Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

Mari Cardoso · Capítulo 37 de 39

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Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1

35 | Devon

 

Alguns meses depois...

 

Katrina estava sentada na beira da piscina, passando protetor solar na barriga e se inclinou para o sol, contemplando o momento a sós. Toda manhã nos últimos meses, antes de ir trabalhar e agora que estava de licença para esperar a chegada da nossa menina, ela fazia a mesma coisa.

Ficar de pé na janela do nosso quarto, observando-a era o meu novo momento favorito. Quando ninguém estava observando, ela conversava com a barriga, sorria conforme sentia mexer e suspirava de um jeito tão feliz que era impossível não me sentir ainda mais apaixonado.

Meu telefone vibrou, o trabalho me chamava, mesmo quando queria ficar em casa. Estava quase tirando uma licença longa para acompanhar o final da gestação e o nascimento do bebê. Katrina achava melhor que tirasse apenas após o nascimento, considerando que a Winterfield expandiu nos últimos meses e estávamos levando nossos eventos mensalmente para outras cidades. Toda essa parte era um pouco complicada de gerenciar à distância, por isso promovi Alicia para ser a diretora de operações e contratei uma nova assistente.

Alicia e o marido assumiram toda logística dos eventos e eu segui comandando os negócios locais, tais como os cassinos, boates e bares. Todos os hotéis estavam com uma empresa especializada em hotelaria, diminuindo um pouco a minha carga.

— Ei, bonitão. — Vanessa entrou no meu quarto. — Vai se atrasar para o trabalho.

— Estava ocupado — menti.

— Babando sua esposa? É uma ótima ocupação. — Ela sorriu e me deu um abraço. Estava recém-banhada, mas, ainda era possível sentir o cheiro do hospital.

— Como ela passou a noite?

— Sinceramente? Eu quis dar um monte de remédio para dormir. — Suspirou, ainda agarrada em mim. — É tão complicado porque ela é muito cansativa. Nunca pensei que o câncer seria tão agressivo...

— Os médicos falaram alguma coisa?

— Deram a entender que talvez, ela não volte para os palcos como pensa que vai. — Afastou-se. — Eu vou pegar um pouco de sol, paparicar o meu sobrinho e descansar para voltar mais tarde.

— Se cuida e qualquer coisa, me liga. — Beijei sua testa.

Propus a Vanessa que contratássemos uma enfermeira para cuidar de Shannon quando chegou o momento crítico de seu tratamento. Ficou complicado gerenciar a doença e os seus rompantes de quem não aceitava que estava doente, lutando contra as deficiências do corpo, as medicações e o tratamento imposto pelo médico. Durante o dia, uma enfermeira particular ficava no hospital e de vez em quando, dormia à noite, principalmente quando obrigava minha irmã a descansar.

Era impressionante o quanto Vanessa e Katrina, enquanto ainda podiam, se doaram em acompanhar Shannon no tratamento. Eu tentei, dei o meu melhor, mas assumi a minha limitação de paciência. Estava dando meu apoio, pagando o melhor hospital e me reunindo toda semana com o Dr. Everest para decidir os melhores passos. Mesmo com nossas atenções voltadas a esse momento tão delicado, também estávamos aproveitando cada segundo da gestação de Katrina.

Ela, grávida, era um pesadelo de pés inchados. Sua boca esperta estava escorrendo ácido. Ela ficou ativa e trabalhando normalmente até o fim do segundo trimestre. O médico precisou dar uma ordem para desacelerar na segunda semana do terceiro trimestre. Sua pressão arterial estava constantemente elevada e os pés muito inchados. Exercícios leves e hidroginástica foram recomendados e, após alguns dias de descanso, ficou infinitamente melhor.

As últimas semanas foram tranquilas, nós terminamos o mobiliário do quarto, toda decoração e estava tudo pronto para chegada da minha menina. Ela ainda cismava que era menino e eu sabia que era menina. Nós discutimos sobre os nomes e por fim, anotamos todas as ideias, colocamos em um painel e jogamos dardos. Restou duas opções para menino e duas opções para menina. Uma delas, era uma coisa louca e excêntrica que só a minha mulher com nome de furacão poderia escolher.

— Ei, linda. — Me aproximei da piscina. Os cachorros estavam deitados com ela. — Estou saindo. Como você está? — Me agachei ao seu lado.

— Estamos bem. Vá e não demore a voltar. — Me deu um beijo. — Seu filho e eu ficaremos bem.

— Cuida da minha filha. — Beijei-a de volta.

— Vamos fazer o papai perder. — Deu um tapinha na barriga e ri. Ela sabia que eu ia ganhar.

Em uma noite sonolenta, admitiu estar insistindo que era um menino só para me contrariar. Na verdade, não importava o sexo. Era coisa nossa competir. Eu sabia que era menina porque sabia. Não tinha explicação lógica, quando vi o resultado positivo, soube que me tornei um pai de menina.

Meu primeiro compromisso no dia era a obra da academia do Stuart. Me tornei o principal patrocinador, porque ao quebrar o contrato com a sua empresária, ele não tinha como investir na academia e ao mesmo tempo, manter o estilo de vida estipulado pelo juiz, ao filho. Ao longo da carreira, fez investimentos, mas não o suficiente para arriscar. Ele era meu amigo e iria investir nele de olhos fechados, mas eu também sabia que uma academia com o nome dele seria um sucesso.

— Fala, maluco! — Stuart gritou do segundo andar. — Olha como isso está incrível!

— Esse teto de vidro é simplesmente foda!

— O ringue principal vai ficar bem aí! — Apontou para o espaço onde eu estava. — Ao lado, serão os sacos de luta e no salão dos fundos, aparelhos. Aqui em cima quero organizar os tatames e as salas privadas com paredes de vidro. — Gesticulou. Apesar da distância, sua voz ecoava no espaço vazio. — É isso, homem. Está acontecendo! Quero ver aquele juiz filho da puta dizer que não tenho estabilidade para ficar com meu filho!

— Se ele falar, eu vou comprar toda justiça de Nova Iorque!

O engenheiro responsável pela reforma chegou um pouco atrasado para nossa reunião, mas não o suficiente para embolar toda minha agenda. Atualizar o projeto naquela fase era importante, porque depois, para mudar qualquer coisa, causaria prejuízos desnecessários. Quando a arquiteta chegou, levamos mais uma hora passando a planta em 3D a limpo. Stuart estava tão animado que ele mal conseguia se conter. Tanto que precisava acalmá-lo, ou aprovaria absolutamente tudo sem analisar com calma.

Além de realizar o sonho de finalmente ser dono do seu próprio nariz, ele estava esperançoso em poder ter mais tempo com o filho.

— Noite de jogos? — Stuart olhou em seu telefone. — Katrina acabou de me intimar.

— A mulher está quase parindo e ainda assim, não consegue sossegar. — Olhei as minhas mensagens. Ainda fez um convite formal. — Deve estar entediada de ficar com os pés para o alto porque até seu horário no segundo trabalho está reduzido e monitorado.

— Sabia que era selvagem, mas não sabia que estava amarrando a mulher à cama — me provocou antes de ir em direção ao seu carro parado do outro lado da rua.

Meu dia estava tão cheio que mal tive tempo de parar. Meu último compromisso era no Instituto de Oncologia. Estacionei o mais próximo possível da entrada e passei pelos corredores, já tendo memorizado o caminho até a suíte que Shannon estava internada há algumas semanas. Seu quarto estava cheio de flores falsas, porque o hospital não permitia verdadeiras. Tio Saul estava recostado na poltrona, lendo a crítica do último filme que ela gravou antes de ter o diagnóstico do câncer.

— Minha neta nasceu?

— Ainda não, Shannon. — Sentei na pontinha da cama e segurei sua mão. — O médico disse que pode ser a qualquer momento, mas Katrina está sentindo-se bem e o bebê confortável na barriga.

— Espero que você ganhe a aposta, aquela garota é arrogante o suficiente — retrucou e ri. Sua tão idolatrada aparência não era a mesma. Estava magra, muito magra, a pele ressecada e usava um lenço colorido na cabeça. Mesmo doente, fazia questão de usar batom e rímel. Ela obrigava Vanessa a maquiá-la, antes de ir embora, todas as manhãs. — Você vai me mostrar uma foto dela quando nascer?

— Eu vou, prometo. Tenho que ir para casa, ok?

— Ok. — Ela sorriu.

Acenei para meu tio e fui embora. Shannon estava lidando com o câncer à sua maneira. Eu não podia dizer o que deveria fazer e muito menos como deveria reagir. Apenas estava lidando da minha melhor maneira como filho e respeitando o seu momento como ser humano. Mãe ela não passou a ser apenas porque estava doente. Nossa relação não tinha mais conserto.

A minha esperança era não repetir os mesmos erros com os meus filhos. Com o passado, não havia mais nada a fazer.

Chegar em casa se tornou o melhor momento do meu dia. Estacionei o carro na garagem e os cachorros estavam quase derrubando a porta da cozinha para sair. Katrina abriu e eles saíram correndo, pulando em cima de mim e fazendo a usual festa para me cumprimentar. Enormes, não tinham noção da força, mas desde que sentiram que a mamãe estava esperando um bebê, eles ficaram completamente suaves com ela.

— Oi, belezura. — Me inclinei e beijei os lábios da minha baixinha barriguda. Katrina sorriu, seu nariz inchado era marca registrada, assim como os lábios mais vermelhos. Seu ganho de peso deixou o rosto de boneca redondo, com expressão de mãe apaixonada. — Oi, amor do papai. — Me agachei à sua frente, beijando sua barriga e com a minha pressão, além da entonação da voz, a barriga ondulou. — Você ficou bem?

— Dormimos a tarde toda e acordamos com a tia Vanessa preparando um lanchinho.

— Já disse que está linda hoje? — Abracei-a, esfregando suas costas. A barriga impedia um contato mais próximo naquela posição. — Muita tensão?

— Está pesando. — Suspirou e fez um beicinho. — Ele podia nascer logo, já estamos pertinho da data limite. Antes, estava preocupada, agora, ele parece confortável demais aqui dentro.

— Vamos entrar e colocar esses pés para o alto. Quem inventou essa história de jogo?

— Estou entediada. Quero discutir com alguém. — Encolheu os ombros, fazendo um rápido beicinho. — Estão acabando os meus motivos para pegar no seu pé e essa criança me impede de ter sexo.

— Sempre disposto a tentar — provoquei.

Katrina fez uma careta e deu as costas, alegando que precisava sentar.

Stuart chegou com cerveja e seu tabuleiro de jogos. Ele e Vanessa arrumaram tudo sob as ordens precisas da senhora minha esposa, que acomodada no sofá, só apontava de longe. Tomei banho, vesti uma roupa confortável e me preparei para a posição que ela precisava que ficasse, assim podíamos ficar juntos e ela confortável em seu lugar. Minhas mãos automaticamente correram para sua barriga.

Seja lá o que começou entre minha irmã e meu melhor amigo, parecia que havia terminado. Me arrependia por ter explodido de tal maneira com Vanessa sobre Stuart. Estava preocupado com a minha irmã. Depois de tantos sustos, me sentia no direito de preservar a sua saúde mental e o seu coração. Stuart não era má pessoa, só estava envolvido em uma teia de aranha com pessoas ruins que eu não queria perto da Vanessa de jeito nenhum.

A relação deles parecia ter esfriado romanticamente e acendido a chama de uma amizade bonita. Talvez, quando ele finalmente resolvesse a guarda do filho e se livrasse da mãe tóxica, eles conseguiriam construir um relacionamento saudável. Depois de Katrina, do tempo que levamos para conseguir ficar juntos, não descartava nenhuma possibilidade.

As cartas foram embaralhadas e logo começamos a jogar. Katrina estava sendo desafiante, irritante e enchendo o saco, como em todo jogo. Ela ficou provocando Vanessa impiedosamente, tirando a concentração e, de repente, caiu no sono. Encostada em mim, sua respiração ficou pesada, o braço caiu e revelou todas as suas cartas para Vanessa. Minha irmã, que não valia nada, pegou as cartas dela e misturou entre as suas sem nos mostrar qual era o jogo.

A partida estava tranquila e quase terminando quando ela acordou de novo, colocando a mão na barriga e soltou um resmungo.

— Um chute certeiro? — Coloquei minha mão em cima da dela.

— Não... uma contração — choramingou. — E ela dói.

— Vamos encerrar o jogo e observar se são de treinamento ou para valer. — Entreguei minhas cartas, preocupado se era o começo de seu trabalho de parto.

Sua bolsa e o plano estavam prontos. Os médicos de sobreaviso. Quando anunciamos a gravidez em nossas redes sociais, foi uma comoção. Conseguimos esconder até o começo do quinto mês, com a barriga esticada à frente e poucas roupas capazes de cobrir, falamos antes que alguém tirasse a nossa glória. Devido à presença de Shannon na cidade, a imprensa estava em cima de nós e mais fotos de Katrina grávida circularam pela internet do que estava confortável.

Quando deixou de ser novidade, explodiu na mídia o tratamento do câncer e algum funcionário do primeiro hospital onde Shannon estava internada, vazou uma foto dela fazendo quimioterapia. O inferno voltou por algumas semanas até que outra pessoa famosa fez algo completamente escandaloso na cidade. Embora a mídia favorecesse meu trabalho, em sua maior parte, era um completo inferno.

Katrina passou a noite acordada, sentindo contrações, mas ainda estava cedo demais para sair. Pela manhã, o tempo entre elas diminuiu consideravelmente e a médica avisou que podíamos sair de casa para internação. Sua bolsa ainda não tinha rompido, ela quis tomar um banho e se arrumar. Teimosa, chegou a inclinar na pia do banheiro enquanto escovava o cabelo, alegando querer estar em sua melhor aparência para segurar o nosso bebê pela primeira vez.

— Ele vai te ver descabelada e chorando nas próximas semanas — brinquei. Tudo que lemos sobre os primeiros dias do bebê em casa parecia assustador.

— Justamente. — Ela riu. — A primeira impressão é a que fica.

— Devo ser algum masoquista porque a primeira vez que te vi, estava usando um pijama tenebroso, seu cabelo estava por todo lado e tinha baba seca na sua boca. — Soltei uma risada e massageei a base de suas costas, erguendo o vestido para ter um melhor acesso.

— Cale a sua boca! Ninguém mandou você entrar no quarto da sua irmã sem convite. — Soltou um grunhido que não sabia se ela estava rindo ou chorando. — Devon, isso dói muito. O próximo bebê você vai parir.

— Tudo bem, amor. Eu vou me transformar em um cavalo-marinho para os nossos próximos filhos — prometi.

Rindo, agarrou meus dedos e começou a chorar. Aquele era o momento de sairmos. Vanessa estava com tudo pronto, bolsas, documentos e Rosa manteve os cachorros presos porque só de ouvirem Katrina gemer de dor, ambos estavam agitados e ariscos. O treinador avisou que eles poderiam avançar em mim ou em quem entendessem que poderia estar causando o sofrimento na pessoa que eles tinham como norte.

Chegamos ao hospital meia hora depois. Melanie estava nos aguardando na recepção com a enfermeira que trabalharia conosco. No quarto, eu estava em estágio de agonia completa ao ver minha mulher sentir dor, chorar, rir e repetir todos os processos até a anestesia. Nós debatemos tanto sobre optar ou não, que na hora crucial, apenas dissemos que sim.

— Pode pegar um pouco mais de gelo? — Katrina pediu para Vanessa, que saiu rapidamente do quarto com o pequeno balde. — Eu sei que usei todos os discursos do mundo contra anestesia, mas ela é incrível e eu retiro tudo o que disse.

— Você está perdoada. — Beijei sua testa.

Levamos horas da primeira contração até finalmente começar a parte principal do parto: empurrar. Além da equipe médica, apenas sua mãe estava no quarto conosco. Katrina quis parir na posição tradicional e eu fiquei atrás dela, deixando que usasse minhas mãos para apertar e o meu corpo como apoio. A cada segundo, meu amor por ela triplicava. Tão forte, determinada, em nenhum momento brigou com o mundo, apenas dizia “estou aguentando, bebê” ou “mamãe te ama muito”. Para quem tinha medo de ser mãe, ela era incrível e apaixonada antes mesmo de segurar o nosso pacote encomendado com amor.

— Só mais um pouco... — Dra. Sylver instruiu. — Muito bem, muito bem! — comemorou e o quarto foi preenchido com um choro suave, tão perfeito que era como música aos meus ouvidos apaixonados. — É uma menina!

Meus olhos mal conseguiam enxergar de tantas lágrimas. Minha princesa foi colocada no peito da mãe, gosmenta, se movia e chorava. Era toda carequinha, vermelha, ainda inchada e a criatura mais perfeita do mundo inteiro.

— Olá, amor. — Katrina soluçou. — Olha para ela, Devon. Nós fizemos esse bebê.

— Ela é tão linda. — Nós nos abraçamos, chorando e olhando para o amor das nossas vidas.

— Diga olá ao papai que sabia sobre você o tempo todo, meu pequeno cometa — Katrina sussurrou com devoção. Eu odiei o nome todas as vezes que ouvi, mas naquele momento, ao olhar para o rostinho da minha princesa, eu senti que era perfeito. Um espetáculo da natureza.

— Olá, Halley! — Segurei sua mãozinha. — Papai te ama muito.

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