Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

37. O brasil de lula, de dilma e do pt

Capítulo 37

 

O BRASIL DE LULA, DE DILMA

E DO PT

Em 27 de outubro de 2002, no mesmo dia em que completava 57 anos, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-torneiro mecânico que estudou somente até a quarta série do primeiro grau, obteve enfim seu primeiro diploma. E estava longe de ser um diploma qualquer: referendado por quase 53 milhões de votos, Lula foi eleito o 35º presidente do Brasil. Foi uma vitória histórica, em muitos sentidos. Não apenas porque, após três derrotas consecutivas, Lula finalmente vencia as eleições, mas em especial porque ela o tornou o primeiro presidente oriundo das camadas populares, cuja eleição veio romper com um ciclo de elitismo político iniciado, grosso modo, quase cinco séculos antes, quando o fidalgo Tomé de Souza assinou, em dezembro de 1548, o diploma real que fez dele o primeiro governador-geral do Brasil.

No dia 1º de janeiro de 2003 – exatos dois anos após o início do terceiro milênio –, Lula tomou posse em Brasília em meio a grande comoção popular, recebendo a faixa presidencial das mãos de um antigo companheiro de militância e, naquele instante, seu desafeto e rival, Fernando Henrique Cardoso. Foi, outra vez, momento de inegável impacto histórico e ressonância social. As bandeiras vermelhas da militância petista, às quais se juntavam faixas e estandartes de todos os partidos de esquerda do Brasil, bem como os símbolos da maioria das dissidências políticas da nação, tingiram as avenidas da capital com cores bem diferentes do verde-oliva que, por um quarto de século, havia imperado na capital, e bastante distintas também do azul e amarelo dos tucanos do PSDB, que haviam passado os últimos oito anos no poder.

Para milhões de militantes e simpatizantes de Lula, parecia o sinal claro de que uma mudança efetiva se concretizava nos rumos políticos da nação: era uma guinada radical, uma “nova chance”, a esperança de um recomeço.

As transformações trazidas com a eleição de Lula pareceram ainda mais nítidas quando, na noite daquele mesmo dia, o presidente foi convidado a sentar-se à bancada do Jornal Nacional, levado ao ar pela TV Globo (a mesma rede acusada, 14 anos antes, de ter manipulado o debate entre os então candidatos Fernando Collor e o próprio Lula), e ali, em parceria com os comunicadores William Bonner e Fátima Bernardes, “apresentar” o mais assistido e importante noticioso da televisão brasileira. Foram momentos de intenso apelo emocional, até porque a edição do noticiário tratou de privilegiar as agruras e superações da impressionante trajetória de Lula, desde os cafundós de Garanhuns – PE, onde nascera, em 27 de outubro de 1945, até o momento em que se tornou presidente eleito pelo voto direto.

Tão tocante revelou-se a história do boia-fria semiletrado e líder sindicalista que então chegava ao poder que a primeira polêmica em que o novo governo já então se envolvera – a suposta troca do dia da posse de 1º de janeiro, como estabelecia o calendário constitucional, para 3 de janeiro, de modo que o ditador cubano Fidel Castro pudesse estar presente à cerimônia – foi logo esquecida. O que poucos igualmente lembraram naquele instante foi que, se Lula tomava posse sem sobressaltos ou ameaças golpistas, isso se dava também em função do fato de o Plano Real (articulado por seu antecessor, FHC, quando ainda era ministro do governo Itamar Franco) ter se revelado não apenas um plano de estabilização econômica mas de estabilização política.

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De todo modo, o Brasil apresentava ao mundo um exemplo de maturidade democrática, e jornais de todo o planeta – mesmo os mais conservadores, como o francês Le Figaro, o inglês Financial Times e o norte-americano Washington Times – viam-se na contingência de saudar, se não a eleição de Lula, ao menos a lisura do processo que o levara ao Palácio do Planalto. E o momento de relativa bonança então vivido pela economia brasileira ajudava a fazer com que declarações como a do ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria, Mário Amato – que, antes das eleições de 1989, havia dito que, se caso Lula vencesse Collor, “40 mil empresários deixariam o Brasil no dia seguinte” –, fosse relegada à lata de lixo da história como mera bravata reacionária. Com efeito, a própria CNI apressou-se em assinalar que a posse de Lula era, de certa forma, fruto de suas atividades em prol do desenvolvimento do Brasil, na medida em que o homem que então se tornava presidente havia se formado torneiro mecânico no Serviço Nacional da Indústria, o Senai, órgão fundado e mantido pela própria CNI desde 1942.

Assim, ao menos naquele dia, o Brasil parecia estar ingressando de fato em uma nova fase de sua história política. E, embora Lula logo fosse desagradar milhares (se não milhões) de seus partidários de esquerda, ao emitir sinais cada vez mais claros de que pretendia dar continuidade à política econômica “neoliberal” de FHC – chegando ao ponto de convidar para a Presidência do Banco Central o banqueiro Henrique Meirelles (ex-presidente do norte-americano Bank Boston) –, a verdade é que a nação ingressava no 114º ano de sua vida republicana e no 503º ano de sua história consideravelmente modificada. Pelo menos na aparência.

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VOZ MAIS FINA: diferentemente dos tempos em que falava grosso e mandava parar as máquinas, quando era líder sindical no ABC paulista, Lula (abaixo, em foto tomada durante a greve dos metalúrgicos em 1979), tão logo chegou ao poder, mudou o discurso e afinou suas ideias com o mundo real da economia globalizada.

Não seria preciso esperar pelo momento em que, seis anos e meio mais tarde, em agosto de 2009, quando Lula – já então exercendo seu segundo mandato (para o qual foi reeleito em outubro de 2007, dessa vez já no primeiro turno) – subiria a um palanque, em Alagoas, na companhia de Fernando Collor e do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), disposto a defender fervorosamente a permanência no cargo do então presidente do Senado José Sarney (acusado, com provas documentais, de inúmeros atos ilícitos), para perceber que os caminhos e descaminhos da política brasileira não haviam se modificado tanto assim. Muito pelo contrário. Não seria preciso esperar também pelas meias verdades, pelos retrocessos e pelo jogo de conveniências que Lula se viu forçado, ou dispôs-se, a seguir, para constatar que, como já declarara, nos anos 1950, um retrógrado político mineiro “na prática, a teoria é diferente…”.

De todo modo, as duas eleições consecutivas de Lula foram prova cabal do amadurecimento político do Brasil. Por outro lado, desnudaram as bases ainda pouco sólidas da prática democrática no país. Não apenas o presidente precisa governar em estreita conexão com um Congresso – em especial com um Senado que chafurda em corrupção, desordem e clientelismo – como os altíssimos índices de popularidade de Lula comprovam que a nação ainda se deixa levar pelo carisma pessoal de um líder populista e segue reverenciando os “pais do povo”.

E se, em muitos sentidos, o programa bolsa-família (ironicamente desenvolvido por FHC e largamente incrementado pelo governo petista) de fato é uma efetiva forma de transferência de renda e aplicação de justiça social, por outro revelou-se um instrumento eleitoreiro tão poderoso que teria chegado, ainda que brevemente, a dar a Lula o anseio de concorrer a um terceiro (e inconstitucional) mandato, além de mantê-lo “blindado” do rosário de casos de corrupção e desmandos que abalaram seus dois governos, entre os quais o chamado “mensalão”, que lhe custou a perda do principal colaborador, o deputado federal José Dirceu (PT), cassado em função de denúncias de ser o “operador” dos repasses de verbas a políticos em troca de apoio às medidas do governo enviadas ao Congresso.

Lula, ainda assim e por isso mesmo, segue sendo o símbolo de um Brasil possível, o representante genuíno de um país moderno e plenamente viável, reconhecido internacionalmente, inclusive pela revista Time, como um líder influente no planeta. Embora seja forçoso observar que Lula se revelou também a exceção que confirma a regra: o povo, no Brasil, segue desacostumado com as práticas efetivamente democráticas. Afinal, sem uma base educacional sólida, não é possível construir uma nação realmente avançada.

No mundo moderno, é quase impossível fazer carreira sem diploma.

A NOVA CARTILHA DO PT

Qualquer eventual temor de que, ao assumir o poder, Luiz Inácio Lula da Silva fosse se revelar o radical que aparentava ser no início de sua carreira política – substanciada na suspeita de certos setores da sociedade de que o personagem “Lulinha paz e amor” fosse mera ficção eleitoreira – arrefeceu consideravelmente no momento em que o recém-empossado presidente anunciou que o Banco Central do Brasil ficaria sob a Presidência de Henrique Meirelles. Filiado ao PSDB e ex-presidente do norte-americano Bank Boston, Meirelles era – na aparência, no discurso e, acima de tudo, na prática – um leitor atento e aplicado cultor da cartilha “neoliberal”. Por outro lado, a surpreendente escolha de Lula de imediato o incompatibilizaria com as alas à esquerda do PT e de outros partidos que apoiaram sua campanha, como o PSOL. Tal distanciamento só iria aumentar a cada dia do novo governo.

A decisão parecia referendar, no entanto, a admissão tácita, por parte do PT, de que o Plano Real havia funcionado – estabilizando não só a economia mas também, em decorrência dela, o próprio processo de redemocratização do Brasil. Ao contrariar a prática política vigente no Brasil, Lula e sua equipe deram a entender que não fazia sentido modificar o que estava dando certo. De todo modo, o governo petista iria avançar em relação ao de FHC, sendo capaz de, pela primeira vez desde a Independência, zerar a dívida externa brasileira – um feito notável. Ainda assim, o BC manteria em vigência no Brasil as maiores taxas de juros do mundo.

Mas para alguém com a trajetória não apenas política mas pessoal de Lula, seria inconcebível que, uma vez no poder, ele não lançasse programas de cunho social. Com efeito, o primeiro “pacote” do governo foi articulado em torno do programa “Fome Zero”, que Lula – já aparentemente imbuído da vertigem de se impor como figura de impacto mundial (o que, de todo modo, ele conseguiria) – logo alardeou que pretendia transformar em programa global, mesmo que para isso precisasse contar com uma espécie de ajuda compulsória dos países ricos. O Fome Zero, no entanto, não decolou nem mesmo no Brasil e, apesar da queda dos índices de desnutrição e de mortalidade infantil no país, o programa teve menos a ver com tais avanços sociais do que o bolsa-família, esse sim um dos símbolos (e mais efetivos instrumentos) do governo Lula.

Mas se a política econômica de Lula o aproximou das classes produtivas e até dos setores mais conservadores da sociedade, nem por isso o presidente fugiu das polêmicas e, ao colocar o boné do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, receber as lideranças do MST no Planalto e ajudar a financiar, com verbas federais, esse grupo (e outras ONGs controversas), o ex-sindicalista parecia referendar, em certas ocasiões, seus vínculos supostamente “revolucionários”, por mais falaciosos que o MST e certos movimentos contestatórios possam eventualmente se revelar.

“MENSALÃO” E O PRESIDENTE BLINDADO

Ironicamente, o bolsa-família – um dos pilares “sociais” do chamado lulismo – fora criado em fins do ano 2000 pelo governo FHC, com base em projeto similar aplicado, anos antes, em Campinas – SP. Graças ao programa, efetivou-se um genuíno “instrumento de transferência condicional de recursos” às classes menos favorecidas. Tanto é que, a cada ano do governo petista, mais de 11 milhões de famílias de todo o país (ou cerca de 45 milhões de pessoas) receberam cerca de oito bilhões de reais, equivalentes a 0,4% do PIB. Graças a isso, os índices de miséria no Brasil caíram 27,7% entre 2002 e 2007. O sucesso do programa se revelaria, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pelos espantosos índices de aprovação do governo Lula (que, em certos momentos, chegaram a inéditos 70%), bem como pela “blindagem” do presidente em relação a escândalos políticos que estouraram muito próximos a ele.

Dentre as denúncias que abalaram o governo Lula, nenhuma foi mais ruidosa do que o chamado “mensalão do PT”. Delatado em maio de 2005 pelo deputado federal Roberto Jefferson (então presidente do PTB, um dos partidos da base aliada), o esquema configurava o pagamento de propinas mensais – feitas com dinheiro público –, repassadas a vários deputados para que votassem favoravelmente aos projetos enviados ao Congresso pelo governo. Os recursos teriam sido repassados aos aliados pelo Partido dos Trabalhadores por meio do então tesoureiro do partido, Delúbio Soares, e do secretário-geral, Sílvio Pereira, depois afastados do PT. Em junho de 2005, foi instaurada uma controversa CPI, marcada por avanços e recuos, falsas polêmicas e muita indecisão. Em agosto de 2007, após muitas idas e vindas, o Supremo Tribunal Federal aceitou denúncia contra todos os 40 envolvidos no caso, definindo-os como “membros de uma organização criminosa”. Embora, na sequência dos acontecimentos, poucos tenham sido de fato punidos, os deputados Roberto Jefferson e José Dirceu (PT) já haviam sido cassados em dezembro de 2005.

Apesar de suas pífias consequências práticas, a CPI acabou privando Lula de seu candidato natural à sucessão, José Dirceu, um dos membros mais conhecidos e integrante histórico do Partido dos Trabalhores.

José Dirceu de Oliveira e Silva já se firmara então como um dos principais líderes do governo Lula, além de ser um velho amigo e aliado de longa data do presidente. A movimentada trajetória de Dirceu se vincula à política brasileira desde os tempos em que ele se tornou um combativo líder estudantil em 1965. Preso durante o congresso da UNE em Ibiúna – SP, em outubro de 1968, esteve entre os 15 presos políticos trocados, em setembro do ano seguinte, pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, que fora sequestrado por um grupo do qual fazia parte Fernando Gabeira (leia p. 411).

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O PESO DO “MENSALÃO”: mesmo tendo escapado das insinuações de que sabia do pagamento de propina para que deputados votassem a favor do governo, Lula acabou perdendo seu principal assessor, José Dirceu, candidato natural à sua sucessão.

Após deixar o Brasil, Zé Dirceu, como é conhecido, exilou-se em Cuba, fez operações plásticas e mudou de nome, retornando clandestinamente ao país em 1971. Depois de nova estadia em Cuba, retornou ao Brasil em 1975 e, com a anistia e a redemocratização, saiu da clandestinidade para se tornar um dos fundadores do PT, que presidiu durante boa parte da década de 1990. Deputado federal por três vezes, foi um dos principais articuladores da campanha de Lula à Presidência. Após a eleição do companheiro, virou ministro da Casa Civil e o principal nome dos dois primeiros anos do governo, suplantado apenas pelo presidente. Com a denúncia de ser o “operador do mensalão”, exonerou-se do cargo de confiança em julho de 2005. Foi cassado em dezembro do mesmo ano, tornando-se inelegível até 2015.

Embora a sala de José Dirceu no Palácio do Planalto ficasse ao lado da do próprio presidente, e ambos mantivessem uma longa e íntima convivência, Lula sempre declarou que nada sabia das atividades do chefe de sua Casa Civil. Durante e depois de todo o processo, passou a ser como se os dois mal se conhecessem. De todo modo, o PT e Lula perderam o canditado natural à sucessão presidencial. Para certos setores da sociedade, foi uma notícia alvissareira, pois, logo após a posse, Dirceu havia declarado que o projeto petista para o país estava previsto para “durar 30 anos”. A ameaça do continuísmo pareceu, então, definitivamente afastada.

LULA LÁ, MAIS UMA VEZ

Mesmo com todas as evidências de que o “mensalão” funcionava na porta ao lado do gabinete presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva passou incólume pelo escândalo. Também não foi vinculado às denúncias que envolveram seu ministro da Fazenda, Antônio Pallocci, afastado do cargo em março de 2006, tido como responsável direto pela quebra do sigilo bancário de um simples caseiro, que o acusara de fazer lobby no governo em prol de determinados empresários. E assim, pairando acima de qualquer suspeita, Lula, tão logo aproximou-se o fim de seu primeiro mandato, surgiu como candidato óbvio à reeleição – que, embora não prevista pela Constituição de 1988, fora, em outra ironia da política, aprovada por uma emenda controversa ao final do último mandato de FHC e contra a qual o PT votara.

Concorrendo dessa vez contra Geraldo Alckmin, em eleições realizadas em outubro de 2006, Lula venceu fácil, embora com segundo turno, reassumindo a Presidência em janeiro de 2007, consagrado por quase 60% dos votos válidos. Ao contrário de FHC, seus índices de aprovação não dimuíram no segundo mandato: pelo contrário, aumentaram em proporção espantosa.

Embora autor de frases controversas – algumas delas francamente desastradas –, Lula se impôs não só nacionalmente mas também no cenário internacional. Entre suas inúmeras declarações polêmicas, uma delas foi a de que a grave crise que, a partir de janeiro de 2008, nos Estados Unidos, abalou a economia mundial, não iria “passar de uma marolinha no Brasil”. O mais extraordinário é que a bravata do presidente revelou-se quase profética. Graças à política de redistribuição de renda e dos aumentos dos índices de consumo entre as classes C e D, o país de fato suplantou a turbulênca internacional em relativa calmaria.

Portanto, apesar de todas as insinuações – aliás, concretas – de que o bolsa-família e demais projetos sociais do lulismo são também ferramentas eleitoreiras, o fato é que o governo Lula revelou-se eficiente no campo econômico, e os índices de aprovação do presidente têm base mais sólida do que apenas seu carisma pessoal.

Dentre as frases bombásticas proferidas por Lula ao longo de seus oito anos de governo, uma delas iria provocar atritos até mesmo com a Igreja. Num desabafo sobre as circunstâncias nas quais se viu forçado a governar, o presidente declarou que, caso Jesus Cristo voltasse à Terra e se tornasse político no Brasil, “teria de chamar Judas para fazer coalizão”. Era como se Lula estivesse justificando o fato de não apenas ter convivido com a presença de Renan Calheiros na Presidência do Senado (cargo que o senador alagoano do PMDB ocupou entre 2005 e 2009), como também ter se disposto a defendê-lo de um rosário de acusações.

De acordo com denúncias feitas pela revista Veja ao longo do ano de 2008, Calheiros amealhara fortuna incompatível com seus rendimentos. Calheiros é conterrâneo e aliado de longa data do ex-presidente Fernando Collor, afastado da Presidência do país por impeachment em 1992 e, depois de anos de inelegibilidade, eleito senador por Alagoas em 2006. Em discurso feito durante uma visita à pequena cidade de Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas, em 2009, Lula fez questão de dizer que Collor e Renan davam “sustentação aos trabalhos do governo no Senado” e não economizou nos elogios à dupla de antigos inimigos. Lula chegou, inclusive, a se comparar a Collor, ao mencionar a popularidade que ostenta entre os nordestinos. Até o ex-presidente Juscelino Kubitschek entrou na comparação. “Não era habitual neste país os presidentes percorrerem o Brasil. Além do Collor, que é de Alagoas, o único presidente a vir aqui foi Juscelino Kubitschek”, disse Lula.

Como se não bastasse a defesa que fez de Collor e Calheiros, Lula se veria na contingência de elogiar e aliar-se também a um outro desafeto, o ex-presidente José Sarney, que já ocupara o comando do Senado em 2003-2005 e voltaria ao cargo em fevereiro de 2009. Um rosário de denúncias eclodiu contra o maranhense – em meio a uma série de escândalos envolvendo a instituição como um todo. Lula tratou de defender Sarney:

“Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois não acontece nada”, justificou, criticando a reação da imprensa e da opinião pública contra o presidente da casa. “O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.” Para muitos de seus aliados históricos, era Lula, um antigo incendiário, desempenhando o papel de bombeiro.

O PRESIDENTE DAS ESTRELAS

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Se restassem dúvidas de que os índices de popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva e seu carisma pessoal estão longe de ser fruto de mero marketing político, ou um fenômeno exclusivamente ligado às massas do Brasil, tais dúvidas teriam acabado no instante em que o mais poderoso e conhecido político do planeta, o presidente norte-americano Barack Obama, aproximou-se de Lula e, durante um encontro realizado em Londres, em 2 de abril de 2009, declarou: “That’s my man, right here!” A saudação repercutiu imediatamente em todo o planeta.

Embora fosse reveladora do genuíno apreço de Obama por Lula, no Brasil a frase logo foi traduzida como se Obama tivesse dito: “Esse é o cara!” – quando, na verdade o que ele de fato falou foi: “Esse é o meu cara”, expressão que, em inglês, também pode ser entendida como “esse é o meu camarada, o meu chapa”. Além do mais, havia uma continuação: “Eu amo esse cara. Ele é o político mais popular do planeta. É por causa de sua bela aparência…” Sabendo-se que Lula não é exatamente um modelo de beleza masculina, o dito de Obama continha ao menos uma pitada de ironia.

Mas não só a brincadeira de Obama revela o quanto Lula foi capaz de se destacar no mundo globalizado como esteve longe de ser a única manifestação de apoio a ele vinda de países do Primeiro Mundo. O presidente do Brasil, já consagrado pelos altíssimos índices internos de popularidade, foi saudado em fins de 2009, como “homem do ano” pelos jornais El País, da Espanha, e Le Monde, da França – e nessa escolha não houve ironia alguma.

Se, ainda assim, a evidente aclamação internacional de Lula continuasse a despertar as suspeitas de uma oposição tão rancorosa quanto ineficaz – exercida pelo PSDB e pelo DEM –, a pá de cal seria dada pela revista norte-americana Time, que, em abril de 2010, elegeu o presidente do Brasil como um dos 25 líderes mais influentes do planeta. Em certos casos, porém, as conexões internacionais de Lula se revelaram também ligações perigosas. já que ele se manteve bastante próximo do caricatural presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e de seu aprendiz, o presidente boliviano Evo Morales, que estatizou refinarias da Petrobras na Bolívia.

Também no cenário internacional, o presidente do Brasil fez uma série de declarações no mínimo “politicamente incorretas”, em especial quando disse que a crise econômica internacional que, a partir de 2008, assolou o planeta, havia sido provocada pelo “comportamento irracional de gente branca e de olhos azuis, que sempre se comportou como se soubesse tudo sobre economia”. De todo modo, com seus altos e baixos, seus erros e acertos, sua rústica dignidade e sua eventual desfaçatez, Luiz Inácio Lula de Silva se tornou símbolo efetivo do Brasil do século 21. Até porque em outubro de 2010, ele fez sua sucessora.

DILMA ROUSSEFF E O BRASIL DAS MULHERES

No dia 31 de outubro de 2010, Dilma Rousseff tornou-se não só a 36ª pessoa a presidir o Brasil, mas a primeira mulher a fazê-lo em 120 anos de vida republicana. Por mais marcante e inédita que tenha sido, a vitória, no entanto, não foi só dela: Dilma era apenas a criatura, e Luiz Inácio Lula da Silva, mais do que seu antecessor e mentor, o genuíno criador. Embora ela tivesse biografia pregressa e carreira política relativamente longa, o fato é que poucos dos cerca de 55 milhões de eleitores que a alçaram ao Palácio do Planalto, dando-lhe 56,05% dos votos válidos, já haviam ouvido falar de Dilma três anos antes de elegê-la. Tanto é que em 2002, durante a primeira propaganda política do então candidato Lula à presidência, Dilma só entrou no ar por quatro segundos, e saiu sem dizer nada. Seis anos mais tarde, em abril de 2008, embora já tivesse se tornado a ministra mais poderosa de Lula, a revista inglesa The Economist julgava que sua candidatura ainda não era viável por Dilma ser tão pouco conhecida.

Mas, confiante no próprio carisma e nos altíssimos índices de sua popularidade, Lula bancou Dilma. E, embora a eleição tenha se dado em segundo turno, o índice de abstenção tenha ultrapassando 20 milhões de eleitores e rejeição ao candidato José Serra fosse alta, o fato é que a aposta do líder do PT deu certo e, num epílogo vitorioso para seus oito anos de governo, Lula foi capaz de suplantar o último obstáculo: encontrar alguém para sucedê-lo e ocupar o cargo que, em tese, seria de seu ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, cassado em dezembro de 2005 (substituído, aliás, pela própria Dilma) e condenado a dez anos de prisão por corrupção ativa, em novembro de 2011, no mais rumoroso revés da Era Lula.

De todo modo, se subiu a rampa do Planalto como mera criatura de Lula, Dilma não só imprimiu seu próprio estilo no governo, como enfrentou o legado que recebeu. Embora nunca tenha deixado de ser reverente a seu mítico líder – até porque Lula viu-se (como a própria Dilma) acometido por um câncer –, a presidente se revelou determinada o suficiente para demitir nada menos do que sete ministros ligados a Lula ou às alianças pregressas firmadas por ele devido a acusações de corrupção. Não restam dúvidas também de que Dilma impôs um ritmo de trabalho mais efetivo que o de Lula, embora tenha revelado certa inabilidade política.

De todo modo, com jeito sisudo, posições firmes e projeção internacional (foi eleita a terceira mulher mais influente do planeta pela revista Time), Dilma Rousseff desfruta de índices de popularidade de 77% e, apesar de todas as complexidades do país e das heranças que recebeu, desponta como retrato do Brasil do século 21, até porque ela parece não desconhecer que, cinco séculos depois, esse ainda é um país em construção, mas enfim maduro o suficiente para enviar os corruptos para a prisão.

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