Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

30. O fim da era vargas

Capítulo 30

 

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Vinte e quatro de agosto de 1954 há de ter sido o dia mais dramático da história do Brasil para pelo menos três gerações de brasileiros. Às 4 horas e 30 da manhã, no seu quarto, no palácio do Catete, no Rio de Janeiro, o presidente Getúlio Vargas se suicidou com um tiro no coração. Ao fazê-lo, atingiu não apenas a si mesmo, mas a própria nação: o coração de seus aliados e a mente de seus inimigos. Ao longo de um quarto de século, Vargas fora o principal personagem do país. Naquele instante, como ele mesmo profetizara, saía “da vida para entrar na história”.

Que Getúlio seria aquele que se matava, de pijama, com um balaço no peito? De certa forma, com certeza não era o caudilho revolucionário de 1930, muito menos o ditador policialesco de 1937. Nem o presidente eleito pelo voto indireto em 1934 ou o positivista com recaídas nazistas. Quem se matava era o presidente que voltara ao Catete “nos braços do povo” – o “Pai dos Pobres”, o protetor dos trabalhadores, o nacionalista fervoroso. Mais do que qualquer personagem incorporado por Vargas ao longo de 25 anos, morria o mais astuto político brasileiro de todos os tempos: o homem de conciliação, o ditador disposto a anistiar seus inimigos, o mais mineiro dos caudilhos gaúchos, risonho e misterioso “como um mandarim chinês”. O homem que, em tese, era um livro aberto para seus adversários e um enigma para os amigos mais íntimos. Como se acompanhasse os meandros da carreira de Vargas, a história do Brasil dera tantos volteios desde a Revolução de 30 que o homem que se suicidava o fazia para impedir o avanço dos conservadores.

Era um “libertário” que morria, sacrificando-se em nome do que o país tinha de melhor. A morte de Vargas abalaria profundamente seus admiradores, mas causaria estragos muito maiores entre aqueles que conspiravam contra o seu governo. Os generais Sílvio Frota e Golbery do Couto e Silva, o jornalista Carlos Lacerda, o ex-integralista Olímpio Mourão: eles e seus aliados teriam de aguardar mais uma década antes de concretizar seu golpe de direita. A reação popular à imolação do grande líder foi tal que a conspiração em curso teve de ser suspensa por dez anos.

Numa última, definitiva e dramática vitória contra seus acusadores, Vargas ofereceu a própria vida em nome de convicções das quais ele talvez abrisse mão se lhe restasse outro caminho. Mas não lhe sobrava saída, e o mais brilhante articulador político que o Brasil jamais tivera preferiu recorrer à última artimanha para assegurar uma vitória incontestável – que teve o cuidado de deixar minuciosamente explicada numa carta-testamento irretocável e emocionante. Vivo, Getúlio Vargas comandara por quase 20 anos os destinos do Brasil. Morto, projetaria sua sombra e sua influência até o alvorecer da sexta década do século que, no Brasil, foi quase inteiramente dele.

A CULTURA NA ERA VARGAS

Em agosto de 1941, Getúlio Vargas, chefe supremo do Estado Novo, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Embora, de acordo com o depoimento do poeta Manuel Bandeira, Vargas, ao participar das reuniões da sociedade, se comportasse como “um perfeito acadêmico”, a verdade é que a “obra literária” do ditador se reduzia a algumas dezenas de discursos áridos e eventualmente sinuosos – a maioria dos quais nem sequer havia sido escrita por ele. De qualquer maneira, apesar da “obra” insossa e de toda a censura e a perseguição que impôs a escritores que não se mostravam dispostos a seguir os desmandos de seu regime de exceção, Vargas veria florescer, ao longo de seu extenso domínio político, uma nova era para a cultura brasileira (ainda que, muitas vezes, isso se desse não por causa, mas apesar dele).

O fato é que, após a Revolução de 30, o Brasil passou a refletir sobre si próprio e seus destinos de uma forma inovadora e surpreendente. Em 1933, surgiram dois livros-chave para a interpretação do país: Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, e Evolução política do Brasil, de Caio Prado Júnior. A eles se juntaria, em 1936, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Essas três obras clássicas desvendariam uma nação multicultural e mestiça, litorânea e predatória, dividida entre a “cordialidade” e a crueza, dominada pelas elites “vegetais”, adaptada aos hábitos indígenas, construída pelo braço negro e pela mão operária. Um Brasil épico e trágico. Já o ano de 1930 fora grandioso para a poesia brasileira: nele, surgiram os primeiros livros de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. No ano anterior, aparecera Cecília Meireles e, no seguinte, Raul Bopp. Em 1931, Vargas convidaria Manuel Bandeira para presidir o Salão Nacional de Belas-Artes. Seria a primeira aproximação entre o governo e os modernistas – mas estava longe de ser a última.

Apesar da censura e das perseguições, Vargas, disposto a revelar sua face conciliadora e paternalista, passou a desenvolver uma política sistemática de “assimilação da inteligência nacional”, desenvolvida em especial pelo Ministério da Educação – a princípio sob o comando do jurista Francisco Campos e, depois, de Gustavo Capanema. Nessa repartição trabalharam Drummond (chefe de gabinete) e Augusto Meyer (diretor do Instituto Nacional do Livro), enquanto o Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo era entregue a Mário de Andrade. Ao mesmo tempo, os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer eram contratados para fazer o projeto do novo prédio do Ministério da Educação, cuja decoração foi entregue aos pintores Portinari, Pancetti e Guignard e ao paisagista Burle Marx. Com tais atitudes, Vargas lutava para obter, no mundo das artes, a mesma aceitação – e o mesmo grau de cooptação – que sua política trabalhista, baseada no paternalismo positivista, estava conseguindo entre os trabalhadores.

Mas sempre houve atrito entre o regime e os artistas “dissidentes”. O caso mais rumoroso foi o de Graciliano Ramos. Prefeito no interior de Alagoas, destituído pela Revolução de 30, ele estreou na literatura em 1933 com o pungente Caetés, logo seguido pelo clássico São Bernardo (1934). Em março de 1936, sob suspeita de ter participado da ANL, Graciliano foi preso pela polícia de Vargas. Levado para a terrível prisão de Ilha Grande -RJ, ficou lá um ano, sem acusação formal. Defendido pelo advogado Sobral Pinto, foi solto em 1937. Um ano depois lançou Vidas secas. A experiência na prisão foi relatada em Memórias do cárcere.

O pintor Di Cavalcanti e os escritores Jorge Amado e Erico Verissimo tiveram também seus problemas com o regime. Em 1949, na obra O tempo e o vento, Verissimo deu sua opinião sobre Vargas pela boca de um personagem: “Tudo nele é mediano e medíocre. Jamais teve o pitoresco dum Flores da Cunha, o brilho dum Osvaldo Aranha, a eloquência de um João Neves. (…) É um homem frio, reservado, cauteloso, impessoal (…) calmo numa terra de esquentados. Disciplinado numa terra de indisciplinados. Prudente numa terra de imprudentes. Sóbrio numa terra de esbanjadores. Um silencioso numa terra de papagaios.”

João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, viveu durante a Era Vargas. Embora militar e diplomata, forjou sua alquimia do verbo na surdina, nos sertões de Minas Gerais, longe do mundo.

O AÇO E O PETRÓLEO SÃO NOSSOS

No campo econômico, o mesmo paternalismo com que Vargas tentou cooptar escritores e artistas se repetiria não só no conjunto de regras que estabelecia as relações de trabalho, mas, principalmente, no nacionalismo intervencionista de uma economia fortemente estatizada. O Estado foi o principal “empresário” do Brasil na Era Vargas, e seu campo de atuação essencial se deu nas medidas protecionistas à indústria e na nacionalização dos recursos minerais. Em 1934, surgiu o Departamento Nacional de Produção Mineral e, durante o Estado Novo, foram criados o Conselho Nacional de Petróleo (1938), a Companhia Siderúrgica Nacional (1941) e a mineradora Vale do Rio Doce (1943) – germes daquelas que se tornariam, nas décadas seguintes, as três estatais gigantes de um Brasil ainda fechado ao livre mercado e cujas privatizações gerariam mais polêmica do que suas fundações. A criação da Companhia Siderúrgica Nacional, em plena II Guerra Mundial (em que o Brasil ainda não se envolvera diretamente), foi um marco na história da nação. No começo dos anos 1940, as importações de aço, feitas especialmente dos Estados Unidos, representavam o maior fator de desequilíbrio da balança comercial. Disposto a expandir seu sistema de transportes e instalar indústrias de base (além de diminuir sua dependência exterior), o governo iniciou estudos para a criação de uma siderúrgica. Embora considerasse o projeto nacional exequível, a United States Steel Corp. – primeiro parceiro procurado pelo Brasil – desistiu do negócio em janeiro de 1940. Apesar de a desculpa oficial dos Estados Unidos ser a de que, para o Brasil, seria “mais barato continuar importando aço”, o motivo real da desistência parece ter sido o temor com relação “à grande incerteza nos assuntos brasileiros”.

A isso se somava o receio com o fervor nacionalista do governo (justificável, já que em janeiro de 1940 surgiu o Código de Minas, que proibia a participação de estrangeiros na mineração e na metalurgia). Desde 1938, porém, o chefe da Comissão Executiva do Plano Siderúrgico, coronel Macedo Soares, mantinha contatos com o governo de Hitler, e a empresa alemã Krupp, que além de fornecer peças de artilharia ao Brasil, mostrou-se disposta a financiar a siderurgia brasileira. Assessores do presidente norte-americano Roosevelt consideraram a medida desastrosa, já que essa associação “asseguraria a predominância da Alemanha na vida econômica e militar do Brasil por anos”. Assim sendo, em troca da instalação de uma base norte-americana em Natal – RN, os Estados Unidos emprestaram US$ 20 milhões ao Brasil. Com outros US$ 25 milhões do governo brasileiro, Volta Redonda foi inaugurada em 1946.

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O OURO NEGRO: a luta pela nacionalização do petróleo e dos recursos minerais brasileiros foi uma das campanhas civis mais intensas já deflagradas no Brasil, embora os militares tenham desempenhado papel-chave nessas manifestações.

NASCE A PETROBRAS

Embora, ao contrário do aço, o petróleo ainda não fosse, nos anos 1930, um produto tido como indispensável, houve muita discussão sobre a nacionalização das reservas depois que o primeiro poço brasileiro foi perfurado na Bahia, em 1939. Vargas já criara, em 1938, o Conselho Nacional do Petróleo. Em 1936, Monteiro Lobato, favorável ao uso de capital privado nacional na exploração das jazidas, acendera a polêmica com a publicação do livro O escândalo do petróleo. Foi depois do fim da II Guerra que o petróleo se revelou um produto tão importante quanto o aço. Companhias americanas, como Texaco e Standard Oil, controlavam a produção e a distribuição de petróleo no Brasil. Em 1947, no governo Dutra, surgiria a campanha nacionalista “O Petróleo É Nosso”. Seu principal líder foi o general Horta Barbosa. Depois de discussões, prisões e acusações, nascia, em 3 de outubro de 1953, a Petrobras – empresa mais estatizada do que Vargas pretendia. Com capital de US$ 20,3 bilhões, a Petrobras detinha, ainda em 1997, o monopólio do petróleo no Brasil. Deficitária (US$ 415 milhões de perdas anuais), a Companhia Siderúrgica Nacional foi privatizada em abril de 1993. Vendida por US$ 1,6 bilhão, passou a dar lucro de US$ 202 milhões anuais. Já a mineradora Vale do Rio Doce, também criada por Vargas, era superavitária, faturando US$ 2,97 bilhões por ano, quando foi privatizada em maio de 1997, vendida por US$ 3,3 bilhões.

O BRASIL VAI À GUERRA

O empréstimo dos Estados Unidos ao Brasil para a construção de Volta Redonda foi aprovado seis meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, que resultou na entrada dos norte-americanos na guerra. Essa associação com os EUA acabou se tornando um momento-chave na história do Brasil, já que, até aquele momento, o governo Vargas jogara habilmente com os antagonismos entre as nações democráticas e o nazifascismo, fazendo um jogo já definido como “neutralidade interesseira”. Mas não era apenas um jogo: Vargas e seus assessores estavam de fato divididos. Em julho de 1940 – coincidindo com a invasão da França pelos nazistas –, o presidente fizera um discurso dúbio que deixou norte-americanos e ingleses temerosos de que o Brasil se alinhasse aos países do Eixo. Os generais Dutra e Góis Monteiro eram francamente favoráveis à aliança com a Alemanha, tanto que, em 1940, Dutra chegara a sugerir que o Brasil declarasse guerra à Inglaterra e, em janeiro de 1942, Monteiro ainda era contrário ao rompimento das relações com os nazifascistas. Além disso, colaboradores íntimos de Vargas, como o jurista Francisco de Campos e o chefe de polícia Filinto Müller, também eram admiradores do regime de Hitler. E o próprio Vargas muitas vezes se comportara como um totalitário.

O brilhantismo vigoroso do embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Osvaldo Aranha, fazia a balança pender para o outro lado. Em 15 de janeiro de 1942, Aranha foi a principal estrela da Conferência de Chanceleres das Repúblicas Americanas, realizada no Rio de Janeiro. Foi ele quem propôs o rompimento de todas as relações comerciais, políticas, militares e diplomáticas entre as nações da União Pan-Americana e os países do Eixo. Os EUA preferiam declaração de guerra, mas aceitaram essa decisão – e se comprometeram a garantir a defesa territorial do Brasil. Embora o país não tivesse declarado guerra à Alemanha – que, na época, ainda era o segundo maior parceiro comercial do Brasil, suplantado apenas pelos EUA –, Hitler determinou o torpedeamento de navios brasileiros. O primeiro foi afundado em fevereiro de 1942. O povo saiu às ruas clamando por vingança, e em agosto o Brasil entrou na guerra (leia box acima). Em janeiro de 1943, Roosevelt visitou a base que o Brasil autorizara os EUA a construir em Natal. Encontrou-se com Vargas, a quem chamou de “dictator in defense of democracy” (“ditador em defesa da democracia”), e sugeriu que o Brasil fosse um dos fundadores da futura Organização das Nações Unidas. Vargas aceitou e, em troca de dinheiro e armas, enviou tropas brasileiras para a Europa.

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Como na I Guerra Mundial, o Brasil só entrou no conflito depois de ter seus navios afundados pela Alemanha. Em 1942, porém, os torpedeamentos foram muito mais violentos: 36 mercantes brasileiros foram postos a pique, provocando a morte de quase mil pessoas. Apenas entre fevereiro e julho de 1942, foram 14 os navios afundados. Mas só em 15 de agosto deu-se o primeiro ataque em águas territoriais brasileiras: o submarino nazista U-507 afundou o Baapendi, matando seus 270 tripulantes. Nos dias seguintes, o mesmo submarino pôs a pique outros quatro navios, todos na costa entre Sergipe e Bahia. Os ataques causaram grande comoção nacional e nem mesmo os simpatizantes do nazismo que faziam parte do governo conseguiram impedir (como haviam feito antes) inúmeras passeatas favoráveis à declaração de guerra. No dia 31 de agosto, Vargas rendeu-se à pressão e o Brasil declarou guerra à Alemanha.

OS PRACINHAS NA EUROPA

Nem todas as nações aliadas eram favoráveis à presença do Exército brasileiro nos combates na Europa, uma vez que as tropas do país eram consideradas despreparadas e mal-equipadas – o que era um fato. O projeto inicial era enviar os expedicionários brasileiros para combater na África. Em agosto de 1943, um decreto criara a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Esperava-se que 100 mil brasileiros se alistassem. No início de 1944, porém, apenas 28 mil soldados estavam prontos para entrar na guerra – muitos deles negros, havendo até todo um regimento, o Andrade Neves, cujos 300 integrantes tinham sido recrutados nas favelas. A derrota alemã na África forçaria uma mudança nos planos dos aliados com relação à FEB, escalada, então, para lutar na Itália. Na noite de 30 de junho de 1944, numa operação sigilosa, mais de 5 mil soldados brasileiros embarcaram, no Rio de Janeiro, no navio norte-americano General Mann, com destino ainda desconhecido. Era o primeiro contingente dos 25.334 homens que, sob o comando do general Mascarenhas de Moraes se incorporariam ao 4º Corpo do Exército norte-americano, por sua vez integrante do 15º Grupo de Exércitos Aliados.

Desacostumados com os métodos norte-americanos de comando (já que o Exército brasileiro seguia a escola francesa), sofrendo com o rigoroso inverno europeu, recebendo a rala ração C, forçados a se adaptar a “uns troços com pranchas largas e umas bengalas pontudas” (os esquis), os soldados brasileiros até que não fizeram feio nos campos de batalha da Itália. Ao longo de 239 dias de luta (de 6/9/1944 a 2/5/1945), a FEB participou da guerra pela conquista dos Apeninos, a cadeia montanhosa no norte da Itália, de grande importância estratégica por dar acesso aos vales dos rios Reno e Pó. A tomada de Monte Castelo – que fracassara em três ocasiões anteriores – ocorreu em 21 de fevereiro de 1945, depois de 12 horas de combate. Foi o ponto alto da ação bélica brasileira. Ao todo, o Exército do Brasil teve 465 mortos – 444 soldados, treze oficiais do Exército e oito oficiais da FAB (Força Aérea Brasileira) – e 1.517 feridos em combate (mais 658 “acidentados”). A FEB capturou mais de 20 mil alemães, 80 canhões e 1.500 viaturas. No dia 18 de julho de 1945, os primeiros 4.931 pracinhas brasileiros retornaram ao Rio de Janeiro. Ao desfilarem pela avenida Rio Branco, foram recebidos apoteoticamente. Ao longo das semanas seguintes, a cerimônia se repetiria para os demais contingentes.

A GUERRA EM CASA

Os dois anos durante os quais o Brasil esteve oficialmente em guerra contra a Alemanha modificaram o cotidiano da nação, como já acontecera em praticamente todos os países do mundo. Mesmo antes da declaração formal de guerra, o Brasil já capturava espiões alemães, tivera seus navios afundados e fora obrigado a racionar alguns produtos. Durante quatro anos, o maior racionamento seria o da gasolina, e por esse motivo os carros que circulavam no país eram movidos a gasogênio (aparelho que queimava carvão, produzindo gás combustível). A partir de agosto de 1942, a população das grandes cidades foi forçada a fazer blecautes eventuais: todas as luzes deveriam ficar apagadas. Sirenes soavam preparando os cidadãos para supostos bombardeios. Ao mesmo tempo, a base norte-americana em Natal e a aliança com os Estados Unidos davam início ao processo de norte-americanização do país, cujos reflexos são evidentes até hoje.

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AMIGO AMERICANO: a visita do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt estabeleceu a aliança definitiva entre o Brasil e os aliados na II Guerra. Ao obter de Vargas a permissão para a construção de uma base em Natal – RN, Roosevelt chamou Getúlio de “ditador a serviço da democracia”.

A imprensa nacional ficou mais ágil e mais “norte-americana”. Surgiu o famoso Repórter Esso, noticiário radiofônico cujas transmissões diárias paravam a nação. A revista O Cruzeiro fez uma cobertura dinâmica da luta na Europa. Um dos correspondentes de guerra foi Rubem Braga, o maior dos cronistas brasileiros. Outro grande intelectual que se envolveu no “esforço de guerra” foi o poeta Guilherme de Almeida, autor da letra da Canção do Expedicionário (“Por mais terras que eu percorra,/ não permita Deus que eu morra/ sem que volte para lá;/ sem que leve por divisa/ este “V” que simboliza/ a vitória que virá”). Nos campos de batalha da Itália lutaram o general Cordeiro de Farias, que fora um dos tenentes da Coluna Prestes, e o então tenente-coronel Castelo Branco, chefe da Seção de Planejamento e Operações. Além da FEB, a FAB (Força Aérea Brasileira) também participou da guerra, realizando 400 missões.

O GOVERNO DO MARECHAL DUTRA

Quando os pracinhas retornaram ao Brasil, em julho de 1945, uma contradição tornou-se evidente para toda a nação: na Europa, o Exército nacional lutara pela democracia; em casa, o país vivia sob o regime ditatorial. Um ano e meio antes, a insatisfação de vários segmentos da nação com a ditadura Vargas já havia ficado clara com o surgimento do chamado “Manifesto dos Mineiros”. Lançado em 24 de outubro de 1943, no 13º aniversário da Revolução de 30, o documento clamava: “Queremos liberdade de pensamento, sobretudo do pensamento político.”

Em 1942, nascera a UNE (União Nacional dos Estudantes), responsável por passeatas de protesto no país inteiro (sendo uma delas causadora da demissão de Filinto Müller e de Francisco de Campos). Em janeiro de 1945, o I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo, também exigia a redemocratização do país. Em 22 de fevereiro daquele ano, o ex-ministro José Américo, em entrevista ao jornalista Carlos Lacerda, rompeu com a censura, criticando abertamente o governo. Vargas se viu forçado a baixar a guarda e, no dia 28 de fevereiro, assinou o Ato Adicional nº 9, fixando o prazo de 90 dias para a realização de eleições.

Os novos partidos se organizaram rapidamente: em 7 de abril nascia a UDN (União Democrática Nacional), formada pela antiga oposição liberal, associada a banqueiros e ao setor privado. A UDN lançou a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes – um dos líderes do movimento dos 18 do Forte. Em julho de 1945, surgia, dentro da máquina político-administrativa do Estado Novo, o PSD (Partido Social Democrático), que lançou o general Dutra como candidato.

“DO YOU DO, DUTRA?”

O marechal Enrico Gaspar Dutra (1883-1974) nasceu em Cuiabá. Participou da Revolta da Vacina em 1904, reprimiu os levantes tenentistas de 1922 e 1924, aderiu à Revolução de 30, combateu os paulistas em 1932 e os comunistas em 1935, apoiou o golpe do Estado Novo em 1937, foi ministro de Vargas por nove anos e o derrubou em 1945. Como presidente proibiu o jogo e promulgou a nova Constituição – que chamava de “livrinho”. Introduziu o Brasil na Guerra Fria, criando a Escola Superior de Guerra, banindo o PC, rompendo relações com a União Soviética e se aproximando dos Estados Unidos de Harry Truman. Dutra era uma figura caricata, sobre a qual surgiram muitas piadas. Uma delas contava que, ao ser cumprimentado por Truman, que dissera “How do you do, Dutra?”, o marechal de imediato respondeu: “How tru you tru, Truman?”

Com as eleições marcadas para 2 de dezembro, novas ações políticas agitaram o segundo semestre de 1945. No dia 15 de julho, numa manifestação gigante em São Paulo, Luís Carlos Prestes lançou a campanha “Constituinte com Getúlio”, que era uma tentativa de “golpe branco”: em vez de eleições, uma nova Assembleia Constituinte seria convocada, com Vargas ainda no comando da nação. Em agosto, líderes sindicais e funcionários do Ministério do Trabalho entoavam o lema: “Queremos Getúlio” – e nascia o “movimento queremista”. Em setembro, surge, também sob a batuta de Vargas, do Ministério do Trabalho e da burocracia sindical, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro).

Três meses antes de sua realização, as eleições de dezembro já pareciam definidas: a UDN não teria como vencer Vargas e seus aliados. Em fins de outubro, porém, o presidente insiste em fazer de seu irmão, Bejo Vargas, o chefe de polícia do Rio de Janeiro. Liderado pelos generais Góis Monteiro e Dutra, um golpe militar depõe o ditador. Entre humilhado e conciliador, o presidente declara à nação que renunciara ao cargo por vontade própria – e sai do Catete sem ser exilado nem perder os direitos políticos. As eleições de dezembro se realizam sob sua vasta sombra, e o general Dutra, do PSD, apoiado por Vargas e pelo PTB, vence com certa facilidade a UDN de Eduardo Gomes: dos 6 milhões de votos (13,4% da população), 3,25 milhões são para Dutra. Em setembro de 1946, uma nova Constituição é promulgada. Pelos 18 anos seguintes, o Brasil voltará a conviver com a democracia.

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MANDATO-TAMPÃO: para alguns analistas, o governo do marechal Dutra foi um mero interlúdio na Era Vargas, pois, quatro anos depois de deixar o poder, Getúlio voltaria ao Palácio do Catete “nos braços do povo”.

NOS BRAÇOS DO POVO

Embora afastado do governo por um golpe brando, Getúlio Vargas acabaria sendo um dos grandes vencedores das eleições de dezembro de 1945. Não apenas figurativamente: Vargas foi eleito senador por dois estados (RS e SP) e deputado por outros sete. Ainda assim, praticamente não apareceu no Senado: preferiu o autoexílio na fazenda Itu, em São Borja, na qual recebia o beija-mão dos políticos e articulava sua volta ao poder. Na verdade, as manobras para a sucessão de Dutra se iniciaram antes do marechal completar a metade de seu mandato. Embora Dutra se recusasse a apoiar a candidatura de Vargas, ela logo surgiu, lançada por João Goulart, durante a comemoração do 67º aniversário do ex-presidente, em 19 de abril de 1950, na fazenda Itu. Vargas concorreu pelo PTB, tendo como vice João Café Filho, do Partido Social Progressista (PSP), que fora indicado pelo presidente do partido, o governador paulista Ademar de Barros (que popularizara o slogan “rouba mas faz”). O acordo era simples: Vargas em 1950, Ademar em 1955. Nas eleições de 3 de outubro de 1950, Vargas concorreu contra Cristiano Machado, do PSD, e Eduardo Gomes, outra vez candidato da UDN. Baseando sua campanha na defesa da industrialização e na necessidade de se ampliar a legislação trabalhista, Vargas venceu fácil, obtendo 48,7% dos votos. A UDN tentou impugnar a eleição, alegando que só poderia ser considerado vencedor o candidato que obtivesse a metade do total de votos mais um. O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou a exigência, e Vargas recebeu a faixa presidencial das mãos de Dutra, em janeiro de 1951.

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O ESCÂNDALO QUE DERRUBOU VARGAS

Em 31 de janeiro de 1951, cinco anos, três meses e dois dias depois de ser escorraçado do Catete como ditador deposto, Getúlio Vargas voltou ao governo “nos braços do povo” para mais quatro anos na Presidência. Dessa vez, porém, não sairia mais do palácio do governo – pelo menos não vivo. O país com o qual Vargas deparou-se era muito diferente daquele que comandara cinco anos antes. De início, o presidente se viu forçado a manobrar num mar de correntes contraditórias, como disse o historiador Bóris Fausto: “De um lado, não podia deixar de se preocupar com as reivindicações dos trabalhadores, atingidos pela alta do custo de vida; de outro, precisava tomar medidas impopulares para controlar a inflação.” Vargas tentou resolver a equação lutando para fazer um governo popular com um Ministério conservador (no qual predominava o PSD). Tentou aproximar-se até mesmo da UDN.

O “tigre da inflação”, sobre o qual Getúlio prometeu montar, começou a “mover-se de forma inquietante” em fins de 1951. Um ano depois, 500 mil pessoas participavam dos protestos contra a carestia na campanha da “Panela Vazia”. O país se debatia entre o nacionalismo, o entreguismo e o estatismo. Em 3 de outubro de 1953, Vargas dá a virada decisiva de seu segundo governo, firmando a imagem de “Pai dos Pobres”: pressionado pelos sindicatos, ele começa a afastar-se dos Estados Unidos, cria a Petrobras, faz uma lei sobre remessa de lucros para o exterior e muda o Ministério.

Para a pasta do Trabalho, convoca João Goulart, um estancieiro de São Borja. Embora sua função fosse conter a influência comunista nos sindicatos, Jango foi transformado pela UDN, por setores da classe média e pelos militares antigetulistas num personagem perigoso, que simbolizava o avanço da “república sindicalista” e personificava a chegada do peronismo ao Brasil. Quando Jango propôs aumento de 100% no salário-mínimo, o estopim da crise foi aceso. Em fevereiro de 1954, após o lançamento do “Manifesto dos Coronéis” (assinado, entre outros, por Sílvio Frota e Golbery do Couto e Silva), Vargas foi obrigado a demitir Jango. Mas em 12 de maio ele não só aprovou o aumento salarial como discursou aos trabalhadores: “Hoje vocês estão no governo. Amanhã serão governo.” Foi o que bastou: para a UDN, para os conservadores e os militares, era preciso derrubar Vargas. Faltava apenas um pretexto. Ele logo viria.

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TIRO NO PÉ: a bala de encomenda que deveria “silenciar” o polêmico jornalista Carlos Lacerda (à direita) acabou matando um major do Exército que se oferecera para lhe servir como segurança. A outra grande vítima do desastrado atentado acabaria sendo o próprio presidente Vargas.

De todos os opositores de Getúlio, o mais ruidoso e radical era o jornalista Carlos Lacerda. Muito jovem, Lacerda lançara o nome de Luís Carlos Prestes para a presidência da ANL. Com o tempo, não apenas se afastou dos comunistas como virou um de seus maiores inimigos. À frente de seu jornal, Tribuna da Imprensa, Lacerda desferia os mais violentos ataques a Vargas. A partir de 1953, Roberto Marinho ofereceu a Lacerda os microfones da rádio Globo e Assis Chateaubriand o pôs no ar na TV Tupi. Com o apoio da mídia nacional, Lacerda exigia a renúncia de Vargas e apelava às Forças Armadas para que elas “restabelecessem a democracia no Brasil”. Nos círculos getulistas, surgiu a convicção de que era preciso “dar um jeito” em Lacerda. O chefe da guarda presidencial, Gregório Fortunato – fiel servidor de Getúlio por mais de 30 anos –, decidiu tramar o assassinato de Lacerda (leia página seguinte). Se a ideia em si já era desastrada, mais desastrada ainda seria sua execução. Foi um tiro que saiu pela culatra.

TIRO PELA CULATRA

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, dois pistoleiros tentaram matar Carlos Lacerda na porta de sua casa, na rua Toneleros, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Os tiros o feriram levemente no pé, mas mataram o major da Aeronáutica Rubens Vaz – que se oferecera espontaneamente para protegê-lo. “Este tiro é uma punhalada em minhas costas”, disse Vargas ao saber do atentado. Desautorizando o então ministro da Justiça, Tancredo Neves, a Aeronáutica decidiu investigar o crime por conta própria e instaurou um inquérito que, em 29 horas, conseguiu prender os culpados. Em poucos dias, ficou claro que Gregório Fortunato, preso no dia 11 de agosto, fora o mandante do crime. Na Base Aérea do Galeão, Fortunato sofreu todo tipo de pressão para denunciar um nome que derrubasse Vargas. Naqueles dias de tensão, o país passou a ser governado pela chamada “República do Galeão”. Muitos colaboradores de Vargas foram presos e ameaçados de ser jogados de aviões no mar. Uma década e meia depois, a ameaça se tornaria realidade para os prisioneiros do regime militar que tomou o poder em 1964.

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INDIGNAÇÃO POPULAR: a notícia do suicídio de Vargas espalhou como um rastilho de pólvora pelo Brasil, em especial em Porto Alegre (abaixo e na página ao lado). A comoção causada pelo sacrifício do presidente impediu que seus inimigos tomassem o poder.

Em 22 de agosto, os brigadeiros se reuniram no Clube da Aeronáutica para pedir a renúncia de Vargas. No dia 23, cerca de trinta generais lançaram um “Manifesto à Nação” que, na verdade, era um ultimato a Getúlio. Um dia antes, quando o vice-presidente Café Filho sugeriu a Vargas que ambos renunciassem, o presidente respondeu: “Se tentarem tomar o Catete, terão que passar sobre o meu cadáver.”

A agonia política do presidente durou 19 dias. Na noite do dia 23, Bejo Vargas informou ao irmão que fora convocado para depor na “República do Galeão”. Vargas comentou: “A UDN está preparando um banquete. Na hora em que sentarem à mesa, eu puxo a toalha.” Na mesma noite, convocou uma reunião ministerial e declarou: “Só morto saio do Catete”. Às 4 da manhã, dois oficiais foram ao palácio convocar Bejo para depor. Por volta das 4h30, um tiro ecoou no Catete. Em breve, ressoaria em toda a nação.

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