Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
5. O brasil dos jesuítas
Capítulo 5
O BRASIL DOS JESUÍTAS
Despojados ou argentários? Libertinos ou libertários? Santos ou santarrões? Passados cinco séculos, o papel desempenhado pelos jesuítas no Brasil Colônia permanece imerso em controvérsia. De 1549, quando desembarcaram na Bahia, até 1759, quando, pelas artimanhas do marquês de Pombal, foram expulsos de Portugal e de suas colônias, os jesuítas se revelaram uma das forças mais ativas na conquista e na colonização do Brasil. Sem eles, a empresa colonial teria outros rumos e outros destinos – quais, é difícil supor. Julgar o conjunto da obra jesuítica à luz de conceitos atuais, porém, é incorrer num erro tão gritante quanto o dos próprios padres quinhentistas em sua pretensão de avaliar a mentalidade e os costumes indígenas de acordo com as crenças e os dogmas da Europa de fins do século XVI – uma época marcada pela intolerância religiosa, pelo etnocentrismo e, acima de tudo, pela Contrarreforma.
Desde o início, a polêmica esteve no âmago da ação jesuítica, já que, embora antagônicos em tese, catequese e colonialismo andaram sempre juntos. Os jesuítas lutaram contra a escravização dos indígenas, mas o plano de catequização que puseram em prática – e a consequente concentração dos índios em aldeamentos ou “missões” – não apenas resultou em tragédia, em razão dos graves surtos de doenças infecciosas, como facilitou a ação dos escravagistas. Os próprios jesuítas, o padre Nóbrega à frente, tinham escravos e acreditavam na doutrina aristotélica da servidão natural de povos “inferiores”. Para defender os nativos, estimularam o tráfico de africanos. Mas quando a paz que tinham firmado com os Tamoio foi rompida pelos portugueses, os padres nada fizeram.
Os jesuítas se empenharam em submeter os indígenas aos rigores do trabalho metódico, aos horários rígidos, ao latim e à monogamia. Combateram o canibalismo, a poligamia e o nomadismo – e, assim, acabaram sendo responsáveis pela desestruturação cultural que empurrou para a extinção inúmeras tribos. Por outro lado, foi graças à ação evangélica que a língua e a gramática tupi acabaram sendo registradas e preservadas.
Nada reflete melhor a dubiedade que marcou a obra dos jesuítas no Brasil do que a fundação de São Paulo. Disposto a catequizar os Guarani do Paraguai, o padre Nóbrega autorizou o estabelecimento de um posto avançado no planalto de Piratininga. Mas São Paulo logo acabaria se transformando em um polo escravista e dali os jesuítas logo foram expulsos. Nóbrega jamais recebeu autorização para enviar uma missão ao Paraguai, onde a obra de catequese seria concretizada pelos jesuítas espanhóis – e, a seguir, destroçada pelos bandeirantes paulistas instalados justamente na cidade que Nóbrega e Anchieta haviam fundado.
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De todo modo, não restam dúvidas que, ao fim e ao cabo, o papel desempenhado pelos jesuítas no Brasil foi tremendamente conservador. Criada como uma espécie de “exército de Cristo”, a Companhia de Jesus tornou-se o principal organismo da Contrarreforma, sendo favorável à Inquisição e às normas restritivas ditadas pelo Concílio de Trento, lutando contra os avanços do humanismo renascentista, contra reflexões filosóficas e debates intelectuais – e contra os livros. No entanto, não fossem as cartas e os relatórios minuciosos daqueles padres – os jesuítas praticamente não davam um passo sem registrá-lo –, seria praticamente impossível reconstituir a história do Brasil Colônia.
INÁCIO DE LOYOLA
Soldado por herança e vocação, o espanhol Inácio de Loyola, nascido em 1491, na Espanha, abandonou a carreira das armas quando, convalescendo de um ferimento entre as pernas recebido na guerra entre Espanha e França, leu Uma vida de Cristo. Apesar de manco (e muito possivelmente impotente), tornou-se um peregrino incansável. Em 1539, depois de ter ido à Terra Santa e de ser duas vezes preso pela Inquisição, decidiu fundar a Companhia de Jesus. Estabeleceu um modelo militarizado para a ordem, que imaginou como um grupo de combate à Reforma Luterana: os soldados de Cristo. O Brasil tornou-se a primeira província além-mar da Companhia. Morto em 1557, Loyola foi canonizado em 1622.
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A SEMENTE AMARGA DA CONTRARREFORMA
No momento em que os primeiros jesuítas colocavam seus pés na Bahia, tanto Portugal como Espanha – e a Europa católica em geral – estavam vivendo um período de “fechamentos” políticos e ideológicos. Essa revolução “conservadora”, em andamento desde 1545, tem sido chamada por alguns historiadores portugueses de “grande viragem”. Ela se constitui basicamente no processo de gestação e implantação da Contrarreforma na Península Ibérica – e marca, de fato, uma guinada nos rumos da cultura e da educação não só em Portugal e na Espanha, mas em suas colônias do Novo Mundo.
Quase 30 anos se havia passado desde que Martinho Lutero pregara suas 97 Teses na porta da igreja de Wittenberg, em outubro de 1517. Três décadas de perplexidade e inquietude haviam abalado a Igreja Católica Apostólica Romana. A reação se iniciou no inverno de 1545, com a instalação do Concílio de Trento e o recrudescimento da Inquisição. E tão logo a “ortodoxia” do catolicismo se acentuou, qualquer atividade intelectual que buscasse novos ares e maiores liberdades individuais poderia ser vista (ou deliberadamente confundida) com a “heterodoxia” luterana – e duramente reprimida.
Poucos anos antes, no entanto, Portugal havia vivido uma espécie de “primavera renascentista”. De fato, entre 1530 e 1536, a tolerância cultural e religiosa proposta pelo filósofo Erasmo de Rotterdam encontrara eco no reino, e D. João III tinha mesmo aventado a possibilidade de levar o próprio Erasmo para lecionar na recém-fundada Universidade de Coimbra. A partir de 1545, porém, essa liberdade de pensamento começou a ser substituída pelo seu exato oposto: o fortalecimento da Inquisição, entre cujos objetivos estava reprimir os avanços e conquistas do humanismo renascentista.
Entre os vários grupos que deflagraram esse processo de “fechamento” cultural estava a Companhia de Jesus – que então começava a se tornar cada vez mais influente nos destinos de Portugal. Graças à “grande viragem” e ao banimento de outras alternativas culturais, os jesuítas se transformariam, a partir de 1546, numa das forças “políticas” mais atuantes no reino.
Depois de delatar à Inquisição virtualmente todos os humanistas ligados a Erasmo, os jesuítas passaram a controlar não apenas as universidades portuguesas mas também foram autorizados pelo rei (de quem eram os confessores) a estabelecer sua própria rede de escolas no reino. Mas os chamados Colégios de Jesus estavam presos a conceitos pedagógicos medievalistas e professavam a escolástica – uma doutrina então já retrógrada e conservadora. Seu currículo era rigidamente ortodoxo e, embora a escolástica fosse de base aristotélica, grego e hebraico eram vistos como línguas “suspeitas”, e os alunos se dedicavam quase exclusivamente ao latim.
Em pouco tempo todos os aspectos “culturais” da empresa colonial lusitana foram entregues aos jesuítas, encarregados também da conversão dos “gentios” na Índia (e em toda a Ásia) e no Brasil. As colônias – especialmente o Brasil – se desenvolveriam sem livros, sem universidades, sem imprensa, sem debates nem inquietações culturais: em uma palavra, sem o frescor do humanismo renascentista. “A inteligência brasileira viria a constituir-se submetida à direção exclusiva da Companhia de Jesus, sob a égide da Contrarreforma e do Concílio de Trento”, como diagnosticou Wilson Martins. “Esse desejo de perpetuar a ignorância (…) condicionaria as perspectivas mentais do Brasil por três séculos.”
NÓBREGA E ANCHIETA
Menos de uma década depois da fundação da Companhia de Jesus, em Roma, e meio século após a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manoel, na qual o cronista ressaltava que o melhor fruto que dessa terra se poderia tirar era “a salvação dos índios”, os seis primeiros jesuítas desembarcavam no Brasil, junto com o governador-geral Tomé de Souza e liderados pelo padre Manoel da Nóbrega. Praticamente desde o primeiro dia, 29 de março de 1549, padres e colonos entraram em choque, como pastores lutando por uma manada arredia. Para os colonos, os nativos eram mão de obra indispensável, barata e servil – mero gado humano. Para os jesuítas, eram um rebanho desgarrado que precisava ser conduzido ao seio da cristandade. Tanto jesuítas como colonos, porém, exigiam dos indígenas o cumprimento da mesma tarefa: o cultivo da terra. Os colonos o faziam de forma brutal, imediatista e escravista. Já os jesuítas, em troca do catequismo, esperavam trabalho organizado e metódico em suas plantações. O excedente da produção agrícola seria fornecido aos colonos no regime de escambo, supervisionado pelos próprios padres.
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Entre 1557 e 1561, no governo de Mem de Sá, os jesuítas agruparam 34 mil índios em onze aldeamentos ao redor de Salvador. Mas, em 1562, quando Mem de Sá decretou “guerra justa” aos Caeté – que, pouco antes, haviam devorado D. Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil –, os colonos, sob pretexto de capturar Caeté catequizados, atacaram os aldeamentos e escravizaram quinze mil nativos. O pior estava por vir: em fins de 1562 iniciou-se uma epidemia de varíola que matou outros quinze mil aldeados. Muitos dos quatro mil indígenas restantes entregaram-se deliberadamente como escravos aos colonos para não morrer de fome. Foi o fracasso definitivo das “missões” em terras brasileiras. A experiência se repetiria, anos depois, no Paraguai, no Tape, no Itatim – MS, e no Guairá – PR, com consequências ainda mais funestas.
A tragédia da Bahia não impediu que Nóbrega continuasse mantendo excelentes relações com o desembargador Mem de Sá – nem que seu fiel companheiro, Anchieta, dedicasse um longo poema épico ao governador. Embora praticamente autônomos, já que precisavam se reportar apenas a Roma, os jesuítas procuravam proximidade com o poder colonial – especialmente porque, no Brasil, sua ordem era sustentada com fundos enviados pelo rei de Portugal.
Quando os colonos descobriram que os jesuítas eram financiados pelos impostos que eles pagavam – e que, além de possuir escravos e vastas extensões de terra, a Companhia de Jesus ainda especulava no mercado de açúcar –, a revolta contra os padres explodiu de vez. De todo modo, a obra dos jesuítas – seus colégios e missões – abriria novos territórios para a colonização. Além disso, não fosse a atuação dos padres – em especial Nóbrega e Anchieta – no episódio conhecido como Confederação dos Tamoios, a civilização portuguesa talvez tivesse sido varrida de vez do sul do Brasil, abrindo as portas para uma França Antártica (leia o capítulo 7, “O Brasil Francês”).
ESPLENDOR E QUEDA DAS MISSÕES
Eram cerca de sessenta povoados, alguns com mais de cinco mil habitantes, dispersos numa área de 450 mil km2, cercados por ervais frondosos e imensos rebanhos. Atacados implacavelmente por mais de uma década, de 1628 a 1641, renasceram das cinzas com viço e vigor redobrados. Por volta de 1700, restavam apenas os Trinta Povos Guaranis, mas lá viviam cerca de 150 mil almas. No auge de seu poderio arquitetônico, econômico e artístico, porém, as fabulosas reduções voltaram a ser arrasadas – e, então, para sempre.
Passados dois séculos e meio, a experiência que, durante 150 anos, os jesuítas espanhóis realizaram com os Guarani, no Paraguai, Paraná, Mato Grosso, norte da Argentina e oeste do Rio Grande do Sul ainda desperta assombro e inflama a polêmica. Foi assim desde o início: os filósofos Voltaire, Diderot, Montesquieu e Bacon deram opiniões sobre o projeto missioneiro. Reis, papas e generais o discutiram. Por fim, dois impérios se uniram para derrotá-lo.
Qual é, afinal, o significado das Missões jesuíticas do Paraguai? Foram de fato um “projeto comunista”? Sua criação baseou-se em A utopia de Thomas Morus? Ou o modelo literário que inspirou os jesuítas teria sido A República, de Platão, ou A Cidade do Sol, de Campanella? Até que ponto a obra dos padres foi humanitária? Não teria sido antes o caminho mais curto para o genocídio guarani?
Milhares de páginas já foram escritas, mas as missões se mantêm um enigma – senão histórico, pelo menos ideológico. Com lajes escarlates e muros hirtos, suas ruínas – carcomidas pelo tempo e engolidas pelos cipós –, ainda hoje visitadas por sobreviventes Guarani, apenas acentuam os tons do mistério.
As primeiras reduções – São Loreto e São Inácio, ambas às margens do rio Paranapanema, no atual estado do Paraná – foram fundadas em 1609. Marcam o início da primeira fase das missões guaraníticas, que se estenderia até 1641, quando os indígenas foram autorizados pelos padres a enfrentar os bandeirantes paulistas, vencendo-os na batalha de M’bororé. Ao longo destas cinco primeiras décadas, os jesuítas fundaram mais de cinquenta reduções, no Guairá (entre os rios Paranapanema e Iguaçu, no Paraná), no Itatim (à margem esquerda do rio Paraguai, no atual Mato Grosso do Sul), no Tape (oeste do Rio Grande do Sul) e entre os rios Uruguai e Paraná (no Rio Grande do Sul e na Argentina).
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PEDRAS E SOMBRAS: um dos principais povoados missioneiros foi o de São Miguel – RS, erguido em torno da imponente igreja projetada pelo jesuíta italiano Battista Primoli. Em 1846, o templo estava em ruínas, como mostra a gravura ao lado.
Das reduções criadas no alvorecer do século XVII não restam vestígios – elas eram como a de São Francisco Xavier, que o padre alemão Paucke descreveu em 1650: “As cabanas de palha dos índios, de dois metros e meio de altura, são separadas por um trilho de lama fedorenta. A igreja e as habitações dos padres são de couro e parecem tendas de ciganos. A igreja tem teto de palha, o sino é preso num poste e o altar é de tijolos de barro cozidos ao sol.”
Essa fase inicial das missões encontrou na figura dos padres Roque González e Ruiz de Montoya seus dois heróis épicos. Gonzalez, desbravador do Tape, “pajé branco”, agricultor, arquiteto, polemista e orador, foi morto numa conspiração urdida pelo pajé destronado Nessu. Ruiz de Montoya, o apóstolo por excelência, realizador incansável, foi o articulador do grande êxodo de 1630, quando conduziu dez mil índios em 700 barcos e balsas por 300 quilômetros, rio e selva abaixo, para além das cataratas do Iguaçu e para longe da ameaça dos “terríveis paulistas”.
A marcha épica de dez mil indígenas pelas florestas e pelas corredeiras selvagens dos rios Paraná e Iguaçu – que cobraram pelo menos duas mil vidas, além dos quatro mil fugitivos que preferiram se embrenhar na mata a prosseguir naquela jornada desesperada – não foi o único preço que os jesuítas tiveram de pagar por um século de paz. Haveria ainda um outro custo, embora este viesse a ter o doce sabor da vingança. Em 11 de março de 1641, no arroio M’bororé, um afluente da margem direita do Uruguai (hoje em território argentino, mas nunca plenamente identificado), os Guarani depararam-se com mais uma bandeira de paulistas. Desta vez, porém, armados com canhões de bambu e com o apoio dos padres, venceram o confronto, matando mais de 200 mamelucos (leia no capítulo 6, “Bandeiras e Entradas”). Aquele viria a ser o último ataque dos temíveis caçadores de homens.
Reagrupados na mesopotâmia dos rios Paraná e Uruguai, os jesuítas, então, deram início ao restabelecimento das missões. Em onze décadas de paz, o projeto atingiria seu ápice e amplas cidadelas de basalto e madeira nobre, basicamente araucária, foram erguidas na verdejante planície sulista. Em cada um dos chamados Trinta Povos Guaranis viviam de 1.500 a 12 mil índios. Havia apenas dois jesuítas em cada redução: o cura e seu vigário: eles atuavam como “pajés” brancos.
Ainda assim, ali, a vida cotidiana se assemelhava à de um quartel: o sino tocava antes do sol raiar e a missa era celebrada para todos. Depois da distribuição de papa de milho, as crianças a partir de sete anos iam para a escola. Ao redor do colégio erguiam-se as oficinas dos artesãos. Os trabalhos começavam por volta das sete horas – mesmo horário no qual, cantando e portando piedosos estandartes, os lavradores partiam para a faina nos campos comunais, os Tupa’mbê (ou “terras de Deus”). Por volta das onze horas, pausa para o almoço. As tardes, em geral, eram dedicadas ao cultivo na terra da família, às aulas de música e latim e, é claro, à catequese. Ao pôr do sol, todos se recolhiam.
O projeto arquitetônico refletia claramente este ambiente monástico e militante: eram duas centenas de alojamentos dispostos num piano rigidamente geométrico ao redor de uma igreja imponente. Mas os alojamentos não eram coletivos: dentro deles, cada família tinha sua cela individual, já que uma das principais lutas dos padres era contra a poligamia. O campanário, o cemitério e as roças completavam o quadro (“Quem viu uma, viu todas”, diria um visitante, em 1789). O projeto era uma reinvenção autoritária da paisagem e do espaço. Na própria escolha do nome que batizou a empresa, o plano dos jesuítas se esclarecia: em latim e em espanhol, “redução” significa “reagrupar o que se encontra disperso”. A ideia, portanto, era “reduzir (ou reunir) os Guarani à vida cívica e à Igreja”.
A experiência não foi pioneira: além da desastrada tentativa de Nóbrega e Anchieta na Bahia, os jesuítas espanhóis já haviam “reduzido” os Mojos e Chiquitos do Peru (para alguns autores, o “comunismo” agrário e teocrático das Missões se baseou no modelo incaico). A questão que mais diferenciou os Trinta Povos Guaranis – acentuando suas contradições e precipitando seu trágico desfecho – foi o fato de eles se localizarem na fronteira entre dois impérios em expansão. Eram quase um Estado-tampão.
Sua história pode ser resumida assim: em 1750, época da expansão máxima do espaço missioneiro, Portugal e Espanha assinaram um acordo trocando a Colônia de Sacramento pelos Sete Povos que ficavam na margem esquerda do rio Uruguai. Padres e indígenas receberam um ultimato: deveriam cruzar o rio e abandonar suas terras em seis meses. Como houve resistência, logo estourou a Guerra Guaranítica. Em 2 de fevereiro de 1756, os exércitos de Portugal (comandados por Gomes Freire de Andrada) e da Espanha, unidos e com cerca de três mil homens, massacraram 1.511 Guarani mal-armados, na coxilha de Caiboaté – RS. Três dias antes fora morto, numa emboscada, Sepé Tiaraju, líder e mártir guarani.
O BARROCO GUARANI
Além da aptidão musical, cujo legado virtualmente se perdeu, os Guarani das missões revelaram, em mais de duas mil obras, um evidente talento para a escultura. Embora a maior parte das peças, talhadas em cedro, tenha sido destruída, roubada ou perdida, as três centenas de estátuas restantes são o testemunho eloquente do estilo que tem sido chamado de “barroco-jesuítico-guarani”, desenvolvido pelos índios missioneiros sob a rígida batuta dos jesuítas.
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Os Sete Povos foram abandonados, mas os imigrantes açorianos trazidos para ocupá-los não puderam fazê-lo, já que em 1761 e 1777 haveria mais guerras e novos tratados. Depois da guerra de 1801, os limites ficaram próximos dos atuais. Mas os jesuítas já tinham sido expulsos da América, e dos Trinta Povos só restavam escombros chamuscados.
VIEIRA E O PODER DOS SERMÕES
De todas as vozes que se ergueram não apenas em defesa dos índios do Brasil mas também contra os desatinos da política colonial, nenhuma foi mais fluente, majestosa e exata do que a do padre Antônio Vieira. Embora tenha sido o maior orador da língua portuguesa e dedicasse boa parte de sua vida à obra missionária, Vieira foi muito além da retórica e da mera caridade. Foi pastor, foi político, foi diplomata. Pregou nas lonjuras do sertão, pregou no requinte dos salões. Pregou no Vaticano, pregou no deserto. Foi afrontado pelos colonos do Maranhão, foi vítima dos juízes corruptos da Inquisição. Safou-se redigindo a primorosa autodefesa. Foi missionário nas selvas amazônicas, foi ministro d’el rei em Paris, Haia e Roma. Compôs catecismo em línguas indígenas e sermões reais de admirável formosura. “Como pregoeiro da palavra divina, anunciador do futuro, conselheiro dos negócios humanos, missionário dos gentios bárbaros, consolador dos negros cativos, defensor dos judeus oprimidos”, Vieira foi louvado e desprezado, desdenhado e aplaudido. Sua voz e seus conselhos encheram o Reino, e Vieira se tornou uma das principais figuras da política portuguesa, que ajudou a formular e a executar. Depois do golpe palaciano que derrubou seu protetor, D. João IV, de quem fora conselheiro, Vieira caiu em desgraça na corte, foi preso pela Inquisição (1665-1668) e, depois de seis anos em Roma, retornou ao Brasil, praticamente exilado. Foi na Bahia que viveu os 16 anos finais de sua vida e onde deu o passo que lhe asseguraria a imortalidade: tratou de editar seus 207 sermões – um dos tesouros mais genuínos da língua portuguesa.
PALAVRAS EM AÇÃO
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Em 1681, ao retornar para a Bahia, depois do apogeu e da queda de sua carreira em Portugal, Antônio Vieira descobriu que estava ficando cego. Parecia a derrota final: conselheiro do rei, confessor de rainhas, preceptor de príncipes, se via alijado dos jogos políticos do reino. Seus projetos haviam todos fracassado, e a volta ao Brasil podia ser entendida como um melancólico autoexílio. No entanto, embora a cegueira continuasse avançando até se tornar total, Vieira – austero e longevo – ainda teria dezesseis anos de vida pela frente. E esse período ele usou para dar forma final e editar os quinze volumes com seus 207 sermões. O projeto iria lhe assegurar imortalidade literária e fama internacional ainda em vida. Mesmo que relutasse em separar palavra e ação, Vieira era, acima de tudo, um homem de letras.
Os dois primeiros volumes dos Sermões de Vieira foram publicados em Madri, em 1644. Mas era uma edição tão mutilada e cheia de erros que o autor renegou. O primeiro volume sob sua supervisão foi lançado em Lisboa, em 1679. Todos os demais foram preparados no Brasil. Traduzidos para o holandês, o italiano e o francês, tornaram Vieira um autor conhecido em toda a Europa. Nada mais justo: repletos de neologismos, impecáveis na forma e no conteúdo, ressoantes de citações das Escrituras e com abrangência prodigiosa no tema e no estilo, seus Sermões configuram o apogeu da língua portuguesa. Vieira morreu em 18 de julho de 1697. Com os “óculos do espírito”, sabia “como o mundo e sua glória é uma farsa de comédia, que passa; um entremez, que se acaba com o riso; uma sombra, que desaparece; um vapor, que se desfaz; uma flor, que se murchou; um sonho, que não tem verdade”.
Nascido em Lisboa, em 1608, Vieira veio com a família para o Brasil aos seis anos, em 1614. Aos 15, entrou para a Companhia de Jesus. Fez sua estreia na vida pública em 1626, aos 18 anos, redigindo uma carta ânua na qual criticava frontalmente a ingenuidade (comprometida e comprometedora) dos jesuítas ante a voracidade da empresa colonial. Em 1641, já ordenado sacerdote, viajou a Lisboa para prestar fidelidade ao rei D. João IV. Iniciou-se aí uma longa e frutuosa relação. Vieira logo entrou em choque com os dominicanos que dirigiam a Inquisição, atacando “a cegueira de delírio e o desatino intolerável” de seu Tribunal. Saiu em defesa dos judeus, propondo que Portugal atraísse para o Reino os que estavam dispersos pela Europa. Era a favor da liberdade de comércio e contra o protecionismo. Louvava as virtudes do trabalho e atacava o pecado da ociosidade. Quis ser o profeta do mercantilismo luso e criou uma Companhia das Índias Ocidentais, assentada em capitais judaicos e com o mesmo perfil de sua similar holandesa. Mas a sociedade ibérica não estava preparada para a hegemonia do pensamento burguês, e Vieira pregava em clima hostil ou suspeitoso. Seus projetos políticos também falharam: ele não conseguiu uma aliança militar com a França, não conseguiu comprar Pernambuco dos invasores holandeses, nem um acordo com o invasor. Por fim, não conseguiu casar a única filha do rei de Castela com o príncipe herdeiro do trono de Portugal, um plano ambicioso que uniria outra vez as duas Coroas. O reino de Vieira não era o deste mundo. Mas o malogro de seus projetos proféticos abriu caminho para o pleno florescimento do homem de letras.
AS OUTRAS ORDENS
Apesar de terem sido os missionários mais ativos e influentes da história do Brasil, os jesuítas não foram os primeiros nem os únicos religiosos a atuar na colônia. Na frota de Cabral vinham oito franciscanos, entre os quais frei D. Henrique, que rezou a primeira missa em terras brasileiras. Ao longo dos primeiros séculos, os franciscanos continuaram sua obra no Brasil. Mas, como sempre se mantiveram ao lado do poder colonial, não se envolveram em polêmicas como os jesuítas. Benzendo engenhos e senzalas, perdoando, justificando e até promovendo a escravidão e o ataque aos índios “hostis”, fornecendo capelães que acompanhavam os bandeirantes ao sertão, os franciscanos acabaram por constituir a ordem religiosa mais afinada com os desígnios do colonialismo.
Não se pode dizer o mesmo dos capuchinhos – a dissidência radical dos franciscanos que estabeleceu sua própria ordem em 1584. Os dois capuchinhos mais conhecidos na história colonial do Brasil foram os franceses Claude D’Abbeville e Yves Evreaux. Ambos chegaram ao Brasil em 1612, na trilha aberta por André Thevet, o franciscano que acompanhou Villegaignon ao Brasil, em 1555, e celebrou a primeira missa no Rio de Janeiro. No Maranhão, meio século mais tarde, Abbeville desempenhou o mesmo papel de Thevet: foi o cronista de uma ousadia fracassada, a fundação da França Equinocial.
Além de jesuítas e franciscanos, as duas outras ordens religiosas clássicas também atuaram no Brasil: os carmelitas e os beneditinos. Vieram a pedido dos próprios colonos, que traziam de Portugal as devoções predominantes em suas regiões de origem.
Os carmelitas se estabeleceram oficialmente no Brasil em 1580: chegaram acompanhando a expedição de Frutuoso Barbosa, que conquistou a Paraíba. Os beneditinos vieram no ano seguinte e fundaram uma abadia na Bahia, em 1584. Porém, a ordem nunca se interessou pela obra missionária, e seus integrantes em geral se dedicavam à vida contemplativa, vivendo em mosteiros opulentos. Um levantamento feito em 1871 mostrou que, além de muitos prédios urbanos e imensas fazendas, os beneditinos possuíam também quatro mil escravos. Não eram os únicos: a prática fora inaugurada pelos próprios jesuítas já em 1549.
Não é nenhuma surpresa, portanto, que em 1883, em seu livro clássico O abolicionismo, Joaquim Nabuco tenha escrito: “Grande número de padres possuem escravos sem que o celibato clerical o proíba. Esse contato, ou antes contágio, de escravidão deu à religião, entre nós, o caráter materialista que ela possui, destruiu-lhe a face ideal e tirou-lhe toda a possibilidade de desempenhar na vida social do país o papel de uma força consciente. Nenhum padre nunca tentou impedir um leilão de escravos nem condenou o regime religioso das senzalas.”
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A MISSÃO DOS CAPUCHINHOS: o episódio que entrou para a história como França Equinocial – nome dado ao enclave que os franceses estabeleceram no Maranhão em 1612 – foi narrado pelos padres Yves Evreaux e Claude D`Abbeville (à esquerda, a capa da edição original de seu livro).
O INIMIGO DOS JESUÍTAS
Em Portugal, o marquês de Pombal incentivou a agricultura e a viticultura, endureceu a política fiscal, criou monopólios, combateu os nobres, favoreceu os comerciantes e pôs no poder tecnocratas “estrangeirados”. Reconstruiu Lisboa após o terremoto de 1755 – com o ouro brasileiro.
No Brasil, estabeleceu limites, emancipou os indígenas (para afastá-los do controle dos jesuítas) e criou companhias de comércio. Acima de tudo, porém, manteve seu “propósito obsessor”: destruir a Companhia de Jesus. Dois foram os pretextos encontrados por Pombal para concretizar suas intenções: primeiro, o suposto estímulo dos jesuítas à resistência dos Guarani no episódio dos Sete Povos das Missões. Depois, um atentado ao rei D. José, no qual Pombal imaginou a influência dos jesuítas. No dia 16 de setembro de 1759, os inacianos foram expulsos de Portugal. A 14 de março de 1760, os primeiros 119 dos 550 padres que estavam no Brasil também eram deportados. Uma vez em Lisboa, foram jogados nos calabouços mais insalubres, juntando-se aos ex-confessores da família real e aos padres que tinham ocupado cargos públicos – presos sem julgamento nem acusação formal.
Em 1767, os jesuítas seriam expulsos também da França e da Espanha e, em julho de 1773, o papa Clemente XIV extinguiria a Companhia de Jesus. Era a vitória definitiva de Pombal. Mas ele teria apenas quatro anos para festejá-la: em 1777, com a morte de D. José I, subiu ao trono D. Maria I, a rainha louca. Pombal caiu em desgraça. Morto em 1782, só foi enterrado em Lisboa em 1836: seu corpo ficou mais de meio século abandonado na cripta da fazenda onde vivera seu exílio. Em 1814, a Companhia de Jesus renasceria.
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MARQUÊS DE POMBAL
No dia 26 de fevereiro de 1759, um panfleto chamado Notícias interessantes, publicado em Lisboa, anunciava: “Os jesuítas estão prestes a ser todos expulsos deste reino. As outras potências poderiam bem imitar Portugal. Esses senhores levaram muito longe sua ambição e seu espírito subversivo. Eles pretendiam dominar todas as consciências e invadir o Império do Universo”. Seis meses mais tarde, a “profecia” se realizava: 432 jesuítas eram deportados para Roma, onde foram relutantemente acolhidos pelo papa Clemente XIII.
O fato de Notícias interessantes ter antecipado a informação não causou surpresa: a população sabia que, embora redigidos por um abade que abandonara a batina, os libelos expressavam as ideias de Sebastião José de Carvalho e Melo. E ninguém desconhecia que, além de ser a figura mais influente do reino, o futuro marquês de Pombal era também o mais ferrenho inimigo dos jesuítas. Filho da pequena nobreza, Pombal subira na vida depois de raptar e se casar com uma viúva rica. Em 1750, virou ministro do rei D. José I. Despótico e cruel, assumiu o controle da nação e, apesar de empregar parentes e distribuir propinas, foi administrador eficiente.
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