Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

Mari Cardoso · Capítulo 7 de 39

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Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

5 | Katrina

 

Cretino, miserável, filho de uma... Enfiei o meu telefone no bolso para não o xingar um pouco mais. Irritante de uma figa.

— Kat! — Vanessa gritou, acenando loucamente, como se não estivesse com um vestido amarelo berrante e um par de óculos escuros com a armação branca, no meio da praça. Para melhorar, o chafariz explodiu atrás dela. — Ai que legal!

— O que deu em você com esse look exótico? — Me aproximei e soltei uma risada quando ela rodopiou, fazendo graça, exibindo o bom humor no qual eu era apaixonada. — Está linda.

— Encontrei esse vestido em um brechó e a dona disse que ele era rejeitado por ser horrível. Eu disse a ela que o vestido só precisava encontrar alguém que soubesse usá-lo.

— Claro que esse alguém seria você. — Demos os nossos braços e começamos a andar.

— Por que estava tão irritada?

— Seu irmão, é claro. Quem mais poderia estar elevando os meus níveis de pressão arterial com apenas dois dias de casados? Essa ideia é a coisa mais estúpida de toda a minha vida. — Me abanei, morrendo de calor. — Ele está decidido em se fazer presente. Ainda não acredito que bebi, casei e transei com Devon.

— Também não, parece pegadinha, mas está sendo muito divertido acompanhar.

— Divertido? — Bufei, e paramos em uma barraquinha de sorvete. Tirei o meu telefone do bolso. — “Bom dia, linda esposa. Como você está essa manhã?” — Li a mensagem e a encarei. — Ele enviou muitas dessas ontem à noite.

— Bom que você vai aprender a não desafiar um oponente disposto.

— Não é isso. — Fiz um pequeno beicinho. — Não pensei que a coisa toda iria tão longe, sabe? Era só um estúpido comentário, ele perguntou a minha opinião.

— Esse casamento vai ser muito físico? Ou ficaram no zero a zero depois de quase derrubar o teto solar da casa? — Balançou as sobrancelhas do mesmo jeito irritante que o irmão fazia.

— Não vai ser nada físico. Ele quer me provar que pode ser comprometido e leal, não precisamos adicionar o sexo na equação porque ele já fodeu com metade da cidade sem compromisso.

Pedimos o nosso sorvete e nos afastamos, procurando um banquinho na sombra. Vanessa me ligou quando estava finalizando meu meio expediente na revista. Ela tinha algumas coisas para resolver no centro da cidade, e eu tinha algumas horas para matar antes do meu horário no cassino começar.

— Não pode julgar Devon por ter atitudes de um homem solteiro.

— Se ele fosse uma mulher, seria julgado, então, eu posso julgar. — Dei de ombros, lambendo a bola e foi uma maravilha doce naquele calor. — Se ele quer provar compromisso, por que cederia ao sexo?

— Sexo faz parte de um relacionamento, do comprometimento, em se doar e provar — Vanessa falou toda sonhadora. — Eu espero encontrar um homem que seja honrado, que me valorize, cuide de mim e me faça sentir única.

— Eu amo o seu jeito de pensar, me faz sentir esperança que exista um homem incrível por aí apenas esperando que o destino nos cruze em algum caminho.

— Você é casada, mulher. Sossega. — Me empurrou com o ombro e rimos juntas.

Olhei para a ostentosa aliança na minha mão e me perguntei como explicaria o que ela significava. Ainda não tive coragem de contar para minha mãe. O motivo pelo qual estava usando a aliança fazia parte do acordo com Devon, ele insistiu que um casamento não podia ser apenas no papel e com isso, eu fiz que ele usasse uma também. Se eu andaria pela cidade marcada como um gado, não seria a única. Devon Winterfield estava fora do mercado por seis meses.

Terminado o nosso sorvete, andamos com calma para o Bertie, que estava no estacionamento perto da praça. Ele demorou para pegar, me estressei, reclamei, batendo no volante e Vanessa ficou filmando porque ela sempre se divertia com as minhas conversas com o carro. Os seguidores dela amavam o Bertie, ele tinha até um fã clube. Eu tinha um instagram com muitos seguidores por causa de Vanessa, que tinha muitos por causa do irmão.

Quando Bertie pegou, acelerei pelas ruas. Não estava atrasada, mas queria me arrumar com calma porque era uma noite importante. Alguns dos empresários mais ricos da cidade reservaram um salão, e se eles gastassem, ganharia uma boa graninha.

Apesar de amar o Bertie e ter uma relação maravilhosa com o meu fusquinha laranja temperamental, precisava muito de um carro mais novo. Bertie me deixava na mão nos piores momentos, além de fazer um escândalo sem precedentes em seus dias ruins.

Estacionei na minha vaga costumeira, no andar dos funcionários e, felizmente, Bertie não ficava solitário ali.

— Oi, Kat. — O manobrista que cuidava do estacionamento apareceu logo que parei. — Sua vaga mudou. Recebi um comunicado dizendo que você tem que parar no terceiro andar. Remanejei a sua vaga para a nova hostess.

O terceiro andar era exclusivamente da presidência. Apenas Devon, Vanessa, o tio e poucos funcionários tinham permissão de parar ali. Devon era sorrateiro porque ele sabia que negaria a vaga e me recusaria a tirar o carro, mas eu não ia colocar a organização do manobrista em risco e muito menos queria que ele levasse uma advertência por minha causa. Vanessa ficou quieta enquanto subia as rampas e propositalmente parei ao lado do carro esportivo do Devon.

Ao parar, Bertie soltou um estouro e o cheiro de combustível dominou o ambiente.

— Tudo bem, foram muitas rampas, sei que você é sedentário. — Acariciei o painel.

— Temos que cuidar das suas coronárias entupidas — Vanessa brincou.

— Vem, eu não quero me atrasar. Vai pedir um táxi ou vai embora com o seu irmão?

— Não quero ficar em casa sem o meu maninho favorito e a minha cunhadinha.

— Cada vez que você me chama de cunhadinha, sinto um arrepio na espinha. — Saí do carro e bati a porta. — Nada a ver ele me colocar aqui em cima. Todo mundo vai pensar que é favoritismo, porque obviamente é. Esperava que ninguém soubesse do casamento, não preciso de fofocas e sim de manter o meu emprego.

— Não sei porque fez isso, talvez devesse falar com ele e deixar claro o seu posicionamento. Se você não falar, não pode brigar. Comunicação, lembra? — Vanessa me cutucou, revirei os olhos. Odiava a sensatez dela. — Não pode perder o desafio por ser cabeça quente.

— Por esse ângulo, tudo bem. Você tem razão.

— Sempre tenho razão.

O vestiário estava vazio quando entrei. Vanessa ficou comigo enquanto me arrumava, modelou meu cabelo e ainda colou cílios em mim. Usando um justíssimo vestido preto, com os meus longos cabelos loiros de um jeito bem fatal e de saltos altos, me preparei para receber os convidados. Estava com fome, não daria tempo de jantar antes, quando eles começassem a jogar, fugiria para a cozinha. Pierre certamente guardaria um pouco de comida para sua amiga sempre morta de fome.

Vanessa avisou que subiria para o escritório do irmão para atrapalhar o trabalho dele. Escondi a aliança no decote do meu vestido, segurando o telefone e reparei que havia outra mulher no meu lugar usual. John franziu o cenho quando me viu aproximar.

— Oi, Kat. Parabéns! — Ele sorriu de trás do bar e eu gelei, esperando que falasse algo referente ao casamento. — Ouvi dizer que foi promovida.

— Desculpa, o quê?

— Promovida. Não foi? Já colocaram outra menina no seu lugar, avisando que foi promovida lá para a presidência. — Completou. Franzi o cenho. A troca da vaga fez sentido, principalmente pelo fato de que o manobrista disse que a minha vaga foi remanejada para a menina nova.

Devon! Cretino, miserável, filho da mãe!

Sorri para John e dei meia volta em direção aos elevadores. Irritada, praticamente soquei o botão do andar da cobertura, apertando repetidamente. No andar, as portas se abriram e avancei pelo corredor até chegar à sala dele. Vanessa estava jogada no sofá na sala ao lado, mexendo em seu telefone, empurrei a porta com brusquidão. Everly e um grupo de homens estavam reunidos ao redor da mesa dele, que ergueu o olhar para a minha entrada explosiva.

— Você colocou outra pessoa no meu lugar? — gritei, tão furiosa que não estava me importando com as pessoas na sala.

Everly virou, ultrajada, enquanto Devon apenas recostou em sua cadeira, me olhando com interesse.

— Katrina! Esses não são modos de entrar na sala, principalmente do presidente desta empresa e se decisões foram tomadas, foi para o melhor. Lamentamos a sua saída, tenho certeza que Devon pode preencher uma carta de recomendação — Everly começou a falar. Ergui a minha mão.

— Cale a boca que não estou falando com você!

— Desculpe? Quem você pensa que é? — Ela colocou as mãos na cintura.

— E quem você pensa que é? — rebati e virei para Devon, que assistia à cena divertido. — Por que fez isso?

— Eu não te demiti, apenas mudei o seu trabalho — falou tranquilamente do seu lugar. — A sua formação em jornalismo será muito bem aproveitada no setor de comunicação da Winterfield. — Ficou de pé. Respirei fundo. Ele realmente me promoveu? — Como você é a minha senhora, vai ter um lugar de destaque.

— Sua o quê ? — Everly gritou.

— Senhores, essa explosiva, porém muito linda senhora, é a minha esposa. Katrina Winterfield. — Apresentou com orgulho. Filho da mãe! Fiquei vermelha de vergonha. Os homens se levantaram e me cumprimentaram com todo respeito. — Já estou terminando a reunião e converso com você, tudo bem?

Muda, balancei a cabeça e saí da sala. Entrei na sala ao lado, fechando todas as persianas. Vanessa estava rindo. Ela sempre ria. Meu sangue quente sempre me colocava em problemas e o pior era que Devon não parecia nada estressado com o meu rompante. Na verdade, ele parecia satisfeito que arrancou uma reação minha. Seus olhos estavam brilhando em diversão, a boca com um sorriso torto, mesmo com Everly quase explodindo as veias da testa.

— Eu pensei que ela fosse desmaiar — Vanessa sussurrou quando ouvimos os homens saindo da sala. — Vamos ouvir. — Corremos para a parede e colamos nossos ouvidos. A persiana da sala dele estava fechada, então, ele não podia nos ver ali.

— Casado? — Everly perguntou. — Você se casou, Devon?

— Aparentemente, sim. Katrina é minha esposa e você, minha advogada, talvez precise moderar o seu tom com ela. Como a nova senhora Winterfield, ela pode ter uma forte opinião sobre os funcionários.

O engraçadinho estava me usando como desculpa, porque obviamente, eu não tinha opinião sobre nada ali. Os meus sentimentos contra Everly eram fortes por muitos motivos, mas eu jamais tiraria o emprego de uma pessoa apenas porque ela tinha dormido com o meu “marido” e sempre me tratou como o cocô do cavalo do bandido. Eu era muito mais legal que isso.

— Um casamento? Você nunca quis um relacionamento e agora apareceu casado?

— Nós terminamos tem quase dois anos, Everly. — Devon usou o tom de voz desinteressado. — Eu não preciso te dar satisfação do que faço da minha vida. A reunião está terminada, então, você pode ir. Por favor, não bata a porta.

— É uma tremenda falta de respeito e de responsabilidade afetiva...

— Responsabilidade afetiva? — Ele ficou de pé. — Falta de respeito? Nós nunca tivemos um namoro. Sempre foi sexo. Você disse que queria apenas sexo tanto quanto eu. Quando acabou, passou dos limites, nós conversamos como dois adultos. Após o término, não preciso te dar satisfação. Agora, por favor, me dê licença.

Furiosa, Everly saiu batendo a porta. Cheguei a pular no lugar.

— Vocês duas podem sair daí — Devon falou. — Dá pra ver a silhueta contra o vidro.

Começamos a rir e aparecemos em sua sala. Everly ainda estava na frente do elevador e o seu olhar de puro ódio me atingiu. Eu meio que a entendia. Deveria ser horrível ser apaixonada por uma pessoa e não ser recíproco. Ninguém poderia dizer que ela não tentou enlaçar o homem que tanto queria.

— Acho que você acabou de partir o coração de uma mulher. — Cruzei os meus braços.

— Mais uma vez me julgando sem saber de todos os fatos. Como vamos lidar com essa mania, querida esposa? — Ele inclinou a cabeça para o lado.

— Eu vou deixar vocês dois sozinhos. Estou na copa pegando um cafezinho. — Vanessa saiu rapidamente e fechou a porta atrás dela.

— Que história é essa de setor de comunicação? — Continuei parada, de pé, de braços cruzados.

Devon ficou em seu lugar e o olhar subiu dos meus pés, parando nas minhas coxas e voltou a subir com uma lentidão exagerada, me comendo com os olhos sem nem disfarçar. Limpei a garganta e ganhei um sorriso safado. Ele me devastava com uma atitude daquelas.

— O meu mais novo setor de comunicação precisa de uma jornalista bastante eficaz e nada melhor do que a minha linda esposa para fazer parte da equipe. Acabei de romper com a empresa que gerenciava os meus eventos e contato com a imprensa. — Bateu a caneta na mesa. 

— Como você pôde fazer isso sem conversar comigo antes? — Me aproximei da mesa, erguendo o meu dedo. Ele me deixava tão louca que me vi agarrando o seu pescoço e sacudindo. — Você me substituiu sem me falar nada. Eu cheguei e já tinha outra pessoa no meu lugar. Devon, independentemente de qualquer desafio ou “amizade” ao longo dos anos, é uma tremenda falta de respeito. É o meu emprego, preciso do salário, isso não pode ser uma brincadeira.

— Ainda quero entender em que momento da vida você me viu como uma pessoa capaz de brincar com o sustento de outra. — Ficou sério. — Vanessa me impediu de te dar a promoção antes, não foi pelo dinheiro e sim porque ela se preocupava que você sentisse que foi por favoritismo. Aparentemente, minha irmã sabe que você beija o orgulho com paixão.

— Não é orgulho, é justiça. Você me promoveu no lugar de outra pessoa? Me colocou em outro lugar porque nós nos casamos?

— O setor é novo, Katrina. Não está no lugar de ninguém.

— Eu vou ceder e acreditar na sua palavra. — Puxei a cadeira e me sentei, cruzando as minhas pernas. Devon puxou o cabelo e riu. — O que foi?

— Você é impossível — reclamou e abri um sorriso.

— Eu quero uma vaga no jornal que eu trabalho, meu sonho é ser uma jornalista investigativa, mas posso ouvir a sua proposta de emprego.

— Por que não responde as minhas mensagens?

— Porque não sou obrigada.

— Tudo bem, isso só contribui para minha vitória. — Deu de ombros.

— Vamos falar sobre o trabalho?

— Não. Amanhã falaremos, hoje, meu expediente encerrou e eu quero comer uma boa comida, me jogar no sofá e assistir algum jogo. Portanto, esposa... vamos para casa.

Vanessa bateu na porta.

— Oi, já terminaram? Estou faminta. Podemos pedir comida tailandesa? — Nos deu um olhar de cachorrinho. — Dorme lá em casa hoje, sei que a Mel está no trabalho. Não quero ficar sozinha.

— Obrigado por dispensar a minha companhia, Vanessa — Devon brincou.

— De nada! — Ela sorriu. — Por favorzinho, Kat!

Não queria ficar sozinha em casa, não me sentia segura, não com Nick ainda me ligando e vigiando o meu entrar e sair. Para falar a verdade, não queria conversar com ele. Não tinha mais nada para explicar e ao mesmo tempo, não queria passar a imagem de que estava fugindo de Devon. Eu precisava criar as minhas próprias armas para vencer aquele desafio.

— Tudo bem, eu topo comida tailandesa. Eu preciso limpar o meu armário no vestiário e descer com as minhas coisas.

— Eu vou te ajudar. — Vanessa se empolgou.

Saímos da sala de Devon e entramos no elevador. Por coincidência, descemos ao mesmo tempo em que o grupo de empresários, esperados para a noite, estava chegando. A nova garota parecia nervosa, quase histérica, e parei para ajudá-la, apresentando os clientes e cochichando para ficar calma ou eles iriam perceber e começar a brincar com ela. No começo, os clientes me faziam de gato e sapato, só porque morria de medo deles e de decepcionar a oportunidade que Vanessa conseguiu para mim.

Quando eles começaram a apostar, me afastei e caminhei para o vestiário. Foi estranho arrumar a minha bolsa, tirar tudo e deixar o armário limpo.

— A nova oportunidade que Devon deu é maravilhosa, sei que você pode ganhar muito dinheiro, mas não desista do seu sonho — Vanessa comentou. — Não quero que desperdice esse talento por causa de um salário maior. Eu não consigo evitar a culpa de...

— O quão maior? — brinquei e ela me empurrou. — Sei que você protege o meu sonho como se fosse seu e isso é uma das coisas que me faz te amar incondicionalmente. Eu realmente te prometo com o meu coração que não vou desistir. Já pedi para não se culpar pelo que aconteceu. Já passou.

— Mesmo que seja apenas uma capa, mas não desista. Eu vou emoldurar e pendurar na minha parede. — Me deu um abraço. — O mundo que Devon vive é cheio de glamour e ostentação.

— Você me conhece, sabe que não sou de me deslumbrar fácil e eu já observei o mundo em que ele vive. Vou ficar bem, nós vamos trabalhar juntos para desafiar um ao outro. Obrigada por se preocupar comigo.

Saímos de braços dados. Devon estava encostado no carro, mexendo em seu telefone e nos deu um sorriso. Coloquei a minha mala no banco de trás do Bertie, ele me deu uma piscada e percebi que fiquei com a bunda empinada na sua direção. Droga. Ajeitando o vestido e tirando os saltos, entrei no lado do motorista. Ele avisou que nos seguiria, fechando a minha porta e não consegui desviar o olhar de sua bunda bem ajustada no jeans azul escuro.

Maldito homem gostoso...

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