Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Apesar desses inconvenientes e de dificuldades intrínsecas ao próprio instrumento, conseguiram discernir no soro sangüíneo de doentes um corpúsculo mínimo, de forma ora arredondada, ora ovalada, e de tamanho cem vezes menor que um glóbulo vermelho de sangue. Ora apareciam no campo de visão em número relativamente pequeno, ora preenchiam-no completamente. Atribuíram isso ao peso dos corpúsculos, que desceriam ao fundo do líquido à semelhança das bactérias, deixando, assim, seu campo de visão. Somente às vezes pareciam obedecer a um movimento próprio.
Não convencidos da especificidade daqueles pequenos elementos corpusculares, examinaram o soro de pessoas saudáveis e de pacientes acometidos por outras doenças. Constataram a presença de corpúsculos totalmente diferentes.
O resultado insatisfatório de nossas pesquisas fez com que
pensássemos em procurar por um líquido no corpo, em que se
pudesse supor a presença do agente patológico, mas que, por
outro lado, fosse mais adequado para a pesquisa do que o soro
sangüíneo … O único que correspondia a essas condições,
devido à carência de sais e de albumina, era o líquido cérebro-
espinhal, o qual, ao que nos consta, foi pesquisado, na febre
amarela, pela primeira vez por nós.
Esta escolha certamente tinha relação com as pesquisas de Schaudinn sobre a sífilis, doença com notórias manifestações neurológicas.
Procederam à punção lombar e repetiram os exames com o ultramicros-cópio. No líquido não centrifugado viram, pela primeira vez, formações pequeníssimas, muito delicadas; diferentemente das formas encontradas no soro sangüíneo, movimentavam-se com muita vivacidade, lembrando borboletas a percorrer trajetórias irregulares, em ziguezague.
Filtraram, então, o líquido cérebro-espinhal através de
um dos filtros mais estreitos (Chamberland F), que o senhor Dr.
Marchoux gentilmente cedeu para os nossos trabalhos … o
microscópio permitiu reconhecer, aqui também, aqueles
minúsculos elementos citados. Reexaminando mais uma vez o
soro sangüíneo não filtrado e o filtrado desse doente,
conseguimos descobri-los ali também. Talvez nos tivessem
escapado anteriormente por causa de seu número reduzido.
Entusiasmados, passaram ao experimentum crucis: puncionaram um paciente com varíola e “uma pessoa negra que se encontrava, por acaso, no hospital”. Para sua surpresa e decepção, no líquido daqueles dois controles havia corpúsculos muito parecidos com os que tinham visto.
No relatório publicado em 1906, deixavam indefinido o significado patológico daquele achado.
Até agora não está claro o que podem significar … quem
poderia afirmar que as partículas vistas nos pacientes de febre
amarela não são diferentes das dos pacientes com varíola, ou
de sadios? O ultramicroscópio, infelizmente, não é decisivo …
Quaisquer outros elementos corpusculares capazes de
provocar certa suspeita … não puderam ser confirmados por
ele. Espirilos, tripanossomos e formações semelhantes não
poderiam nos ter escapado, porque os minúsculos espirilos da
epidemia das galinhas, descrita por Marchoux [1903], usados
para comparação, impressionavam pelas formações
extraordinariamente grandes.
Fica em suspenso se o ultramicroscópio será capaz de
solucionar a questão em outras doenças com agentes ainda
desconhecidos, ou na retomada das pesquisas sobre a febre
amarela.
Somente três décadas depois surgiriam equipamentos capazes de tornar visível o agente etiológico da febre amarela, já inequivocamente relacionado a um vírus desde 1927, quando três investigadores da Fundação Rockefeller – Adrian Stockes, Johannes A. Bauer e N. Paul Hudson – conseguiram infectar macacos Rhesus (gênero Macaca) na África Ocidental Francesa. Rápida sucessão de trabalhos realizados por virologistas daquela instituição culminariam na produção de uma vacina eficaz, em fins dos anos 30, desempenhando o Brasil, novamente, papel central nesse processo (Benchimol, 2001).
Macaco (rhesus) com erupçã cutânea da sífilis (Kolle & Hetsch,
1918, fig. 1).
Dr. Hideyo Noguchi (1876-1928) (Olpp, 1932, S299).
Porém, antes disso (1918-1926), outro germe desfrutou de notoriedade tão grande quanto o de Sanarelli: o Leptospira icteroides, um espiroqueta incriminado por Hideyo Noguchi (1876-1928), bacteriologista da Rockefeller que se notabilizara por haver conseguido cultivar in vitro o agente da sífilis, autor de trabalho fundamental sobre o sorodiagnóstico dessa doença.
Voltemos a Simond, Marchoux e Salimbeni. Os resultados que alcançaram nos primeiros meses de atividade no Rio de Janeiro
ficaram aquém do espera-do,143 e essa impressão era acentuada pela publicidade dada aos resultados obtidos por outras equipes constituídas após a divulgação dos trabalhos de Reed e colaboradores. “Todas as nossas tentativas de infectar os mais variados animais de laboratório … permaneceram infrutíferas” – escreveram. “Não nos restava portanto outra alternativa senão empregar o método tão brilhantemente inaugurado pelos americanos e continuado com não menos sucesso no Brasil mesmo, quer dizer, a experimentação no homem” (apud Tran, 1998, p.59).
Na primeira memória que publicaram, consta que os voluntários arregimentados foram prevenidos dos riscos que corriam, em presença de testemunhas, e todos concordaram em se submeter aos experimentos. Tran (1998) põe em dúvida essa afirmação. Na documentação recolhida ao Instituto Pasteur de Paris não encontrou nenhum vestígio do “consentimento esclarecido”. Em sua opinião, aqueles imigrantes recém-chegados do velho continente, em sua maioria muito pobres, não tinham noção do perigo que corriam ao se deixarem picar por mosquitos infectados e, mesmo que estivessem conscientes dele, aceitaram-no por razões financeiras. Reed pagara generosamente seus homens de experiência (até cem dólares ouro per capita). Marchoux e Simond teriam feito o mesmo. Um dos cadernos de experiências deste faz menção a “indivíduos a
pagar” na página onde consta uma lista com 24 nomes. 144
Partira de Roux, em 1902, a sugestão de que procedessem a ensaios de soroterapia com soro de convalescentes.
Vocês deveriam também experimentar o sangue de
convalescente de febre amarela grave em doentes. Se o soro
se mostrar ativo, não hesitem em injetar grandes quantidades
de sangue virulento num cavalo para depois testar seu soro.
Se conseguissem alguma coisa nessa direção, isso deporia em
favor de uma bactéria. Em minha opinião, repito-o mais uma
vez, a sólida imunidade conferida por um ataque da doença me
parece bastante favorável à idéia de uma bactéria … Que pena
que não podem fazer experiências com h. [homens] de boa
vontade, como em Cuba. (apud Tran, 1998, p.58)
As experiências com homens tiveram início por volta de março de 1903. Ainda transcorriam aquelas encenadas por Ribas e Lutz em São Paulo. As de Simond e Marchoux foram realizadas com o aval de Oswaldo Cruz e Carlos Seidl, em Petrópolis, região isenta de febre amarela como a capital paulista, ficando as cobaias humanas ao abrigo de qualquer contágio acidental que falseasse os resultados.
Os três primeiros casos serviram apenas para verificar as conclusões da comissão norte-americana, e as que Lutz comunicara a Simond: “Les expériences de San Paulo … prouvent ce que vous avez probablement observe vous même que l'infection s'obtient facile-ment si les conditions nécessaires son observées. Je vous serai obligé de vouloir expliquer cela à Mrs. Metchnikoff et Roux” – escrevera o diretor do Instituto Bacteriológico, em janeiro de
1903. 145
Simond e Marchoux logo se voltaram para as experiências concernentes à infecção e imunização (Salimbeni acabara de
regressar à França).146 Em 23 de março de 1903, Daniel Silva recebeu uma injeção de sangue contaminado e desfibrinado, colhido 14 dias antes; cinco dias depois aplicaram-lhe nova dose; em seguida uma injeção de soro virulento desencadeou a doença. Os dois médicos concluíram que a inoculação de sangue velho não conferia imunidade (Tran, 1998, p.61). Em 29 de março, J. Ralf e M. Hofer receberam, cada um, três injeções de soro de doentes aquecido a 55°C; dias depois, soro virulento. Ralf desenvolveu uma febre amarela benigna, Hofer permaneceu incólume. A experiência não permitia saber se o soro virulento aquecido possuía propriedades preventivas, ou se Hofer adquirira a imunidade à doença anteriormente.
Retrato de Oswaldo Gonçalves Cruz com dedicatória de seu próprio
punho, em abril de 1905 (Acervo Musée de l'Institut Pasteur,
MP31322).
Em abril, maio e junho, Marchoux e Simond testaram diferentes preparações em cerca de 25 voluntários com idades variando entre 16 e 38 anos, em sua maioria imigrantes alemães, portugueses e italianos chegados ao Brasil menos de seis meses antes, com forte probabilidade, portanto, de não serem imunes à febre amarela. Além de soro virulento aquecido ou envelhecido, e de soro virulento filtrado em vários aparelhos, experimentaram soro de convalescentes. Este, quando aplicado em pacientes nos primeiros dias da doença, pareceu melhorar seu estado. Simond contabilizou sete sucessos e quatro insucessos (ibidem, p.61-2).
Os resultados das tentativas de vacinação preventiva foram mais contraditórios, segundo Tran (1998). Ora os pacientes permaneciam saudáveis, ora desenvolviam a febre amarela. A maior parte dos experimentos acarretava episódios febris simples, difíceis de diagnosticar inequivocamente. E sendo tênues os sintomas, deviam concluir que fracassara a vacinação ou que houvera imunidade relativa? (p.62). A interpretação dos resultados tornava-se ainda mais incerta pela falta de grupos de controle. Simond e Marchox alegavam que não podiam se dar a esse luxo com homens em experiência.
Na manhã do dia 18 de junho de 1903, Raymondo Geronimo, um italiano de 38 anos, descia de Petrópolis para o Rio de Janeiro pelo trem de 7h30. Sentia-se muito indisposto e, ao chegar à Raiz da Serra, desceu do vagão com sua mala e começou a caminhar pelos trilhos na direção contrária, como se quisesse regressar à cidade serrana. Caminhou algumas centenas de metros, deteve-se e tombou desfalecido. Os empregados da estação o carregaram até a gare, onde faleceu ao cabo de algumas horas (ibidem, p.63).
Geronimo era uma das ‘cobaias’ de Simond e Marchoux. Seis dias antes recebera uma injeção de soro virulento, aquecido 15 minutos a 48°C. No dia 18, às 6 horas da manhã, faleceu também S. Bordach, jovem hamburguês de 23 anos chegado ao Brasil um mês antes. Em 10 de junho, fora picado por dois Stegomyia infectados e caíra gravemente enfermo quatro dias depois. A terceira vítima fatal foi Heinrich Falk, jovem bávaro de 23 anos chegado ao Rio em 1° de junho. No dia 10, em Petrópolis, recebera 1 cc. de soro virulento passado em filtro de Chamberland, sem diluição. Caiu doente seis dias depois e morreu em 20 ou 21 do mesmo mês. Parece ter havido uma quarta vítima, na mesma data: Lippe, um homem de 34 anos vindo de Westfália: seu nome aparece ao lado dos outros três num caderno de notas de Simond (ibidem, p.62).
Nem ele nem Marchoux fizeram qualquer alusão aos acidentes nos relatórios oficiais da missão publicados nos Annales de l'Institut Pasteur. As experiências não foram completamente desativadas porque em 1905, como vimos, ainda utilizariam um voluntário humano para comprovar a transmissão hereditária do vírus amarílico entre mosquitos.
A cumplicidade das autoridades sanitárias brasileiras é demonstrada inequivocamente pela carta que Oswaldo Cruz enviou a Emílio Ribas em 20 de julho de 1903. Em meio ao balanço dos resultados alcançados pelos franceses, comentou:
Quanto à experimentação no homem verificaram:
Que o Stegomyia transmitia a moléstia típica. Tendo havido
infelizmente 3 casos de morte por febre amarela experimental
clássica, com anuria, vômito preto, icterícia, albuminúria etc.
sendo os casos verificados pela autópsia, tendo sido
encontradas todas as lesões características … Um dos doentes
que sucumbiu à febre amarela foi picado por dois únicos
mosquitos dos quais um quase não sugou. Peço-lhe a mais
absoluta reserva sobre esses casos terminados pela morte e
que foram feitos sob minha exclusiva responsabilidade.
Compreende meu caro amigo como a imprensa nossa
adversária exploraria o fato se dele tivesse conhecimento.
Essas experiências foram categóricas, assim como as outras
em que o cortejo sintomático foi o mais categórico possível.147
No mar revolto das práticas sanitárias
Nuno de Andrade, antecessor de Oswaldo Cruz na Diretoria Geral de Saúde Pública, externara muitas dúvidas a esse respeito no Jornal do Commercio (24.8.1902) e na Revista Medica de S. Paulo (1902). A descoberta dos norte-americanos acrescentava um elemento novo à profilaxia da febre amarela, mas não reunia ainda elementos de convicção suficientes para desalojar as práticas de desinfecção e saneamento do meio. A doutrina havanesa estava calcada na do impaludismo. Nenhuma aceitava o micróbio livre no meio exterior, e ambas restringiam ao homem e ao mosquito todos os fios do problema. “Confesso que a hipótese da inexistência do germe da febre amarela no meio externo me perturba seriamente,” declarou Andrade, “porque os documentos científicos e a nossa própria observação têm amontoado um mundo de fatos que serão totalmente inexplicáveis se as deduções da profilaxia americana forem aceitas na íntegra”.
Andrade apontava experiências decisivas que não tinham sido feitas para excluir percursos alternativos do germe. Os americanos tinham demonstrado que os objetos contaminados não transmitiam a doença diretamente; mas não provaram que não transportavam o germe. Nenhuma experiência anulara a possibilidade de que mosquitos sãos se infectassem nos objetos conspurcados para, em seguida, inocular a doença no homem. Ninguém investigara as possíveis propriedades infectantes dos dejetos do Stegomyia. Na ausência dessas provas, a fórmula profilática continuava a reclamar “o objeto contaminante” como termo das equações.
A indeterminação do micróbio deixava a teoria da transmissão exposta a outros questionamentos perturbadores. “O que mais impressiona nessa etiologia escura da febre amarela é que o sangue injetado pela seringa transmite a moléstia imediatamente … mas sugado pelo mosquito só se mostra infectante ao cabo de uns 12 dias!” A explicação fornecida pelos norte-americanos apoiava-se em uma analogia, não em provas experimentais. Supunham que o micróbio desconhecido sofria no organismo do Stegomyia transformações semelhantes às ocorridas com o plasmódio da malária no Anopheles. O paralelismo parecia arbitrário. A circunstância de serem os mosquitos hospedeiros de ambos os germes não implicava a identidade de seus ciclos vitais. A invisibilidade do micróbio, aliada ao desconhecimento do que se passava naquele intervalo entre a contaminação do mosquito e o aparecimento de sua capacidade infectante, enchia a doutrina havanesa de sombras, não no tocante à transmissão pelo Stegomyia – isso Nuno de Andrade considerava fato provado -, mas quanto às deduções profiláticas que se podiam extrair deste fato. Tampouco encarava a guerra ao mosquito em Cuba como evidência do modo exclusivo de propagação postulado pelos americanos. Constituiria “obra de remate” dos melhoramentos materiais que as autoridades militares tinham executado antes. Com disciplina, severidade e implacável rigor contra os sonegadores de doentes, retificaram o litoral de Havana, dessecaram pântanos, construíram esgotos, distribuíram água potável em profusão, implantaram a iluminação elétrica, sanearam prisões, construíram hospitais, intervieram nas habitações, limparam os mercados e calçaram todas as ruas da cidade. Não era descabido supor que aquelas intervenções tivessem contribuído, em larga medida, para o êxito atribuído apenas à guerra aos mosquitos.
A doutrina havanesa, pois, na parte que exclui o germe
amarílico do meio exterior é um postulado ou uma interrogação;
não autoriza a profilaxia exclusiva que os americanos
recomendam nem tem a força para impor o desprezo, por
enquanto, dos atuais processos da higiene defensiva … a
fórmula profilática deve ser complexa, isto é, abranger todos os
processos da profilaxia em uso e mais os que derivam da
transmissibilidade da febre amarela pelo Stegomyia. Adição e
não substituição.
Em São Paulo, também, aquela teoria encontrava ferrenhos adversários. Arthur Vieira de Mendonça continuou a defender o bacilo icteróide, e seus argumentos calavam fundo na opinião pública por ser justamente um bacteriologista que até pouco antes gozara da confiança de Adolpho Lutz. Trabalhara no Instituto Bacteriológico desde sua fundação, tendo sido subdiretor depois que Lutz assumiu a direção deixada por Le Dantec. Além disso, Mendonça era um dos fundadores da Revista Medica de S. Paulo, juntamente com Victor Godinho, e presidiu a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo no momento mais crítico daquela
controvérsia (1903-1904).148 Outro assistente de Lutz, Ivo Bandi,
atuaria em favor do bacilo de Sanarelli. 149 Em 1903, quando eram divulgados os resultados das experiências realizadas no Hospital de Isolamento, Mendonça publicou em livro (1903) as cartas, artigos e relatórios escritos por ele e por outros adversários da teoria da transmissão da febre amarela pelo mosquito.
Somando os casos de Finlay, da comissão norte-americana e
de São Paulo, temos um grande número de doentes em que a
moléstia não se define, os sintomas sempre apagados, sem
expressão e no entanto querem que a classe médica aceite o
diagnóstico de febre amarela … Nunca o Rio de Janeiro esteve
em condições tão favoráveis, como agora, para se libertar da
febre amarela. A presença do Engenheiro Passos na Prefeitura
dá garantia certa do melhoramento dos domicílios e dos
melhoramentos gerais da cidade, e se isso fosse acompanhado
do isolamento hospitalar sistemático e das desinfecções, em
pouco tempo a febre amarela estaria eliminada, como foi em
Santos e Campinas.
No entanto, foi dada preferência à guerra ao mosquito, que não
foi eficaz em uma pequena cidade como S. Simão, o que se há
de esperar dela em uma grande cidade como o Rio de Janeiro!
(Mendonça, 1903, p.136, apud Almeida, 2003, p.252-3)
As controvérsias sobre a teoria havanesa condensaram-se no V Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado no Rio de Janeiro de 16 de junho a 2 de julho de 1903, justamente quando Oswaldo Cruz abafava as mortes decorrentes das experiências da missão francesa. Os partidários da teoria de Finlay tudo fizeram para transformar aquele Congresso num tribunal que a sacramentasse.
Na realidade, ninguém se levantou para afirmar que o mosquito não transmitia a febre amarela. Os adversários definiam-se como “não convencidos” ou “não unitaristas”. Eram intransigentes na defesa das desinfecções e do saneamento do solo, que os exclusivistas queriam anular.
No primeiro grupo sobressaíram, além de Ivo Bandi, Jorge Pinto, chefe dos serviços sanitários do estado do Rio de Janeiro, e Pacífico Pereira, figura de proa da Escola Tropicalista Baiana, que
não compareceu, mas cuja memória foi lida no Congresso.150 Os mais destacados “exclusivistas ortodoxos” ou “unitaristas” foram Felicio dos Santos, “velho e experiente” clínico baiano, dono da Casa de Saúde São Sebastião, no Rio, e os drs. Plácido Barbosa e Carneiro de Mendonça, da Saúde Pública carioca.
Os médicos de São Paulo tiveram participação decisiva. Carlos Meyer e Arthur Palmeira Ripper leram no Congresso o relato das experiências realizadas no hospital de isolamento daquele estado e uma comunicação do diretor de seu Serviço Sanitário, e suas
conclusões balizaram as deliberações votadas no final. 151 Na sessão de encerramento, deliberou-se que o VI Congresso teria lugar em São Paulo, sob a presidência de Emílio Ribas, e uma delegação do V Congresso acompanhou os paulistas até a estação ferroviária, para aclamá-los na hora da partida.
O resultado daquela negociação de natureza política em torno da questão de natureza científica – a verdade e o erro sobre a transmissão e profilaxia da febre amarela – converteu a estratégia de Oswaldo Cruz em diretriz endossada oficialmente pela corporação médica. É claro que o veredicto ficou aquém do que desejava o comando da campanha anticuli-cidiana, a qual precisou ser negociada em muitos outros fóruns, dentro e fora do país: o Congresso, a imprensa, associações de classe, instituições vinculadas à ciência internacional, instâncias diversas, conflitantes, do aparelho de Estado e o próprio povo da cidade, a quem foram dirigidos sucessivos “conselhos” elaborados com o intuito de difundir as novas crenças e produzir novo senso comum a respeito de questões capitais da saúde coletiva e individual. O Congresso de Medicina e Cirurgia foi, assim, apenas uma engrenagem da maquinaria política subjacente à campanha contra a febre amarela, que já estava nas ruas. As ações decorrentes da teoria havanesa iam sendo implementadas concomitantemente às negociações envolvendo a obtenção de instrumentos legais, rearranjos institucionais, dinheiros, consentimentos e avalizações simbólicas. Tais negociações, que consumiram todo o ano de 1903 e parte do de 1904, eram feitas a reboque de acontecimentos que tinham abrangência muito maior do que a febre amarela, ainda que fosse ela a condição sine qua non do saneamento da capital da República. Pode-se dizer que todas as zonas e camadas, todos os seres, todos os elementos móveis e imutáveis, recentes ou seculares da cidade foram atropelados pelas iniciativas do diretor-geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, do prefeito Francisco Pereira Passos e de outros agentes do saneamento e remodelação urbana da capital brasileira, durante o governo do presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves (1902-1906). As fricções, as injustiças, as demolições, a prepotente ingerência dos poderes públicos na vida privada dos habitantes do Rio de Janeiro elevaram a temperatura social a níveis que nunca alcançara, até a eclosão da Revolta da Vacina, em novembro de 1904.
Bonde virado na praça da República, Rio de Janeiro, durante a
Revolta da Vacina. A Revista da Semana, 27.11.1904 (Carvalho,
1987).
Foge a nosso objetivo narrar os conflitos que marcaram aqueles anos (a esse respeito ver Benchimol 1992, 2003; Chalhoub, 1996; Carvalho, 1987). Contentamo-nos com sublinhar algumas mudanças no padrão de repetição dos acontecimentos.
Ao defender a inclusão do combate ao mosquito à fórmula profilática já conhecida da febre amarela, em 1902, Nuno de Andrade definiu seu encaminhamento como “um mundo de trabalhos e mil mundos de lutas!” (Revista Medica de S. Paulo, p.325). A redução da fórmula às equações necessárias para romper só alguns elos da cadeia infecciosa pressupunha maneira de pensar diferente. A palavra ‘vetor’, muito usada naquele contexto pelo grupo de Oswaldo Cruz, continha e veiculava a noção geométrica que logo nos vem à mente, de um segmento de reta orientado para alvos bem precisos.
Rio de Janeiro na década de 1910. A Avenida Central, atual Rio
Branco, foi construída no governo de Rodrigues Alves por uma
comissão chefiada por Paulo de Frontin, ao mesmo tempo em que o
prefeito Pereira Passos cuidava de outras frentes do
‘embelezamento’ urbano, e Oswaldo Cruz, do saneamento da
cidade. O eixo desse monumento da Belle Époque, projetado
segundo o modelo haussmanniano, foi inaugurado em 1904, ligando
o novo cais do porto à Avenida Beira Mar, por sobre os escombros
da velha cidade colonial. Coleção Gilberto Ferrez. Foto: Marc Ferrez
(Parente & Monte-Mór, 1994, p.59).
Em perspicaz análise da revolução pasteuriana, Bruno Latour (1984, 1987) substituiu o suposto antagonismo entre a velha higiene dos miasmas e a nova ciência dos micróbios pela imagem da retificação do curso de ação dos velhos atores à luz da estratégia proposta pelos novos, realizando-se uma ‘tradução’ recíproca de interesses vantajosa para as metas que uns e outros perseguiam. A velha higiene tinha como característica a desmedida ambição: cada doença que se propunha a vencer requeria batalhas num leque amplíssimo de frentes, contra as forças da natureza, contra a topografia das cidades, contra os mais variados componentes da vida urbana. De posse dos micróbios específicos a cada doença, os pasteurianos teriam assinalado as batalhas prioritárias, “os pontos de passagem obrigatórios,” capazes de conduzir as hostes da higiene às vitórias que tanto almejavam. Essa imagem, muito sedutora, ajuda a pensar, ainda que seja fruto de uma depuração de acidentes, erros e contradições que tornam as batalhas realmente travadas muito mais confusas, ingovernáveis, com desfechos nem sempre favoráveis.
Os esforços que fizeram os crentes de Pasteur no Brasil para equacionar a febre amarela à luz de micróbios específicos não eliminaram o caráter plural da estratégia de luta contra a doença, mesmo no caso de Domingos Freire, que apontou para ela a seringa armada de seu profilático. Pode-se argumentar que estavam errados, mas isso só invalida os pontos de passagem que demarcaram. A lógica da construção e validação das teorias microbianas redundava na convalidação, na reiteração da maioria das certezas produzidas por clínicos e higienistas. A retificação de curso e mentalidade só apareceu sob a forma descrita por Latour quando Oswaldo Cruz assumiu a direção da Saúde Pública. As diferenças são visíveis na definição de um número limitado de doenças a atacar, na focalização dos vetores da febre amarela e peste bubônica e na ênfase à vacina, que não foge à imagem de um ponteiro direcionado para flanco específico da varíola.
Essas setas orientaram a ação das brigadas sanitárias de Oswaldo Cruz, conferiram nitidez a sua ação no contexto caótico, tumultuário, do embelezamento e saneamento do Rio de Janeiro. Conseguimos discernir suas trajetórias singulares por sobre ou em meio à ofensiva comandada paralelamente pelos engenheiros contra muitos dos alvos que a higiene viera sinalizando no século anterior (e que os sanitaristas agora julgavam irrelevantes). As ligações que foram desfazendo ou costurando as campanhas sanitárias de Oswaldo Cruz no tecido social e urbano que se esgarçava puseram em relação, movimento ou conflito uma multidão de atores que não estavam previstos no momento em que a nova estratégia era apresentada, na simplicidade de suas correlações experimentais, no V Congresso Brasileiro e Medicina e Cirurgia. O tumulto tragou a vacina, a peste foi subjugada, a febre amarela desapareceu só momentaneamente do Rio de Janeiro.
Adolpho Lutz e os microsporídeos
Tendo, desde o início, a intenção de estudar hematozoários de animais, Paul-Louis Simond fizera a Oswaldo Cruz “as mais merecidas referências” ao último trabalho de Adolpho Lutz sobre hematozoários de ofídios. Ele e Marchoux teriam dito que fatalmente iriam a São Paulo e, com “o máximo prazer,” encontrariam “o amigo que já conhecem muito pelos trabalhos publicados”. Essas informações foram transmitidas a Lutz em 20 de novembro de 1901, cerca de duas semanas após o desembarque no Rio da missão do Instituto Pasteur. Oswaldo Cruz ainda era um simples técnico do Laboratório Soroterápico de Manguinhos, onde cuidava da preparação do soro e da vacina contra a peste bubônica. Somente em dezembro de 1902 substituiria Pedro Affonso na direção daquele estabelecimento. A viagem dos franceses a São Paulo não aconteceu, e apenas em novembro de 1902 Lutz teria a oportunidade de encontrar pessoalmente Simond, quando veio pela segunda vez ao Rio buscar estegomias infectadas. Em carta escrita em 9 de março de 1903 – duas semanas antes de Cruz se tornar diretor-geral de Saúde Pública – Simond declarou:
Li com o mais vivo interesse o relato das experiências que o
senhor realizou com a ajuda de alguns médicos de São Paulo.
São da maior importância já que é a primeira vez que se
confirma, fora de Havana, o papel do mosquito na febre
amarela … Não foi menor o meu interesse por seus outros
trabalhos sobre as pebrinas e sobre as plantas silvestres que
hospedam as larvas de mosquitos. O senhor Foeterlé me
entregou um exemplar dessa última publicação pela qual lhe
agradeço vivamente. Se me decidir a fazer uma viagem a São
Paulo, terei o cuidado de preveni-lo para estar seguro de
encontrá-lo em seu laboratório. Inútil vos dizer que gostaria de ir
rigorosamente incógnito e para visitar somente o senhor. (BR.
MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 174, maço 1)
Essa carta não acrescenta muito mais ao que já sabemos sobre as investigações que o remetente fazia a respeito do papel que um microsporídio poderia ter na etiologia da febre amarela. Ela é particularmente esclarecedora no tocante aos rumos que tomava o destinatário. Lutz acabou de escrever “Waldmosquitos und Waldmalaria” em 16 de setembro de 1902. Em junho encontrava-se no Rio de Janeiro a coletar estegomias para as experiências que iam começar em dezembro. Naquele mesmo ano, em parceria com Alfonso Splendore, Lutz publicou o primeiro trabalho de uma série de três sobre pebrina e microsporídios. Fê-lo num periódico alemão-CentralBlatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten – elegendo, portanto, uma rede de interlocutores que ainda guardava considerável distância daquela de que participavam os investigadores do Instituto Pasteur e a maioria francófona dos médicos brasileiros.
Pebrina era o nome dado à doença infecciosa do bicho-da-seda causada pelo microsporídio Nosema bombycis Nâgeli. Já havia chamado a atenção de Lutz por ocasião de seu primeiro estudo sobre os Sporozoa, que resultara na publicação, em 1889, de artigo anteriormente mencionado em que lidava com outra ordem de protozoários – os Myxosporidia -, descrevendo um mixosporídio que encontrara na vesícula biliar de batráquios. Pioneiro nesses estudos no Brasil, Lutz, no trabalho que fez com Splendore (1902), ressaltava a crescente atenção que vinha sendo dada ao microsporídio da pebrina, não somente pelo lado prático da sericultura, recém-introduzida em São Paulo, como por razões biomédicas: discutia-se cada vez mais a ação desse grupo de protozoários como parasitas celulares, principalmente nos tumores malignos, e, como acabamos de ver, estavam na ordem do dia as suposições sobre seu papel como agente da febre amarela.
A primeira espécie de microsporídio – Nosema bombycis – foi descrita em 1857 pelo botânico suíço Karl Wilhelm von Nâgeli
(1817-1891).152 À época, considerou que os pequenos pontos pretos encontrados na mariposa Bombyx mori eram uma levedura pertencente ao reino dos Fungi. Atribui-se a Louis Pasteur o conhecimento mais pormenorizado desse microrganismo. Em 1865, o governo francês incumbiu-o de investigar uma doença que vinha devastando a criação do bicho-da-seda. Em 1867, após várias
interpretações errôneas,153 Pasteur identificou determinados “corpúsculos” (esporos de Nosema bombycis) como a causa da doença pebrina, apesar de nunca haver entendido a verdadeira natureza do parasita (Hyman, 1940, p.162). Somente em 1882, seria incluído entre os protozoários. Após uma série de estudos, o embriologista francês Édouard-Gérard Balbiani (18231899) concluiu que o Nosema descrito por Nâgeli tinha mais afinidade com esporozoários do que com fungos; transferiu-o, então, para a classe Sporozoa, criada por Rudolf Leuckart em 1879, e estabeleceu o táxon Microsporidio para abrigar a Nosema bombycis e as outras
espécies do grupo. 154
Até alguns anos antes, os microsporídios estavam classificados no filo Protozoa como ordem dentro da subclasse Cnidosporidia e da classe Sporozoa, junto dos mixosporidia (Hyman, 1940, p.47; Store & Usinger, 1979, p.311):
Filo Protozoa
Classe Sporozoa
Subclasse Cnidosporidia
Ordem Myxosporidia
Ordem Microsporidia Esses microrganismos despertaram grande curiosidade a partir de 1988, quando foram descobertos em pacientes com aids. Após vários estudos sobre sua posição taxonômica, ficou estabelecido que os mixosporídios têm relação mais próxima com os Metazoa do que com os Protozoa, e que os microsporídeos guardam relação mais íntima com os Fungi (Cox, 2002, p.595-612).
À época em que Lutz e Splendore publicaram seu trabalho, poucas espécies tinham sido descritas, e muito pouco se sabia sobre aqueles esporozoários. Já havia consenso quanto ao fato de que eram parasitas intracelulares de alguns vertebrados (peixes) e, principalmente, de invertebrados. Sabia-se também que participavam de uma forma de transmissão hereditária, na qual a fêmea do hospedeiro passava o agente infeccioso, através dos ovos, para a próxima geração. Em Splendore, Lutz encontrou o parceiro ideal para investigar esses parasitas, que, por seu tamanho diminuto, requeriam extrema paciência e grande domínio da microscopia e das técnicas de fixação e coloração, conhecimentos esses que Splendore havia adquirido durante seus primeiros anos de profissão na Itália. Por várias vezes Lutz chama atenção para o paciente trabalho de seu co-autor: “Como só existiam poucas especificações em relação à técnica de fixação e coloração, bem como sobre a utilização de reagentes, dedicamo-nos minuciosamente a essas questões, o Dr. Splendore ocupando-se de muitas experiências demoradas”. Em outras passagem, concernente à reprodução do bicho-da-seda, elogiava a habilidade com que conseguira obter “bom número de ovos saudáveis da Bombyx mori (Lutz & Splendore, 1902, p.151).
A mariposa Bombyx mori e o seu casulo formado pelos fios de seda
que segrega, com os quais são tecidos os panos que estão na
origem das relações comerciais entre China e Ocidente. Fonte:
www.tuttocina.it/Cina-tour/VdS/Bmx_mori.htm, acesso em
27.6.2005.
Alfonso Splendore (1871-1953) associou-se ao diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo assim que chegou da Itália, em 1899. Formado em medicina e cirurgia pela Faculdade de Roma, dois anos antes, trabalhara como assistente no Instituto de Higiene daquela capital, e lá convivera com mestres do porte de Angelo Celli (1857-1914), Claudio Fermi (1862-?) e Giovanni Battista Grassi (1854-1925). Transferiu-se para o Brasil provavelmente já com alguma recomendação para Lutz, que mantinha estreito contato com os italianos envolvidos no estudo da malária. Além de trabalhar com ele no instituto paulista, Splendore foi responsável pela fundação do laboratório do Hospital Italiano Umberto Primo, tendo também
dirigido o do hospital da Beneficência Portuguesa em São Paulo.155 Com Lutz, desenvolveria vários outros trabalhos, além dos três
sobre microsporídios. 156
No primeiro, estabeleceram novas espécies que parasitavam outro grupo de insetos, além das mariposas, e uma espécie de peixe. Até aquela época, não se sabia se as mariposas eram infectadas por outras espécies de Nosema além da já conhecida, a bombycis, que Lutz e Splendore também chamavam de ‘pebrina’. Verificaram que isso acontecia com uma borboleta muito comum na região paulista (Brassolis astyra Godt), já examinada por Lutz quando começara os estudos sobre esporozoários na década de 1890. Com Splendore, agora, demonstrou o processo infeccioso espontâneo e a transmissão artificial em laboratório de outras espécies de Nosema; verificaram também a transmissão hereditária da infecção – questão, como vimos, de grande interesse para Paul-Louis Simond.
Fizeram várias experiências utilizando ovos saudáveis de lagartas de bichos-da-seda obtidos localmente. Com a ajuda do irmão de
Alfonso, o dr. Achille Splendore,157 conseguiram trazer da Itália animais infectados com pebrina, o que possibilitou a comparação e as experiências de transmissão.
Enfrentaram muitas dificuldades, principalmente em relação à classificação das espécies de borboletas hospedeiras. Como não havia classificação consistente das espécies brasileiras, Lutz e Splendore tiveram de se apoiar no trabalho de Adolfo P. Mabilde sobre as borboletas do Rio Grande do Sul, e no tratado geral que W. J. Holland publicara em 1898, The Butterfly Book. Para identificar as espécies de microsporídios, basearam-se somente na forma dos esporos. Em seus estudos sobre mixosporídios, o cientista belga P. Thélohan (1892, 1895) identificara nesse grupo de microrganismos uma cápsula polar com filamento espiral, mas Lutz e Splendore não a consideraram porque não conseguiram discernir aquela característica morfológica de tamanho diminuto. Recorreram a outro critério para distinguir as espécies: sua associação com os hospedeiros. Não era aceitável pelas regras de classificação vigentes, e os próprios autores reconhecem isso: “parece ser impossível nomear as espécies apenas pelas características dos esporos, que apresentam diferenças numéricas; por isso seguimos um método, hoje em dia bastante desaprovado, de atribuir a denominação da espécie ao nome do primeiro hospedeiro no qual foi descoberta” (Lutz & Splendore, 1902, p 153).
Nesse artigo, identificaram nove espécies novas de Nosema, a maioria parasita de lepidópteras. Verificaram que somente na pebrina do bicho da seda a infecção natural tinha conseqüências fatais. Na Brassolis astyra, a borboleta comum de São Paulo, uma atrofia incomum da lagarta indicava a infecção muito intensa, mas em outras espécies não se observava nenhum sintoma visível. Em outra borboleta, a Dione juno, observaram os autores que a metamorfose transcorria normalmente, apesar da extensa infecção. Ficou claro que uma longa permanência do hospedeiro no estágio larvar favorecia, por um lado, a rápida propagação da espécie correspondente de microsporídios e, por outro, os efeitos prejudiciais desse processo infeccioso geralmente benigno.
O trabalho dos dois cientistas do Instituto Bacteriológico de São Paulo atraiu a atenção de outros pesquisadores interessados no grupo. F. Mesnil resenhou-o no Bulletin de VInstitut Pasteur (v.I, 1903, p.62). Naquele mesmo ano, Paul-Louis Simond publicou no Comptes Rendus de la Société de Biologie de Paris uma nota sobre o Myxococcidium stegomyia, o microsporídio do gênero Nosema descoberto no Stegomyia Fasciata, inicialmente em espécimes que tinham sugado sangue de um paciente com febre amarela, supondo
o bacteriologista francês que fosse o agente causal da doença. 158
Lutz e Splendore também se voltaram para os microsporídeos que parasitavam dípteros hematófagos, e no trabalho publicado em 1904 referiam-se a “algumas formas” recém-observadas, especialmente “parasitas que foram encontrados por um de nós (Lutz) em larvas de Simulium”. Nelas encontraram espécies diferentes de Nosema, que descreveram, mas sem concluir a que gênero pertenciam, por falta de literatura especializada. Esse artigo foi publicado em CentralBlatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten como um complemento do anterior: além de descrever novas espécies, adicionaram desenhos em tamanho natural dos diversos hospedeiros dos microsporídios. O artigo de 1904 se beneficiou de intensa troca de informações entre Adolpho Lutz e o lepidoptero-logista austríaco Joseph Foetterle, que residia em Petrópolis, na época reduto da colônia alemã e austríaca. Embora trabalhasse como professor de violino no Colégio Sion, sua paixão era colecionar borboletas. Conhecia muito bem insetos e mantinha estreita ligação com médicos que investigavam transmissores de doenças, sobretudo os que residiam ou iam regularmente veranear naquela aprazível cidade serrana. No acervo de Paul-Louis Simond, de que se tornou grande amigo, encontram-se fotos batidas por este onde se vê Foetterle exibindo orgulhosamente painéis de sua coleção. O professor austríaco também se correspondia com conterrâneos e outros europeus, mediando a ligação com os ‘nativos’ dos que vinham ao Brasil para fazer pesquisas. Nas cartas a Adolpho Lutz, com quem tinha forte relação de amizade, sempre dava notícias dos membros da missão francesa.
Foetterle também se envolveu na busca de novos microsporídios. Na correspondência com Luz encontram-se muitas informações importantes sobre pebrina, corantes e classificação de borboletas. O diretor do Instituto Bacteriológico enviava a Foetterle material para classificar, e este lhe remetia insetos contaminados com pebrina. “Recebi seu amigável cartão no sábado, e no domingo também a mariposa enviada, que pertence ao gênero Caeculia (Fam. Lasiocampidae)” – escrevia, por exemplo, o naturalista austríaco em 1° de março de 1903:
Infelizmente não sei dizer de que espécie se trata. Ainda não
criei a espécie enviada, mas conheço as lagartas de espécies
bem próximas … Infelizmente são poucos os exemplares
duplicados que possuo desses velhacos, os quais, no entanto
posso ceder-lhe. Finalmente encontrei pebrina, outro dia, numa
espécie próxima da sua … Demorei a encontrar esses sujeitos
que tanto troçaram de mim, e não foi pouco o trabalho e o
tempo que despendi nisso. Não me sobra mais tempo hoje para
fazer ainda as preparações permanentes, mas amanhã vou
fazê-las com certeza e enviá-las ao senhor, além das
mariposas. Como corante experimentei também pioctanina, que
deu resultados bem bons. O senhor já usou também esse
corante? 159
Foetterle em trajes ‘coloniais’, em trabalho de coleta. Foto dedicada
por ele próprio em 25.4.1905. Estado do Rio de Janeiro (Acervo
Musée de l'Institut Pasteur, MP31328-2.tif).
Outra carta, de 19 de outubro, seguiu com mais material: “a espécie em que encontrei pebrina está no cartucho … e espero que desta vez o senhor confirme meu achado e que descubra pebrina também nas três preparações que seguem junto. Se novamente não houver,
então é melhor eu não me meter mais nisso”.160
As contribuições de Foetterle foram incorporadas aos trabalhos de Lutz e Splendore, que não deixaram de assinalar sua valiosa ajuda.
Decorreram quatro anos até o último trabalho da série sobre microsporídios. Veio a lume em 1908, no mesmo periódico alemão
que veiculara os outros dois. 161 O grande mérito desse último é a identificação de vermes e mesmo de outros protozoários que serviam de hospedeiros aos microsporídios. Como os próprios autores assinalam, já se tinha conhecimento de que não parasitavam só artrópodes e peixes, mas as informações eram escassas e incompletas (Lutz & Splendore, 1908). Lutz e Splendore descreveram novas espécies e identificaram outras já descritas em insetos hematófagos, como Nosema simulii em larvas de Simulium, Nosema chironomi em larvas de Chironomidae, Nosema ephemerae no intestino de larvas efemérides e Nosema stegomyia em imago da Stegomyia fasciata. Encontraram o Nosema mystacis em dois exemplares fêmeas de Ascaris mystax retirados do intestino de um gato; e o Nosema distomi, num pequeno dístomo que habitava o intestino do Bufo marinus. No balantídeo presente no intestino terminal do Bufo marinus localizaram outro microsporídio, o Nosema balantidii. Lutz e Splendore chegaram à conclusão de que aqueles vermes e infusórios eram contaminados por infecção direta, descartando a hipótese da transmissão hereditária.
Continuaram a ter dificuldades para encontrar o filamento polar, por isso não o aceitaram como caráter válido para a identificação de espécies. Tendo constatado aquela característica morfológica somente numa espécie, puseram em dúvida sua ocorrência, concluindo que, no futuro, talvez essa ausência fosse importante para a sistemática do grupo. Na verdade, comprovou-se mais tarde que todos os esporos dos microsporídios possuem um longo filamento enrolado que representa a cápsula polar (Hyman, 1940,
p.162). 162
Bufo marinus. Desenho em dois terços do tamanho natural (Brehm,
1925, v.1, p.220).
Aquele foi o último trabalho dos dois autores sobre protozoários, e também a última publicação de Lutz como diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo. De 1912 a 1920, Splendore iria lecionar bacteriologia nas Universidades de Parma e Roma. Em 1908, a convite de Oswaldo Cruz, Lutz transferiu-se para o instituto de Manguinhos, no Rio de Janeiro, onde iria dedicar a maior parte de seu tempo a um segmento da zoologia que conquistara seu cérebro e seu coração: a entomologia. Como ele gostava de dizer, é “precisamente” esse o tema dos próximos dois livros do presente volume da Obra Completa do cientista.
Notas
1 Embora haja evidências da presença da febre amarela no Brasil desde 1694 (Ministério da Saúde, 1971), foi somente a partir de meados do século XIX que se tornou a grande questão sanitária nacional.
2 Bertha Lutz, filha de Adolpho Lutz, registrou em fita magnética, que denominou Lutziana, fatos interessantes sobre a história da família e sobre a vida do pai, enunciando, de viva voz, o roteiro de uma biografia que não chegou a escrever (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz).
3 A esse respeito ver entrevista com José de Barros Ramalho Ortigão Junior publicada sob o título “Recordações da infância: as primeiras letras com a família Lutz,” História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.10, n.1, jan.-abr. 2003, p.420-4; também, na mesma edição desse periódico (p.13-83), de Benchimol, “Adolpho Lutz: um estudo biográfico”. Ver ainda Sá & Benchimol, “Adolpho Lutz: formação e primeiros trabalhos” / “Adolpho Lutz: Education and First Works,” em Benchimol & Sá (2004, p.118-84; 185-250).
4 Arquivo Nacional, Documentos referentes à Junta Comercial do Rio de Janeiro: 1872 – livro 648, Reg. 11424 G6, firma Lutz e Cia.
5 A bibliografia de Adolpho Lutz organizada por Herman Lent (Neiva, 1941) foi reimpressa, com correções e acréscimos, em História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.10, n.1, p.362-409.
6 Deane (1955, p.77-80). Como mostra esse autor, defendeu a disseminação dos exames de fezes para diagnóstico dessas helmintoses, observando que nem mesmo nas três universidades de língua alemã em que estudara essa prática era valorizada. Os biógrafos de Lutz ressaltam seu pioneirismo nas pesquisas veterinárias. O primeiro trabalho nessa área foi a descrição (1885) de uma espécie de Rhabdonema encontrada no porco doméstico. Escreveu também sobre o papel das pulgas como hospedeiras do Dipylidium caninum; sobre estefanurose, cisticercose e outras helmintíases comuns em animais, sobre a Fasciola hepatica e ainda sobre hospedeiros silvestres para o Dioctophime renale, parasita dos rins de vários animais domésticos.
7 Ver também Councilman & Lafleur (1891, p.396) e
www.whonamedit.com/doctor.cfm/2929.html (acesso em 13.4.2005).
8 “LÖsch foi o primeiro autor a fazer uma descrição mais acurada das espécies de amebas encontradas nas evacuações de um paciente com disenteria, juntamente com um cuidadoso histórico clínico e um relatório da autópsia. Trata-se de um estudo realmente pioneiro, com excelentes observações e descrições do organismo denominado Amæba coli, ao qual muito pouco se acrescentou depois” (Councilman & Lafleur, 1891, p.397).
9 “Todos os seus relatórios fazem menção apenas à existência desses microrganismos, sem lhes atribuir grande importância” (Councilman & Lafleur, 1891, p.400).
10 Segundo Councilman & Lafleur (1891, p.400-1), depois de Lósch, a investigação mais importante é a que deu origem à série de artigos publicados por Kartulis no Virchow's Archiv.
11 “Seus resultados foram publicados em tcheco, idioma desconhecido pela maioria dos pesquisadores … ‘O uplavici’, que em tcheco significa ‘sobre a disenteria’, foi interpretado erroneamente como o nome do autor por Kartulis … Assim foi que o fantasmagórico professor ‘Uplavici, O.’ passou por várias bibliografias da especialidade até que em 1938 Dobell desfez o enredo” (Martinez-Palomo, 1996).
12 Nascido no Canadá, começara sua prática clínica em Dundas, Ontario, mas logo foi nomeado lecturer, depois professor de fisiologia, patologia e medicina na McGill University. Em 1884, assumiu a cátedra de medicina clínica na Universidade da Pennsylvania, em Filadélfia. Lá se tornou um dos membros fundadores da Association of American Physicians. Em 1888, Osler aceitou o convite para se tornar o primeiro professor de medicina da Johns Hopkins University Medical School, em Baltimore. Juntamente com William Henry Welch (1850-1934), chefe da patologia, Howard Atwood Kelly (1858-1943), chefe da ginecologia e obstetrícia, e William Steward Halsted (1852-1922), responsável pela área cirúrgica, transformariam a Johns Hopkins numa das mais renomadas escolas médicas do mundo (Risse, p.407; ver também
www.whonamedit.com/doctor.cfm/1627.html, acesso em 13.4.2005).
13 Formado na Universidade de Maryland, Councilman viajara em 1880 à Europa para especializar-se em patologia. Esteve nas mesmas cidades que Lutz – Viena, Estrasburgo, Leipzig e Praga – e lá conviveu com nomes que estão ligados, também, à formação do pesquisador brasileiro. Em Viena, fez treinamento com Karl Freiherr von Rokitansky (1804-1878); trabalhou com Friedrich Daniel von Recklinghausen (1833-1910) em Estrasburgo; Julius Friedrich Cohnheim (1839-1884) e Carl Weigert (1845-1904) em Leipzig e, finalmente, Hans Chiari (1851-1916) em Praga (ver
www.whonamedit.com/doctor.cfm/2860.html). Em 1886 integrou-se como associado à equipe de William Henry Welch (1850-1934) e ao grupo de pesquisadores do recém-inaugurado laboratório de patologia do qual Osler também fazia parte.
14 Seu trabalho foi publicado no Bulletin of the Johns Hopkins Hospital em 1890. O artigo sobre a morte do paciente, em 5.4.1890, saiu no mesmo periódico, no mês seguinte (Martinez-Palomo, 1996).
15 Citava, entre outros, Stengel (Medical News, 15.11.1890); Musser (University Medical Magazine, dez.
16 Cita Osler, Nasse, Harold, Stengel, Eichberg, Kowacz, Fenaglio, Boas, Vivaldi, Babès e Zigura, Sorgo, Manner, Jürgens, Roemer, na América do Norte e do Sul, na Itália e na Alemanha, e em outros países.
17 Para esses autores, a diversidade de opiniões a respeito do papel daqueles protozoários se devia ao fato de terem sido confundidas todas as amebas; somente a A dysenteriae causava disenteria. Fizeram experiências com gatos, e observaram que eles só eram infectados com amebas que tinham ingerido células vermelhas (hemácias). As amebas que não o faziam não causavam a doença (Cox, F. E. G, 2002). Martinez-Palomo (1996) chama atenção para a descoberta, por esses autores, da forma resistente da ameba, o cisto (sabe-se hoje que a E. histolytica existe sob duas formas, trofozoíto e cisto).
18 Dopter (1909) refere-se ainda aos trabalhos de Gregorieff, que incriminou bacilo idêntico àquele descrito anteriormente por Chantemesse e Widal. Ogata também atribui casos observados no Japão a um bacilo. Para Zancarol, era um estreptococo que encontrara nas evacuações e nos abscessos do fígado. Casagrandi e Barbagallo chegaram a afirmar que aqueles protozoários eram saprófitas úteis do intestino, pois contribuíam para a destruição de bactérias virulentas. Schuberg (1895) ministrou purgante a diversos indivíduos sãos e verificou que metade deles tinham amebas como hóspedes inofensivas do intestino.
19 Maciel, Discriminações raciais, p.57; e Lisboa, Almanaque de Campinas para 1871, ambos citados por Santos Filho & Novaes (1996, p.35).
20 Francisco Rangel Pestana (1839-1903) e Américo Brasiliense de Almeida Melo (1833-1896). Na cidade residiam duas lideranças republicanas: Manual Ferraz de Campos Sales (1841-1913) e Francisco Glicério de Cerqueira Leite (1846-1916), além de Américo Brasílio de Campos (1838-1900) e Francisco Quirino dos Santos (1841-1886). (Santos Filho & Novaes, 1996, p.14).
21 Em 1889, apresentaria outra memória – “A febre amarela em Campinas: duas palavras a respeito desta epidemia lidas na Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro em sessão de 27 de abril de 1889” (Anais da Acad. de Med. do Rio de Janeiro, 1889, p.331-49). Segundo Santos Filho & Novaes (1996, p.29), a febre amarela não se transformara em epidemia, como em 1889, por não haver ainda na cidade seu transmissor, o Aedes aegypti.
22 Santos Filho & Novaes (1996, p.175-6). Julgaram os médicos que a reativação da epidemia em maio se deveu à infecção de habitantes que se haviam retirado e agora regressavam. Fizeram, então, apelos para que os fugitivos aguardassem até que cessasse a crise.
23 A última Câmara do regime monárquico foi eleita para a legislatura de 1887-1890 e dissolvida por decreto republicano em 21.1.1890. Foi presidida inicialmente pelo farmacêutico Otto Langgaard, que perdeu seus filhos na epidemia. No auge da crise, os nove vereadores não se reuniram, mas em maio foi realizada sessão na residência de um deles (Santos Filho & Novaes, 1996, p.47).
24 Lapa (1996, p.260-1) indica ainda a eliminação de ‘fossas negras’, o aterro de pântanos e a canalização de córregos. Observa que as medidas adotadas para debelar os maus cheiros e miasmas “acabavam por ter certo resultado, entretanto ignorado pelos médicos e autoridades, que era o de espantar o mosquito Aedes aegypti”.
25 Seria substituído em 11 de abril pelo barão de Jaguara (1837-1895).
26 Segundo Ângelo Simões (1897, p.23-4), “dos 23 clínicos que éramos, só 3 ficaram em um trabalho insano”: João Guilherme da Costa Aguiar (1856-1889), Germano Melcghert (1844-1921) e o próprio Simões, “tendo o segundo adoecido e o primeiro pago com a vida o heroísmo que o manteve em luta com tão terrível inimigo”.
27 Diário de Campinas, 29.5.1889, apud Santos Filho & Novaes (1996, p.49).
28 Autor de Estudos sobre a febre amarela (1880), publicou ao regressar à Corte (1889) A epidemia de Campinas em 1889.
29 Composto de sulfato de ferro (400 g), ácido férrico cristalizado (100 g) e água fervendo (2 litros).
30 Teria firmado 11 atestados em abril, 1 a 5 de maio (Santa Cruz), mais 3 (Conceição) em abril (Santos Filho & Novaes, 1996, p.53).
31 Santos Filho & Novaes (1996, p.11). Os drs. Francisco Marques de Araújo Góis, Claro Marcondes Homem de Melo e Bráulio Gomes foram agraciados com medalhas cunhadas pela Câmara. “Adolfo Lutz não foi homenageado, o que não se compreende” – escrevem Santos Filho & Novaes (1996, p.53). Explicam esse fato “pela circunstância de poderem (os três agraciados) se locomover com facilidade a São Paulo – o que sempre fizeram – não dispensando assim uma assistência continuada e mais efetiva”. Não obstante a performance de Lutz, aferida pelo número de atestados de óbitos que assinou, afirmam que ele, sendo “já um sábio pesquisador, estava mais empenhado em observar a doença e seu contágio do que propriamente medicar” (p.50, 53). É possível que Lutz tenha se retirado mais cedo em razão da viagem a Hamburgo e ao Havaí, que faria em seguida. A esse respeito ver o vol. I, livro 1, desta sua Obra Completa (Benchimol & Sá, 2004).
32 Segundo Freire (1890a), a mortalidade foi de 15 pessoas (3 estrangeiros) em Vassouras, 11 em Resende (3 estrangeiros), 22 em Desengano (7 estrangeiros), 21 em Serraria e 20 em Cataguases, totalizando, junto com Rio de Janeiro, Campinas e Santos, 4.137 óbitos (2.802 estrangeiros). Santos Filho & Novaes (p.38-9) chamam atenção para o contraste entre a atenção dada a estas cidades e a Campinas em 1889. Os governos central, provincial e municipal não mediram esforços para socorrer as vítimas da primeira. Em compensação, o governo imperial destacou apenas um médico – Augusto Daniel de Araújo Lima – para cuidar dos enfermos indigentes em Cataguases; três facultativos residentes na cidade dispuseram-se a atendê-los sem cobrar honorários. Os mencionados autores atribuem o contraste ao fato de ser Campinas, então, “um centro sócio-econômico e político de enorme prestígio … uma das cidades mais florescentes, de mais sólida situação econômica e das mais adiantadas culturalmente, se não de todo o país, pelo menos de toda a província de São Paulo e do Sul do Brasil”.
33 Sobre Freire e outros caçadores do micróbio da febre amarela ver Benchimol (1999).
34 Os comissários-vacinadores que atuavam nos municípios da Bahia foram demitidos pelo presidente daquela província depois que o legislativo local suprimiu a respectiva verba, alegando que o serviço era da competência do governo central. Os protestos da Junta Central de Higiene Pública não foram acatados pelo ministro do Império, Francisco Antunes Maciel. Em 4.10.1883, os integrantes da Junta demitiram-se. Em 8 de outubro, Domingos José Freire assumiu a presidência de uma nova Junta.