Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

3. O brasil dos portugueses

Capítulo 3

 

O BRASIL DOS PORTUGUESES

Na terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de “ervas compridas a que os mareantes dão o nome de rabo-de-asno”. Surgiram flutuando sobre as águas, ao lado das naus, e sumiram no horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o voo dos fura-buchos, uma espécie de gaivota, rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a terra se encontrava próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do crepúsculo, delinearam-se os contornos arredondados de “um grande monte”, cercado por terras planas, vestidas de um arvoredo denso e majestoso.

Era 22 de abril de 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrava terra – mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto. Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas do sul da Bahia, os treze navios da maior armada já enviada à Índia pela rota descoberta dois anos antes por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo a nova terra e seus habitantes. O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte, quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano da Índia e companheiro de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou-se com dezoito homens “pardos, nus, com arcos e setas nas mãos”. Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, então batizado Ilha de Vera Cruz, misturava, naquele instante, sua história ao curso da história da expansão europeia.

A chegada dos portugueses está registrada com requinte e minúcia. Poucas são as nações que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, Dom Manuel, relatando o “achamento” da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia. Terá sido a chegada ao Brasil um mero acaso?

É provável que a questão jamais venha a ser plenamente esclarecida. No entanto, a assinatura do Tratado de Tordesilhas que, seis anos antes, dera a Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de dois mil quilômetros) a oeste de Cabo Verde, a naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as boas condições climáticas durante a viagem e a probabilidade de que aquele território já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual, de qualquer forma, ainda demorariam cerca de meio século para se interessar de fato.

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UM IMPÉRIO ULTRAMARINO

O grande impulso que conduziu a frota de Pedro Álvares Cabral de Lisboa a Calicute, na Índia – e o levou a topar com o Brasil no meio do caminho –, foi apenas um pequeno, ainda que reluzente, movimento na grande sinfonia que configura o processo de expansão ultramarina dos portugueses ao redor do planeta. Para muitos historiadores, é justamente a “abertura” do mundo desencadeada pelos navegadores de Portugal que estabelece, mais que o advento da imprensa ou a queda de Constantinopla, o legítimo início da Era Moderna. Ao se aventurarem “por mares nunca dantes navegados”, os portugueses derrubaram os mitos da geografia arcaica e provaram, com adorável arrogância, que o ciclo do saber não estava fechado a sete selos. Sua aventura marítima foi o primeiro processo humano de dimensões planetárias.

Simples pescadores até o crepúsculo do século XIII, os portugueses começaram a constituir sua marinha no alvorecer do século XIV, tendo por mestres os genoveses. Em 1415, sob o comando de D. João I, uma frota portuguesa alçou-se em sua primeira investida militarista e conquistou Ceuta, no Marrocos. Seria o marco inicial de uma aventura expansionista que, pelos dois séculos seguintes, estendeu o domínio português pelos sete mares e por cinco continentes. A obra de D. João I teve continuidade com seu filho, o infante D. Henrique, que vislumbrou nos oceanos o futuro de Portugal.

Em 1420, navegadores formados na escola de D. Henrique (re)descobriram a ilha da Madeira. Em 1434, Gil Eanes venceu o cabo Bojador, no Saara espanhol. Em 1455, chegou-se ao Cabo Verde e, em 1487, Bartolomeu Dias atingiu o limite da África, dobrando o cabo das Tormentas, rebatizado de cabo da Boa Esperança. Em 1498, Vasco da Gama, enfim, desvendou a rota marítima para a Índia. Mais tarde os portugueses chegariam à China e ao Japão. Lisboa se tornou, então, uma cidade cosmopolita, cujos estaleiros viviam em febril atividade, e as ruas eram percorridas por astrônomos judeus, banqueiros genoveses, cartógrafos catalães, marinheiros italianos e mercadores holandeses. A capital de Portugal se tornava também uma das capitais do mundo.

POETA A DESCOBERTO

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A odisseia dos navegadores portugueses pelos mares da Terra encontrou seu Homero na figura de um marujo caolho e temperamental de nome Luís Vaz de Camões – o maior poeta da língua portuguesa de todos os tempos. Em 1569, depois de viajar pela Índia e pela China, Camões (ao lado) chegou a Lisboa trazendo a versão original de Os Lusíadas, o grande poema épico que concedeu aos descobrimentos portugueses a imortalidade só referendada pelas obras-primas.

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A VIAGEM DE CABRAL

Era domingo, e Lisboa, capital ultramarina da Europa, estava em festa. Os treze navios da frota mais poderosa já armada por Portugal balouçavam nas águas reluzentes do Tejo. “E muitos batéis rodeavam as naus e ferviam todos com suas librés de cores diversas, que não parecia mar, mas um campo de flores, e o que mais elevava o espírito eram as trombetas, atabaques, tambores e gaitas”, registrou o cronista João de Barros, testemunha ocular do dia memorável. Oito meses antes, chegara àquele mesmo porto a diminuta frota de Vasco da Gama. Trazia a notícia que durante quase um século fora a obsessão portuguesa: desvendara-se, enfim, a rota marítima que conduzia à Índia. Agora, o rei D. Manuel queria que todos, especialmente os espiões espanhóis, italianos e franceses, vislumbrassem a gloriosa partida de sua nova missão (comercial e guerreira) ao reino das especiarias.

Celebrava-se a missa. No altar estava D. Diogo Ortiz, um dos três homens que, uma década antes, vetara financiamento português ao projeto de Colombo de chegar à Índia pelo rumo do oeste. Junto a ele, Pedro Álvares Cabral, filho, neto e bisneto de conquistadores, mais um militar do que propriamente um navegador, rezava, silente. Aos 32 anos, estava pronto para sua primeira missão além-mar.

Os navios partiram na segunda-feira, 9 de março de 1500. Cabral e Gama haviam conversado longamente. Dois anos antes, ao fazer um grande arco no rumo do oeste, para aproveitar melhor as correntes do Atlântico, Gama passara tão perto do Brasil que talvez tenha mesmo pressentido a presença de terra. Cabral se aventurou ainda mais em direção ao poente (tanto que, segundo seus cálculos, julgava estar no local onde hoje é Brasília). Chegou à Terra dos Papagaios – uma escala ideal para as Índias.

Dez dias depois, ao zarpar de Porto Seguro, Cabral parece ter deixado ali, além de dois degredados e cinco grumetes desertores, a porção que lhe restava de sorte. Na terceira semana de maio, nas proximidades do cabo das Tormentas, depois de um cometa ter luzido no céu por dez noites, tenebrosa tempestade se abateu sobre a frota. Quatro naus, entre as quais a de Bartolomeu Dias, foram tragadas pelo mar. Não houve sobreviventes. Reduzida a sete embarcações (uma havia naufragado logo após a partida e o navio de mantimentos seguira de volta a Portugal com a notícia da descoberta), a armada chegou à Índia em fins de agosto. Cabral obteve permissão para fundar uma feitoria, mas, em 16 de dezembro, o estabelecimento foi atacado por mercadores árabes. O comandante reagiu e bombardeou Calicute por dois dias, provocando grandes estragos e mortes. Com seis navios repletos de especiarias, iniciou a viagem de volta. Foi bem recebido pelo rei. A seguir, porém, após desentendimentos com o monarca, caiu em desgraça na corte e nunca mais voltou a navegar. Retirou-se para Santarém. Lá morreu em 1520, quase na obscuridade – virtualmente sem saber que revelara à Europa um território de dimensões continentais.

A SEMANA DE VERA CRUZ

As ordens eram claras: a portentosa esquadra de Pedro Álvares Cabral estava em missão rumo à Índia. Deveria seguir pela rota descoberta por Vasco da Gama, estabelecer relações comerciais e diplomáticas com o samorin de Calicute e, de imediato, fundar uma feitoria em pleno coração do reino das especiarias. Por isso, apesar da exuberância da paisagem, da complacência dos nativos e das benesses do clima, os portugueses permaneceram apenas dez dias nas paragens paradisíacas da Ilha de Vera Cruz.

No dia 2 de maio de 1500, onze navios partiram rumo à pimenta, à canela e ao gengibre. O décimo segundo, sob comando de Gaspar de Lemos, zarpou na direção oposta, levando ao reino as cartas que anunciavam o achamento da nova terra. Quantas foram as missivas que a nau dos mantimentos conduziu em seu bojo é questão que jamais se elucidará. O certo é que tanto Cabral como os demais capitães enviaram relatos ao rei. Ainda assim, apenas três cartas sobreviveram. De longe, a melhor e mais detalhista é a redigida pelo escrivão Pero Vaz de Caminha. Graças a ela, ainda é possível reconstituir, passados cinco séculos, o período que alguns historiadores chamam de “Semana de Vera Cruz”.

QUARTA-FEIRA, 22 DE ABRIL DE 1500: No fim da tarde, a frota de Cabral avistou o cume do monte Pascoal. Ao crepúsculo, a 24 quilômetros da praia e a uma profundidade de 34 metros, os navios lançaram âncoras.

QUINTA-FEIRA, 23 DE ABRIL: Às dez horas da manhã, os navios ancoraram defronte à foz de um rio (provavelmente o atual Caí). Nicolau Coelho, veterano das Índias, foi até a praia, num bote, e lá fez o primeiro contato com dezoito nativos.

SEXTA-FEIRA, 24 DE ABRIL: Por conselho dos pilotos, a armada levantou âncora e partiu em busca de melhor porto. Encontraram-no, seguro, 70 quilômetros mais ao norte. Ali, dois nativos subiram a bordo. Pouco falaram e logo dormiram no tombadilho da nave de Cabral.

SÁBADO, 25 DE ABRIL: Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Pero Vaz de Caminha foram à praia e encontraram cerca de duzentos indígenas. Houve troca de presentes de pouco valor.

DOMINGO, 26 DE ABRIL: Frei Henrique, franciscano que depois seria inquisidor, rezou a primeira missa em solo brasileiro, no recife da Coroa Vermelha. Houve grande confraternização entre nativos e estrangeiros ao longo de todo o domingo.

SEGUNDA-FEIRA, 27 DE ABRIL: Diogo Dias e dois degredados visitaram a aldeia dos Tupiniquim, erguida a uns dez quilômetros da praia. Não lhes foi permitido dormir lá.

TERÇA-FEIRA, 28 DE ABRIL: Os portugueses recolheram lenha, lavaram roupa e prepararam uma grande cruz.

QUARTA-FEIRA, 29 DE ABRIL: Ao longo de todo o dia, o navio dos mantimentos, que seria enviado de volta a Portugal, foi esvaziado de sua carga.

QUINTA-FEIRA, 30 DE ABRIL: Cabral e os capitães desembarcaram. Na praia, havia uns quatrocentos nativos, com os quais eles passaram o dia dançando e cantando.

SEXTA-FEIRA, 1 DE MAIO: A tripulação deixou os navios e seguiu em procissão para o erguimento da cruz.

SÁBADO, 2 DE MAIO: A esquadra partiu para Calicute, e o navio dos mantimentos foi para Portugal. Dois grumetes desertaram da nau capitânia. Na praia, aos prantos, foram deixados dois degredados.

DIÁRIO DE BORDO

Data de partida: 9 de março de 1500

Local: do porto no rio Tejo, na praia do Restelo, em Lisboa Número de embarcações: dez naus (cerca de 180 toneladas cada) e três caravelas

Tripulação: aproximadamente 1.500 homens, entre os quais 1.200 homens de armas, pilotos portugueses, árabes e indianos, intérpretes, degredados, marujos, grumetes, além de oito frades e oito clérigos franciscanos

Tripulantes mais conhecidos: Bartolomeu Dias (o primeiro navegador a dobrar o cabo das Tormentas), seu irmão Diogo (escrivão da armada de Vasco da Gama), Nicolau Coelho (um dos pilotos de Gama e personagem de Os Lusíadas)

Itinerário de ida: Lisboa – ilhas Canárias (14.3.1500) – Cabo Verde (22.3) – Porto Seguro (22.4) – cabo das Tormentas (24.5) – Sofala, em Moçambique (16.6) –Melinde, no Quênia (6.7) – Goa, na Índia (22.8) – Calicute, na Índia (13.9)

Itinerário da volta: Cananor, Índia (16.1.1501) – Moçambique (12.2) – cabo das Tormentas (19.4) – Cabo Verde (15.7)

Data de regresso: 23 de julho de 1501, novamente na praia do Restelo, em Lisboa

Duração da viagem: 501 dias

Navios restantes: seis

Sobreviventes: em torno de quinhentos homens

A CARTA DE BATISMO

Por mais de três séculos, o principal e mais esplendoroso documento relativo à chegada dos portugueses ao Brasil permaneceu desconhecido – “praticamente sequestrado”, de acordo com o historiador português Jaime Cortesão – no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi redescoberto em fevereiro de 1773 pelo guarda-mor do arquivo, José Seabra da Silva. Ainda assim, quase meio século se passaria antes de a carta de Pero Vaz de Caminha ser publicada pela primeira vez, pelo padre Manuel Aires do Casal, em sua Corografia brasílica, editada em 1817. O padre, porém, arvorou-se a cortar vários trechos que considerou “indecorosos”.

Talvez por isso, somente em 1900 – quando da comemoração do quarto centenário do descobrimento do Brasil –, a carta voltaria a receber a atenção dos eruditos. Oito anos mais tarde, Capistrano de Abreu lançou seu extraordinário estudo Vaz de Caminha e sua carta. Só então se revelaram plenamente a agudeza das observações, a fragrância dos retratos, a vivacidade descritiva, a precisão etnológica e a acuidade histórica daquela, apesar do evidente anacronismo, que pode ser considerada uma espécie de “certidão de nascimento” do Brasil.

No instante em que Caminha escrevia a sua carta em Porto Seguro, havia mais de meio século que os escrivães portugueses exercitavam e afinavam a arte de registrar os fatos de maior relevo ocorridos em suas viagens marítimas. Praticamente nenhum daqueles relatos, no entanto, fora redigido por escrivães de ofício. Caminha seguia na frota de Cabral com a missão de tornar-se o escrivão (cargo equivalente ao de contador) da futura feitoria de Calicute. Mas era mais do que isso: era um escritor feito, um homem de letras, requintado e perspicaz, em pleno domínio de sua arte.

O texto que Caminha legou à posteridade não apenas captura, com minúcia e frescor, o alvorecer de uma nação, como se constitui em sua primeira obra-prima.

Ainda assim, a Carta do Mestre João – físico-mor (ou médico chefe) da armada de Cabral – e a chamada Relação do piloto anônimo (publicada já em 1507) ficaram, de início, muito mais conhecidas que o relato de Caminha. Todos os documentos relativos à primeira viagem ao Brasil submergiram, porém, no mesmo ostracismo ao qual Cabral foi relegado, após se recusar a assumir a subchefia de uma nova esquadra que seria enviada para a Índia. Depois de seu desempenho na viagem de 1500, Cabral se julgava em condições de ser chefe de qualquer missão e não quis se submeter às ordens de Vasco da Gama.

O terremoto que em 1755 abalou Lisboa também colaborou para o sumiço da documentação relativa à primeira (e única) viagem de Pedr’Álvares. Por caminhos ainda misteriosos, a carta de Pero Vaz chegaria até o Arquivo da Real Marinha do Rio de Janeiro, provavelmente quando da vinda da família real para o Brasil, em 1808. Nove anos mais tarde, seria enfim publicada pelo padre Aires do Casal.

Pero Vaz de Caminha nasceu na cidade do Porto, na quinta década do século XV. Filho de família oriunda da chamada “pequena nobreza”, fora cavaleiro das casas de D. Afonso V, de D. João II e de D. Manuel. Deveria ter por volta de 50 anos quando se juntou à frota de Cabral. A carta que o imortalizou viria a ser um de seus últimos atos: quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, em 16 de dezembro de 1500, entre os mortos em combate encontrava-se o profético cronista do nascimento do Brasil. Mas seu último desejo foi atendido: na carta, ele solicitara ao rei que seu genro, Jorge Osouro, fosse trazido de volta do exílio que amargava em uma das ilhas do Cabo Verde, por ter atacado um padre. Na mitologia autodepreciativa que o Brasil produz sobre si mesmo, costuma-se afirmar que Caminha havia pedido emprego para um parente…

O REINO DO PAU-BRASIL

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Em plena vertigem da Índia, com a pimenta inflamando as imaginações, a notícia da descoberta de Cabral seria recebida, em Lisboa, com certo fastio. A nova terra não possuía metais preciosos nem especiarias. O tédio e a desilusão, porém, não teriam sido imediatos à chegada da nave de Gaspar de Lemos, que levava as cartas confirmando o “achamento” do Brasil (e que, talvez, levasse também algumas toras de pau-brasil). Mas a expedição seguinte, feita em 1501 para reconhecer a nova terra, da qual participou, como cosmógrafo, o florentino Américo Vespúcio, traçaria o destino deste território, reduzindo-o, por quase meio século, à condição de mero coadjuvante no grande painel das descobertas portuguesas.

“(…) nessa costa não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de árvores de pau-brasil (…) e já tendo estado na viagem bem dez meses, e visto que nessa terra não encontrávamos coisa de minério algum, acordamos nos despedirmos dela”, escreveu Vespúcio, em setembro de 1504, ao magistrado de Florença, Piero Soderini, repetindo o que já dissera ao rei de Portugal, D. Manuel.

Durante as primeiras décadas, desinteressada em colonizar a terra à qual Cabral chegara, a Coroa portuguesa acabou por transformá-la numa imensa fazenda de pau-brasil, logo arrendada à iniciativa privada. Dessa forma, a árvore que ajudou a dar o nome ao país começaria a se tornar também a mais perfeita metáfora vegetal do Brasil – mais do que a borracha, o açúcar ou o café.

O pau-brasil (Caesalpinia echinata) tingia linhos, sedas e algodões, concedendo-lhes um “suntuoso tom carmesim ou purpúreo”: a cor dos reis e dos nobres. Uma espécie semelhante, a Caesalpinia sappan, nativa da Sumatra, já era conhecida na Europa desde os primórdios da Idade Média.

A partir do século XVII, porém, praticamente todos os tecidos produzidos em Flandres e na Inglaterra passaram a ser coloridos pelo “pau de tinta” brasileiro.

Nessa época, a indústria têxtil já começara a se tornar o motor da economia europeia. Depois de anos de contrição ou andrajos, as mulheres do continente descobriam, enfim, os requintes da moda. Abria-se, assim, enorme mercado para as roupas realçadas pela polpa da árvore, extraída aos milhões do litoral da Bahia e de Pernambuco. A operação era realizada por centenas de traficantes espanhóis, ingleses e, sobretudo, franceses. Eles foram os primeiros “brasileiros” – e os únicos de fato merecedores desse nome.

RADIOGRAFIA DO PAU-BRASIL

NOME: Caesalpinia echinata (família leguminosae).

NOMES INDÍGENAS: ibirapitanga (ou “pau vermelho” em tupi) ou arabutã.

DISTRIBUIÇÃO: do Rio Grande do Norte até o Rio de Janeiro.

ALTURA MÉDIA DE CADA ÁRVORE: entre 10 e 15m.

TAMANHO E PESO DAS TORAS: 1,5 metro de comprimento e 30 quilos. Cada navio levava em média 5 mil toras para a Europa.

PARA DERRUBAR E PARTIR CADA ÁRVORE: em torno de duas horas com machado de pedra e cerca de quinze minutos com machado de ferro.

DISTÂNCIA DE ONDE ERAM TRAZIDAS: em 1558, de 18 quilômetros da costa. Em 1890, a mais de 150 quilômetros.

ÁRVORES DERRUBADAS: sete milhões de pés. Foram mais de 3 mil toneladas por ano durante três séculos.

QUANTO VALIA O PAU-BRASIL: um navio carregado com a madeira valia sete vezes menos do que um navio cheio de especiarias. Ainda assim, resultava em lucro de 300%.

O DONO DA COLÔNIA

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Durante dez anos o Brasil teve um dono. Ao fechar um contrato de exclusividade para exploração do pau-brasil, em 1502, o cristão-novo Fernão de Noronha arrendou a Colônia por três anos, à frente de um consórcio de judeus conversos. O acordo teria sido renovado em três ocasiões. As obrigações do cartel eram: explorar o pau-brasil, defender a terra contra a cobiça, já viva, de espanhóis e franceses, estabelecer uma feitoria, explorar 900 léguas (5,9 mil quilômetros) de litoral e pagar um quinto dos lucros à Coroa. Em 1503, Noronha armou sua primeira expedição, descobriu a ilha que hoje tem seu nome e iniciou a exploração do “pau de tinta”. Noronha, ou Loronha, agente dos judeus alemães Függer, era um armador nascido em Astúrias, na Espanha, que enviava frotas à Índia e possuía uma rede de negócios, com sede em Londres.

O BRASÃO: acima, o brasão de armas de Fernão de Loronha, hoje conhecido como Fernando de Noronha, primeiro donatário da ilha que leva seu nome e a primeira (e única) capitania hereditária a ser doada pelo rei D. Manoel no Brasil. As demais capitanias foram doadas em 1532 por D. João III, filho de D. Manoel.

A TERRA DA BEM-AVENTURANÇA

O Brasil se chama assim por causa do pau-brasil, certo? Em parte. Apesar de os livros didáticos e o senso comum estabelecerem uma relação direta entre o nome do país e o da árvore, abundante no território descoberto por Cabral, a origem etimológica da palavra brasil é misteriosa e repleta de ressonâncias. Há mais de vinte interpretações sobre a origem do étimo, e as discussões parecem longe do fim. O certo é que a palavra é muito mais antiga do que o costume de se utilizar o “pau de tinta” para colorir os tecidos. Mais certo ainda é que a lenda e a cartografia antigas assinalavam, em meio às névoas do mar Tenebroso (o Atlântico), a existência de uma ilha mítica chamada Hy Brazil.

Por um lado, “brasil” vem do francês brésil que, por sua vez, é originário do toscano verzino, como era denominada, na Itália, a madeira usada na tinturaria. Por outro, também é correto afirmar que brasil advém do celta bress, origem do inglês to bless (abençoar), expressão que batizou a Ilha da Bem-Aventurança, Hy Brazil.

Foi a incrível coincidência entre o vocábulo bresail (terra abençoada) e a palavra “brasil” que fez com que surgisse a confusão da qual resultou a certeza de que do nome da madeira nascera o nome do país. Segundo O Brasil na lenda e na cartografia antigas, estudo de Gustavo Barroso, lançado em 1941, os homens letrados do século XVI não duvidavam de que o nome Brasil provinha da ilha lendária. “Prevaleceu, porém, a opinião do vulgo, já que eram simples marinheiros aqueles que traficavam a madeira rubra.”

O pau-brasil pode não ter dado seu nome ao país. Mas foi com certeza ele que batizou seu povo: eram chamados de “brasileiros” aqueles que traficavam o “pau de tinta”. Se prevalecessem as regras gramaticais, os nativos do Brasil deveriam se chamar brasilienses.

A ILHA PROMETIDA

A ilha do Brasil, ou ilha de São Brandão, ou ainda Brasil de São Brandão, povoava a imaginação e a cartografia europeias desde o alvorecer do século IX. Segundo a lenda, Hy Brazil era uma das ilhas “movediças”, “ressoante de sinos sobre o velho mar”, que sumia maliciosamente no horizonte esfumado sempre que os nautas se aproximavam dela. Foi palco da lenda celta Peregrinatio Sancti Brandani, escrita em latim no século IX. Brandão, nascido na Irlanda no ano de 460, partira para o oceano, na companhia de catorze monges, em 565 (aos 105 anos, portanto), para evangelizar terras e povos ignotos. Depois de inúmeras peripécias que as lendas ecoam, teria chegado a Hy Brazil, onde morreu aos 181 anos de idade. Desde 1351 até pelo menos 1721, o nome Hy Brazil podia ser visto em mapas e globos. Até 1624, expedições ainda eram enviadas à sua procura.

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OS NOMES DO BRASIL

Pindorama (nome indígena)

Ilha de Vera Cruz (1500)

Terra Nova (1501)

Terra dos Papagaios (1501)

Terra de Vera Cruz (1503)

Terra de Santa Cruz (1503)

Terra de Santa Cruz do Brasil (1505)

Terra do Brasil (1505)

Brasil (a partir de 1527)

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