Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
7. O brasil francês
Capítulo 7
O BRASIL FRANCÊS
Certa ocasião, em tenso diálogo com um diplomata espanhol, o rei da França, Francisco I, proferiu a frase que a história se encarregaria de imortalizar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me afastou da partilha do mundo…” O monarca francês evidentemente se referia ao Tratado de Tordesilhas – o acordo planetário que Portugal e Espanha tinham assinado em 1494, dividindo o mundo entre si, com bênção papal.
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De acordo com tais estipulações, os dois reinos ibéricos asseguravam não apenas a soberania sobre as “terras descobertas ou por descobrir” tanto no Ocidente como no Oriente: obtinham também, e acima de tudo, a exclusividade da navegação no oceano Atlântico. Era justamente contra a doutrina do maré clausum (mar fechado) que Francisco I erguia sua voz, já que os franceses – logo imitados por ingleses e holandeses – defendiam a tese do maré liberum (mar aberto à navegação para todas as nações).
De qualquer forma, a corte francesa foi logo atropelando polêmicas legais e sutilezas jurídicas, disposta a transformar as capitulações de Tordesilhas em letra morta. E, por uma série de circunstâncias – geográficas, náuticas, econômicas e até políticas –, o principal objetivo das incursões dos piratas e dos corsários franceses tornar-se-ia o desguarnecido litoral do Brasil. Assim, durante as cinco décadas que se seguiram ao desembarque de Cabral, traficantes de pau-brasil – em geral vindos da Normandia e da Bretanha – iriam desempenhar um papel-chave na história da colonização e da ocupação do Brasil, simplesmente porque, de início, boa parte do que os portugueses fizeram na colônia não foi muito mais do que uma mera reação ao assédio progressivamente arrojado dos “entrelopos” (como eram chamados os contrabandistas do “pau de tinta”).
Em pelo menos duas ocasiões – em 1530 e 1548 – a América portuguesa esteve em vias de se tornar, mesmo que momentaneamente e em parte, um território francês. Muito menos estudado do que as duas invasões “oficiais” – os episódios conhecidos como “França Antártica” e “França Equinocial” –, o período relativamente nebuloso que se estende de 1504 a 1548 foi, na verdade, uma época de atividade febril ao longo da costa brasileira, percorrida por normandos e bretões com igual desenvoltura e mais frequência do que pelos próprios portugueses.
Os laços entre os navegantes franceses e o litoral sul-americano tinham começado a se estreitar apenas quatro anos depois da descoberta oficial do Brasil. Em fins de 1503, o comerciante e navegador Binot Paulmier de Gonneville armou um navio com o objetivo de chegar à Índia. Como os pilotos portugueses que ele secretamente contratara em Lisboa perderam-se em alto-mar, a expedição acabou aportando no litoral do atual estado de Santa Catarina – provavelmente na ilha hoje chamada São Francisco do Sul.
Ali, a partir de janeiro de 1504, Paulmier e seus homens conviveram com os Carijó ao longo de seis meses. Ao partirem de volta para a França, levaram consigo o jovem “príncipe” Essomeriq (talvez Içá-Mirim), filho do “cacique” Arosca.
Paulmier deveria trazer Essomeriq outra vez para o Brasil no prazo de “vinte luas” – tão logo o guerreiro tivesse aprendido a “fazer canhões” com os franceses. Como naufragou no litoral da Normandia, Binot Paulmier de Gonneville jamais retornou à América. Essomeriq casou-se com a filha de seu “raptor” e viveu por mais de meio século na França. Morreu sem rever a terra natal, em 1583 – alegadamente com 94 anos de idade.
Embora a viagem de Gonneville tenha redundado em sua própria falência, ela abriu novos e estimulantes horizontes comerciais para os navegadores bretões e normandos. Quando se soube que o território que ele visitara era repleto de pau-brasil, uma explosiva equação articulou-se nos portos de Rouen, Dieppe e Saint-Malo, misturando uma longa tradição de pirataria com a crescente demanda por corantes naturais provocada pela indústria têxtil da França – cujo centro era justamente naquelas cidades portuárias.
A partir de então, armadores e comerciantes franceses – contando com o apoio formal ou com a dissimulada omissão de seu rei, Francisco I – passaram a enviar um fluxo constante de expedições “ilegais” ao Brasil. Como não vinham com disposição de instalar-se permanentemente na nova terra, nem com planos de colonizá-la, os “entrelopos” logo puderam estabelecer uma aliança altamente vantajosa com nações indígenas que ocupavam a costa do Brasil – em especial com os Caeté, os Potiguar e os Tamoio. Várias zonas do litoral brasileiro – principalmente a Paraíba, o Rio Grande do Norte, o Ceará, partes de Pernambuco e, mais tarde, o Rio de Janeiro – tornaram-se regiões sob controle quase absoluto dos franceses, nas quais os navios portugueses raramente podiam se arriscar.
Em 1530, um dos principais motivos que levou o rei D. João III a enviar a expedição comandada por Martim Afonso de Souza foi justamente a repressão aos traficantes franceses de pau-brasil – que haviam tomado e se instalado em uma feitoria portuguesa localizada na ilha de Itamaracá – PE. Em 1548, outra vez a ameaça francesa (que se estendia então ao Rio de Janeiro, ameaçando a própria sobrevivência da capitania de São Vicente) serviu como estímulo para D. João estabelecer um Governo-Geral no Brasil, tornando a colonização da América Portuguesa enfim responsabilidade oficial da Coroa.
Ainda assim, o novo regime só se solidificaria depois que o terceiro governador-geral, o desembargador Mem de Sá, se mostrasse capaz de expulsar os franceses que, em 1555, haviam se instalado no Rio de Janeiro.
A FRANÇA ANTÁRTICA
Na metade do século XVI, depois de cinquenta anos percorrendo o litoral brasileiro, os franceses concluíram que era chegada a hora de armar uma expedição colonizadora para lançar as bases de um futuro império ultramarino no Novo Mundo. Durante cinco décadas, normandos e bretões haviam reconhecido e cartografado a maior parte do litoral do Brasil e estabelecido com os indígenas um relacionamento mais rentável e, talvez, mais equilibrado que os portugueses – já que a escravização dos nativos nunca estivera entre seus principais objetivos. Para se alçar em uma aventura colonialista, faltava-lhes apenas o homem certo. Quem poderia supor que Nicolas Durand de Villegaignon era o homem errado?
Cavaleiro da Ordem de Malta, universitário de formação e militar por temperamento, soldado, navegador, diplomata, historiador, erudito e até filólogo – tido como um “homem de toga e espada” –, Villegaignon tivera, até então, uma carreira brilhante. Nascido em 1510, fora colega de Calvino, formara-se em Direito, participara da tomada de Argel, na África, combatendo ao lado do imperador Carlos V, e, acima de tudo, havia ludibriado brilhantemente os ingleses ao conduzir, por mar, a rainha Mary Stuart da Escócia à França, para casar-se com o herdeiro do trono francês, Francisco II, filho do rei Henrique II. Nomeado vice-almirante da Bretanha, Villegaignon indispôs-se com o governador local no início de 1555 e, magoado com o apoio dado pelo monarca a seu desafeto, decidiu provar mais uma vez seu valor, fundando uma colônia francesa no Rio de Janeiro.
Para concretizar seu projeto, buscou o apoio de importantes personalidades como o Cardeal de Lorena, a mais influente autoridade católica da França, e o almirante Gaspard de Coligny, líder dos huguenotes – calvinistas franceses que já então começavam a ser perseguidos. A ambos prometeu liberdade religiosa total na nova colônia e, com isso, conseguiu que o rei liberasse mais de 10 mil francos e armasse dois navios de guerra e um de carga para a expedição. Como tripulantes e soldados foram contratados cerca de seiscentos homens, mas nenhuma mulher – o que viria a se tornar um dos maiores problemas para Villegaignon na tentativa de concretizar seu projeto de ocupação e colonização do Rio de Janeiro.
ANDRÉ THEVET
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As marteladas com as quais Martinho Lutero pregou, na porta da capela do castelo de Wittenberg, Alemanha, as 95 Teses, que, em 1517, rachariam para sempre a unidade do cristianismo, ecoaram, 40 anos depois, na baía da Guanabara num confronto entre o franciscano André Thevet (à esquerda) e o calvinista Jean de Léry, os dois maiores cronistas da França Antártica. Thevet, cosmógrafo de origem humilde, nasceu em 1502 e chegou ao Rio como cronista oficial da expedição de Villegaignon. Em janeiro de 1556, desiludido com os rumos religiosos da colônia, retornou à França, onde redigiu As Singularidades da França Antártica. Publicado em 1557, seu livro foi o segundo a trazer ilustrações representando índios, animais e plantas do Brasil. O sucesso da obra ajudou Thevet a ficar famoso.
Desde o início tudo deu errado. A expedição, que partira de Havre em 12 de julho de 1555, foi logo colhida por terrível tempestade e obrigada a ancorar em Dieppe, onde quase todos os tripulantes desertaram, apavorados com o “aviso dos céus”. A Villegaignon restaram apenas algumas dezenas de degredados, ao passo que os outros oitenta homens que ele conseguiu arregimentar pelas ruas de Dieppe foram recrutados entre “desclassificados, vagabundos e mercenários”. Finalmente, no dia 10 de novembro, após uma travessia repleta de contratempos, os navios franceses, com cerca de 130 homens a bordo, entraram na baía de Guanabara. Villegaignon instalou seu acampamento numa ilhota de 1,5 quilômetro de circunferência, chamada Serigipe pelos indígenas. Localizada próxima ao continente, em frente ao atual aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio, a ilha hoje abriga a Escola Naval.
Ali, Villegaignon mandou construir um baluarte de madeira, que chamou de forte Coligny em homenagem ao principal patrocinador do projeto de ocupação do Rio. Em seguida, começou a planejar a construção de Henriville, vilarejo que pretendia erguer no continente, nas cercanias do atual morro da Glória, quase defronte à ilha. Mas os problemas logo recomeçaram. A escassez de víveres obrigou os homens a se alimentar com raízes em vez de pão, e a beber água em lugar de vinho. As obras de aterro e de construção das paliçadas eram extenuantes, e os soldos, baixíssimos. Villegaignon estabeleceu um regime de rígida disciplina, e a falta de mulheres recrudesceu a violência e o mau humor dos “soldados”, a maior parte deles sem senso moral nem instrução militar adequada. O comandante reagiu com despotismo e severidade à cizânia instaurada na ilha – e com isso precipitou o trágico desfecho da desventura chamada França Antártica.
JEAN DE LÉRY
Simples sapateiro, nascido em 1534, o francês Jean de Léry tornou-se discípulo de Calvino e, em novembro de 1556, embarcou para o Rio de Janeiro na missão comandada pelo sobrinho de Villegaignon, Boisle-Comte. Chegou ao Brasil em 16 de março de 1557. Ficou um ano na colônia e interessou-se vivamente pelos Tupinambá, que descreveu e retratou em seu Viagem à Terra do Brasil, lançado em 1578. No livro, que só saiu 20 anos após a viagem (porque o original, perdido duas vezes, teve de ser refeito de memória), Léry acusa duramente seu desafeto, André Thevet. O problema é que Léry só o fez depois que todos os personagens que citou estavam mortos. Muitos pesquisadores acusam Léry de plagiar Thevet, o que talvez tenha feito. Mas não há dúvida de que fez também uma obra primorosa.
O FIM DA FRANÇA NOS TRÓPICOS
Mesmo em meio aos conflitos gerados por brigas religiosas e pelos desmandos de Villegaignon, os franceses conseguiram solidificar suas posições no Rio de Janeiro. De fato, ao longo dos cinco primeiros anos de ocupação, de 1555 a 1560, os “invasores” receberam reforços da França, foram capazes de estreitar sua aliança com os Tamoio (os verdadeiros senhores da baía de Guanabara até então) e transformaram o Forte Coligny em “uma das mais fortes fortalezas da cristandade, insuperável às forças humanas”– de acordo com o relato de Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil.
Apesar da aparente solidez da fortificação, a colônia francesa estava minada por graves problemas internos. Os desentendimentos vinham se alastrando desde fevereiro de 1556, quando Villegaignon exigira que um marinheiro gaulês (que estava instalado no Rio de Janeiro antes da chegada dos novos colonizadores) casasse ou se separasse da nativa com a qual vivia há pelo menos sete anos. Indignado, esse marujo armou uma conspiração para matar o líder da França Antártica. Mas o plano acabou sendo descoberto pelos temíveis guarda-costas escoceses de Villegaignon e 5 dos 26 conspiradores foram presos e executados.
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O TERRÍVEL “CANIBAL”: o líder tribal Cunhambebe, que teria devorado mais de 60 portugueses, foi o mais destacado guerreiro Tamoio do Rio de Janeiro. Na gravura abaixo, ele dispara dois pequenos canhões franceses.
Depois desse episódio, Villegaignon tornou-se progressivamente despótico e desconfiado, transformando a rotina da fortaleza numa sucessão de deserções, conspirações, torturas e prisões. Ainda assim, em março de 1557, o projeto colonial francês iria ganhar um novo alento: foi quando Bois-Le-Comte, sobrinho de Villegaignon, chegou ao Rio de Janeiro, com três navios e 290 homens. Mas o que era para ser um auxílio inestimável acabou se revelando novo foco de tensão: como Le-Comte trouxera consigo 14 pastores calvinistas (escolhidos pelo próprio Calvino; e entre eles o cronista Jean de Léry), o confronto entre protestantes e católicos recrudesceu dentro da colônia, tornando insustentável a já delicada posição de Villegaignon. Finalmente, em outubro de 1558, o homem que fora chamado de “Rei do Brasil” voltou as costas para seu tão acalentado projeto de estabelecer uma “nova França” nos trópicos e decidiu se retirar para a Europa.
A desmoralização e o desânimo das tropas francesas persistiam quando, à frente de uma frota portuguesa, o governador-geral Mem de Sá adentrou a baía de Guanabara, em 21 de fevereiro de 1560, encarregado da missão de expulsar os invasores. Na manhã de 15 de março, depois de manter a fortaleza da ilha de Serigipe sitiada por três semanas, Mem de Sá exigiu que os inimigos se rendessem, mas Bois-le-Comte se recusou a ceder.
Embora contassem com o apoio de cerca de mil guerreiros Tamoio, os franceses que ainda permaneciam no interior do Forte Coligny eram apenas 74 – os demais tinham desertado para viver entre os nativos ou haviam retornado para a Europa. Então, no dia 18 de março, cerca de 120 portugueses e seus 140 aliados nativos (em sua maioria Temiminó e Tupiniquim – inimigos ancestrais dos Tamoio) deflagraram sua ofensiva final. A rendição dos franceses se deu 48 horas mais tarde, no dia 20 de março de 1560, depois que um marujo português conseguiu nadar até a ilha e explodir o paiol de munições, encerrando os combates num momento em que o próprio Mem de Sá já pensava em desistir da luta. Vencidos os inimigos, tanto o governador-geral como o jesuíta Manoel da Nóbrega e outros cronistas daquela batalha decisiva atribuíram a vitória ao “poder divino”, que “não quis que nessa terra [o Brasil] se plantasse gente de tão maus pensamentos [os protestantes]”.
O projeto ultramarino de Villegaignon havia ruído. Mas os franceses sobreviventes, aliados aos Tamoio, ainda iriam resistir por sete longos anos. O Rio de Janeiro somente seria conquistado pelos portugueses em 1567.
OS PORTUGUESES CONQUISTAM O RIO
Ao retornar à Bahia, no fim de março de 1560, depois de arrasar completamente o Forte Coligny, o governador-geral Mem de Sá não pôde estabelecer nenhuma base portuguesa na Baía de Guanabara: faltavam-lhe tropas e equipamentos. Embora não se possa acusar o governador de omissão ou desleixo, o fato é que tal descuido teria terríveis consequências para os portugueses.
Afinal, cinco anos mais tarde, quando Estácio de Sá, sobrinho e braço direito de Mem de Sá, retornou ao Rio, em 9 de fevereiro de 1565, comandando nove navios e 220 homens, encontrou os sobreviventes franceses e seus aliados Tamoio entrincheirados por detrás de três fortes paliçadas – e preparados para um novo confronto. No dia 1º de março, Estácio se estabeleceu em um arraial no sopé do Pão de Açúcar (núcleo original da cidade do Rio de Janeiro) e ali ficou por dois anos, combatendo o inimigo esporadicamente enquanto aguardava a chegada de reforços.
Durante todo o ano de 1566, sempre auxiliados pelos dissidentes franceses, os Tamoio deram muito trabalho aos portugueses, organizando inúmeras ciladas, travando uma guerra de guerrilhas e tentando constantemente atraí-los para combates no mar. Em julho daquele ano, travou-se a célebre batalha que passou à história com o nome de “combate das canoas”. Com um contingente de cerca de 180 grandes canoas, nas quais se amontoavam talvez mais de dois mil guerreiros, os Tamoio atraíram os portugueses para uma emboscada em uma das tantas reentrâncias da baía de Guanabara. Quando a derrota dos lusos parecia certa, um tiro disparado por uma pequena peça de artilharia atingiu um depósito de pólvora localizado no interior de uma canoa, provocando grande incêndio e profundo temor entre os indígenas. Em meio à fumaça, alguns portugueses julgaram ter visto a figura de São Sebastião combatendo ao lado deles contra “hereges e pagãos”.
No dia 18 de janeiro de 1567, Mem de Sá enfim retornou ao Rio de Janeiro, com novas tropas: mais de duzentos homens, distribuídos em seis caravelas e três galeões. Dois dias mais tarde – 20 de janeiro, por uma extraordinária coincidência Dia de São Sebastião –, os portugueses atacaram as posições inimigas em Uruçumirim (atual Morro da Glória), com o apoio dos Temiminó, chefiados por Arariboia. Após uma batalha feroz que durou o dia todo, seiscentos Tamoio e cinco franceses morreram, e muitos foram feitos prisioneiros. No dia seguinte, dez franceses foram executados na forca enquanto os portugueses atacavam a paliçada da ilha de Paranapuã (hoje ilha do Governador), escravizando os quase mil Tamoio que se renderam incondicionalmente. Apesar de a luta ter sido terrível, apenas um português morreu naquele combate.
A vitória, porém, não pôde ser comemorada com grande estardalhaço: ferido por uma seta envenenada, durante o combate de Uruçumirim, Estácio de Sá morreria um mês depois, após longa agonia.
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COM A AJUDA DOS CÉUS: o lamento dos Tamoio ante mais um guerreiro abatido, em gravura publicada em 1578, no livro de Jean de Léry, Viagem à Terra do Brasil.
De todo modo, o Rio de Janeiro finalmente era português. Embora sangrentos e decisivos, os combates que resultaram no malogro da França Antártica e na conquista lusitana do Rio mobilizaram menos de meio milhar de europeus: o grosso das tropas que se defrontaram à sombra do Pão de Açúcar era constituído por indígenas. Foram menos de trinta os europeus que sucumbiram naquelas batalhas, ao passo que, entre os nativos, o número de mortos foi superior a mil combatentes.
A FRANÇA EQUINOCIAL
Embora seja episódio menos difundido, menos estudado e, portanto, bem menos conhecido do que o da França Antártica, uma outra invasão francesa ao Brasil provocou riscos muito maiores à soberania lusa na América Portuguesa, ameaçando gravemente a unidade territorial da colônia por mais de uma década. Foi a ousada aventura colonizadora da chamada “França Equinocial” – como ficou conhecida a ocupação francesa do Maranhão, da qual resultou a fundação da cidade de São Luís em 1612 (ainda hoje, capital daquele estado brasileiro).
Ao contrário da França Antártica – enclave erguido em um território bastante conhecido e já razoavelmente colonizado pelos portugueses –, a ação francesa no norte do Brasil desenrolou-se em uma porção do litoral não só praticamente desconhecida como também nunca dantes ocupada pelos lusos. Os franceses, por outro lado, já navegavam havia quase três décadas pelas perigosas águas maranhenses, tendo não apenas estabelecido sólida aliança com as tribos locais como descoberto também a melhor rota entre correntes marítimas tremendamente traiçoeiras.
O pioneiro dessas investidas foi o corsário, aventureiro e traficante de pau-brasil Jacques Riffault, que desde pelo menos 1590 ancorava sua nau nas reentrâncias do rio Potengi, nas cercanias da atual cidade de Natal – RN, e, a partir dali, estendia seu domínio por toda a costa até o Maranhão. Em 1593, retornando à França depois de ter inspecionado a então denominada ilha do Maranhão, Riffault conseguiu convencer um rico cavalheiro francês, Charles des Vaux, a investir seu dinheiro numa expedição colonizadora. Em 15 de março de 1594, Riffault e Des Vaux partiram para o Maranhão, com cerca de 150 colonos e soldados a bordo de três navios. Um naufrágio e uma série de outras dificuldades fizeram fracassar a empresa.
Em 1604, porém, Charles des Vaux retornou à França para informar às autoridades que os Tupinambá do Maranhão queriam se converter ao catolicismo e fazer uma aliança contra os portugueses. E assim, depois de demorados preparativos e várias viagens de inspeção, em março de 1612 enfim partiram da França com destino ao Maranhão três navios e quinhentos homens, comandados por Daniel de la Touche de la Ravardière. Em 26 de julho, a frota chegou à baía do Maranhão; no dia 12 de agosto, foi celebrada a primeira missa e, no dia 8 de setembro, iniciada a construção da fortaleza que daria origem à cidade de São Luís, assim batizada em homenagem ao rei-menino Luís XIII.
Quando a notícia da invasão se propagou, o rei Filipe II – que mantinha Portugal e Espanha unidos sob a Coroa de Castela – determinou o ataque às tropas de La Ravardière. Em novembro de 1614, o exército luso-brasileiro comandado pelo mameluco Jerônimo de Albuquerque venceu os franceses, que capitularam. Mas Filipe II exigiu uma rendição incondicional, e, em novembro de 1615, De la Touche entregou São Luís e partiu para Lisboa a ferros e sem direito a indenização. Por três anos, permaneceria encarcerado na Torre de Belém, triste desenlace de mais uma malfadada tentativa francesa de estabelecer uma colônia no Brasil.
OS CORSÁRIOS DO RIO
O Rio de Janeiro parecia ser uma obsessão francesa. Quase um século e meio depois do malogro da França Antártica (e cerca de cem anos após a fracassada tentativa de colonizar o Maranhão), o corsário Jean-François Duclerc protagonizou nova investida contra o Brasil – e no mesmo local de onde seus compatriotas haviam sido expulsos em 1566. Contando com o apoio do rei Luís XIV, Duclerc chegou ao Rio com cinco navios e mil homens, no dia 6 de agosto de 1710. Depois de várias escaramuças com os portugueses, desembarcou nas cercanias de Guaratiba, praia próxima da Barra da Tijuca e, entrando pela zona rural, atacou a cidade pela retaguarda na madrugada do dia 11. No entanto, auxiliado por voluntários e estudantes, o governador Castro Morais resistiu. Mais de 300 franceses foram mortos, e os demais, presos, inclusive Duclerc e 41 de seus oficiais. Confinado numa das melhores casas da cidade, Duclerc acabou sendo assassinado em abril de 1711, “por dois homens embuçados” (mascarados), supostamente parentes e a mando do governador Castro Morais.
Seis meses após a misteriosa morte de Duclerc e com o suposto propósito de vingálo, outro corsário francês atacou o Rio de Janeiro. Foi René Duguay-Trouin, que, no dia 20 de setembro de 1711, à frente de uma frota com 18 navios, 5.764 homens, 740 peças de artilharia e 10 morteiros, não teve dificuldades para tomar a cidade, evacuada pelo governador Castro Morais. Trouin exigiu 600 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois para não destruir o Rio. O governador pagou o resgate – mas perdeu o cargo e ganhou um apelido depreciativo: “Vaca.” Trouin, entretanto, pouco desfrutou o milionário butim: na viagem de retorno, sua frota foi atingida por uma tormenta, e dois dos melhores navios afundaram, com 1.200 homens e muito dinheiro a bordo. Ainda assim, a expedição foi lucrativa, e Duguay-Trouin foi promovido a chefe de esquadra pelo rei Luís XIV.
Image ATAQUE AO RIO: a frota de Duguay-Trouin (à direita) venceu as defesas da Guanabara e conquistou a cidade do Rio de Janeiro, cobrando vultoso resgate para devolvê-la aos portugueses.