Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

25. A primeira guerra e os anos 20

Capítulo 25

 

A I GUERRA E OS ANOS 20

Depois de adiar a decisão por quase dois anos, o Brasil, enfim, resolveu entrar na I Guerra Mundial em 26 de outubro de 1917 – três anos após o início e um ano antes do fim do conflito. No mesmo dia em que o presidente Venceslau Brás assinou o Decreto-Lei nº 3.361, Lenin era eleito presidente dos soviéticos, 48 horas após a vitória da Revolução Russa. O decreto de Brás reconhecia e proclamava “o estado de guerra iniciado pelo império alemão contra o Brasil”.

O país só decidiu entrar na guerra – tão tardiamente quanto os Estados Unidos, que o tinham feito em fevereiro de 1917 – depois de três navios mercantes brasileiros terem sido afundados pelos alemães. O primeiro foi o Paraná, torpedeado no canal da Mancha, em 3 de abril de 1917. Oito dias depois, o Brasil rompia relações diplomáticas com a Alemanha. O segundo foi o Tijuca, afundado na costa da França, em 22 de maio. Dois dias mais tarde, o Brasil abria mão de sua neutralidade e confiscava todos os navios mercantes alemães ainda ancorados nos portos do país. No dia 25 de outubro, o Macau foi posto a pique em águas espanholas.

Quando afundaram o Tijuca, no mês de maio, o ministro do Exterior, Lauro Müller, descendente de alemães e tido como germanófilo, demitiu-se do cargo. Com ele fora do governo, Venceslau Brás sentiu-se à vontade para se reunir no Catete com o ex-presidente Rodrigues Alves, Rui Barbosa e o novo ministro do Exterior, Nilo Peçanha, e declarar guerra formalmente à Alemanha.

Ainda assim, o país relutou em enviar reforços para os aliados. A justificativa do ministro da Guerra, José Caetano de Faria, era a de que o Exército brasileiro contava com poucos efetivos e que eles eram necessários para assegurar “nossa própria integridade contra os alemães e germanófilos que temos no Sul”. No fim de 1917, porém, cedendo às pressões internacionais, o Brasil enviou uma divisão naval, uma missão médica e um contingente de aviadores para a Europa. Sua participação na I Guerra Mundial teria sido apenas patética se não tivesse sido trágica.

As jovens equipes médicas brasileiras foram levadas para a França, onde tiveram algum trabalho. Os aviadores praticamente não saíram do chão. A divisão naval, encarregada de patrulhar o oceano Atlântico em frente do Senegal, ancorou em Dacar, onde a gripe espanhola dizimou quase metade da tripulação. Enviada para Gibraltar, a esquadra brasileira abriu fogo contra um cardume de toninhas (espécie de boto), julgando se tratar de submarinos alemães. O episódio entrou para a história com o nome de “Batalha das Toninhas”. Um dia depois de atracar em Gibraltar, em 10 de novembro de 1917, os brasileiros foram informados de que a Alemanha capitulara. A “guerra para acabar com todas as guerras” tinha terminado.

O GOVERNO DE VENCESLAU BRÁS

Tido por seus adversários como um homem “de completa nulidade mental”, Hermes da Fonseca, ao sair da Presidência, deixou o país política e economicamente em frangalhos. A batalha por sua sucessão se iniciara enquanto o marechal ainda estava no poder. O senador Pinheiro Machado bem que tentou “fazer” o novo presidente – indicando para o cargo, em mais uma de suas manobras divisionistas, o ex-presidente Campos Sales. Mas, dessa vez, paulistas e mineiros reagiram, firmando, em fins de 1913, o chamado Pacto de Ouro Fino, depois do qual se uniram em torno da candidatura do então vice-presidente Venceslau Brás Pereira Gomes. Ironicamente, Brás só chegara ao cargo graças às articulações do próprio Pinheiro, que para obter o apoio do Partido Republicano Mineiro (PRM) à candidatura de Hermes aceitara a indicação do deputado.

Image

Durante o quatriênio de Hermes, porém, Brás se revelou omisso e ausente, passando a maior parte do tempo em sua fazenda, em Itajubá – MG. Tanto que, quando sua candidatura foi oficialmente lançada, o escritor Emílio Meneses ironizou: “É a primeira vez que vejo um funcionário promovido por abandono de emprego.”

Ainda assim, para as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, a candidatura de Venceslau, batizada de “o retorno mineiro”, foi de grande importância estratégica, pois marcou a volta da política do café com leite e o início do fim do reinado republicano de Pinheiro Machado, que seria assassinado menos de dois anos depois (leia box na página ao lado). Ao assumir o cargo, em novembro de 1914, Venceslau anunciou que governaria “fora e acima dos partidos”, o que, na verdade, significava dizer que o faria “fora” do Partido Republicano Conservador (PRC) e “acima” de Pinheiro.

ASCENSÃO E QUEDA DE PINHEIRO MACHADO

A posse de Venceslau Brás deixou claro que a influência do senador José Gomes Pinheiro Machado na política brasileira estava em declínio. Ainda assim, talvez jamais tivesse havido em toda a história republicana do Brasil um homem com tanto poder – pelo menos não durante tanto tempo – quanto o que Pinheiro desfrutara até aquele momento, novembro de 1914. Desde que afastara o paulista Francisco Glicério e assumira, em 1905, a liderança da facção majoritária do Senado – batizada de “Bloco” –, Pinheiro Machado se tornara o homem mais influente da política brasileira. Como chefe das comissões apuradoras do Congresso, ele simplesmente decidia quais políticos tomariam posse, quais não – independentemente do número de votos que tivessem recebido.

Image

Com muita propriedade, a imprensa passou a chamá-lo de “fazedor de reis”, ou “o homem que governa o governo”; e os caricaturistas, a representá-lo como um galo (“chefe do terreiro”) ou uma raposa (“terror dos galinheiros políticos”). Para boa parte da população, Pinheiro era a encarnação de todos os males que afligiam a nação. Formado na Faculdade de Direito de São Paulo e veterano de duas guerras (a do Paraguai e a Revolução Federalista de 1893, na qual fora o chefe da poderosa divisão do Norte, que derrotara Gumercindo Saraiva), o gaúcho Pinheiro fora feito general por Floriano Peixoto quando já era um experiente caudilho.

A vertiginosa ascensão política de Pinheiro Machado começou em 1902, quando se tornou o vice-presidente do Senado, cargo que manteve até 1905. De 1905 a 1915, não só se firmou como a figura mais poderosa do Congresso como revelou-se capaz de “fazer” todos os presidentes, participando decisivamente das eleições de Rodrigues Alves e Afonso Pena (apesar de ambos não gostarem de seu estilo). Com a posse de Hermes da Fonseca, o poder de Pinheiro se tornou quase absoluto. Ainda assim, não conseguiu lançar o próprio nome para a Presidência.

No início de 1915, Pinheiro cometeu seu maior erro político ao tentar impedir a posse de Nilo Peçanha, eleito presidente do Rio de Janeiro. Quando uma multidão cercou seu carro, com o objetivo de linchá-lo, na saída do Senado, Pinheiro ordenou ao chofer: “Avance, nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pareça covardia.” Homem de frases fabulosas, também diria: “É possível que o braço assassino, impelido pela eloquência delirante das ruas, nos possa atingir.” Se o golpe viesse, Pinheiro Machado garantia que não ocultaria, “como César, a face com a toga, e, de frente, olharemos (…) a ignóbil figura do bandido”. Essa promessa o caudilho não pôde cumprir: a 8 de setembro de 1915, no saguão de um hotel do Rio de Janeiro, Pinheiro foi assassinado com uma facada pelas costas. O “sicário” chamava-se Francisco Manso de Paiva – e era um zé-ninguém.

O “FAZEDOR DE REIS”

Pinheiro Machado era uma figura imponente. Esguio, com um alfinete de pérola na gravata de seda e uma bengala com o cabo de marfim (“de unicórnio”, dizia ele), andava ereto, oferecia banquetes suntuosos, adorava galos de rinha, jogava pôquer e bilhar e utilizava um vocabulário floreado, posto a serviço da retórica agressiva. Poderoso e adulado, Pinheiro fez da política “um meio de se tornar mais rico”, segundo o historiador norte-americano Joseph Love. “Noutras palavras: pairava ao seu redor um ar inconfundível de corrupção.” Talvez por isso tenha havido carnaval no Rio de Janeiro e em São Paulo quando a notícia de que Pinheiro fora assassinado se espalhou. O povo associava sua figura à carestia, aos desmandos políticos e à manutenção do poder nas mãos dos oligarcas. Embora todas as evidências apontassem em direção a uma conspiração, nunca ficou provado que Francisco Manso de Paiva – padeiro gaúcho desempregado e semianalfabeto – estivesse agindo sob as ordens de alguns dos inúmeros e poderosos inimigos de Pinheiro. O julgamento, presidido por Flores da Cunha, fervoroso aliado de Pinheiro, não conseguiu incriminar ninguém além do próprio assassino. De qualquer forma, ao desbancar Bahia e Pernambuco, Pinheiro mudara o mapa político do Brasil, tornando o Rio Grande do Sul o terceiro Estado mais importante da federação, atrás de São Paulo e de Minas.

EPITÁCIO EM VERSALHES

Se Paris já não fosse uma festa, teria se transformado em uma quando, em fevereiro de 1919, uma enorme delegação do Brasil desembarcou na capital francesa, com todas as despesas pagas pelo Tesouro Nacional. Encerrada a I Guerra, após o pedido de armistício feito pela Alemanha, as 32 nações envolvidas no conflito se reuniram para a Conferência de Paz de Paris – na qual, em 28 de junho de 1919, no salão dos Espelhos, foi assinado o Tratado de Versalhes.

O Brasil, incluído com outros 23 países no grupo de “potências com interesses especiais” (do qual também faziam parte Libéria, Haiti e Sião), enviou à conferência dez delegados oficiais, sob a chefia de Epitácio Pessoa. Junto com os juristas e os representantes oficiais do país, porém, seguiram seus familiares, assessores, convidados e acompanhantes em tal número que o navio que zarpou do Rio de Janeiro, no dia 2 de janeiro de 1919, partiu quase lotado.

Menos mal que, nas negociações, o país se saiu bem: dos 440 artigos do tratado, dois deles se referiam especificamente a interesses brasileiros. No primeiro, a Alemanha era obrigada a pagar 125 milhões de marcos pelas 1,85 milhão de sacas de café que tinha destruído ao atacar navios brasileiros, e a devolver as sacas que haviam sido estocadas em Berlim durante a “valorização” de 1906. No outro, foi concedido ao Brasil o direito de pagar com preços “antigos” – portanto, mais baixos – os 70 navios alemães que o país havia confiscado em seus portos.

Ao retornar da França com seu “navio da alegria”, em julho de 1919, Epitácio Pessoa, que deixara o país como senador, descobriu que era o novo presidente do Brasil. Os fatos que o tinham conduzido ao cargo retrocediam à sucessão de Venceslau Brás. Apesar de Pinheiro Machado estar morto, a luta pela indicação do sucessor de Brás foi tão renhida quanto nos tempos do senador. Após várias reviravoltas, as oligarquias e os feudos políticos de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul chegaram a um candidato de consenso: o velho conselheiro do império Rodrigues Alves, então com 70 anos. Concorrendo sozinho, Alves foi eleito em março de 1918, mas não pôde tomar posse em 15 de novembro. Acometido pela “gripe espanhola”, morreu em janeiro de 1919. Em seu lugar, assumiu o vice Delfim Moreira.

Como a Constituição previa novas eleições em caso de morte ou renúncia do presidente antes de completada a metade do mandato (e como, dessa vez, não havia marechais de ferro por perto), Delfim Moreira ficou no poder até julho de 1919, quando se realizaram novas eleições. Embora o eterno candidato Rui Barbosa lançasse mais uma vez sua candidatura, atacando arranjos oligárquicos e mesquinharias políticas, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul decidiram apoiar o nome de Epitácio Pessoa. Apesar de estar ausente do país, seus aliados alardearam os supostos “esplendores” de seu desempenho diplomático em Versalhes. E Pessoa ganhou fácil a “eleição”.

O PRESIDENTE CIVILISTA

Uma vez alçado ao poder, o paraibano Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa (1865-1942) – primeiro nordestino a comandar a nação – revelou-se muito mais ousado e autoritário do que seus aliados poderiam supor. Ainda assim, desde o início de seu governo, tentou assegurar o apoio dos três “grandes” estados da federação (São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul). Tanto é que seis dos sete ministros que nomeou eram paulistas, mineiros ou gaúchos. Para poder articular mais plenamente essa composição, Epitácio Pessoa (à esquerda) teve de nomear dois civis para os ministérios da Guerra e da Marinha (respectivamente Pandiá Calógeras, seu companheiro em Versalhes, e Raul Soares). Civis comandando militares era algo que, no Brasil, não se via desde o Império. Houve grande indignação nos quartéis. A atitude “civilista” de Epitácio Pessoa teria profundas consequências – embora o desfecho delas só viesse a ocorrer no governo seguinte, de Artur Bernardes. Além da construção de mais de mil quilômetros de ferrovias no Sul do Brasil, a maior obra do governo Epitácio Pessoa foi o Programa de Combate à Seca no Nordeste. Com investimento de 304 mil contos, o presidente fez mais de duzentos açudes na região. Injuriados com o que julgavam ser um “protecionismo ao Nordeste”, os paulistas exigiram que uma quantia similar fosse destinada para “valorizar” outra vez o café. Cedendo às pressões, Pessoa liberou 124 mil contos e o governo estocou 4,5 milhões de sacas, forçando novo aumento no preço do produto, que despencara de 50 centavos de dólar para 20 centavos de dólar por quilo.

Image

O GOVERNO DE ARTUR BERNARDES

Apesar de não ter se envolvido diretamente na dura campanha desencadeada para a sua sucessão, Epitácio Pessoa foi o maior responsável pelos rumos que ela iria adquirir. Ao nomear dois civis para os ministérios da Guerra e da Marinha, o presidente gerara grande insatisfação nos quartéis..Quando, em fins de 1919, o governador de São Paulo, Washington Luís, e o de Minas Gerais, Artur Bernardes, fizeram um acordo para lançar Bernardes como o candidato do “café com leite” às eleições de 1922, o governador do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, iniciou as articulações que desembocariam na chamada “Reação Republicana”, contrária à candidatura de Bernardes e favorável à de Nilo Peçanha, governador do Rio de Janeiro. Os militares, é claro, de imediato apoiaram Borges e Nilo.

Image

Em outubro de 1921, quando os jornais divulgaram cartas de Artur Bernardes atacando o ex-presidente Hermes da Fonseca em particular e os militares em geral, faltou pouco para estourar um golpe militar. Embora as cartas fossem falsas (leia o box na página 308), o clima político polarizou-se e o Brasil se encaminhou para as eleições mais disputadas desde o pleito de 1910, entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa. Em março de 1922, Artur Bernardes e Nilo Peçanha se enfrentaram nas urnas. Findas as eleições, os dois lados cantaram vitória. Após conflitos de rua e fraudes descaradas, Artur Bernardes foi declarado vencedor em julho de 1922.

Ele tomou posse em novembro de 1922 sob estado de sítio, declarado desde a Revolução Tenentista de Copacabana (também chamada de “Os Dezoito do Forte”), que rebentara no dia 5 de julho (leia o próximo capítulo, “O Brasil dos Tenentes), Envenenado pela campanha difamatória que sofrera, Bernardes manteve a suspensão das garantias constitucionais ao longo de todo o seu governo. Não concedeu anistia aos rebeldes, censurou a imprensa, mandou prender seus adversários e, aproveitando-se do recesso da Câmara, graças ao estado de sítio, decretou intervenção federal no Rio de Janeiro e na Bahia, que, juntos com o Rio Grande do Sul e Pernambuco, faziam parte da “Reação Republicana”.

Em Pernambuco, Bernardes não precisou intervir, pois seu antecessor, Epitácio Pessoa, já o fizera (episódio que resultou na prisão de Hermes da Fonseca, que havia instigado os militares locais a não cumprir as ordens presidenciais de reprimir as manifestações populares). No Rio Grande do Sul, a eclosão da Revolução de 1923 também ajudaria Bernardes, poupando-o do desgaste que uma intervenção no terceiro Estado mais importante da federação certamente provocaria. Ainda assim, Bernardes governou o Brasil enclausurado no Catete, de onde quase não saía. Mas, manteve intacta a aliança São Paulo-Minas Gerais e conseguiu entregar o país ao candidato “café com leite”, o paulista Washington Luís.

AS CARTAS DA DISCÓRDIA

Em 4 de novembro de 1920, depois de passar cinco anos na Europa em companhia de sua jovem esposa, Hermes da Fonseca retornou ao Brasil. Embora o país não tivesse esquecido de seu desastroso desempenho na Presidência, o marechal foi recebido como herói pelos oficiais do Exército. Desagradados com o comportamento “civilista” de Epitácio Pessoa, os militares descontentes vislumbraram em Hermes o líder ideal para dar início a uma reação. Em março de 1921, o marechal tomou posse na Presidência do Clube Militar e deu todo apoio à candidatura de Nilo Peçanha, adversário da chapa “café com leite” encabeçada por Artur Bernardes. Na edição de 9 de outubro de 1921, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou uma carta, atribuída ao então candidato Artur Bernardes, na qual Hermes da Fonseca era chamado de “sargentão sem compostura”, Nilo Peçanha de “pobre mulato” e alguns generais de “anarquizadores”. A edição do jornal teve o efeito de uma bomba, Bernardes de imediato negou a autoria da carta. No dia seguinte, o mesmo jornal publicou nova missiva – tão ofensiva quanto a primeira. No dia 27 de dezembro, peritos declararam que as cartas eram verdadeiras. O ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, informou Epitácio Pessoa que, caso fosse eleito, Bernardes “não aguentaria 24 horas no Catete”. Mas, em março de 1922, Artur Bernardes recebeu 1,5 milhão de votos, contra 700 mil dados a Peçanha. Hermes da Fonseca foi preso e o Clube Militar fechado em 2 de julho. Setenta e duas horas mais tarde explodiria a Revolução Tenentista. Em maio de 1929, dois falsários confessaram ter forjado as cartas da discórdia.

O GOVERNO DE WASHINGTON LUÍS

Washington Luís Pereira de Souza começou a se tornar presidente do país sete anos antes de ser “eleito” por aclamação, em março de 1926. Em carta enviada a Borges de Medeiros, em 24 de novembro de 1919, um congressista gaúcho alertava o então presidente do Rio Grande do Sul de que Artur Bernardes (na época presidente de Minas) e Washington Luís (de São Paulo) já tinham articulado sua estratégia na Câmara para se tornarem os próximos presidentes do Brasil. Com a eleição de Bernardes em 1922, ficou claro que assim seria.

A aliança café com leite poderia ter sido estremecida pelas revoluções tenentistas de 1922, 1924 e 1925, pela revolução de 1923 no RS e pela marcha da Coluna Prestes. Não foi o que aconteceu: ao governar o país com mão de ferro, Artur Bernardes conseguiu passar o cetro a seu sucessor paulista. As máquinas políticas da “Reação Republicana” – contrárias à aliança café com leite – tinham sido duramente punidas na Bahia, no Rio de Janeiro e em Pernambuco. No Sul, Borges de Medeiros – interessado em eleger-se pela quinta vez consecutiva presidente do estado – achou mais prudente aceitar passivamente a fórmula paulista-mineira.

Em setembro de 1925, Washington Luís foi proclamado candidato único à Presidência. Em 1º de março de 1926, a chapa unânime recebeu 98% dos votos numa das eleições mais calmas da história brasileira. Foi a consagração final de um sistema trapaceiro.

Washington Luís tomou posse em 15 de novembro de 1926, desfilando em carro aberto pela avenida Rio Branco, no centro do Rio, ovacionado pela população. Sua primeira ação foi a suspensão do estado de sítio. Esperava-se que o passo seguinte fosse a anistia aos rebeldes de 22, 23, 24 e 25, para que o país pudesse ingressar, pacificado, em uma nova era. Mas Washington Luís não foi capaz de fazê-lo: sua lealdade ao governo anterior e a hostilidade do Exército ao retorno dos revolucionários aos quartéis impediriam a aprovação da anistia “ampla, geral e irrestrita”. A seguir, novos focos de insatisfação política levaram o governo a reforçar a Lei de Imprensa e a aprovar a “Lei Celerada”, destinada a reprimir o comunismo. O Partido Comunista do Brasil (PCB), na legalidade desde janeiro de 1927, foi outra vez jogado na clandestinidade.

Reafirmando a aliança café com leite, Washington Luís montou um ministério de paulistas e mineiros. Mas, para “premiar” a lealdade do Rio Grande do Sul, que não se opusera à sua candidatura, nomeou o deputado Getúlio Vargas ministro da Fazenda, ainda que o próprio Vargas não se achasse qualificado para o cargo. Disposto a “pacificar” definitivamente o Sul, Washington Luís foi a Porto Alegre, tornando-se o primeiro presidente a visitar o Rio Grande do Sul em vinte anos. Por ordem de Borges, Getúlio aceitou o cargo em dezembro de 1926 – saindo dele em janeiro de 1928 para se tornar governador do Rio Grande do Sul, no lugar do próprio Borges. Os treze meses de Getúlio como ministro da Fazenda foram, de qualquer forma, apenas figurativos: quem de fato mandava na economia era o presidente.