Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

Mari Cardoso · Capítulo 38 de 39

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Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

36 | Katrina

 

Halley era a criança mais linda do mundo inteiro. Nasceu grande, saudável, dentro do tempo esperado e apesar do pai se vangloriar que sabia o sexo desde o começo, ganhando a nossa aposta, eu estava feliz que ela ganhou o nome que escolhi. Não era tão peculiar quantos os outros que Devon vetou, mas eu ainda planejava ter outro bebê e iria vencer a briga.

Minha filha era perfeita, mesmo que não dormisse à noite e deixasse o bico dos meus seios em carne viva. Ela gostava de chorar cada maldita vez que não estava no colo e era uma garotinha do papai, porque amava fazer o peito do Devon de berço particular.

Meu marido ficava horas sem se mover, apenas para nossa menininha ter seu sono em paz — e eu também, porque sem ela chorar e segura nos braços dele, conseguia dormir. Tentava relaxar quando minha mãe ou Vanessa ficavam com ela para que pudesse comer ou tomar banho, mas não conseguia. Fazia tudo correndo para voltar a segurá-la.

Devon passou a minha gravidez inteira me convencendo de que deveríamos fazê-la dormir no quarto dela. Quando nasceu, ele montou o berço no nosso quarto e por fim, compramos um que acoplava à cama para que pudesse dormir conosco. Com um mês e duas semanas de vida, ela mudou tudo.

Minha vida se transformou de uma maneira surpreendente e para muito melhor. Estava vivendo exclusivamente para ela, esse privilégio eu podia agradecer ao homem incrível, à quem estava prestes a dizer sim novamente. Dessa vez, com uma cerimônia religiosa.

Organizar um casamento não foi tão estressante quanto imaginei que seria. A melhor parte era que não teríamos tantos convidados. Reduzimos a nossos familiares e amigos, um total de cinquenta pessoas. Nossas famílias não eram grandes e os nossos amigos mais próximos, bem poucos. O local foi fácil: o hotel do cassino. Era um lugar que representava muita coisa para nós dois.

Apenas depois que Halley nasceu que eu soube como Devon se tornou dono do lugar. Um semestre antes de irmos para a faculdade, ele já tinha a Winterfield, mas ela estava no começo e não rendia muito. Shannon o procurou para informar que perdeu todo o dinheiro da faculdade de Vanessa em um investimento ruim. Apesar de suas tentativas em negociar uma bolsa de estudos, talvez ela não conseguisse ir para a universidade que planejamos inicialmente.

Sem querer desapontar a irmã e preocupado em como a manteria em qualquer lugar, precisando mais cedo ou mais tarde quitar as dívidas que Shannon se isentou, ele decidiu cometer a loucura de apostar tudo que tinha na noite que apelidei como máquina de lavar. Devon quebrou a banca. Ele manipulou o jogo a noite inteira, ciente de como funcionava os cassinos em Vegas. Mesmo sendo o campeão, por ser sobrinho do famoso malandro Saul Winterfield, foi levado para o beco dos fundos e tomou uma surra dos seguranças. Segundo ele, lutou bravamente, segundo Stuart, não muito.

Foi a noite em que eles se conheceram. Stuart viu a briga e simplesmente entrou no meio. Acostumado a lutar pela vida, conseguiu ajudar Devon a escapar. No dia seguinte, ele acordou dolorido, se arrumou e foi exigir o seu prêmio. Naquela noite, ele arrematou o cassino, seis meses depois, comprou o prédio inteiro e assim, fazendo negócios de risco, enriqueceu rápido. Me senti inocente ao pensar que foi tudo com dinheiro de festa. Halley tinha um pai astuto que nunca mostrava todas as suas cartas.

— Ela dormiu? — Pensando nele, entrou no quarto dela silenciosamente.

— Quase. Está resmungando sozinha ou delirando de tanto leite. — Balancei o bercinho devagar.

Nós ficamos debruçados, admirando a nossa obra mais bonita e saímos do quarto quando adormeceu. Seu cochilo duraria uns quarenta minutos, tempo o suficiente para tomar banho e comer alguma coisa. No corredor, olhamos um para o outro e nos abraçamos. Ficamos agarrados, sem falar nada, só contemplando o nosso momento a sós por dez minutos. Halley era pequena, mas ocupava um espaço enorme na agenda.

— Como está Shannon?

— Bem instalada. Tio Saul disse que ela está enlouquecendo as funcionárias, mas isso não é novidade. O marido dela deve chegar a qualquer momento de uma viagem de negócios — explicou. Nós dois sabíamos que era uma viagem com a amante — Como foi a sua consulta médica?

— Tudo perfeito aqui e já podemos voltar aos embalos de papai e mamãe. — Balancei as minhas sobrancelhas. — Se não dormirmos um em cima do outro.

— Para isso, estou bem acordado. — Me deu um olhar brincalhão.

— Bobo. Estou cheirando a leite golfado, topa?

— Vamos para o chuveiro! — Me puxou pela mão até o quarto. Aos tropeços, fui rindo e tentando não fazer muito barulho.

Pela primeira vez em semanas, nós tomamos banho como dois adultos que desejavam um ao outro intensamente, não como pais correndo para ficar com o bebê chorando. Não transamos, só brincamos, foi bom o suficiente para me sentir fora da pele de mamãe, e um pouco mais como a Katrina. A maternidade era intensa e eu não queria ser afogada no turbilhão de mudanças. Estava com medo de perder a minha essência e sabia que deixar de ser eu mesma prejudicaria a minha relação comigo mesma.

Descemos para comer enquanto ela ainda dormia. Rosa estava na cozinha bebendo café e lendo a bíblia, dando petiscos aos cachorros. Sentei ao seu lado enquanto Devon preparava sanduíches para nós três. Ouvimos o barulho do carro de Vanessa, os cachorros saíram correndo e ela entrou, cheia de sacolas de papel com mantimentos.

— Comprei coisinhas para um jantarzinho especial — anunciou, sorridente.

— Alguma coisa para comemorar? — Fiz uma varredura na minha mente se era aniversário de alguém ou uma data importante. Nada veio à tona. — Estou esquecendo algo?

— Dessa vez, não. Mas é importante. — Tirou um envelope da bolsa. — Recebemos hoje. Foi para a caixa postal do site.

— O que é? — Dei uma olhada e parecia uma carta.

— Abre logo!

Desconfiada, bati o envelope na mesa e caiu uma folha dobrada.

“Caro Sr. ou Sra. Responsável pelo Independent Vegas News.

Meu nome é Maria Fernandez, me mudei para esse país com a minha filha nos braços há trinta anos e fixei residência no Valley. Criei a minha menina mais velha com sacrifício e amor. Nunca fomos ricos, mas sempre honestos e trabalhadores. Há dois anos, minha filha, já mãe de duas crianças e viúva, recebeu o diagnóstico de câncer de pele. Foi uma grande e triste surpresa descobrir que as irritações e manchas no corpo, não eram alergias causadas pelos produtos do jardim que trabalhava.

Por um ano, a empresa que ela trabalhava ofereceu todo o tratamento. Nós acreditamos ser uma benção divina e não questionamos. Todos os médicos informaram que minha filha não se cuidou o suficiente ao estar exposta ao sol diariamente, mesmo usando protetor solar. Por um ano, eu a vi perder o brilho no olhar e a vontade de viver conforme o câncer se espalhava agressivamente.

Mesmo com todo investimento da empresa, ela veio a falecer. Na minha idade, sem condições adequadas de trabalho, ter dois netos para cuidar foi um choque. Sem ela, nossa condição financeira caiu e mesmo com a dor do luto, agradeci por não termos dívidas médicas.

Pensei que a minha filha havia sido uma infeliz vítima do destino até que a sua matéria trouxe a verdade. Funcionária dos jardins da Pro Valley, ela esteve exposta à água contaminada em uma base diária. O câncer não foi uma obra do destino. Eles sabiam. Os cuidados médicos não foram por empatia e sim, por culpa. Uma manobra para ocultar a verdade que eles, após a morte dela e de muitas outras pessoas, desesperadamente tentaram. Sua matéria trouxe justiça à vida da minha filha.

A advogada disse que quando essa carta chegasse em mãos, a notícia já poderia ser compartilhada. Nós vencemos o processo que se arrastou por todos esses meses. O dinheiro não vai trazer a minha doce menina de volta como eu tanto gostaria, mas dará aos filhos dela a chance de uma vida infinitamente melhor que ela um dia sonhou para eles. Sem a sua coragem de expor a corrupção de uma empresa que deveria preservar a saúde dos contribuintes acima de tudo, nós não teríamos conseguido.

Esse é o agradecimento de uma mãe. Portanto, muito obrigada”.

O choro chegou como uma avalanche. Apenas soltei a carta e me abracei. Como mãe, entendia cada mísera palavra escrita ali. Acolhi aquele sentimento de luto e gratidão com tanta força que o meu coração expandiu no peito. Devon me abraçou apertado, consolando o que ele sabia que era um choro de dor e alívio. Todos os dias, me perguntava se fiz a coisa certa.

Todos os dias eu tinha medo de uma vingança, de ter colocado a vida da minha filha em risco e depois que a companhia conseguiu o direito de correr o processo em segredo de justiça, perdi as minhas esperanças de um resultado favorável. Eu não podia sair perguntando por aí, mesmo que muitos jornalistas dessem a entender quem eram as pessoas por trás do meu site. Saber que as famílias venceram e receberiam a indenização devida era um alívio tão grande que sequer poderia descrever.

— Se eu tivesse apostado, seria mais uma coisa que ganharia — Devon brincou para me fazer rir.

— É impressionante como o rei do jogo nunca perde, não é?

— Baby... eu sou a banca. — Piscou. Ele segurou o meu rosto e limpou as lágrimas. — Halley tem sorte de ter uma mãe foda. Ela vai crescer com tanto orgulho...

Eu ainda não sabia como seria a minha carreira dali em diante. De todas as coisas que sempre tive pressa na minha vida, aprendi que ter calma fazia parte do processo de amadurecimento. Não queria mais me atropelar e segurar o mundo com as mãos. Pretendia voltar a trabalhar na empresa, cuidar do site, mas enquanto minha filha fosse pequena, minha principal atividade investigativa era: ser mamãe.

...

Nos primeiros dois meses de Halley eu não sabia o meu nome. Houve noites que eu não conseguia dormir. Mesmo quando ela dormia, ficava parada, olhando para o seu berço, pensando na velocidade em que a minha vida mudou e o quanto eu estava, inconscientemente, lutando para aceitar. Era como se o meu estúpido cérebro orgulhoso sabotasse o momento incrível — dolorido e confuso — da maternidade, como se fosse algo completamente ruim. Quando olhava para minha filha só de fralda dormindo no peito do seu apaixonado pai, meu coração dizia: como isso poderia ser ruim?

— Estou me sentindo observado. — Devon, em sua calmaria, de olhos fechados, me deu um sorriso. Sua mão estava no bumbum da nossa pequena bolotinha. — Ela está dormindo, por que você não está?

— Se você tivesse noção do quanto te ver com ela faz o meu útero ainda traumatizado com o parto revirar, não me faria essa pergunta.

— Sempre soube que a paternidade me deixaria sexy. — Deu o seu irresistível sorriso torto.

— Cretino. — Me inclinei e beijei sua bochecha. — Everly conheceu Halley hoje. Eu estava saindo do consultório médico e ela estava aguardando sua vez para um exame. Por alguns segundos, ficou em choque com a beleza da minha filha, ela nunca vai admitir, mas eu sei. Me parabenizou de verdade e então, colocou a máscara de cadela no lugar, nós nos provocamos e cada uma seguiu para um lado.

— Vocês não estão mais no ensino médio. — Sorriu, ainda de olhos fechados.

— Eu sei e não me importo. Não incentivo a rivalidade feminina e sei que no momento que ela precisar, se eu puder, irei ajudar. É coisa nossa... somos como água e óleo. — Deitei ao seu lado, dando um beijinho em seu ombro.

— Durma.

Tirei um cochilo e acordei com o suave resmungar da minha menina conversando com o pai. Ela não estava muito bem humorada, provavelmente começando a sentir fome e ele estava me deixando dormir até o último segundo. Ajeitei a minha posição na cama, soltando meu sutiã de amamentação, logo sua boquinha nervosa estava sugando meu seio com vontade.

Passei meu dedo por sua bochecha, indo para as perninhas cheias de dobras. Ergui o olhar e me deparei com os mais belos olhos azuis me admirando com amor. Devon estava vivendo a paternidade tão intensamente quanto eu. Ele me dava suporte em coisas que apenas eu poderia fazer e compartilhava todos os cuidados da nossa princesa, que tinha uma família inteira à sua disposição.

— Eu vou preparar o jantar — avisou antes de me dar um suave beijo nos lábios e sair do quarto.

Vanessa me fez companhia por um tempo, ficou paparicando a sobrinha enquanto eu tomava banho, com direito a lavar o cabelo e me depilar. Jantamos em família, com Halley acordada no carrinho e ainda matamos um tempo conversando na sala. Quando a fiz dormir e coloquei em seu berço, entreguei para sua tia o monitor do bebê. Meu corpo me avisava sempre que chorava, era impressionante o meu radar de necessidades da minha filha, mas naquele momento, a mamãe estava com outra necessidade.

— Está muito tarde para estar trabalhando. — Parei na porta do escritório, começando uma briga propositalmente. Devon, concentrado no computador, sequer olhou para o lado.

— Sim, é claro. Eu gerencio igrejas — ele rebateu secamente, movendo o mouse.

— Acho que deveria... porque estou disposta a te fazer implorar por misericórdia hoje.

Aquilo foi o suficiente para atrair a atenção dele. Meu cabelo estava bem escovado e jogado de lado, o decote da minha blusa pressionava meus seios turbinados de leite de maneira atraente e a minha calcinha era só um shortinho de renda.

— Para me fazer implorar, já te dei a receita... — Sorriu e começamos a rir. Me recompus, ficando séria a apontei em sua direção.

— Sim, espanhola ou garganta profunda. — Revirei os olhos. — Levanta essa bunda daí que hoje a sua esposa está solicitando os serviços particulares de diversão do sr. Winterfield.

Saindo de seu lugar, com uma expressão obediente, me seguiu tranquilamente, sem fazer barulho. Marco e Polo ergueram suas cabeças quando passamos, normalmente, eles acordavam Halley com suas bagunças, mas ela precisaria se acostumar com os irmãos barulhentos. Quando ficavam impossíveis, Rosa os levava para seu quarto, que era nos fundos, de frente para o jardim.

Assim que fechei a porta do quarto, Devon me pressionou contra ela, tomando a minha boca em um beijo possessivo e gostoso que me deixava tonta de prazer. Agarrando a minha bunda, me ergueu em seu colo. Meus lábios mal conseguiam se afastar de sua pele.

Devon me levou para a cama, me colocando no centro dela com cuidado, me fazendo sentir preciosa, mesmo com seus beijos mais intensos e um pouco mais rudes. Havia muita necessidade e uma busca por conexão, o prazer incrível que tínhamos juntos e a vontade de viver eternamente compartilhando a intimidade de forma tão crua. Seu sorriso safado ao tirar minha calcinha e jogar longe me fez rir.

A risada, no entanto, morreu com a sua língua explorando meu clitóris.

— Ah... pensei que fosse te fazer implorar primeiro — gemi.

— Nós dois sabemos que você adora provocar.

Idiota.

— Se isso é uma espécie de preliminar para atiçar o meu lado competitivo, saiba que está dando certo. — Ai meu Deus! Soltei um gemido alto. — Você vai implorar.

— Pura pressão... — me provocou.

Foda-se ele!

— Devon! — Ergui o rosto, quase desfalecendo com a deliciosa visão de sua boca na minha boceta. — Tire a calça... e vem aqui.

— Claro, amor. — Piscou. O sorriso que me deixava maluca desde os meus treze anos de idade enfeitou seu rosto perfeito. — Eu te amo.

Ele me tinha em suas mãos.

— Também te amo, mas você vai aprender a não provocar uma competidora.

De todas as coisas que eu tinha certeza: Devon era o homem da minha vida, Halley era o meu maior amor, o casamento era uma gangorra de emoções, mas enquanto houvesse diversão, paz, respeito e muito companheirismo, vida a dois podia ser um jogo divertido de se jogar. Meu casamento foi o desafio que perder, me fez ganhar um prêmio que não tinha preço: meu marido e minha filha.

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