Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

9. O brasil holandês

Capítulo 9

 

O BRASIL HOLANDÊS

Numa certa noite de março de 1644, o conde Johann Mauritius van Nassau (ou João Maurício de Nassau) – governador e mecenas do Brasil holandês – conclamou o povo do Recife a assistir a uma grande festa durante a qual, garantiu ele, um boi iria voar. Houve quem logo duvidasse, é claro. Até os mais céticos, porém, devem ter pensado duas vezes antes de rir na cara do conde. Afinal, não estavam eles na cidade mais cosmopolita e avançada da América? Um jardim não floria onde antes fora charco? O porto não fervilhava repleto de navios e de mercadorias de todo o mundo? Não produziam a pleno os engenhos? Oficiais ingleses e investidores judeus, aventureiros suecos, mascates escoceses, negociantes alemães e franceses às centenas não percorriam ruas impecavelmente pavimentadas? Além disso, naquela mesma tarde não fora inaugurada a maior ponte da América, um prodígio arquitetônico de 318 metros de comprimento? Desde que assumira como “governador, capitão e almirante-general das terras conquistadas ou por conquistar pela companhia das Índias Ocidentais no Brasil”, Nassau tinha tirado a colônia do chão. No dia da inauguração da ponte e da festa do boi voador, porém, ao “príncipe” só restavam dois meses de Brasil. Mesmo que um boi voasse, a obra de Nassau logo iria por água abaixo.

Por 24 anos, os holandeses foram senhores de sete das dezenove capitanias em que se dividia o Brasil do século XVII. Velhos parceiros comerciais de Portugal, atacaram a maior das colônias lusas, entre outras razões, porque travavam com a Espanha a guerra por sua independência. Invadir o Brasil era unir o útil do lucro açucareiro ao agradável da vingança contra um inimigo ancestral. A tomada da zona produtora de açúcar do Brasil foi plano minuciosamente articulado pela Companhia das Índias Ocidentais – empresa de capital privado que obteve do governo holandês o monopólio do comércio com a América e a África. A invasão de Salvador, em 1624, durou apenas um ano e deu prejuízo à companhia. Mas, em março de 1630, os holandeses tomaram o Recife – e lá ficaram até a sua expulsão, em 1654.

Ao longo desse quarto de século de ocupação batava, os sete anos conhecidos como o “tempo de Nassau” (1637 a 1644) marcaram o apogeu do domínio holandês no Brasil, originando a tradição segundo a qual o destino desse país seria mais nobre caso o projeto colonial da Companhia das Índias Ocidentais tivesse sido mantido. Mas o fato é que, como o próprio Nassau previra, menos de um ano depois de sua partida – antes da qual o conde fez voar “um couro de boi cheio de palha preso por fios que a noite escondia” –, azedou-se de vez o doce Brasil holandês.

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A INVASÃO DA BAHIA

No instante em que as primeiras velas holandesas apontaram em frente de Salvador, na manhã de 8 de maio de 1624, o que estava a ponto de se consumar era uma invasão anunciada. Meses antes, espiões a serviço da Espanha sabiam que os holandeses estavam armando uma esquadra para atacar a Bahia. Ainda assim, o governador-geral Diogo de Mendonça Furtado não pôde convencer o rei a fortificar a cidade. O bispo D. Marcos Teixeira persuadira o rei a investir na construção da Sé, e não na de um forte. Salvador, “tesouro rico porém mal seguro”, continuou “uma cidade aberta, defendida por oitenta soldados pagos”. Não foi, portanto, nada difícil para a esquadra de 26 navios, 3.300 homens e 450 bocas de fogo, chefiada por Jacob Willekens, tomar Salvador.

Na verdade, bastaram 24 horas: o bombardeio iniciou na manhã de 9 de maio. Na noite do mesmo dia, o povo abandonava a cidade às pressas. Na manhã do dia 10, ao entrarem na praça deserta, os holandeses depararam-se apenas com o governador, “disposto a morrer de espada em punho”. Mendonça Furtado foi preso e enviado para a Holanda, junto com o butim da vitória: 3.900 caixas de açúcar e muito pau-brasil. E mais: a pilhagem foi tal que um oficial holandês afirmou que os soldados “mediam prata e ouro nos chapéus cheios e apostavam 400 florins num lance de dados”. A orgia da soldadesca durou dois dias; o domínio holandês, apenas um ano.

Ao invadir a Bahia, os holandeses estavam concretizando o plano minuciosamente estabelecido por um documento chamado Motivos por que a Companhia das Índias Ocidentais deve tentar tirar ao rei da Espanha a terra do Brasil e a lista do que o Brasil pode produzir. Estavam também atacando velhos parceiros comerciais.

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A INVASÃO DA BAHIA: a imagem abaixo mostra a poderosa frota holandesa que tomou Salvador, em maio de 1624. Os invasores conquistaram a capital em 24 horas e só foram expulsos um ano mais tarde.

Antes da União Ibérica, Portugal e Holanda mantinham intenso comércio. Em Lisboa, os batavos adquiriam vinho, drogas do Oriente e principalmente o sal de Setúbal, fundamental para sua florescente indústria pesqueira. Em troca, deixavam trigo, peixe, queijo, aparelhos náuticos, metais e tecidos. Com o início da lavoura de açúcar no Brasil, esses laços comerciais se estreitaram ainda mais: praticamente todo o açúcar produzido no Brasil era refinado na Holanda e dali distribuído para o resto da Europa. O primeiro engenho do Brasil fora de um banqueiro holandês – e a maioria dos que vieram a seguir, financiada por eles. Por volta de 1621, só em Amsterdã havia 25 refinarias de açúcar.

Mas desde 1568 a Holanda estava em guerra com a Espanha – e obteve a independência nas sete colônias do Norte em 1579, um ano antes de Portugal ser absorvido pelos espanhóis (a independência total só viria em 1648). Ao capturar muitos navios holandeses em Lisboa, Filipe II acabou com as trocas entre lusos e batavos. Em 1609, espanhóis e holandeses firmaram uma trégua de doze anos. Graças a essa circunstância, apenas nesse período, 50 mil caixas de açúcar saíram do Brasil para a Holanda – cada caixa continha 525 quilos. Finda a trégua em 1621, os holandeses se recusaram a abrir mão daquela extraordinária fonte de renda. O ataque ao Brasil foi, então, proposto pela recém-fundada Companhia das Índias Ocidentais. Mas o tiro saiu pela culatra.

Embora Salvador fosse tomada em 24 horas, os holandeses não puderam conquistar o interior da Bahia. A resistência de lusos e brasileiros – liderada por Matias de Albuquerque – foi feroz na zona rural e se baseou nas táticas da guerra brasílica, ou guerra de guerrilhas. Em 22 de março de 1625, os espanhóis enviaram a Salvador a maior frota que já cruzara o Equador (52 navios com doze mil homens). Encurralados, os holandeses capitularam no dia 1º de maio. Mas eles logo retornariam.

COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS

A invasão do Brasil foi um plano articulado pela Companhia das Índias Ocidentais (WIC, West Indische Compagnie), fundada em junho de 1621 nos moldes de sua congênere, a Companhia das Índias Orientais (criada em 1602). Com capital inicial de sete milhões de florins, a WIC era uma sociedade de capital aberto que obteve o monopólio, por 24 anos, da exploração da América e da África. A maior parte dos acionistas eram pequenos investidores – calvinistas convictos fugidos do sul dos Países Baixos para Amsterdã. O conselho administrativo da WIC era composto por dezenove diretores: dezoito escolhidos por conselhos regionais e um pelo governo central. Ao contrário de sua antecessora, a WIC deu poucos lucros: só em 1628, com a captura da frota anual da prata da Espanha pelo corsário Pieter Heyn, a Companhia pôde pagar dividendos aos acionistas. Foi esse o capital que permitiu a invasão de Pernambuco, depois que os holandeses foram expulsos da Bahia. Embora tenha conquistado em Angola os portos de onde vinham os escravos e levado as técnicas de plantio de cana-de-açúcar para as Antilhas, a WIC foi deficitária. Tanto que, em 1674, decidiu vender para os ingleses uma ilha chamada Manhattan.

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O TEMPO DE NASSAU

A invasão da Bahia só trouxe prejuízos para a nascente Companhia das Índias Ocidentais. Em 1628, porém, a companhia capturou, ao largo de Cuba, a frota anual da prata espanhola e obteve um butim de 14 milhões de florins (o dobro de seu capital inicial). Enriquecida, a WIC planejou nova invasão ao Brasil. O alvo escolhido desta vez foi a maior e mais rica região produtora de açúcar do mundo. Além de possuir 130 engenhos (responsáveis por mil toneladas de açúcar/ano), Pernambuco era uma capitania particular, e não real, sendo, portanto, mal aparelhada na sua defesa. No dia 15 de fevereiro de 1630, uma armada com 77 navios, sete mil homens e 170 peças de artilharia surgiu diante de Marim – também chamada de Olinda. Embora a resistência do governador Matias de Albuquerque (neto do velho donatário Duarte Coelho) fosse, mais uma vez, heroica – e, antes de partir, ele ainda conseguisse incendiar 24 navios fundeados no porto –, o Recife foi rapidamente tomado. Dessa vez, a ocupação iria durar mais de vinte anos.

O domínio holandês em Pernambuco (de onde se estendeu para sete das então dezenove capitanias que constituíam o Brasil) divide-se em três fases. A primeira, de 1630 a 1637, seria marcada pela valorosa resistência dos luso-brasileiros no interior. De 1637 a 1644, o Brasil holandês floresce em relativa paz: é o chamado “período nassoviano”. De 1645 a 1654, trava-se a guerra que resultaria na expulsão dos invasores. Três séculos e meio depois, a experiência holandesa no Brasil continua associada ao tempo de Nassau.

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O PRÍNCIPE E SUA CIDADE: embora fosse conde, e não príncipe, Nassau de fato tinha sangue real nas veias, sendo bisneto do rei da Dinamarca e sobrinho-neto do fundador dos Países Baixos, Guilherme de Orange. O conde era homem de vasta cultura clássica e teria sido o urbanista que planejou a bela Cidade Maurícia que mandou construir ao lado do Recife.

Johann Mauritius van Nassau-Siegen nasceu em 17 de agosto de 1604, em Dillenburg, na Alemanha. Era neto do conde João VI, por sua vez irmão do príncipe Guilherme de Orange, fundador dos Países Baixos. Pelo lado da mãe, seu bisavô foi Cristiano III, rei da Dinamarca. Embora ingressasse aos 14 anos na carreira militar, Nassau teve formação humanista: na Universidade da Basileia, estudou teologia, filosofia, matemática, música, ciências de guerra, boas maneiras, esgrima e equitação. Tornou-se coronel aos 25 anos, lutou contra a Espanha, encomendou quadros de Rembrandt e iniciou a construção de uma mansão em Haia. Em agosto de 1636, foi convidado pela WIC para ser governador-geral do Brasil holandês. Como o salário de 1.500 florins mensais (mais um adiantamento de 15 mil florins e 2% sobre o total das presas de guerra) fosse atraente – e os gastos com sua nova casa, grandes –, Nassau aceitou. Em 23 de janeiro de 1637, chegou ao Recife, com três mil soldados, oitocentos marinheiros e seiscentos indígenas e negros.

PALÁCIO DAS TORRES

Foi nas terras baixas localizadas na confluência dos rios Capibaribe e Beberibe (zona alagadiça que lembrava a Holanda) que Nassau ergueu a Cidade Maurícia, símbolo de sua administração. Ali, na ilha de Antônio Vaz (hoje bairro de Santo Antônio), construiu, à própria custa, o Vrijburg, sua residência oficial, também chamada Palácio Friburgo ou das Torres (imagem abaixo). “No meio daquele areal infrutuoso, plantou um jardim e todas as castas de árvores de fruta que dão no Brasil”, escreveu frei Manuel Calado, padre português que conheceu o lugar. Entre milhares de flores e frutos, Nassau plantou também dois mil coqueiros. Fez um zoológico com todos os tipos de animais encontráveis no país. O conde adorava “que todos fossem ver suas curiosidades”. O conde construiu também o Palácio Boa Vista, onde despachava os assuntos oficiais. Nassau não agiu apenas em benefício próprio. Deu ao povo pão e circo: contrário à monocultura, obrigou senhores de engenho a plantar mandioca, “o pão do Brasil”. Por decreto, proibiu a derrubada dos cajueiros, já quase em extinção. Ladeou as ruas com mamoeiros, jenipapeiros e mangueiras. Proibiu, por edital, “o lançamento do bagaço de cana nos rios e açudes”, evitando mortandade de peixes que alimentavam os pobres. Promoveu cavalhadas, peças de teatro e a famosa farsa do boi voador. Convocou a primeira assembleia legislativa democrática do continente. Permitiu a construção de sinagogas, aproximou calvinistas e católicos (só não fez concessões aos jesuítas). O povo o comparava a Santo Antônio, “a quem ninguém recorria sem se ver atendido”.

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Image BELEZA RARA: frontispício da obra Historia Naturalis Brasiliae, feita por Piso e Marcgraf em 1648.

Tolerante, competente, dedicado e ágil, Nassau fez um governo brilhante. Primeiro, tomou Porto Calvo, último foco da resistência aos invasores. Depois, atraiu os plantadores luso-brasileiros, concedendo-lhes empréstimos para reerguerem seus engenhos – e os defendeu da agiotagem dos negociantes holandeses e judeus, limitando os juros a 18% ao ano. Deu liberdade de culto, tratou bem os nativos, aumentou a produção de açúcar, urbanizou o Recife, protegeu os artistas, apaziguou a colônia. Foi um príncipe.

UM TESOURO HUMANISTA

As evidências de que o conde João Maurício de Nassau foi uma espécie de príncipe renascentista que se materializou nos trópicos estão preservadas no amplo legado artístico e cultural produzido ao longo de sua permanência de sete anos no Brasil. Ao desembarcar no Recife, Nassau trouxe em sua comitiva 46 artistas, cientistas, artífices e sábios. Deslumbrado com o viço e o vigor da natureza tropical, encarregou seus protegidos de catalogar, pintar, estudar e preservar plantas e animais do Novo Mundo. Transformou o abacaxi e o caju em símbolos deste “belo país do Brasil, que não tem igual sob o céu”. Tanto quanto a obra artística feita sob seu mecenato, destaca-se também o trabalho científico realizado em menos de uma década. Entre os letrados ilustres da corte tropical de Nassau incluíam-se Johann Benning, professor de ética e física da Universidade de Leiden; Elias Heckman, botânico; Constantim l’Empereur, especialista no Talmud; e o médico Servaes Carpentier. Nassau queria fundar no Recife uma universidade aberta. Partiu antes de concretizar seu sonho.

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DELÍRIO TROPICAL: as frutas brasileiras foram retratadas com frescor nos quadros de Eckhout. Tanto ele como o próprio Nassau achavam que o abacaxi e o caju poderiam se transformar em símbolos da fertilidade e do exotismo dos trópicos.

Ainda assim, a obra de dois cientistas trazidos por Nassau se impõe, ainda hoje, como uma das mais notáveis nos anais da erudição brasileira. Em 1648, Georg Marcgraf e Willem Piso publicaram, em Leiden, na Alemanha, sua soberba Historia Naturalis Brasiliae. Piso, médico particular de Nassau, realizou estudos sobre doenças tropicais e ervas medicinais brasileiras. Marcgraf, nascido em Liebstad, na Alemanha, em 1610 e morto em Angola em 1644, estudou o clima e classificou centenas de espécies da fauna e da flora brasileiras. Naturalista, astrônomo, matemático, agrimensor e cartógrafo, Marcgraf foi surpreendido pela morte aos 34 anos de idade, deixando inúmeros trabalhos inacabados. Analistas modernos acreditam que, se tivesse vivido mais tempo, teria sido um dos maiores naturalistas de todos os tempos – talvez o maior desde Aristóteles. Na casa em que morou no Recife, de 1637 a 1642, Marcgraf dispunha de um observatório astronômico que o próprio Nassau mandou vir da Holanda. Ao ver a obra de Marcgraf, o padre Antônio Vieira observou que ela certamente despertaria cobiça internacional sobre “as terras que tão pouco sabemos estimar”.

OS PINTORES DE NASSAU

Não foi exatamente como se Rembrandt ou Rubens tivessem desembarcado nos trópicos. Mas foi quase. A chegada dos pintores Frans Post e Albert Eckhout a Pernambuco, em 1637, assinala, de certo modo, uma das datas mais fulgurantes da história da arte no Brasil. Trazidos para o Recife por Maurício de Nassau – pessoalmente responsável pelo pagamento de seus salários –, Eckhout e Post legaram à posteridade um extraordinário tesouro cultural: a mescla entre arte e ciência que eles concretizaram plenamente em seus quadros e gravuras constitui o primeiro grande registro iconográfico da paisagem, das plantas, dos animais e dos indígenas do Brasil. Quase quatro séculos depois, seus trabalhos preservam o mesmo frescor e a mesma qualidade.

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UM PINTOR DE ENGENHO: Frans Post (página ao lado) capturou a suavidade das terras baixas de Pernambuco, tão similares às da Holanda, mas as fez brilhar sob o sol do trópico. Ele também retratou os engenhos de açúcar (abaixo) do doce Brasil holandês.

Post e Eckhout eram os mais brilhantes, mas não os únicos pintores integrantes da comitiva que Nassau fez desembarcar no Recife. Outros seis artistas os acompanhavam. Todos tinham casa e comida, salário fixo e muito trabalho pela frente: seriam os primeiros europeus a registrar, in loco, a exuberante natureza do Novo Mundo em possessões que, até então, haviam estado sob domínio português.

Albert Eckhout (nascido em Groningen, na Holanda, em 1612) viveu no Brasil durante sete anos, de 1637 a 1644 – dos 25 aos 33 anos de idade, portanto. Sentava-se à mesa do jovem conde (que havia desembarcado no Recife com 33 anos incompletos), geralmente em companhia de Frans Post, que também chegara aos trópicos no fulgor de seus 25 anos. Eckhout foi um pintor naturalista com excepcional domínio do desenho de modelos vivos, dono de um estilo altamente individual e detalhista, disposto a documentar tipos humanos, plantas e animais que os europeus jamais haviam retratado.

Eckhout era fascinado pelo exótico. Seus retratos em tamanho natural de indígenas, mestiços e negros lhes concedem, além de rigor antropológico e etnográfico, uma grande dose de altivez e dignidade: Eckhout pintou indivíduos, não meros exotismos tropicais. Sua obra foi magnificamente complementada pela de seu colega Frans Jansz Post, cultor das paisagens brasileiras que se deixou fascinar pela luminosidade e pelo viço do Novo Mundo – elementos que tão bem soube capturar em suas telas. Ao retornar para a Europa, Nassau doou os quadros de Post ao rei Luís XIV, da França, e os de Eckhout para Frederico III, da Dinamarca.

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HOMENS E BESTAS: a obra de Albert Eckhout (assinatura acima) retratou tipos brasileiros com rigor antropológico, bem como deixou registrada ampla variedade de animais e plantas do Novo Mundo.

FRANS POST

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Primeiro europeu a retratar a esplendorosa natureza tropical, Frans Post (1608-1669) foi um paisagista brilhante, cuja obra, requintada e minuciosa, Nassau doou ao rei Luís XIV, da França, em 1678. Apenas dezoito quadros de Post foram pintados in loco, a partir da observação direta da paisagem brasileira. Desses, onze estão desaparecidos. Mas a obra de Post, que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644, soma duas centenas de quadros: são paisagens “imaginárias” feitas na Holanda a partir do que ele vislumbrara no Brasil.

Outro artista cuja obra celebra o chamado “período nassoviano” é Zacharias Wagener. Mero soldado raso a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, seu nome não constava da lista original de artistas trazidos para o Brasil. Mas, desde sua chegada ao Recife, em 1634, esse alemão de Dresden demonstrou muita habilidade e um interesse permanente pela natureza tropical. Promovido a “dispenseiro-escrevente” e a escrivão particular de Nassau, Wagener, simples “pintor de domingo”, acabou produzindo centenas de aquarelas e litogravuras dos animais brasileiros. Ao retornar para a Europa, em 1643, levava consigo os originais do Thierbuch, ou Livro dos Animais, uma espécie de versão popular da Historia Naturalis Brasiliae, de Marcgraf. Mais do que isso: a obra de Wagener teve grande influência sobre Albert Eckhout. E, junto com Frans Post, Eckhout foi, definitivamente, um gênio da arte vivendo no Brasil.

A EXPULSÃO DOS HOLANDESES

Em 6 de maio de 1644, depois de vários meses em choque com os dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais, João Maurício de Nassau renunciou ao governo do Brasil holandês. Sua decisão causou comoção no Recife e nas demais zonas sob o domínio batavo (na época, cerca de mil quilômetros de costa, desde São Luís do Maranhão até Sergipe). Numa última tentativa conciliatória, alguns dos mais proeminentes luso-brasileiros do Recife – entre os quais João Fernandes Vieira, o mais rico de todos e, mais tarde, um dos grandes líderes da chamada “Insurreição de 1645” – enviaram uma carta profética à Companhia das Índias Ocidentais na qual disseram: “Se ele [Nassau] se ausenta deste Estado, muito em breve se há de tornar a aniquilar tudo o que com sua presença floresceu e se alcançou”. Pois foi justamente o que aconteceu. Antes do fim de maio, pranteado por indígenas, negros e europeus de várias nações, Nassau partiu. Em menos de um ano, a guerra rebentou.

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SANGUE NAS CAMPINAS: o óleo de Victor Meireles retrata a decisiva batalha de Guararapes. Na página ao lado, um estudo do pintor para a realização dessa obra clássica.

Desde junho de 1641, Portugal e Holanda desfrutavam uma aliança, resultante do armistício assinado entre as duas nações logo depois de os portugueses terem recuperado sua independência, separando-se da Espanha (em dezembro de 1640). Ainda assim, sem a presença conciliatória de Nassau, os grandes senhores de engenho luso-brasileiros decidiram rebelar-se contra o “invasor” holandês: a maioria deles estava atolado em dívidas com a Companhia das Índias Ocidentais. Libertar o Brasil implicava libertar-se também das dívidas. As últimas safras haviam sido ruins (houve inundações, secas, incêndios e epidemias entre 1641 e 1644), o preço internacional do açúcar desabara, a tolerância religiosa dos tempos de Nassau havia acabado.

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Esse conjunto de causas levou à eclosão do primeiro combate: no dia 3 de agosto de 1645 foi travada a batalha de Tabocas, início da insurreição. Embora no exército luso-brasileiro muitos lutassem armados apenas de foices e paus, os holandeses foram batidos. Em breve, estariam completamente encurralados no Recife. Ainda assim, a guerra entrou num grande impasse: os luso-brasileiros dominavam o interior, mas Recife permanecia inexpugnável. A situação se manteve assim por três anos, até que, no dia 19 de abril de 1648, os dois exércitos rivais se defrontaram nos montes Guararapes, nos arredores do Recife.

E então, mais de 4.500 holandeses, distribuídos em sete regimentos, comandados pelo tenente-general alemão Siegmundt von Schokoppe, foram vencidos por cerca de 2.500 luso-brasileiros, chefiados por Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias. O combate, conhecido como primeira batalha dos Guararapes, aumentou muito o moral dos insurretos. Quase um ano depois, e no mesmo lugar, ambos os exércitos voltaram a se enfrentar. Chefiados por Johann van den Brincken, os holandeses perderam mil homens. Entre os brasileiros, morreram 47 brancos e sessenta indígenas e negros, entre os quais Henrique Dias.

O alemão Johann Nieuhoff, que trabalhava para a WIC e se tornou o principal cronista da guerra, anotou: “O dia 19 de fevereiro de 1649 foi o pior de quantos no Brasil experimentamos em muitos anos, pois, apesar da bravura com que o nosso exército atacou…, o adversário, animado pelo último sucesso e confiante na sua superioridade numérica, conseguiu… [fazer] o exército holandês bater em retirada.” Os comandantes holandeses foram todos mortos. A segunda batalha dos Guararapes (página ao lado) foi um confronto decisivo. Mesmo assim, a capitulação dos holandeses ainda iria levar cinco anos.

Sitiados no Recife, os invasores resistiram com bravura até 26 de janeiro de 1654. Mas, então, em guerra com a Inglaterra, em permanente conflito interno com a província da Zelândia e precisando do sal de Portugal para preservar seus peixes, a Holanda desistiu da guerra do açúcar, abrindo mão do Brasil. Em 1661, depois de receber uma compensação de quatro milhões de cruzados, a Holanda abdicou oficialmente de suas pretensões no Nordeste. A essa altura, os palácios e os jardins de Nassau já haviam sido “consumidos na voragem de fogo e sangue dos anos de guerra”. E o conde era governador da província de Kleve, na Alemanha, onde morreu, em 1679, aos 75 anos de idade, amargurado e empobrecido – e com sua monumental “Brasiliana” dispersa por vários palácios da Europa.

SENHORES DA GUERRA BRASÍLICA

Embora articulada e em parte conduzida por membros da alta burguesia lusobrasileira, a guerra contra os holandeses passou à História como o confronto que lançou as bases do nacionalismo brasileiro. Isso porque o exército que enfrentou o invasor ficou conhecido como “o amálgama das três raças”. A expressão faz algum sentido, uma vez que, além dos pelotões chefiados pelos luso-brasileiros Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros, a vitória só se tornou possível graças ao batalhão de indígenas comandado pelo potiguar Felipe Camarão e ao batalhão de negros chefiado por Henrique Dias. Os holandeses também contaram com aliados nativos: indígenas das tribos Poti, Paraupaba e Janduí, além do mulato trânsfuga Domingos Calabar. A seguir, a biografia sucinta de algumas figuras da guerra do açúcar.

A GUERRA BRASÍLICA

A maior contribuição do Brasil à história militar mundial foi dada nos quase 30 anos durante os quais os exércitos luso-brasileiros combateram o invasor holandês: nas colinas e nos alagadiços, nas matas e nos areais de Pernambuco, os brasileiros podem ter inventado a guerra de guerrilhas. Conhecedores profundos do terreno e bem adaptados à natureza tropical, portugueses como Matias de Albuquerque, indígenas como Felipe Camarão e negros como Henrique Dias idealizaram uma tática de luta que, segundo o historiador Gonsalves de Mello, foi “uma antecipação do estilo brasileiro de jogar futebol”. Para Gilberto Freyre, a “guerra brasílica” era “um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual… alguma coisa de dança e de capoeira”. Os adversários, mesmo derrotados, souberam reconhecer a excelência das táticas nativas. Testemunha ocular da segunda batalha dos Guararapes, o holandês Michiel von Goch escreveu que as tropas brasileiras eram “ligeiras e ágeis por natureza, de modo que cruzam matos e brejos, sobem morros aqui tão numerosos e descem-nos tudo com rapidez e agilidade notáveis”.

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SOLDADO DA FORTUNA: o exército holandês que lutou no Brasil era formado por muitos mercenaries escoceses, napolitanos e alemães (acima, um soldado holandês).

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OS SENHORES DA GUERRA: André Vidal de Negreiros, o potiguar Felipe Camarão e João Fernandes Vieira, (acima, da esquerda para a direita) lideraram a luta contra os holandeses.

JOÃO FERNANDES VIEIRA:: Natural da ilha da Madeira, mas vivendo no Brasil desde os dez anos de idade, lutara bravamente contra os holandeses até ser preso por eles em 1635. Então, aliou-se ao invasor e, tornando-se negociante e senhor de engenho, adquiriu “a maior fortuna da terra”. Em dívida com a WIC, liderou a revolta após a saída de Nassau.

ANDRÉ VIDAL DE NEGREIROS:: Mais um rico senhor de engenho que virou chefe das guerrilhas. Tomou o Recife em 1654, tornando-se governador de Pernambuco e de Angola até 1666.

FELIPE CAMARÃO: Potiguar nascido em 1591, Antônio Poti (“camarão” em tupi) se converteu ao cristianismo, virou um dos mais fiéis aliados dos portugueses e o indígena mais respeitado do Brasil. Chefe de um batalhão com apenas 170 índios, obteve grandes vitórias. Em 1633, o rei Filipe III lhe deu brasão de armas e pensão de 40 milréis. Antônio Poti tornou-se então D. Felipe Camarão. Em 1635, ganhou comenda da Ordem de Cristo. Em geral, combatia ao lado da mulher, Clara. Depois da primeira batalha dos Guararapes, Camarão adoeceu, morrendo em agosto de 1648.

HENRIQUE DIAS: Filho de negros libertos, se apresentou a Matias de Albuquerque à frente de um batalhão de negros “de quatro nações: Minas, Ardas, Angolas e Crioulos”. Ferido na batalha de Camandituba, teve amputado metade do braço. Depois da expulsão dos holandeses, foi nomeado “Governador dos Crioulos, Negros e Mulatos”.

DOMINGOS CALABAR: Guerrilheiro mulato, lutou ao lado de Matias de Albuquerque, mas passou para o lado dos holandeses em abril de 1632. Deu muito trabalho aos brasileiros. Capturado em julho de 1634, foi torturado, enforcado e esquartejado. Destino similar ao dos caciques janduí, poti e paraupaba, que haviam ajudado os invasores.

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OS SENHORES DO DINHEIRO: típicos comerciantes holandeses, a maioria deles luteranos (como os da imagem acima), eram os principais acionistas da Companhia das Índias Ocidentais.

BRASIL HOLANDÊS: FUTURO DO PRETÉRITO

Sempre tão pródigo e eficiente na autodepreciação – cujo reflexo mais perverso e ambíguo talvez se manifeste numa autoindulgência tão nefasta quanto o desprezo que devota à própria imagem –, o Brasil enraizou em seu imaginário historiográfico a ideia de que poderia ter se transformado num paraíso eficiente e produtivo, luzindo ao Sol do trópico, caso tivesse permanecido sob o domínio holandês, livrando-se da herança lusitana. Além do quadro psicológico tão revelador, que verdades históricas poderiam se esconder por trás desse anseio tão frequentemente apresentado como fato? Um suposto Brasil holandês seria realmente uma alternativa melhor do que o real Brasil português? Nada permite supor que sim – pelo contrário.

Em 1971, o historiador Mário Neme debruçou-se sobre a questão e, no seu bem documentado Fórmulas políticas do Brasil holandês, concluiu que a tese de que os holandeses estavam dispostos a fazer do Brasil uma nação democrática, igualitária e eficiente nasceu nos textos do frei português Manuel Calado, cronista do Brasil holandês que foi “comensal confesso do conde de Nassau”.

Em sua monumental História do Brasil, lançada em 1854, Francisco Varnhagem ecoou a tese de Calado. Mas, conforme Neme, Varnhagem escreveu numa época em que “a inteligência nacional está por inteiro predisposta contra Portugal… momento em que a reação da antiga colônia – tomando consciência plena das oportunidades perdidas – entra na fase emocional da racionalização de todos os ressentimentos, insuflados pelas lutas da independência, da abolição e da república”. Nada permite supor, segundo Neme, que um Brasil holandês seria melhor que o Brasil lusitano.

Não se trata de opinião solitária. “A ideia de que a colonização holandesa teria sido superior à portuguesa, pelo senso de organização, nível cultural e grau de liberdade, baseia-se num preconceito, numa ilusão de ótica e num erro de informação”, escreveram os historiadores Arno e Maria José Wehling em Formação do Brasil Colonial. “A ilusão de ótica… é admitir a existência de colonizações ‘melhores’ ou ‘piores’, quando a natureza da instituição colonial faz com que ela seja objeto – de lucro, em geral, mas também de populações excedentes – e não sujeito da relação”.

O mito de um esplêndido Brasil holandês surgiu graças ao governo de Nassau, muito superior à rudeza portuguesa de até então. Porém, como notou o historiador Bóris Fausto, “Nassau representava apenas uma tendência, e a Companhia das Índias Ocidentais, outra, mais próxima do estilo do empreendimento colonial luso”. Na verdade, basta analisar o que se passou nas demais colônias holandesas – no Caribe, nas Guianas e na Ásia – para concluir que, sem Nassau, o Brasil holandês dificilmente teria um destino fulgurante. Além do mais, como observou o professor Gonsalves de Mello, “os holandeses não se tinham apoderado do Brasil com a intenção de o colonizar (…) de para aqui se transferir com as famílias e estabelecer um renovo da pátria: movia-os sobretudo o interesse mercantil”. Quando os grandes lucros prometidos pelo açúcar minguaram, os holandeses preferiram abrir mão de suas conquistas. Ao fazê-lo, abandonaram inapelavelmente os Tapuia e os Potiguar, seus aliados indígenas de mais de vinte anos – e jamais moveram uma palha para defendê-los da terrível vingança luso-brasileira.

RURAL X URBANO

Os dois aspectos mais conflitantes entre os modelos colonialistas estabelecidos por Holanda e Portugal já foram longamente estudados no Brasil. Já em 1907, Capistrano de Abreu observava que o fato de os holandeses dominarem facilmente as cidades do Nordeste e nunca terem conquistado o interior – e a ação inversa posterior: os lusos reconquistavam as zonas rurais, mas eram incapazes de tomar as cidades – revelava que os primeiros eram homens urbanos, ao passo que os portugueses tinham vocação rural. Natural, portanto, que, ao longo do período holandês, estourasse um conflito entre os senhores de engenho luso-brasileiros e os comerciantes holandeses. Na colônia portuguesa, predominavam os interesses dos plantadores; na holandesa, os dos negociantes.