Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

6. Bandeiras e entradas

Capítulo 6

 

BANDEIRAS E ENTRADAS

Eles eram os piratas do sertão. Perambulavam pelos atalhos, pelos planaltos e pelas planícies armados até os dentes, com seus sons de guerra e suas bandeiras desfraldadas. Eram grupos paramilitares rasgando a mata e caçando homens – para além da lei e das fronteiras; para aquém da ética. À sua passagem, restava apenas um rastro de aldeias e vilas devastadas; velhos, mulheres e crianças passados a fio de espada; altares profanados, sangue, lágrimas e chamas. Incendiados pela ganância e em nome do avanço da civilização, escravizaram indígenas aos milhares. Alguns historiadores paulistas os definiram como uma “raça de gigantes” – e não restam dúvidas de que eles foram sujeitos intrépidos e indomáveis. São tidos como os principais responsáveis pela expansão territorial do Brasil – e com certeza o foram. Embora tenham sido heróis brasileiros, tornaram-se também os maiores criminosos de seu tempo.

Em apenas três décadas – as primeiras do século XVII –, os bandeirantes e seus mamelucos podem ter matado ou escravizado cerca de 500 mil índios, destruindo mais de cinquenta reduções jesuíticas nas regiões do Guaíra, do Itatim e do Tape. Desafiaram as leis e os reis de Portugal e da Espanha. Blasfemaram contra Roma, foram excomungados pelo papa. Ainda assim, ignoraram as ameaças e só foram contidos pela força das armas. Transformaram sua capital, São Paulo, num dos maiores centros do escravismo indígena de todo o continente. Mais: por um tempo, fizeram dela cidade sem lei – reino de terror, ganância e miséria. E também o polo a partir do qual todo o sul do Brasil pôde, enfim, crescer, desenvolver-se e se endinheirar.

Por que justamente São Paulo? Porque a cidade fundada pelos jesuítas estava no centro das rotas para o sertão, porque os Carijó do litoral e os Guarani do Paraguai estavam próximos e eram presa fácil e, acima de tudo, porque São Paulo nascera pobre. “Buscar o remédio para sua pobreza” – assim os paulistas explicavam o motivo que os impelia aos rigores do sertão em busca de “peças”.

Nos anos 1920, dois devotados historiadores, Afonso Taunay e Alfredo Ellis Jr., começaram a forjar o mito bandeirante. Os documentos que acharam e publicaram revelam uma saga de horrores. Ainda assim, Taunay e Ellis Jr. preferiram fabricar a imagem do bandeirante altivo e galhardo, como se esses caçadores de homens fossem os “Três Mosqueteiros”. Mas ambos sabiam que muitos dos bandeirantes andavam descalços, mal falavam português e estavam treinados para escravizar e matar.

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OS CAÇADORES DE HOMENS

Embora o auge das bandeiras tenha coincidido com o alvorecer do século XVII e se prolongado por todo ele, o apresamento de indígenas sempre fez parte da história de São Paulo – na verdade, chegou a constituir sua essência. Antes de Martim Afonso fundar São Vicente, em 1532, o lugar já era conhecido como “Porto dos Escravos”, graças ao tráfico promovido por João Ramalho e pelo misterioso Bacharel de Cananeia – um degredado que teria sido o primeiro português a viver no Sul do Brasil.

A captura de índios do sertão, porém, só se tornou negócio em alta escala – o maior e quase único a sustentar as famílias de Piratininga – a partir de 1571, graças às iniciativas do capitãomor de São Vicente, Jerônimo Leitão. Com algum cinismo, ou deliberada ingenuidade, certos estudiosos chamam esse período inicial de “bandeirismo defensivo”, já que foi quando os paulistas despovoaram os vales do Tietê e do Paraíba supostamente para “garantir a segurança da cidade”. Em 1591, com a chegada do sétimo governador-geral do Brasil, Francisco de Sousa, inicia-se o ciclo chamado de “bandeirismo ofensivo”.

Sousa militarizou as incursões ao sertão, dando-lhes roteiros fixos, hierarquia rígida e até escrivães e capelães. Ao partir, em 1602, o governador tinha ajudado a criar milícias paramilitares que em breve desafiariam o poder colonial. Pouco depois, quando os jesuítas espanhóis fundaram as reduções do Guairá, no oeste do atual estado do Paraná, os paulistas viram nelas o alvo ideal para seus “saltos”. Afinal, como colocou o historiador Capistrano de Abreu, “por que se aventurar entre gente boçal e rara, falando línguas travadas e incompreensíveis, se perto demoravam aldeamentos numerosos, iniciados na arte da paz, afeitos ao jugo da autoridade?”

AS BANDEIRAS

O nome: segundo o historiador Capistrano de Abreu, teria nascido do costume Tupiniquim de levantar uma bandeira em sinal de guerra.

Formação: capitão-mor, com poder de vida e morte sobre os comandados, duas a seis dezenas de brancos, duas a quatro centenas de mamelucos e alguns milhares de indígenas – por vezes até cinco mil –, entre domésticos e escravos.

Armas: indígenas e mamelucos usavam apenas arco e flecha. Os brancos, mosquetes, pistolas e facas.

Roupas: nativos e mamelucos marchavam nus ou de tanga. Os brancos iam descalços, de chapéu, calças largas e “coira de anta”, um colete acolchoado.

Ritmo de marcha: de dez a doze quilômetros por dia. As jornadas podiam durar de seis meses a três anos.

Alimentação: farinha, mel, palmito, caça e pesca.

Entradas: eram expedições oficiais de exploração do sertão.

Armações: eram as bandeiras financiadas por um investidor, o armador, que não ia ao sertão.

Nativos escravizados: 356.720 “peças” em 150 anos, segundo cálculos de Alfredo Ellis Jr.

Valor das peças: em 1628, 20 mil-réis, ou 1/5 do de um africano.

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REDUÇÕES DESTROÇADAS

Entre 1610 e 1750, jesuítas – em sua absoluta maioria espanhóis – estabeleceram uma vasta rede de reduções na região entre os rios Paraná, Uruguai, Iguaçu e Paranapanema. Elas acabariam se tornando uma espécie de curral escravista para as bandeiras paulistas. O mapa acima identifica a localização dos 64 aldeamentos originais.

Guairá (área 1): a “florida cristandade”, formada por treze reduções, criadas por Ruiz de Montoya a partir de 1610. Ficavam no atual estado do Paraná, sendo facilmente alcançáveis a partir de São Paulo (40 a 60 dias de marcha). A destruição começou em 1628 e continuou com as expedições de 1629, 30, 31 e 32. Mais de cem mil índios foram escravizados.

Tape (área 2): a maioria das dezoito reduções foi obra do jesuíta Roque González. Erguidas no atual Rio Grande do Sul, foram destruídas a partir de 1636, por iniciativa de Raposo Tavares e Fernão Dias. Cerca de 60 mil Guarani foram levados para São Paulo.

Itatim (área 3): as treze reduções, localizadas na margem esquerda do Paraguai, em Mato Grosso do Sul, foram erguidas em 1631. Atacadas no início de 1633, “con impiedad y crueldad nunca oída”, cinco reduções foram destruídas, e as demais, abandonadas. O ataque rendeu aos bandeirantes 15 mil novos escravos.

Paraná-Uruguai (área 4): as reduções por excelência, também chamadas de Trinta Povos Guaranis, erguidas vários anos após a devastação do Guaíra, na mesopotâmia dos rios Uruguai e Paraná, floresceram em paz, a partir de 1670, até serem bruscamente abandonadas com a expulsão dos jesuítas, em 1759. Enquanto das primeiras reduções nada sobrou, dos Trinta Povos restam hoje ruínas monumentais.

A escravização dos índios “reduzidos” era rigorosamente ilegal. Mas, vivendo no topo do planalto, um tanto distantes do litoral e afastados das capitanias bem-sucedidas de Pernambuco e da Bahia, os paulistas logo adquiriram uma mentalidade independente e rebelde. Julgando-se abandonados pela metrópole e se sentindo o refugo da colônia, criaram uma civilização própria, fundamentada em temeridade e cobiça vertiginosas. São Paulo forjou sua própria lei e transformou as demais em letra morta.

Por mais de um século, a maioria da população de São Paulo (cerca de seis mil brancos em 1700) dedicou-se à captura de indígenas. O bandeirismo tornou-se um negócio cuja técnica era passada de pai para filho – inúmeros jovens iam para o sertão e muitas bandeiras eram empresas familiares unindo pais, filhos, tios, cunhados e genros. Embora promovidas por brancos, as bandeiras não teriam sobrevivido no sertão não fossem as técnicas indígenas. Na verdade, mais pareciam tropa Tupiniquim do que patrulha europeia: avançavam em fila indiana (as “trilhas de pé posto”), utilizavam canoas de tronco (as “ubás”), sobreviviam à base de pinhões, mel e palmito (quase extinguindo colmeias e palmiteiros ao longo das trilhas). O grosso da tropa era constituído de indígenas, escravos ou não.

As bandeiras se tornaram, assim, uma cruel perversão dos costumes guerreiros dos Tupi-Guarani, cujos conflitos não tinham por objetivo mais do que a captura de vítimas para a consumação do rito antropofágico. Outro aspecto psicológico perturbador das bandeiras se refere aos mamelucos (nome vindo dos soldados de uma milícia turcoegípcia formada por escravos): filhos de pais brancos e de mães indígenas, eles atacavam os índios com ódio redobrado.

A máquina escravista aperfeiçoada pelos bandeirantes começou a operar em larga escala a partir de agosto de 1627, quando Manuel Preto e Raposo Tavares partiram rumo ao Guaíra. Com sua espantosa tropa de dois mil índios (talvez Temiminó), 900 mamelucos e 69 paulistas, o jovem Raposo e o septuagenário Preto chegaram às margens do rio Tibagi no dia 8 de setembro. De início, agiram com cautela, já que, embora estivessem acostumados a capturar indígenas na região, aquele seria o primeiro ataque a uma redução jesuítica.

Um pretexto fútil foi a senha para a invasão de San António, em 30 de janeiro de 1629. Ali, dois mil índios foram escravizados. Em março, caíram San Miguel e Jesús María. Em maio, quando a bandeira retornou a São Paulo, nove outras reduções jaziam em cinzas. Os ataques foram em tudo similares à invasão de San Francisco Xavier, no Tape, em 1637. Lá, depois de atearem fogo à igreja, os bandeirantes aguardaram do lado de fora e, enquanto os indígenas tentavam escapar por uma fenda “a modo de rebanho de ovelhas que sai do curral”, os paulistas “com espadas, machetes e alfanjes lhes derribavam as cabeças, truncavam braços, desjarretavam pernas, atravessavam corpos. Provavam os aços de seus alfanjes em rachar os meninos em duas partes, abrir-lhes as cabeças e despedaçar-lhes os membros”, como narrou uma testemunha jesuíta.

A longa caminhada até São Paulo incluía horrores adicionais, como “matar enfermos, velhos, aleijados e crianças que impediam os parentes de seguirem viagem”. E com tanta crueldade que não pareciam “cristãos, matando crianças e velhos, dandoos de comer a seus cachorros”, revelaram dois padres espanhóis que acompanharam a jornada. Os cativos marchavam presos a grossas correntes de quatro metros, com trinta colares cada. Junto com o chumbo e a pólvora, esse era o artigo mais caro despendido pela bandeira. Em geral, eram pagos pelo “armador” que financiava a expedição.

Na chegada a São Paulo, os índios eram repartidos entre os bandeirantes e seus financiadores. Ao contrário do que insinua a história oficial, poucos cativos eram enviados para o Nordeste. A maioria ficava em São Paulo – Preto chegou a ter mil escravos em sua fazenda na Freguesia de Nossa Senhora do Ó. No que eram usados esses homens? No transporte de “harinas y comidas al puerto de Santos y asi con este trabajo en que se sirven dellos como de caballos, se mueren infinitos”. A ração dos escravos consistia numa espiga de milho por dia. Quanto às mulheres “de bueno parecer, casadas, solteras o gentiles, el dueño las encerra consigo en un aposento, con quien passa las noches al modo que un cabron en un curral de cabras”.

Este estado de coisas se reverteu parcialmente quando os jesuítas espanhóis foram autorizados a armar os índios das reduções. Em 1638, a bandeira de Leite Pais seria derrotada em Caazapa-Guaçu. A grande vitória, porém, viria três anos mais tarde, no dia 11 de março de 1641, quando, às margens do M’bororé, afluente do rio Uruguai, três mil Guarani, chefiados pelo cacique Ignacio Abiaru, sob a orientação dos padres Pedro Romero e Pedro de Mola e com a ajuda de canhões feitos de bambu, desbarataram a bandeira de Jerônimo de Barros, formada por 130 canoas com trezentos paulistas e seiscentos Tupi. Ao cabo de mais de dez horas de feroz batalha aquática e terrestre, boa parte dos invasores – que por três vezes pediram trégua – estava morta. Os sobreviventes embrenharam-se na mata, onde a fome e as doenças acabariam por dizimá-los. Apenas vinte retornaram a São Paulo.

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COMBATE NA SELVA: o estudo de Rugendas para uma gravura clássica mostra o choque entre os “soldados de Mogi das Cruzes” e seus adversários indígenas, um confronto desigual entre arcabuzes e mosquetões contra arcos e flechas.

O “desastre” de M’bororé marcou o fim de uma época. O “ciclo da caça ao índio” seria gradualmente substituído pelo “ciclo da caça ao ouro”. A aventura tinha acrescentado vários milhares de quilômetros quadrados ao Brasil. Seu preço pode ser avaliado em meio milhão de vidas.

VOLTEIOS E VERTIGENS DE RAPOSO TAVARES

Antônio Raposo Tavares foi o bandeirante por excelência. Em torno dele se revolve o mar de celeuma e controvérsia que sempre caracterizou a vida e a obra dos sertanistas de São Paulo. Apesar de ocupar os mais altos cargos públicos de sua capitania, Raposo Tavares passou boa parte da vida como fora da lei, driblando mandados de prisão. Dizia-se cristão, mas foi excomungado. Desprezava os indígenas, embora a eles devesse seus conhecimentos do sertão. Foi o maior caçador de escravos de seu tempo, mas não teve mais que 117 cativos – enquanto outros bandeirantes reuniam mais de mil. Tido como o mais audaz dos combatentes, fracassou na única guerra convencional da qual participou: a luta contra os holandeses, no Nordeste. Ampliou os limites territoriais do Brasil e serviu devotadamente à Coroa, mas morreu virtualmente abandonado, talvez até pobre, já em seu sítio perto de São Paulo. Ao longo de 60 anos, Raposo Tavares viveu tudo o que se pode esperar de um bandeirante.

Nascido no Alentejo, em Portugal, em 1598, chegou ao Brasil com 20 anos, em companhia do pai, Fernão Vieira, que, embora suspeito de ter “fugido do reino com dinheiro de Vossa Majestade”, assumiu o governo da capitania de São Vicente, em nome do donatário, conde de Monsanto. Por toda a vida Raposo também seria vassalo fiel de Monsanto. Alguns historiadores chegam a afirmar que ele destruiu as reduções do Guairá e do Tape por julgar que estariam dentro da área que pertenceria ao donatário.

O CONQUISTADOR ABANDONADO

Do alquebrado retorno a São Paulo, em 1651, à morte solitária em 1658, o nome de Raposo Tavares virtualmente sumiu dos registros oficiais da vila de São Paulo – indicação clara de que o antigo “cabeça das bandeiras” se tornara carta fora do baralho. O obscurecimento foi secular: até as primeiras décadas do século XX, praticamente nada se falou sobre o mais temerário dos sertanistas. Somente com os estudos de Basílio da Gama, em 1917, e de Afonso Taunay, em 1926, é que os feitos de Raposo Tavares entraram para os livros de história. Da grande jornada de 1648, porém, ainda se sabe pouco. Embora tenha sido descrita em uma carta do jesuíta Antônio Vieira, seu roteiro ainda é confuso. Raposo Tavares apropriadamente não virou nome de rua: batizou uma estrada.

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Em 1627, Raposo Tavares organizou a primeira bandeira contra o Guairá. Aos jesuítas espanhóis, disse que agia assim pois tinha de expulsá-los “duma terra que é nossa (de Portugal), não de Castela”. Na volta a São Paulo, Monsanto o nomeou juiz ordinário da vila de São Paulo e ouvidor da capitania de São Vicente.

Em 1633, porém, Raposo abusou de seus poderes e, ao invadir a fazenda dos jesuítas portugueses em Barueri, nos arredores de São Paulo, teve o mandato cassado. Em 1635, um recurso lhe restituiu o cargo, mas o acusado não se interessou: estava preparando a lucrativa invasão ao Tape, no Rio Grande do Sul. Em 1639, quando o governo ofereceu perdão aos bandeirantes que lutassem contra holandeses, Raposo se alistou e partiu para o Nordeste. Lá, teria participado da derrota imposta pelos batavos à esquadra do conde da Torre, governador-geral do Brasil. Com mais de mil homens, Raposo tomou parte, então, na grande marcha dos derrotados, ao pé do cabo São Roque, no Rio Grande do Norte, até a Bahia: 2.700 quilômetros percorridos em quatro meses.

Nada que se possa comparar à derradeira e monumental aventura do maior dos bandeirantes: em fins de 1648, com 1.142 homens – brancos, mamelucos e índios –, Raposo Tavares partiu de São Paulo para atacar o Itatim. Embora duas reduções tenham sido destruídas, a empresa fracassou. Em abril de 1649, porém, em vez de ordenar o retorno, Raposo marchou rumo ao desconhecido. Em fevereiro de 1651, 58 homens que, de acordo com uma carta escrita pelo padre Antônio Vieira, “pareciam mais desenterrados do que vivos” chegaram ao forte de Gurupá, próximo a Belém, no Pará. Por dois anos, tinham feito um “grande rodeio” por terras jamais percorridas: do Itatim (sul de Mato Grosso), a tropa chegara às cercanias dos Andes, na Bolívia. E então, descendo os rios Guaporé, Madeira e Mamoré, seguiram o Amazonas até Belém. Ao chegar em São Paulo, em fins do mesmo ano, Raposo Tavares estava tão desfigurado que nem mesmo parentes e amigos puderam reconhecê-lo.

FERNÃO DIAS E A MIRAGEM FATAL

A trágica jornada de Fernão Dias rumo à miragem de Sabarabuçu reprisou, em terras brasileiras, as vertiginosas viagens dos espanhóis em busca do Eldorado. Ao longo dos sete anos em que permaneceu no sertão à cata de esmeraldas que não estavam lá, a expedição se defrontou com todas as turbulências: fome, peste, traição, assassinato, delações, miséria e filicídio. A única concessão de um destino de resto inclemente foi permitir que, ao morrer, num delírio febril, Fernão Dias tivesse certeza de que eram esmeraldas as turmalinas que arrancara da terra.

Em 1672, quando o rei de Portugal o conclamou para ajudar na caça às pedras verdes, Fernão Dias Pais era um dos mais experientes e bem-sucedidos sertanistas de São Paulo – e um dos mais idosos. Aos 64 anos, já participara dos “saltos” às reduções do Tape – RS, já investira contra o Itatim – MS e caçara indígenas pelos arredores de São Paulo. De uma só vez trouxe, de Apucarana – PR, cinco mil Guayaná cativos. Possuía duas enormes fazendas, uma em Parnaíba – SP, outra em Pinheiros (hoje bairro da cidade de São Paulo), nas quais seus escravos plantavam o trigo que o governo comprava para alimentar as tropas em luta contra os holandeses no Nordeste. Nascido dos “mais velhos clãs vicentinos”, filho e neto de pioneiros ilustres, Fernão Dias Pais Leme era um dos homens mais ricos e famosos da São Paulo seiscentista. E um dos mais “piedosos” também: os padres não cansavam de elogiá-lo por ter erguido, à própria custa, o mosteiro de São Bento.

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O CAÇADOR DE ESMERALDAS: retrato suposto de Fernão Dias Pais Leme, um dos mais emblemáticos sertanistas de São Paulo, e modelo para o mito do bandeirante paulista.

Em 1674, porém, Fernão Dias largou tudo – a mulher enferma, as seis filhas, as fazendas –, vendeu sua prata, seu ouro e seu gado e partiu em busca das “recônditas pedras verdes”. Tinha 66 anos.

A lenda indígena de Sabarabuçu, a serra resplandecente, há muitos anos fazia parte da geografia fantástica que, desde sempre, assombrara os colonos portugueses no Brasil e fizera brotar uma coletânea de notícias fabulosas sobre tesouros opulentos escondidos no sertão. Foi em demanda dela que, orientado “pellas informaçõens dos antigos”, o velho Fernão Dias deixou São Paulo, a 21 de julho de 1674. Partiu com quarenta paulistas e duzentos nativos. Foi uma viagem de danação.

Por sete longos anos, a bandeira vagou pelos ermos do rio Jequitinhonha e do rio das Velhas. Os meses passavam, as pedras não apareciam, o descontentamento crescia. Endividado com os comerciantes de São Paulo e Parnaíba, Fernão Dias não hesitou em deixar a família na miséria – e mandou vender até “as joias do adorno de suas próprias filhas”. Quando as deserções começaram, o velho bandeirante reuniu os remanescentes da tropa e anunciou que iria “prosseguir a jornada até morrer e que em seu testamento havia de deixar ordem ao filho que, sob pena de sua maldição, prosseguisse a busca, ainda que fosse só com os seus índios e que nem trouxessem nem mandassem seus ossos a enterrar a povoado, sem que primeiro se descobrissem as esmeraldas”. Quando um motim estourou e Fernão Dias soube que ele era liderado por José Dias Pais, seu filho bastardo, não hesitou em mandar enforcar o jovem mameluco, para espanto e terror do arraial.

O GOVERNADOR DAS ESMERALDAS

Embora tenha sido tema de uma peça de teatro e de um famoso poema de Olavo Bilac, o nome de Fernão Dias, assim como o de seu companheiro Raposo Tavares, permaneceu no obscurantismo por quase dois séculos após a morte inglória no sertão. Embora Pedro Taques, o primeiro historiador de São Paulo, fosse seu sobrinho-neto, da biografia de Fernão Dias restaram muitas lacunas. Sequer se sabe com certeza onde e quando ele nasceu (embora São Paulo e o ano de 1608 sejam a data e o local mais prováveis). As circunstâncias de sua morte, porém, são bem conhecidas. Vitimado pela malária, seu corpo foi “embalsamado” à moda bandeirante: sobre a sepultura de dois palmos da terra acenderam-se fogueiras que arderam por vinte dias. Então, os ossos de Fernão Dias foram trazidos pelo filho para São Paulo – não sem antes terem afundado num naufrágio no rio das Velhas. Enterrados no mosteiro de São Bento, foram redescobertos e exumados em 1922.

Em abril de 1681, pedras verdes surgem da lagoa de Vupabuçu. Aos 73 anos, o velho sertanista se sente aliviado. Envia 147 pedras para ser examinadas em São Paulo. Em maio, devastado pela malária, Fernão Dias morre no sertão do rio das Velhas – sem saber que só achara turmalinas.

O CRIME SEM CASTIGO DE BORBA GATO

O caso de Manuel Borba Gato, genro de Fernão Dias e “tenente general do matto”, é exemplar da ambígua relação legal entre o governo colonial e os bandeirantes paulistas. Em 1681, logo após a morte inglória do sogro, Borba Gato permaneceu na região do rio das Velhas, no sudeste de Minas Gerais, disposto a continuar a busca por esmeraldas e ouro. Foi então que, atraído pelo boato das pretensas descobertas de Fernão Dias, chegou àquela região ninguém menos do que D. Rodrigo Castelo Branco, nobre de origem espanhola que recém havia assumido o cargo de administrador-geral das minas (embora, àquela altura, mina alguma houvesse sido descoberta).

Defendendo os interesses da família, Borba Gato de imediato estabeleceu uma relação tensa com Castelo Branco. Quando o confronto entre ambos enfim explodiu, no dia 28 de agosto de 1682, o bandeirante, “arrebatado de furor”, teria dado “um violento empuxão” no fiscal do rei, jogando-o do alto de um buraco “ao fundo do qual caiu morto” – de acordo com o relato do historiador paulista Pedro Taques (redigido em 1713, portanto, cerca de 30 anos após aqueles acontecimentos). Escrevendo muito mais tarde, em 1834, o historiador baiano Baltazar da Silva Lisboa tratou de amenizar a versão de Taques, afirmando que D. Rodrigo fora morto “pelos criados de um Manuel da Borba Gato, morador do rio das Velhas”.

De qualquer modo, não restam dúvidas do envolvimento do genro de Fernão Dias naquele crime de lesa-majestade. Não há de ter sido outro o motivo que o levou a se refugiar nos inexplorados sertões do rio Doce, no sudeste de Minas, e lá viver homiziado por quase duas décadas. De fato, de acordo com o relato registrado por um certo Bento Furtado, Borba Gato retirou-se para o coração do misterioso “Reino dos Mapaxó” e lá, por cerca de quinze anos, “viveu barbaramente, sem concurso de sacramento algum, nem comunicação com mais criaturas desse mundo” além do grupo de indígenas “que domesticou à sua obediência, vivendo entre eles, respeitado como um cacique”. Pesquisas mais atualizadas sugerem que “Mapaxó” eram os nativos hoje conhecidos como Botocudo (cujo território tribal de fato se espraiava pelas cercanias do rio Doce), mas que Borba Gato não teria permanecido tanto tempo sem contato com a civilização, uma vez que, em 1689, teria sido o principal responsável pela descoberta de ouro e pela fundação do arraial de Barra das Velhas, às margens do rio São Francisco.

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O “MONSTRUMENTO”: a polêmica estátua de ladrilhos representando Borba Gato (à direita) é um dos mais eloquentes exemplos do quanto a imagem dos bandeirantes foi se modificando no correr dos séculos.

De qualquer forma, foi apenas no verão de 1697 (portanto, quinze anos após a morte de Rodrigo Castelo Branco) que Borba Gato ousou retornar para São Paulo, sua cidade natal. Foi se encontrar com o governador Arthur de Sá e Meneses, disposto a revelar a localização das minas de ouro que descobrira nos arredores da atual cidade de Sabará – MG. Em troca daquele segredo, o governador não apenas decidiu perdoá-lo como, por provisão assinada no dia 6 de março de 1700, promoveu-o a guarda-mor da região das minas.

Dois anos mais tarde, a 9 de julho de 1702, Borba Gato tornou-se superintendentegeral das minas do rio das Velhas (ironicamente, cargo similar ao ocupado por Castelo Branco). À Coroa portuguesa, o governador Sá e Meneses – tido como um dos mais corruptos de seu tempo – justificou o perdão e as promoções ao suposto criminoso afirmando que D. Rodrigo Castelo Branco não havia sido morto por Borba Gato, mas sucumbido “em uma emboscada, recebendo três tiros disparados por desconhecidos” (mais detalhes do encontro entre Borba Gato e Arthur de Sá na p. 116).

Por volta do século XVIII, certos historiadores deram início à construção de uma imagem intrépida em torno de Borba Gato, que, mais do que qualquer outro bandeirante, simbolizaria a audácia, o atrevimento e a independência dos paulistas. Poucos dados concretos podem justificar essa tese. De todo modo, a partir de 1962, Borba Gato começaria a se tornar um dos bandeirantes mais conhecidos do grande público, graças principalmente a uma polêmica estátua, revestida por ladrilhos, erguida numa das principais avenidas de São Paulo. Concebida pelo escultor Júlio Guerra, a obra, “enorme e grotesca”, é tida por certos analistas como um “monstrumento ao kitsch”.

ANHANGUERA, O DIABO VELHO

Trata-se de uma das cenas mais mitológicas da história do bandeirismo paulista, só comparável à volta de Raposo Tavares para São Paulo, quando ninguém teria sido capaz de reconhecê-lo, ou ao delírio febril que antecedeu a morte de Fernão Dias. O episódio se desenrolou em 1682, em Goiás, e, diz a lenda, teria sido assim: Bartolomeu Bueno da Silva, sertanista de terceira geração, havia partido do vilarejo paulista de Santana de Parnaíba (São Paulo) à caça de indígenas nos remotos sertões do Araguaia. Nas proximidades do rio Vermelho (atualmente Mato Grosso), chegou a uma aldeia da tribo dos Goiás – tidos como um dos grupos mais pacíficos daquela região. Ao reparar que algumas mulheres se ornavam com peças de ouro, quis saber de onde provinha o minério. Como o segredo não lhe foi revelado, o bandeirante teria então ateado fogo na aguardente que depositara numa cabaça – e, em seguida, ameaçado fazer o mesmo com todos os rios e lagoas da região. Apavorados, os Goiás o apelidaram de Anhanguera – o Diabo Velho (ou Espírito do Mal, segundo outros autores).

A lenda jamais foi plenamente comprovada, e há estudiosos que preferem atribuir a origem do apelido à tribo dos Inhanguera, nativos do Tocantins que teriam sido escravizados por Bartolomeu Bueno. De todo modo, mesmo que o golpe de “pôr fogo na água” não tenha sido aplicado por Bueno, parece não haver dúvida de que, anos antes, o truque de fato foi utilizado, em Minas, por um certo Bento Pires, um dos primeiros descobridores do ouro das Gerais e uma das primeiras vítimas da Guerra dos Emboabas.

Embora o caso da aguardente tenha tornado Anhanguera um dos bandeirantes mais famosos, seu filho homônimo, conhecido como o segundo Anhanguera, foi personagem muito mais decisivo e atuante na história das bandeiras. Aos 15 anos, ele já estava no sertão em companhia do pai – e, se o teatro da água incendiada de fato ocorreu, o jovem “Diabo Velho” o teria presenciado. Naquela expedição, porém, os Buenos, mais do que minérios, estavam interessados no “ouro vermelho” (“seu real propósito era capturar índios e sugar de suas veias o ouro vermelho que sempre foi a verdadeira mina daquelas províncias”, escrevera o padre Antônio Vieira em 1656, referindo-se às bandeiras).

Nos anos seguintes, após a morte do pai, por volta de 1716, o segundo Anhanguera voltou ao sertão em busca de ouro e se tornou o primeiro descobridor e minerador de Goiás – fundando a cidade de mesmo nome. Embora tenha achado minério e requerido “direito de passagem” sobre todos os rios que conduziam à região, o segundo Anhanguera não só morreu na miséria como jamais encontrou a fabulosa serra dos Martírios, “pedernais de cristal que, por obra da natureza, tinham umas semelhanças da coroa, lança e cravos da paixão de Cristo” – uma miragem que o jovem Anhanguera jurava ter visto durante as andanças com o pai e que, como Sabarabuçu, se tornou uma das vertigens cuja busca arruinou muitas vidas e fortunas.

O BÁRBARO DOMINGOS JORGE VELHO

Foi um encontro breve, mas suficiente para que o bispo de Pernambuco, Francisco de Lima concluísse: “Trata-se de um dos maiores selvagens com quem tenho topado.” O bispo estava se referindo ao sertanista Domingos Jorge Velho – um dos mais famosos bandeirantes de seu tempo. O diálogo entre ambos, travado em março de 1687, foi acompanhado por um intérprete, pois Domingos Jorge Velho praticamente não falava português; era fluente apenas em tupi, a “língua geral”.

E aquela era uma das raras ocasiões nas quais Velho travava contato com a civilização: acostumado às lonjuras do sertão, estava na cidade para tratar de negócios. Contratado pelo governo para destruir o quilombo dos Palmares, foi combinar qual seria sua parte no butim. Um contrato foi assinado em 3 de março de 1687, ratificado em 3 de dezembro de 1691 e confirmado por carta régia de 7 de abril de 1693. A campanha só começou no início de 1694, e a luta contra os negros levou quase um ano exato. Foi “a mais trabalhosa, faminta, sequiosa e desamparada que até hoje houve no dito sertão, ou quiçá haverá”, conforme teria escrito o próprio Jorge Velho. Embora o quilombo tenha sido devastado, e a cabeça de Zumbi, cortada, o Conselho Ultramarino diria que “os paulistas são piores que os mesmos negros dos Palmares”. O governador Melo e Castro concordou: “É gente bárbara, que vive do que rouba.”

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O CAÇADOR DE GENTE: Domingos Jorge Velho, em retrato suposto, pintado por Benedito Calixto para decorar o Museu Paulista.

Não se pode dizer que Melo e Castro exagerasse. Nascido em São Paulo em 1644, Jorge Velho era senhor de enormes latifúndios nos sertões do Piauí e do São Francisco, tomados à força. O bandeirante possuía um temível exército particular: mais de mil índios Oruaze, Tabajara e Copinharaém armados de arco e flecha, e outros duzentos com espingardas. Com eles, não apenas conquistou toda a região e venceu a resistência dos Palmares como teria participação decisiva na terrível Guerra dos Bárbaros.

Não se sabe como eram as feições de Domingos Jorge Velho, assim como não se conhece o rosto de Raposo Tavares, de Fernão Dias nem do Anhanguera. Pintado por Benedito Calixto, o óleo que ilustra essa página é exemplar: feito nos anos 30 do século XX, fez parte da série de quadros que Afonso Taunay, diretor do Museu Paulista, encomendou para assegurar a “ornamentação” da casa. Tais quadros constituíram o braço pictórico da fabricação do mito bandeirante. Na vida real, os piratas do sertão não se pareciam nem um pouco com heróis de Alexandre Dumas. Ainda assim, basta uma visita ao próprio Museu Paulista para que fique claro o papel desses homens na expansão territorial do Brasil: na “escadaria monumental”, no hall de entrada do museu, seis estátuas representam seis bandeirantes e as seis “unidades da Federação” que eles conquistaram: Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

AS MONÇÕES

Mais do que uma mera versão fluvial das marchas sertanistas, as monções foram um desdobramento – de certa forma uma evolução – da expansão bandeirante. Suas características principais e mais intrigantes peculiaridades estão resumidas a seguir:

O QUE ERAM: As monções eram grandes caravanas fluviais que partiam do vilarejo de Araritaguaba – hoje chamado Porto Feliz –, na margem esquerda do rio Tietê, a 155 quilômetros de São Paulo e, por uma estrada aquática “de mais de mil léguas de comprido”, seguiam até Cuiabá – MT.

O NOME: Palavra originária do árabe mauasin (“época do ano em que se dá determinado fato”). Entre os marinheirosde Portugal, passou a designar as estações com ventos propícios para as grandes viagens marítimas.

ROTEIRO: De início, as monções se faziam sem roteiro fixo nem época determinada. A partir de 1720, as canoas seguiam o Tietê até a foz, desciam o Paraná até a embocadura do Pardo, subiam o Pardo até o rio Anhanduí, que as levava até o rio Miranda, afluente do Paraguai. O Paraguai conduzia o comboio até as minas de Cuiabá, através dos afluentes São Lourenço e Cuiabá. A partir de 1725, os irmãos Lourenço e João Leme descobriram que era melhor continuar subindo o Pardo e, nas alturas do ribeirão Sanguessuga, levar as canoas e as cargas por terra, por uma distância de quinze quilômetros, e seguir pelos rios Coxim e Taquari. Neste varadouro se fundou um pouso, Camapuã, no qual os viajantes descansavam e as canoas eram reabastecidas, antes de percorrer mais mil quilômetros. O percurso total era de 3.664 quilômetros.

ORIGEM DO MOVIMENTO: A descoberta do ouro em Bom Jesus do Cuiabá – MT, em outubro de 1722, pelo sertanista Miguel Sutil, provocou uma louca corrida às novas minas. Dizia-se que, ali, o ouro estava à flor da terra – o que, aliás, era fato.

DURAÇÃO DO PERCURSO: Na ida, com canoas carregadas e correntes contrárias, a jornada durava cinco meses – o mesmo que de Lisboa à Índia. Na volta, cerca de dois meses – o mesmo que da Bahia a Portugal.

ÉPOCA DA PARTIDA: Entre março e abril, quando os rios estavam cheios.

TAMANHO DOS COMBOIOS: Cada expedição tinha entre trezentas e quatrocentas canoas. Em geral, partia um só comboio por ano, com até 3 mil pessoas.

AS CANOAS: Chamadas “ubás”, eram feitas à moda indígena, escavadas num tronco de árvore (peroba, guapuruvu ou timbaúva). Tinham em média de 12 a 13 metros de comprimento e 1,5 metro de largura, embora tenha havido uma com 17,5 e 2,8 metros de largura. Levavam até quatro toneladas de carga e 30 pessoas. As cargas eram cobertas por lona e as pessoas por mosquiteiros.

TRIPULAÇÃO: Seis remeiros (sempre em pé), um piloto e um proeiro. O proeiro era a figura mais importante; tinha a chave do caixão de carnes salgadas e determinava o ritmo das remadas.

ALIMENTAÇÃO DURANTE A JORNADA: Um quilo de farinha, meio de feijão e cem gramas de toucinho por dia por pessoa.

PRINCIPAIS DIFICULDADES: Além das 113 cachoeiras, saltos ou corredeiras, as expedições tinham de enfrentar os Kayapó das margens do Taquari, os Guaicuru, que eram audazes cavaleiros do Pantanal, e os terríveis Paiaguá, grandes canoeiros que logo ficaram conhecidos como “os piratas do rio Paraguai”.

PERIGOS LENDÁRIOS: Iaras, pitões e as canoas-fantasmas dos monçoneiros mortos.

CONSEQUÊNCIAS: A povoação de Mato Grosso e a extração de 75 toneladas de ouro. A última monção partiu em 1838.

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