Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1
27 | Katrina
Devon estava me seguindo em silêncio, segurando uma bandeja de café repleta de comida. De fininho, abri a porta do quarto de Vanessa. Ela estava no processo de acordar, se espreguiçando, sentou na cama com um sorriso sonolento e corri, pulando em cima dela junto com os cachorros.
— Feliz aniversário, minha leonina favorita! — gritei e Marco passou por cima de mim enquanto Polo tentava lamber o rosto da minha amiga. — Vamos cantar parabéns, crianças! — Embolei as minhas pernas no lençol e ao tentar me equilibrar, bati com a cabeça na parede.
— Sossega, Katrina! — Devon gritou, sem conseguir me ajudar e os filhotes em cima da cama não ajudavam em nada. — Vão para a cama de vocês, anda! — Ele brigou com os dois, que desceram e foram correndo. Rimos da brutalidade dos nossos filhos e então, ele se aproximou da irmã. — Feliz aniversário! — Colocou a bandeja na cama e eles se abraçaram. — Katrina acordou quatro da manhã e estava em cólicas para fazer a surpresa logo.
Vanessa me deu um olhar engraçado.
— Agora você vai ver o quão incontrolável ela é em um aniversário! — Ela sorriu, com o rosto todo inchado de sono. — Obrigada por essa surpresa! Tem meu bolo favorito! — Soltou um gritinho e finalmente começamos a comer. Acordada há horas, estava morrendo de fome. — Tudo certo para mais tarde?
— Camarote e bebidas programadas para o aniversário da minha irmãzinha. — Devon sorriu. Algumas surpresinhas também!
— Eu queria chamar tequileiros, mas o seu irmão super machista, vetou. — Abri um sorriso seco.
— Não sou machista — reclamou.
— Todo machista diz isso — Vanessa e eu falamos ao mesmo tempo e rimos. Batemos nossas mãos juntas.
— Não queria aquela empresa, é diferente. Já tive problemas com eles, mas já que vocês insistem, irei chamá-los. Vai beber tequila, Katrina?
— Da última vez, foi memorável, embora eu não lembre. — Soltei uma risada. Ele se inclinou e me deu um beijo. — A melhor parte é essa.
— Ei! Sem essa coisa melosa na minha cama! — Vanessa jogou um pedacinho de pão em nós. — É meu aniversário, hoje a melhor amiga é minha e você, terceiro elemento, fica com as sobras.
— Você não vai querer ficar comigo? — Devon era todo sensível com essas coisas. Ele ficava sentido quando Vanessa e eu ficávamos trancadas no quarto conversando até tarde da noite.
— Ciumento — provoquei.
— Rejeitado, isso sim. — Fez um beicinho, fazendo charme, e nós duas o agarramos.
— Te amo, irmão.
O aniversário da Vanessa era um dos dias mais importantes da minha vida. Após o término com Luke, ela ainda tomava muitos remédios. Por causa de tudo que aconteceu no relacionamento deles e com a proximidade tóxica da Shannon, ela tomou doses exageradas.
Encontrei-a caída no chão do quarto, quando tentou levantar para pedir ajuda e desmaiou. Foi um dia desesperador. Foi o segundo susto que tomamos e eu prometi a mim mesma que celebraria a vida dela a cada oportunidade. Foram anos de tratamento até que ela se recuperasse.
Não me arrependia de nada do que fiz para protegê-la, mesmo que isso me impedisse de crescer profissionalmente, eu sabia que, pela Vanessa, valia muito a pena.
Seu aniversário cair em uma sexta-feira foi um acaso maravilhoso, assim podíamos comemorar por todo final de semana. Depois do café, ela ficou em casa de folga, sendo mimada por Rosa. Devon e eu fomos nos arrumar para o trabalho.
Minha mãe estava de plantão, porém, a maior parte das coisas dela já estava na casa do Michael. Kevin parecia muito bem com a presença dela, ele era tão fofo, meio pimentinha, mas um doce de criança. Tomei conta dele por três vezes e fizemos todo tipo de bagunça que deixou Devon maluco e preocupado.
Era engraçado pensar que ganhei um irmãozinho depois de adulta.
Minha mãe não queria ter outro filho biologicamente, mesmo que ela só tivesse quarenta e três. Deixou claro que estava bem em ser mãe do Kevin e avó dos meus bebês, no caso, Marco e Polo.
— Chegou um pacote para você. Recebi porque o entregador estava com pressa, veio de Harvard. — B1 entrou na sala e me entregou um envelope. Meu coração chegou a parar uma batida. — Está tudo bem?
— Sim, claro. — Peguei e fui para a sala dos fundos, fechando a porta.
Rapidamente rasguei, virando as folhas na mesa. Era o relatório da análise completa da amostra de água que enviei para o meu professor. Ele disse que não tinha como analisar no laboratório da escola e enviou para um amigo, que trabalhava no departamento de ciências da universidade.
Espalhei o conteúdo na mesa, lendo pela ordem e fui sentindo uma queimação no estômago pelo tamanho da bomba que eu tropecei, apenas porque estava à caça de uma matéria sobre uma construção abandonada.
Cheguei a cobrir a minha boca, tamanho o meu choque. Como eles conseguiram contaminar a água daquela maneira?
Havia uma lista de materiais tóxicos com que a água estava contaminada e eu só coletei uma garrafinha da saída de uma das fontes próximo a uma estação de abastecimento. Tudo que estava ali era a prova da ambição, falta de empatia e caráter.
Meu telefone estava vibrando sem parar e era uma ligação do Instituto de Oncologia. Atendi, curiosa e era a secretária do Dr. Everest, pedindo para ficar na linha porque ele queria falar comigo.
— Olá, Katrina! Como você está?
— Estou bem. A que devo a honra? — Minha mente estava totalmente dispersa para conversar.
— Antes de tudo, quero que saiba que não sou fofoqueiro, mas eu estava examinando um paciente enquanto uma advogada conversava com ele. Eu não falei nada, apenas ouvi e acho que é do seu interesse — comentou, e os meus ouvidos ficaram atentos. — Meu paciente estava depondo sobre o assédio da companhia em comprar a casa dele. Pelo que entendi, eles estão tentando comprar as casas da região, em alguns casos, até forçando. Poucos associaram a doença com um problema relacionado à água. É uma ação coletiva, achei que poderia te ajudar.
— Você pegou o nome dessa advogada?
— Sim! Ela faz parte de um escritório no centro, peguei o número de telefone, ela queria mais tempo de visita e como queria ouvir...
— Não faça perguntas, Dr. Everest. Obrigada por essa informação, mas evite demonstrar interesse. Essas pessoas podem ter incendiado a minha casa, não quero que fique em risco por minha causa.
— Michael me falou de todos os problemas. Espero que tenha ajudado, nos vemos no jantar na casa do seu padrasto e dê um olá para o seu marido.
Depois de me passar os contatos da advogada, encerramos a chamada e massageei as têmporas. Guardei as folhas em uma pasta, deixando seguras na minha bolsa e dentro do meu armário, que ficava trancado na sala dos fundos. Apesar de o trabalho ser um ambiente relativamente seguro, pedi a Devon um armário que pudesse manter informações sigilosas longe de olhares curiosos.
Fui ao banheiro e passei na copa, para encher minha caneca de café. Aproveitei para espiar Devon na sala de reuniões com a sua equipe principal. Everly estava lá e ela falava com propriedade. Apesar da nossa óbvia rivalidade, ela optou em ser profissional no ambiente de trabalho.
Devon se afastou completamente, tudo que pedi a ele era para não ter motivos para brigarmos sobre isso, e ele concordou. Algo extremamente positivo e, às vezes, irritante do meu marido era a sinceridade. Criado por Rosa, que abominava mentira, e filho da Shannon, uma mentirosa de carteirinha, ele era honesto em tudo que dizia. Quando ele tinha que mentir, preferia omitir.
Aprendendo com a convivência, sabia exatamente quando tinha algo que não estava me falando, como por exemplo, ele e Vanessa estavam de segredinho. Enquanto estava muito curiosa, sabia que não podia ficar entre os dois. Era uma relação linda e eles mereciam ter privacidade.
Everly me viu parada, observando e, como sempre, abriu o seu sorrisinho superior, enervante, se aproximando de Devon casualmente. Ela não o tocou, apenas se inclinou e falou algo. Ergui o meu dedo mostrando a aliança, rindo. Ela fez uma careta e voltou para o seu lugar, cruzando as pernas e os braços.
Devon percebeu que algo estava acontecendo, virou o rosto, me viu olhando e sorriu. Ah... aquele sorriso! Soprei um beijinho, sem sair do lugar. Precisava olhar para aquele rosto bonito para acalmar toda a minha ansiedade.
Minha mania de segurar o mundo inteiro com as mãos e querendo fazer tudo ao mesmo tempo estava me deixando exausta. Minha garganta doía um pouco, assim como a cabeça e não era nem metade do dia.
Trabalhar na Winterfield era intenso. A demanda podia ficar extensa quando a empresa produzia muitos eventos em sequência, sem pausa, mas podia passar semanas apenas com eventos nos finais de semana, o que me dava oportunidade de trabalhar na matéria, que eu já não sabia mais se publicaria. Estava considerando as minhas opções, preocupada com a corrupção.
Apesar da empresa ter sido eliminada das investigações do incêndio e o suposto advogado demitido, eles tinham motivos de sobra para comprar e ameaçar quem pudesse expor todos os problemas que a companhia estava causando.
A reunião acabou, a maioria saiu e Everly levou uma vida reunindo os papéis. Devon estava digitando em seu computador, falou algo com ela e bati na porta.
— Posso entrar?
— Claro que sim. — Devon sorriu. Me aproximei e apoiei a minha caneca na mesa. Puxei uma cadeira, me acomodando. — Está tudo bem?
— Estou saindo, tenham um bom dia. — Everly me deu um sorriso seco, pegou a pasta e foi embora rebolando. — Tchau, Devon! — Acenou carinhosamente da porta e revirei os olhos.
— Ela está fazendo para te provocar. — Devon sorriu e segurou a minha mão. — Você está pálida, está se sentindo bem? — Seu olhar preocupado encontrou o meu. Se possível, amoleci no lugar. Devon estava me transformando em uma boba apaixonada que derretia com o mísero sinal de carinho.
— Acho que estou ficando doente. — Dei de ombros. — Hoje não é dia de ficar doente e sim, de comemorar. Fiquei um pouco abatida porque recebi a análise da água e uma ligação do Dr. Everest.
Devon sinalizou que iria fechar a porta, me deu uma piscadinha e até baixou as persianas. Com as luzes acesas, dava para ver o nosso contorno e ninguém poderia dizer que o chefe estava em um comportamento inadequado com a esposa na sala de reuniões.
Contei a ele sobre a advogada, o que tinha no relatório e desabafei sobre o quanto tudo aquilo me trouxe uma angústia sem tamanho no coração.
— Vai ficar tudo bem, Katrina. Sua matéria vai trazer a luz da verdade e dar paz. — Me deu um abraço apertado. — Você está um pouco quente.
— Não estou com febre, apenas cansada. Sinto como se abrir aquele envelope tivesse sugado todas as minhas energias. Eu vou terminar o expediente, já vamos sair mais cedo, quero finalizar todas as minhas solicitações. — Dei-lhe um beijo suave.
— Vou adiantar o máximo que puder — prometeu.
Voltei para a minha sala com mais café, belisquei alguns biscoitos e enquanto revisava um texto sobre o novo empreendimento, reparei que o B1 estava cheio de risinho para o telefone celular. Pego no flagra, confessou que estava conversando com uma garota que conheceu no bar do cassino no primeiro andar.
Era engraçado que a maioria dos funcionários buscassem mulheres no bar de um local que trabalhavam. Entrada vip para os eventos? Elas queriam. John, meu barman favorito, sempre ia embora acompanhado.
Quatro da tarde, terminei a minha última tarefa selecionada para o dia e arrumei a minha bolsa. Levei tudo que estava no armário trancado, me despedi dos meus companheiros de sala e encontrei com Devon no meio do caminho, vindo me buscar. Ele pegou as minhas pastas, segurei seu braço e em silêncio, fomos para casa.
Quase cochilei no carro, o jeito que ele dirigia já não me estressava mais. Confiança e amor, no nosso caso, deram as mãos e decidiram andar lado a lado.
Em casa, os filhotes não estavam, saíram para passear no condomínio. Vanessa estava em uma ligação de vídeo com umas amigas da escola que eu não suportava muito, todas animadas para a festa à noite. Apareci no fundo porque o bando de falsas resolveu fazer graça. Sem muita paciência, dei um oi e sumi.
Stuart me ligou todo preocupado sobre o presente que comprou para Vanessa. Se eu pudesse, trancava os dois em uma sala e só permitiria sair depois que parassem de rodear um ao outro com tanta insegurança.
Devon enxotava Stuart, ele propositalmente proibia uma aproximação, em parte entendia, Stuart era um homem que poderia aflorar coisas ruins em Vanessa. Ao mesmo tempo, existia uma parte minha, bem romântica, que acreditava que os dois só precisavam de um empurrãozinho para ficarem juntos. Ambos podiam curar suas feridas em uma caminhada conjunta.
Nunca soube por completo a história do Stuart, apesar de conhecê-lo há anos, havia algo em sua adolescência que era bem pesado, e no meio de tudo isso, ainda tinha uma criança. Um menino que ele lutava pela guarda há anos.
Depois que garanti que ela iria amar o presente que ele comprou, entrei no meu quarto tirando a roupa, desesperada para fazer xixi. Tomei banho e busquei no armário de Devon uma calça de pijama. Me joguei na cama para tirar um cochilo de trinta minutos, só para recarregar as energias e ficar disposta para festa na boate mais tarde.
— Kat? — Senti a mão de Devon no meu rosto. — Você está um pouco mais quente...
— Estou bem. — Abri os olhos. Ele já estava de banho tomado. — Dormi muito?
— Te deixei dormir até o último minuto possível. — Inclinou-se e me deu um beijo nos lábios.
Foi difícil levantar da cama, meu corpo estava começando a ficar dolorido e eu queria dormir. Vanessa merecia o meu melhor, portanto, me dediquei na arrumação. Escolhi um vestido novo e reparei que estava meio justo. Não experimentei, comprei rápido, não dava tempo de aturar vendedora e provadores.
Já maquiada e com meu cabelo cheio de fixador para ficar preso em um rabo de cavalo elegante, precisei chamar Devon para me ajudar a subir o zíper.
— Sexy, vermelho e muito curto. — Ele entrou no meu closet já arrumado. — Você está linda!
— Preciso de ajuda para fechar o vestido. — Apontei para as minhas costas. Prendi a respiração, ele subiu o zíper com tranquilidade. — Está ruim? Parecendo apertado ou um número menor?
— Está muito gostosa. — Me abraçou. — E com febre. Minha irmã não vai ficar chateada se ficarmos em casa.
— Eu vou ficar chateada! É aniversário dela e eu quero comemorar o final de semana inteiro! — Acariciei seus braços. Ele pegou o telefone no bolso e tirou uma fotografia contra o espelho. — Vou ficar bem.
— Vocês estão prontos? Melanie já chegou com Kevin! — Vanessa bateu e abriu a porta do quarto. — Rosa está servindo o jantar dele, temos que sair antes que ele comece a chorar.
— Esqueço que temos uma criança na família agora. — Sorri e peguei a minha bolsa.
Vanessa estava linda, com um vestido verde escuro e parecia degradê, com um brilho na luz. O tecido era todo elaborado, perfeito para uma noite de aniversário em Las Vegas. Pedi que Devon tirasse fotografias nossas na sala entre os nossos quartos.
Ao descer, elogiei a minha mãe, que usava um conjunto que dei a ela algumas semanas atrás. Calça social azul marinho, um body que parecia de renda, mas tinha um forro. Exibia o seu corpo bonito sem mostrar muita pele.
— Você está um pouco quente, querida. — Mamãe colocou a mão na minha testa.
— Estou bem. Não fala nada, não quero que Vanessa cancele a festa — cochichei, ajeitando a minha aparência. — Ela está muito animada.
— Me avise se precisar de mim.
Nós paramos para jantar em família no restaurante mexicano que Vanessa escolheu. Michael saiu do hospital e nos encontrou lá, eu comi tudo com molho de pimenta, fiquei vermelha de calor e com os lábios ardendo. Stuart e Devon fizeram um brinde com tequila, nós viramos ao mesmo tempo e cheguei a lacrimejar porque era uma bem forte.
— O arrepio que desceu pela minha espinha deixa claro que não devo beber essa noite. — Entreguei meu copinho a Devon.
— Não beba ou irá passar mal, já não está muito bem. — Colocou a mão na minha testa, segurei seu pulso e beijei sua palma.
Ao chegarmos na festa, o camarote reservado já estava lotado. Vanessa era conhecida por muitas pessoas por causa do irmão, então, ela foi cercada por milhares de pessoas para ser parabenizada. Devon me levou para um lado, passando entre os grupos, me apresentando a quem ainda não conhecia e paramos na área reservada para a aniversariante.
Nunca estive em uma noitada com a minha mãe, nós costumávamos dançar em casa, brincar juntas, mas vê-la se divertindo com o noivo me deixou muito feliz, de coração leve e com um sentimento que a minha vida estava repleta de bons momentos. Dancei, bebi suco ao invés dos meus drinques coloridos, brinquei com meus amigos, mas não estava do meu jeito normal.
— Tequila, baby? — Devon brincou e neguei.
Se eu bebesse, iria cair.
— Não, obrigada. Quero outro suco, por favor. — Beijei a sua bochecha.
Vanessa estava conversando animadamente com a minha mãe e uma menina legal que conhecíamos da época da escola. Como quase todo mundo, não lembrava o nome, apenas o apelido e por isso, mal fiquei perto. Para uma jornalista, eu tinha um problema sério em gravar nomes.
— Eu não acredito! — Vanessa gritou quando um DJ que ela adorava subiu no palco, chamou pelo seu nome e disse que preparou uma setlist com todas as músicas favoritas dela. — Devon! Eu não acredito! Obrigada, irmão!
— Dessa vez, não fui eu. Foi a Katrina! — Ele apontou para mim. Sem nenhum aviso, ela se jogou no meu colo, me abraçando e deu um beijo barulhento na minha bochecha.
— Vem dançar comigo! — gritou e me puxou.
Stuart e Devon nos acompanharam na pista de dança. Meio sem querer querendo, fingi tropeçar, me joguei em Stuart, ele encostou na Vanessa e para não a derrubar, agarrou a sua cintura. O olhar entre eles foi muito fofo. Quase fiz uma dancinha ao redor.
— Eu sei o que você está fazendo — Devon cochichou. Ele tinha me pedido que não queria alimentar nenhum romance entre a irmã e o melhor amigo. Um tremendo hipócrita.
— Não estou fazendo nada! Eu quase caí! — Abri um sorriso e o abracei. — Dança comigo, marido! — Beijei seu queixo.
Não adiantava nada comprar uma briga sobre Stuart e Vanessa se ainda não havia algo acontecendo, o jeito era enrolar o ciumento e esperar o desenrolar natural da história. Provoquei-o, fazendo uma dancinha esquisita, ele riu e me agarrou, apertando a minha bunda bem rude, e o beijei toda apaixonada.
Bebi e casei com o irmão da minha melhor amiga. Meses depois, estar em seus braços, no lugar que sempre critiquei, era um dos nossos momentos favoritos. Me tornei a mulher dele quando tinha medo de ser mais uma. Devon me fazia sentir única e especial em uma base diária. Era impressionante o quanto, cada dia mais, parecia que nascemos um para o outro.
Naquele momento, eu não me arrependia de amá-lo tão intensamente. Meu orgulho me afastou de algo belo, felizmente, o destino deu o jeitinho de agir.
Devon organizou um parabéns que Vanessa morreria de vergonha se ela estivesse sóbria. Um bolo de três camadas, azul escuro com estrelas, uma vela imensa e uma queima de fogos ao fundo, bem na linha das janelas do camarote. Foi perfeito. Ela estava muito feliz, sorridente e era tudo que importava.
Ninguém quis comer o bolo, achei um absurdo, deu muito trabalho combinar coisas que Vanessa gostava sem experimentar antes. Fui a única que comeu dois pedaços. Devon queria comer apenas no dia seguinte, como sobrou muito, o restaurante cortou e colocou em caixas, deu para quem estava indo embora e queria.
Sentada no bar, com os pés para o alto por causa dos sapatos que estavam matando meus dedinhos, esperei que carregassem todos os presentes que ela ganhou para o carro.
— Consegue ir andando? — Devon parou na minha frente. — Ou quer que eu te carregue?
— Não vou sair carregada! Vão dizer que estou bêbada! Não preciso da fofoqueira da Mckenna falando ainda mais besteira. — Pulei do balcão e suspirei de dor. — Além do mais, sempre posso choramingar no seu ouvido até chegarmos em casa e você compensar com uma massagem.
— Ir de brava a chorona em questão de segundos é um dom só seu, meu amor. — Ele ergueu as mãos aos céus, como se pedisse paciência. Ignorei e fui andando na frente, ainda havia algumas pessoas, os clássicos inimigos do fim, mas eu não tinha mais pique para ficar a noite inteira em uma boate.
Minha coluna implorava pela minha cama.
Ao chegar em casa, não sabia mais o meu nome direito. Cansada, tomei um banho bem mais ou menos só para tirar o cheiro da boate, lavar o suor e vesti apenas uma camisa de basquete do Devon porque era fresca e grande.
A gripe me pegou de jeito, dormi a maior parte da noite, mas acordei com a garganta dolorida, olhos ardendo e o corpo pesado. Devon tinha um compromisso cedo, então fiquei na cama, toda coberta, observando-o se vestir de maneira formal. Ele tinha uma reunião no banco, foi agendada em um sábado para fugir dos curiosos.
— Fique bem, me liga se precisar. — Inclinou-se na cama e me deu um beijo. Não prolonguei muito porque não queria que ficasse doente também. — Descanse um pouco mais.
— Se cuida e boa sorte nos investimentos. Estou torcendo por você.
— Esse vai ser o melhor investimento da minha vida. — Piscou e saiu, deixando o ar de mistério.
Tentei trabalhar um pouco, escrevendo e lendo o que já tinha pronto, unindo todos os pontos e precisando tomar um cuidado extra em não deixar furos ao longo da narração necessária para compreensão de todas as massas. Com a cabeça pesada, parei um pouco e ouvi uma batida na porta.
Minha mãe enfiou a cabeça dentro, mas Kevin entrou correndo e subiu na cama, se jogando em mim. Abracei-o rapidamente e me afastei, explicando que não queria contaminá-lo.
— Mel fez uma sopa e viemos trazer — ele explicou e ficou pulando. — Legal, sua cama é enorme!
— Cuidado para não cair — orientei. Minha mãe colocou a sopa na mesinha do quarto, próximo à janela e veio com a sua maleta de enfermeira. Aferiu a minha pressão, a temperatura, me deu mais uma dose do remédio e me liberou para comer uma sopa com macarrão em forma de letrinhas. — O que é isso, mãe? Que lindo!
— Ele que escolheu. — Apontou para Kevin e sentou na poltrona. — Cuidado, Kevin.
— Meu irmãozinho é um fofo. — Sorri e comecei a comer.
— Sei que não está em um bom dia, mas, eu preciso dizer que já comecei a procurar pelo seu pai. Nós nunca nos divorciamos. Mais do que nunca, me arrependo de não tê-lo feito antes. — Suspirou, e parei de comer um pouco. — Espero conseguir fazer tudo por meio de advogados, ele nunca apareceu, não vejo porque irá aparecer agora.
— Espero que sim. — Foi tudo que consegui dizer.
Eu não queria ver o meu pai nem pintado de ouro na minha frente e certamente nunca iria perdoá-lo por me deixar. Ele não merecia o meu amor, perdão e muito menos a minha atenção. Esperava que a minha mãe se livrasse do casamento e finalmente começasse o seu “felizes para sempre” com um homem tão legal como Michael era.
Meu humor não estava dos melhores, falar sobre o meu pai me fez sentir afundando ainda mais no meio de um pequeno redemoinho de emoções ruins.
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