Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
Bibliografia comentada
ÍNDIOS, DESCOBRIDORES E PIONEIROS
Os livros de geologia em geral são escritos em “geologês”, fato que afugenta o leitor leigo da fascinante trama geológica. Uma boa fonte confiável e completa é Geologia do Brasil, de Setembrino Petri e Vicente Fúlfaro (EDUSP), embora se trate de livro eminentemente técnico. Já os estudos sobre Pré-História enfim contam com títulos que aliam rigor metodológico com ritmo narrativo e texto fluente. Os dois trabalhos mais estimulantes sobre o tema são Arqueologia do Brasil, de André Prous (UnB), e Pré-História da Terra Brasilis (ed. UFRJ, vários autores, org. de Maria Cristina Tenório). A eles juntou-se, recentemente, o estimulante O Povo de Luzia – Em busca dos primeiros americanos (Globo), em que Walter Alves Neves e Luís Beethoven Pilo contam a história do mais importante achado arqueológico do Brasil, o crânio de Luzia.
Muito já se escreveu sobre os índios brasileiros. O livro mais abrangente é História dos índios do Brasil (Companhia das Letras, org. Manuela C. da Cunha). A festa dos índios brasileiros na França e sua influência no mito do bom selvagem foram estudadas por Afonso A. de Mello Franco, no delicioso O índio brasileiro e a Revolução Francesa (José Olympio, 1937, relançado em 1999 pela Topbooks). O massacre dos índios no período colonial foi retratado por John Hemming em Red Gold (MacMillan, 1978), que tem edição em português. A comemoração, em abril de 2000, dos 500 anos do descobrimento oficial do Brasil pelos portugueses levou a uma enxurrada de publicações sobre o tema. A viagem do descobrimento, de Eduardo Bueno (Objetiva), tornou-se um best-seller, com mais de 300 mil exemplares vendidos. Lastimavelmente, os estudos mais completos foram lançados somente em Portugal. São eles: O descobrimento do Brasil, de Max Justo Guedes (ed. Correios de Portugal) e Pedro Álvares Cabral: uma viagem, de Luis Adão da Fonseca (Ed. Inapa). Já a Carta de Caminha tem várias edições e estudos. As melhores são os de Capistrano de Abreu e Jaime Cortesão. Rubem Braga fez uma bela versão da Carta (Ed. Record) ilustrada por Carybé. O pau-brasil e a questão do nome do Brasil são analisados em três livros fundamentais: O Brasil na lenda e na cartografia antiga, de Gustavo Barroso, e O pau-brasil na história nacional, de Bernardino José de Sousa (ambos da col. Brasiliana, da Cia. Ed. Nacional), mais Terra de Ibirapitanga, de A. L. Pereira Ferraz (Imprensa Nacional, 1939). Em 2002, foi lançado mais um volume dedicado ao tema, Pau-Brasil (Axis Mundo), que reúne textos dos maiores especialistas mundiais no assunto, sob coordenação de Eduardo Bueno. Um dos autores convidados foi Jean Marc Montaigne, autor do fabuloso Le trafic du Brésil (edição do autor).
As viagens e a biografia de Américo Vespúcio são tema controverso. As cartas de Vespúcio foram editadas pela Planeta, no volume Novo Mundo, com introdução e notas, e o livro A navegação de 1501 ao Brasil e Américo Vespúcio, de Moacyr S. Pereira (Editora Asa, 1984), continua sendo uma análise instigante sobre as misteriosas jornadas de Vespúcio. O jesuíta Herbert Wetzel traçou um bom perfil de Mem de Sá, terceiro governador-geral (Conselho Federal de Cultura, 1972). Duas ótimas fontes gerais sobre o período colonial são a monumental História da colonização portuguesa do Brasil (Litografia Nacional, Porto, 1921, org. de Malheiro Dias) e Formação do Brasil colonial, de Arno e Maria José Wehling (Nova Fronteira). O conjunto de ensaios sobre o Brasil, reunidos por Leslie Bethell em The Cambridge History of Latin America, forma um painel elucidativo. O império luso-brasileiro, org. de Harold Johnson e Maria B. Nizza da Silva (Estampa), e Dicionário de história da colonização portuguesa do Brasil, de Maria B. Nizza da Silva (Verbo), também são fontes importantes para o estudo dos primórdios do Brasil. Os demais volumes da coleção Terra Brasilis, Náufragos, traficantes e degredados, Capitães do Brasil e A Coroa, a cruz e a espada, todos de Eduardo Bueno (Objetiva), também oferecem uma síntese sobre os primeiros 55 anos da história dos portugueses no Brasil.
JESUÍTAS/BANDEIRANTES E INVASORES
As cartas escritas pelos primeiros jesuítas do Brasil permanecem fonte profícua para o estudo do Brasil colonial. Nelas se incluem os relatos de Anchieta e Nóbrega. As melhores edições são as organizadas pelo padre Serafim Leite, autor da notável História da Companhia de Jesus no Brasil (Portugália, 1938). Os Sermões do padre Antônio Vieira são um tesouro da língua portuguesa. O texto sobre Vieira, deste livro, baseia-se no ensaio de José Honório Rodrigues publicado em História e historiografia (Vozes). Wilson Martins (em História da inteligência brasileira, Cultrix) e Alfredo Bosi (em Dialética da colonização, Companhia das Letras) fizeram sólida análise literária sobre a obra de Vieira e Anchieta, extensamente utilizada neste trabalho. Existe vasta bibliografia sobre as Missões. As fontes mais usadas foram Conquista espiritual, de Ruiz de Montoya (Martins) e o esplêndido Os jesuítas, de Jean Lacouture (L&PM).
A Inquisição no Brasil foi bem estudada por Ronaldo Vainfas em Trópico dos pecados (Campus) e Laura de M. e Souza em O diabo e a Terra da Santa Cruz (Companhia das Letras). Sobre as outras ordens, fonte fundamental é História da Igreja no Brasil (Vozes, vários autores). A melhor biografia do marquês de Pombal é a de Kenneth Maxwell (Paz e Terra).
Embora muitos autores tenham escrito sobre os bandeirantes, a fonte primordial segue sendo História geral das bandeiras paulistas, obra em dez volumes de Afonso Taunay (Museu Paulista, 1924-1949). Alfredo Ellis Jr. foi o continuador natural da obra de Taunay, com menos brilho. Os textos de Capistrano de Abreu, Jaime Cortesão, Sérgio Buarque de Holanda e John Monteiro (Negros da Terra, Cia. das Letras) também foram utilizados. Outros dois textos fundamentais são o Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil, de F. Carvalho Franco (São Paulo, 1954), e o clássico Vida e morte do bandeirante, de Alcântara Machado (Itatiaia),
Para o estudo do “Brasil francês” existem duas fontes primárias do mais alto nível: Singularidades da França Antártica, de André Thevet (Itatiaia) e Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry (Editora do Exército, 1961, na tradução de Sérgio Milliet), apesar de essas edições suprimirem as ilustrações originais. Villegaignon e a França Antártica, de Vasco Mariz e Lucien Provençal, é o melhor livro atual sobre o tema, mas a coleção Franceses no Brasil, publicada pela Fundação Darcy Ribeiro em 2009, reúne todos os relatos originais em ótimas edições. Histoire du Brésil Français au Seizième Siècle, escrito em 1878 por Paul Gaffarel, continua inédito em português. A bibliografia sobre o “Brasil espanhol” é fraca. Do Brasil filipino ao Brasil de 1640, de José V. Serrão (Cia. Ed. Nacional), é uma boa fonte geral. O mesmo autor também escreveu o Rio de Janeiro no século XVI (Lisboa, 1965), relato preciso sobre a França Antártica. Sobre os piratas ingleses os melhores livros são os de Eduardo San Martin, publicados pela editora gaúcha Artes e Ofícios. Outra boa fonte sobre piratas e corsários é Geociências no Brasil: A contribuição britânica, de Othon H. Leonardos (Fórum, 1970).
HOLANDESES, OURO E ESCRAVOS
A bibliografia sobre a ocupação holandesa do Brasil é vasta e repleta de textos clássicos escritos pelos próprios invasores, como História dos feitos recentemente praticados (…) sob o governo do Conde de Nassau, de Gaspar Barleus (Itatiaia), Memorável viagem ao Brasil, de Joan Nieuhof (Martins, 1942), e Relatório sobre as capitanias conquistadas pelos holandeses, de Adrien van der Dussen (Instituto do Açúcar e do Álcool, 1947). Vários estudos mais recentes são da melhor qualidade. Destacam-se Os holandeses no Brasil (Difel), de Charles R. Boxer, Tempo de flamengos, de J. A. Gonsalves de Melo Neto (José Olympio, 1947), Civilização holandesa no Brasil, de José Honório Rodrigues (Companhia Editora Nacional, 1940), e Fórmulas políticas no Brasil holandês, de Mário Neme (Difel), além dos extraordinários Olinda restaurada (Topbooks) e Rubro veio: o imaginário da Restauração Pernambucana (Topbooks), ambos de Evaldo Cabral de Melo. Recentemente, o mesmo autor publicou a melhor biografia brasileira sobre Nassau, editada pela Companhia das Letras. Pedro e Bia Correia do Lago publicaram, em edição monumental, Frans Post – Obra completa (Capivara).
O ciclo da mineração no Brasil também pode ser estudado em textos clássicos. A citada História geral das bandeiras paulistas, de Taunay, é a melhor fonte, mas Viagem ao país dos paulistas, de Ernane Bruno (José Olympio, 1966), História antiga das Minas Gerais, de Diogo Vasconcelos (Itatiaia), e vários livros de Alfredo Ellis Jr. também foram consultados. Os relatos dos viajantes John Mawe, Viagem ao interior do Brasil, e W. von Eschwege, Pluto Brasiliensis (ambos da Itatiaia), são indispensáveis. Uma boa visão geral pode ser encontrada em História da mineração no Brasil, editada pela Atlas Copco em 1986. O livro do padre Antonil Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas (INL) e o clássico História econômica do Brasil, de Roberto Simonsen, foram utilizados (também nos textos sobre o açúcar e o pau-brasil). Das biografias de Aleijadinho, a mais consultada foi O Aleijadinho de Vila Rica, de Waldemar Barbosa (Itatiaia). Outra fonte primordial é Memórias do Distrito Diamantino, de Joaquim Felício dos Santos (Vozes).
Igualmente vasta é a bibliografia sobre a escravidão. Dois livros lançados em 1997 já se incluem entre os melhores escritos sobre o tema. São eles: Em costas negras, de Manolo Florentino (Companhia das Letras), e Liberdade por um fio (Companhia das Letras, org. de João J. Reis e Flávio S. Gomes). Em 2001, foi lançado O trato dos viventes, de Luis Felipe Alencastro (Companhia das Letras), já tido como antológico. Entre os textos clássicos estão Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre (José Olympio), O escravismo colonial, de Jacob Gorender (Ática), e A escravidão no Brasil, de Perdigão Malheiro (Vozes). Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia, de Pierre Verger (Corrupio), é indispensável. Foram usados também os livros dos brasilianistas Robert Conrad, Tumbeiros (Brasiliense) e Os últimos anos da escravatura no Brasil (INL/Brasiliense), e A. Russel-Wood, The black man in slavery and freedom in Brazil (Universidade de Nova York), mais Rebeliões da senzala, de Clóvis Moura (Editora Conquista), O Quilombo dos Palmares, de Edison Carneiro (Nacional), e Palmares: a guerra dos escravos, de Décio Freitas (Mercado Aberto).
OS CONJURADOS E A FAMÍLIA REAL
Existem inúmeros livros sobre a Conjuração Mineira. A fonte primordial, de leitura árdua, continua sendo Autos da devassa, publicada em dez volumes pela Câmara dos Deputados de Minas Gerais, em 1976. Mas o capítulo sobre a Conjuração deve muito ao livro mais inovador escrito sobre o assunto, A devassa da devassa, de Kenneth Maxwell (Paz e Terra), que elucida e desfaz muitos dos mitos perpetrados pela historiografia brasileira relativa ao tema. Uma bem-documentada biografia de Tiradentes foi escrita por Luis Wanderley Torres (Oren Editora, 1977). A obra completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto foi publicada em 1996, em requintada edição em papel-bíblia, pela editora Nova Aguilar, com organização de Domício Proença Filho. A tese sobre Tiradentes como herói cívico do Brasil e sua transformação em símbolo da República foi elaborada por José Murilo de Carvalho em A formação das almas – o imaginário da República no Brasil (Companhia das Letras) e serviu de base para o texto publicado nas páginas anteriores. As Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, receberam uma edição recente, organizada por Joaci P. Furtado (Companhia das Letras, 1997).
A vinda da família real para o Brasil foi detalhadamente estudada na obra-prima de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil (Topbooks), um texto apologético, em tudo distinto de outro estudo clássico, A Corte de D. João no Rio de Janeiro, que Luiz Edmundo da Costa lançou em 1940 (Imprensa Nacional), e no qual traça um perfil cruel da família real. Dom João VI, príncipe e rei, de Angelo Teixeira (Lisboa, 1953), apoia-se em documentos inéditos e apresenta uma visão mais equilibrada do monarca. Um retrato arrasador da rainha Carlota Joaquina foi escrito pelo inglês William Beckford em The travel diaries (Penguin). A abertura dos portos do Brasil foi estudada por Pinto de Aguiar em livro do mesmo título (Editora da Câmara Municipal de Salvador, 1960). Com a comemoração dos 200 anos da chegada da Família Real foram lançados o monumental D. João VI e seu tempo, catálogo da exposição de mesmo nome coordenada por Joaquim Romero Magalhães e editada pela Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, Império à deriva, de Patrick Wilken (Objetiva) e o best-seller 1808, de Laurentino Gomes (Planeta).
Wilson Coutinho publicou, em novembro de 1990, Missão Artística Francesa e pintores viajantes, catálogo da exposição patrocinada pela Fundação França-Brasil. O texto sobre o assunto, publicado aqui, baseia-se nessa fonte. Outro belo livro sobre o assunto é A missão francesa no Brasil, de Pedro Xexéu (GMT Sextante). Além das pinturas de Debret e Rugendas, reproduzidas à exaustão (em geral com má qualidade), a obra desses dois artistas foi discutida por J. F. de Almeida Prado em O artista Debret e o Brasil (Companhia Editora Nacional) e por Newton Carneiro em Rugendas no Brasil (Kosmos, 1976). Outra boa análise da importância de Rugendas e Debret, além de reproduções de primeira qualidade da obra desses artistas, foi realizada pela professora Ana Maria de Moraes Beluzzo, no capítulo “A viagem pitoresca de Debret e Rugendas”, do livro A construção da paisagem, volume III da refinada série O Brasil dos viajantes (Metalivros). Porém, a obra desses dois pintores adquiriu outra dimensão após a publicação de Rugendas e o Brasil, de Pablo Diener e Maria de Fátima Costa (Capivara) e o magnífico Debret e o Brasil – Obra Completa (Capivara).
OS VIAJANTES / A INDEPENDÊNCIA
A magistral coleção Reconquista do Brasil, lançada a partir dos anos 1970 pela editora mineira Itatiaia, republicou os relatos de praticamente todos os viajantes que estiveram no Brasil durante o século XIX, refazendo, assim, o trabalho pioneiro que a coleção Brasiliana, da Cia. Ed. Nacional, realizara entre 1931 e 1940. As edições, porém, não trazem as gravuras originais e vários textos foram mal traduzidos. As experiências de alguns viajantes também foram publicadas por outras editoras. Dentre os circunavegadores que estiveram no Brasil, o livro de Pigafetta, Primeira viagem ao redor do mundo, foi lançado pela L&PM. O diário de Darwin, Viagem de um naturalista ao redor do mundo, saiu pela Cia. Brasil Editora (1937). Os Diários do capitão Cook foram lançados pela Brasiliense (1948). A expedição do acadêmico Langsdorff ao Brasil, de G. G. Manizer (Cia. Ed. Nacional, 1947), é uma boa fonte sobre a mais trágica viagem científica realizada no Brasil. A bela Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas, de Hercule Florence, saiu pela Cultrix, e a Melhoramentos editou os três volumes de Viagem ao Brasil, de Spix e Martius. A viagem ao Brasil, do príncipe Maximiliano, foi publicada pela Cia. Ed. Nacional, 1940. A jornada de Saint-Hilaire foi lançada em oito volumes pela Itatiaia.
O livro O Brasil dos viajantes, de Ana M. de Moraes Beluzzo, publicado pela Fundação Odebrecht, que patrocinou a exposição do mesmo nome, forma o mais admirável painel das imagens deixadas por esses exploradores e pelos artistas que os acompanhavam. Sobre a Amazônia, os relatos primordiais de Gaspar de Carvajal e Cristobal de Acuña foram traduzidos e reunidos em um volume por Mello Leitão (Cia. Ed. Nacional, 1941). A viagem filosófica, de Alexandre Rodrigues Ferreira, recebeu bela edição do Conselho Federal de Cultura em 1972. Os relatos de Alfred Wallace e Henry Bates foram publicados pela Itatiaia, infelizmente sem as gravuras originais – fato comum na coleção Reconquista do Brasil.
O capítulo sobre a Independência deve muito à excelente biografia de Neill Macaulay, D. Pedro I – A luta pela liberdade no Brasil e em Portugal (Record). Outra fonte consultada foi História da independência do Brasil, de Francisco Adolfo de Varnhagen (Melhoramentos, 1957), embora este esteja longe de ser o melhor livro do grande historiador: como Joaquim Bonifácio e seus irmãos eram inimigos do pai de Varnhagen, na obra ele os trata com muito preconceito. Fonte fundamental são os dez volumes da História dos fundadores do Império do Brasil, de Octávio Tarquínio de Sousa (José Olympio, 1960), que além de ter uma excelente biografia de D. Pedro I traz também a melhor biografia de José Bonifácio, base do texto publicado neste trabalho. Fonte primária de leitura árida são as Actas das sessões das cortes geraes, publicadas em Lisboa em 1823. Em contrapartida, as Cartas de D. Pedro I à Marquesa de Santos, reunidas por Alberto Rangel e lançadas pela Nova Fronteira em 1986, são leitura estimulante e fogosa.
A REGÊNCIA E AS REVOLUÇÕES
Dois autores cujo trabalho continua sendo importante para o estudo do Primeiro Reinado, do período regencial, da época das revoluções internas e do golpe da maioridade são Octávio Tarquínio de Sousa e Tobias Monteiro. O primeiro escreveu boas biografias do padre Diogo Feijó, de Evaristo da Veiga e de Bernardo Pereira de Vasconcelos, parte de sua História dos fundadores do Império do Brasil, já citada. Tobias Monteiro, por vezes demasiadamente prolixo, é autor de História do Império: a elaboração da Independência (José Olympio, 1933) e de sua sequência, O Primeiro Reinado, livro no qual os episódios que desembocaram na abdicação de D. Pedro I e na consequente crise da Regência são minuciosamente relatados.
Outras fontes importantes para o estudo de um dos mais conturbados períodos da história do país estão reunidas no quarto volume da Cambridge History of Latin America, que inclui os textos “Brazil from Independence to the middle of the nineteenth century”, de Leslie Bethell e José Murilo de Carvalho, e “Brazil from the middle of the nineteenth century to the Paraguayan War”, de Richard Graham. Também foram consultados (como na análise de vários outros períodos da história do Brasil) os volumes 3 e 4 da História geral da civilização brasileira (Difel), organizada por Sérgio Buarque de Holanda (leia sobre este livro na parte dedicada às histórias gerais do Brasil).
Há uma vasta bibliografia sobre as revoluções provinciais que abalaram o período regencial. Os livros são muito desiguais em sua abordagem sobre essas revoltas. A melhor análise sobre a Sabinada permanece inédita em português: é The conservative revolution of independence, do historiador F. W. Morton (Oxford, 1974). Outro bom livro sobre o tema é A Sabinada: revolta separatista na Bahia, de Paulo César Souza (Brasiliense). Sobre a Cabanagem, a fonte principal foi A Cabanagem, de Dilke B. Rodrigues (Editora Brasil, 1934). Astolfo Serra é o que conta melhor a Balaiada em livro homônimo (Bedeschi, 1946). Sobre a Praieira, o melhor estudo é o de Edison Carneiro, A Revolução Praieira (Editora Conquista, 1959). Por fim, a Guerra dos Farrapos é aquela que possui a mais ampla bibliografia entre todos os conflitos regenciais. Uma fonte clássica, embora controversa e nem sempre confiável, é a História da grande revolução, de Alfredo Varela (Porto Alegre, 1925). Mémoires de un Chemise-Rouge, a “autobiografia” de Garibaldi feita por Alexandre Dumas, é um livro estimulante. Raízes socioeconômicas da Guerra dos Farrapos, de Spencer Leitman (Graal), e A paz dos farrapos (Copesul, org. Elmar Bones) também foram consultados, bem como Garibaldi e a Guerra dos Farrapos, que Lindolfo Collor dedicou à filha Leda, mãe do ex-presidente Fernando Collor de Melo (José Olympio, 1937).
A GUERRA DO PARAGUAI E O SEGUNDO REINADO
A bibliografia sobre a Guerra do Paraguai enfim ganhou um livro desvinculado das interpretações tendenciosas que o conflito despertou durante um século: trata-se de Guerra do Paraguai 130 anos depois, coletânea que reúne as palestras feitas por vários especialistas durante um seminário sobre o assunto, realizado em novembro de 1994 (ed. Relume Dumará, org. de Maria Eduarda Marques). A ele seguiu-se Maldita Guerra, de Francisco Doratioto (Cia. das Letras). Duas outras fontes utilizadas para a redação do capítulo foram O expansionismo brasileiro e a formação dos Estados na Bacia do Prata, de L. A. Moniz Bandeira (UnB), e Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército, de Ricardo Salles (Paz e Terra). A Guerra do Paraguai, de Leon Pomer (Global, 1980), uma visão de “esquerda” do conflito, e a bem-documentada História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai, obra em três volumes escrita pelo general Tasso Fragoso (Imprensa do Estado-Maior do Exército, 1934), também foram consultadas. Uma fonte primária redigida em estilo literário é o clássico A Retirada da Laguna, de Alfredo E. Taunay (Biblioteca do Exército, 1959), traduzido por Afonso Taunay.
Lilia Moritz Schwarz publicou, em 1998, a melhor biografia de D. Pedro II, As barbas do Imperador, enfim dando aos interessados, na vida e na obra do homem que governou o Brasil por cerca de meio século, uma outra opção além da obra que Pedro Calmon lançara em 1974, pela ed. José Olympio. Sobre o império, um livro fundamental é Teatro de sombras: a política do Império, de José Murilo de Carvalho (Vértice), também autor de um belo perfil do segundo imperador (Cia. das Letras, coleção Perfis Brasileiros). A instigante biografia de Irineu Evangelista de Sousa, Mauá, empresário do Império, de Jorge Caldeira (Companhia das Letras), supera todas as demais e se tornou um texto-chave sobre o assunto, além de apresentar um bom panorama geral sobre o Segundo Reinado e sobre a personalidade de D. Pedro II.
Um retrato mundano do apogeu do Império foi traçado por Vanderlei Pinho em Salões e damas do Segundo Reinado (Martins, 1938). Sobre o café, dois trabalhos indispensáveis são a monumental História do café no Brasil, obra em doze volumes de Afonso Taunay (Typographia Ideal, 1936), publicada também pela Melhoramentos em 1954 numa edição resumida, e Roteiro do café, de Sérgio Milliet (São Paulo, 1939). Sobre a obra de Pedro Américo e Vítor Meireles e o papel desempenhado pela Academia Nacional de Belas-Artes, a fonte consultada foi Artes plásticas no Brasil – mercados e leilões, de Júlio Louzada (Inter Artes, 1992). Outra obra consultada, a mais completa sobre o assunto, foi História geral da arte no Brasil (Inst. Moreira Salles, org. de Walter Zanini). A análise da obra literária de Gonçalves Dias e de José de Alencar deve muito ao capítulo “Um mito sacrificial: o indianismo de Alencar”, de Alfredo Bosi, no já citado Dialética da colonização. A História concisa da literatura brasileira (Cultrix), do mesmo autor, também foi uma fonte preciosa.
A ABOLIÇÃO E A REPÚBLICA
A abolição é um dos assuntos mais estudados da história do Brasil e existem muitos livros bons sobre o tema. A fonte clássica para a compreensão da ideologia abolicionista é o libelo de Joaquim Nabuco, O abolicionismo (Vozes), uma das mais belas e densas obras de combate já escritas em português. Outros livros de Nabuco, como Minha formação, Escravos e Um estadista do Império, também foram consultados e constituem vigorosa denúncia contra a escravidão. O texto de Leslie Bethell, A abolição do tráfico de escravos no Brasil (EDUSP) e Os últimos anos da escravatura no Brasil, de Robert Conrad (INL/Brasiliense), também são fontes confiáveis. O pequeno livro de Suely R. Reis de Queiroz, Abolição da escravidão (Brasiliense), faz um bom apanhado geral sobre o assunto. Outros textos consultados foram A escravidão reabilitada, de Jacob Gorender (Ática), e Os republicanos paulistas e a Abolição, de José Maria dos Santos (Martins, 1942). Uma inspiração decisiva veio do capítulo “A escravidão entre dois liberalismos”, do livro Dialética da colonização, de Alfredo Bosi, já citado. O catálogo da exposição Dois em Um – José do Patrocínio e Bordalo Pinheiro traz boa biografia geral de Patrocínio, além de belas imagens.
As fontes mais utilizadas na redação dos textos sobre a proclamação da República foram Os militares e a República, de Celso Castro (Zahar), e Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, de José Murilo de Carvalho (Companhia das Letras), as duas melhores análises sobre o movimento militar que derrubou a monarquia. Uma visão de “esquerda” da proclamação da República pode ser encontrada em A República: uma revisão histórica, de Nelson Werneck Sodré (UFRGS).
Existem poucas biografias de Deodoro da Fonseca e de Benjamin Constant e, em geral, a maioria dos autores recorre aos textos clássicos Benjamin Constant: esboço de uma apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República brasileira, de Raimundo Teixeira Mendes (Apostolado Positivista do Brasil, 1913), e Deodoro: a espada contra o Império, de Roberto Magalhães Júnior (Cia. Ed. Nacional, 1957), embora nenhuma das duas obras se caracterize pelo distanciamento crítico. Na verdade, como apontou o historiador Celso Castro, ambas estabeleceram uma espécie de “ditadura” bibliográfica sobre o assunto. Duas fontes fundamentais para o estudo do papel dos militares na proclamação da República foram escritas por brasilianistas: O Exército na política, de John Schultz (EDUSP), e Relações entre civis e militares no Brasil (1889-1898), de June Hahner (Pioneira). Josué Montello escreveu um bom romance histórico sobre o tão significativo Baile da Ilha Fiscal (Nova Fronteira).
A REPÚBLICA VELHA
O texto de abertura do capítulo “A República de Dez Anos” foi inspirado pela leitura de A invenção republicana, de Renato Lessa (Vértice), e pelo já citado Os militares e a República, de Celso Castro. Outra boa fonte sobre a primeira década republicana é Política do governo e crescimento da economia brasileira, de Annibal V. Villela e Wilson Suzigan (Inpes). Nos textos sobre os governos de Prudente de Morais e Campos Sales, a fonte utilizada foi Como se faziam presidentes, de Dunshee de Abranches (José Olympio, 1973). Sobre o Encilhamento e a política econômica da primeira década da República (e demais planos econômicos que assolaram o Brasil até 1989), boa fonte, embora escrita em “economês”, é A ordem do progresso (Campus, org. Marcelo de Abreu). Para o texto da guerra civil de 1893 no Rio Grande do Sul, foram usados basicamente dois livros, sintéticos mas muito bons: Guerra civil de 1893, de Sérgio da Costa Franco (Editora da UFRGS), e Maragatos e pica-paus, de Carlos Reverbel (L&PM). Sobre Canudos, a melhor fonte continua sendo, evidentemente, Os sertões, de Euclides da Cunha. Ainda assim, merecem ser vistos Antônio Conselheiro e Canudos (Cia. Ed. Nacional), no qual Ataliba Nogueira reuniu os discursos e prédicas do Conselheiro, e o pequeno Guerra de Canudos, de Antônio Carlos Olivieri, da série Guerras e Revoluções Brasileiras (Ática). A Guerra do fim do mundo, bela releitura que Mário Vargas Llosa fez do episódio de Canudos, já teve várias edições brasileiras (a mais recente delas foi publicada pela Companhia das Letras).
Existe vasta bibliografia sobre a imigração. Foram consultados basicamente Imigrantes para o café, de Thomas Holloway (Paz e Terra), e o tocante Memória e sociedade, de Ecléa Bosi (Companhia das Letras). Especificamente sobre italianos e alemães, a fonte consultada foi RS: imigração & colonização (Mercado Aberto, org. José H. Dacanal).
As informações e toda a ideia geral do texto sobre a reforma urbana do Rio de Janeiro e a construção da avenida Central saíram basicamente de Belle époque tropical, o belo livro de Jeffrey D. Needell. As informações sobre São Paulo e a inauguração da avenida Paulista foram extraídas da obra de um brasilianista: Richard M. Morse, autor de Formação histórica de São Paulo (Difel), e da enciclopédia Nosso século. O magnífico registro visual de Marc Ferrez sobre o Rio e a construção da avenida Central foi publicado pelo Museu Nacional de Belas-Artes, no suntuoso álbum A avenida Rio Branco (1982). Eduardo Bueno escreveu um livro sobre a história da avenida, publicação exclusiva da Caixa Econômica Federal. Uma boa análise da Revolta da Vacina é A revolta da vacina, de Nicolau Sevcenko (Brasiliense).
DA PRIMEIRA GUERRA À REVOLUÇÃO DE 1930
É parca a bibliografia sobre a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. A principal fonte utilizada foi a enciclopédia Nosso Século (Abril). As informações sobre a viagem da delegação brasileira a Paris vêm de O Tratado de Versalhes, de Ruth Hening (Ática). Sobre a Revolta da Chibata, a fonte utilizada foi 1910: A revolta dos marinheiros, de Mário Maestri (Global). Sobre o episódio do Contestado, foram consultados O Contestado, livro de Eduardo José Afonso, da série Guerras e Revoluções Brasileiras (Ática), e Guerra camponesa no Contestado, de Jean-Claude Bernadet (Global, 1979). O perfil do senador Pinheiro Machado deve muito ao esplêndido O regionalismo gaúcho, de Joseph Love (Perspectiva, 1975), de onde foram extraídas as informações a respeito dos governos de Venceslau Brás e Arthur Bernardes, além de vários dados sobre a Revolução de 30, inclusive a descrição da triunfal entrada de Vargas no Rio e sua posse no Catete.
Outra fonte primordial sobre os anos 1920 no Brasil é a vasta obra de Edgard Carone, da qual foram consultados os volumes A República Velha (evolução política), A República Velha (instituições e classes sociais) e O tenentismo (todos da Difel). Boa fonte de consulta acerca dos 18 do Forte é Sangue na areia de Copacabana, de Hélio Silva (Civilização Brasileira, 1971). Sobre a Coluna Prestes existem dezenas de livros. Foram consultados A Coluna Prestes: revolução no brasil, de Neil Macaully (Difel), A Coluna Prestes (marchas e combates), de Lourenço Lima (Brasiliense, 1954), e A Coluna da morte, do tenente João Cabanas (s. ed., 1926). A apologética biografia de Jorge Amado sobre Prestes chama-se O Cavaleiro da Esperança (Martins, 1968). Os melhores estudos sobre Lampião, padre Cícero e o messianismo no Brasil são os de Maria Isaura Pereira de Queiroz, de quem foram consultados História do cangaço (Global), Os cangaceiros (Duas Cidades, 1977) e O messianismo no Brasil e no mundo (Alfa-Ômega).
A bibliografia a respeito da Semana de Arte Moderna é ampla. A fonte mais utilizada foi o estimulante Orfeu Extático na Metrópole: SP – sociedade e cultura nos frementes anos 20, de Xicolau Sevcenko (Companhia das Letras). O livro A Semana de Arte Moderna, de Neide Rezende (Atica), e as minibiografias de Oswald de Andrade, escrita por Maria Augusta Fonseca, e de Tarsila do Amaral, por Nádia B. Gotlib (ambas da Brasiliense), também foram consultados. Os textos sobre Machado de Assis, Olavo Bilac, Coelho Neto, Lima Barreto e João do Rio se baseiam na análise precisa de Jeffrey Needell feita no já citado Belle époque tropical. Sobre Machado de Assis foi utilizado o artigo de Ivo Barbieri, “Machado e a História”, publicado pela Revista Machadiana Espelho (UFRGS). Sobre Mário e Oswald de Andrade foram usados fascículos de Grandes personagens da nossa história (Abril).
DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOLPE DE 1964
O texto clássico do período que vai da Revolução de 30 ao golpe de 1964 se tornou Brasil: de Getúlio a Castelo, do brasilianista Thomas Skidmore (Paz e Terra), utilizado nos capítulos sobre o governo Getúlio Vargas e o golpe militar. No entanto, a fonte mais consultada foi o excelente Dicionário histórico-biográfico brasileiro: 1930-1983, feito pela equipe da Fundação Getúlio Vargas (Forense-Finep). É muito vasta a bibliografia sobre a Revolução de 30. Um dos livros mais completos sobre o assunto é Simpósio sobre a Revolução de 30 (Erus). Mas o belo álbum de fotografias A Revolução de 30 e seus antecedentes (Nova Fronteira) também é uma fonte preciosa. A melhor bibliografia sobre o tema foi reunida por Lúcia Oliveira em Elite intelectual e debate político nos anos 30 (analisando 143 livros editados entre 1929 e 1936 sobre o tema). O texto de abertura do capítulo baseou-se no já citado O regionalismo gaúcho, de Joseph Love.
Sobre a Revolução Paulista de 1932, foi consultado A guerra civil brasileira, de Stanley Hilton (Nova Fronteira), talvez o melhor livro sobre o assunto., junto com o de Ernane Donato (editora Abril). Dois outros textos clássicos sobre o período pós-Revolução de 30 são O Regime Vargas (1934-38): os anos críticos (Nova Fronteira), de Robert Levine, e Brasil: anos de crise, 1930-1945, de Edgard Carone (Ática). Sobre a Intentona Comunista, a fonte principal foi Camaradas, de William Waack (Companhia das Letras), que modificou toda a bibliografia sobre esse evento. A bibliografia sobre o Estado Novo é ampla. Além dos livros de Stanley Hilton, Edgard Carone e Hélio Silva, foi consultada também a biografia de Vargas, escrita por John Foster Dulles (Renes, 1974). Sobre a Segunda Guerra Mundial, as fontes utilizadas foram a enciclopédia Nosso Século (Abril) além de A FEB pelo seu comandante, de J. B. Mascarenhas de Morais (Biblioteca do Exército, 1969). Recentemente, Roberto Sander lançou O Brasil na mira de Hitler (Objetiva), belo estudo sobre o afundamento dos navios brasileiros pelos nazistas.
Sobre Juscelino Kubitschek são indispensáveis os livros escritos por ele próprio, Meu caminho para Brasília – cinquenta anos em cinco e Por que construí Brasília (ambos da Bloch Editores). Foram pesquisados ainda JK: uma revisão da política brasileira, de F. A. Barbosa (José Olympio), e O governo JK, de Maria Benevides (Paz e Terra). A melhor biografia do presidente bossa-nova é a de Cláudio Bojunga (Objetiva). Maria Benevides também escreveu O governo Jânio Quadros (Brasiliense), boa síntese sobre a atuação desse presidente. Utilizou-se também A renúncia de Jânio Quadros e a crise pré-64, de L. M. Bandeira (Brasiliense). Sobre o governo Goulart a maior fonte foi O colapso do populismo no Brasil, de Octávio Ianni (Civilização Brasileira). A respeito do golpe de 1964, a fonte primordial foi o verbete “Revolução de 1964”, do citado Dicionário histórico-biográfico brasileiro, mais 1964: o papel dos EUA no golpe de Estado de 31 de março, de Phyllis Parker (Civilização Brasileira, 1977), 1964 visto e comentado pela Casa Branca, de Marcos Sá Corrêa (L&PM), Memórias de um revolucionário, de Olympio Mourão (L&PM), e Os motivos da revolução, de A. C. Murici (Imprensa Oficial, PE). O jornalista Elio Gaspari lançou quatro esplendorosos volumes sobre o regime militar: A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada., todos pela Companhia das Letras.
DOS ANOS DE CHUMBO AOS ANOS DE LAMA E DE FHC A LULA
Apesar da censura, muito se escreveu sobre os “anos de chumbo” enquanto eles ainda estavam ocorrendo. Uma das melhores análises sobre o período está em As Forças Armadas: política e ideologia no Brasil (1964-1969), de Eliézer de Oliveira (Vozes, 1976). Completo apanhado geral dessa época pode ser encontrado na trilogia Visões do golpe, Anos de chumbo e A volta aos quartéis (Relume-Dumará, org. Celso Castro). Outras referências são os livros de memórias O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira (Companhia das Letras), Os carbonários, de Alfredo Sirkis (Global), e Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Marighella, de Frei Betto (Civilização Brasileira). Também foram consultados O dossiê Herzog, de Fernando Jordão (Global), Tortura: a história da repressão política no Brasil, de Antônio Carlos Fon (Global) e O outro lado do poder, de Hugo Abreu (Nova Fronteira).
Fonte fundamental para a redação do capítulo 35, “O Brasil Tropicalista”, foi o livro Cultura e participação nos anos 60, de Heloísa Buarque de Holanda e Marcos A. Gonçalves (Brasiliense). Sobre a bossa nova, foram consultados Balanço da bossa, de Augusto de Campos (Perspectiva), e Chega de saudade, de Ruy Castro (Companhia das Letras). Sobre cinema: A revolução do Cinema Novo, de Glauber Rocha (Alhambra, 1981). Sobre TV, a fonte foi Anos 70/Televisão, de Elisabeth Carvalho, Santuza Ribeiro e Maria Rita Kehl (Europa). Outra fonte foi A divina comédia dos Mutantes, de Carlos Calado (Editora 34).
A partir do capítulo “Das diretas a Sarney” jornais e revistas tornaram-se indispensáveis, além dos livros Tancredo, de Augusto Nunes (série Grandes Líderes, Abril), Assim morreu Tancredo, de Antônio Britto (L&PM), Autoritarismo e democratização, de Fernando Henrique Cardoso (Paz e Terra), e Uma história da República, de Lincoln de Abreu Penna (Nova Fronteira), que vai até o fim do governo Sarney e também foi consultado. O álbum Folha de S. Paulo: Primeira Página: 1921-1995 (Folha da Manhã S/A) traça um bom panorama dos últimos 70 anos no Brasil e foi utilizado na redação de trechos sobre as diretas, a morte de Tancredo, a posse de Sarney e a Era Collor. Os verbetes sobre Tancredo, Sarney, Ulysses Guimarães e Itamar Franco do citado Dicionário histórico-biográfico brasileiro foram úteis. Sobre Sarney foi publicado também o cáustico Honoráveis bandidos – um retrato do Brasil na Era Sarney, de Palmério Dória (Geração Editorial).
No ano de 1999, foram lançados dois livros sobre FHC: Fernando Henrique Cardoso: o Brasil do possível, de Brigitte H. Leoni (Editora Nova Fronteira), e o ensaio/entrevista O presidente segundo o sociólogo, de Roberto Pompeu de Toledo (Companhia das Letras). Sobre Lula, a fonte primordial foi Lula do Brasil, de Richard Bourne (Geração Editorial).
AS HISTÓRIAS GERAIS DO BRASIL
A melhor história geral do Brasil foi organizada por Sérgio Buarque de Holanda e publicada pela Difel em 1960 em três tomos (divididos em dez volumes), sob o título de História geral da civilização brasileira. Mais de cinquenta autores colaboraram com esse projeto que constitui um amplo painel da formação do Brasil e foi idealizado sob inspiração da série francesa História geral das civilizações, dirigida por Maurice Crouzet. Entre as obras atuais, disponíveis no mercado, a melhor, e a mais legível, história geral do Brasil escrita por um só autor num único volume é a História do Brasil de Boris Fausto (EDUSP, 1994). O livro de Fausto é um dos frutos mais recentes de uma tradição que remonta a 1627, quando frei Vicente do Salvador (1564-1639) escreveu a primeira História do Brasil, só publicada na íntegra em 1888. Trata-se de livro saborosíssimo, de estilo simples, pragmático e ingênuo, que pode ser lido como uma coleção de contos históricos.
O sucessor de frei Vicente foi o senhor de engenho Sebastião da Rocha Pita (1660-1739), autor de História da América portuguesa, publicada em 1730, com texto refinado, mas repleta de incorreções e preconceitos. A seguir, surge a primeira história do Brasil de maior fôlego e que, ao mesmo tempo, uniu rigor factual com requinte literário: a belíssima História do Brasil escrita pelo historiador e poeta inglês Robert Southey (1774-1843). Livro repleto de alvura, luminoso e iluminista, foi publicado de 1810 a 1819. Em 1854, surgiu a monumental História geral do Brasil, de Varnhagen, a mais profunda investigação documental do período colonial do país.
Em 1860, o alemão Heinrich Handelmann (1825-1891) lançou uma boa História do Brasil, que, depois de quase meio século de injusto esquecimento, foi relançada em 1982, pela Itatiaia (a última edição anterior fora publicada em 1931). A primeira grande história do país publicada no século XX foi obra de José Francisco da Rocha Pombo (1857-1933), que em 1906 lançou o primeiro dos dez volumes de sua abrangente, além de esmerada e graciosa História do Brasil. Rocha Pombo morreu na penúria – e o mesmo destino foi reservado à sua obra (editada apenas em edição escolar, em um só volume). Há uma certa continuidade de propósito e de estilo entre Rocha Pombo e Pedro Calmon (1902-1985), que, embora publicando desde 1923, só lançou sua vetusta História do Brasil em sete volumes em 1959. Trata-se de uma obra fundamentada em pesquisa e extremamente útil para o estudo do Brasil colonial. Hélio Vianna (1908-1972), anotador da obra de Rocha Pombo, lançou em 1961 a sua História do Brasil, mas trata-se de um trabalho por demais genérico e eventualmente enfadonho. Em 1988, Maria Yedda Linhares lançou uma boa História geral do Brasil, pela Editora Campus.
A melhor história geral do Brasil lançada em fascículos é Saga – A grande história do Brasil, obra repleta de ilustrações, com texto sucinto e preciso, publicada pela Editora Abril em 1981, sob a supervisão de Elizabeth di Cropani. Sob a mesma supervisão, uma equipe similar produzira a fascinante enciclopédia Nosso Século, que se constitui na melhor, mais completa e mais bonita história do Brasil no século XX.
Ainda em fascículos foi publicada uma História do Brasil, lançada por Bloch Editores em 1972. Coordenada por Herculano Mathias, a obra faz um bom apanhado geral da história do Brasil e, embora a abordagem seja bastante acadêmica e eventualmente conservadora, é muito rica como fonte iconográfica. Embora esteja longe de ser uma história geral, o Dicionário histórico-biográfico brasileiro 1930-1983 (Forense), coordenado por Israel Beloch e Alzira A. de Abreu e preparado por um grupo de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, é uma fonte indispensável de pesquisa, ainda mais que está sendo ampliado, revisto e lançado em CD-ROM. Também em CD-ROM foi lançada Viagem pela história do Brasil, projeto concebido por Jorge Caldeira, propondo uma abordagem estimulante e não acadêmica de várias questões nacionais.