que é provável que o doutor estivesse

enganado, o que parece subentender que seja um hábito meu

cometer erros em observações científicas. Como tenho menos

pressa em comunicar minhas observações do que muita gente

nos dias de hoje, não creio que minha quota de erros seja

incomumente grande.

Este e outros comentários igualmente mordazes de Lutz, reintroduzidos na presente edição de seu texto, foram suprimidos pelo editor dos Proceedings of the Entomological Society of Washington, o que motivou duro protesto de parte de Frederick Knab. A carta que enviou a W. D. Hunter em 24 de janeiro de 1914 mostra a autoridade que tinha Adolpho Lutz naquele novo campo do conhecimento – a entomologia médica -assim como a liderança que exercia sobre seus pares no Brasil, especialmente no talentoso grupo de investigadores do Instituto Oswaldo Cruz.

Deixando de lado a questão ética, a mudança no tom da carta

acrescenta um aspecto completamente diferente à controvérsia

… coloca o Dr. Dyar e eu numa posição muito desagradável. Os

pesquisadores no Rio de Janeiro … chegarão naturalmente à

conclusão de que … usamos de meios desleais para fugir de

suas vigorosas críticas. Temo que este procedimento, por mais

inconseqüente que pareça ao senhor … causou dano

irreparável. Provavelmente criou entre nós e os pesquisadores

do Rio uma ruptura que talvez nunca possa ser reparada. Sinto

isso profundamente porque afetará seriamente meu trabalho.

Por alguns anos tive em mira cultivar relações amistosas com

esses pesquisadores, de maneira que pudéssemos trabalhar

em harmonia e facilitar as investigações uns dos outros, e

deparei com respostas encorajadoras. Como o senhor sem

dúvida sabe, de longe o trabalho mais importante em A teoria de Lutz no limbo

entomologia médica deste lado do Atlântico vem sendo feito por

Lutz e seus associados e, do ponto de vista dipterológico,

especialmente, seria muito desejável que mantivéssemos

contato com eles.

Na resposta datada de 27 de janeiro, Hunter mostrava-se surpreso com a reação dos dois: “As únicas alterações que fiz foram eliminar duas sentenças que eram em minha opinião muito ferinas para aparecer … Sob esta luz, parece-me que a publicação da carta … serviu mais para manter a entente cordiale do que para destruí-la”.

O tom da carta que Knab enviou a Lutz, dois dias depois, deixa evidente a sua preocupação em restaurar a cordialidade daquela

entente, 112 que, tudo indica, apoiava-se em intercâmbio científico substancial e relevante para ambas as partes. Em 1911, Knab publicara detalhada e elogiosa resenha de dois trabalhos de Lutz (1909, 1910) sobre os Simuliidae do Brasil. Na opinião do entomologista norte-americano, constituíam

de longe, o mais completo estudo até agora dedicado a este

grupo de Diptera tão interessante e tão importante

economicamente … é gratificante verificar que o dr. Lutz não é

um sistemata da velha escola, pois aborda seu tema de todos

os ângulos. Confere pleno valor aos dados obtidos nos estágios

iniciais e a partir da biologia, articula-os com os caracteres das

imagos e, ao mesmo tempo, considera cuidadosamente as

fontes possíveis de erro.

Na carta de janeiro de 1914, Knab humildemente consultava Adolpho Lutz sobre os hábitos e a classificação de duas espécies de Ceratopogoninae que vinha estudando, e aludia a comentário feito anteriormente pelo colega brasileiro de que tinha muito material sobre mosquitos ainda inédito: “Por que não o publica? Seus dados biológicos, pelo menos, dificilmente conflitarão com nosso livro … A maior parte de suas observações seguramente será original, e o restante, mais completo, de modo que aperfeiçoará o que formos capazes de apresentar”.

Segundo Gadelha (1994), o ocaso da teoria de Adolpho Lutz acentuou-se na década de 1920, quando conhecidos malariologistas produziram trabalhos que pareciam invalidá-la. Refere-se, especificamente, a Darling e a Nelson Davis. O primeiro teria demonstrado que nenhum vetor de malária provinha das bromélias no Panamá, desativando, assim, um dispendioso projeto de erradicação dessas plantas lançado naquele país.

Davis investigou uma epidemia em zona montanhosa de Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro, onde era construída mais uma ferrovia. Embora atribuísse a maioria dos casos a recaídas de uma malária crônica, como fizera Knab com aqueles examinados por Lutz na serra de Santos, Davis teve de admitir a existência de transmissão autóctone. Isso o levou a estudar a capacidade de infecção dos mosquitos da malária das florestas, agora incluídos no

gênero 113 Kerteszia. Obteve freqüência muito baixa, e concluiu que não era capaz nem de iniciar nem de manter uma epidemia. Somente no auge dela, quando houvesse numerosos portadores de gametócitos muito infectados, a espécie poderia talvez contribuir com algumas transmissões.

Naquele mesmo ano, Arthur Neiva (1925, p.4) produziu um relatório para a The Light and Power Company a respeito dos riscos sanitários envolvidos na implementação de um projeto da empresa canadense na Serra de Cubatão, a mesma onde Lutz descobrira a malária das florestas. O entomologista do Instituto Oswaldo Cruz, com larga experiência em campanhas contra a doença, não hesitou em afirmar que o principal problema era o Myzomyia lutzi, a espécie à qual pertenciam 40% dos mosquitos residentes nas bromélias do lugar. No relatório, Neiva se referia à campanha que havia movido contra aquele mosquito em Iguape, no estado de São Paulo, consistindo as ações especialmente no desmatamento da região que se queria proteger.

Gadelha (1994, p.136) estranha o fato de não terem desaguado em controvérsia os pontos de vista antagônicos de Neiva e Davis. Em sua opinião, isso não se deveu apenas à limitada circulação de um relatório escrito em português, mas principalmente ao fato de que “as conclusões de Davis se baseavam em trabalho de laboratório, ao passo que Neiva fundamentava seu caso em observações entomológicas e epidemiológicas genéricas”. Apoiando-se em Deane (1986, p.7), Gadelha mostra que a dissecação de glândulas salivares para verificar a presença de oocistos era uma técnica laboriosa e delicada, usando-se pequeno número de indivíduos para verificar as taxas de infecção de anofelinos. A adoção de nova técnica no final da década de 1930 permitiu que subissem a centenas ou milhares as glândulas salivares examinadas pelos entomologistas. Ter-se-ia verificado, então, que Davis errara. No artigo de Gadelha, o leitor encontrará segura análise da sucessão de eventos que confeririam grande visibilidade à malária das florestas a partir dos anos 40.

Lutz não viveria para assistir a esse ressurgimento e às campanhas implementadas pelo Serviço Nacional de Malária (1941), que resultariam na destruição de milhões de bromeliáceas no sul do Brasil.

Combate às Kerteszia. Árvore recoberta de gravatás, assinalando

as setas diversos trabalhadores ocupados na derrubada dessas

plantas (Pinotti, 1947, p.22).

Trabalhador equipado para derrubada de gravatas, criadouros da

Kerteszia (Pinotti, 1947, p.23).

 

Combate à Kerteszia. Desmatamento na periferia da cidade de

Blumenau, Santa Catarina (Pinotti, 1947, p.24).

No trabalho publicado em 1903, julgara inexeqÜível o extermínio dessas plantas. A destruição das larvas residentes nelas por meio de substâncias químicas também lhe parecera “mais teórica que prática … Geralmente, só a abertura de clareiras dá resultados como medida de proteção contra a malária silvestre”. A das planícies encharcadas admitia um conjunto mais consistente de medidas preventivas. Em relatório escrito precisamente na

passagem do século XIX para o XX, 114 Lutz se referia aos estudos realizados em várias partes do mundo por comissões inglesas, alemãs e italianas, e afirmava que já se podiam estabelecer diretrizes claras de ação contra a doença, muito parecidas – como veremos – com aquelas que logo seriam adotadas para a febre amarela. Segundo o diretor do Instituto Bacteriológico,

1° – a malária, devido ao parasitismo dos plasmódios de

Laveran, dos quais existem várias espécies, é unicamente

transmitida por mosquitos do gênero Anopheles que servem

como hospedeiros durante uma fase essencial de sua evolução;

só há malária onde existem Anopheles em abundância; 2° –

para transmissão da moléstia os Anopheles têm de picar

doentes de impaludismo que se achem em fase apropriada da

moléstia. Estes insetos, só depois de um certo período,

regulando de 8 para 15 dias, tornam-se aptos a transmitir a

moléstia a outros indivíduos, na ocasião de picá-los.

De acordo com Lutz, a malária podia ser combatida de três modos diferentes: tratando-se os doentes de modo a impedir que os Anopheles se infeccionassem; destruindo-se os mosquitos, principalmente suas larvas; impedindo-se que os já infectados picassem as pessoas receptíveis por meio de mosquiteiros, casas protegidas com telas de arame, fumigações e medidas semelhantes: “Está verificado que os meios mencionados em último lugar podem conseguir preservar da infecção grupos de indivíduos passando os meses quentes em focos intensos de malária”.

Em “Instruções sobre a profilaxia do impaludismo,” texto inédito que publicamos no presente volume de sua Obra Completa, Adolpho Lutz apresenta em forma mais detalhada as chamadas profilaxias “ofensiva,” “defensiva” e “específica” ou “terapêutica”.

Febre amarela: dos micróbios aos mosquitos

As narrativas sobre a derrota da febre amarela pela medicina científica privilegiam ora os Estados Unidos, ora Cuba, conforme o valor atribuído a dois episódios: a formulação pelo médico cubano Carlos Juan Finlay da teoria da transmissão da doença por mosquitos, em 1880-1881, e sua demonstração, em Cuba, pela equipe norte-americana chefiada por Walter Reed, em 1900.

Para Nancy Stepan (1978), os ingredientes essenciais da teoria já estavam dados. O interregno deve-se a obstáculos sociais e políticos: a convicção de que a doença estava enraizada no solo cubano; o desinteresse da metrópole espanhola pela ciência; a prolongada guerra de independência iniciada em 1868 e retomada em 1895; e a ocupação da ilha pelos Estados Unidos três anos depois. Da United States Yellow Fever Commission, que a visitou em 1879-1880, Finlay adquiriu a hipótese de que a febre amarela era causada por um germe que sofria transformação fora do corpo do homem antes de infectar a pessoa suscetível. A descrição do hospedeiro intermediário do fungo da alforra (doença dos cereais), apresentada pelo francês Philippe Edouard Léon Van Tieghem (1839-1914) em conhecido tratado de botânica teria levado o médico cubano a deduzir que a transmissão da febre amarela devia ser obra de um agente que existia à margem tanto do doente como do microrganismo da doença. Estudos entomológicos e epidemiológicos levaram-no à verificação de que a fêmea do Culex (mais tarde denominado Stegomyia fasciata, atual Aedes aegypti) transportava em sua probóscide alguma partícula viva e infectante da pessoa doente à saudável. Finlay publicou sua teoria primeiramente em espanhol, El mosquito hipoteticamente considerado como agente de transmissiÓn de la fiebre amarilla (1881); depois em inglês, Yellow fever: its transmission by means of the Culex mosquito (em jul.-out. 1886). Segundo a historiadora norte-americana, ao indicarem a espécie exata, esses trabalhos já teriam permitido o controle da doença pela eliminação dos mosquitos, caso houvesse interesse nisso.

Carlos Juan Finlay (1833-1915) (Olpp, 1932, S128).

 

quando examinamos os eventos de 1900, verificamos que os

mesmos argumentos que antes haviam parecido inconclusivos,

até implausíveis, adquiriram grande plausibilidade quando

necessidades militares exigiram rápida solução para o problema

da febre amarela. O fato de que a Comissão Reed tenha

precisado apenas de dois meses para confirmar a hipótese de

Finlay, e de que tenha cometido muitos dos erros que lhe

haviam sido imputados, sugere que não basta culpar sua

ciência para explicar sua inatividade … precisamos examinar o

contexto social e político em que a febre amarela foi percebida

nos Estados Unidos e as razões pelas quais tal percepção

mudou tão drasticamente em 1900. (Stepan, 1978, p.402)

Desenho de Stegomyia fasciata; (Kolle & Hetsch, 1918, Prancha

76).

Para François Delaporte (1989), Finlay e os norte-americanos tinham idéias diferentes sobre o mosquito: para o primeiro, era um meio mecânico de transmissão; para os segundos, um hospedeiro intermediário associado a um processo biológico mais complexo. A decisão de Finlay de tomar o mosquito como objeto de estudo, e o tempo decorrido entre a proposição e a confirmação de sua teoria, seriam enigmas cuja explicação residiria na medicina tropical inglesa, nas relações de filiação conceitual que ligam o médico cubano a Patrick Manson, e Walter Reed a Ronald Ross. Para Delaporte, a hipótese de Finlay ficou no limbo durante vinte anos porque esse foi o tempo necessário para se esclarecer o modo de transmissão da malária.

Quando Ross desvendou, em 1898, o ciclo do parasita da malária das aves no mosquito Culex, e Giovanni Grassi, Amico Bignami e Giuseppe Bastinelli revelaram, no ano seguinte, o ciclo do parasita da malária humana em mosquitos do gênero Anopheles, tornou-se inevitável a suposição de que aqueles insetos cumprissem idêntico papel na febre amarela, cujo diagnóstico clínico, como vimos, confundia-se com o de febres causadas pelas diferentes espécies do Plasmodium.

Para Manson, o mosquito era importante enquanto hospedeiro ou nutriz de um parasito que realizava nele parte do ciclo indispensável à conservação da espécie. Às voltas com a transmissão de um germe desconhecido, Finlay viu a picada em função das vantagens que proporcionava ao inseto. Verificou que a fêmea fazia não uma, mas diversas refeições de sangue, e deduziu que tanto sangue num corpo tão pequeno só podia servir para assegurar a temperatura requerida para a maturação dos ovos. Fixou a atenção nos mosquitos de menor porte que precisavam fazer várias refeições e várias posturas. O estudo da fauna culicidiana de Cuba e seu cruzamento com a distribuição geográfica da febre amarela levaram-no a apontar o pequeno Culex como seu transmissor. À luz desta teoria, pôde explicar diversos aspectos epidemiológicos intrigantes da doença (Delaporte, 1989).

 

Experiências da comissão Reed em Havana

Apesar disso, a teoria de Finlay não se impôs de imediato à comissão médica dos Estados Unidos. Em 25 de junho de 1900, em Cuba, as tarefas foram distribuídas entre seus integrantes conforme as instruções de George Sternberg, Surgeon-General do exército norte-americano, que só tinha olhos para a bacteriologia da febre amarela. As investigações foram bruscamente reorientadas do bacilo icteróide para a hipótese de Finlay após o encontro – do qual falaremos adiante – com os médicos ingleses da recém-fundada Escola de Medicina Tropical de Liverpool. Em 11 de agosto, Jesse William Lazear (1866-1900) iniciou as experiências com mosquitos, enquanto James Carrol (1854-1907) e Aristides Agramonte y Simoni (18681931) prosseguiam os estudos bacteriológicos.

No fim daquele mês, foram obtidos os dois primeiros casos positivos de infecção pelo Culex. Em 25 de setembro ocorreu a trágica morte de Lazear em conseqüência de uma picada acidental. Walter Reed, que ultimava, em Washington, o relatório de outra comissão sobre febre tifóide, retornou às pressas a Havana e redigiu febrilmente a Nota preliminar a apresentada à 28 reunião da American Public Health Association, em Indianápolis (EUA), entre 22 e 26 de outubro de 1900. Embora houvesse utilizado mosquitos nascidos de larvas em cativeiro, Lazear não estabelecera suficiente controle sobre os indivíduos inoculados de modo a afastar a possibilidade de outras fontes de infecção. Reed, até então ausente do cenário das

experiências, tomou a si a tarefa de completá-las.115

 

Jesse William Lazear (1866-1900) (Olpp, 1932, S227).

 

James Carrol (1854-1907) (Olpp, 1932, S62).

Aristides Agramonte y Simoni (1868-1931) (Olpp, 1932, S1).

 

Três séries de experiências foram realizadas, entre novembro de 1900 e fevereiro de 1901, no Campo Lazear, nas imediações de Quemados (Cuba), ao abrigo das epidemias, em local drenado, ensolarado e exposto aos ventos. Entre imigrantes e soldados norte-americanos foram recrutados voluntários que cumpriram quarentena antes de serem picados por mosquitos previamente infectados em doentes de febre amarela. Essa primeira série teve por objetivo confirmar que o mosquito era o hospedeiro intermediário de seu ‘vírus’. Dos seis voluntários picados, cinco apresentaram sintomas da doença. A comissão concluiu que eram necessários doze dias após a contaminação do mosquito para que o germe transitasse por seu estômago, chegasse a suas glândulas salivares e o tornasse

capaz de transmitir a infecção. 116

A experiência seguinte transcorreu em uma sala dividida em dois ambientes por tela metálica. Num foram colocados mosquitos infectados e um voluntário que se deixou picar várias vezes. No ambiente protegido permaneceram duas testemunhas, por vários dias, sem contrair a doença. A intenção era desfazer a arraigada idéia de que o ar, veículo de miasmas e germes, pudesse transmitir a febre amarela. Reed queria demonstrar que uma habitação só era

perigosa quando continha mosquitos infectados.117

Na segunda série de experiências, análogas àquelas realizadas um século antes pelos anticontagionistas, três voluntários ficaram confinados, durante vinte noites consecutivas, num quarto repleto de objetos impregnados de vômitos, fezes e urina de doentes falecidos de febre amarela. Nenhum deles contraiu a doença. Assim, invalidava-se mais uma vez a contagiosidade dos fomites e os procedimentos decorrentes desta crença: desinfecção de roupas e

objetos supostamente contaminados pelo contato com doentes.118

Em setembro e outubro de 1901, a comissão norte-americana realizou outra série de experiências relacionadas ao germe da febre amarela. O sangue de um amarelento foi injetado em quatro voluntários, obtendo-se três casos positivos, prova de que o germe estava presente no sistema circulatório e podia ser transmitido pela picada de agulha. Em seguida, procurou-se verificar se era um ‘vírus filtrável’, hipótese já levantada pelo bacteriologista Frederick George Novy e sugerida a Reed por seu ex-professor, William Welsh. Separou-se do sangue de um doente o soro, cuja inoculação produziu um caso experimental. Depois o soro foi aquecido a 55°C e inoculado, sem resultados. Demonstrou-se, assim, que a virulência não se devia a uma toxalbumina secretada por um bacilo. Por fim, depois de atravessar os filtros de Berkefeld e de Chamberland, o soro foi diluído e injetado, provocando um ataque bem caracterizado. A febre amarela podia, então, ser causada por um microrganismo tão pequeno que atravessava os filtros mais cerrados e permanecia invisível aos microscópios mais possantes. O interesse dos bacteriologistas por esta categoria de agentes “ultramicroscópicos” fora estimulada pela descoberta feita por Friedrich Loeffler e Paul Frosch (março de 1898) de que a febre aftosa era induzida por um agente desse tipo. Ironicamente, Sanarelli fora um dos pioneiros no estudo dos “vírus” – conceito que só então começava a ganhar os contornos de sua acepção moderna-, tendo descrito as propriedades do agente invisível da mixomatose dos coelhos (Hughes, 1977).

Walter Reed (1851-1902) (Olpp, 1932, S336).

Quando decidiram testar essa hipótese, Reed e Carrol defrontaram-se com um ambiente já desfavorável à utilização de cobaias humanas. Nas primeiras experiências não houvera vítimas, mas a sua reencenação por uma equipe cubana dirigida por José Guiteras, no verão de 1901, resultara na morte de três dos sete voluntários inoculados, o que provocou grande comoção entre os habitantes de Havana, afugentando novos candidatos. Foi isso, assegura LÖwy (1991), que impediu a comissão Reed de fornecer provas conclusivas de que o agente da febre amarela era um vírus

filtrável.119

A campanha anticulicidiana que os militares norte-americanos desencadearam em Cuba foi um sucesso. O isolamento dos doentes sob mosquiteiros e o extermínio dos mosquitos e de suas larvas romperam o ciclo de propagação e a doença foi subjugada em apenas seis meses. As experiências da comissão Reed obteriam, em seguida, confirmações entre as paredes de alguns laboratórios e em campo aberto, principalmente em algumas cidades brasileiras, até serem acatadas como definitivas nos fóruns científicos internacionais.

Mas antes de examinarmos tais desdobramentos, acompanhemos ainda um fio da complexa meada sócio-técnica em Cuba, já que tem relação direta com um episódio apresentado páginas atrás. Aquele parecer arrasador de Adolpho Lutz sobre o soro Caldas não sepultou o invento do médico gaúcho. Seu flanco mais vulnerável era o desconhecimento do micróbio da febre amarela. Em 28 de abril de 1898, Felipe Caldas apresentou à Academia Nacional de Medicina mais uma comunicação sobre a “transformação do

colibacilo em bacilo produtor da febre amarela”. 120 Contestando Sanarelli, passou a afirmar que era uma “coli-bacilose,” isto é, uma forma de infecção pelo bacilo do cólon que se tornava maligno sob a influência de fatores biológicos e ambientais. Em presença de outros microrganismos, aquele saprófito normal do canal intestinal modificava suas características morfológicas e se tornava um terrível agente patogênico. A teoria ganhou respeitosa acolhida no semanário nova-iorquino Medical News, cujo editor comentou:

 

Filtro desenvolvido em 1884 pelo bacteriologista Charles Edouard

Chamberland (1851-1908). O líquido atravessa a vela de porcelana

sob pressão. Fonte: www.gutenberg.org/dirs/1/1/7/3/11734/11734-

h/illustrations/4a.png, acesso em 22.6.2005.

Parque de la Fraternidad, Havana, Cuba. UFF – Laboratório de

 

História Oral e Imagem. Coleção Otoni Mesquita de Cartões Postais.

Fonte: www.historia.uff.br/labhoi/imagens/cpost032.jpg, acesso em

22.6.2005.

A comunicação de Caldas é interessante porque representa

uma tentativa séria e, aos olhos do autor pelo menos, bem-

sucedida de provar na prática aquela interessante teoria com

tanta freqüência discutida na bacteriologia recente de que os

bacilos podem ser polimórficos; isto é, podem existir sob

diferentes formas, possuindo especial virulência em cada forma.

Trata-se de uma contribuição importante para a questão da

possibilidade de um bacilo não patogênico converter-se em

patogênico.121

Caldas desenvolveu, então, uma vacina para uso preventivo e jogou a última (na verdade, penúltima) cartada em prol de seus inventos em Cuba, no momento em que lá se feria a batalha bem-sucedida contra a doença, à luz da teoria de Finlay. Chegou a Havana em julho de 1901, em companhia do assistente, dr. Bellinzaghi, e de um representante comercial – “a businessman”. Propôs a demonstração de sua descoberta perante uma comissão oficial. Quando lhe pediram cartas de recomendação, telegrafou para os Estados Unidos e logo chegaram à mesa do governador militar duas credenciais de peso: uma do secretário da Guerra, outra do cônsul-geral do Brasil em Nova York. Formou-se, então, a comissão com V. Havard, William Gorgas, Juan Guiteras, Carlos Finlay e um certo dr.

Albertini.122 É provável que tenham se desincumbido da tarefa ao mesmo tempo em que Gorgas e Guiteras testavam outra vacina em voluntários humanos, por sugestão de Finlay, independentemente dos trabalhos da comissão Reed. A morte de três cobaias humanas comprometeria, como dissemos, os estudos desta sobre o vírus ultramicroscópico.

Em 9 de agosto, a comissão reuniu-se com Caldas no Hospital de Las Animas, e ouviu dele a descrição dos processos empregados na elaboração de seus dois imunizantes. Explicou que injetava primeiro uma dose de soro para neutralizar a forte reação da vacina. A comissão pediu-lhe que demonstrasse a existência do micróbio e descrevesse o método usado para o isolar e cultivar. Caldas recusou-se, alegando que tinha assumido o compromisso de guardar sigilo com uma empresa organizada para explorar sua descoberta. Se lhe permitissem vacinar não imunes, e se essas pessoas fossem sujeitas a picadas de mosquitos infeccionados sem que a doença se desenvolvesse, a relação causal entre o micróbio e

a febre amarela estaria provada, indiretamente. 123

À direita, ambulância do Hospital Las Animas, em Havana, 1900.

Hench-Reed Collection, Claude Moore Health Sciences Library,

University of Virgínia. Fonte: www.med.virginia.edu/hs-

library/historical/yelfev/pan9.html, acesso em 22.6.2005.

Após demorada confabulação, os inquiridores tomaram uma decisão ambígua: não participariam das experiências, já que o brasileiro sonegava dados imprescindíveis para colocar a questão no terreno científico, mas lhe concederiam as facilidades necessárias, comprometendo-se a fiscalizar os resultados e a relatá-los depois. Bellinzaghy contratou, então, quatro imigrantes não imunes e celebrou com eles um contrato escrito, por exigência da comissão, prevendo o pagamento de soma em dinheiro pelos riscos que voluntariamente assumiriam. Dois foram rejeitados por suspeita de terem imunidade. Os outros dois – robustos espanhóis, recém-chegados a Cuba -, foram internados no hospital, em quartos à prova de mosquitos, e inoculados pelo próprio Caldas. Segundo o brasileiro, a imunização demorava quatro dias. A comissão achou melhor aguardar uma semana. Em 22 de agosto, Paulino Alonso foi picado por dois mosquitos infeccionados, cujas histórias eram conhecidas desde a jarra que lhes servira de berço. Três dias depois, apareceram os sinais de um quadro típico e grave de febre amarela. As visitas de Caldas foram rareando, e quando os médicos da comissão se reuniram para formalizar o diagnóstico, não compareceu. Era mau perdedor. Até o fim negou que a doença fosse febre amarela. Seria apenas uma infecção séptica. Segundo o relator do caso, o major médico Havard, esta declaração colocava-o numa situação

estranha e pouco invejável. Ele acredita que os mosquitos, que

morderam (sic) doentes de febre amarela, podem transmitir

somente infecção séptica e, entretanto, propôs que esses

mosquitos servissem para provar o valor de sua vacina! … A

aceitação do mosquito para a experiência não deixa dúvidas de

que, se o resultado fosse negativo, ele apregoaria o triunfo da

sua vacina.124

 

A ‘teoria havanesa’ no Brasil

As experiências realizadas em Cuba, em 1900-1901, formam, sem dúvida, um divisor de águas na história da febre amarela e, pela importância que esta tinha no Brasil, uma linha divisória igualmente nítida na história de nossa medicina e saúde pública. O esclarecimento de seu modo de transmissão viabilizou campanhas sanitárias capazes, por algum tempo, de neutralizar as epidemias nos núcleos urbanos litorâneos da América, silenciando as controvérsias relacionadas à etiologia da doença.

A sagração de Ronald Ross como “valoroso sucessor britânico do francês Pasteur e do alemão Koch” (Worboys, 1976, p.85, 90-1) foi decisiva para a concretização do projeto que Patrick Manson defendera em outubro de 1897, em conferências no St. George's Hospital: investir-se na formação de médicos habilitados a lidar com o que chamou de “medicina tropical”. Em junho de 1899, começou a funcionar a Liverpool School of Tropical Diseases; em outubro, foi inaugurada a London School of Tropical Medicine, de maior porte.

Fachada da Liverpool School of Tropical Medicine (Miller, 1998,

 

p.32).

Diga-se de passagem que no Brasil, à mesma época, tentou-se criar a cadeira de doenças tropicais nas faculdades de Medicina da Bahia e do Rio, cogitando-se para a última o nome de Francisco Fajardo. (O programa dos cursos oferecidos em Liverpool saiu em O Brazil-Medico, 1.7.1900, p.220-1.) No IV Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia (v.2, p.74), realizado na capital brasileira em junho de 1900, Vitor Godinho e Carlos Seidl, representantes de O Brazil-Medico (22.5.1900, p.173-4) e da Revista Medica de S. Paulo, propuseram que se reivindicasse ao Legislativo a urgente criação de duas cátedras novas naquelas faculdades, uma de patologia e clínica tropicais, a outra de bacteriologia e microscopia clínicas. A proposta foi derrotada por 21 votos contra três, na sessão de 19 de junho (Leão de Aquino, 1945, p.170-1).

Em 1900, os drs. Walter Myers e Herbert E. Durham, da Liverpool School of Tropical Medicine, partiram em expedição ao Brasil para investigar a febre amarela. O encontro com os norte-americanos, em junho, foi uma escala da viagem que resultou na implantação de duradouro núcleo experimental da escola inglesa na Amazônia. Myers faleceria em Belém, a 29 de janeiro de 1901, vítima da

doença que fora estudar.125 Em Havana, conferenciaram com os membros da comissão norte-americana, com o major William Gorgas, que chefiava o Bureau of Inspection of Infectuous Diseases, com Henry R. Carter, do United States Marine Hospital Service, e ainda com médicos cubanos: Finlay, Guiteras (professor da Escola de Doenças Tropicais de Havana) e os drs. Bango e Martinez. Durham e Myers (1900) traziam uma hipótese genérica – a transmissão da febre amarela por um inseto hospedeiro -, que ganhou maior consistência com as informações colhidas em Cuba. No artigo que publicaram em setembro, expressaram ceticismo em relação ao bacilo de Sanarelli, elogiaram as idéias de Finlay e demarcaram incógnitas que deixavam entrever os contornos do hipotético vetor animado. A sensação que se tem com a leitura do artigo é que, se os americanos não tivessem enveredado por esse caminho, a teoria dele teria encontrado sua justificação pelas mãos

dos ingleses, no Norte do Brasil.126

Os estudos de Ross, Grassi e colaboradores tinham ocasionado uma reorientação na abordagem da febre amarela também no Instituto Bacteriológico de São Paulo, o que resultou em graves cisões em sua equipe. Em 1898, Vital Brazil levantou as primeiras objeções experimentais ao bacilo icteróide, e Adolpho Lutz começou a estudar a distribuição dos Culex e Anopheles no país. Em fevereiro de 1900, Arthur Vieira de Mendonça, outro assistente de Lutz, exonerou-se do Instituto. “O mosquito traz nas suas asas o ridículo para a classe médica,” declarou aos jornais paulistas (Antunes et al., 1992, p.64, 67).

Walter Myers: nascido na Grã-Bretanha, em 1872, faleceu em

Belém, no Pará, em 1901, vítima da febre amarela (Olpp, 1932,

S288).

No presente volume, reproduzimos três artigos publicados na Revista Medica de S. Paulo em que Lutz e Mendonça externam seus pontos de vista agora conflitantes a respeito do bacilo descoberto por Giuseppe Sanarelli.

Os trabalhos da comissão chefiada por Walter Reed foram apresentados ao III Congresso Pan-Americano, em Havana, em fevereiro de 1901, ao mesmo tempo que William Gorgas dava início à campanha contra o mosquito naquela cidade (Reed, Carrol & Agramonte, 1901). Um mês antes, as comissões sanitárias que atuavam em Sorocaba, Santos e Campinas incorporaram a sua rotina a supressão das águas estagnadas com larvas de mosquitos. O combate ao transmissor norteou mais explicitamente as medidas adotadas em São Simão. O surto de febre amarela aí teve início em maio de 1902, mas só em agosto começaram os trabalhos da comissão nomeada por Emílio Ribas que, nessa cidade, ainda conciliou as diretrizes da teoria havanesa com as desinfecções. Em Ribeirão Preto (1903) estas foram abandonadas de vez (Franco, 1969, p.64-6).

Em folheto publicado em 1901, com o título O mosquito como agente da propagação da febre amarela, Emílio Ribas dava público e irrestrito aval aos trabalhos da comissão Reed. Embora reconhecesse a necessidade de

maior número de fatos experimentais para concluir, de modo

positivo e seguro, pela teoria de Finlay, de outro [lado] tudo leva

a acreditar que a febre amarela é uma moléstia que se propaga

pelos mosquitos, à maneira do paludismo e da filariose … entre

nós, o Dr. Adolfo Lutz, diretor do Instituto Bacteriológico do

Estado, se tem preocupado com o assunto e continua a fazer

detalhadas pesquisas sobre tão importante questão.

De fato, há tempos este vinha correlacionando a presença de mosquitos com as epidemias de febre amarela no território sob sua jurisdição, e por isso a verificação da teoria do médico cubano não o surpreendeu. A publicação do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo já trazia, sob a forma de encarte, suas primeiras observações sistemáticas sobre mosquitos transmissores de doenças.

A nota de Lutz dizia respeito a duas espécies habitualmente encontradas em domicílios, de ampla distribuição geográfica, mas só uma relacionada positivamente à transmissão da febre amarela. É interessante registrar que, de início, tanto Lutz como Theobald tiveram dificuldade em identificar corretamente a espécie. Em sua

primeira carta ao colega brasileiro, de 28 de abril de 1900,127 o entomologista do Museu Britânico comentou que a ampla distribuição e a nomenclatura específica a cada lugar dificultavam enormemente a identificação de algumas espécies, em especial o Culex taeniatus, mesmo em descrições antigas. Os trabalhos de Ficalbi e Arribálzaga eram citados como subsídios valiosos para esse trabalho. Na resposta a Theobald, Lutz pedia um exemplar daquele Culex para comparar com o que possuía. Alguns meses depois, após receber literatura atualizada, declarou que já dispunha das condições necessárias para determinar suas espécies. Nas considerações enviadas a Theobald sobre o material identificado observou que o C. taeniatus era comum nas casas das zonas litorâneas e de localidades do interior, mas não na capital paulista. Ainda não postulava sua relação com a febre amarela. Somente em carta de janeiro de 1901 informava a Theobald que vinha dando especial atenção àquela espécie porque sua distribuição coincidia com a da doença. No mesmo mês, suas observações foram publicadas por Ribas.

Os termos ‘mosquito rajado’ e ‘pernilongo’ eram usados vulgarmente para designar aqueles dípteros sugadores de sangue. Lutz já estudara no Brasil “umas duas dúzias de espécies,” a maior parte presentes somente nas matas ou em lugares pantanosos, cenários da investigação que concluía sobre a transmissão da malária das florestas. Apenas duas espécies – Culex taeniatus e Culex fatigans – eram ‘inquilinas’ freqüentes das habitações humanas. Embora fossem encontradas em quase todas as regiões com clima adequado, eram espécies “raríssimas” em terrenos incultos e desabitados:

a mais espalhada é o Culex fatigans, o nosso mosquito noturno

comum, encontrado em quase toda parte, por ser menos

sensível ao frio. É transmissor da filariose e de certos

hematozoários de pássaros; considero-o insuspeito na questão

da febre amarela. O Culex taeniatus, pelo contrario, é o único

que se presta a explicar a distribuição da febre amarela porque

sabemos hoje que essa espécie tem sido descrita, sob vários

nomes, em quase todos os lugares onde a febre amarela tem

reinado.

Lutz assinalava sua ocorrência nos Estados Unidos, em Cuba, Buenos Aires, Portugal, na costa meridional e ocidental da África, no Havaí, todos os lugares, enfim, onde a febre amarela já grassara. Não a associou, porém, ao Culex fasciatus, a espécie usada nas experiências feitas pela comissão Reed em Cuba. O zoólogo brasileiro seguia a classificação proposta por Giles (1900), e a que

Theobald lhe enviara em 25 de agosto de 1900.128

Ao criar o gênero Stegomyia, em 1901, Theobald incluiu nele as espécies de Culex relacionadas à transmissão da febre amarela, inclusive o taeniatus e muitos dos sinônimos assinalados por

Lutz.129 A espécie passou a chamar-se então Stegomyia fasciata. Esse mosquito “teve 36 sinônimos desde o ano de 1762, quando Lineu o classificou como Culex aegypti, até 1926, quando Silver o denominou Aedes aegypti, como é hoje conhecido” (Franco, 1969, p.64).

Carta de Frederick Vincent Theobald (1868-1930), do Departamento

de Zoologia do British Museum, a Adolpho Lutz, escrita no lugar

onde ainda trabalhava, o South-Eastern Agricultural College

(Colégio de Agricultura do Sudeste), em Wye, Kent, em 28.4.1900

(BR. MN., Acervo Adolpho Lutz, pasta 267, maço 2). Na carta lê-se:

“Sua carta sobre Culicidae foi reexpedida para mim do Museu

Britânico. Aí nada se havia feito com mosquitos até eu iniciar os

trabalhos há dois meses. Nesse período, terminei os Anopheles e

boa parte dos Culex, mas como a coleção contém milhares de

espécimes, não consigo imaginar a tarefa concluída em menos de

seis meses. Levei então seus espécimes para trabalhar desde logo

com eles, e o informarei assim que tiver terminado. Reina a maior

confusão sobre o assunto, tendo o mesmo inseto, em muitos casos,

sido descrito com meia dúzia de nomes diferentes, simplesmente

porque veio de uma nova localidade. Por exemplo, o Culex taeniatus

Wied. ocorre praticamente em todos os lugares, e em cada país

possui nome diferente, daí a tremenda dificuldade em identificá-lo

em todas as descrições antigas. Na verdade, são de valor sem igual

Ficalbi e Skuse & Arribalzaga. Dois de seus Anopheles considero

novos:

1 – Chamo A. albipes – muito parecido com A. albitarsis Arribal.,

mas com juntas tarsais medianas de cor negra.

2 – Chamo A. lutzii com duas longas faixas escuras no tórax com

pêlos.

3 – Sua terceira espécime é A. albitarsis Arribal.

Entre seus culicídeos, encontrei Culex bigotii Bellardi, uma espécie

grande e atraente.

Culex taeniatus Wied. [desenho do tórax] e outra, enviada pelo

senhor Moreira, é Psorophora ciliata R. Desvoidy. Estou incluindo

seu mosquito de rio, com outros, em um novo gênero, Aegritudines.

Escreverei para o senhor um relato detalhado tão logo houver

terminado. Não sou funcionário do Museu Britânico, apenas estou

cuidando desta parte negligenciada dos trabalhos. Envie

comunicações oficiais para lá. Terei muita satisfação em ver

qualquer espécie nova, uma vez que os curadores do Museu

Britânico pretendem publicar o trabalho como monografia, com

pranchas coloridas, e eu quero que seja a mais completa possível.

Albuquerque (1950, p.11-2) certamente incorre em anacronismo quando diz que já em Campinas, em 1889, Lutz teria “nítida intuição da verdade” no tocante à correlação entre mosquitos e febre amarela. Mas a responsabilidade é do próprio Lutz, que, em artigo publicado em 1903 (“A febre amarela e o mosquito”), depois nas “Reminiscências” (1930), refere-se a observações feitas em 1889, mas não publicadas, provavelmente porque não passavam de suspeitas ainda inconciliáveis com as teorias etiológicas correntes.

“Naquele tempo faltavam todos os elementos para explicar as condições desse modo de transmissão,” lê-se no primeiro texto. Ainda assim, naquele centro cafeeiro, quando foi devastado pela febre amarela, notara “extraordinária abundância do mosquito rajado que bem conhecia do Rio de Janeiro, mas que nunca observei no interior, durante cinco anos de clínica em zona pouco distante de Campinas”. Lutz teria correlacionado, então, a “praga de estegomias” à água parada em tanques nos jardins das casas abandonadas por seus donos. O incômodo fora tão grande que usara mosquiteiro todas as noites e, às vezes, de dia também “para poder ler sossegadamente; naturalmente isso não impedia que eu, em muitas ocasiões, fosse picado” (Lutz, 1930).

Na verdade, é anterior a esse evento sua primeira especulação sobre o papel dos sugadores de sangue na transmissão de doenças. Encontra-se em “Estudos sobre a lepra,” escritos em 1885-1886 e publicados em Monatshefte für Praktische Dermatologie (1887). Ao descrever as lesões primárias da forma nervosa, que poderiam representar “a porta de entrada da infecção,” considerou “um fato impressionante que a primeira localização … se efetue quase sempre nas partes do corpo que se mantêm descobertas e expostas às picadas de insetos e outros traumatismos” (1887, p.549). Lutz já havia observado que a infecção de cada novo caso exigia a preexistência de outro, num espaço determinado, mas as condições necessárias à ocorrência do novo caso eram de tal modo complexas e peculiares – como na febre amarela, diga-se de passagem – que se podia excluir o contágio direto, de pessoa a pessoa. Para explicar a transmissão do mal de Hansen Lutz admitia, ainda hipoteticamente, que o sangue ou as excreções das mucosas dos doentes, contendo o agente infeccioso, requeressem “maturação” no meio exterior ou “uma inoculação direta vulnerante (por exemplo, por meio de insetos que picam)”.

Essa especulação documentada nos leva a dar crédito à afirmação feita em 1903 de que a idéia da transmissão da febre amarela por mosquitos lhe foi “sempre simpática” depois de Campinas. “Como médico e naturalista sempre prestei atenção a esses mosquitos” – escreveu Lutz – “e sabia que eram muito freqüentes no Rio e em Santos, porém muito mais escassos no interior de São Paulo, onde raras vezes se tornaram incômodos nos lugares que tinha conhecido e habitado.”

No texto de 1903, situava no âmbito da própria entomologia as razões para duvidar daquela hipótese: a principal objeção seriam as epidemias de febre amarela nas costas do Mediterrâneo e da África, pois se considerava que o “mosquito rajado” existia apenas nos países americanos. “Foi com grande admiração que, poucos meses depois, observei o mesmo mosquito nas ilhas Sandwich [Havaí], não somente na capital, mas até em plantações distantes desta … Compreendi então que o mosquito rajado era espalhado pela navegação e devia ser encontrado em outros países quentes, mas ainda ignorava a sua existência na Europa meridional”. Isso seria demonstrado por Theobald, no começo do século XX.

Como mostramos no primeiro volume da Obra Completa de Adolpho Lutz, foi no Havaí, onde viveu de novembro de 1889 até meados de 1892, que adquiriu a convicção de que a lepra era transmitida por mosquitos. De acordo com Albuquerque (1950, p.13-4):

Embora nunca se houvesse furtado ao contato direto com os

leprosos não contraíra a moléstia … entre os enfermos que

ingressaram no leprosário, muitos jamais haviam sequer visto

um outro morfético. Tempos houvera mesmo, e não muito

remotos, em que nem a lepra nem os mosquitos existiam em

Havaí. A linguagem indígena não possuía termo que

designasse nem lepra, nem mosquito, apelidando a morféia de

‘doença chinesa’, pois esta só aparecera com a vinda dos

chineses e a cultura do arroz por eles estabelecida. Esta cultura

era feita, como de costume, em valas com água para a

constante irrigação, onde os mosquitos, também procedentes

do estrangeiro, encontraram um excelente micro-hábitat.

Assim, temos razões para considerar legítima a seguinte afirmação feita por Lutz em suas Reminiscências (1930):

Se não tivesse feito as observações já citadas sobre os

mosquitos em Campinas, não me teria sido possível, mais

tarde, logo que recebi por carta as primeiras notícias sobre as

experiências demonstrativas, feitas em Havana, designar sem

hesitação o mosquito culpado entre nós e que não existia na

cidade de São Paulo. Considerei provável que se tratasse da

mesma espécie, embora não usasse o nome empregado pelos

americanos, mas só mais tarde identificou-se a espécie que já

tinha recebido grande número de nomes diferentes. Informei

imediatamente o diretor do Serviço Sanitário, que aceitou a

minha orientação, quando insisti sobre a importância das

verificações feitas em Cuba. Depois de publicar as instruções

necessárias, verificamos em muitos lugares a coincidência de

epidemias de febre amarela com abundância de estegomias.

Essa discussão tem a ver com o papel importante que Adolpho Lutz desempenhou, na virada do século XIX para o XX, na mudança de percepção da febre amarela e na drástica mudança de rumo da saúde pública brasileira. No entanto, uma outra questão importante subjaz ao texto das Reminiscências, escrito em 1928-1929. Fazia água, então, o paradigma que norteara as campanhas de William Gorgas, Emílio Ribas e Oswaldo Cruz, e que levara a Fundação Rockefeller, após a Primeira Guerra Mundial, a almejar a completa erradicação da doença através do combate a seu transmissor em alguns ‘focos chave’ no litoral da América e da África.

Para os médicos da virada do século, a febre amarela era um mal associado aos navios, aos imigrantes europeus, às cidades portuárias, às baixadas litorâneas, quentes e úmidas, que formavam o habitat dos miasmas, depois dos fungos, algas e bacilos, por último do Stegomyia fasciata. A reinfestação de várias cidades litorâneas brasileiras na década de 1920 acarretou a percepção de anomalias no paradigma que se julgava irretocável. Quando a febre amarela reapareceu no Rio de Janeiro, em 1928-1929, ficou claro que seu ‘lugar’ se deslocara para as pobres povoações interioranas de onde provinham os migrantes nativos que agora traziam a doença para as periferias das grandes cidades litorâneas.

As certezas sustentadas de forma inflexível à época de Gorgas, Ribas e Cruz desabaram no vale do Canaã, no interior do Espírito Santo, em 19321933, quando os sanitaristas da Rockefeller chefiados por Fred Soper confirmaram a suspeita de que a febre amarela possuía um ou mais vetores indeterminados, e tinha conexão com o trabalho de homens que se infectavam nas matas.

O mapa epidemiológico que se foi desenhando entre 1930 e 1937 acabou por modificar os termos da equação imperante nas décadas anteriores. A febre amarela silvestre parecia formar grandes manchas endêmicas, interligando regiões e países, e ondas que, de tempos em tempos, por mecanismos de transmissão ainda obscuros, varriam grandes extensões, avançando perigosamente das matas e florestas para as cidades do litoral. Ela parecia ser a modalidade comum da doença, e a urbana, apenas uma manifestação anormal, que tenderia a se extinguir quando se exaurisse a massa de indivíduos não imunes ou quando se erradicasse o Aedes aegypti (Benchimol, 2001).

 

Mapa do estado do Espírito Santo, focalizando o município de Santa

Teresa, onde foram notificados os primeiros casos suspeitos de

febre amarela silvestre, no final de 1930 (Benchimol, 2001, p.144).

Lowy (nov. 1998/fev. 1999) sustenta, com razão, que a derrocada do dogma da transmissão exclusiva pelo Aedes aegypti não teria ocorrido se não houvesse ferramentas que magnificassem a presença do vírus -análises histológicas do fígado de pessoas mortas e testes de proteção com o sangue dos vivos. É preciso acrescentar que essa mudança de ponto de vista também se deveu ao crescente ceticismo dos médicos brasileiros que se insurgiram contra o dogma sustentado pelos dirigentes da Fundação Rockefeller na década de 1920. O fermento da dúvida exacerbou-se com a publicação das Reminiscências de Adolpho Lutz.

Já em 1903, ele admitia que houvesse outros mosquitos capazes de transmitir a febre amarela: “É provável que essa propriedade pertença a todo o gênero de Stegomyia e não somente a uma espécie. Conheço mais duas espécies que pertencem à nossa fauna e que provavelmente devem ser incluídas nesse gênero; felizmente são espécies silvestres, pouco abundantes, que só poderiam causar pequenos focos disseminados”.

No trabalho publicado em 1930, ressaltava a significação de dois focos que observara em fins do século XIX sem relação com estradas de ferro ou vapores fluviais que levavam o Stegomyia fasciata e a febre amarela para o interior. Naqueles focos, a transmissão da doença se devia

provavelmente … a mosquitos de mato, mais ou menos

parentes. Um dos casos do qual tinha apenas informação, se

referia a uma aldeia de índios do Rio Verde. No outro, que

investiguei pessoalmente, tratava-se de febre amarela que

apareceu em alguns ranchos estabelecidos no meio de uma

floresta e habitados por trabalhadores. Estes cortavam o mato,

em preparação para a construção de uma estrada de ferro que

devia ligar Funil a Campinas. Examinei vários ranchos, donde

tinham saído casos de febre amarela, sem encontrar vestígios

de larvas ou adultos de estegomia, não faltando, porém,

mosquitos de mato. O fato é tanto mais interessante que

ultimamente foi verificada na África a transmissão por outros

mosquitos diferentes da nossa estegomia caseira. Esta entre

nós há de ter sempre o papel mais importante e a transmissão

por outras espécies deve ser rara e excepcional, mas não deixa

de ser um problema interessante a verificação de outras

espécies que podem transmitir o vírus.

Estrada de Ferro Carril Agrícola Funilense ou ‘A Funilense’, que

ligava a ‘Fazenda Funil’, no Núcleo Colonial Campos Salles

(Cosmópolis), a Campinas. Fonte: www.cosmopolisemrede.com.br,

acesso em 22.6.2005.

Na nota publicada em 1901, Lutz já não tinha dúvidas sobre a freqüência do Culex taeniatus no Rio de Janeiro, em Santos, em Campinas, Casa Branca e Sorocaba. Na capital paulista, considerada isenta de febre amarela, nunca o tinha encontrado nas casas onde morara, mas recentemente vira-o

até com bastante abundância em pontos circunscritos desta

cidade, o que explicaria certas epidemias limitadas a poucas

ruas. Conquanto lá todos os moradores adoecessem, não há

exemplo de ter sido acometido o pessoal dos bondes que

continuamente percorriam essas ruas. Os simples transeuntes

não eram acometidos, mas bastavam, às vezes, algumas horas

passadas nas casas infectadas, seja de dia, seja de noite, para

contrair a moléstia … Todavia, não se deve supor que a

freqüência ou raridade desta espécie em um lugar dado seja

uma causa absoluta e definitiva. Pelo contrário, pode variar

bastante, conforme a estação e a facilidade de procriar.

Também pode ser introduzida em um lugar previamente imune,

como aconteceu nas ilhas Sandwich em data recente e

conhecida.

 

Experiências de Lutz e Ribas em São Paulo

Em fins daquele ano, os diretores do Instituto Bacteriológico e do Serviço Sanitário de São Paulo obtiveram do presidente do estado, Francisco de Paula Rodrigues Alves, autorização para reproduzir lá as experiências feitas pelos norte-americanos em Cuba. O objetivo era neutralizar as reações à ‘teoria havanesa’ articuladas sobretudo por médicos alinhados com o bacilo de Sanarelli e outros micróbios.

Antes de elas começarem, Adolpho Lutz viajou para o Rio de Janeiro, mais de uma vez, para obter mosquitos e fazê-los picar casos leves de febre amarela. Hospedava-se na rua Mariz e Barros n° 36, onde funcionava o colégio mantido pelas irmãs. Em carta a Emílio Ribas, de 25 de junho de 1902, reclamava das chuvas, do calor e do tempo que perdia nos bondes a percorrer grandes distâncias – para chegar, por exemplo, ao Hospital São Sebastião, no bairro do Caju, onde acompanhava três doentes “dos quais obtive alguns mosquitos chupados. Dois ontem iam regularmente bem e um estava muito mal”. A epidemia que começara em dezembro de 1901 seguia fazendo vítimas, e continuavam a entrar “casos graves”. No Rio de Janeiro, tinha havido aquele ano muitos mosquitos; “agora estão mais raros e as larvas desenvolvem-se com vagar”. Lutz poderia estar se referindo à criação feita num pavilhão do Hospital São Sebastião pela missão médica francesa (à qual logo retornaremos), mas é pouco provável, já que não tinha conseguido se encontrar com um de seus integrantes, Paul-Louis Simond, “por causa dos dois dias feriados”. É mais provável que os mosquitos estivessem sendo criados pelo próprio Lutz no laboratório bacteriológico da Diretoria Geral de Saúde Pública, que funcionava na rua Visconde do Rio Branco no 56, sob a direção de Emílio Gomes. Era para lá que seu ajudante Carlos Meyer devia enviar exemplares do Stegomyia fasciata retirados do plantel mantido no Instituto Bacteriológico de São Paulo. “Precisamos muito de mais mosquitos” – escreveu Lutz. Ia visitar Manguinhos em companhia de Oswaldo Cruz naquele mesmo dia, e ficaria na capital federal “até segunda-feira da semana que vem” – ou seja, mais cinco dias, pois a carta foi escrita numa quarta-feira.

Em agosto de 1902, Lutz regressou ao Rio de Janeiro e, no dia 30, deu livre curso à sua frustração:

Não tenho mais esperança de encontrar um caso em condições

favoráveis porque nestes últimos dias não houve mais entradas

e nas enfermarias só existem dois casos de caquexia

consecutiva à febre amarela. O caso em que apliquei os

mosquitos não era de febre amarela, mas de influenza … O

tempo ultimamente tem sido sempre fresco, os mosquitos são

raríssimos e não encontrei uma só Stegomyia … Aqui não se

pode fazer nada de útil e seria mais fácil voltar para aqui

quando aparecerem os primeiros casos da nova estação que

são esperados mais ou menos num mês desta data. Também

não andei preparado para uma ausência tão longa.

Hospital São Sebastião, Pavilhão de Mulheres (Acervo Musée de

l'Institut Pasteur, MP31335).

Nessa carta, Lutz refere-se ao trabalho que vinha tendo para manter vivos os espécimes capturados no Rio:

Ainda tenho bastante, somente fui obrigado a alimentá-las. Por

isso pode ser que não queiram chupar imediatamente um caso

[quando] se apresentar. Alguns conservo sem alimento mas

destes sempre morrem alguns. Sinto muito não ter arranjado

nada. Se quiser que empreste mosquitos dos franceses ou que

demore mais, peço mandar um telegrama bem cedo na manhã

de segunda-feira.

Naquele mesmo dia, quando o auxiliar Getulino se preparava para regressar a São Paulo, com despachos de Lutz, este recebeu mensagem de Ribas alusiva a outra pergunta que lhe fizera sobre a missão francesa. Lutz reabre a carta e acrescenta este pós-escrito: “Não falei ainda com o dr. Simond sobre o assunto porque esperava as suas direções; se até segunda-feira não aparecer caso tratarei com ele nas condições mencionadas o que provavelmente não causará dificuldade. Ele já me ofereceu mosquitos”.

No Fundo Adolpho Lutz do Museu Nacional encontra-se uma terceira carta de Lutz a Ribas, datilografada nos anos 50, à época em que Bertha Lutz organizava o arquivo do pai para as

comemorações do centenário de seu nascimento.130 Está datada de 28.II.1902, mas tudo indica que o dati-lógrafo registrou como fevereiro o que devia ser novembro. Tal dedução provém de um comentário de Lutz: “A epidemia está declinando, mas ainda há casos”. Em fevereiro de 1902, ela chegava ao auge, com a média diária de dez internações no Hospital São Sebastião.

Entretanto, caso a carta tenha sido escrita em 28 de novembro, significa que a última estada de Lutz no Rio de Janeiro ocorreu às vésperas do início das experiências em São Paulo. Era uma sexta-feira, e ele prometia “voltar com o noturno de segunda-feira chegando em S. P. terça-feira de manhã”.

Um desinfetador do Serviço Sanitário paulista acabara de lhe trazer mosquitos que “chegaram vivos, mas o maior número são machos que não dão resultado”. Lutz esperava que Ivo Bandi lhe trouxesse mais. Os que tinha conseguido infectar estavam vivos e bem, e o bacteriologista de São Paulo se refere a eles em termos que denotam a expectativa de seu uso iminente: “Os 4 do primeiro caso serão bons em poucos dias; o doente já sarou tendo tido um ataque característico completo, mas sem gravidade. Temos alguns de mais 2 casos dos quais um leve, outro fatal e tenho eles separados”.

Continuar: parte 6 de 8