Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

18. O brasil imperial

Capítulo 18

 

O BRASIL IMPERIAL

Passados o Primeiro Reinado e a Regência, o Brasil ingressou na terceira fase de sua vida política independente, mais uma vez sob o signo da inconstitucionalidade. A Constituição de 1824 nascera sob o manto do arbítrio: D. Pedro I dissolvera a Assembleia Constituinte e proclamara a primeira “Carta” da nova nação de acordo com seus próprios interesses. Dez anos mais tarde, essa mesma Constituição tivera sua “pureza” corrompida pelo Ato Adicional de 1834. Ambas as ações haviam sido maquinadas em tramas palacianas semissecretas. O golpe da Maioridade também teria desvãos e desvelos urdidos à sombra da lei. Mas desta vez, pelo menos, seus próprios articuladores admitiam que se tratava de um golpe. Derrubados todos os projetos apresentados (em 1835, em 37 e em 39) pelos deputados liberais para alterar o artigo 121 da Constituição (segundo o qual só aos 18 anos D. Pedro II poderia assumir a chefia da nação), o deputado Clemente Pereira foi ao plenário dizer que a Maioridade não seria alcançada por uma reforma constitucional, mas “só por um ato revolucionário, embora (isso) seja um golpe de Estado”. Pereira achava que golpes eram “lamentáveis”, mas “admissíveis em casos extremos”. Já para o deputado Rocha Galvão, era “legal todo o ato que satisfaz a vontade do povo”. E o povo – pelo menos as oito mil pessoas que, numa segunda-feira, 23 de junho de 1840, se reuniram para saudar o jovem de 14 anos que assumiria a chefia da nação – parecia estar com a sua vontade satisfeita.

Desde a abdicação forçada de seu pai, em abril de 1831, D. Pedro II era formalmente o imperador do Brasil – fora aclamado dois dias depois. O próprio D. Pedro I, nos momentos de crise que antecederam sua queda, ouvira gritos de “Viva D. Pedro II”. Em maio de 1840, quando o regente Araújo Lima fez a Câmara (de maioria conservadora) aprovar a Lei Interpretativa do Ato Adicional, os liberais iniciaram a campanha “maioridade já”. O projeto dos “maioristas” quase adquiriu um verniz de legalidade: por apenas dois votos (18 a 16), a Câmara deixou de aprovar a moção do senador José de Alencar que tornaria D. Pedro II apto a assumir o comando da nação. Então, o Clube da Maioridade não parou mais de conspirar. Em 22 de junho de 1840, os deputados liberais, liderados por Antônio Carlos de Andrada (irmão de José Bonifácio), abandonaram a “Câmara prostituída” e foram ao Paço de São Cristóvão oferecer o governo a D. Pedro II. Que outra opção restava ao garoto de 14 anos senão aceitá-lo? Reunido no Campo de Santana, o povo cantava:

Queremos D. Pedro II/Embora não tenha idade

A nação dispensa a lei/E viva a Maioridade

Muitas nações já dispensaram a lei. Poucas o fizeram tão alegre e explicitamente.

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O SEGUNDO IMPERADOR

No início de 1837, em conversa informal na Câmara, o deputado liberal José de Alencar (pai do escritor) diria: “Julgo político irmos arranhando nos ânimos dos povos o amor a esse sujeitinho, porque só a essa âncora poderemos nos agarrar.” O “sujeitinho” era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, filho de D. Pedro I e D. Leopoldina, nascido em 2 de dezembro de 1825 e sobre o qual seria, de fato, jogado o peso duma nação.

De “constituição débil e temperamento nervoso”, D. Pedro II perderia a mãe dez dias depois de completar um ano. O pai partiu quando ele tinha cinco anos – e, apesar da correspondência assídua, jamais voltou a vê-lo. Teve uma infância marcada pela solidão e pela austeridade – que viriam a se tornar características marcantes de sua personalidade ao longo de 66 anos de vida. Afastado dos turbilhões da Regência, D. Pedro II foi logo mergulhando nos estudos. “Queriam-no sábio e inofensivo”, escreveu o biógrafo Pedro Calmon, “com a timidez dos ‘príncipes filósofos’ e a ilustração virtuosa do frade, mais inclinado à contemplação e à humildade”. Seu tutor foi José Bonifácio (derrubado em 1833), e seu principal professor o pintor Félix Émile Taunay. Cada passo da vida do imperador era controlado: do momento de acordar à hora de se recolher, Pedro II obedecia sempre à mesma rotina. “A juventude fugira dele a galope”, diria o historiador Gilberto Freyre: imperador aos cinco anos, chefe da nação aos 14, ele faria “a triste figura de um menino amadurecido antes do tempo (que) aos vinte e tantos era já um velho com barbas e aspectos de um avô”. O “sujeitinho” velho antes da hora governaria a nação por 50 anos.

Um dos primeiros atos de D. Pedro II como imperador foi decretar anistia aos envolvidos nas revoltas internas da Regência. Essa seria uma das marcas de seu meio século de governo: perdão aos rebeldes vencidos. Por isso, apelidaram-no “o Magnânimo”. Uma de suas ações seguintes foi a dissolução da Câmara e a derrubada do “gabinete maiorista” que lhe dera o poder – ato que acabou promovendo nova ascensão dos conservadores. E essa viria a ser outra característica do governo daquele que certos historiadores chamam de “o maior dos brasileiros”: o permanente rodízio no poder entre liberais e conservadores (foram 36 gabinetes em 50 anos de governo – um a cada ano e três meses, em média).

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UMA VIDA EM TRÊS TEMPOS: o Brasil acompanhou a trajetória de D. Pedro II, convivendo com o imperador desde a infância até a velhice.

A prática se tornaria ainda mais regular a partir de 1847, quando D. Pedro II recriou o cargo de presidente do Conselho de Ministros (que havia sido extinto pelo Ato Adicional de 1834) – instalando no país uma espécie de parlamentarismo. D. Pedro II parece ter percebido a verdade contida na frase do senador Holanda Cavalcanti: “Nada se assemelha mais a um saquarema do que um luzia no poder.”

“Luzias” eram os liberais, e “saquaremas”, os conservadores: embora em tese fossem adversários irreconciliáveis, no fundo eram farinha do mesmo saco. Em 1850, o barão de Cotegipe, conservador, lamentaria que “nossos negócios (políticos) infelizmente andam em contínua ação e reação”. Mas, em 1853, o marquês do Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, líder dos conservadores, formou o chamado Ministério da Conciliação, enfim unificando as duas forças políticas do país. Começaria então um período de paz interna e prosperidade econômica e cultural – época que o historiador Capistrano de Abreu denominou de “o apogeu do fulgor imperial”. Os lucros trazidos pela lavoura do café transformaram rapidamente o Brasil. Tudo mudou, menos o essencial: o país continuou sendo uma sociedade agrária e escravocrata.

O REINADO DO CAFÉ

Ainda hoje há quem lamente o fato de o inglês Henry Wickman ter surrupiado da Amazônia as sementes de seringueira que vingaram na Malásia e encerraram melancolicamente o ciclo da borracha no Brasil. No entanto, não foi muito diferente a maneira como o café – uma riqueza vegetal de potencial ainda mais espetacular – chegou ao país. Em 1727, o oficial português Francisco de Mello Palheta retornou da Guiana Francesa trazendo as primeiras mudas da rubiácea que mudaria a história do Brasil – econômica, política, social e ecologicamente. Palheta não roubara as mudas: ganhou-as de presente de madame d’Orvilliers, mulher do governador de Caiena. Como a saída de mudas ou sementes de café estava proibida, há estudiosos que consideram “lícito pensar que o aventureiro português recebeu não só frutos, mas favores mais doces de madame”.

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Originário da Abissínia, hoje Etiópia, o café (acima, em desenho de Debret) é a baga do cafeeiro (Coffea arábica), planta da família das rubiáceas que os árabes levaram para a Índia e os italianos introduziram na Europa. Além do gosto peculiar, o café logo se popularizou mundialmente por ser um poderoso excitante. Lorde Bacon o definiu como a bebida que “dá espírito a quem não o tem”.

De qualquer modo, não seria a partir do Pará – onde germinaram sem dificuldade – que as plantas se espalhariam pelo resto do Brasil. Em 1781, o funcionário João Alberto de Castello Branco foi transferido de Belém para o Rio e trouxe sementes consigo. A planta – que fora introduzida na América pelo francês Gabriel de Clieu, em fins do século XV, na ilha de Martinica, no Caribe – chegava então ao lugar a partir do qual teria sua notável expansão.

O mundo descobriu as delícias do café na primeira metade do século XIX. Só então o Brasil perceberia o quão doce lhe poderia ser o amargo grão. O centro de irradiação da cultura cafeeira foi a Baixada Fluminense, de onde a lavoura subiu a serra, atingindo as matas do rio Paraíba do Sul. Depois da libertação das treze colônias norte-americanas, em 1776, os EUA – sequiosos por café e dispostos a se afastar dos mercados dominados pela Inglaterra – passaram a importar o café brasileiro. As florestas foram implacavelmente derrubadas, quase um milhão de escravos foram trazidos da África e do Nordeste, os grandes capitais (imobilizados desde a proibição do tráfico de escravos em 1850) encontraram nova ocupação, e novas cidades, novas fortunas e novos latifúndios surgiram quase que da noite para o dia.

Diferentemente do açúcar, o café não requeria vultosos investimentos, como a montagem do engenho. Não eram necessários mais do que os tanques para a lavagem do grão após a colheita e um terreiro onde espalhar e secar o café, ao passo que as máquinas de decorticação e triagem eram simples, baratas e de fabricação local.

Entre 1821 e 1830, o café respondia por apenas 18% do total das exportações brasileiras. De 1831 a 1870, passou a ser responsável por 50%. A partir de 1871, o Brasil começou a colher cerca de cinco milhões de sacas por ano – a metade da produção mundial. O café gerou uma nova classe social – e, a seguir, política. Fez o país criar ferrovias e aparelhar os portos do Rio e de Santos. Mais tarde, incentivaria a vinda de trabalhadores assalariados – e derrubaria o Império que ajudara a tornar fulgurante.

VISCONDE DE MAUÁ: VIDA E OBRA

Irineu Evangelista de Souza, barão e visconde de Mauá, foi o primeiro self-made man urbano do Brasil. Tentou introduzir a nação no mundo do capitalismo moderno, promover a indústria pesada, estabelecer de vez o trabalho assalariado, a economia de mercado e o liberalismo. Foi incompreendido, perseguido, humilhado, ofendido – e faliu. Mauá fez quase tudo certo: apenas esqueceu que vivia num país ruralista, escravocrata e latifundiário, cuja economia era controlada pelo Estado. Ainda assim, a obra de Mauá foi grandiosa e – apesar dos lucros trazidos aos borbotões pelo café – é quase que exclusivamente graças a ela que se pode falar no boom econômico do Segundo Reinado.

O orçamento das empresas de Mauá era maior que o próprio orçamento do Império. Mauá criou a primeira multinacional brasileira; foi pioneiro na globalização da economia; foi o primeiro (e até hoje um dos únicos) empresário brasileiro respeitado e admirado no exterior. Virou verbete da Enciclopédia Britânica e personagem citado por Júlio Verne (em A volta ao mundo em 80 dias). Tinha o apoio e o respeito do barão Rotschild e dos irmãos Barings – os maiores banqueiros de seu tempo. Mas era desprezado (e, talvez, invejado) por D. Pedro II – o monarca “iluminista”, que só admirava as letras quando não eram promissórias e os números se fossem abstratos.

O EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO

Órfão de pai aos cinco anos – João Evangelista foi assassinado –, Irineu Evangelista de Sousa, nascido em Arroio Grande – RS, em dezembro de 1813, mudou-se para o Rio em 1823. Aos onze anos, era contínuo. Aos quinze, o homem de confiança do patrão. Aos 23, sócio de um escocês excêntrico. Aos trinta, um dos comerciantes mais ricos do Brasil. Era pouco: aos 32, Irineu decidiu virar industrial – o primeiro do Brasil. A crise de 1875 e a má vontade do governo o levaram à falência, em 1878. Mas Mauá pagou tudo o que devia. Ao morrer, em outubro de 1889, perdera seu império industrial. Mas não devia nada a ninguém.

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O imperador e o barão jamais tiveram uma discussão pública, mas, embora fossem vizinhos, sua incompatibilidade de gênios era notória. Mauá cometia o supremo pecado de ser devotado ao lucro – e isso o arqueólogo diletante, o aprendiz de linguística e filólogo, astrônomo amador, botânico de fim de semana e antropólogo iniciante D. Pedro II não podia tolerar. O desprezo pelas ideias e pelas propostas de Mauá – e o torpedeamento contínuo de seus projetos feito pelos políticos fiéis ao imperador – se configura como um dos mais lamentáveis episódios da história econômica do Brasil.

De acordo com seu melhor biógrafo, o pesquisador Jorge Caldeira, autor do bestseller Mauá, empresário do Império, o barão controlava seu vasto império industrial e econômico sozinho. Não procurava ajuda nem mesmo para manter a ampla correspondência diária, embora – ou talvez por isso mesmo – soubesse que “de seu punho podiam nascer leis no Uruguai, movimentos de tropas na Argentina, um novo ministro no Brasil, uma grande tacada na Bolsa de Londres”.

De sua escrivaninha, Mauá comandava um império “consultando apenas as próprias ideias”. Não parecia razoável, mas era assim que ele achava que funcionava. E por mais de vinte anos de fato funcionou.

O IMPÉRIO DAS LETRAS

A explosão cultural do Segundo Reinado foi feita à imagem e semelhança de seu mecenas. Tranquilizado pela bonança política resultante da “conciliação” (como se chamou o esquema de alternância no poder firmado entre liberais e conservadores) e entusiasmado com a pujança econômica trazida pelo café, D. Pedro II decidiu investir em cultura. Por florescer à sombra do imperador, porém, tal movimento cultural se engajou no projeto de “redescoberta” da nação idealizado pelo próprio monarca. Uma monumentalização do Brasil – de seu passado (relido pela ótica do romantismo); de suas cores, de suas “coisas” – foi articulada por historiadores, pintores e literatos. Esse “nacionalismo conservador exprimiu-se de modo orgânico nos anos de apogeu do Império escravagista: está nas páginas eruditas da Revista do Instituto Histórico e Geográfico; permeia a rica messe documental da História geral do Brasil de Varnhagen e é o cimento mítico do romance indianista e colonial de José de Alencar”, como bem diagnosticou o crítico Alfredo Bosi.

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De fato, embora tenha sido fundado pelo regente Araújo Lima, o Instituto Histórico e Geográfico contou com os auspícios do imperador – que presidiu mais de quinhentas sessões. D. Pedro II também enviou bolsistas para o Exterior – especialmente para copiar documentos na Torre do Tombo, em Lisboa. Dentre eles, nenhum se destacou mais do que Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), autor da monumental História geral do Brasil (publicada em 1854). Eivada de preconceitos e esgares, a obra de Varnhagen é, ainda assim e até hoje, a mais completa crônica documental da colônia, e seu autor tido como o pai da historiografia brasileira. Da obra de Varnhagen emerge a construção idealizada de uma nova nacionalidade: o Brasil da civilização branca.

Uma outra face do processo de construção da “identidade” nacional se encontra na fase áurea da literatura romântica indianista – de 1837 até fins de 1869. Nem tanto na obra apocalíptica e fulgurante de Gonçalves Dias, na qual o destino atroz e a morte pavorosa de tribos e raças eventualmente beiram a morbidez. Filho de português com cafuza, Dias (1823-1864) viu o pai abandonar a mãe assim que encontrou uma “branca de sociedade” com quem casar. Escrevendo na época em que a província do Maranhão ainda fervilhava na luta contra lusos renitentes, Gonçalves Dias viu o massacre dos indígenas como metáfora de uma sociedade ainda sufocada pelos tentáculos da Metrópole.

Foi com José de Alencar que o romance indianista se pôs plenamente a serviço de uma visão mitificadora da “nova” sociedade brasileira. Seus dois livros clássicos, O Guarani e Iracema – aliás, fundadores do romance nacional –, apresentam os nativos como bons selvagens, belos, fortes, livres e plenamente subservientes ao branco. Como em Gonçalves Dias, os índios morrem no fim – mas, em Alencar, essa morte se realiza numa espécie de altar de sacrifícios e dela emerge um novo Brasil. Em Alencar, não apenas os “autóctones”, mas a própria natureza brasileira é posta a serviço do nobre conquistador branco. Ou melhor: existe só para servi-lo. José de Alencar (1829-1877), deputado conservador, fundou o nativismo servil e colonialista. Ao fazê-lo inventou um novo passado para o Brasil. Passado a limpo.

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OS INDIGENISTAS: o apocalíptico Gonçalves Dias (no alto) e José de Alencar, um best-seller (à esquerda).

AS CORES E OS SONS DO MONARCA

A Academia Imperial de Belas-Artes desempenhou o papel de “braço pictórico” no projeto de “monumentalização” dos fatos históricos do Brasil concebido pelo Instituto Histórico e Geográfico sob a batuta de D. Pedro II. Criada pela Missão Francesa de 1816, a Academia se caracterizou, desde o início, como o berço de um certo neoclassicismo temporão; o baluarte seguro e feroz do academicismo, fechado às mudanças artísticas cujos ventos já varriam a Europa.

D. Pedro II adorava pintura neoclássica. De 1850 a 1880, muitos dos principais pintores brasileiros ganharam bolsas – em geral concedidas pelo próprio monarca – para estudar em Paris ou na Itália. A condição, porém, parecia ser a de manter-se hostil às novas diretrizes da arte, afastando-se do realismo de Coubert, do romantismo de Delacroix e do paisagismo de Corot. O resultado é que pintores como Pedro Américo e Vítor Meireles, especialistas em pinturas históricas e sacras, produziram obras clássicas e laboriosas, mas de um gélido alheamento, aprisionadas em disciplina e convencionalismo, empapadas num romantismo repleto de idealizações europeizantes. Pedro Américo e Vítor Meireles fizeram escola e definiram as novas feições visuais da nação.

Pedro Américo Figueiredo e Melo (1843-1905) foi descoberto, aos nove anos de idade, pelo viajante francês Louis Brunet, no vilarejo de Areias, na Paraíba. Acompanhou, como desenhista, a expedição daquele naturalista. Em 1859, já estava em Paris (com bolsa concedida por D. Pedro II). Estudou filosofia e literatura na Sorbonne, doutorou-se em física em Bruxelas. Mas sua fama se fez foi em Florença, onde apresentou as telas A batalha do Avaí, em 1877, e O grito do Ipiranga, em 1888 – ambas feitas por encomenda do imperador do Brasil. Em 1889, Pedro Américo foi eleito deputado constituinte no Rio.

O GUARANI SINFÔNICO

Certa tarde de 1869, sentado num café da Piazza dei Duomo, em Milão, Carlos Gomes comprou de um livreiro ambulante o livro Il Guarani – Romanzo Brasiliano. Nascia ali a inspiração para a mais famosa ópera brasileira de todos os tempos. Em março de 1870, no Teatro Scala de Milão, com um cenário monumental, estreava essa extravagante versão musical do romantismo indianista. Embora a mais famosa, O Guarani não é a melhor ópera de Carlos Gomes, que estava na Europa graças a uma bolsa concedida por D. Pedro II. A Fosca, de 1873, lhe é superior. Em 1889, Carlos Gomes recusou-se a atender ao pedido do marechal Deodoro da Fonseca para compor o Hino da República. Pagou caro a ousadia: ao morrer, em 1896 – já criticado na Europa –, cairia no ostracismo também no Brasil.

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Quando estava na Sorbonne, conhecera Vítor Meireles de Lima (1832-1903). Filho de família pobre, Meireles havia entrado na Academia, em 1847, para estudar pintura histórica. Aos 21 anos, já ganhara bolsa e estava em Paris. Pintou A primeira missa no Brasil, em 1861, exposta no Salão de Paris. Depois, também por encomenda do governo, fez A batalha naval do Riachuelo e Passagem de Humaitá. Em 1875, foi acusado de plágio ao apresentar A batalha de Guararapes, considerada cópia de A batalha do Avaí, que Pedro Américo pintava desde 1872. Duramente criticado, Meireles respondeu pelos jornais. A seguir, dedicou-se à cátedra.

Lecionando na Academia, Vítor Meireles foi o mestre da geração que deu continuidade à grandiloquente representação visual da história do Brasil: Henrique Bernardelli (Proclamação da República), Antônio Parreiras (A prisão de Tiradentes), Rodolfo Amoêdo (O último Tamoio). A idealização da realidade proposta por tais pintores fica clara em sua representação do indígena: os nativos são meras projeções da visão eurocêntrica do homem natural, pintadas com pieguismo tal que só lhes ressalta a estranheza quase alienígena. Além do mais, nesses quadros, índio bom é índio morto. Quanto aos negros, permanecem banidos das artes brasileiras até 1892, quando o espanhol Modesto Brocos y Gómez representou um “homem de cor” no quadro Engenho.

Ainda assim, entre os discípulos de Meireles surgiriam dois grandes inovadores da arte no Brasil: Elyseo Visconti (1866-1944), fundador de um paisagismo autenticamente brasileiro, e Almeida Jr. (1850-1899), que fez eclodir o brasileirismo submerso nesse romantismo pueril ao pintar os homens do campo com uma certa cor europeia, mas um lirismo original.

Esses homens fabricaram parte da memória visual da história do Brasil.

A DERROCADA DO IMPERADOR

Em 7 de setembro de 1872, o Brasil comemorou o cinquentenário de sua independência com grandes festas em todas as províncias da nação. D. Pedro II tomou parte ativa em várias delas. “O imperador sentia-se bem naquele jubileu de 50”, diagnosticou o historiador Capistrano de Abreu. De fato, durante quase duas décadas, D. Pedro II estivera à frente de um país sem grandes atribulações.

Quatro anos antes do jubileu, porém, a paz política tinha começado a se despedir – e logo se afastaria para sempre – do imperador. Tudo havia começado com a abrupta demissão do gabinete liberal chefiado por Zacarias de Góes e Vasconcelos, no dia 16 de julho de 1868. O estopim fora a nomeação, em janeiro anterior, do duque de Caxias – um ferrenho conservador – para o comando do Exército brasileiro na Guerra do Paraguai (leia sobre a guerra no próximo capítulo).

Foi o afastamento de Zacarias e de seus ministros que rompeu com os quinze anos de conciliação (de homens e de ideias) entre liberais e conservadores. De fato, em 1853, o marquês do Paraná organizara um ministério muito propriamente batizado de “Gabinete da Conciliação”. Embora tal gabinete tenha caído em 1859, a ascensão do “Gabinete Zacarias”, em 24 de maio de 1862, garantiria uma considerável estabilidade ao regime imperial – baseada fundamentalmente na preservação dos interesses das elites e na manutenção do regime escravista.

A Guerra do Paraguai aumentou o prestígio popular do imperador. Mas, depois do fim do conflito, no primeiro semestre de 1870, tudo começou a dar errado para D. Pedro II: uma sucessão quase conspiratória de acontecimentos que só cessaria com a sua destituição em 1889. De fato, os vinte anos que se seguiram ao final da Guerra do Paraguai foram o oposto das duas décadas anteriores.

“Abriu-se contra o imperador a guerra do ridículo, um veio incessantemente explorado pelos jornais ilustrados da imprensa popular, que surgiu em 1875 com a Gazeta de Notícias”, conta o mesmo Capistrano de Abreu. “O imperador tolerava que a crítica e o insulto, a própria calúnia, tivessem livre curso e campeassem impunes” diz Pandiá Calógeras. “Nunca se defendeu, seguro como estava em sua consciência de homem de bem de se achar acima de tais misérias.”

Fosse ou não um homem de bem – e muito provavelmente o era –, D. Pedro II, abatido com a morte da filha Leopoldina, em 1871, e muito afetado pela diabetes e pela insuficiência cardíaca, começou a alhear-se progressivamente do mundo. A volta dos liberais ao poder em 1878 não acalmou a nação. De um jorro, seguiram-se a “questão religiosa” (ver capítulo 21); as mortes de Caxias, Osório, Rio Branco, Nabuco, Alencar e Zacarias; o clamor abolicionista; e a fermentação republicana. “O edifício do prestígio oficial fendia-se de alto a baixo; uma atmosfera de chalaça deletéria envolvia tudo”, comenta Capistrano. “Só o imperador não dava por isso, embebido em seus estudos de sânscrito, persa, árabe, hebraico e tupi.” Pode-se dizer que foi com um certo alívio que, na tarde de 16 de novembro de 1888, D. Pedro II recebeu do major Sólon Ribeiro, comandante da cavalaria, a comunicação de que fora deposto e deveria deixar o país “no mais breve prazo possível”.

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O ÚLTIMO ADEUS

Foi no Hotel Belford, modesto estabelecimento em Paris, onde se hospedara no começo de 1890, que D. Pedro II passou os dois últimos anos de sua vida – enfim livre para os livros. No exílio, o imperador comportou-se com a dignidade sóbria e o retraimento supostamente erudito que sempre o caracterizaram. Recusou-se a receber pensão do governo, recusou-se a utilizar seu grande prestígio internacional para levar uma vida faustosa, embora quem lhe pagasse as contas fosse o barão de Penedo, provavelmente com dinheiro público, numa contradição bastante reveladora não apenas da personalidade, mas dos quase 50 anos durante os quais o imperador governara o Brasil. D. Pedro II morreu solitário, em 6 de dezembro de 1891. O escritor Victor Hugo chamou-o de “neto de Marco Aurélio”, o famoso fotógrafo Félix Nadar retratou-o no leito de morte (acima) e o governo francês o enterrou com honras de chefe de Estado, o que irritou militares republicanos no Brasil. D. Pedro II desceu ao túmulo levando seus mistérios. “É impossível conhecer-lhe o pensamento íntimo, os terrores que lhe perseguiram a infância, tendo feito da dissimulação um instinto de sua natureza e dado ao seu olhar qualquer coisa de intranquilo”, escreveu um contemporâneo.

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