Amor em Jogo: Cidade do Pecado, livro 1
25 | Katrina
O Instituto de Oncologia ficava do outro lado da cidade, em um dos prédios anexos ao maior hospital da cidade. Precisei estacionar em uma vaga bem longe, quase peguei uma bicicleta emprestada porque atravessar todo estacionamento com a minha bota de salto alto foi desconfortável. Estava toda arrumada porque tive uma sessão de fotos com Devon antes do horário agendado com o médico oncologista que conheci no aniversário de Kevin no final de semana.
O homem foi simpático e disse que poderia tirar as minhas dúvidas em seu consultório. Encontrei a sala dele e esperei um pouco, lendo as minhas mensagens, resolvendo coisas do trabalho – eu estava abusando da minha posição de esposa, mas não estava deixando nenhuma das minhas funções de lado e muito menos sobrecarregando os meus colegas.
— Olá, Katrina! — Dr. Everest abriu a porta de seu consultório. — Como vai você? Michael acabou de me ligar, cheio de recomendações.
Sorri e fiquei sem graça. Era gentil do Michael se certificar de que a filha de sua namorada fosse bem tratada, mas o Dr. Everest tinha idade para ser o meu pai. O segui para sua sala, me acomodei em uma poltrona e tirei o meu novo gravador da bolsa, o bloco de anotações com todas as perguntas e informações que anotei pela manhã.
— Tenho alguns pacientes nessa região, realmente, houve um aumento do número de pacientes com câncer, mas foi descartado qualquer influência externa. Para ser bem sincero, eu não trabalhava aqui ainda. — Ele clicou em algo em seu computador. — Vou imprimir alguns pontos importantes que nós, médicos, investigamos quando casos em excesso surgem. Pode te ajudar a seguir um caminho.
— Existe mesmo a possibilidade de câncer por contaminação? Parece ser algo tão fora da realidade. Isso pode significar que está assim há mais tempo que provavelmente sabemos.
— Sim, não só câncer, como doenças de pele. Quando uma região está contaminada, você não tem como fugir. Bebe a água, toma banho, tem piscina e até a grama molhada é uma forma de contaminação. — Me entregou algumas cartilhas. — Não sou eu que atendo os pacientes dessa área, posso fazer algumas perguntas. É um caso bem interessante.
— Eu prefiro que não faça e não se exponha. Como Michael te falou, é uma situação realmente delicada. — Guardei as minhas coisas. — Obrigada pelo seu tempo e por toda ajuda. — Fiquei de pé e apertei a sua mão. — Muito obrigada mesmo.
— Se precisar de mais alguma coisa, estou à disposição.
Caminhei de volta para o carro, com a sensação de estar sendo observada. Olhei ao redor e não vi nada. Talvez fosse a minha paranoia. Entrei, bloqueei as portas e saí de lá o mais rápido possível, ouvindo novamente tudo que gravei na conversa e fazendo notas mentais.
Eu não podia ir para casa diretamente para escrever tudo que recolhi e tudo que estava supondo, estava bem óbvio que a água contaminada fez com que milhares de moradores locais contraíssem diversas doenças. Precisava de uma prova forte, talvez uma amostra da água e exames dos pacientes. Meu próximo passo era recolher uma amostra e encher o saco do meu antigo professor do ensino médio para fazer uma análise.
Com tudo isso, iria escrever a matéria, enviar para algum editor e rezar que fosse publicada ou, eu podia publicar de forma independente com um codinome. Em todo caso, a denúncia precisava ser feita no modo mais público possível, para que todos os envolvidos fossem devidamente investigados. Com a pressão popular, seria mais difícil ter uma rede de corrupção para encobrir os rastros.
Alguma coisa dentro do meu coração me dizia que precisava ir só um pouco mais fundo. O fedor desse caso estava além da água podre no resort abandonado. Havia justiça a ser feita.
Estacionei o carro na vaga ao lado de Devon no estacionamento da empresa. Antes de subir, fui cumprimentar meus colegas do salão vip. Sentia falta das bagunças e dos drinques escondidos que bebia durante o expediente.
— Oi John! — Me aproximei do bar. — Como está o movimento hoje?
— Hoje tem despedida de solteiro e é das grandes, vão usar o salão vip com jogos e parte do bar. Daqui a pouco as dançarinas vão descer, elas estavam ensaiando e foram se arrumar. — Ele parou de limpar o balcão. — Quer beber alguma coisa?
Olhei ao redor e estava vazio, abri um sorriso e pedi uma taça de vinho branco. Puxei um banquinho, bati palmas com a taça, aquele vinho iria ajudar a atravessar o dia com mais calma. Dei um gole generoso, pensando que talvez devesse ser mais educada e saborear o vinho que, só a taça, custava sessenta dólares.
Meu telefone vibrou na bolsa, bebi metade da taça antes de procurar e ver quem estava me ligando. Devon. Já deveria estar se coçando porque saí e não dei notícias.
— Olá, marido. — Atendi alegrinha.
— Bebendo no meio do expediente, Katrina? — retrucou calmamente.
Ergui o meu olhar e sorri para a câmera, dando um aceno.
— Precisando relaxar.
— Venha para minha sala e eu faço isso para você.
Sorri mais uma vez, ergui a minha taça, bebi tudo e saí do meu lugar. Agradeci a John pelo vinho, mandei colocar na conta do meu marido, peguei a bolsa e fui para o elevador. O cassino ficava um andar abaixo do estacionamento dos funcionários da presidência, onde Everly também tinha uma vaga.
Quando o elevador parou lá, nós nos encaramos por um momento e eu apertei para que as portas se fechassem novamente, sem clima para aguentar as suas provocações. Devon não mencionou absolutamente nada sobre encontrá-la. Não que eu ficasse olhando a sua agenda, mas ele costumava comentar sobre as reuniões e os demais compromissos.
Tudo que sabia era que ele precisava liberar alguns pagamentos e fazer uma reunião por vídeo com um dos sócios que morava na Inglaterra e basicamente deixava todo o negócio para Devon controlar. Sabia que estudaram juntos. Antes de ir vê-lo, passei na minha sala e Vanessa estava arrumando sua bolsa.
— Ainda bem que você chegou. Esqueci que tenho terapia hoje, vim de carro com Devon, será que pode me emprestar o seu?
— Sem problemas. Eu vou embora com ele. — Entreguei a chave.
— Melanie disse que vai sair do plantão com Michael. — Me deu um sorriso.
— Acho que eu não quero saber o que eles vão fazer. — Fiz uma careta. — Se cuida na terapia, ok? Eu vou ver o seu irmão e nos encontramos no jantar.
Estava levemente preocupada com o que estava saindo sobre a entrevista exclusiva da Shannon. McKenna soltava trechos, mas não revelava quando iria ao ar. Queria manter o engajamento com os curiosos acessando seu perfil para saber um pouco mais. O pouco que saiu já me deixou muito estressada.
Trocamos um rápido abraço e ela saiu. B1 estava concentrado no trabalho, B2 bebia um café e na minha mesa tinha uma pilha de currículos que o RH imprimiu e enviou. Eles mandaram por e-mail primeiro, fingi que não era comigo, então, resolveram deixar meio explícito que era.
Alicia me deixou passar sem problemas, ocupada demais para me dar atenção enquanto seu chefe estava, literalmente, com os pés para o alto. Descalço, brincando com uma bolinha, ouvindo música e olhando as imagens das câmeras de segurança na tela maior que ficava na parede.
— Alguma coisa divertida? — Me aproximei, ele colocou as pernas para baixo e me convidou para seu colo. — Está tudo bem?
— Está sim, estou apenas de olho em quase todos os cassinos ao mesmo tempo. Esse costuma ser o horário que os contadores de carta estão analisando os seus jogos. — Apontou para a tela. — Tem um grupo que se divide entre os cassinos. Estão nessa há semanas. Hoje, eu vou pegá-los e dar um sustinho.
— Você vai?
— Minha equipe de segurança — corrigiu e revirou os olhos. — É a mesma coisa.
Sabia muito bem o que acontecia quando trapaceiros eram pegos nos cassinos. Este sustinho envolvia alguns socos na boca com bastante sangue e não era bem um assunto que gostaria de ter na minha mente aquela hora do dia. Meu pai era segurança de cassino e ele era a pessoa que executava esses serviços. Minha mãe nunca me contou, ela não falava sobre ele, mas uma vez o Tio Saul disse que ganhou uma surra de um temido segurança chamado Donnie Summer.
— Foi tudo bem com o médico? — Ele bocejou, seus olhos lacrimejaram um pouco e sorriu. — Sim, estou cansado. Me processe.
— Milagres acontecem. Será que vai dormir essa noite? — provoquei. Devon tinha uma energia que me cansava. Naquela noite ele ficou inquieto, dizendo que estava sem sono, saindo do quarto e voltando, me acordando cada vez que abria a porta ou acendia a luz do banheiro. — Espero que sim.
— Prometo que vamos dormir. Então, o médico?
— Foi muito esclarecedor e ao mesmo tempo, agoniante. Amanhã irei transcrever e vou buscar mais respostas. — Escondi o meu rosto em seu pescoço, ficamos abraçados tempo o suficiente para que tudo ficasse melhor, seu conforto era sempre bem-vindo. Me afastei porque ele estava puxando meu rabo de cavalo. — O que foi?
— Prendeu o cabelo, basta ajoelhar e rezar. — Sorriu torto. Pilantra. Nunca deixaria de ser um cretino capaz de transformar qualquer doce momento em sexo.
Meu cretino favorito.
Devon esperava que negasse, explodisse e fosse embora para minha sala. Sorrindo, escorreguei por seu colo e caí de joelhos, seus olhos arregalaram de maneira cômica. Olhou para a porta, preocupado que alguém entrasse, mas o esperto não me impediu na hora de abrir a calça. Sorrindo, todo feliz, segurou a minha nuca e me deu um beijo que se eu não fosse esperta, acabaria sentada em sua mesa com as pernas abertas bem no meio do expediente.
Me concentrei na tarefa de deixá-lo fora da área de cobertura. O acariciei por cima da cueca, deixando-o arrepiado conforme beijava seu pescoço.
Seu pênis era a minha parte favorita. Eu amava os olhos azuis, o sorriso principalmente, que me dava vontade de tirar a calcinha e me entregar de bandeja. Também amava a boca dele, achava as orelhas bem bonitinhas, gostava do formato masculino de seu nariz e me divertia com as suas grossas sobrancelhas escuras. Mas o pau era uma coisa à parte. Nossa relação era maravilhosa. Ele nunca me decepcionou, mesmo nos dias que achei que preferia dormir ao invés de transar.
Eu amava quando Devon me abraçava cheio de carícias suaves e com oss beijos, o fogo lentamente acendia. Amava quando estava muito cansada e ele fazia um cafuné enquanto terminava a leitura dos seus e-mails antes de dormir.
Ficava maluca quando ele simplesmente me provocava até me tirar do sério. Sexo de sangue quente era o meu favorito. Me sentia a mulher mais preciosa do mundo quando me acordava com beijos carinhosos e café na cama.
Devon era tudo que eu o acusei não ser: comprometido, responsável e apaixonado. Caramba! Eu o amava!
— Ei, amor? Está tudo bem? Você não precisa fazer nada... — Ele se inclinou, preocupado com a minha pausa.
— Podemos ir embora para casa? — falei baixo, sem fôlego com a revolução que acontecia na minha mente. Meus pensamentos e sentimentos estavam revoltos como o oceano em dia de tempestade.
— Está sentindo alguma coisa? — Acariciou o meu rosto. — Estou começando a ficar assustado com essa expressão adorável e confusa.
— Acabei de perceber o quanto eu te amo e eu quero ir embora para fazer amor repetidas vezes — confessei, olhando em seus olhos.
Primeiro, parecia que o atingi com um tijolo na cabeça. Ele ficou estático e depois, sorriu de um jeito tão lindo que a sensação era que o meu coração ia explodir no peito. Eu o amava há muito tempo!
— Não vai dar para ir embora imediatamente. — Ele ficou de pé e me ajudou a levantar, segurando a minha mão e me puxando para o armário de arquivos. Era do tamanho de um quarto pequeno, com cofre e prateleiras, que guardavam várias pastas organizadas. — Foi assim que tudo começou, lembra?
Meus olhos imediatamente se encheram de lágrimas.
— Não, sem chorar. — Devon segurou o meu rosto com as duas mãos e deu um aperto divertido. — Sete minutos no céu. Uma brincadeira estúpida que me deixou trancado em um armário com a melhor amiga da minha irmã. A garota que eu pensava que era uma fera com curvas. Sempre furiosinha, torcendo o nariz, falando o que bem entendia e capaz de deixar muito homem morrendo de medo quando puxava as mangas do casaco. — Soltei uma risada. Como eu era violenta... — Aquele beijo foi o melhor beijo. Foi o que me fez perceber que eu prestava atenção em você porque gostava. Você era tão mais nova, tinha dezessete e eu vinte três, velho demais para brincar. Estava começando uma empresa e você, no começo da vida adulta. Eu me senti tão errado.
— Devon... — Passei o polegar em seu cenho franzido.
— Quando saímos, você fez questão de dizer que não tinha acontecido nada. Aquilo meio que me pegou de surpresa e pelos dias seguintes, fingiu que eu não existia. — Parou um pouco e encostou a testa na minha. — Na festa, eu não quis te magoar, só afirmei o que tinha dito. Estava meio irritado que nada tinha acontecido. O nunca aconteceria foi irritação. Sei que você entendeu que eu concordei com as coisas horríveis que Everly disse, mas não foi isso.
— Eu sei, quando me explicou, entendi, mas acho que só me deu gás para criar um muro entre nós. Te julgar e colocar defeitos era uma defesa. Era medo de ter o meu coração partido como a minha mãe teve. — Suspirei e o abracei bem apertado. — Estava errada, me desculpe.
— Por que era uma defesa?
— Você era o Devon Winterfield! As garotas se jogavam aos seus pés, você ficava com quem queria e eu era... eu. Não queria ser mais uma, nunca quis. Aquele beijo me assombrou por tanto tempo, até que consegui colocar no fundo da minha mente. Com treino, foi fácil fingir que nunca aconteceu. — Me aproximei. — Se tivéssemos conversado com clareza no passado, talvez não passaria tantos anos te antagonizando.
— Existe a possibilidade de você ser mais uma na vida de qualquer pessoa? — Soltou uma risada. — Você deixa qualquer um na ponta dos pés porque ninguém nunca sabe a bomba que a sua mente vai produzir. — Sorri entre as lágrimas. — Se eu soubesse que o seu medo sempre foi esse, você seria minha há muito mais tempo. — Agarrou a minha bunda e me colocou sentada em uma mesa aparadora nos fundos. — Você é a única mulher que eu penso, que eu vejo no meu futuro, com quem eu quero filhos e construir uma vida muito louca e muito divertida. Tenho certeza que isso é amor. — Me deu um beijo suave. — Preciso tanto de você agora, mas não tenho camisinha.
Eu ri, agarrando a sua blusa e o puxei em minha direção.
— Vamos brincar com a sorte. — Beijei-o.
Não estava no meu período fértil e que uma vez na vida a droga da tabelinha fizesse sentido.
— Isso é um novo jogo? — Ele abriu a minha calça e puxou-a pelas pernas, junto com a calcinha.
— É sim. Chama-se: me leve ao céu em sete minutos.
— Feito.
Com o sorriso safado favorito decorando os lábios, Devon me fez ver estrelas e os movimentos foram tão bruscos que alguns arquivos caíram no chão, fazendo uma barulheira. Cobri a minha boca nos seus impulsos mais intensos e quase caímos com a mesa balançando. A expressão dele, ao chegar no clímax, pela primeira vez dentro e sem camisinha foi a melhor de todas. Sentindo-se um homem das cavernas, ele parou para olhar seu esperma escorrendo.
— Você não sussurrou que gozaria fora? — provoquei e ele me deu um olhar aquecido.
— Ops! — Sorriu e me deu um beijo. — Vamos para casa fazer muito mais disso na nossa cama.
— Oficialmente, nós já transamos em todos os lugares da sua sala. — Tirei os fios de cabelo colados na minha testa com a palma da mão e reparei que estava super suada. Mais do que imaginava. — Eu vou me lavar, refrescar e tentar fazer parecer que não transamos aqui dentro. Limpa toda essa bagunça.
Usei o banheiro e me ajeitei o máximo possível. Ele ficou pronto, encerrou seu expediente mais cedo, o tempo todo falando com Alicia e com os chefes da segurança pelo celular. Peguei a minha bolsa e, de mãos dadas, fomos embora juntos.
Eu tinha um monte de trabalho para fazer antes de dormir e não estava me importando, porque a descoberta de um amor tão intenso e verdadeiro era digno de um dia de folga. Já fazia um tempo que percebia o quanto meus sentimentos evoluíram de uma simples paixão para algo mais, mas eu não queria admitir por puro e simples orgulho.
Estava errada mais uma vez, o que já não deveria ser uma novidade.
Admitir meus sentimentos me fez mais leve. Era como se todo orgulho e medo deixassem um peso no meu coração e nublassem os meus olhos com inseguranças. Devon me queria por todo esse tempo, eu empurrei e afastei o homem que, há dez anos, me deu um beijo dentro do armário e queimou todos os meus circuitos.
Nunca fui capaz de admitir, nem mesmo para a minha melhor amiga, o quanto o irmão dela mexia comigo. Só havia uma coisa na minha vida que Vanessa não sabia e era isso: os sete minutos no céu, que eu ganhei beijos do paraíso e depois me senti extremamente suja por ser mais uma.
Eu não queria ser mais uma, e por fim, ele sempre me quis para ser a única.
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