Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

Mari Cardoso · Capítulo 10 de 39

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Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

8 | Katrina

 

Dois dias depois que comecei a trabalhar no setor de comunicação, ainda estávamos analisando a grande pasta de currículos que Alicia entregou logo depois que Devon saiu. Nós tivemos acesso às redes sociais da empresa e eu fiquei rodando na sala com a cadeira de rodinhas ao ter a senha do instagram de Devon no meu telefone celular.

A quantidade de mensagens de mulheres era impossível de calcular. Algumas enviavam nudes, outras, mensagens ousadas com seus números de telefone. Muitas queriam uma oportunidade de aparecer para ter uma carreira.

Fugi de Devon nos últimos dias, saindo da empresa quando ele não estava. Mal respondendo às suas mensagens e ficando o máximo de tempo com a minha mãe, que ainda estava meio chateada comigo. Meu marido por desafio era um bom oponente, mas ele entregava o seu jogo sempre que me desafiava a algo físico, isso dava fôlego à minha tática de soar indiferente às suas investidas. Não que eu tivesse muita resistência em estoque.

— Eu vou na estação pluvial mais próxima da Pro Valley hoje, você me cobre?

Vanessa desviou os olhos do celular.

— Tome cuidado. — Soprou um beijo.

Peguei a minha bolsa e saí da sala que compartilhávamos. O andar estava meio vazio porque era horário do almoço e a maioria saía ao mesmo tempo. Ainda não tinha feito muitas amizades, diferente do cassino, onde todo mundo se ajudava e compartilhava boas risadas, os funcionários do último andar eram meio na deles. Acreditava que o meu novo sobrenome não ajudava em nada.

Cada vez que relia o contrato de casamento no qual, não só assinei concordando com uma multa ridícula, como também mudei o meu amado sobrenome Summer para Winterfield, tinha vontade de me chutar.

Se eu pudesse, me chutava de verdade.

Entrei no Bertie, me preparando mentalmente para a missão. Na primeira estação que visitei, percebi que o atendente ficou um pouco resistente em me receber e permitir que olhasse os documentos, mesmo sendo de domínio público. No segundo, ficou nítido que eles se comunicaram e os documentos foram mais restritos, precisei fazer um pouco de escândalo. Reuni coragem para o terceiro e mais próximo da estação da companhia.

Bertie não pegou de jeito nenhum.

— Vamos lá, meu filho. Eu preciso de você — choraminguei. Ele continuou apenas no ensaio de pegar e não pegou. Frustrada, bati minha cabeça no encosto do banco mil vezes. — Porra, Bertie!

Ouvi um barulho suave que o meu carro não fazia e suspirei. Devon voltou antes que conseguisse sair. Olhei para o lado, ele só desceu o vidro, sorrindo.

— Vai sair no meio do seu expediente?

— Ser a sua esposa precisa me dar alguma vantagem ou é um casamento inútil. Além do mais, Bertie não quer pegar.

— Precisa ir a algum lugar em especial?

— Está me perguntando como chefe ou apenas querendo meter o seu nariz curioso nos meus assuntos? — Virei de lado e sorri.

— Estou perguntando como marido.

— Então, não é da sua conta. — Abri um sorriso irritante, peguei a minha bolsa e saí do carro. Vanessa precisaria me levar em casa porque eu me recusava a pagar um uber. Custaria uma fortuna. — Vou voltar para minha sala.

— Eu te levo! — gritou do carro e virei no meio do caminho para o elevador.

— Nem sabe onde é.

— Não importa, eu te levo. Deixe de ser cabeça dura e orgulhosa, entra aqui no carro. — Esticou o braço e abriu a porta de seu Audi. — Vem.

Quando ele fazia aquela expressão solene com o sorrisinho de quem podia ser doce e simpático, meu interior se contorcia de vontade de pular nele e encher o seu rosto de beijos. Esses sentimentos afloraram depois do dia X. Antes, eu reconhecia a beleza e charme dele, porém, recusava considerar um contato físico.

Ceder fazia parecer que estava perdendo, mas olhando por outro ângulo, me perguntei se ele teria a paciência de Vanessa em me levar por aí.

Entrei, coloquei a bolsa no chão, aos meus pés e puxei o cinto. Ele ligou o carro novamente, saindo do estacionamento com calma. Digitei no GPS do painel o endereço que precisava ir. Como nunca tinha ido para aquele lado da cidade, não podia dar as direções.

Devon era um motorista que gostava de velocidade, ele costurava no trânsito e parecia que era a própria polícia ou um homem sendo perseguido por uma.

— Isso é coisa de babaca. Pare de piscar os faróis, ele vai sair — reclamei.

— Ele está demorando!

— Que tal parar de correr tanto? — briguei, ficando meio irritada.

— Estou dentro do limite da velocidade permitida. — Deu de ombros e apenas suspirei. Ele estava me cansando. Ao entrarmos na estrada, avançou ainda mais rápido, mas o carro potente não fazia parecer. Bertie estaria berrando e cuspindo como um velho mal humorado. O GPS sinalizou que estávamos chegando e eu reparei a pequena casinha no meio do nada. — Você viria sozinha nesse lugar deserto?

— Eu não sabia que era deserto. — Olhei ao redor. — Ou tão sinistro. Vai entrar comigo?

— Claro que sim.

— E se roubarem o carro? — Estava com medinho. Uma moto parou poucos minutos depois.

— O helicóptero vem nos buscar — me provocou. — Sozinha você não vai.

— Hum, desculpa, Riquinho. — Peguei a minha bolsa. — Não fale que sou jornalista, eu estou usando a desculpa que sou professora formulando matéria para os meus alunos.

— Tudo bem. Serei apenas o marido. — Saiu do carro e acenou para o homem na moto. — Ele é meu segurança. Sou dono de cassino, as pessoas me odeiam.

— É bom saber que você não anda sozinho. É o Mac?

— Sim. Nem você e Vanessa. Tenho dois desses seguindo vocês por aí o dia inteiro.

— O quê?

— Você é publicamente conhecida como a melhor amiga da minha irmã. É apenas perigoso, entende? Cassinos atraem todo tipo de gente... agiotas, empresários, mafiosos e pessoas de dúbio caráter. Manter os negócios na linha e equilibrar a presença de todos eles, é bem complicado, nem sempre agrado e nem sempre faço o que querem, então, é melhor proteger de qualquer possível retaliação — explicou e segurou a minha mão. Como estava com medo, entrelacei os nossos dedos.

Era a estação mais detonada de todas. Digna de um filme de terror.

— Depois falamos sobre o fato de que você paga alguém para me seguir por aí sem o meu consentimento, agora, só fique por perto.

O lugar estava quente, cheirava a mofo e papel velho. O senhor de idade atrás do balcão ergueu a cabeça quando o sino da porta fez barulho. Me aproximei e não encostei em lugar algum. Solicitei as pastas do saneamento básico da cidade e do sistema pluvial, ele me deu um olhar e disse que não podiam ser acessadas.

— Claro que podem, são de domínio público e eu sou contribuinte.

— Não, não pode.

Devon suspirou atrás de mim e, de repente, só vi uma nota no balcão.

— Ela pode, não pode?

— Segunda porta à esquerda — o senhor rabugento resmungou depois de embolsar cem dólares.

Fui andando na frente e abri a porta com o cotovelo. Paranoica, tirei as luvas da minha bolsa, as vesti rapidamente e olhei para o alto. As câmeras me chamaram atenção. Eram modernas e pareciam novas demais para um ambiente caindo aos pedaços com folhas amareladas.

Peguei o meu telefone e enviei uma mensagem para Devon, pedindo que ele encostasse na parede, erguesse a mão e virasse a câmera para o lado. Ele leu, franziu o cenho, mas fez o que eu pedi. Rapidamente peguei as pastas fechadas com cadeados e tirei o meu conjunto de chaves mestras que carregava na bolsa.

— O que está fazendo? — ele cochichou.

— Violando arquivos públicos que precisam de uma autorização especial. Essas pastas o velho lá fora precisaria me acompanhar para xerocar, mas eu não quero que ele saiba que eu vi — expliquei e peguei a câmera, fotografando o máximo que conseguia sem flash. Pedi que ele ligasse a lanterna de seu telefone e do meu, segurando acima de cada um. — Hum, isso é interessante. — Passei as folhas. — Caramba...

— Katrina, anda logo — Devon murmurou.

Fotografei tudo que encontrei, até o que não tinha certeza que era necessário, devolvi para as pastas e guardei no mesmo lugar. Tirei as luvas, joguei na minha bolsa e saímos sem falar muito com o velho. Ele estava falando ao telefone com um sorrisinho feliz. Ganhou um dinheiro e ficou bem humorado. Voltamos para o carro e Devon arrancou dali em alta velocidade, parecendo querer sair o mais rápido possível.

— O que você está fazendo com essas informações? — perguntou e me entregou seu telefone. — Avise ao Mac que estamos voltando para a cidade. — pediu e rapidamente digitei a mensagem.

— Estou montando uma matéria, ainda não sei ao certo o que busco, mas estou farejando algo. Você sabe algo sobre o resort na reserva ambiental?

— Sei que a companhia foi vendida para duas empresas no meio da construção e elas nunca chegaram a um acordo para o final da obra — explicou. — Foi uma venda sigilosa. Tudo aconteceu por debaixo dos panos, por enquanto, a construção ficará como um gigante elefante branco à beira da estrada. É ruim porque comeu a reserva ambiental pela metade.

— Não tenho certeza se é só isso e estou investigando. Acho que tem algo realmente grande por trás e talvez seja a minha chance de parar na capa do jornal. Em falar em jornal, preciso que me leve lá.

— Em algum momento deste dia você vai trabalhar?

— Se você não percebeu, estou trabalhando. Eu não abri mão do meu horário na revista, vou tentar fazer as duas coisas.

— Não estou te pagando o suficiente?

— Agora? Sim. Antes? Definitivamente não. Usar roupas bonitas, normalmente caras, salto alto, maquiagem e cabelo feito para atender um monte de velho rico custa caro.

— Anotado. — Me deu um sorriso. — Como vai gerenciar as duas coisas? Não é muito?

— Contando com a paciência do meu chefe em não me demitir, porque eu não posso perder a oportunidade dentro do jornal e ao mesmo tempo, não posso perder o seu salário. Eu vou trabalhar em ambas as coisas e com um pouco de organização, irei conseguir.

— Veremos se você não vai desmaiar de exaustão.

— Minha mãe sabe sobre nós — mudei de assunto.

— Eu sei, ela me ligou. — Sorriu torto.

Bem típico dela.

— O que ela disse?

— Apenas me pediu para pensar bem se eu acho que você é uma mulher qualquer, que ela não vai aceitar que brinque com algo tão sério quanto casamento e que é melhor que cuide de você. — Ele colocou a mão no meu joelho e apertou, subindo um pouquinho — Expliquei o que aconteceu e prometi que cuidaria muito bem de você.

— Olha essa mão boba. — Bati em sua mão e ele subiu por dentro do meu vestido branco com flores rosa. Comecei a rir porque estava fazendo cosquinha. — Para idiota. Coloque as duas mãos no volante.

— Sua mãe está certa — ponderou do nada.

— Ela está furiosa comigo. — Suspirei. Minha mãe estava no tratamento do silêncio.

— É bastante compreensível. Foi um impulso...

— Contou a Shannon?

Devon fez uma careta.

— Eu não falo com ela. — Deu de ombros. — Tio Saul está vindo para a luta do Stuart. Gostaria que me acompanhasse, tenho lugares privilegiados e depois, um camarote na comemoração. Vanessa disse que é tudo muito violento e não quer ir...

— Ir juntos... como um casal?

— Não é o que somos?

— Gosto do Stuart e adoro o Tio Saul. Quanto a aparecer publicamente, vai estar em todos os veículos de mídia. Não sei como até agora não vazou que nos casamos, já que várias pessoas sabem.

— Meus funcionários possuem acordo de confidencialidade.

— Eu sei, assinei um monte. Posso pensar?

— Claro. Só me avise com uns dias de antecedência, vou precisar procurar uma companhia — falou com naturalidade e belisquei o seu braço. Ele riu, feliz com a minha reação. Eu quis me bater. — Ciumenta, esposa?

— Cale a boca. Aqui, pode parar ali, eu volto de táxi para o cassino.

— Não precisa, vou subir.

— De jeito nenhum! McKenna Foy está louca para obter um furo estrondoso e ela vai morrer ao te ver — contrapus. Devon entrou na garagem da revista. Ele estava prestes a sair e o segurei. — Eu preciso entregar as matérias, estão no pen drive, não vou demorar. Me espere aqui.

— Antes de sair, me dá um beijo. — Agarrou a minha mão. — Eu mereço um beijinho... — Fez um pequeno beicinho. Adorável e gostoso.

— Merecer? Não merece, mas... — Segurei o seu rosto e o beijei de um jeito para deixá-lo maluco. Ele gemeu contra a minha boca e me afastei, saindo do carro com um sorriso no rosto. Aquela pequena batalha... eu venci.

No elevador, pensei sobre o tempo que passamos juntos. Apenas alguns dias atrás, cinco minutos era o suficiente para sermos grosseiros um com o outro. Parecia que a intimidade quebrou essa barreira. Ele ainda era irritante, mas, ter a companhia dele e o quanto me senti segura com isso era uma novidade estranhamente bem-vinda.

Devon nunca foi intencionalmente maldoso comigo. Ele não era um cara babaca. Era um cretino, que com um sorriso safado e com um pouco de charme ganhou o beijo que tanto queria, que normalmente, era ele quem tomava a iniciativa em me dar.

Passei por McKenna no corredor e ocultei o sorriso ao perceber que tinha em mãos a bomba que ela tanto queria sobre os Winterfield. Devon, casado e ainda por cima, com a melhor amiga da irmã dele e não com Everly, a mulher que ela idolatrava. Senti uma grande vontade de tripudiar. Ele acabou casado com a mulher que McKenna não achava bonita o suficiente.

Entrei na sala do editor, ele estava me esperando e revisou a matéria comigo.

— Você escreve muito bem. Nunca tenho o que revisar. — Ele aprovou a matéria inútil sobre como estava o elenco de Friends após o encerramento da série e usando a viagem à Vegas apresentada em alguns capítulos do seriado, como pano de fundo. — Obrigado por isso. Seu pagamento foi creditado, tenha um bom restinho de semana.

Senti uma imensa vontade de contar que estava pesquisando, mas toda vez que falei, ele entregou a minha matéria para um jornalista mais experiente e funcionário fixo. Segurei a ansiedade, saí da sala e passei no pequeno lugar que costumava trabalhar, pegando algumas notas e coisas que a assistente de publicação deixou separado. Eram as pautas que precisava desenvolver. Normalmente deixava ali, mas trabalhando em horário comercial na Winterfield, precisaria carregar comigo.

— Bonita aliança, Katrina. — McKenna e os seus olhos de falcão.

— Obrigada.

— O bonitão latino vai te levar para o altar? Está no dedo errado.

— Não. Eu já me casei. — Sorri e me afastei. — Ah... Não foi com ele. — Pisquei e entrei no elevador. Ela ficaria rolando de curiosidade até que voltasse.

Voltei para o estacionamento e Devon estava encostado no capô do carro, uma mão enfiada no bolso e a outra brincando com o telefone na perna. Era por isso que ele vivia com o telefone quebrado. Mesmo assim, era uma visão e tanto. Não podia acreditar que estava casada com aquele homem. Ainda me irritava que ele havia dormido com metade da cidade (talvez do país) e me deixava maluca pensar que ele conseguia o que queria com um sorriso, mas ele era gostoso e praticamente irresistível.

Pedi ajuda aos céus para ganhar o desafio. De todas as pessoas que eu não gostaria de perder uma aposta, Devon era a primeira delas.

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