Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

Mari Cardoso · Capítulo 31 de 39

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Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

29 | Devon

 

Kat suspirou e puxou os cabelos. Ela estava nervosa com a minha avaliação sobre a matéria. Era gostoso saber que a minha opinião era importante, e ao finalizar a leitura, jogou a bomba sobre querer entrevistar um dos moradores da região. Era arriscado e eu não concordava.

O impressionante era que os tipos de serviço de saneamento básico pertenciam à mesma empresa, que comandava a mesma região da cidade, e olhando bem no mapa, o aterro, por motivos turísticos, não era mencionado. Em terra, só encontramos o local porque vimos de cima. Quando a levei, fizemos uma rota em que era possível, finalmente, entender a contaminação.

Pensei que a matéria já estava pronta, mas ao esbarrar com isso, ela tinha muito mais a escrever do que o famoso jornalista que entrevistou Pablo Escobar.

— Você me prometeu — foi tudo que consegui dizer. Katrina fez um beicinho e cruzou os braços, tentando me amolecer com a sua expressão pidona. Ela conseguia um chocolate, sexo e flores com aquilo, mas não me convenceria de entrevistar um dos pacientes do Dr. Everest. — Nós concordamos que você voltaria à investigação sem se expor. Já não sabemos o que vai acontecer quando entregar todo esse material.

— O seu apoio foi muito importante em todo esse processo, e eu sei que prometi. Justamente por isso que estou tentando te fazer enxergar que falta algo. Eu sinto que ainda há mais a ser dito, como se eu precisasse colocar o outro lado da moeda. Tentei ser imparcial, falhei em algumas partes e Vanessa corrigiu, agora você grifou umas frases. — Mordeu o lábio, me dando um olhar ansioso. — Entende o que quero dizer? Já sabemos que não foram eles...

— A ameaça não deixa de ser real apenas porque foi o Nicholas que incendiou a sua casa — retruquei firme. Saindo de seu lugar, deu a volta na minha mesa e sentou no meu colo.

— Ouça bem: fizemos uma denúncia que existiu uma ameaça, e então eles reconheceram que foram além, pediram desculpas. Sabe o que isso significa? Uma alegação de culpa! — Segurou o meu rosto para dar ênfase. — Já foi registrado. Se acontecer qualquer coisa comigo, eles serão os principais suspeitos.

— Esse é o problema que você não enxerga.

— Qual é o problema, Devon?

— Nada pode acontecer com você — esclareci, olhando em seus olhos. — Não seja inconsequente. É irresponsabilidade pensar que se algo acontecer, só você será afetada. Sei que fica cega de empolgação e que eu não vou conseguir te segurar em relação a isso, mas lembre-se sempre, além da sua mãe e da Vanessa, agora você tem a mim e eu não quero ficar viúvo.

Ela abriu o sorriso malandro que me deixava maluco.

— Eu tenho um monte de respostas espertinhas para dizer agora, mas eu vou escolher dizer apenas uma. — Inclinou o rosto e me beijou. — Eu te amo.

— Fofa. — Apertei sua bunda e dei um beijo em cada seio. Rindo, me abraçou, prometendo tomar cuidado e que se sentiria mais segura se eu fosse com ela. Antes que pudesse responder, Vanessa abriu a porta. — Não sabe bater?

— Se não está trancada, é para ser aberta — rebateu, esperta como sempre.

— E se isso significasse pegar a sua amiga em uma posição constrangedora?

Vanessa parou com as mãos na cintura.

— Tranquem a porta para não me traumatizar. — Arregalou os olhos de maneira cômica. Katrina e eu rimos. — Está na hora, mocinha. Deixe esse bobão aí.

— Até mais tarde. — Kat me deu um beijo, pegou a bolsa e foi saindo com a minha irmã. — Se comporte.

— Estou sempre comportado. — Pisquei.

Mais tarde, era noite de grandes apostas, um evento que eu oferecia aos empresários muito ricos do país inteiro. Os valores eram mais altos que o normal e além do permitido, assim muitos aproveitavam para usar a banca como um meio de transferir dinheiro. A fiscalização nunca batia nos cassinos, a não ser que houvesse uma denúncia, mas a banca sempre ficava sabendo antes.

O dinheiro dos jogos era uma das fontes de renda da cidade, que tinha um fluxo imenso de turistas do mundo inteiro para isso. Era um tipo de evento formal, com mulheres muito arrumadas e homens de smoking. Katrina não iria participar. Ela e a minha irmã estavam indo para o salão de beleza acompanhadas por dois guarda-costas.

Infelizmente, esse tipo de evento atraía muita gente famosa, que contava com a discrição da minha equipe. O trabalho era intenso em prover segurança, tanto para que os apostadores não brigassem entre si, quanto para impedir a entrada de quem não devia.

Katrina estava de beicinho que não podia ir. Era um evento que a maioria das acompanhantes eram de luxo. Nenhum homem levava a esposa. Era muito raro. Eu poderia perder a minha cabeça se algum idiota bêbado confundisse a minha mulher com uma garota de programa.

Estava previsto para chegar em casa bem tarde. Normalmente, essas noites duravam até o amanhecer, mas eu não precisava ficar para as apostas finais.

— Devon? — Alicia entrou na sala depois de bater. — Ele confirmou presença.

— Obrigado, Alicia.

Ela saiu sem falar nada. Não havia muito o que dizer e eu não tinha mais idade para me debruçar naquilo. Podia lidar com ele e a sua presença irritante.

Me concentrei no trabalho o dia inteiro, desci, verifiquei o salão e me reuni com Everly, que por mais doida que fosse, a família dela trabalhava com isso há muitas gerações e sabiam bem o que fazer. Ela parou totalmente de dar em cima de mim ou sugerir que um dia fomos um casal.

Como eu bem sabia, sua loucura ia até onde doía no bolso. Ciente que eu jamais alimentaria suas bagunças sendo um homem comprometido, parou. Ela e Katrina gostavam de implicar uma com a outra. A briga ali era muito além de mim e nunca iria acabar.

Quando anoiteceu, Katrina me ligou e ficamos quase uma hora conversando enquanto esperava o meu jantar e o meu smoking.

Meu escritório era bem equipado, por ser um quarto de hotel antes, o banheiro tinha espaço o suficiente para me arrumar e a minha eficiente esposa, preparou uma mala de roupas e uma necessaire completa.

Não que eu não fizesse isso antes, mas Katrina tinha os seus momentos de doçura. Ela não era melosa, não ficava em cima e gostava de fazer as coisas por si mesma. De vez em quando, precisava lembrar a ela que ajudá-la não era porque achava que era incapaz e sim porque a amava.

Raramente fofa e sem um osso romântico no corpo, era carinhosa e mostrava seu amor nos pequenos detalhes. No olhar apaixonado e no sorriso sempre que eu chegava, no beijo de bom dia, no abraço doce na cama, em preparar a minha comida favorita – que tanto ela quanto a minha irmã detestava.

Gostava do seu jeitinho de se fazer de difícil, a sua boca sempre esperta e muitas vezes, a personalidade explosiva machucava. Eu nunca tive problemas em expor o que me irritava e ela sempre me ouvia.

Me arrumei e tirei uma foto como ela pediu, enviando em seguida. Deitada na sala com os cachorros, mandou uma foto só das suas pernas. Por áudio, reclamou que eu estava lindo e desacompanhado.

Pronto, me reuni com a equipe de segurança, repassamos todas as informações e em seguida, me reuni com toda a equipe que trabalharia naquela noite. Eles foram liberados para seus lugares, depois de um discurso encorajador.

Conversei com os crupiês e com as hostesses, ainda me meti na organização dos bares porque eu queria que tudo corresse conforme a programação. Esperei que os convidados entrassem no salão antes de aparecer. Alguns já haviam começado a beber, outros circulavam pelas mesas e formavam os seus grupos.

Não levou muito tempo para o lugar ficar tomado pelo cheiro de bebida e de charuto. Sacudi o meu relógio, era o sinal que os meus funcionários esperavam para começar os jogos. Uma coisa era certa, em Vegas, a banca sempre vencia e nesse caso, a banca era minha.

Joguei cartas com um grupo fiel aos meus empreendimentos, depois, joguei blackjack, o que levou um pouco mais de tempo. Não estava bebendo embora parecesse. Dei um gole ou outro no meu uísque, mas estava acostumado a fingir estar no clima que a noite pedia.

Tudo que sabia sobre jogos e manipulação, aprendi com meu tio, que não vivia mais em Vegas depois de uma carreira como um exímio jogador. Contador de cartas, não tinha um pingo de vergonha e dificilmente perdia um jogo. Apanhou muito ao ser pego contando cartas ou manipulando a jogatina, mas, ele ganhou dinheiro.

— Parabéns por mais uma vitória, sr. Winterfield. — Dennis, um dos crupiês, sorriu.

— Ele sempre vence. — A voz grossa do sr. Nolasco retumbou, e parou do outro lado da mesa. — Olá, Devon. — Sorriu e lhe dei um aceno seco. Ao seu lado, estava uma mulher que tinha idade para ser sua neta. — É bom te ver, filho.

Filho. Para qualquer um ali poderia ser apenas um jeito paternalista de um homem velho. Eu e ele sabíamos a verdade.

Christopher Nolasco, o famoso produtor de cinema, era meu pai. Shannon teve um caso com ele logo no começo de sua carreira. Ela era uma aspirante a atriz e ele um homem famoso que tinha o poder de lhe dar o que queria. Eu não tinha certeza se fui um acidente ou uma maneira da Shannon conseguir um cheque mensal até se estabilizar ganhando o que queria.

Descobri quem ele era porque um dia, ele enviou o cheque de pagamento direto para o apartamento que eu vivia com Rosa e Vanessa. Foi um choque descobrir que o meu pai me enviava uma pensão mensalmente, uma realização saber seu nome, uma tristeza porque ele sabia da minha existência e nunca me procurou.

Fiquei pior ainda quando, em uma rápida pesquisa, vi que era casado. Adolescente, liguei para ele, ansioso, querendo conhecê-lo. Ele disse que não podia falar comigo porque estava produzindo um filme e me ligaria assim que terminasse.

Nunca ligou.

Quando voltei a vê-lo, já tinha a Winterfield. Era rico, um homem de respeito e ele tentou uma aproximação que eu não quis. Ele não tinha o direito de chegar e agir como se tivesse se importado comigo a minha vida inteira. Desde então, ele aparecia no cassino acompanhado de suas amantes jovens e me ligava todos os dias. Eu nunca atendi. Nojo era tudo que sentia.

Após uma noite de jogos, eu estava pronto para ir embora.

— Aproveitem a noite, senhores. — Levantei do meu lugar e fechei o meu terno. — Obrigado por me tornar um homem mais rico essa noite. — Acenei e saí.

Mac, meu segurança, me acompanhou até a minha sala, peguei a minha mala e nós saímos. Era raro ser conduzido, mas Katrina estava com o meu carro e o de Vanessa estava na revisão. Eu não achei prudente estar com qualquer um dos meus esportivos em uma noite imprevisível como era a noite da máquina de lavar.

O nome especial foi Katrina quem inventou, para os jogadores interessados em lavar dinheiro entre si.

— Boa noite, sr. Winterfield. — Mac abriu a porta assim que parou em frente à minha casa.

— Obrigado, Mac. Tenha uma boa noite. — Acenei e abri o portão. Polo apareceu, ganindo e correu assim que me reconheceu. — Oi garoto! — Acariciei as suas orelhas. — Você está protegendo a casa? Cadê o seu irmão?

Na dica, Marco pulou pela cerca da cozinha e correu na minha direção. Tentei acalmá-los, para não fazer muito barulho. Entrei em casa pela cozinha, bebi água e lavei as mãos, tirando o terno e deixando em cima da mesa da sala.

A casa estava completamente silenciosa, só com as luzes de apoio dos corredores acesas e me despedi dos meus filhotes. Entrei no quarto, acendi a luz do canto e tirei a minha roupa. Estava louco para tomar um banho e fiz o mais silenciosamente possível.

Ao me aproximar da cama, vestindo uma cueca, tomei um susto ao ver o cabelo espalhado no meu travesseiro. Acendi a luz do abajur e sorri. Katrina pintou o cabelo de vermelho. Toquei uma mecha, analisando a cor. A espertinha sequer me mostrou. Casei com uma loira, acordei com uma mulher de cabelo escuro, com alguns fios mais claros e estava indo dormir com uma ruiva.

Apaguei a luz e tirei o edredom, ocupando o espaço que sobrou. Katrina dormia aberta como uma estrela. Percebendo a minha presença na cama, ergueu o rosto, me olhou e voltou a dormir. Era só para conferir.

Sua expressão sonolenta e confusa era a melhor. Falava dormindo coisas aleatórias, engraçadas ou me xingava. Até em seu sono a mulher era brava. Beijei a sua bochecha, fechando os meus olhos e pegando no sono em seguida.

— Amor, bom dia. — Abri os olhos e uma ruiva gostosa estava seminua em cima de mim. — Não se anime! — Me afastou quando lhe beijei, cheio de má intenção. — Estamos muito atrasados para o almoço de noivado da minha mãe! Dormimos demais! — Seu desespero era engraçado.

— Não estamos... — Olhei para o relógio. — Cacete! Eu disse que ia buscar as bebidas.

Me dando um olhar indulgente, correu para o closet e eu fui me arrumar. Foi uma comoção sairmos de casa a tempo de buscar os espumantes, o bolo que estava atrasado e ainda precisei comprar uma nova gravata para Michael porque Melanie não queria que ele usasse nenhuma das gravatas de “médico”. Eu não sabia qual era a diferença.

Ao chegarmos, minha irmã abriu a porta. Ela saiu depois e por não precisar resolver tantas coisas, chegou antes.

— Eu tenho que trocar o meu vestido. — Katrina estava pulando no lugar. — E fazer xixi.

— Mel está no quarto terminando de se arrumar. — Vanessa apontou para a escada. — Você pode levar as bebidas para a cozinha e depois entregar a gravata do Michael? Eu vou ajudar Kevin a se vestir.

— Sim, senhora. — Pisquei e comecei a carregar as caixas com garrafas de vinho e espumantes.

Rosa estava na cozinha com mais uma mulher, que descobri ser prima do Michael e estavam arrumando todas as comidas no buffet.

Foi uma manhã tão corrida que mal tive a oportunidade de dizer que minha irmã estava muito bonita com seu novo corte de cabelo. Parecia mais jovem, ousada, com os cabelos acima dos ombros com a franjinha, usando um batom vermelho e um vestido branco justo. Estava linda. Aproveitei e beijei a sua bochecha, cochichando que estava linda.

— Obrigada, irmão. — Me abraçou de volta. — Você está lindo, com rostinho inchado de homem casado. Diminuiu a malhação e está comendo mais.

— O quê? Estou malhando todo dia!

— Então, só está comendo mais. — Sorriu e foi embora.

Praga.

— O que vocês estão aprontando? — Katrina saiu de dentro da casa e sorri. — O que foi?

— Você está linda... e ruiva.

— Surpresa!? Eu ia te esperar acordada, vestindo algo sexy e igualmente vermelho, mas eu fiquei cansada e dormi. — Soltou uma risada e virou de costas. — Termina de fechar o zíper, por favor?

Seu macacão era branco, assim como a minha camisa, a roupa da Vanessa e do restante da família. Por algum motivo, elas decidiram que seria bonito toda família com a mesma cor. A decoração estava bem romântica e dez minutos depois do horário acertado no convite, os convidados começaram a chegar.

Melanie desceu a escada, ajeitando o cabelo, parecendo ansiosa.

— Senhora minha sogra! — Me aproximei, provocando. Ela me deu o seu olhar tolerante. — Está linda. Muita areia para o caminhão do Michael.

— Deixa de ser bobo, menino. Você também está muito bonito. — Ajeitou a minha gola. — Gostou do novo visual dela?

— Ela é uma caixa de surpresas. — Sorri e virei na direção de Katrina, que conversava animadamente com o Dr. Everest e uma bonita mulher mais jovem e bem arrumada. — Quem é?

— Não sei. É acompanhante do Everest. Tudo que me foi dito é que é uma dermatologista — explicou e se afastou. Aquele médico deu em cima da minha mulher algumas vezes, mas em um jantar naquele mesmo quintal, eu deixei bem claro a minha posição sobre seus elogios excessivos. Ele entendeu o recado.

Katrina acenou para que eu me aproximasse e, com educação, me apresentou a médica. Alguns minutos de conversa depois, Vanessa nos interrompeu para irmos até os nossos lugares, para começar a pequena cerimônia de noivado. Sentados na mesa principal, Michael bateu suavemente em sua taça, chamando atenção dos convidados.

Katrina me deu um olhar animado, segurou a minha mão e entrelaçou os nossos dedos.

— Obrigado a todos por virem nesta tarde ensolarada para comemorar uma nova etapa da minha vida. — Michael começou o brinde. — Eu conheci essa linda mulher no corredor do hospital que trabalhamos. Ela estava apressada com uma bandeja de medicamentos e brigou comigo sobre me achar um deus ao ponto de quase derrubá-la. Ela estava estressada e meus amigos, essa mulher estressada é uma força da natureza. Enquanto cuspia fogo, olhei para o seu rosto e me apaixonei.

Olhei para minha mulher e ri. Qualquer semelhança com a mãe não era mera coincidência.

Melanie estava vermelha com o discurso de Michael, mas parecia tão feliz que era muito bonito de ver. Ele agradeceu por ela ser uma mulher extraordinária e uma companheira incrível.

— Eu não sou tão estressada assim... — Melanie começou se defendendo, logo se rendendo a um discurso apaixonado que deixou a mulherada com lágrimas nos olhos.

— Não sabia que sua mãe tinha uma veia romântica — cochichei com Kat ao perceber o quanto Melanie estava melosa com o noivo.

— Nós somos uma caixinha de surpresas. — Me deu um beijo na bochecha. — Não acredito que a minha mãe e eu acabamos casadas no mesmo ano. Apesar de ter sido uma noite muito louca, eu me casaria com você mil vezes, mas não bêbada, suada e com o vestido bagunçado. Aquele vídeo me deixa apavorada.

Como disse... ela tinha os seus momentos quase românticos.

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