Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
19. A guerra do paraguai
Capítulo 19
A GUERRA DO PARAGUAI
Foi uma virada nos rumos da guerra. A esquadra brasileira – uma fragata, quatro corvetas e quatro canhoneiras, com 2.287 homens e 59 canhões a bordo – estava próxima à embocadura dos rios Paraná e Paraguai, junto ao afluente Riachuelo, nos arredores de Corrientes, quase na atual fronteira entre a Argentina e o Paraguai. Reinava calma a bordo: os marinheiros preparavam-se para assistir à missa da festa da Santíssima Trindade. Mas então, por volta das nove horas da manhã, em formação de batalha e com uma velocidade de doze milhas por hora (a favor da correnteza), duas corvetas, sete vapores e seis chatas paraguaias, com 2.500 homens e 44 canhões, surgiram subitamente à frente deles. Era domingo, 11 de junho de 1865, e uma das maiores batalhas navais da história do continente iria começar. A esquadra brasileira era comandada pelo chefe de divisão Francisco Manoel Barroso, que estava a bordo da fragata Amazonas, na qual mandou içar o letreiro: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”, seguido pela ordem: “Atacar o inimigo mais próximo que cada um puder”. Foi exatamente o que aconteceu ao longo de mais de dez horas de um combate feroz, ao final do qual a sorte havia mudado de lado na Guerra do Paraguai.
O mais longo, mais sanguinolento e mais destrutivo conflito armado da história da América do Sul havia começado seis meses antes. Desde então, a iniciativa ofensiva pertencia ao Paraguai. Com o maior e mais poderoso exército do continente (cerca de 60 mil homens em armas), e sob o comando férreo do ditador Francisco Solano López, o Paraguai vinha se preparando havia anos para deflagrar um conflito armado. A ambição de López era tornar seu país uma potência continental. Seus interesses bateram de frente com os do império brasileiro e, a seguir, com os da jovem República Argentina. Na conflituosa geopolítica da bacia do Prata – uma região conflagrada desde o século XVI –, López desempenhou o papel do fósforo no paiol de pólvora. Ao longo dos quatro anos que se seguiram à Batalha do Riachuelo, Brasil, Argentina e Uruguai – unidos pelo Tratado da Tríplice Aliança – destroçaram o Paraguai.
Passados quase 150 anos do fim do conflito, a Guerra do Paraguai ainda desperta paixão e polêmica. A historiografia oficial de cada um dos países envolvidos apresenta uma versão diferente, senão dos fatos, ao menos de seus objetivos e suas motivações. A verdade é mais uma entre as centenas de milhares de vítimas da guerra. Nos compêndios brasileiros, o conflito surge como fruto da megalomania e do expansionismo de López. O papel supostamente heroico de líderes militares (Caxias, Osório, Tamandaré, Barroso) e a descrição de batalhas épicas (em geral acompanhada da reprodução dos belos quadros que D. Pedro II encomendou a pintores como Pedro Américo, autor de A batalha do Avaí, e Vítor Meireles, autor de Batalha naval do Riachuelo) muitas vezes substituem análises mais profundas. Nos livros argentinos, são outros heróis e outras batalhas – mas o tom celebratório é o mesmo. Para os paraguaios, tudo começou por causa da truculência dos países vizinhos, poderosos e invejosos, que partiram para o ataque.
Na verdade, foi uma guerra suja, travada em pântanos e alagadiços, lutada por escravos recém-libertos, indígenas de diversas nações, mestiços, “voluntários” convocados à força e até por mulheres, crianças e velhos. Guerra na qual muitos combatentes morreram de tifo, cólera ou malária antes de disparar o primeiro tiro. Guerra de interesses expansionistas, travada entre ex-colônias emergentes. A mais longa (prolongou-se de outubro de 1864 a março de 1870) e a mais violenta (deixou cerca de 150 mil mortos) guerra ocorrida no mundo entre 1815 e 1914. A maior guerra da história da América Latina.
Uma guerra trágica, tola e sórdida – como todas.
SANGUE E MORTE NA TERRA DE NINGUÉM
Desde o início, era uma região conflituada – virtualmente uma terra de ninguém. Ao longo dos três séculos e meio durante os quais Portugal e Espanha controlaram os destinos políticos da América, seus governantes não conseguiram estabelecer os limites de seus impérios coloniais na região sul do continente. Desde o alvorecer do século XVI, Portugal tentara prolongar suas fronteiras sul-americanas até a embocadura do Prata. A Espanha, embora pareça ter desistido de lutar pelos direitos que lhe eram concedidos pelo Tratado de Tordesilhas (assinado em 1494), jamais se mostrou disposta a ceder tanto terreno para o avanço luso.
O quadro começaria a se agravar a partir de 1680, quando os portugueses fundaram a Colônia do Sacramento desafiadoramente em frente a Buenos Aires (leia na p. 90). Cerca de século e meio mais tarde, a crise chegou ao auge quando tropas luso-brasileiras invadiram a chamada Banda Oriental (mais tarde, Uruguai), deflagrando a Guerra Cisplatina, que se prolongou de 1811 a 1816. A partir de então, raros seriam os períodos durante os quais reinaria a paz nas vastas amplitudes do pampa.
Não foi muito diferente depois que as colônias conseguiram se livrar das metrópoles. Em 1816, o Paraguai se tornara o primeiro país independente da região – separando-se não apenas da Espanha, mas também de Buenos Aires (sede do Vice-Reinado do Prata, criado em 1777, englobando, além das províncias platinas, também Tucumán, Cuyo e o Alto Peru, hoje Bolívia; só em 1852 a Argentina iria reconhecer a independência do Paraguai). A seguir, foi a Argentina que, em 9 de julho de 1816, também conquistou sua soberania. Em 29 de agosto de 1828, seis anos após a independência brasileira, Argentina e Brasil assinavam, no Rio de Janeiro, um tratado reconhecendo o Uruguai como um país independente. A ex-Banda (ou “lado”) Oriental nascia para ser uma espécie de Estado-tampão – uma nação para-choques – estrategicamente estabelecido entre duas jovens nações expansionistas.
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UMA LUTA DE CAUDILHOS: a Guerra do Paraguai começou com o envolvimento do Brasil nos confrontos entre o “blanco” Oribe (acima, na página ao lado) e o “colorado” Rosas (à esquerda).
A fundação do Uruguai iria amenizar mas não solucionar os conflitos na bacia do Prata, cujo termômetro geopolítico se manteve em temperaturas elevadas e em ritmo taquicárdico por mais um século. De 1830 ao crepúsculo do século XIX, as coxilhas ondulantes do pampa foram regadas de sangue numa série aparentemente infindável de conflitos: guerras de caudilhos, guerras de guerrilhas, guerras a cavalo, guerras de degolas. O Brasil se envolveria em quase todas elas, em geral apoiando, em nome dos próprios interesses, o governo constitucionalista do Uruguai – estivesse ele em poder dos colorados (liberais) ou dos blancos (conservadores), os dois partidos que rachavam o país ao meio.
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Na Argentina, o poder pertencia aos colorados e essa seria sua facção no Uruguai, independentemente de qualquer acontecimento político. E, na verdade, embora tivesse suas raízes fincadas na secular rivalidade entre Portugal e Espanha, a Guerra do Paraguai iria eclodir como um trágico desdobramento de episódios inseridos na guerra civil extremamente longa entre blancos e colorados no Uruguai.
Em 1841, o dúbio jogo de interesses e os conflitos incessantes entre o ditador argentino Juan Manuel Rosas, colorado, e os caudilhos uruguaios Frutuoso Rivera, colorado, e Manuel Oribe, blanco, já haviam deflagrado a chamada Guerra Grande, que conduzira ao dramático cerco de dez anos a Montevidéu – cidade que, na definição de Alexandre Dumas, tornou-se então uma “nova Troia”. Ao longo de uma década, os horrores vivenciados pela população sitiada na capital uruguaia comoveram o mundo – embora nenhum país, nem Inglaterra, nem França, nem Brasil, tenha ousado intervir no conflito. Por fim, em 1851 – após batalhas nas quais a degola de até oitocentos homens se tornara um fato corriqueiro –, Oribe venceu seu rival.
Logo a seguir, o governo blanco de Oribe incentivou seus partidários a atacar estâncias de brasileiros localizadas tanto em território uruguaio como além da fronteira, já em pleno Rio Grande do Sul. Tais incursões – chamadas califórnias, pois, de acordo com o historiador Pedro Calmon, “lembravam as violentas cenas da expansão americana rumo ao Oeste” – custaram muitas vidas e cerca de 800 mil cabeças de gado ao Brasil.
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Assim sendo, em julho de 1851, o então conde de Caxias, na época ocupando a Presidência da Província do Rio Grande do Sul, foi autorizado pelo imperador D. Pedro II a invadir o Uruguai, à frente de um exército de 16 mil homens. Após uma breve e bem-sucedida campanha militar, ele derrubou o caudilho Manuel Oribe em outubro daquele ano. A seguir, firmando uma aliança com o general argentino Urquiza, Caxias tramou também a derrubada do ditador Juan Manuel Rosas, a qual se concretizou em 1852. Foi o fim da chamada “Guerra contra Oribe e Rosas”. A paz, no entanto, não iria perdurar por muito tempo na conflagrada bacia do Prata.
Ao longo de toda a década de 1850, os confrontos se sucediam de ambos os lados da fronteira. Mas, então, em abril de 1863, quando o Brasil e a Argentina se uniram para apoiar a rebelião do general uruguaio Venâncio Flores (do Partido Colorado) contra o governo constitucional blanco, o ditador paraguaio Francisco Solano López (que havia assumido o poder em outubro de 1862), sentindo-se prejudicado pela aliança entre as duas nações mais poderosas da região e sua intervenção nos assuntos internos do Uruguai, concluiu – com alguma arrogância e enorme temeridade – que era chegada a hora de mudar o equilíbrio geopolítico da região e dar ao Paraguai um novo papel naquele jogo de interesses político-econômicos.
Sua decisão teria consequências trágicas – e não apenas para o Paraguai.
A TRÍPLICE ALIANÇA VAI À GUERRA
A Guerra do Paraguai começou no Uruguai. Mais estranhamente ainda: começou com o Brasil invadindo o Uruguai – supostamente para apoiar o Partido Colorado e em represália ao Partido Blanco, cujos membros continuavam cruzando a fronteira para atacar estâncias no Rio Grande do Sul. Para o ditador paraguaio Solano López – que havia chegado ao poder havia apenas dois anos, substituindo o pai, o também ditador e grande modernizador do Paraguai, Carlos Antonio –, a ação brasileira seria apenas a ponta do iceberg da política expansionista do Brasil no Prata, em tudo nociva aos interesses paraguaios. Solano López sabia que, se a embocadura do rio da Prata fosse bloqueada, o Paraguai poderia ser mantido na clausura – tanto econômica quanto geopolíticamente.
López decidiu então se defender atacando: aprisionou um navio brasileiro em Assunção e, a seguir, em novembro de 1864, invadiu a vulnerável Província de Mato Grosso. Logo depois, pediu autorização à Argentina para passar com suas tropas pela Província de Corrientes com o propósito de atacar o Rio Grande do Sul e as tropas brasileiras que tinham invadido o Uruguai. O pedido foi negado. Solano López cometeu então a suprema audácia de declarar guerra também à Argentina. Supostamente, López julgava que poderia contar com o apoio das províncias argentinas adversárias do então presidente Bartolomé Mitre e com a ajuda dos blancos uruguaios, além da possibilidade de negociar com o Brasil um acordo sobre uma possível retirada das tropas paraguaias de Mato Grosso. Nada disso, porém, se concretizou.
Embora o Paraguai fosse menor e menos rico do que o Brasil e a Argentina, o país, ao contrário de seus adversários, estava pronto para a guerra. Tinha 64 mil homens em armas (e 28 mil reservistas). O Brasil dispunha de 18 mil soldados efetivos, a Argentina 8 mil e o Uruguai, então governado pelos colorados, apenas mil. Quarenta dias depois de assinado o Tratado da Tríplice Aliança, a marinha brasileira destroçou a paraguaia na batalha do Riachuelo. Até então, praticamente só o Paraguai atacara. Essa vitória decidiu a guerra em favor da Tríplice Aliança, e os exércitos aliados só não avançaram até Assunção por causa da heroica resistência da fortaleza de Humaitá (ironicamente construída por engenheiros militares brasileiros) – e, segundo alguns historiadores, por causa do “desleixo” do almirante Tamandaré, que julgou o inimigo derrotado.
Mas os paraguaios ainda resistiriam por cinco anos, auxiliados pelas condições geográficas de seu país – onde a guerra, a partir de então, passou a ser travada – e pela bravura de seus combatentes, que julgavam lutar por uma causa justa, compartilhando a certeza (habilmente explorada por López) de que a derrota significaria o aniquilamento de sua nação. Após o exército paraguaio ter sido destroçado na batalha do Tuiuti, em maio de 1886, o conflito transformou-se basicamente em uma guerra de guerrilhas, com os aliados movendo incessante perseguição a um Solano López cada vez mais acossado e paranoico. Em 1º de março de 1870, o líder paraguaio enfim foi morto por tropas brasileiras. “Muero con mi Pátria” foram suas últimas palavras.
Pura verdade: a guerra virtualmente arrasou o Paraguai.
O TEATRO DE OPERAÇÕES
Começou no Pantanal e acabou no Chaco. Embora por um breve período também tenha havido luta no pampa, a Guerra do Paraguai foi travada basicamente nos baixios alagadiços localizados na mesopotâmia dos rios Paraná e Paraguai. O número total de soldados envolvidos nos quase seis anos de conflitos jamais será plenamente conhecido. As estatísticas mais confiáveis falam em 64 mil soldados paraguaios mobilizados desde o início da guerra, além de um corpo de 28 mil reservistas – do qual fariam parte velhos veteranos e até mulheres e crianças.
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A ÁREA CONFLAGRADA: o general Osório em mais uma batalha da guerra na qual os interesses expansionistas de Brasil, Argentina e Uruguai se chocaram com as ambições do ditador paraguaio Solano López.
O Brasil teria enviado aos campos de batalha cerca de 145 mil combatentes; a Argentina, algo em torno de 25 mil; e o Uruguai, menos de três mil (tendo uma presença meramente simbólica na guerra, em especial após 1866). Supõe-se que aproximadamente 95% dos soldados paraguaios tenham morrido em combate, ou sido vitimados por doenças. Também é provável que algo em torno de 15% do total da população paraguaia pré-guerra (calculada em cerca de 300 mil habitantes) tenha sucumbido no conflito: ou seja, cerca de 45 mil mortos civis (muitos deles em surtos de fome e epidemias). Apenas entre Tuiuti, Curupaiti e nos arredores da fortaleza de Humaitá, cerca de 33 mil soldados aliados perderam suas vidas.
A amedrontadora estatística que eleva a quase 200 mil o número de mortos durante a Guerra do Paraguai configura índices extremamente elevados segundo os padrões de qualquer guerra moderna.
Os historiadores dividem a Guerra do Paraguai em quatro fases distintas:
1. O ATAQUE PARAGUAIO
a) Invasão de Mato Grosso (em dezembro de 1864)
b) Invasão da Província de Corrientes, na Argentina (em janeiro de 1865) c) Tomada de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul (início de junho de 1865)
2. A REAÇÃO DOS ALIADOS
a) Formação da Tríplice Aliança (em maio de 1865)
b) Batalha do Riachuelo (em 11 de junho de 1865)
c) A invasão do Paraguai (em abril de 1866)
3. O COMANDO DE CAXIAS (a partir de fins de 1866)
a) A Retirada de Laguna (em maio de 1867)
b) Tomada da fortaleza de Humaitá (em agosto de 1868)
c) A Dezembrada (em dezembro de 1868)
4. SOB O COMANDO DO CONDE D’EU (a partir de março de 1869)
a) A campanha das Cordilheiras (em abril de 1869)
b) Perseguição e morte de Solano López (em março de 1870)
O combate final da Guerra do Paraguai se deu no dia 1º de março de 1870, em Cerro Corá, região nordeste do Paraguai. Ferido por uma lançada do cabo Lacerda, apelidado de Chico Diabo, López foi morto com um tiro, nas barrancas do arroio chamado Aquidabanigui.
O “PRESIDENTE VITALÍCIO” DO PARAGUAI
Francisco Solano López (1827-1870) nasceu em Assunção, filho do general Carlos Antonio López, ditador paraguaio que deu início à modernização do país e concedeu cidadania aos indígenas. Nomeado general de brigada aos 18 anos, Solano (foto à direita) assumiu a Presidência vitalícia do Paraguai em 1862, depois da morte do pai. Entre 1853 e 1856, Solano estivera várias vezes na Europa, onde se inteirou e adotou o sistema militar prussiano. Também tratou de adquirir grande quantidade de armas e munições, contratando técnicos e consultores estrangeiros para criar um forte exército. Quando se sentiu pronto, partiu para o ataque. Encurralado nas barrancas de um riacho, em março de 1870, recusou a rendição e foi morto pelas tropas brasileiras.
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NAUFRÁGIO NO CHACO: na terrível batalha do Curupaiti (acima), as tropas argentinas e uruguaias foram devastadas pelo reagrupado exército paraguaio, sob o comando de López.
DE TUIUTI A CURUPAITI
O primeiro canhonaço estourou pouco depois do meio-dia de 24 de maio de 1866. Foi o tiro de largada para o início da batalha do Tuiuti – a maior e mais sangrenta luta armada da história do continente sul-americano e o começo da segunda fase da Guerra do Paraguai.
Em abril de 1866, quase um ano depois de terem destruído a marinha paraguaia na batalha do Riachuelo, os exércitos aliados finalmente haviam invadido o Paraguai por terra. As forças da Tríplice Aliança decidiram estabelecer então seu quartel-general nos baixios do Tuiuti – região pantanosa localizada logo acima da confluência dos rios Paraná e Paraguai. Na manhã de 24 de maio de 1866, os paraguaios concluíram que era preciso tentar desalojá-las dali.
O cenário para o confronto estava desenhado. De um lado, cercados de pântanos, lagoas e densos matagais, agrupavam-se os exércitos aliados: 21 mil soldados brasileiros, 10 mil argentinos e 1,2 mil uruguaios, sob a chefia do general e presidente argentino Bartolomé Mitre, comandante-geral das forças da Tríplice Aliança. Do outro lado, estavam 24 mil combatentes paraguaios, sob o comando de seu líder supremo, Solano López.
À direita do campo estavam os argentinos; no centro e na esquerda, os brasileiros e os uruguaios. Partindo para a ofensiva, López determinou o avanço de 18 mil homens, divididos em três colunas. Eles levaram de roldão dois batalhões uruguaios e o 4º de voluntários brasileiros. O plano do líder paraguaio consistia em investir contra os flancos e o centro das tropas aliadas, com as alas flanqueantes encarregadas de fechar tenazes para impedir uma eventual fuga dos invasores e surpreendê-los pela retaguarda.
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CAXIAS
Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, seria o comandante natural do Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Quando o conflito rebentou, porém, o governo do Brasil estava em mãos dos liberais – e Caxias, ligado ao Partido Conservador, acabou sendo substituído pelo ex-discípulo Manoel Osório. Em julho de 1866, os conservadores forçaram sua ascensão, e Caxias enfim assumiu o comando geral das tropas brasileiras. Um ano mais tarde, com Bartolomé Mitre saindo de cena, ele se tornaria o chefe dos exércitos aliados, imprimindo às operações o estilo ofensivo que sempre caracterizou suas campanhas. Venceu uma sucessão de batalhas e entrou em Assunção em janeiro de 1869. Doente, retirou-se em março, deixando a guerra praticamente ganha.
Foi um ataque terrível e ruidoso, conforme revela o relato do alferes Dionísio Cerqueira, do 4º Batalhão de Voluntários: “Novas colunas de cor avermelhada e armas cintilantes surgiam umas após as outras; eram guerreiros acobreados, espadaúdos, montados em pequenos cavalos, com os estribos de rodela entre os dois dedos dos pés e chiripás de lã vermelha; com boleadeiras nos tentos, empunhando lanças enormes, ou brandindo espadas curvas e afiadas, avançando a galope, em alarido infernal, sobre os batalhões, já meio desorientados, pelas cargas repetidas que davam, pelas linhas de atiradores que saíam, pelas fileiras que rareavam, pelos oficiais que morriam, pelos chefes que tombavam. Parecia uma tempestade… Cornetas tocavam à carga; lanças se enristavam; a artilharia rugia; cruzavam-se baionetas; rasgavam-se os corpos sadios dos heróis; espadas brandidas abriam crânios, cortavam braços e decepavam cabeças.”
Depois de duas horas de fragorosa batalha campal, as tropas do general brasileiro Manuel Osório conseguiram conter o ataque ao centro da formação brasileira e, em seguida, depois de auxiliarem as alas, passaram à ofensiva. Às quatro e meia da tarde, o exército paraguaio batia em retirada, deixando 6 mil mortos (contra 3.913 dos aliados) e 7 mil feridos. Porém, o comandante das forças da Tríplice Aliança, Bartolomé Mitre, resolveu não perseguir o inimigo já batido. Descontente e discordando da atitude de Mitre, Osório – que fora um dos principais heróis da batalha – decidiria retirar-se, já no mês seguinte, do teatro de operações.
Por quase dois anos, Osório se manteve longe da guerra – que, julgava ele, poderia ter começado a terminar exatamente naquele dia, em Tuiuti, caso Mitre tivesse revelado mais determinação.
De todo modo, se ainda não o fizera, quatro meses mais tarde Mitre teria todos os motivos para se arrepender (e dar razão a Osório). Afinal, no dia 22 de setembro de 1866, ele comandou pessoalmente um ataque à fortaleza de Curupaiti, em pleno Chaco paraguaio. E, ali, o exército que Mitre perdera a chance de destroçar em Tuiuti estava não apenas reagrupado, mas protegido pelas trincheiras, pelos fossos e pelos 32 canhões de um forte recém-reconstruído. Como não é difícil supor, o combate redundou em tragédia e fracasso para os aliados, que perderam mais de cinco mil homens. Boa parte das tropas argentinas (2.082 homens) e uruguaias (cerca de novecentos soldados) foi dizimada em Curupaiti –, e ambos os países jamais tiveram possibilidade de restaurar seus efetivos.
Assim, a partir de fins de 1866, a Guerra do Paraguai passou a ser, quase que exclusivamente, uma guerra do Brasil contra o Paraguai. E o confronto ainda se arrastaria por quatro terríveis e longos anos.
A DEZEMBRADA
Apesar da vitória esmagadora em Tuiuti, em maio de 1866 a situação da guerra permanecia incerta. Foi quando, no Rio de Janeiro, o Partido Conservador, que estava na oposição, conseguiu forçar o gabinete liberal, chefiado por Zacarias Góes e Vasconcelos, a entregar o comando-geral das forças brasileiras ao então marquês de Caxias – mesmo porque o general Osório, ferido e contrariado, havia se afastado momentaneamente da luta. Em janeiro de 1868, o general Bartolomé Mitre, presidente da Argentina, foi forçado a retornar a Buenos Aires para enfrentar problemas políticos internos. O comando dos exércitos aliados passou, então, às mãos de Caxias – ainda mais porque o Brasil prosseguiria na guerra virtualmente sozinho.
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REALISMO BRUTAL: o amplo painel – com dez metros de comprimento por cinco de largura – A Batalha do Avaí, de Pedro Américo, foi recebido com surpresa e horror tanto pelo povo quanto pelos acadêmicos brasileiros. Pedro Américo retratou a si próprio em meio ao fragor da luta.
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Tão logo assumiu a chefia, Caxias – que encontrara o exército brasileiro mal armado, indisciplinado e duramente atingido por doenças e epidemias – reorganizou as tropas e deu início à ofensiva final para tomar Assunção, a capital paraguaia. Duas décadas antes, porém, engenheiros militares brasileiros tinham ajudado o governo do Paraguai a erguer a fortaleza de Humaitá, nas margens do rio Paraguai, quase na confluência com o rio Paraná. Em junho de 1867, o último baluarte do exército de López a impedir o avanço das forças aliadas era justamente o forte erguido com a ajuda de seus inimigos de então. Mas, com o exército reequipado e remotivado, Caxias pôde determinar o cerco a Humaitá, contornando a fortaleza e atacando-a pela retaguarda, em fevereiro de 1868. O forte, no entanto, só foi tomado em agosto. Estava aberto o caminho não apenas para Assunção, mas para a vitória – embora a guerra ainda fosse clamar milhares de vidas e exigir mais de uma dezena de batalhas épicas.
Depois de tomar a linha fortificada de Pisiquiri, às margens do rio Paraguai – fazendo uma trilha com seis mil troncos de palmeiras para poder atravessar um pântano –, Caxias deu início à ofensiva final, que entraria para a história com o nome de Dezembrada. A campanha começou em 4 de dezembro de 1868, com a batalha de Itororó. Depois vieram os combates de Angostura e Lomas Valentinas – este último com seis dias de duração. Entre um e outro, no dia 11, foi travada a Batalha do Avaí, que Pedro Américo iria imortalizar com um quadro de amplas dimensões (na página 227).
A Dezembrada terminaria no dia 30, com a tomada de Angostura. Uma semana depois, a 5 de janeiro de 1869, os exércitos aliados marchavam sobre Assunção. A guerra, porém, ainda não estava terminada, já que Solano López abandonara a cidade, refugiando-se no norte do Paraguai com seus 13 mil derradeiros soldados.
A RETIRADA DA LAGUNA
Não foram apenas belos (e polêmicos) quadros de batalhas que a Guerra do Paraguai legou às artes brasileiras. Há também pelo menos uma obra-prima literária produzida no campo de batalha. Militarmente, o episódio conhecido como a Retirada da Laguna foi um fiasco e um fracasso. Literariamente, porém, transformou-se em uma vitória maior.
Primeiro, os fatos: em maio de 1867, o Brasil ainda não possuía comunicação por terra com o território de Mato Grosso, que havia sido invadido e permanecia controlado pelo Paraguai. Uma pequena coluna brasileira, formada por 1.680 homens, comandados pelo coronel Carlos de Morais Camisão, recebeu a incumbência de realizar uma incursão por trás das linhas inimigas e penetrar de Mato Grosso. Foi uma marcha épica, iniciada a 8 de maio, que acabou conduzindo aquela tropa desde o Rio de Janeiro até Coxim, em Mato Grosso (via Mogi, Franca e Uberaba). De Coxim, os expedicionários, já vitimados pelo cansaço, pela fome e pelas enchentes, entraram em Laguna, no Paraguai, sendo então atacados pelo inimigo. Forçados a bater em retirada, foram acometidos por epidemias de cólera-morbo e febres palustres. Toda a sorte de perigos e privações, todos os atos de desespero e de heroísmo, foram brilhante e minuciosamente descritos por Alfredo d’Escragnolle Taunay, em seu livro A retirada da Laguna, escrito originalmente em francês, em 1871, e, três anos mais tarde, traduzido para o português por seu filho, Afonso Taunay.
Lançado em português em 1874, apenas dois anos após Inocência ter consagrado Taunay como escritor tremendamente popular, A retirada da Laguna encantou os críticos e emocionou o público. Sílvio Romero, em sua clássica História da literatura brasileira, publicada em 1888, considerou Taunay superior, em certo sentido, a Machado de Assis e a José de Alencar, graças ao que ele chamou de “um inigualável sentimento da paisagem”. Anos mais tarde, Antônio Cândido, o maior crítico literário do Brasil, repetia, em sua Formação da literatura brasileira, publicada em 1959, que, na obra de Taunay, “a paisagem deixou de ser um espetáculo para integrar-se na sua mais vívida experiência de homem”, resultando daí “um brasileirismo, misto de entusiasmo plástico e consciência dos problemas econômicos e sociais”.
Mais recentemente, o professor Francisco Alambert não deixou de notar, em um ensaio escrito em 1994, que Taunay descreveu “uma paisagem em que a Guerra e as misérias humanas se confundem e combinam com o lado obscuro e desconhecido da natureza e com a natureza básica dos homens, primitivos, selvagens e guerreiros”.
A obra-prima de Alfredo d’Escragnolle Taunay interpreta a Guerra do Paraguai como um confronto entre civilização e barbárie e, embora o livro seja um canto de derrota da civilização, pretende demonstrar que, apesar de terem perdido aquela batalha específica, os “heróis civilizadores” acabariam ganhando a guerra contra os “primitivos guaranis” – tão próximos da Natureza que, na verdade, não eram muito mais do que apenas parte dela.
Um trecho:
“Tínhamos muito próximo de nós o termo de tantas misérias, quando outra novidade veio agravar a situação, além de qualquer previsão, por mais sinistra que fosse: circulou de repente pelo acampamento a notícia de que nele havia cólera. Teve esse dia cruel uma tarde e uma noite, como era de se prever. Pela manhã, o tempo, a princípio chuvoso, melhorou; e logo tornou-se o sol ardente. Os homens mal se arrastavam, tendo a morte sob os olhos e no coração… A que causa devíamos atribuir esta irrupção de cólera, ou melhor, a que causa não a atribuirmos? Seria a carne estragada que éramos obrigados a comer, ou a fome curtida quando náuseas venciam o apetite, ou, ainda, o insuportável ardor dos incêndios que nos escaldavam o sangue, quiçá a infecção oriunda das substâncias vegetais que devorávamos, brotos, frutos verdes e podres, ou, também, enfim, a insalubridade do ar viciado pela água estagnada dos charcos e lodaçais que naquela região abundam?… Era terrível ver os coléricos dilacerando os andrajos com os quais tentávamos cobri-los, rolando uns sobre os outros, a se torcerem com câimbras, vociferando: ‘Água!’, enquanto a chuva caía sobre seus corpos gélidos.”
AS CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA
A Guerra do Paraguai, como já disse alguém, foi um grande negócio. Certamente não para o Paraguai – destroçado pelos exércitos da Tríplice Aliança (especialmente pelo Exército brasileiro), o país perdeu mais da metade de sua população masculina: foram pelo menos 90 mil mortos. Sobraram apenas velhos, mulheres e crianças. A guerra também não foi um bom negócio para o Brasil. Além de perder 33 mil homens, o país contraiu uma enorme dívida de guerra com dois bancos ingleses: cerca de dez milhões de libras. O território anexado do Paraguai – um retângulo irregular, de cerca de 300 quilômetros de comprimento e 150 de largura, no atual estado de Mato Grosso do Sul – não compensou a crise monetária que se seguiu.
A guerra também não foi um bom negócio para os milhares de escravos libertos e ex-escravos mandados para a linha de frente com a promessa, muitas vezes não cumprida, de ganharem a liberdade após o conflito. As piores tarefas da frente de batalha eram sempre entregues a eles. A guerra igualmente não foi um bom negócio para os milhares de indígenas das nações Terena, Guaicuru e Guarani envolvidos no conflito – o trabalho sujo da guerra de guerrilhas ficou para eles. Os Terena lutaram do lado brasileiro. Os Guaicuru combateram tanto a favor dos aliados quanto a favor do Paraguai, dependendo de que lado da fronteira ficavam suas aldeias. Já o grosso das tropas paraguaias era formado por Guarani.
A guerra também não foi um bom negócio para a Argentina, que não apenas não conseguiu se apoderar de vastas porções do território paraguaio, como também se endividou com os ingleses. A guerra, por fim, não foi um bom negócio para o Uruguai, que, embora não tenha contraído muitas dívidas, perdeu mais de mil homens e, na partilha territorial que se seguiu ao fim do conflito, não levou nada.
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ENTRE MORTOS E FERIDOS: o soldado- pintor Cándido López retratou os soldados paraguaios presos (abaixo). O exército de López era constituído basicamente por indígenas da tribo Guarani e contou também com mulheres e crianças. No exército brasileiro, lutaram muitos escravos e ex-escravos.
Para quem, então, a Guerra do Paraguai acabou sendo um grande negócio? Para “o judeu Rothschild e seu colega cristão Barings” – de acordo com o poema do inglês Lord Byron que os apontava como “os senhores do mundo (…)/ cujos empréstimos (…) fundam uma nação ou derrubam um trono”.
Ao Brasil, esses dois bancos emprestaram dez milhões de libras durante o conflito (entre 1871 e 1889, após a guerra, essa quantia chegou a 45 milhões). A Argentina recebeu seis milhões de libras (mais doze milhões ao final do conflito).
O fato de os exércitos da Tríplice Aliança terem sido financiados por bancos britânicos fez com que, nas décadas de 1960 e 1970, surgisse na América Latina uma “nova” interpretação para a Guerra do Paraguai, segundo a qual o conflito fora incentivado pela Inglaterra, com o objetivo não só de endividar o Brasil e a Argentina como também sufocar o modelo econômico paraguaio – supostamente desvinculado do “imperialismo britânico”. A tese “revisionista” não encontra sustentação em provas documentais. Embora o Paraguai de fato buscasse fórmulas “heterodoxas” de desenvolvimento e entre as conquistas do ditador Solano López estivesse a erradicação do analfabetismo, o país não só negociava frequentemente com a Inglaterra como estava longe de ser um paraíso: o povo era miserável, e López não se enquadra em nenhuma definição que não a de um tirano.
E se tanta gente combateu por ele, achando que a causa era justa – e o fizeram com tanta fúria –, foi basicamente porque o próprio López os convenceu de que a derrota significaria o desaparecimento da nação. Mas a guerra acabou não se revelando bom negócio para os paraguaios. Ainda assim, foi um bom negócio para os militares brasileiros, que saíram dela fortalecidos como classe e preparados para conspirar contra o Império. De todo modo, como profeticamente havia dito o barão de Mauá – que, desde o início, se opôs ao conflito –, “a maldita guerra será a ruína do vencedor e a destruição do vencido”.
UMA VISÃO LÚCIDA
Em meio ao cipoal de teses e controvérsias que, cerca de 150 anos depois, ainda cercam a Guerra do Paraguai, uma das análises mais lúcidas é a do historiador inglês Leslie Bethell. Em novembro de 1994, ele foi um dos principais articuladores de um seminário sobre a guerra, realizado no Rio de Janeiro. Seus argumentos podem ser resumidos da seguinte forma: “A Guerra do Paraguai não era inevitável. Também não era necessária… Nem o Brasil nem a Argentina tinham uma contenda suficientemente séria com o Paraguai que justificasse uma situação de guerra. A guerra não contava com o apoio nem era uma reivindicação popular. Mas a necessidade de se defender contra a agressão paraguaia (fosse ela em grande parte provocada ou justificada) ofereceu aos dois países (Brasil e Argentina) uma oportunidade de fazer um ‘acerto de contas’ com o Paraguai, bem como de punir e enfraquecer, talvez mesmo de destruir, um poder emergente e preocupante dentro de sua zona de influência… Dessa forma, as imprudentes ações de López trouxeram à tona exatamente a coisa que mais ameaçava a segurança e até mesmo a existência de seu país: uma união entre os dois vizinhos poderosos em uma guerra contra ele… D. Pedro II também parece ter aproveitado a chance de afirmar a inquestionável hegemonia brasileira na região (talvez em toda a América do Sul) e, sobretudo, de estabelecer uma hegemonia sobre o Paraguai, em lugar de uma hegemonia argentina.”
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