Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1
3 | Devon
Vanessa desceu a escada arrumada para sair. Fingindo que não me viu jogado no sofá, passou por mim e estava quase saindo quando gritei seu nome. Ela voltou e me deu um olhar desinteressado, ainda irritada com a discussão boba que tivemos no café. Minha irmã era ótima para rir e zoar, mas caía na minha rapidinho. Minha missão de vida como irmão mais velho era tirá-la do sério e eu estava disposto a perturbar.
— Eu sou invisível nessa casa?
— Infelizmente? Não. — Abriu um sorrisinho debochado. — O que você quer?
— Paramos de avisar quando vamos sair? Perdi o memorando — ironizei.
— Você só está curioso. — Se aproximou e sentou no encosto do sofá. Ela odiava que eu fizesse isso, porque amassava as almofadas e brigava que o meu peso iria destruir a estrutura acoplada. A bonita, aparentemente, podia fazer. Bati em sua bunda e ela riu, correndo de mim. — Eu sou leve!
— Osso pesa! — Dei de ombros. — Então?
— Katrina terminou o relacionamento com Nick. — Aquela notícia me fazia muito feliz. O namorado de Katrina era um idiota. Ela merecia alguém melhor. — Mesmo depois da nossa noite de meninas, ela ainda está meio desanimada.
— Está triste?
Se ela quisesse um consolo, eu podia dar um.
— Não exatamente. Ele a deixou assustada e decepcionada. — Brincou com a chave do carro nas mãos. — Nós vamos ao parque de diversões. Se quiser, depois que for dar a sua verificada nos negócios, vai lá. Jantaremos no restaurante mexicano.
— Se cuida. Se der, eu vou.
Voltei a ler meus e-mails, respondendo solicitações de Alicia, minha assistente, e tive uma reunião por vídeo com os advogados de um pub que estava interessado em comprar. Eles estavam cheios de exigências, fazendo parecer que o ambiente estava lucrando, o que não era verdade. Tive acesso aos números. Parte da culpa era a má gestão, parte porque não tinha todos os atrativos que a minha empresa poderia oferecer. Não estava interessado em uma parceria e sim, na compra.
Exausto, fui até a cozinha procurar algo para comer e liguei para Everly, pedindo que agilizasse todos os documentos pedidos. Ela tentou enrolar o assunto, usando seu tom de voz sexy e eu cortei, encerrando a chamada porque tinha mais o que fazer.
Era impressionante como ela conseguiu me irritar ao ponto de que até o puto do meu pau se encolhia com a ideia de termos qualquer coisa íntima novamente. Conversei com Matt, meu advogado particular, sobre um investimento, olhando o que tinha na geladeira e decidi que poderia encher o saco da minha irmã enquanto aproveitava a comida mexicana.
Não demorei a sair de casa. Por mensagem, ela me avisou que ainda estava no parque. Foram na roda gigante e na montanha russa, estavam andando entre as barracas. De carro, levei quinze minutos para chegar e mais quinze para encontrá-las no estande de tiro ao alvo. Vanessa era boa de mira e ganhou um urso enorme, já Katrina, era um problema sério. Ela conseguiu atirar no dono da barraca.
— Desculpa! Você estava na frente do alvo!
— É assim que você se desculpa, Katrina? — falei atrás dela, que dentro de um vestidinho esvoaçante azul com bolinhas brancas, deu um salto e olhou para trás. Ela era bonita, peituda de um jeito que me fazia pensar merda o tempo todo, coxas bonitas e a cinturinha fina que dava curvas nos lugares certos.
— Ah, é você. — Me deu um sorriso seco. — O que ele está fazendo aqui? — cochichou com a Vanessa.
— Fui convidado e sim, eu posso te ouvir — respondi pela minha irmã e Katrina ignorou. Peguei uma ficha de Vanessa, uma pistola livre e acertei bem no meio do alvo. As duas pularam empolgadas quando as serpentinas caíram e a barraca piscou várias luzes.
O velho rabugento que estava colocando um gelo na testa devido ao galo que Katrina lhe deu, se aproximou com um enorme urso azul escuro. Peguei-o, agradeci e virei para Katrina.
— Por que está me dando isso? — Ergueu o queixo, desafiando como sempre.
— Peguei para você.
— Não te pedi nada. — Arqueou a sobrancelha.
— Eu sei. Essa é a graça. Vai negar o meu presente? — Me aproximei, forçando uma expressão solene, quase de coração partido.
Desconfiada, puxou o urso rapidamente da minha mão e abraçou. Ursinho sortudo.
— Vamos jantar? — mudei de assunto rapidamente e elas prontamente concordaram.
Fomos um dos mais badalados restaurantes mexicanos da cidade, que éramos clientes do serviço de delivery. A comida era picante no ponto certo, porém, tanto Katrina quanto Vanessa gostavam de pimenta extra em quase tudo. No final, aconteceu a mesma coisa de sempre: as duas reclamando de calor, com a boca ardendo, bebendo muita água e quando chegamos em casa, correram porque estavam apertadas para ir ao banheiro. Sempre do mesmo jeito.
Me joguei no sofá, liguei a televisão e coloquei os pés para o alto, procurando um filme para distrair a minha mente antes de precisar ir até o meu principal hotel. No dia seguinte, estava programada uma festa e eu queria ter certeza de que o espaço de eventos estava pronto para decoração logo pela manhã. Fazer essa verificação de madrugada era melhor, não tinha tantos hóspedes, curiosos e os apostadores já estavam encerrando as atividades.
Ouvi um barulho suave na escada e virei o rosto.
— Obrigada pelo urso. — Katrina sorriu e voltou correndo para o quarto da minha irmã.
— De nada, baby — falei sozinho e voltei minha atenção para a televisão.
...
Shape Of You tocava de forma eletrônica na festa. A pista de dança estava lotada, as pessoas pulavam conforme o DJ incitava. Da sala de supervisão, observei o andamento antes de descer para fazer a minha aparição e curtir o que programei. Vi o momento em que a minha irmã chegou, de mãos dadas com a inseparável melhor amiga, automaticamente vários homens se aproximaram da entrada do camarote que elas foram levadas pelo organizador.
O garçom entrou com bebidas e enviei uma mensagem para Vanessa não começar bebendo demais, ela ficava louca muito rápido. Teimosa, enviou uma mensagem de volta me chamando de chato e riu com Kat.
Katrina.
Mesmo de longe eu podia ver que estava linda em um curto vestido verde escuro, seus cabelos estavam presos fazendo parecer volumosos, com várias mechas caindo pelo rosto. Kat era linda e o que tinha de linda, tinha de insuportável. Fazia jus ao nome como um dos furacões mais devastadores da história. Fiquei parado olhando-a dançar, os quadris se moviam conforme as batidas e eram mais hipnotizantes do que deveriam ser para mim.
Ouvi passos atrás de mim e pelo reflexo, vi que era Everly. Porra. A mulher era incansável.
— Você não vai descer, querido? — Colocou a mão no meu ombro. — Estou te esperando.
— Vou descer e sozinho, Everly. Precisamos conversar novamente?
Ela fez uma careta, tirando a mão e colocou o cabelo atrás da orelha, relaxando a postura e soltando uma risada. Recostou na mesa, cruzando os tornozelos.
— Não precisamos conversar, não foi por mal, apenas pensei que podíamos aproveitar a festa como amigos. Vários dos nossos amigos estão no camarote X...
— Eles não são meus amigos, são parceiros de negócios e essa festa não é a trabalho. Você sabe que é para mostrar o novo espaço de eventos. — Peguei o meu telefone e enfiei no bolso. — Eu vou para o meu camarote. Aproveite a festa. — Parei, esperando que saísse da sala. Ela não ia ficar ali sem supervisão.
— Claro. Boa festa. — Ela sorriu e saiu rebolando. Por um tempo, aquela bunda me chamou muita atenção, até me divertiu, mas era apenas mais uma bunda sem compromisso. Sempre deixei claro para todos os meus envolvimentos que não eram relacionamentos. Não estava me privando de um, poderia acontecer, mas não fazia promessas, assim ninguém saía machucado.
Fechei a sala por dentro e abri a outra porta, que dava para um dos corredores principais. O lugar estava lotado. Cumprimentei algumas pessoas no caminho, tirei foto com conhecidos e sozinho, acenei para algumas pessoas da imprensa e entrei em meu camarote com os meus convidados. Meu amigo, Stuart, mais conhecido como Don Hedrer, um famoso lutador de MMA peso pesado, já estava lá. Batemos nossas mãos, e passei cumprimentando mais alguns colegas mais próximos e as garotas selecionadas para estarem ali.
Havia outros camarotes que foram distribuídos para pessoas específicas, que convidaram famosos que poderiam se interessar em alugar o meu novo espaço.
Me aproximei de Vanessa que, sentada no sofá, gargalhava com algo que um homem falava em seu ouvido. Kat estava com o canudinho na boca, drenando todo o drink azul e me deu um sorriso educado, revirando os olhos para Vanessa, que já estava de papo com um. Um garçom chegou com a minha bebida, uma dose do meu uísque mais caro de coleção e Stuart apontou para uma garota gostosa rebolando no meio do camarote com as amigas. Ergui o meu copo e pisquei.
Kat bufou quando o cara sentou entre ela e Vanessa. Se aproximou e a sua coxa tocou a minha.
— Ela prometeu que seria apenas vocês duas?
— Como sempre — murmurou e sinalizou para o garçom trazer outra.
— Isso não é suco — provoquei.
— Tome conta da sua vida — ela rebateu e ri. Kat era arisca comigo desde que nos conhecemos. Eu não me importava. Toda sua fúria era divertida, parecia um gatinho bravo querendo morder com dentinhos inofensivos. — Ah, eu amo essa música. Eu vou dançar! — Me entregou o copo, pulando as minhas pernas. Aproveitei para dar uma olhada em sua bunda. Era uma bela bunda.
Próxima ao sofá, ficou dançando sozinha, gritando Titanium da Sia com David Guetta. O DJ mesclou com Bad Guy , Vanessa levantou, as duas se agarraram, dançando e mesmo sem ser intencional, estavam provocando milhares de homens ao redor. Minha irmã sinalizou para que eu me livrasse do cara, virei no meu lugar e apenas com um olhar, ele saiu de perto sem falar nada. As duas riram, gritando uma com a outra algo que só elas sempre achavam graça.
— Vem dançar! — Vanessa me puxou. — Vamos fazer um sanduíche dele! — falou com a amiga, ficando atrás de mim. Parei frente a frente à Kat. Observei o rosto de boneca brilhando com as luzes coloridas da boate.
— Você não sabe dançar? — Se estressou quando não me movi.
— É um desafio, Kat? — Sorri torto e agarrei sua cintura, ela arquejou e tentou soltar as minhas mãos, mas não deixei, puxando-a em minha direção e me movendo na versão eletrônica de Beautiful People . Virei-a para ficar de costas, colando o meu peito em seu corpo torneado. Sorrindo, rebolou contra mim, me fez perder a concentração por alguns segundos, logo, estávamos dançando Old Town Road olhando nos olhos um do outro. Ela não ia fugir porque sabia que a chamaria de covarde.
— Pronto. — Se afastou. — Dançamos. — Foi embora de volta para o sofá, pegou a bebida e tomei de sua mão. — Porra, qual o seu problema?
— Você deixou o seu copo aqui e alguém pode ter colocado algo — expliquei e pedi outro.
— Ah... Obrigada. — Ficou sem graça. — Desculpa.
— Você adora me fazer de vilão — cochichei e beijei sua bochecha. Saindo de perto, pegou a nova bebida que o garçom trouxe e foi para o sofá.
Kat estava tão linda que atraiu atenção de outros homens. Ela se afastou de cada investida. Em dado momento, Vanessa desapareceu e Kat ficou sozinha com a bebida. Me joguei ao seu lado, ganhei um sorriso tenso e parecendo nervosa, virou quase todo copo.
— Por que você não gosta de mim?
Era a pergunta que sempre quis fazer. Nunca dei muitos motivos para Kat agir de maneira tão furiosa em alguns momentos e fria em outros. Ela vivia na minha casa e não era nada além de educada. No começo, era muito engraçado, depois, ficou irritante, hoje em dia, incomodava, mas eu respeitava.
— Por que se importa? — rebateu, cruzando as pernas e olhei para as coxas bonitas. — Meus olhos estão aqui em cima, espertinho. Não adianta agir comigo como você faz com todas as garotas. Sei muito bem das suas artimanhas.
Soltei uma risada.
— Sabe mesmo? Será que você resiste? — Me aproximei. Ela revirou os olhos e colocou o copo em cima da mesa. — Não vai me responder? — insisti e ela deu de ombros, virou o rosto e me encarou. — Nunca vai esquecer o que eu disse? Eu já pedi desculpas, já passou mais de dez anos, não sabia que era tão rancorosa.
— Rancorosa ? — ela guinchou. — Não sou rancorosa. Não é só o que disse no passado, é que você me enerva — confessou e ri alto. — Sempre tão certinho, dono de si, cheio de controle e tudo bem, a coleção de mulheres é muito irritante. Faz parecer que você é incapaz de honrar um compromisso com uma pessoa, que se acha bom demais para qualquer uma.
Peguei o meu copo e dei um gole. Ainda sem saber o que dizer, virei todo. Certinho ? Sempre fui muito responsável, mas não exatamente certinho . Sabia me divertir e ter equilíbrio. A vida precisava de dosagens certas, caso contrário, coisas ruins poderiam acontecer e as consequências devastariam as vidas alheias.
— Viu só? Nada a dizer. — Kat aceitou o copo que o garçom renovou.
— Na verdade, estava pensando. É realmente engraçado e até meio gratificante ouvir o que uma pessoa acha de mim. Não é algo que estou acostumado a me importar.
— Arrogante.
— Não é arrogância, é segurança, sei quem sou, mas se você me vê dessa maneira, estou falhando em alguma área. Você é praticamente da família. — Virei-me de frente. — O que você nunca me vê fazendo?
Kat bebeu e me analisou, olhando de cima a baixo. Mordeu o lábio e reparei o quanto eles eram carnudos, tentadores.
— Acho que eu nunca te vi bêbado. — Inclinou a cabeça para o lado. — Eu não sei se você é capaz de relaxar o suficiente para ficar bêbado, perder o controle de tudo ao redor, parar com a imagem de gostoso inatingível.
— Gostoso ? Você me acha gostoso, Kat?
Ela se irritou.
— Vai se ferrar! Quando penso que estamos tendo uma conversa, você está de palhaçada.
— Não estou de palhaçada, eu juro. — Coloquei a mão no coração. — Tudo bem, vamos ficar bêbados e perder o controle.
— Vamos? Você está louco. — Kat riu e a encarei bem sério.
— Não aceita o desafio, Katrina?
— Eu te desafio a perder o controle, ao contrário de você, não sou tão certinha.
— Desafio aceito. Vamos ver o quanto pode aguentar. — Sorri, ela mordeu o lábio e sinalizei para o garçom. — Traga quatro doses de tequila para começarmos, por favor.
— Tequila? Não. — Kat sinalizou desesperadamente. — Devon, você lembra quando Vanessa e eu dormimos no banco de uma praça em Los Angeles?
— Infelizmente, sim.
— Foi a tequila — enfatizou.
— Então, estamos no caminho certo.
O garçom voltou com quatro copinhos, sal e limão, colocando em cima da mesinha à nossa frente. Peguei um copinho, entregando a ela, o sal, viramos um pouco na mão, lambemos ao mesmo tempo e viramos. Ela pegou a fatia do limão, mordeu, sacudindo o rosto e me entregou. Peguei o segundo copinho, entreguei e ri de sua careta. Kat respirou fundo e chegou a dar pulinhos sentada, reagindo à dose.
— Foda-se.
— Foda-se não, mais uma dose. — Sinalizei para o garçom.
Kat iria conhecer o meu lado realmente divertido.
OceanofPDF.com