Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
11. O brasil dos escravos
Capítulo 11
O BRASIL DOS ESCRAVOS
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Terá sido o pior lugar do mundo, o ventre da besta e o bojo da fera, embora para aqueles que eram responsáveis por ele, e não estavam lá, fosse o mais lucrativo dos depósitos e o mais vendável dos estoques. No porão dos navios negreiros que por mais de trezentos anos cruzaram o Atlântico, desde a costa oeste da África até a costa nordeste do Brasil, mais de três milhões de africanos fizeram uma viagem sem volta, cujos horrores geraram fortunas fabulosas, ergueram impérios familiares e construíram uma nação. O bojo dos navios da danação e da morte era o ventre da besta mercantilista: uma máquina de moer carne humana, funcionando incessantemente para alimentar as plantações e os engenhos, as minas e as mesas, a casa e a cama dos senhores – e, mais do que tudo, os cofres dos traficantes de homens. A cena foi minuciosamente descrita por centenas de observadores. Quanto mais são os depoimentos cotejados, mais difícil é crer que tamanhos horrores possam ter se prolongado por três séculos – e que tantos sobrenomes famosos tenham seu fausto e suas glórias vinculados a tantas desgraças. Mas assim foi, e assim teria sido por mais tempo se, por circunstâncias meramente econômicas, a escravidão não deixasse de ser um negócio tão lucrativo.
Castro Alves compôs versos repletos de fulgor e fúria. Rugendas usou tons sombrios e um ângulo surpreendente para criar um retrato alegórico. Ainda assim, ambos, poeta e ilustrador, talvez tenham transmitido uma versão branda do espetáculo hediondo que de fato se desenrolava no porão dos navios negreiros – apropriadamente chamados de “tumbeiros”. Os registros escritos por observadores – a maioria deles britânicos – revelam um quadro ainda mais assustador do que aquele que as rimas e as tintas puderam pintar. Um único exemplo. Em 1841, a belonave inglesa Fawn capturou, na costa brasileira, o navio Dois de Fevereiro. Desde 7 de novembro de 1831, o tráfico era ilegal no Brasil e navios de guerra britânicos patrulhavam o litoral. Após a apreensão do “tumbeiro”, o capitão do Fawn anotou, no diário de bordo, a cena com a qual se deparou nos porões da embarcação: “Os vivos, os moribundos e os mortos amontoados numa única massa. Alguns desafortunados no mais lamentável estado de varíola, doentes com oftalmia, alguns completamente cegos; outros, esqueletos vivos, arrastando-se com dificuldade, incapazes de suportar o peso de seus corpos miseráveis. Mães com crianças pequenas penduradas em seus peitos, incapazes de dar a elas uma gota de alimento. Como os tinham trazido até aquele ponto era surpreendente: todos estavam completamente nus. Seus membros tinham escoriações por terem estado deitados sobre o assoalho durante tanto tempo. No compartimento inferior o mau cheiro era insuportável. Parecia inacreditável que seres humanos fossem capazes de sobreviver naquela atmosfera.”
Na verdade, um em cada cinco escravos embarcados na África não sobrevivia à viagem ao Brasil – constituíam mercadoria literalmente “perecível”. Os que aqui chegavam não viviam mais do que sete anos, em média. Mas eram baratos e facilmente substituíveis: havia muitos outros no lugar de onde tinham vindo aqueles. O Brasil se tornou o maior país escravagista do mundo.
Esta é uma nação erguida por seis milhões de braços escravos – e sobre três milhões de cadáveres.
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Era um sonho dantesco!…
O tombadilho,
Que das luzemas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar
Tinir de ferros… estalar do açoite … Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar (…)
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Castro Alves
O TRÁFICO NEGREIRO
Embora a escravidão seja quase tão velha quanto a própria humanidade, jamais o tráfico de escravos fora um negócio tão organizado, permanente e vultoso quanto se tornou depois que os portugueses estabeleceram, em meados do século XVI, uma vasta rota triangular que uniu a Europa, a África e a América e transformou milhões de africanos em lucrativa moeda de troca. Manufaturas europeias eram levadas para a Guiné e cambiadas por escravos em entrepostos costeiros. Os mesmos navios partiam em seguida, conduzindo em seus porões aldeias inteiras para trabalhar até a morte nas plantações do Brasil. Uma vez no Novo Mundo, esses escravos em geral não eram vendidos mas trocados por açúcar – revendido, a seguir, com grande lucro na Europa. A fórmula logo pôde incluir a Ásia, já que os panos coloridos feitos em Goa, na Índia, passaram a ser a mercadoria oferecida nas feitorias da Guiné. Mas o pioneirismo lusitano foi logo ameaçado pela concorrência dos holandeses, ingleses e espanhóis. No século XVII, se já não eram os maiores traficantes de escravos do planeta, britânicos e holandeses eram os que mais lucravam com eles. No século seguinte, porém, brasileiros e portugueses radicados no Brasil se tornariam os maiores e mais eficientes traficantes de escravos da história. Utilizando-se da cachaça e do tabaco de terceira – baratos e abundantes no Brasil e apreciadíssimos na África –, criaram um circuito comercial espantosamente eficiente e rendoso. Embora capturados cada vez mais no interior do continente africano, os escravos iam ficando cada vez mais baratos, à medida que aumentava o interesse pelo fumo e pela aguardente. Os postos de captura e troca de escravos logo se espalhavam por quase toda a África negra, incluindo Moçambique e outros portos do Índico. O mercado de carne humana floresceu plenamente até 1815, quando, sentindo-se prejudicada pelo tráfico, a Inglaterra decidiu proibi-lo.
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MERCADORIA PERECÍVEL: o mapa acima mostra o fluxo de escravos entre as duas costas da África e o litoral brasileiro. Na página anterior, diferentes etnias de africanos retratadas pela pena de Rugendas.
A quem se deve o pioneirismo do tráfico na Europa do início da Era Moderna? Os historiadores ainda discutem o tema, embora muitos deles atribuam ao longo período de dominação moura na Península Ibérica o hábito de escravizar outros povos e raças, logo adotado por portugueses e castelhanos. Os primeiros escravos negros parecem ter chegado a Portugal em 1441, a bordo da nau com a qual Antão Gonçalves retornou da Guiné. De início, houve restrição real à escravização de africanos – utilizados apenas em serviços domésticos e com certa moderação. Com o início da lavoura canavieira nos Açores e em Cabo Verde, a escravidão, mais que tolerada, passou a ser incentivada. E não apenas além-mar: “Os escravos pululam por toda parte”, escreveu o cronista flamengo Nicolau Clenardo, em 1535. “Tanto que, quero crer, são, em Lisboa, em maior número que os portugueses de condição livre.”
A mais antiga referência à importação de africanos para o Brasil é encontrada num documento escrito em São Vicente, em 3 de março de 1533, no qual Pero de Góis pede ao rei “dezessete peças de escravos, forros (livres) de todos os direitos e frete que soem (costumam) pagar”. Em 1539, Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, repete o pedido, insistindo também na isenção de impostos. Pelo alvará de 29 de março de 1559, o rei D. Sebastião decidiu, enfim, “fazer mercê àqueles que tinham construído engenhos no Brasil”, permitindo-lhes “mandar resgatar ao rio e resgates do Congo e trazer de lá para cada um dos ditos engenhos até 120 peças de escravos resgatadas à sua custa”.
Estava iniciado o tráfico em grande escala. Em breve se encerraria o chamado ciclo de Guiné, iniciando-se o de Angola. Em 1585, segundo uma informação do padre José de Anchieta, tida como um tanto exagerada, já eram 120 mil os escravos africanos vivendo – e cedo morrendo – em Pernambuco. De qualquer modo, esse era apenas o início.
Preocupados com os indígenas, que morriam como moscas não apenas por sua absoluta impossibilidade de adaptação ao regime de trabalho forçado como também pelos surtos epidêmicos que grassavam nos aldeamentos, nas senzalas ou nos engenhos, os jesuítas foram os primeiros a incentivar o tráfico de africanos para o Brasil. Mais bem adaptados à produção agrícola e ao trabalho organizado, os negros de fato se revelaram uma opção mais rentável para os senhores de engenho. O negócio, porém, cedo se mostrou muito melhor para os traficantes: trocados por fumo e cachaça, os escravos eram baratos na África. Como o açúcar feito no Nordeste do Brasil era levado para a Europa nos mesmos navios que traziam os escravos da África, os negreiros forçavam os engenhos a adquirir novos escravos sob pena de não comprarem seu açúcar. Assim, os senhores de engenho logo se endividaram.
De qualquer forma, um escravo se “pagava” em cinco anos. Melhor para seus senhores: devido aos maus-tratos frequentes, a jornada de trabalho nunca inferior a dezoito horas diárias, às péssimas condições de alojamento e às rações criminosamente exíguas, os escravos, em média, não sobreviviam mais do que sete anos no Brasil. Mas, como uma “peça da África” custava cerca de cinquenta mil-réis, mesmo portugueses relativamente pobres – e até escravos alforriados – podiam ter pelo menos uma. E de fato tinham: não possuir escravos no Brasil era considerado algo tão humilhante que dentre os “reinóis” que não conseguiam adquirir o seu, muitos preferiam voltar para Portugal.
O preço baixo e a facilidade de substituir as “peças” explicam por que, entre as duas opções que dividiam os senhores de escravos – “deve-se criá-los ou comprá-los?” –, os brasileiros sempre optaram pela segunda. A mortalidade infantil também era assustadoramente alta entre os escravos – isso quando eles conseguiam “reproduzir em cativeiro”, já que o número de mulheres trazidas da África foi cinco vezes menor do que o dos homens. A máquina escravagista que se estabeleceu primeiro nos engenhos (que “gastavam” cerca de duzentos escravos por ano, cada) e depois nas minas das Gerais, associada ao costume de substituir o escravo morto pelo moribundo seguinte, transformou o Brasil na maior nação escravista do Novo Mundo – e aquela que mais dependia de escravos. As consequências econômicas, políticas, morais e sociais foram enormes.
Na África, lavradores e aldeões eram capturados aos milhares por outros africanos caçadores de homens, que, em geral, utilizavam os mesmos métodos empregados pelos traficantes berberes. Os cativos eram então conduzidos às feitorias à beira-mar e, a seguir, embarcados para o Novo Mundo. No século XVII, encerrado o ciclo de Guiné, começa o ciclo de Angola, durante o qual cerca de 600 mil escravos foram trazidos para o Brasil. Eram, quase todos, do grupo Banto: congos (ou cabindas), benguelas e ovambos e foram introduzidos em Pernambuco e no Rio de Janeiro, de onde partiriam para Minas Gerais e São Paulo.
No alvorecer do século XVIII, inicia-se o ciclo da Costa da Mina (hoje Benin e Daomé), durante o qual cerca de 1,3 milhão de escravos foram trazidos para o Brasil. Nesse período, os povos escravizados eram sudaneses: iorubás (ou nagôs), jejes (ou daomeanos), minas, hauçás, tapas e bornus. Nessa época, os traficantes lusos, holandeses, espanhóis e ingleses já haviam sido amplamente superados pelos brasileiros. O ciclo da Costa da Mina perdurou até 1815, quando o tráfico de escravos no Atlântico passou a ser duramente reprimido pela Inglaterra. De 1815 até 1851, mesmo ilegal, o tráfico persistiu e, de acordo com alguns estudiosos, em quantidades e condições ainda mais amedrontadoras que antes (veja capítulo 20). Na terceira e na quarta fases do tráfico, era o Rio de Janeiro e não mais Salvador o grande centro escravista brasileiro. Os escravos eram desembarcados no porto, pagavam impostos como qualquer mercadoria (cerca de três mil-réis, ou 5% de seu valor) e eram postos à venda nos mercados na rua do Valongo (hoje Camerino, no centro da cidade). Lá permaneciam “nus, cabelos raspados, parecendo objetos medonhos (…) marcados com ferro quente no peito (…) cobertos de feridas extensas e corrosivas (…) com fisionomias estúpidas e pasmas”, esperando comprador. Até mulheres “iam às compras”. “Vão enfeitadas”, escreveu o inglês Robert Walsh, em 1828, “sentam-se, manipulam e examinam suas compras, e levam-nas embora com a mais perfeita indiferença, como se estivessem comprando um cão ou uma mula”. A preferência recaía nos negros “minas”: os bantos eram considerados mais fracos e suscetíveis a doenças. “Fortes” ou “fracos”, quase nenhum deles completaria uma década trabalhando no Brasil.
O TRABALHO E OS DIAS
Eles eram plantadores e moedores de cana, derrubadores de mata e semeadores de mudas; eram vaqueiros, remeiros, pescadores, mineiros e lavradores; eram artífices, caldeireiros, marceneiros, ferreiros, pedreiros e oleiros; eram domésticos e pajens, guarda-costas, capangas e capitães do mato; feitores, capatazes e até carrascos de outros negros. Estavam em todos os lugares: nas cidades, nas lavouras, nas vilas, na mata, nas senzalas, nos portos, nos mercados, nos palácios. Carregavam baús, caixas, cestas, caixotes, lenha, cana, quitutes, ouro e pedras, terra e dejetos. Também transportavam cadeirinhas, redes e liteiras onde, sentados ou deitados, seus senhores passeavam (ou até viajavam). Eles eram, de acordo com o jesuíta Antonil, “as mãos e os pés dos senhores de engenho”.
Mas, no Brasil, os escravos foram ainda mais do que isso: foram os olhos e os braços dos donos de minas; foram os pastores dos rebanhos e as bestas de carga; foram os ombros, as costas e as pernas que fizeram andar a Colônia e, mais tarde, o Império. Foram o ventre que gerou imensa população mestiça e o seio que amamentou os filhos dos senhores. Deixaram uma herança profunda: em 500 anos de história, o Brasil teve três séculos e meio de regime escravocrata contra apenas um de trabalho livre.
Que consequências teve esse legado? Onde começa e para onde conduz? Quais são suas origens? Já houve quem arriscasse uma explicação: “Se há um povo dado à preguiça, sem ser o português, então não sei eu onde ele exista (…) Esta gente tudo prefere suportar a aprender uma profissão qualquer”, escreveu o humanista flamengo Nicolau Clenardo ao visitar Portugal em 1535. É elucidativo que, em Portugal, o verbo “mourejar” tivesse se tornado sinônimo de “trabalhar”. Se no Reino era assim, pior ficou no trópico.
Em 1808, ao visitar o Brasil, John Luccock, um inglês, comentou que os brancos se sentiam “fidalgos demais para trabalhar em público”. Meio século depois, Thomas Ewbank, também britânico, dizia que, no Brasil, “um jovem preferiria morrer de fome a abraçar uma profissão manual”. Segundo ele, a escravidão tornara “o trabalho desonroso – resultado superlativamente mau, pois inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização”. As críticas não eram arrogância britânica: para Luís Vilhena, mestre português que ensinava grego na Bahia, o Brasil era o “berço da preguiça”.
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NA FILA E NA ROÇA: Na imagem da página ao lado, grupo de escravos dirige-se à lavoura. Embora estivessem em todos os lugares, foi no campo que o braço escravo ajudou a produzir as riquezas do Brasil.
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MAMA ÁFRICA
Um dos maiores países mestiços do mundo, o Brasil foi gerado também em ventre escravo. Raras seriam as sociedades coloniais nas quais houve tamanho intercurso sexual entre senhores e suas escravas como nos trópicos brasileiros. A partir do instante em que o número de “fêmeas” vindas da África aumentou, e o trabalho forçado adquiriu feições também domésticas, muitas escravas foram transferidas da senzala para o seio da casa-grande. Eram amas de leite e mucamas, “escolhidas dentre as mais limpas, as mais bonitas, as mais fortes”, como observou Gilberto Freyre em Casa grande & senzala, clássico da historiografia brasileira quase inteiramente dedicado ao assunto.
No Brasil, como em Portugal, mãe que se prezasse jamais amamentava seu bebê. Por isso, inúmeros foram os filhos de senhores criados por mães pretas. O próprio Freyre, no mesmo livro, atribui à amamentação em seio negro a paixão sexual desenvolvida pelos herdeiros da casa-grande por “mulheres de cor”.
Não parece ser apenas esse aspecto psicológico o que explicaria o assédio às fêmeas da senzala. Afinal, como comentava o mesmo Freyre, “não existe escravidão sem depravação sexual. Em primeiro lugar, o próprio interesse econômico a favorece, criando nos proprietários imoderado desejo de possuir o maior número possível de crias (….). Joaquim Nabuco colheu em um manifesto escravocrata de fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significação: ‘a parte mais produtiva da propriedade escrava ainda é o ventre gerador’”.
Não era apenas o desejo, consciente ou não, de fazer a escrava reproduzir um novo servo o que empurrava muitos senhores aos relacionamentos com as mulheres da senzala. A perversão pura e simples foi um componente constante nessa relação. E, nesse sentido, abundam os exemplos com registro historiográfico.
O que mais poderia explicar, por exemplo, o fato de ter surgido no Brasil a crença de que “para o sifilítico não há melhor depurativo do que uma negrinha virgem”, defendida, ainda em 1869, por um certo Dr. João de Azevedo Macedo Jr.? Ou a confissão que um “sacerdote de missa” fez ao visitador inquisitorial, na Bahia, em 1591, revelando que, certa noite, levara para sua casa “uma negra, que seria da idade de seis ou sete anos” e “a penetrou pelo vaso traseiro”? O que mais explicaria ainda que algumas senhoras, ciumentas com a relação, real ou suposta, de seus maridos com certas mucamas, tenham mandado arrancar os olhos de tais moças “e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, boiando dentro de uma compoteira”? Ou o fato de que qualquer escravo que porventura caísse no erro de se deixar seduzir por sua senhora estivesse condenado a ser “castrado com uma faca mal-afiada, ter a ferida salgada e, aí, ser enterrado vivo”?
Desnecessário prolongar a lista. O panorama de desregramento sexual no Brasil Colônia parece ter sido tal que, na aurora do século XVIII, o bispo do Pará se via compelido a escrever: “A miséria dos costumes neste país me faz lembrar o fim das cinco cidades por me parecer que moro nos subúrbios de Gomorra, mui próximo, e na vizinhança de Sodoma.” O pecado, enfim, chegara ao sul do Equador.
O BRASIL NEGRO
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Capoeira, samba, feijoada, candomblé, vatapá. Que país seria o Brasil sem o legado da cultura africana? Certamente não o mesmo que hoje é – e dificilmente mais colorido, dinâmico, múltiplo e ruidoso. Falar na “influência cultural” que os negros tiveram no Brasil é quase uma piada: o que parece ter havido, pelo menos em certas áreas do país, é quase uma adaptação dos padrões de comportamento dos escravos às novas condições de vida a que foram submetidos. E, tão logo eles se estabeleceram, os demais povos é que se viram na continência de adotar inúmeras tradições africanas.
O Brasil não comeria o que come, não rezaria como reza, não dançaria nem cantaria como hoje canta, dança, reza e come não fosse a riquíssima herança cultural trazida pelos 4,5 milhões de escravos vindos da África sob as mais árduas condições e, por mais de três séculos, jogados nas praias, florestas, morros e cidades do Novo Mundo. Embora o Nordeste tenha sido a área que recebeu maior influência dos povos africanos, não há um só lugar do Brasil – nem mesmo os predominantemente europeus estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul – que não tenha sido transformado pelo legado da cultura negra.
O regime alimentar brasileiro africanizou-se desde cedo, com a introdução do azeite de dendê, da pimenta malagueta, do quiabo e de pratos como o angu, caruru, acarajé, efó, vatapá, xinxim, quibebe, o tutu de feijão “à mineira”, no uso mais frequente da abóbora jerimum e da melancia.
A mesma “africanização” repercutiu, se não na estrutura da língua, certamente no vocabulário do português falado no Brasil. Ao contrário do que acontece em Portugal, no Brasil ninguém estranha e todos conhecem o significado de palavras como batuque, bengala, bunda, cachaça, cachimbo, cafuné, camundongo, muamba, quindim, quitanda, quitute, senzala e, é claro, samba.
Importante salientar ainda que os caminhos da miscigenação e das “transfusões” culturais foram sempre mais livres, dinâmicos e irrefreáveis do que as barreiras econômicas e sociais virtualmente intransponíveis impostas pelo regime escravista. Por fim, o caldeirão multiétnico no qual a cultura brasileira fermentou foi, como notou Gilberto Freyre, o principal responsável pelo país não possuir hoje “um status estritamente colonizado e subeuropeu”.
“O Brasil”, escreveu ainda no século XVII o padre Antônio Vieira, “tem o corpo na América, mas a alma na África”.
De todo modo, a miscigenação entre brancos e negros no Brasil se desenrolou em um plano meramente material e sexual, não implicando jamais a ausência ou a diminuição do preconceito – mesmo porque, como bem observou o sociólogo Florestan Fernandes, sempre houve “uma relação direta entre preconceito de cor e preservação da ordem senhorial”, simplesmente porque o próprio preconceito servia para perpetuar a segregação social. Em pleno segundo milênio, o Brasil ainda não se libertou do peso de um passado sombrio.
A LUTA DOS ESCRAVOS
Ahistoriografia brasileira, até cerca de 50 anos atrás, preferiu adotar a tese segundo a qual os escravos “se adaptaram bem” ao regime tirânico que lhes foi imposto no Brasil – onde a escravidão teria sido relativamente branda. O mito do “bom senhor” quase adquiriu força de lei depois do lançamento, em 1933, de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre. No início dos anos 1960, surgiram os textos revisionistas da chamada “Escola Paulista” – liderada por Florestan Fernandes, Octávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Embora avessos à tese de Freyre, esses estudiosos – de formação marxista – preferiram analisar a questão pelo lado da “coisificação” do escravo, quase ignorando as rebeliões da senzala. O próprio Cardoso chegou a escrever que os escravos foram “testemunhos mudos de uma história para a qual não existem a não ser como (…) instrumento passivo”.
Sabe-se atualmente que a resistência dos escravos foi feroz e constante: milhares de negros lutaram de todas as formas contra os horrores que o destino lhes reservara. A fuga, solitária ou coletiva, não era a única forma de rebelião: houve incontáveis casos de escravos que quebraram ferramentas, incendiaram senzalas, dispersaram os rebanhos ou atacaram seus feitores. Muitos outros optaram pelo suicídio (em geral pela ingestão de terra), ou então se deixaram acometer pelo “banzo”, o torpor mortal que levava à morte por inanição. O certo é que, onde houve escravidão, houve resistência.
Evidentemente, a forma mais comum de protesto contra a escravidão era a fuga. Apesar do rigor das punições (que incluíam a marcação com ferro em brasa, o açoitamento e até o corte do tendão de aquiles), milhares de negros tentaram escapar da senzala – e muitos conseguiram. Embora grande parte fosse recapturada pelos capitães do mato, terríveis caçadores de homens quase infalíveis (negros na maioria), sempre houve aqueles que, “estimando mais a liberdade entre as feras do que a sujeição entre os homens”, lograram se meter na mata e lá fundar seus “mocambos” e “quilombos” (respectivamente “esconderijo” e “povoação”, em banto).
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ZUMBI DOS PALMARES: não existem imagens autênticas do líder da insurreição dos escravos. À direita, óleo feito por Antônio Parreiras.
Quantos foram os quilombos e quantos negros neles viveram é algo impossível de calcular. Em 1930, o Guia Postal do Brasil registrava, segundo um pesquisador, 168 agências cujo nome derivava das palavras quilombo ou mocambo. Eles se espalhavam da Amazônia ao Rio Grande do Sul, e alguns chegaram a ter cerca de dez mil habitantes, como o quilombo do Ambrósio, em Minas Gerais. Nessas povoações, não viviam apenas negros de todos os grupos étnicos, falando várias línguas diferentes: nos quilombos também se podia encontrar indígenas e brancos desajustados ou fora da lei. Embora as autoridades e os senhores de escravos constantemente se unissem para articular expedições repressivas, enviadas a todo e qualquer quilombo, onde quer que eles se encontrassem, muitos desses núcleos resistiram por anos a fio. O maior e mais importante deles – Palmares, o berço de Zumbi – foi capaz de sobreviver por quase um século.
O QUILOMBO DOS PALMARES
Palmares foi o mais significativo e o mais simbólico dos quilombos não apenas do Brasil mas das Américas. Em nenhum outro lugar a resistência dos escravos fugidos foi tão longa, bem-sucedida e organizada como nos doze mocambos erguidos na serra da Barriga, no sertão de Alagoas, a 90 quilômetros de Maceió.
Ainda assim, sua história permanece envolta em penumbra e mitificações e repleta de lacunas. Seu próprio líder, Zumbi, virou figura mais mitológica do que histórica.
Desde 1991, porém, um programa de escavações arqueológicas – financiado por entidades internacionais, entre as quais a norte-americana National Geographic – está sendo desenvolvido no mocambo do Macaco, a capital dos Palmares, e poderá elucidar muito um episódio que já foi interpretado sob diversos pontos de vista.
Ironicamente, Palmares entrou para a história pelas mãos de um rico senhor de engenho, Sebastião da Rocha Pita, que, em 1724, em sua História da América portuguesa, celebrou “o fim tão útil como glorioso (da) guerra que fizemos aos negros dos Palmares”. As poucas fontes originais relatando a resistência épica e a trágica derrocada do quilombo foram redigidas pelas mesmas mãos que o destruíram. Nenhum combatente deixou seu relato.
A partir da década de 1950, a história dos Palmares seria lida por uma visão “de esquerda”. Embora historiadores como Edison Carneiro e Décio Freitas tenham publicado documentos inéditos, o velho quilombo de Zumbi continuou sendo utilizado como símbolo e metáfora. A realidade – menos emblemática e glamourosa, mais efetiva e complexa – começa agora a emergir das covas abertas na terra. Três séculos após sua destruição, Palmares pode estar renascendo de suas próprias cinzas.
O QUÊ: Palmares não era apenas um, mas doze quilombos, unidos por uma rede de trilhas na mata. No quilombo do Macaco, de dois mil habitantes, viveram o “rei” Ganga Zumba e seu sobrinho Zumbi. Palmares pode ter tido vinte mil habitantes e seis mil casas.
QUANDO: o quilombo começou a ser erguido em 1602 por quarenta escravos fugidos de engenhos em Pernambuco. Como só foi destruído em fevereiro de 1694, sua existência prolongou-se por quase um século.
ONDE: a Serra da Barriga fica a cerca de noventa quilômetros a noroeste de Maceió, mas a área de influência do quilombo era muito maior: cerca de 200 km 2, em Pernambuco e Alagoas.
QUEM VIVEU LÁ: negros de todos os grupos étnicos e também indígenas e até brancos fora da lei. Não se sabe a língua falada no quilombo. De 1656 a 1678, o líder do quilombo foi Ganga Zumba (ou “Grande Senhor”). Em novembro de 1678, Zumba foi ao Recife e firmou tratado de paz com o governador Souza Castro: seriam livres os negros nascidos em Palmares, ao passo que os outros habitantes do quilombo deveriam ser entregues às autoridades. Zumbi discordou do acordo, destituiu Ganga Zumba e assumiu o movimento de resistência dos Palmares.
COMO O QUILOMBO FOI DESTRUÍDO: ao longo de sua luta quase secular, Palmares foi atacado 25 vezes. As primeiras expedições foram enviadas pelos holandeses em 1644 e 1645. Em 1692, Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista, foi contratado para atacar o quilombo. Palmares caiu em 6 de fevereiro de 1694, mas Zumbi escapou. Foi morto por André Furtado Mendonça quase dois anos depois. Sua cabeça foi exposta em praça pública “para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e aterrorizar os negros, que o julgavam imortal”.
O GUERRILHEIRO NEGRO
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Zumbi, cujo nome quer dizer “Deus da Guerra”, era sobrinho-neto da princesa Aqualtune. Envenenou seu tio, Ganga Zumba, “rei” de Palmares, e tomou o poder. Zumbi era casado com uma branca. Ele preferiu o suicídio à rendição: jogou-se dum penhasco para não ser capturado pelos que atacaram seu quilombo. Zumbi era homossexual. Todas as afirmativas acima estão erradas ou são improváveis. Pouco se sabe sobre o guerreiro dos Palmares. Documentos comprovam que, de 1676 a 1695, de fato existiu um “general” negro de nome Zumbi. Ele era baixo, coxo e valente: “negro de singular valor, grande ânimo e constância rara; aos nossos serve de embaraço, aos seus, de exemplo”, disse um cronista. Contrário à paz firmada por Ganga Zumba, Zumbi liderou a resistência final dos Palmares. Delatado, foi morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça ficou exposta na praça central do Recife, até se decompor por completo.
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