Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
26. O brasil dos tenentes
Capítulo 26
O BRASIL DOS TENENTES
Nos quartéis, a cada dia, o comentário se tornava mais frequente e ousado: “A procissão vai sair”. O Clube Militar fora fechado – e, o que era mais ultrajante, a interdição havia sido feita com base em uma lei de 1921, contra “associações nocivas à sociedade”. O marechal Hermes da Fonseca fora preso – e, apesar de domiciliar e com duração de apenas um dia, a pena lhe fora imposta de forma “arbitrária e injusta”, segundo os militares. Não era só: apesar de Artur Bernardes negar a autoria das cartas nas quais se achincalhava o marechal Hermes da Fonseca, em particular, e o Exército, em geral, grafólogos asseguravam (equivocadamente) que a letra era realmente de Bernardes, presidente eleito, cuja posse estava marcada para dali a quatro meses. Mais: segundo seus inimigos de farda, Artur Bernardes fraudara as eleições e só por isso tinha vencido o pleito contra Nilo Peçanha, o candidato que recebera o apoio dos quartéis. Era preciso fazer alguma coisa – e o mais rapidamente possível. Por isso, “a procissão” ia sair.
A conspiração militar para derrubar o governo de Venceslau Brás e impedir a posse de Artur Bernardes deveria começar no forte de Copacabana. Quem liderava a tropa era o capitão Euclides Hermes, filho de Hermes da Fonseca – com o auxílio de vários tenentes, entre os quais Siqueira Campos e Eduardo Gomes. À uma hora da manhã de 5 de julho de 1922, um dos canhões do forte foi disparado: era a senha para os demais fortes do Rio de Janeiro aderirem ao levante. Mas o tiro de pólvora seca ecoou solitário pela baía. As outras guarnições desistiram de juntar-se à conspiração. “Fomos traídos!”, gritou o tenente Siqueira Campos. “Perdemos a revolução. Só resta nos entregarmos como covardes ou sairmos lutando por aí.” Ao amanhecer, o forte de Copacabana foi bombardeado por dois encouraçados e cercado pelas tropas leais ao governo. “Não queremos levar ninguém ao suicídio”, voltou a dizer Siqueira Campos. “Estamos cercados por 4 mil soldados. Quem quiser abandonar o forte, deve fazê-lo agora.”
Dos 301 homens, 273 deixam a guarnição. Os 28 restantes estão prontos para tudo. O capitão Euclides Hermes da Fonseca vai ao Catete negociar com o ministro da Guerra, o civil Pandiá Calógeras. Chegando lá, é preso. No forte, seus companheiros dividem a bandeira do Brasil em 28 pedaços e decidem sair às ruas, seguindo em direção ao palácio do governo. Começa a Marcha da Morte. Lentamente, armados e de peito estufado, eles caminham pela avenida Atlântica (na página ao lado). Na altura do hotel de Londres, restam apenas 18; os demais desertaram. A eles, junta-se um transeunte civil, o engenheiro gaúcho Otávio Correia.
Nas ruas laterais, 4 mil soldados aguardam as ordens para enfrentá-los. Ouvem-se alguns tiros e, agora, são apenas dez os homens que marcham para a morte – entre eles, Correia, o paisano. Uma nova saraivada de tiros e oito cadáveres jazem no chão da avenida. Sobrevivem apenas os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes – justamente os dois líderes do movimento que entraria para a história com o nome de “Os 18 do Forte”.
Image
A quixotesca revolução dos 18 do Forte teria profundas consequências. Foi a primeira eclosão do movimento tenentista – a revolta dos quartéis em oposição ao regime oligárquico que em breve representaria a revolta da classe média contra os desmandos da elite café com leite. Cinco de julho se tornaria uma data marcante, na medida em que nesse mesmo dia, no futuro, eclodiriam outras insurreições militares. E o mais importante: oito anos depois da marcha dos tenentes, o tenentismo acabaria chegando ao poder, sob a liderança de Getúlio Vargas. E os tortuosos caminhos da história tornariam Vargas o inimigo número um do mais heroico dos “tenentes”: o capitão Luís Carlos Prestes.
A REVOLUÇÃO GAÚCHA DE 1923
Seis meses após o episódio dos 18 do Forte e apenas 71 dias depois da posse do presidente Artur Bernardes, uma nova revolução sacudiria o Brasil, dessa vez por mais tempo e com maior derramamento de sangue. Nesse caso, porém, tratava-se de um confronto local – embora, a partir dele, o movimento tenentista adquirisse novo fôlego e se sentisse preparado para se disseminar por outras regiões do país.
A Revolução de 1923 eclodiu em 25 de janeiro, dia da quarta posse consecutiva de Borges de Medeiros no governo do Rio Grande do Sul. A Constituição estadual gaúcha – redigida por Júlio de Castilhos em 1891, à sua imagem e semelhança – era de cunho autocrático e positivista. Ainda assim, a Carta estabelecia que, para suceder a si mesmo, um governador teria de receber 75% dos votos.
Com a certeza de que tal índice só seria obtido por meio da fraude mais descarada, federalistas, estancieiros e democratas – inimigos mortais dos castilhistas e de seu herdeiro político Borges – deixaram momentaneamente de lado suas divergências e se fundiram numa “Aliança Libertadora” para extinguir o reinado do Chimango, como Borges fora apelidado.
Sob a liderança de Assis Brasil, os rebeldes se intitularam “libertadores” e iniciaram o combate a Borges. Em janeiro de 1923, quando o governo anunciou que “vencera” as eleições de novembro de 1922 com a margem exigida pela Constituição, a guerra rebentou. Foi quase uma repetição do que ocorrera na Guerra Civil de 1893: os republicanos de Borges, que se denominavam “legalistas”, estavam mais bem armados e em maior número.
Enfrentaram com modernas metralhadoras os exércitos de lanceiros libertadores (que, também como em 1893, usavam o lenço vermelho ao redor do pescoço). Além dos 3.500 homens da Brigada Militar (fundada por Castilhos), Borges contava com os 8.500 soldados dos chamados “corpos provisórios”.
Esses ferozes batalhões de peões eram liderados pelos caudilhos da nova geração: Flores da Cunha, Osvaldo Aranha e Getúlio Vargas. Flores comandou a Brigada do Oeste e venceu os rebeldes em cada combate que conseguiu provocar. Os libertadores também tiveram seus heróis, entre eles Batista Luzardo e Honório Lemes.
Image
GAÚCHOS DE FACA NA BOTA: O general Flores da Cunha e seus correligionários durante a Revolução Libertadora de 1923, que incendiou o Rio Grande do Sul.
A revolução durou dez meses e custou a vida de mais de mil homens.
Desde o começo do conflito, Assis Brasil tentou convencer o presidente Artur Bernardes a não reconhecer a “vitória” eleitoral de Borges e a intervir no Rio Grande do Sul, como já fizera na Bahia e em Pernambuco e logo faria no Rio de Janeiro – punindo os estados que tinham formado a Reação Republicana, contrária à sua candidatura. Apesar de ter sido justamente Borges o principal articulador da Reação, Bernardes sabia que intervir no Rio Grande do Sul seria muito arriscado. E, de início, não envolveu o governo central no conflito. Mais tarde, decidiu aliar-se ao próprio Borges, forçando a bancada gaúcha a apoiar, no Congresso, sua intervenção no Rio de Janeiro para derrubar Nilo Peçanha.
Uma vez consolidado seu poder no Rio de Janeiro e, por extensão, no resto do Brasil, Bernardes começou a forçar Borges a fazer certas concessões aos libertadores. Em 14 de dezembro de 1923, na estância de Assis Brasil, foi assinada a paz entre legalistas e libertadores, conhecida como o Pacto de Pedras Altas. Borges continuou no poder, mas teve de mudar a Constituição: as reeleições ficaram proibidas e o governador não poderia indicar o vice. Foi uma grande vitória de Bernardes. Nos quartéis da fronteira, porém, alguns tenentes achavam que a luta estava só começando.
A REVOLUÇÃO PAULISTA DE 1924
Para toda uma geração de jovens militares, o dia 5 de julho de 1922 marcou o início da história “moderna” do Brasil, pois a sublevação “heroica” dos 18 do Forte seria o estopim de uma série de revoltas que acabaram destruindo a República Velha. A data se tornara tão simbólica que, no segundo aniversário do levante do Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1924, insurreições militares eclodiram em São Paulo, Sergipe e Amazonas. Os movimentos do Norte foram dominados e o governo conseguiu manter os quartéis sob controle. Em São Paulo, porém, os rebeldes tomaram a capital do estado e a ocuparam por três semanas.
Esse movimento foi comandado pelo general gaúcho Isidoro Dias Lopes, pelo major Miguel Costa, comandante do Regimento de Cavalaria da Força Pública, e pelo tenente Joaquim Távora. Entre os combatentes mais destacados figuraram os tenentes Eduardo Gomes (líder dos 18 do Forte, que retornou do exílio para participar da luta), Juarez Távora (irmão de Joaquim), o feroz João Cabanas e o ardiloso Filinto Müller. O objetivo do golpe era a deposição do presidente Artur Bernardes – o inimigo número um dos militares.
Embora planejada com antecedência, a revolução começou caoticamente. Às 5 horas da manhã de 5 de julho, 2.600 soldados rebelados tomaram com facilidade os quartéis do Exército e da Força Pública, no bairro da Luz, em São Paulo, além das estações de trem da Luz e da Sorocabana. Ingenuamente, contudo, os revoltosos esqueceram-se de cortar as comunicações telegráficas e telefônicas, e a notícia da rebelião chegou à capital federal, onde Artur Bernardes se preparou para combatê-la. Antes da chegada das tropas legalistas, os rebeldes abririam fogo contra o palácio dos Campos Elísios, onde estava o presidente do estado, Carlos de Campos.
No dia 6, o primeiro contingente das tropas federais chegou a São Paulo, mas parte dele aderiu aos revoltosos. No interior do estado, fazendeiros e comerciantes armaram voluntários para combater o golpe, formando os chamados “pelotões patrióticos”. Ao anoitecer do dia 8, impossibilitados de tomar a cidade com seus blindados pesados demais e também incapazes de expandir a luta até Santos, os rebeldes enviaram um mensageiro ao palácio bombardeado. Iam propor a rendição em troca de anistia. Depararam-se com o palácio vazio.
Image
A LOCOMOTIVA E OS REBELDES: soldados paulistas, combatentes da insurreição paulista de 1924, posam em frente à locomotiva da Estrada de Ferro Sorocabana, tomada por eles.
O presidente Carlos de Campos fugira de madrugada. Assim, os rebeldes tomaram o poder. Mas não por muito tempo: Artur Bernardes ordenou o bombardeamento aéreo de São Paulo, embora soubesse que isso provocaria a morte de civis inocentes. As bombas deixaram a cidade entregue ao caos. Em meio ao desespero da população, inúmeros armazéns, mercados e depósitos foram saqueados. A partir do dia 16 de julho, com 15 mil soldados fiéis ao governo cercando a cidade, iniciaram-se as negociações para o armistício.
A princípio, o general Isidoro condicionou a assinatura de um acordo à entrega do poder a um governo provisório e à convocação de uma Constituinte. Bernardes recusou a proposta. A seguir, os revoltosos prometeram depor as armas se fossem anistiados. Quando essa reivindicação também foi negada, as forças rebeldes decidiram abandonar a capital, de trem, partindo no dia 27 de julho rumo a Foz do Iguaçu – PR. Em outubro de 1914, alguns tenentes gaúchos, inconformados com as estipulações do Pacto de Pedras Altas – que decretara o fim da Revolução de 1923, no Rio Grande do Sul –, insurgiram-se iniciando uma marcha para se unir aos rebeldes paulistas no Paraná. Em abril de 1925, os dois grupos se juntaram, formando o que viria a ser o embrião da Coluna Prestes.
A COLUNA PRESTES
A partida das forças rebeldes de São Paulo, no dia 27 de julho de 1924, foi atribulada e dramática. O tenente João Cabanas, principal líder dos saques aos mercados públicos da cidade, ficou na retaguarda da marcha, combatendo com ferocidade as tropas legalistas que se lançaram em perseguição aos rebeldes. Em setembro, ainda sob o comando do general Isidoro Dias Lopes, os revoltosos conquistaram Guaíra, no Paraná, e lá estabeleceram seu quartel-general, enfrentando as tropas comandadas pelo general Rondon em combates sangrentos que perduraram até abril de 1925. Antes do início da campanha militar no Paraná, alguns tenentes – entre eles Juarez Távora e João Alberto – partiram para o Rio Grande do Sul a fim de insuflar a revolta nos quartéis, onde grassava a insatisfação com o Pacto de Pedras Altas, que dera fim à Revolução de 1923 mas mantivera Borges de Medeiros no poder. Assim, em outubro de 1924, a insurreição foi deflagrada também no Sul, com o capitão Luís Carlos Prestes assumindo o comando do Primeiro Batalhão Ferroviário, com sede em Santo Ângelo.
Logo em seguida, as guarnições de São Luiz, São Borja e Uruguaiana, todas no oeste do Rio Grande do Sul, também se rebelaram. Em São Borja, o levante contou com o apoio do tenente Siqueira Campos, que retornara clandestinamente do exílio em Buenos Aires. Em Alegrete, o caudilho Honório Lemes, veterano da Revolução de 1893 e um dos líderes dos libertadores em 1923, juntou-se aos rebeldes, com seu exército “particular” de 800 homens. Ainda assim, Honório Lemes foi, uma vez mais, vencido pelas tropas de Flores da Cunha, no combate de Guaçu-Boi.
Lemes e os tenentes Távora, João Alberto e Cordeiro de Farias se refugiaram, então, brevemente, na Argentina. Apenas São Luís Gonzaga permaneceu sob o controle de Prestes. Contando com cerca de 3 mil homens, Luís Carlos Prestes, cercado por 10 mil soldados legalistas, passou cerca de dois meses imobilizado na cidade, em posição francamente defensiva. Em fins de dezembro de 1924, obedecendo a instruções do general Isidoro Lopes, os rebeldes gaúchos foram comunicados de que deveriam marchar para o Norte, atravessando Santa Catarina, para juntar-se aos rebeldes paulistas em Guaíra. Mais de mil gaúchos desertaram. Os 2 mil restantes, sob o comando de Prestes, romperam o cerco e se puseram em movimento. Depois de batalhas ferozes, chegaram ao Paraná em abril de 1925. No dia 12, numa reunião entre os generais Isidoro e Bernardo Padilha, o major Miguel Costa e o tenente Prestes, decidiu-se prosseguir a marcha e invadir Mato Grosso.
Formou-se então a Primeira Divisão Revolucionária, que passaria à história com o nome de Coluna Miguel Costa-Prestes, ou simplesmente Coluna Prestes. Costa foi nomeado general revolucionário, e Prestes, coronel. Composta por quatro destacamentos – liderados por Cordeiro de Farias, João Alberto, Siqueira Campos e Djalma Dutra (também promovidos a coronéis pelo comando revolucionário) –, a Coluna protagonizaria, ao longo de dois anos, a marcha mais épica da história do Brasil.
Image
Image
A COLUNA DA MORTE: a épica marcha da Coluna Prestes jamais conseguiu arregimentar o apoio das classes rurais brasileiras, mas acabou inspirando o líder chinês Mao Tsé-tung.
A GRANDE MARCHA
Ao percorrer cerca de 25 mil quilômetros por praticamente todos os estados do Brasil – mais alguns trechos do Paraguai e da Bolívia – desde abril de 1925 até junho de 1927, a Coluna Prestes serviria de modelo para a grande marcha que Mao Tsé-tung e seu exército revolucionário realizariam na China, 20 anos mais tarde. Seria também um dos episódios mais dramáticos e simbólicos da luta revolucionária no Brasil – com seu quixotismo, seus sonhos e seus delírios; a imensa distância entre suas intenções e suas ações; a nulidade quase total de seus resultados práticos; seu heroísmo vão e sua violência latente.
O objetivo principal da Coluna Prestes, decidido na reunião de 12 de abril de 1925, era percorrer todo o interior do Brasil para propagar o ideal revolucionário e conscientizar a população rural, fazendo-a sublevar-se contra o domínio exploratório exercido pelas elites “vegetais”. Os revolucionários tinham também a esperança de despertar para si a atenção do governo – o que, supostamente, facilitaria o surgimento de novas revoltas nos centros urbanos.
Image
NO SERTÃO: Miguel Costa e Prestes durante a épica marcha.
O contingente da Coluna Prestes nunca ultrapassou 1.500 pessoas, em média – apesar de ser praticamente impossível calcular números mais exatos, dado o fato de que houve sempre muitas deserções e novas adesões, além da frequente entrada e saída de vários participantes transitórios. Disposta a evitar o choque frontal com as tropas legalistas do governo, a Coluna se deslocava rapidamente de um vilarejo para outro – e seu maior efeito parece ter sido inspirar o mais profundo terror entre as populações rurais à simples menção da palavra “revolução”.
A marcha da Coluna Prestes começou no fim de abril de 1925, quando os revolucionários cruzaram o rio Paraná, penetrando no Paraguai para seguir em direção a Mato Grosso. Depois de passar por Dourados, Campo Grande e Baús, a Coluna cruzou Goiás, parte de Minas Gerais, novamente Goiás e prosseguiu até o Maranhão, onde o tenente-coronel Paulo Krüger foi preso e enviado a São Luís. Em dezembro, os revolucionários chegaram ao Piauí, travando longo e sangrento combate em Teresina contra as forças destacadas para defender a capital do estado.
Rumando em direção ao Ceará, em janeiro de 1926, a Coluna teria outra baixa importante: Juarez Távora foi capturado na serra de Ibiapina. A coluna atravessou o Ceará, onde o deputado Floro Bartolomeu, com o apoio do padre Cícero Romão, de Juazeiro, enviou um emissário ao sertão convidando o cangaceiro Lampião para combater a Coluna. Mas Lampião e o grupo de Prestes nunca chegaram a se encontrar. Depois de cruzar o Ceará e o Rio Grande do Norte, o exército de Luís Carlos Prestes invadiu a Paraíba em fevereiro, enfrentando, na vila de Piancó, a ferrenha resistência comandada pelo padre Aristides Ferreira da Cruz, que acabou preso e degolado pelos rebeldes. Prosseguindo em direção ao sul, a Coluna atravessou Pernambuco e a Bahia, rumando para o norte de Minas Gerais.
Na cidadezinha de Taiobeiras – MG, diante da grande concentração de tropas legalistas em Minas Gerais, o comando da Coluna decidiu interromper o avanço para o Sul e realizar a manobra chamada de “laço húngaro”, iniciando uma contramarcha para a Bahia, o Piauí, Goiás e Mato Grosso, em direção ao exílio na Bolívia. Em outubro de 1926, depois de uma jornada estafante, a Coluna estava de volta a Mato Grosso. Em março de 1927, após uma penosa travessia do Pantanal, parte dos integrantes da Coluna, comandados por Siqueira Campos, chegou ao Paraguai. O restante, sob a liderança de Prestes, ingressou na Bolívia. Após a Revolução de 30, todos os chefes revolucionários retornariam ao Brasil para ocupar cargos no governo Vargas – todos, menos Luís Carlos Prestes.
No exílio, ele se tornara marxista e logo iniciaria a luta pela Revolução Comunista, dentro e fora do Brasil. Embora o apoio da população rural não passasse de ilusão e as possibilidades de êxito militar tivessem sempre sido nulas, a Coluna Prestes surtiu um efeito simbólico entre os setores da população urbana insatisfeitos com a elite dirigente. Para esses setores, havia esperanças de mudar os destinos da República, como parecia mostrar a marcha heroica dos “cavaleiros da esperança”.
O CAVALEIRO DA ESPERANÇA
Filho do oficial do Exército Antônio Pereira Prestes e da professora primária dona Leocádia, Luís Carlos Prestes nasceu em Porto Alegre, em 3 de janeiro de 1898. Estava destinado a se tornar um dos personagens mais lendários da história do Brasil. Olhando-o, porém, seria impossível fazer a profecia. “Pequeno de estatura, o culote subindo-lhe pelos joelhos, montando a cavalo com a sela militar ladeada de alforjes cheios de mapas, constitui um conjunto grotesco, incompatível com a tradição de um chefe gaúcho, sempre vestido a caráter, temerário, desafiador, espetacular”, diria dele o tenente João Alberto, um dos principais membros da Coluna. Apesar do depoimento insuspeito, Prestes veio a se tornar um homem “temerário, desafiador e espetacular”. Mesmo rompendo com seus laços gaúchos, ele nunca deixaria de ser uma espécie de caudilho platino: era indômito, autoritário, teimoso, decidido e controverso. Apesar da figura quixotesca, quase chapliniana, ele se transformaria no Cavaleiro da Esperança, projetando sua sombra e sua presença sobre as quatro décadas mais agitadas da política brasileira.
A BELA ESPIÃ
Image
Charmosa, inteligente, revolucionária e decidida, Olga Benário entrou para o Partido Comunista da Alemanha em 1923, aos 15 anos. Tentou alistar-se no Exército Vermelho em 1926. Mudou-se para Moscou em abril de 1928, depois de resgatar espetacularmente um companheiro da prisão, em Berlim. Em 1934, aos 27 anos, foi mandada ao Brasil para acompanhar e “controlar” Prestes. Os dois se apaixonaram. Olga estava grávida ao ser presa em março de 1936. O governo Vargas a deportou para a Alemanha nazista – o que equivalia a uma condenação à morte, pois ela era judia. Na prisão, Olga deu à luz uma menina, em novembro de 1936. Morreu na câmara de gás, na Páscoa de 1942. A filha, Anita Leocádia, sobreviveu aos horrores do Holocausto.
Matriculado no Colégio Militar do Rio de Janeiro, Prestes formou-se tenente-engenheiro na Escola Militar do Realengo, na turma de 1920, da qual faziam parte Siqueira Campos e Eduardo Gomes (os líderes dos 18 do Forte). Em 29 de outubro de 1924, de volta ao Sul, ele forjaria um telegrama para sublevar o Primeiro Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, para o qual fora destacado. Após liderar a revolta dos tenentes do Rio Grande do Sul, Prestes conseguiu romper o cerco das tropas federais, seguindo para o Paraná numa marcha audaciosa, que lhe permitiu se unir aos rebeldes paulistas.
Em maio de 1930, depois das épicas peripécias da coluna que adquiriu seu nome, Prestes, exilado na Argentina, recusou-se a se envolver nas conspirações que resultaram na Revolução de 30. Ao lançar um manifesto no qual se declarava “socialista revolucionário”, condenou o apoio dado por seus companheiros às oligarquias dissidentes e anunciou o início de um novo ciclo de luta armada. Mais tarde, Prestes se converteu ao comunismo, viajando para a União Soviética em novembro de 1931. Retornou ao Brasil em abril de 1935, junto com a espia alemã Olga Benário, que se tornaria sua mulher, para liderar, desastradamente, a Intentona Comunista de novembro de 1935. O movimento, mal-articulado, foi duramente reprimido por Vargas (leia no capítulo “O Velho Estado Novo”, na p. 347). Perseguidos ao longo de três meses, Prestes e Olga foram presos em março de 1936. Judia e comunista, Olga foi deportada para a Alemanha nazista, mesmo estando grávida (leia box na página 319). Solto em 1945, Prestes aliou-se a seu maior inimigo, Getúlio Vargas e, como chefe do então legalizado Partido Comunista, elegeu-se deputado federal, com a maior votação do país. Em 1948, com o PCB de novo na clandestinidade, Prestes fugiu do Brasil e viveu anos na União Soviética, da qual se tornou vassalo leal. Em 1957, Prestes obteve o direito de voltar ao país por mandado judicial e apoiou João Goulart em 1961. Com o golpe militar de 1964, viu-se forçado a fugir outra vez – deixando para trás documentos que comprometeram vários companheiros. Retornou ao Brasil depois da anistia de 1978 e participou da campanha das Diretas Já. Stalinista ferrenho, conspirador e conservador, disciplinado e disciplinador, doutrinário e doutrinador, dúbio e drástico, Prestes morreu aos 92 anos, em 1990, mantendo segredo e alimentando o mito de suas várias e fracassadas “ações revolucionárias”.
FLORO BARTOLOMEU E O PADIM CIÇO
No início de 1926, quando a Coluna Prestes entrou no Ceará, o então deputado Floro Bartolomeu Costa resolveu – após breve consulta ao seu “padrinho” político, o padre Cícero Romão – enviar um mensageiro atrás do bando do famigerado cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Em troca da patente de capitão do Exército, além de um suprimento de modernos rifles Mauser, Floro Bartolomeu decidiu convidar o “rei do cangaço” para enfrentar os homens de Luís Carlos Prestes. Se pudesse abandonar suas funções políticas, Floro Bartolomeu Costa certamente partiria para o sertão disposto a combater ele próprio o inimigo. Afinal, uma década antes, o dr. Floro fora capaz de vencer o próprio Exército nacional.
Formado na Faculdade de Medicina da Bahia, o dr. Floro Costa chegara ao Vale do Cairiri, no Ceará, em 1908. Abriu um consultório e uma farmácia e logo se tornou amigo de todos os homens influentes de Juazeiro – e o grande aliado do principal deles, o padre Cícero Romão. Graças a seus dotes militares e espírito de liderança, Floro Bartolomeu Costa se tornou chefe de um bando de jagunços e se mostrou capaz de vencer todos os combates nas muitas guerras travadas entre os coronéis locais. Seu exército particular logo se tornaria o exército privado do “Padim Ciço”.
Em janeiro de 1912, quando a “política das salvações”, deflagrada pelo então presidente Hermes da Fonseca, chegou ao Ceará com o objetivo de derrubar o oligarca Nogueira Accioly da Presidência do Estado, Floro, Padim Ciço e seu exército de jagunços concluíram que chegara a hora do Brasil ouvir falar deles. Em março de 1914, depois de inúmeros combates no sertão, Floro tomou Fortaleza, derrubou o presidente nomeado por Hermes da Fonseca e devolveu o poder à oligarquia Accioly. Não houve reação por parte do governo federal.
Até fins do século XIX, o padre Cícero Romão Batista (1844-1934) era apenas um entre os vários beatos que perambulavam pelo Nordeste, solo fértil para o messianismo, especialmente em épocas de seca e miséria. Quase na virada do século, porém, já consagrado como “santo de Juazeiro”, ele se tornaria não apenas “líder espiritual” de milhares de sertanejos dispostos a dar a vida por ele, mas também o “padre do coronel Accioly” (verdadeiro dono do Ceará). Por volta de 1908, apesar de não ousar romper sua aliança com a oligarquia Accioly, o Padim Ciço virara, ele mesmo, um dos mais poderosos “coronéis” do Nordeste e “dono” de Juazeiro.
Padre Cícero chegara à principal cidade do Vale do Cariri em 1872, com uma mão na frente e outra atrás. Fora ordenado presbítero dois anos antes, em 1870, apesar do voto contrário do reitor do seminário em que se formara, que o considerava “fantasioso”. Perto de 1889, as fantasias do Padim Ciço começaram a virar “milagre”: ao receber a comunhão de suas mãos, as beatas “tombavam por terra e as hóstias tingiam-se de sangue”.
Em 1892, o padre foi proibido de pregar e receber confissões. No ano de 1894, Roma considerou os “milagres de Juazeiro” nada além de “superstição”, ameaçando o padre Cícero de excomunhão, caso não saísse da cidade. Três anos depois, durante a campanha contra Antônio Conselheiro, o Padim Ciço achou aconselhável exilar-se no sertão.
Em 1898, no entanto, ele retornou a Juazeiro e a transformou na “cidade santa” do Nordeste. Quem ousaria enfrentar seu exército de jagunços, comandado pelo dr. Floro? Quando o novo século raiou, o Padim Ciço tinha se transformado no senhor absoluto do Vale do Cariri. Ainda hoje há uma campanha em prol de sua beatificação. O Vaticano segue ignorando-a.
Image
OS REIS DO CANGAÇO
De todos os cangaceiros que aterrorizaram o sertão nordestino nas primeiras décadas do século XX, nenhum foi mais ousado, temido e famoso do que o capitão Virgulino Ferreira da Silva, que a história consagrou com o nome de Lampião, o rei do cangaço. Virgulino entrou para o cangaço por volta de 1914, para vingar a morte de seu pai, envolvido na briga entre as famílias Carvalho e Pereira, que havia anos ensanguentava o sertão. Embora cedo tenha lavado em sangue a honra do pai assassinado, Virgulino tomou gosto pelas correrias armadas, pelos assaltos, pelos incêndios, tiroteios e estupros, que caracterizavam a vida bandida dos cangaceiros. E não precisou de muito tempo para se tornar o mais sanguinário de todos eles.
No início da década de 1920, já era chamado de Lampião – apelido que ele mesmo criara ao dizer que, nos tiroteios, sua “espingarda nunca deixava de ter clarão, tal qual um lampião”. Por volta de 1922, quando os tenentes se rebelavam em Copacabana e os poetas antropofágicos surpreendiam São Paulo, Lampião já se tornara o braço direito do cangaceiro chamado Sinhô Pereira. Em fins de 22, Pereira decidiu seguir os conselhos do Padim Ciço – de quem, como a maioria dos cangaceiros, era devoto – e abandonou as estripulias do sertão. Lampião assumiu então o comando do enorme bando de cangaceiros que vivia pelos sertões de Sergipe e da Bahia. Expandiu suas atividades fazendo incursões eventuais a Alagoas, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Virou lenda.
Em 12 de abril de 1926, depois de praticar os mais variados crimes e saques, atacando cidades em plena luz do dia, Lampião foi transformado em “capitão” legalista, recebendo, por ordem do deputado Floro Bartolomeu Costa e do padre Cícero, fuzis Mauser e trezentos homens. Tinha ordens de perseguir a Coluna Prestes. Quando descobriu que o governo não pretendia anistiá-lo e que o documento que o tornava capitão do Exército não tinha validade legal, desistiu da caçada humana e – com as novas armas – retornou aos saques, aos assaltos e aos crimes.
Em 1928, Lampião encontrou, na fazenda Malhada, na Bahia, aquela que seria a mulher de sua vida. Encontrou, não: foi encontrado por ela. Embora casada, assim que o viu, a filha do fazendeiro, uma tal de Maria Bonita, teria dito: “Esse é o homem que amo. Como é, quer me levar ou quer que eu te acompanhe?” Foi paixão à primeira vista, e Lampião e Maria Bonita ficaram juntos até a morte. Lampião cercou-a de atenções e carinho, agiu como bom marido e apelidou-a de “Santinha”. A influência de Maria Bonita no grupo também foi benéfica. Graças a ela, os bandos de cangaceiros – antes exclusivamente masculinos – se tornaram “mistos” e vários “tenentes” de Lampião também se casaram. A partir de então, a ferocidade e a frequência dos ataques diminuíram. Por três vezes, Lampião tentou abandonar o cangaço. Mas o chamado selvagem acabou sendo sempre mais forte. Seu destino estava selado.
No fim da década de 1930, com Vargas e o Estado Novo no comando da nação, o cangaço estava com os dias contados, e a cabeça de Lampião, a prêmio. Em julho de 1938, o bando do rei do cangaço se instalara numa fazenda em Angico, no interior de Sergipe, quase na fronteira com Alagoas. Um comerciante local, com quem Lampião costumava negociar, delatou o grupo. A volante comandada pelo tenente João Bezerra, da Força Pública de Alagoas, surpreendeu o bando e matou Lampião, Maria Bonita e nove outros cangaceiros. Os corpos foram jogados num riacho seco, e as cabeças, decepadas, postas em tonéis de querosene, com sal grosso, e levadas para ser expostas nas escadarias da Igreja de Santana do Ipanema, a cidade mais próxima. De lá, foram conduzidas para Maceió e depois para Salvador, onde, mumificadas, passaram a fazer companhia à cabeça de Conselheiro – o beato de Canudos – no tétrico acervo do museu Nina Rodrigues. Foi somente em fins da década de 1960 que a filha e os netos de Lampião conseguiram permissão para retirá-las de lá e dar-lhes “um enterro cristão”. Desde a morte de Corisco, o Diabo Louro, em julho de 1940, os horrores do cangaço estavam definitivamente encerrados.
Image
O CASAL CANGACEIRO: Lampião e Maria Bonita – a primeira mulher a fazer parte de um bando de cangaceiros – viveram um dos mais rumorosos e comoventes casos de amor do século XX.
Image