Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
35. Das diretas a sarney
Capítulo 35
DAS DIRETAS A SARNEY
Depois de dez anos impedida de realizar passeatas ou participar de comícios, uma vasta parcela da população urbana do Brasil saiu às ruas para promover, em abril de 1984 e em abril do ano seguinte, enormes manifestações populares, comoventes e intensas, que trouxeram a história de volta às praças e às avenidas do país. Ironicamente, os dois movimentos teriam a marca da frustração. No dia 10 de abril de 1984, cerca de um milhão de pessoas participaram de um comício-monstro na praça da Candelária, no centro do Rio, para clamar por eleições diretas para a Presidência da República. Seis dias mais tarde, no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, outro comício, em tudo similar ao do Rio de Janeiro, revelou-se a ponta mais reluzente do iceberg da campanha pelas “Diretas Já”, que agitou o país no verão-outono de 1984-85. Embora os anseios da campanha (e da absoluta maioria da população urbana do Brasil) fossem frustrados pela votação da Câmara dos Deputados (onde faltaram 22 votos para a aprovação da emenda que estabelecia a volta de eleições diretas para presidente), tais manifestações virtualmente marcaram o fim do regime militar.
Onze meses após a derrota da emenda, o Brasil teria seu primeiro presidente civil em mais de vinte anos. Eleito pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves recebeu 480 votos contra 180 dados a Paulo Maluf. Desgraçadamente, um dia antes da posse, prevista para 15 de março, Tancredo foi internado por causa de um tumor no intestino. Durante 37 dias, o país viveria horas inesgotáveis de aflição e suspense, refém de boletins médicos fantasiosos, até que, em 21 de abril – Dia de Tiradentes –, Tancredo foi declarado morto. Então, as ruas do Brasil, especialmente as de São Paulo, Belo Horizonte e São João Del Rei, voltariam a ser tomadas por multidões, saudando, entre lágrimas e desmaios, o presidente que não foi e, mais ainda, o presidente que poderia ter sido.
Com a morte de Tancredo, tornou-se presidente o vice José Sarney, que já ocupava o cargo interinamente desde 15 de março. Sarney deu início à redemocratização do país, que se configurou com uma nova Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988. Graças à nova Carta, Sarney acabou permanecendo cinco anos no poder, prolongando em um ano o que, para muitos, era só um período de transição entre a ditadura (à qual Sarney estivera vinculado) e a democracia plena. Durante algum tempo, Sarney quase se tornou um herói popular, graças ao seu Plano Cruzado, o pacote econômico que congelou os preços e elevou brutalmente o consumo de leite, carne, cerveja, produtos eletroeletrônicos, discos, livros e carros no país. Mas o plano acabou naufragando (até pelo aumento desenfreado do consumo) e frustrando a atuação dos “fiscais do Sarney” – como eram chamados os cidadãos que pretendiam conferir se os preços estavam de fato congelados, num dos únicos exercícios de cidadania já levados a cabo no país. Sarney não se envolveu nas eleições para seu sucessor. De todo modo, o Brasil teria de esperar até o último mês do último ano da década de 1980 antes de, enfim, eleger por voto direto seu primeiro presidente em quase trinta anos (o último fora Jânio Quadros, eleito em 1961). Em dezembro de 1989, após uma campanha acirrada e votação equilibrada, o país saía de fato dos anos de chumbo (já muito desgastados) para mergulhar de cabeça nos anos de lama da Era Collor.
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A CAMPANHA PELAS DIRETAS JÁ
Foram as maiores manifestações públicas da história do Brasil. Nos dias 10 e 16 de abril de 1984, cerca de um milhão de pessoas se concentraram primeiro na praça da Candelária, no Rio, e depois no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, dispostas a derrubar o legado mais claro da ditadura militar e exigir eleições diretas para a Presidência da República. Esses comícios foram o apogeu de um movimento nacional que começara dois anos antes, por iniciativa de um novo partido, o dos trabalhadores (PT). Fundado em 1980, após a reforma partidária que acabou com a Arena e o MDB, o PT estava acostumado a desafiar a ditadura: dirigentes sindicais da região do ABC paulista (onde surgira o embrião do partido) tinham, desde 1975, organizado greves progressivamente ruidosas e bem-sucedidas.
Mal o PT lançou a campanha pelas “Diretas Já”, o PMDB não só se uniu a ela como faltou pouco para se apoderar de tal bandeira. Tanto é que o presidente do partido, Ulysses Guimarães, ficaria conhecido como o Sr. Diretas. O governador de São Paulo, Franco Montoro, também do PMDB, não só acolheu o movimento como, ao marcar um comício para o dia 25 de janeiro de 1984 (feriado em São Paulo), tornou-se um dos principais responsáveis pela primeira grande manifestação pelas Diretas Já, que reuniu 300 mil pessoas na praça da Sé (onde, vinte anos antes, a Marcha da Família dera o aval civil para o golpe militar de 1964). A partir de então, e especialmente após os comícios do Anhangabaú e da Candelária (apoiado pelo governador do Rio, Leonel Brizola, do PDT), todo o Brasil se engajou na campanha, com grandes manifestações no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais (onde o governador Tancredo Neves também apoiava as Diretas).
Mas uma coisa eram os devaneios populares e anseios oposicionistas. Outra, bem diferente, eram as amarras constitucionais que impediam eleições diretas. Para que o presidente do Brasil fosse eleito por voto popular, seria preciso alterar a Constituição. Para modificá-la, era necessário obter o voto de dois terços do Congresso. E o Congresso, desde as artimanhas do Pacote de Abril de 1977, era dominado pelo PDS, o partido ligado ao governo e herdeiro direto da Arena. O deputado Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, propusera emenda constitucional que introduzia eleições diretas. No dia 25 de abril de 1984, sob grande comoção e com o Congresso cercado pela PM, a emenda foi votada. Obteve 298 votos dos 479 congressistas, contando com várias e inesperadas adesões do PDS – mas precisava de 320 para ser aprovada. Depois de promover intensas e comoventes manifestações de rua, o Brasil civil foi derrotado por 22 votos.
Mas o clamor cívico das diretas revelara um novo país: o Brasil da força sindical, das multidões participantes e da imprensa atuante. A posição independente do diário Folha de S. Paulo, que apoiou abertamente a campanha, ajudou a torná-lo o principal jornal brasileiro nos anos 1980 e 1990.
Após a ressaca pela derrota das diretas, iniciaram-se as articulações para a escolha do sucessor de Figueiredo, que seria feita no Colégio Eleitoral. O PDS tinha dois candidatos: o vice-presidente Aureliano Chaves e o coronel Mário Andreazza. Andreazza era o favorito dos militares, mas ambos foram atropelados por Paulo Maluf. Aureliano retirou a candidatura e se uniu a um novo partido, o PFL, que lançou o ex-presidente do PDS, José Sarney, para vice de Tancredo Neves, candidato do PMDB. E, assim, Tancredo e Sarney foram para o Colégio Eleitoral enfrentar Paulo Maluf.
O SURGIMENTO DO PT
A Nova Lei Orgânica dos Partidos, aprovada em dezembro de 1979, numa das últimas artimanhas do general Golbery do Couto e Silva, extinguiu o bipartidarismo no Brasil e, ao acabar com a Arena e o MDB, abriu caminho, entre os escombros desses dois partidos mastodônticos, para o surgimento de várias novas siglas, entre as quais a mais inovadora foi a do Partido dos Trabalhadores (PT). Ao patrocinar o ressurgimento do pluripartidarismo, o verdadeiro objetivo do governo era acabar com o gigantismo do MDB. Os estrategistas do Planalto imaginavam que, além da Arena (rebatizada de PDS), não haveria espaço, no cenário político do país, para mais do que três partidos: um de centro, comandado por Tancredo Neves; outro populista, à sombra de Leonel Brizola; e o terceiro, agrupando alas mais radicais da esquerda, em torno de Miguel Arraes.
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Os cálculos falharam: o Partido Popular (PP) de Tancredo surgiu, mas jamais teve força. Brizola perdeu a sigla PTB para Ivete Vargas e teve de criar o PDT, enquanto o recém-criado PMDB manteve muito da estrutura do antigo MDB. Tida como “uma infâmia” por seu ex-presidente, Ulysses Guimarães, a extinção do MDB seria saudada pelo ministro da Justiça, Petrônio Portella, como “o arquivamento da camisa de força do bipartidarismo” e o início efetivo da redemocratização. De qualquer maneira, foi tal reforma que permitiu ao governo afastar o fantasma do desastre nas eleições diretas para governador, convocadas pelo presidente Figueiredo em 1980 e realizadas em 1982. De todo modo, após o fim do bipartidarismo, quase tudo permaneceria como dantes no quartel de Abrantes, não fosse o surgimento e o surpreendente crescimento do PT.
O PT nasceu fraco e menosprezado, numa mesa de um restaurante frango-compolenta, em 1980, em São Bernardo do Campo – SP. Era a ponta de lança do movimento sindicalista na região do ABC, que desafiara o governo militar ao deflagrar, em 1978 e 1979, greves gerais nas quais mais de 300 mil metalúrgicos cruzaram os braços. Aos operários da indústria automobilística juntaram-se intelectuais de esquerda, as comunidades eclesiais de base, a Pastoral da Terra e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).
Tendo como palavras de ordem autogestão e democracia social, o PT cresceria brutalmente sob a liderança de seu presidente, Luís Inácio Lula da Silva, líder dos sindicalistas do ABC. A consagração definitiva de Lula e do PT se daria em 1989, quando, pela primeira vez na história do Brasil, um operário – o próprio Lula – disputou a Presidência da República. Lula não ganhou (assim como voltaria a perder em 1994 e 1998), mas seu desempenho eleitoral foi um dos fenômenos mais surpreendentes dos anais da política brasileira.
Na verdade, o destino de Lula teima em contrariar sua biografia. Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, nos cafundós do sertão de Pernambuco, sétimo dos dezoito filhos dos lavradores Eurídice e Aristides Silva, Lula mudou-se com a família para São Paulo aos 7 anos, em 1952. Aos 15, empregou-se como metalúrgico. Em 1969, foi eleito diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, no qual chegou à Presidência em 1975. Foi várias vezes preso com base na Lei de Segurança Nacional e destituído do cargo de presidente de seu sindicato.
Em 1986, porém, elegeu-se deputado federal constituinte com 650 mil votos, a maior votação do país. Após as três derrotas consecutivas nas disputas presidenciais (para Fernando Collor em 1989, para Fernando Henrique Cardoso em 1994 e novamente para FHC em 1998), Lula enfim seria eleito presidente já em pleno século XXI. Reeleito em 2006, obteria os mais altos índices de aprovação popular de um presidente já registrados no Brasil, embora não se possa afirmar que tenha se tornado uma unanimidade no país (leia cap. 37).
O PRESIDENTE QUE NÃO FOI
Disposto a retroceder sobre os próprios passos, aliar-se com os inimigos, perdoá-los e esquecer suas ofensas, Tancredo de Almeida Neves era um político no sentido exato do termo. Mais do que isso: Tancredo era o típico político mineiro. Calado sempre que possível, reticente quando necessário, corajoso em momentoschave, capaz de guinadas oportunas e, eventualmente, oportunistas, Tancredo tornou-se um especialista em caminhar no fio da navalha. Tais habilidades de malabarismo político não o impediram de ser, por vezes, forçado a descer do muro – ora à esquerda, ora à direita. Depois de ir às ruas pedindo eleições “Diretas Já”, rendeu-se às evidências de que o período mais nebuloso da vida pública brasileira permanecia atrelado ao “entulho autoritário” e candidatou-se à Presidência da República em pleito indireto.
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Em 1985, aos 75 anos, foi eleito presidente – mas morreu antes da posse. Tragédia de tal proporção levou Tancredo ao patamar reservado aos mártires nacionais – e impediu que sua vida e sua obra fossem analisadas sob o ângulo frio dos fatos concretos. Mais do que se tornar o presidente que não foi, Tancredo Neves passou à história como o presidente que poderia ter sido – no sentido ideal da expressão.
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Descendente de açorianos, Tancredo nasceu em 4 de março de 1910 em São João Del Rei – MG, quinto dos doze filhos de Francisco Neves e Antonina de Almeida. O pai, vereador, morreu aos 48 anos, mas inoculou no filho o gosto pela política. Em 1932, Tancredo tornou-se advogado. Três anos depois, elegeu-se vereador pelo Partido Progressista.
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Com o golpe do Estado Novo, em 1937, Tancredo perdeu o mandato. Em 1945, com a queda da ditadura, novos ventos o levaram ao Partido Social Democrata (PSD). Elegeu-se deputado em 1946 e apoiou a candidatura de Dutra à Presidência. Em 1953, tornou-se ministro da Justiça de Vargas (que o cassara quinze anos antes). Foi ignorado pela “República do Galeão”, que investigou por conta própria o atentado a Lacerda, e assistiu da antessala do poder ao dramático desfecho da madrugada de 24 de agosto de 1954, quando Getúlio deixou “a vida para entrar na história”. Depois de atacar duramente o novo governo chefiado por Café Filho, Tancredo foi um dos maiores articuladores da campanha de JK, de quem se tornou conselheiro.
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UMA VIDA EM QUATRO TEMPOS: de cima para baixo, Tancredo como candidato a deputado em 1946, como ministro de Vargas e de João Goulart e na capa da revista norte-americana Newsweek.
Em 1961, quando a turbulência de um golpe de Estado já se desenhava nos céus do país, Tancredo foi encarregado de negociar com João Goulart as condições para que os militares aceitassem a posse do vice-presidente após a renúncia de Jânio Quadros. Graças ao êxito da missão, assumiu como primeiro-ministro do governo parlamentarista. Quando o governo Goulart começou a pender para a esquerda, Tancredo se demitiu. Mas o golpe era página já escrita e, quando ele eclodiu, em 31 de março de 1964, Tancredo se manteve no posto de deputado federal. Da trincheira no MDB, equilibrou com rara eficiência papéis antagônicos, alternando-se entre a negociação e a oposição a um regime de ferocidade crescente. Tal posição o forçou a se manter calado inúmeras vezes, mas igualmente o impediu de ser cassado. Senador em 1978, aliou-se ao seu inimigo histórico, o também mineiro Magalhães Pinto, para formar o Partido Popular (PP), que se fundiu com o PMDB quando Tancredo se tornou, junto com Ulysses Guimarães, uma das principais figuras da Campanha das Diretas e o “candidato natural” à Presidência da República, ainda que por vias indiretas.
ELEIÇÃO E AGONIA DE TANCREDO
Os brasileiros despertaram cedo naquele 15 de março de 1985, sobressaltados pela saudável expectativa de assistir à posse de um presidente eleito. Acabaram tendo uma desagradável surpresa ao ligar a TV e assistir à posse de José Sarney, um vice que parecia ter entrado na chapa como mero complemento. Àquela altura, Tancredo Neves embarcava numa viagem sem volta num leito do Hospital de Base, em Brasília.
Internado às pressas, estava destinado a jamais assumir a condição de ocupante do Palácio do Planalto. As dores se manifestavam havia vários meses, mas, apesar da insistência de sua mulher, Risoleta, e de amigos e assessores mais próximos, Tancredo estava decidido a levar até o fim o papel de candidato viável – o que naquele momento significava alguém de perfil liberal o suficiente para canalizar as esperanças da retomada da democracia, e conservador o bastante para não cutucar demais a moribunda ditadura militar.
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Em 15 de janeiro de 1985, o Congresso elegeu Tancredo Neves o 31º presidente do Brasil, conferindo-lhe 480 votos, contra os 180 dados a Paulo Salim Maluf. A herança do regime militar incluía a maior inflação da história, uma dívida de US$ 100 bilhões e uma lista de incontáveis escândalos financeiros. Tancredo carregava o sonho dos brasileiros de ver o país ingressar num período de liberdades políticas, transparência da administração pública e crescimento econômico sustentável.
O sonho de Tancredo de conduzir esse processo, no entanto, não chegou a se concretizar. Em 13 de março, a dois dias da posse, submetido a exames, foi informado pelos médicos da existência de um processo infeccioso agudo no abdômen. Precisava ser operado com urgência. “Os senhores precisam saber que até o dia 17, às 5 horas da tarde, eu não posso me submeter a essa cirurgia”, disse taxativamente. Para o dia e horário citados, estava marcada a primeira reunião ministerial do novo governo. A partir dali, imaginava, sua internação já não provocaria turbulências graves e os militares não iriam intervir no processo de redemocratização.
Na noite do dia 14, o quadro clínico indicava possibilidade de parada cardíaca, parada respiratória e morte. Mesmo alertado dos riscos, Tancredo Neves só concordou em ir ao hospital para tomar soro. Foi o truque encontrado pelos médicos para interná-lo. Começava a longa agonia de Tancredo e de todos os brasileiros.
Enquanto se iniciava a cirurgia, numa sala reservada do Hospital de Base, alguns dos caciques da chamada “Nova República”, entre os quais os novos ministros Marco Maciel, Aureliano Chaves, Leônidas Pires Gonçalves, Affonso Camargo e o senador Fernando Henrique Cardoso, decidiam que era preciso preparar com rapidez a posse do vice-presidente eleito José Sarney. Havia temores de que a linha-dura não aceitasse a posse de Sarney e aproveitasse o pretexto para criar uma nova crise institucional de consequências realmente imprevisíveis.
LENTO CALVÁRIO
Embora os médicos se referissem a um certo “divertículo de Meckel”, o que Tancredo Neves de fato tinha era um tumor no abdômen. Para oferecer ao país um quadro otimista, médicos e assessores mentiram durante um mês para toda a nação. “O presidente andou pelo quarto, fez exercícios respiratórios. Está sem febre e acabou o risco de complicações respiratórias”, bradava o primeiro comunicado oficial, dando o tom de falsa esperança que se reproduziria a partir daí. O coordenador da junta médica formada para acompanhar o caso, Henrique Walter Pinotti (que se autodenominava “professor doutor”), não revelou à família as reais condições de Tancredo. Além de Pinotti, outro personagem que adquiriu notoriedade nacional durante a agonia de Tancredo foi o jornalista Antônio Britto (que depois ingressaria na carreira política, tornando-se governador do Rio Grande do Sul em 1994). Britto, convidado para ocupar a Secretaria de Imprensa no novo governo, acabou se tornando o porta-voz do calvário. No dia 25 de março, Tancredo teve uma gravíssima hemorragia interna. No dia seguinte, foi levado para o Instituto do Coração, em São Paulo, onde lutaria contra a morte por quase um mês. Ao todo, o presidente foi submetido a sete cirurgias. Na noite de 21 de abril – dia do mártir Tiradentes –, as TVs de todo o país interromperam sua programação para mais um boletim de Britto. Seria o último. A frase “lamento informar” e a expressão grave do portavoz prepararam o país para a tragédia: Tancredo estava morto. A comoção causada pela agonia, morte e funerais de Tancredo pode ser comparada à emoção suscitada pelo suicídio de Vargas, 31 anos antes. E, assim que morreu Neves, o país, liberto do transe, passou a perguntar em uníssono: E agora, José?
TODO O PODER A SARNEY
Ao assumir o poder, em 15 de março de 1985, como presidente em exercício, o maranhense José Sarney o fez em meio a uma tragédia nacional e numa situação politicamente instável. Escolhido para integrar a chapa de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral como candidato a vice-presidente, Sarney era um oposicionista de ocasião cuja indicação fora, na melhor das hipóteses, engolida pelo PMDB (que, para compor com o recém-formado PFL a chamada Aliança Democrática, precisou dessa aproximação com o homem que já havia sido presidente da Arena e do PDS).
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Sarney estava longe de ser o candidato dos sonhos dos brasileiros e poderia ter passado despercebido ao longo dos quatro anos de mandato, não tivesse Tancredo morrido sem chegar a assumir a Presidência. Ao deixar o governo, em 15 de março de 1990, porém, Sarney entrara para a história como o presidente da redemocratização, o homem que havia legado ao país uma nova Constituição e provocado imensa mobilização nacional em torno de um pacote econômico, o Plano Cruzado. Graças às astuciosas manobras na Constituinte, Sarney também prolongara seu mandato em um ano, permanecendo cinco na chefia da nação.
Era um sonho que poucos anos antes nem ele próprio seria capaz de imaginar, embora, desde cedo, estivesse ligado à política. José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasceu em Pinheiro, no Maranhão, em 1930. Entrou na vida pública pelas mãos do “coronel” Vitorino Freire, “dono” da política maranhense, e por influência do próprio pai, José Sarney Costa, de quem adotou legalmente o nome (já que, no início da carreira, só era chamado de “o Zé do Sarney”). Formado em Direito, foi eleito quarto suplente de deputado federal pelo PSD, em 1954. Quatro anos depois, rompeu com o “vitorinismo” e trocou o PSD pela UDN. Passou a fazer parte da chamada “bossa nova” da UDN e vinculou-se à candidatura vitoriosa de Jânio Quadros, eleito presidente em outubro de 1960.
Tidos como “filocomunistas” por seus adversários, os integrantes da “bossa nova” udenista eram favoráveis aos projetos reformistas de Jânio Quadros. Após a renúncia do presidente, o grupo – com Sarney à frente – apoiou a posse de João Goulart, revelou-se favorável ao Plano Trienal – e às reformas agrária, urbana e bancária. Dias antes do golpe de 1964, Sarney ocupou a tribuna da Câmara para declarar corajosamente que “um regime de opressão e de opróbrio jamais satisfaz o povo”. Foi sua primeira e uma de suas últimas críticas à ditadura.
Em 1971, Sarney foi eleito senador. Ao longo do governo Geisel, a partir de 1974, defendeu a “distensão” e a abertura. Quatro anos depois, foi acusado de ter se apossado de milhares de hectares, aumentando a área da fazenda Maguari, que teria herdado do sogro. Em janeiro de 1979, foi feito presidente da Arena por indicação do general-presidente João Figueiredo.
Inicialmente favorável à manutenção do bipartidarismo, Sarney logo se adaptou às novas regras do jogo e foi um dos fundadores, o coordenador e primeiro presidente do PDS, do qual só sairia para formar com Tancredo a vitoriosa Aliança Democrática. Apesar de sua ligação fisiológica e da inegável intimidade com o regime militar, o governo Sarney proporcionou avanços para a democracia no Brasil. Em maio de 1985, foi aprovada a eleição direta para a Presidência da República, e os partidos de esquerda foram legalizados. Na verdade, saíram da clandestinidade para a obscuridade ante a estrela do PT – e de Lula, elevado, no imaginário das esquerdas brasileiras, ao papel desempenhado por Luís Carlos Prestes, havia mais de 50 anos.
Filiado ao PMDB, Sarney e seu Plano Cruzado (lançado em fevereiro de 1986) foram os principais responsáveis pela monumental vitória do partido nas eleições de novembro de 1986, nas quais o PMDB elegeu os governadores de todos os estados, exceto Sergipe. Mas a principal conquista de um governo que não venceu a inflação foi a promulgação da nova Constituição, em 5 de outubro de 1988 – o que marcou a retomada plena das liberdades civis. Assim sendo, Sarney acabou cumprindo a principal obrigação que se exigia dele: foi o último presidente a não ser eleito pelo voto direto e não influiu na própria sucessão. Seu sucessor, Fernando Collor de Mello, seria levado ao poder por 35 milhões de votos e pela soberana e incontestável vontade popular.
De qualquer sorte, após deixar a Presidência, Sarney estava longe de deixar o centro das decisões. Espécie de donatário do Maranhão – estado que é quase sua capitania hereditária – e com conexões políticas também no Amapá (pelo qual elegeu-se senador em 1991 e em 2003), ao longo das últimas quatro décadas, Sarney, na verdade, jamais se afastou do coração do poder. Mas, ironicamente, seria durante o segundo mandato de Lula – quando ocupou pela terceira vez a Presidência do Senado – que uma sequência de denúncias e desventuras em série o desnudaram perante as parcelas mais esclarecidas da população, como típico representante do coronelismo e de práticas fisiologistas, nepotistas e clientelistas da política brasileira, especialmente no Norte e Nordeste do país. E foi dessa forma e nesses termos que, pouco antes de completar 80 anos, em abril de 2010, José Ribamar Sarney foi definido pela revista inglesa The Economist.
NO FIO DO BIGODE
Embora tenha alcançado altos índices de popularidade durante o período em que o Plano Cruzado permitiu a muitos “pobres” beberem leite e cerveja como nunca na vida, José Sarney chegara à Presidência por caminhos tortuosos e (duplamente) indiretos. Talvez por isso, talvez por sua ligação uterina com o regime militar, talvez por certos aspectos caricaturais de sua figura e de sua personalidade (o bigode mexicano, os jaquetões no estilo “safári”, o discurso pomposo e vazio), Sarney tornou-se o alvo favorito de alguns intelectuais e jornalistas de língua e pena afiadas. Entre eles, destacaram-se Paulo Francis e Millôr Fernandes, que durante cinco anos atacaram implacavelmente o ex-presidente da Arena. Mas, independentemente das críticas e dos deboches – bem como de acusações bastante fundamentadas de seu envolvimento em práticas nepotistas e em malversação de verbas públicas –, Sarney seguiu no centro do poder e tornou-se o mais evidente símbolo dos descaminhos do Senado nacional, que presidiu por três vezes. Sarney é o retrato vivo de que, em pleno século 21, o Brasil ainda guarda resquícios de uma política quase feudal e do quanto ainda falta para o país tornar-se uma nação verdadeiramente moderna.
O PLANO CRUZADO
Apesar de suficientemente vacinados contra planos anti-inflacionários milagrosos e fórmulas mágicas que lhes permitiriam dormir no Brasil e acordar na Suíça, os brasileiros tiveram motivos extras para acreditar que, daquela vez, seria diferente. Em 28 de fevereiro de 1986, o presidente José Sarney serviu-se de uma cadeia de rádio e televisão para anunciar ao país a mais radical mudança na economia nos últimos anos: o Plano Cruzado.
O combalido cruzeiro, privado dos três zeros inúteis que tinha à direita, foi substituído pelo cruzado, que nascia como a nova moeda “forte” nacional. Os preços e o câmbio foram congelados, o mesmo ocorrendo com os aluguéis; as prestações, que começaram a sofrer a chamada “deflação”, eram calculadas por meio da “tablita”. Os salários, é claro, foram igualmente congelados, mas só após terem sido reajustados pelo valor médio dos últimos seis meses, mais um abono de 8%. A livre negociação estava liberada, desde que os valores de eventuais aumentos não fossem repassados aos preços. Quando a inflação ultrapassasse os 20%, seria automaticamente disparado o “gatilho salarial”, que reajustaria os salários nesse mesmo porcentual.
Embora estivesse disposto a redemocratizar o país, Sarney lançou o plano na forma de um decreto-lei, impondo-o à sociedade de cima para baixo, sem discussões, como as medidas tomadas pelo regime militar. Ainda assim, o plano pareceu satisfazer os anseios da população por uma maior participação nos destinos do país. Tanto é que, servindo-se largamente do bordão “brasileiras e brasileiros”, o presidente conseguiu convencer o povo a se engajar na cruzada econômica, a ponto de logo surgir a figura dos “fiscais do Sarney”. Era comum se assistir, com ampla divulgação da mídia, a cidadãos comuns, travestidos de xerifes do congelamento, fechando supermercados, ou mesmo dando voz de prisão a comerciantes dispostos a burlar a cruzada da moralidade dos preços. Por mais burlesca que acabasse se revelando, essa foi a primeira manifestação coletiva de defesa dos direitos do consumidor e de exercício pleno da cidadania ocorrida no Brasil.
Mas, capitaneado pelo ministro da Fazenda, Dílson Funaro, e pelos economistas ligados ao PMDB que o urdiram em segredo, o Plano Cruzado logo começou a revelar sua fragilidade, fruto de sua desvinculação com a realidade efetiva dos números do Brasil. O congelamento, com a consequente corrida ao consumo, acarretou dois problemas: a queda na produção, que levou ao aumento excessivo das importações, provocando um preocupante desequilíbrio da balança comercial, e o surgimento do ágio, quantia cobrada “por fora” para quem quisesse ter acesso aos produtos escondidos pelo comércio e pela indústria na expectativa de uma eventual liberação dos preços.
O aspecto mais grave do fracasso do plano reside no fato de que, caso tivesse sofrido reajustes a tempo, ele poderia ter sido mais eficaz. Mas, disposto a lucrar com os dividendos políticos que a ilusão monetária provocara nas classes baixa e média, o governo recusou-se a fazer qualquer mudança real (o “Cruzadinho”, lançado em 24 de julho de 1984, revelou-se um paliativo inútil) antes das eleições marcadas para novembro. Ao irem às urnas naquele mês, os “brasileiros e brasileiras” conferiram uma esmagadora vitória ao PMDB, ludibriados pelo pretenso sucesso do Cruzado, cujo real fracasso o governo se encarregou de esconder até garantir o êxito eleitoral. Passado o pleito, o aumento de tarifas e impostos ressuscitou o pesadelo da inflação. O Cruzado fora apenas nuvem passageira.
A CULTURA NOS ANOS 1980 E 1990
Se tantas vezes o Brasil parece uma piada sem graça, por que não fazer de sua arte um chiste mordaz? Foi com o espírito da irreverência macunaímica, típica do país tropical abençoado por Deus, que a cultura brasileira – em fase definitivamente pop – deu boasvindas aos anos 1980. Descendente virtual do grupo teatral mais dissonante do país – o Asdrúbal Trouxe o Trombone, que desde 1974 mixou música e zombaria nos palcos da vida –, o grupo musical Blitz serviu chope e batata frita na mesa de brasileiros e brasileiras a partir de setembro de 1982, com o lançamento do álbum As Aventuras da Blitz.
O humor da banda liderada por Evandro Mesquita, ex-integrante do Asdrúbal, foi responsável pela explosão do rock no Brasil. Quinze anos depois, o deboche da Blitz (que tinha nos vocais a futura diva da dance music nacional, Fernanda Abreu) seria o tempero utilizado pelo maior fenômeno da indústria fonográfica no país: os Mamonas Assassinas, que venderam dois milhões de cópias de seu disco de estreia, antes de morrerem em um trágico acidente aéreo. Também nos anos 1990, e com o mesmo bom humor, uma nova safra de bandas – Chico Science, Raimundos e Skank – redefiniria os caminhos do rock “brazuca”, dando-lhe, enfim, um sotaque nacional.
Depois que a Jovem Guarda envelhecera e a MPB virara a principal voz musical da nação ao longo da década de 1970, o rock só tinha conseguido voltar às paradas em 1980, com o humor descompromissado e carioca da Gang 90, a precursora da new wave nacional, fundada por Júlio Barroso, poeta ligado ao movimento “udigrude” dos anos 1970. A Blitz aproveitou a mesma onda e a propagou em escala muito maior com o sucesso “Você não soube me amar”.
Mas foi com sotaque anglo-saxão e letras politizadas que o rock se estabeleceu de vez entre a moçada tupiniquim e acabou se tornando o fato cultural mais significativo dos anos 1980 no Brasil. Tudo começou com roqueiros que moravam em Brasília – a cidade na qual o poder está tão próximo e tão longe; o reino do tédio para rebeldes com causa. Foi nas proximidades do Planalto que o Aborto Elétrico, grupo do vocalista Renato Russo, fez seu primeiro show, em janeiro de 1980. Cinco anos depois, a Legião Urbana do mesmo Renato lançaria seu primeiro disco, batizaria sua geração – Coca-Cola – e começaria a percorrer uma estrada de sucessos que só acabou em 1996, com a morte de seu fundador.
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Renato Manfredi Júnior, o Renato Russo, foi o mais carismático letrista e vocalista de seu tempo. Divide tal posto e tal glória com o carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, líder da banda Barão Vermelho. Ambos injetaram poesia no rock. Ambos percorreram a estrada dos excessos em busca do palácio da sabedoria. Ambos fizeram o Brasil mostrar a sua cara com questões simples e diretas, como o rock deve ser e fazer: afinal, “Que país é este?” Ambos morreram no auge da fama, como convém a roqueiros rebeldes. Ambos vitimados pela Aids, o mal do fim do século que os dois cantaram.
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OK, VOCÊS VENCERAM: o grupo Blitz (abaixo) e a Legião Urbana, de Renato Russo (no alto), deram nova vida à música pop brasileira, ajudando o Brasil a entrar em uma nova era de democratização. Na página ao lado, o poeta Cazuza.
Brincadeira no começo da década, o rock virou coisa séria quando passou a render milhões de cruzados: a adoção do Plano Cruzado, em 1986, deu o impulso definitivo à indústria do disco no Brasil. Embalado pelo sabor do sucesso de suas Louras geladas, o RPM se tornaria o maior fenômeno comercial da geração Coca-Cola. O rock nacional emplacava um produto atrás do outro: Titãs, Ultraje a Rigor, Camisa de Venus, Lobão. Até a maior estrela infantil do país em todos os tempos, a “rainha dos baixinhos”, Xuxa, que estreou na TV Globo em junho de 1986, vendeu LPs aos milhões e desbancou Roberto Carlos do posto de maior vendedor de discos do país.
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Se nos anos 1980 o Brasil da Blitz, do Barão e da Legião e de seus amigos de Brasília, os Paralamas do Sucesso (que nos anos 1990, em alto e bom som, chamaram os congressistas nacionais de “300 picaretas”), foi mais roqueiro que qualquer outra coisa, isso se deu também pela deficiência de suas demais expressões artísticas, que ou não aproveitaram as benesses do cruzado ou mergulharam no mais puro comercialismo.
O cinema começou a década de 1980 com grande perda: Glauber Rocha morreu em agosto de 1982. O profeta que criara a estética da fome não viveria para ver sua definição adquirir um sentido mais perverso: em 1987 a Embrafilme, criada pelo governo para subsidiar produções nacionais, foi desativada e o cinema nacional ficou à míngua. A Era Collor deixaria as coisas ainda piores: as produtoras entraram no vermelho e os anos passaram em branco. O teatro, com exceções como as peças de Antunes Filho (que em 1978 dirigira Macunaíma), virou um desfile de estrelas globais. As artes plásticas se enclausuraram no circuito das galerias, leilões e vernissages.
A indústria editorial faturou muito com o cruzado, mas, embora a década das letras tenha começado com o best-seller Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, lançado em 1982, a literatura se manteve opaca. Em um país que costuma se entender melhor pela piada, os gozadores de plantão prosperaram. Em 1988, ano da morte de Chacrinha, estreou TV Pirata, programa de que faziam parte os atores Regina Casé e Luís Fernando Guimarães, também ex-integrantes do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Seu humor escrachado, sob a direção do brilhante Guel Arraes (filho do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes), abriu caminho para o sucesso da turma do Casseta & Planeta, grupo de humoristas furiosos que em 1997 estarreceriam a nação ao fazer uma das mais alarmantes denúncias da história dos escândalos políticos do país: “Deputados comprados vieram com defeito!” – e o pior é que não havia posto de troca, nem para quem reclamar.
No Brasil, só dói quando respiramos. O resto todo é muito engraçado.