Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
23. Sangue no pampa e no sertão
Capítulo 23
SANGUE NO PAMPA E NO
SERTÃO
Embora a transformação do império em república tenha sido quase um passeio – na verdade, não houve muito mais que uma parada militar liderada pelo marechal Deodoro, à qual, como disse Aristides Lobo, o povo teria assistido “bestializado” –, a primeira década do novo regime foi marcada pelo caos político, econômico e social. A instabilidade generalizada seria ampliada pela eclosão das duas maiores guerras civis da história do Brasil: a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, travada de fevereiro de 1893 a setembro de 1895, e a “guerra do fim do mundo”, ocorrida em Canudos, no sertão da Bahia, de agosto de 1896 a outubro do ano seguinte, e na qual milhares de sertanejos, seguidores do beato Antônio Conselheiro, foram massacrados pelo exército republicano.
Esses conflitos pouco tiveram em comum, além da brutalidade absurda: a crueldade dos vencedores, a degola dos vencidos e as batalhas sem prisioneiros. A guerra civil de 1893 no Rio Grande do Sul foi um conflito eminentemente político – retrato fiel das dissidências que, desde o Segundo Reinado, rachavam o estado. Foi uma das raras guerras civis na qual fatores econômicos não tiveram maior importância, e o único conflito no pampa gaúcho a se equiparar, em violência e crueza, às guerras platinas do século XIX. A Revolução Federalista foi um confronto terrível que colocou frente a frente “pica-paus” – como se chamavam os republicanos jacobinos e positivistas liderados por Júlio de Castilhos – e “maragatos” – que eram os antigos liberais de regime monárquico, chefiados por Gaspar Silveira Martins.
Canudos, por seu turno, foi a guerra mais trágica da história do Brasil – talvez mais dramática e violenta que a derrocada de Palmares. Em Palmares travou-se uma luta pela liberdade. Em Canudos lutou-se sem razão. Só a existência de dois Brasis inteiramente distintos e incompatíveis – o Brasil das elites urbanas e o Brasil dos miseráveis olvidados – pode explicar a “guerra do fim do mundo”, para usar a denominação que o escritor peruano Mário Vargas Llosa deu ao conflito. Nesse sentido, Canudos foi exemplar, revelando ao país, no fim do século XIX, a trágica dicotomia com a qual ele haveria de conviver ao longo de todo o século XX. De todo modo, a República só se consolidou após o batismo com o sangue vertido pelas tropas legalistas, no pampa (abaixo) e nos cafundós do sertão, no arraial desgraçado de Canudos.
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A REVOLUÇÃO FEDERALISTA DE 1893
Embora houvesse um leque de complexidades e vários outros interesses em jogo, a chamada Revolução Federalista de 1893 pode ser resumida ao choque frontal entre os aliados de Gaspar Silveira Martins e os partidários de Júlio de Castilhos – que nada mais era do que um reflexo da luta entre o antigo regime monarquista e a nova ordem republicana.
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Alto, corpulento e rico; barba farta e nariz romano, retórica agressiva e oratória inflamada, Gaspar Silveira Martins – liberal na política mas autoritário por feitio – era o próprio estereótipo do caudilho gaúcho. Com fama de imbatível, ele fora, por 20 anos, o virtual dono do Rio Grande do Sul. A importância de Silveira Martins no cenário político brasileiro era tal que o marechal Deodoro só havia decidido proclamar a república quando lhe informaram (enganosamente) que o imperador D. Pedro II havia escolhido o Tribuno (apelido de Silveira Martins) para o lugar do primeiroministro, visconde de Ouro Preto, que o marechal derrubara na quartelada do dia 15 de novembro. Um dos primeiros atos de Deodoro após assumir a Presidência foi enviar Silveira Martins para o exílio.
Era tudo o que Júlio de Castilhos esperava. Moreno, baixo e gago, com o rosto marcado pela varíola (imagem acima), mau orador mas dono de vontade férrea e de um texto incandescente. Castilhos era um advogado (formado em São Paulo) que se revelara um jornalista ambicioso e brilhante – “dono da capacidade especial de inspirar fanatismo em seus seguidores e ódio nos adversários”, segundo um de seus biógrafos. Positivista convicto, fora o próprio Castilhos quem, em 1886, envolvera o vaidoso e ingênuo Deodoro na Questão Militar, publicando os artigos do marechal em seu jornal, A Federação.
A DEGOLA
Rápida, silenciosa e barata, a degola foi a forma predileta de execução ao longo dos dois anos e meio durante os quais a guerra civil de 1893 sangrou o Rio Grande do Sul. As vítimas eram mortas da mesma maneira como se abatiam carneiros: forçadas a se ajoelhar ante seu algoz, tinham a cabeça colocada entre as pernas do executor, que então lhes rasgava a carótida com um súbito golpe de faca. Os castilhistas degolaram antes e mais que os federalistas – mas, sempre que possível, houve vingança. Os dois episódios mais infames foram os massacres do Rio Negro e do Boi Preto. O primeiro se deu em 27 de novembro de 1893. Nesse dia, sob as ordens do comandante Silva Tavares, o negro uruguaio Adão Latorre degolou 180 federalistas que tinham se rendido sob a promessa de terem suas vidas poupadas. Em 5 de abril de 1894, em Boi Preto, os federalistas se vingaram degolando 250 homens da brigada do general Firmino de Paula. Os principais líderes dos maragatos, ou federalistas, foram os irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva (à direita), nascidos na fronteira entre o Uruguai e o Brasil. Os dois falavam mais espanhol que português e eram típicos caudilhos do pampa: contrabandistas de gado, guerrilheiros de vida tempestuosa e de ideais supostamente libertários.
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Embora, após a proclamação da República, Deodoro tivesse, surpreendentemente, escolhido um liberal para governar o Rio Grande do Sul, o exílio do Tribuno fez com que o Sul passasse a ter um novo senhor. Mas, ironicamente, seria um movimento contra Júlio de Castilhos que ajudaria a derrubar o marechal Deodoro. E a queda de Deodoro acabou arrastando Castilhos. Mas não por muito tempo: saindo do poder em novembro de 1891, Castilhos o retomou com um golpe em junho de 1892. Entre um período e outro, nada menos do que dez governos tinham dirigido o Rio Grande do Sul. Em fevereiro de 1892, Silveira Martins havia retornado do exílio, transformando o estado em um barril de pólvora. Mas, assustado com o parlamentarismo radical do Tribuno, Floriano Peixoto, novo presidente do Brasil, pragmaticamente preferiu apoiar Castilhos – apesar de ele ser um antigo aliado de Deodoro.
E assim, com o aval (ou pelo menos a omissão) do governo central, Castilhos – que, em julho de 1891, havia redigido uma constituição estadual que era o próprio elogio da monocracia (governo de um homem só) – tornou-se mais autoritário, vingativo, intolerante e sectário do que jamais fora. Aos seus adversários, só restava a rebelião. E ela não demoraria a estourar.
O RIO GRANDE INSURRETO
Após fraudes escandalosas em duas eleições e uma sucessão de assassinatos políticos, Júlio de Castilhos assumiu a Presidência do Rio Grande do Sul em 25 de janeiro de 1893. Uma semana depois, em 2 de fevereiro, a guerra civil rebentou. Contra Castilhos se ergueram não só os federalistas de Gaspar Silveira Martins, mas também monarquistas, perseguidos e descontentes em geral e até mesmo republicanos (tanto de tendência parlamentarista quanto presidencialista) que o sectarismo do ditador havia afastado do partido.
Porém, a força dos revoltosos acabou se revelando sua fraqueza: afinal, além do ódio a Castilhos, os rebeldes nada mais tinham em comum. Por outro lado, os castilhistas – que eram positivistas de vontade férrea, extremamente unidos e disciplinados – fechavam colunas sólidas. Além disso, os “legalistas” contavam com o apoio de Floriano Peixoto e do Exército paulista.
A guerra iria perdurar por 31 meses, estendendo-se pelos três estados meridionais (quase chegando a São Paulo) e cobrando, como um sinistro tributo, a vida de pelo menos 10 mil homens – muitos mortos por degola (leia box na página anterior). Não foi um combate lírico: o número de baixas e a carnificina dos embates não encontram paralelos em nenhuma outra luta travada no Brasil.
CORES E NOMES
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No folclore e na tradição do Rio Grande do Sul, a guerra civil de 1893 foi o combate feroz entre “maragatos” e “pica-paus”. Maragatos era o apelido que identificava os chamados federalistas. O primeiro bando de rebeldes que invadiu o Rio Grande do Sul para combater os desmandos de Castilhos, em fevereiro de 1893, veio do Uruguai, de um departamento povoado por espanhóis oriundos da província de Maragataria. Os republicanos os apelidaram então de “maragatos” – insinuando que se tratava de um bando de invasores estrangeiros. Mas o pejorativo acabou sendo adotado como dístico de honra. Os republicanos castilhistas – que se autodenominavam “legalistas” – foram, por sua vez, batizados de “pica-paus”. A origem do termo é controversa: para alguns, deve-se ao estampido de suas armas de fogo; para outros, era devido ao quepe vermelho usado pelas tropas castilhistas. Pelo menos nas cores os dois grupos combinavam: afinal, os “maragatos” usavam um lenço “colorado” ao redor do pescoço.
Já envelhecido, Silveira Martins (imagem acima) mostrou-se omisso e vacilante durante todo o conflito. O verdadeiro chefe militar dos insurretos era o caudilho brasileiro-uruguaio Gumercindo Saraiva. Os exércitos rebeldes não passavam, em geral, de bandos de peões comandados por estancieiros – alguns veteranos da Guerra do Paraguai e outros, como o próprio Saraiva, das revoluções platinas. Sua tática era a guerrilha, que, várias vezes sufocada, invariavelmente renascia. Em setembro de 1893, os rebeldes ganharam novo fôlego graças à eclosão, no Rio, da Revolta da Armada. Com a tomada da cidade do Desterro (hoje Florianópolis – SC) pelos revoltosos da Marinha, deu-se o enlace entre dois movimentos revolucionários que nada tinham em comum a não ser o ódio ao “jacobinismo florianista”. Ainda assim, com a derrota de Gumercindo Saraiva em julho de 1894, em Passo Fundo – num sangrento combate que marcou a vitória da arma de fogo contra a arma branca e do “quadrado” da infantaria contra as cargas de cavalaria –, a guerra virtualmente acabou. Mas a sublevação persistiria na forma de um protesto inútil e sangrento até a posse de Prudente de Morais – o presidente que aplacou o ódio de vencedores e vencidos. O Rio Grande do Sul, no entanto, seguiria violento e dividido até 1930.
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GUERRA EM CANUDOS
Tremeluzindo sob o Sol inclemente do sertão, o arraial de Canudos se erguia onde antes havia apenas os arbustos espinhosos da caatinga. Embora parecesse uma favela, era um aglomerado impressionante: possuía 5.200 casas e cerca de 20 ou 25 mil habitantes. Eram números espantosos: em fins de 1896, Juazeiro, a maior cidade no norte da Bahia, tinha 3 mil moradores, e a capital, Salvador, 200 mil. A maioria absoluta dos habitantes de Canudos era de sertanejos indigentes, agrupados em torno da figura misteriosa do beato Antônio Conselheiro.
No solo miserável do sertão, Conselheiro encontrara terreno fértil para sua pregação messiânica. A decadência dos engenhos, o fim da escravidão, a seca terrível de 1878 (durante a qual, só no Ceará, cerca de 100 mil pessoas morreram de fome), a limitação do mercado de trabalho provocada pelo fluxo incessante de imigrantes europeus: tudo conduzira ao caos social no Nordeste. Nesse ambiente de vertigem e desespero, surgiu a figura magnética de Conselheiro.
Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu no Ceará, em 1828. Filho de um comerciante, que pretendia fazer dele um padre, Antônio fora professor e ambulante, quando problemas financeiros e domésticos (a mulher o abandonou) o converteram em beato – uma espécie de nômade do sertão, um cangaceiro místico e asceta que por 17 anos perambulou pela caatinga, conclamando o povo a construir e reconstruir igrejas, reerguer os muros dos cemitérios e levar uma vida de penitência e meditação. Em 1876, preocupados com o ajuntamento em torno de Conselheiro, a Igreja e o governo começaram a transformá-lo em mártir.
Falsamente acusado de ter matado a mulher e o filho, Conselheiro foi preso. Julgado inocente, foi liberado e retornou à deriva no mar arenoso do sertão. Em 1893, depois de quase duas décadas de peregrinação e já com cerca de oito mil seguidores, Conselheiro encontraria seu porto seguro em uma fazenda da Bahia. Lá surgiria o arraial de Belo Monte, mais tarde batizado de Canudos. Em poucos meses, Conselheiro – ajudado por homens como João Abade, Pajeú, Joaquim Tranca-Pés, Raimundo Boca-Torta, Chico Ema, Antônio Beato e Manoel Quadrado – começou a materializar a utopia de uma sociedade evangélica autossuficiente. Em Canudos não havia propriedade privada: terra, rebanhos e lavouras eram de todos. Milho, feijão, mandioca e cana eram cultivados coletivamente. Cabras forneciam carne, queijo e leite. Suas peles, curtidas, eram vendidas em Juazeiro e exportadas até para os EUA. Canudos se tornou a meca dos desvalidos. Um outro Brasil.
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O ARRAIAL REBELDE: ardendo sob o sol do sertão, Canudos virou uma espécie de Meca evangélica, liderada pelo beato Conselheiro, espécie de cangaceiro místico.
A proclamação da República, em 1889, desagradara Conselheiro – especialmente porque, além de ter criado novos impostos municipais, havia decretado a separação entre o Estado e a Igreja, o que acabara com a obrigatoriedade do casamento religioso, tornando suficiente o casamento apenas no civil. Em 1893, em Bom Conselho, Conselheiro mandara arrancar e queimar as ordens de cobrança de impostos e se complicara com a lei. Seu culto era sebastianista – antiga seita messiânica que previa o retorno, do fundo do oceano, de D. Sebastião, o rei português morto no Marrocos em 1578. Conselheiro, por isso, era monarquista. Nesse contexto, como se verá, um episódio corriqueiro de desonestidade comercial precipitou o início da grande tragédia.
O VEXAME DO EXÉRCITO
Em agosto de 1896, a comunidade de Canudos comprara um carregamento de madeira de um comerciante de Juazeiro. A carga – já paga – não chegou ao destino. Injuriado, Conselheiro avisou que seus seguidores iriam à cidade retirar a madeira. Alarmado com o boato de que o “bando de fanáticos” saquearia a cidade, o juiz de Juazeiro (que já fora desafiado por Conselheiro três anos antes, em Bom Conselho, quando o beato mandara queimar as ordens de cobrança de impostos) de imediato pediu ajuda ao governador. Em novembro, uma tropa de cem soldados foi enviada à região e, concluindo que o ataque era a melhor defesa, decidiu invadir o arraial.
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SOB A MIRA DOS CANHÕES: depois de duas campanhas vexatórias, o exército republicano enviou armamento pesado, disposto a vencer “a guerra do fim do mundo” e arrasar com o vilarejo de Canudos.
No vilarejo de Uauá, os soldados foram surpreendidos por trezentos sertanejos armados de paus e pedras. Apesar de 150 homens de Conselheiro terem sido mortos, contra apenas dez mortos e dezesseis soldados feridos, as forças legais bateram em retirada. O Exército então concluiu que o episódio clamava por vingança. E ela cedo viria: antes do fim de novembro de 1896, 543 soldados, quatorze oficiais, duas metralhadoras e dois canhões foram enviados numa expedição punitiva. No dia 20 de janeiro de 1897, novamente desmoralizados, famintos e de fardas rasgadas, os soldados dessa segunda tropa batiam em retirada, sob a vaia e o fogo cerrado dos sertanejos.
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A derrota da segunda expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito, não só chocou as instituições estaduais e federais como deixou claro para o Exército que a Igreja e o governo de Canudos eram uma séria ameaça à ordem estabelecida. E assim, com apoio do governo central, uma nova força militar foi reunida com o intuito de, agora sim, arrasar o arraial rebelde a qualquer custo. Para chefiá-la foi escolhido o coronel Moreira César.
Apesar de epilético, descontrolado e vingativo – responsável pelo fuzilamento sumário de 49 rebeldes em Desterro – SC, durante a Revolta da Armada (leia p. 263) –, Moreira César (imagem acima) era herói nacional, com um currículo repleto de vitórias. E, dessa vez, com a ajuda de 1.300 soldados, vários oficiais, metralhadoras, fuzis, 15 milhões de cartuchos e quatro canhões, ele tinha tudo para vencer outra vez. A tropa partiu de trem de Salvador no dia 3 de fevereiro. No dia 18, já acampava em Monte Santo, a 60 km de Canudos. Duas crises epiléticas do comandante atrasaram o assalto ao arraial. Mas, em 2 de março, com seus homens já famintos e sedentos, Moreira César, exalando confiança, disse: “Vamos almoçar em Canudos”. E ordenou a investida.
O impossível aconteceu outra vez: os sertanejos repeliram o primeiro ataque. Cego de ódio, Moreira César ordenou outro assalto. Gritou: “Vamos tomar o arraial sem tiros. À baioneta!”. Mas as ruas de Canudos pareciam um labirinto e, ao entrarem na cidade, os soldados viraram alvo fácil para os franco-atiradores postados no alto das torres da nova igreja. Moreira César tomou nova decisão equivocada ao ordenar o avanço da cavalaria, incapaz de manobras entre ruelas e os casebres que serviam de abrigo aos nativos. Ao investir ele próprio contra o arraial, o próprio Moreira César tombou morto. Vencidos e humilhados, os soldados bateram em retirada deixando seu arsenal – inclusive os canhões – na mão dos inimigos.
A repercussão da derrota e morte de Moreira César foi retumbante. Setores da imprensa, do governo e do Exército transformaram Canudos em símbolo das ameaças que rondariam a consolidação do regime republicano. Os boatos mais delirantes circulavam pelo Rio de Janeiro. Jacobinos viam na revolta um levante monarquista e republicanos radicais clamavam por sangue. Ele logo correria.
O MASSACRE FINAL
A paranoia dos jacobinos – que viam em tudo o dedo oculto dos monarquistas –, o sensacionalismo irresponsável da imprensa, os frágeis alicerces da República, a crônica cegueira das elites brasileiras com relação aos problemas sociais do país: tudo contribuiria para tornar um episódio originado pelas centenárias desigualdades da vida no sertão não em uma inovadora possibilidade de convívio entre miseráveis e abonados, mas numa tragédia sem paralelo na história do país.
Em abril de 1897, o general Arthur Oscar começou a formar a tropa escalada para exterminar 20 mil desgraçados. A expedição, minuciosamente planejada, foi dividida em duas colunas: a primeira, na qual seguiria Arthur Oscar, tinha dois mil homens e partiria de Monte Santo, passando pela serra do Calumbi; a segunda, sob o comando do general Savaget, reunia 2.350 homens e sairia de Sergipe rumo a Jeremoabo, na Bahia. Os dois grupos levavam mais de 700 toneladas de munição, metralhadoras e canhões Krupp, além do canhão Withworth 32, chamado de “Matadeira”, tão grande que eram necessárias vinte juntas de boi para movimentá-lo lentamente pelos morros agrestes e planícies áridas dos cafundós do sertão baiano.
Em junho de 1897, ambas as tropas estavam prontas para a luta. Mais uma vez, porém, a primeira vitória foi dos rebeldes. No dia 25 de junho, ao partir de Jeremoabo rumo ao arraial, uma coluna comandada pelo general Savaget foi atacada por guerrilheiros no planalto de Cocorobó. Depois de mais de oito horas de combate, 178 militares estavam mortos. Ao mesmo tempo, na frente sul, a tropa do comandante-chefe Artur Oscar também estava cercada, no morro da Favela. Os dois acampamentos eram alvos constantes de ataques suicidas: sertanejos cruzavam as linhas e atiravam contra os oficiais.
Em fins de julho, o Exército não apenas não conseguira vitória significativa como tivera mil baixas. Conservando com dificuldade suas posições, as tropas aguardavam desesperadamente por reforços. Eles chegaram em meados de agosto: três mil homens que haviam sido reunidos às pressas por todo o país. No dia 24, um disparo da “Matadeira” derrubou o sino da igreja de Canudos. Duas semanas depois, a própria igreja foi reduzida a escombros. Era um sinal claro: raiavam os últimos dias na cidade da utopia evangélica. Quase um mês mais tarde, em 22 de setembro, morria Conselheiro. Até hoje não se sabe o que o matou: estilhaços de granada, parada cardíaca, problemas gastrintestinais provocados pela má alimentação, desgosto profundo, pura premonição?
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CRAVEJADA DE BALAS: a igreja de Santo Antônio, no arraial de Canudos, não foi poupada no ataque final do exército republicano ao vilarejo do Conselheiro.
Sem o líder, os sertanejos insurretos arrefeceram seu ânimo. Havia cerca de um ano viviam sitiados. Tinham acumulado dezenas de pequenas vitórias, infligindo muitas humilhações às tropas republicanas, aproveitando-se de todas as vantagens estratégicas que a terra crestada do sertão e as agruras às quais estavam acostumados desde sempre podiam lhes oferecer. Mas não era possível resistir mais. No dia 3 de outubro de 1897, uma bandeira branca foi erguida entre as ruínas chamuscadas de Canudos. Dois jagunços – um deles era Antônio Beato, “ex-chefe de polícia” do arraial – foram negociar com o Exército a rendição de 300 mulheres, velhos e crianças. Os demais ficaram para o combate final.
UM CÉREBRO NORMAL
O corpo de Conselheiro foi exumado em 6 de outubro de 1897. Em razão de adiantado estado de putrefação, não foi possível estabelecer a causa mortis. No entanto, não havia perfurações de bala no cadáver. A cabeça do beato foi cortada e enviada para a Faculdade de Medicina da Bahia, para ser examinada por especialistas. Em tempos lombrosianos, acreditava-se que o estudo de seu cérebro certamente indicaria sinais de anormalidade – quando não as marcas da “criminalidade nata”. Mas o diagnóstico do diretor da faculdade, Pacífico Pereira, do psiquiatra Juliana Pereira e do consagrado antropólogo Nina Rodrigues foi frustrante para a imprensa e para o povo. “O crânio de Antônio Conselheiro não apresenta nenhuma anormalidade que demonstre traços de degenerescência. É um crânio normal”, dizia o relatório de Nina Rodrigues, um cientista já acusado de ser racista.
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No dia 3, os combates reiniciaram, e, no dia 5, o Exército enfim entrou em Canudos: tinha matado seus quatro últimos defensores – dois adultos, um velho e um garoto. Do arraial restavam apenas escombros fumegantes. A batalha mais inglória do Exército brasileiro tinha sido vencida. Canudos talvez estivesse destinado a ser enterrado em cova rasa na vala comum da história, não fosse o fato de a expedição de Arthur Oscar ter sido acompanhada por um repórter do jornal O Estado de S. Paulo. Euclides da Cunha transformou Canudos numa Troia sertaneja e imortalizou Conselheiro ao escrever Os sertões, talvez o maior clássico da literatura brasileira.
EUCLIDES DA CUNHA E OS SERTÕES
Engenheiro formado pela Escola Militar da Praia Vermelha, sob forte influência positivista, Euclides Pimenta da Cunha (1866-1909) era um republicano convicto que acreditava que uma literatura engajada e de combate – elaborada com paciência, meticulosidade e ciência – poderia ajudar a construir um país melhor.
Nesse sentido, e em vários outros, a obra literária desse matemático formado em ciências físicas e naturais e que, paralelamente, decidira seguir também a carreira jornalística, nada tinha a ver com a “República das Letras” da rua do Ouvidor – caracterizada por seu preciosismo gramatical, seu dandismo, sua arrogância tipicamente belle époque. Talvez justamente por isso, Euclides tenha passado a noite anterior ao lançamento de seu primeiro livro, Os Sertões, corrigindo, com um canivete de pena, um a um, nos mil exemplares da primeira edição, os 80 erros que encontrara na obra. Tamanha meticulosidade seria plenamente recompensada: ao ser lançado pela respeitada editora carioca Laemmert, em 11 de dezembro de 1902, Os Sertões tornou-se, literalmente da noite para o dia, um estrondoso sucesso.
Embora cinco anos já houvessem passado desde os sangrentos e amendrontadores acontecimentos de Canudos, o episódio tinha permanecido vivo na memória nacional. Além de possuir todos os ingredientes necessários para um grande romance – o caráter épico, as tensões dramáticas, as derrotas militares, uma insurreição de miseráveis –, o livro fora escrito em estilo inovador e marcante. Recendia a terra e sangue, era agreste e desconhecido como o próprio sertão; era espantosamente real.
Além disso, apresentava aos brasileiros letrados um Brasil que eles jamais tinham visto, suposto ou tentado entender. A sinceridade, o tom quase homérico, as peculiaridades verbais de Euclides – “ele escreve como com um cipó”, diria Joaquim Nabuco – tornaram sua prosa uma febre nacional. A primeira edição logo se esgotou e muitas outras se seguiram. Um século depois, Os Sertões permanece tão admirável quanto no primeiro dia.
Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, em novembro de 1866. Impossibilitado de continuar pagando a Escola Politécnica, transferiu-se para a Escola Militar da Praia Vermelha, que era gratuita. Tornou-se aluno de Benjamin Constant e, como tantos de seus pupilos, “converteu-se” ao positivismo. Em 4 de novembro de 1888, quando o então ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a escola, Euclides, abolicionista e republicano radical, saiu da formação e jogou o sabre no chão. Foi preso e expulso da escola, mas ficou tão famoso por causa da ousadia que acabou sendo contratado para escrever para o jornal O Estado de S. Paulo.
Com a proclamação da República, seria lembrado como o intrépido “estudante da baioneta” e, por ordem do próprio Deodoro, voltou à Escola, onde se formou em engenharia militar, matemática e ciências físicas e naturais. Em agosto de 1896, Euclides já era capitão quando uma nova punição – provocada pelo radicalismo de seus artigos em O Estado – o levou a desistir de vez da carreira militar e a se reformar.
Após um ano exato, Júlio Mesquita, diretor do jornal, decidiu enviá-lo como repórter para o front, em Canudos. No dia 14 de agosto, com a tropa do marechal Carlos Bittencourt, Euclides partiu para Salvador. Chegou a Canudos em 16 de setembro – apenas seis dias antes da morte de Conselheiro.
No dia 5 de outubro, tombaram os últimos defensores do arraial. “Eram quatro apenas”, escreveu Euclides. “Um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam 5 mil soldados.”
Os ideais românticos de Euclides morriam junto com os quatro derradeiros sertanejos de Canudos. De volta a São Paulo, decidiu escrever seu “livro vingador”. Ele o fez à margem do rio Pardo (São Paulo), onde passou três anos supervisionando a construção de uma ponte. Lá, numa cabana de teto de zinco, à sombra de uma paineira, nasceria um dos mais extraordinários livros da história da literatura brasileira: um texto primoroso capaz de decifrar os mistérios e os horrores do Brasil – que, passado mais de um século, o Brasil, de certa forma, segue ignorando.
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“Nós, filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disso, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo. Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.” Euclides da Cunha