Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
13. O brasil da família real
Capítulo 13
O BRASIL DA FAMÍLIA REAL
O dia nasceu radiante. Desde a madrugada, a multidão se aglomerava no cais do largo do Paço, fitando a esquadra fundeada na baía de Guanabara. O desembarque, porém, só começou por volta das onze horas da manhã. Descontando-se os 45 dias passados na Bahia, a armada real estava em alto-mar havia dois meses. Ao longo dos 64 dias durante os quais aquelas oito naus, cinco fragatas, três brigues e trinta navios mercantes cruzaram o Atlântico, se uma tormenta por desventura afundasse a frota, faria submergir não apenas toda a dinastia de Bragança, mas boa parte da nobreza, do clero e da corte de um reino que partira para o exílio. Mas, singrando a mesma rota que Cabral seguira 300 anos antes – e sob a escolta de quatro navios de guerra britânicos –, aquele pedaço flutuante de Portugal desfrutou uma viagem relativamente tranquila.
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Agora, na luminosa manhã de 8 de março de 1808, mais de dez mil nobres exilados se preparavam para pôr novamente os pés em terra e iniciar não só um novo período para a história de Portugal, mas, principalmente, uma nova era para o Brasil. Pelos treze anos que se seguiram, D. João VI e sua corte viveram no Rio de Janeiro: de início, fugindo do avanço incontido de Napoleão; depois, tentando se esquivar do jugo britânico. Dias antes do desembarque no Rio, o Brasil já começara a se livrar dos grilhões coloniais. Em breve, seria um reino unido a Portugal. A seguir, um país independente.
O júbilo com que o povo do Rio se preparava para receber a família real não era, portanto, apenas fruto de uma suposta devoção monárquica, mas uma antecipação genuína pelas benesses que estavam por vir. E assim, no instante em que o futuro rei, sua mulher Carlota Joaquina, príncipes, nobres, cortesãos e até a rainha louca, D. Maria, pisaram em solo carioca, o som dos clarins, o espaçar dos rojões, o alarido do povaréu, o troar dos aplausos e dos urras e o clamor dos sinos ecoaram pela baía de Guanabara.
A procissão real seguiu por ruas cobertas de areia branca, juncadas de folhas de mangueira e de canela, por entre as filas da soldadesca perfilada, com uniformes de gala refulgindo ao Sol, diante das casas enfestoadas com panos multicoloridos. A marcha a conduziu da rua Direita à do Ouvidor e dali à remodelada igreja do Rosário, onde se rezou a missa para dar graças pela chegada à nova sede do reino de Portugal. Embora satisfeita com o desembarque, a família real não pôde deixar de notar que, além de despojada, a cidade do Rio exalava “os odores mais pútridos”. A população, apesar de extasiada com a visão de tanto fausto, também não foi capaz de ignorar a feiura de D. João VI e de D. Carlota, nem os gritos alucinados de D. Maria I e as cabeças raspadas das cortesãs (por causa da epidemia de piolhos ocorrida a bordo). Em poucos anos, o Brasil e a realeza iriam se acostumar com os próprios defeitos – embora só a nação de fato se modificasse.
A FUGA DE PORTUGAL
O dia nasceu chuvoso e frio. Desde a madrugada, a multidão se aglomerava no porto do Tejo, fitando a frota que balouçava nas águas barrentas do rio e as enormes pilhas de baús amontoados no cais. A chuva caía sobre móveis rebuscados e objetos de arte, sobre mais de 60 mil livros e manuscritos de bibliotecas reais, sobre quadros, pratarias e arquivos. A mesma chuva transformara as ruas estreitas que serpenteavam das sete colinas de Lisboa até o porto em riachos ou atoleiros. Por elas, engarrafavam-se mais de setecentas carruagens e carroças.
Quando os pertences da família real começaram a ser embarcados, um engalfinhamento enlouquecido de cortesãos dispostos a obter permissão para subir a bordo varreu o cais. Calado e ressentido, o povo lisboeta percebia que estava prestes a ser abandonado pela monarquia. Era 27 de novembro de 1807.
Por meses a fio, por meio de um intrincado jogo diplomático e à custa de muitas humilhações, D. João VI havia conseguido manter uma aparente neutralidade na luta travada por Napoleão para submeter a Inglaterra à sua coroa imperial. No dia 12 de agosto de 1807, a França e sua aliada, a Espanha, deram um ultimato a Portugal: se até o dia lº de setembro D. João não fechasse seus portos a navios ingleses, confiscasse propriedades e prendesse todos os súditos britânicos residentes no país, a aliança franco-espanhola declararia guerra a Portugal.
Encurralado entre duas hipóteses desastrosas (romper com a Inglaterra, um antigo e poderoso aliado, ou desafiar seus vizinhos), D. João VI postergou a decisão até 20 de outubro, quando fingiu ter bloqueado seus portos aos britânicos. Não foi o bastante: em novembro, o general Junot deu início à invasão de Portugal.
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A FILA DOS FAVORES: cortesãos se alinham no Palácio da Quinta da Boa Vista para beijar a mão de D. João VI.
O REI DO MUNDO
Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi um dos maiores generais da história. Assumiu o poder na França depois de liderar uma brilhante campanha militar no Egito. Seu regime autocrático foi bem aceito após o caos provocado pela Revolução Francesa.
Em 1804, Napoleão proclamou-se imperador – e ele próprio se coroou. Entre 1805 e 1810, conquistou praticamente toda a Europa: só não venceu a Inglaterra, a qual bloqueou por mar. Em 1807, enviou a Portugal um ultimato, forçando-o a declarar guerra aos britânicos. Ainda que por vias indiretas, o Brasil iria lucrar duplamente com Napoleão: além da vinda da família real, deve a ele o envio da missão artística francesa, em 1816.
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Andoche Junot era um velho conhecido de D. João VI: pouco antes, fora embaixador da França em Lisboa. Agora, à frente de um exército de 23 mil soldados, ele marchava para tomar a capital. Embora mal-armada, maltreinada, faminta e fatigada, a tropa de Junot era identificada com a máquina de guerra que esmagara os exércitos da Áustria e da Rússia. Por isso, os franceses entraram em Portugal sem encontrar resistência e, em 25 de novembro, estavam nos arredores de Lisboa.
Desde o dia 20, chovia sem parar e, desde a tarde do dia 27, a família real já estava embarcada. Só no dia 29, porém, o tempo mudou. O dia rompeu radioso, e o vento soprou do nordeste. Foi o chamado “vento espanhol” que empurrou a esquadra real para a segurança do Brasil, no exato instante em que Junot tomava Lisboa e, do alto da Torre de Belém, bombardeava os navios em fuga, atingindo apenas um e caindo em desgraça com Napoleão.
O RIO REMODELADO
Embora desde o dia de sua descoberta o cenário geográfico monumental que envolve a baía de Guanabara tenha encantado a navegadores, viajantes e poetas, o fato é que, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro era precária, malcheirosa, provinciana, suja e descuidada. Os membros da corte e da família real não precisaram mais do que dez minutos para percebê-lo. “Que horror. Antes Luanda, Moçambique ou Timor”, teria dito a princesa Carlota Joaquina. A viagem fora incômoda: na pressa, os pertences de cada grupo foram postos em navios diferentes. Velas foram cortadas para se transformar em camisas; a comida não era suficiente, a água era pouca e ruim. Nos primeiros dias no Rio, porém, a situação não melhorou muito.
A família real e seus 350 lacaios ficaram, de início, instalados no Paço do Vice-Rei, “moradia miserável para a realeza”, apenas “dignificada com o nome de palácio”. Para alojar milhares de nobres e cortesãos, cerca de duas mil casas foram requisitadas – e seus moradores simplesmente desalojados. De início, muitos cariocas ficaram felizes em ceder seus lares, mas, ao perceber que a espoliação era feita sem rodeios e parecia ser permanente, revoltaram-se. Casas confiscadas eram marcadas com as letras P. R. (de “Príncipe Regente”). O povo logo passou a traduzi-las por “Ponha-se na rua” ou “Propriedade roubada”. Ainda assim, a cidade ganharia, em breve, tantos melhoramentos que poucos realmente saíram perdendo.
Aceitando a oferta de Elias Antônio Lopes, um rico traficante de escravos, D. João VI se mudou para a Quinta da Boa Vista (abaixo). A seguir, determinou o início das obras de remodelamento do Rio: charcos foram drenados, ruas ampliadas e calçadas construídas, novos e suntuosos bairros, como Glória, Flamengo e Botafogo, praticamente criados, e a rua Direita, toda modernizada. Antes disso, horrorizado com o aspecto “bárbaro” conferido à cidade pelos muxarabis – grades de madeira ripada que cobriam as janelas –, D. João baixou um decreto, em junho de 1809, obrigando todos os moradores a retirá-los. Em menos de cinco anos, o Rio já estava bastante modificado. Com a chegada da missão francesa, em 1816, a cidade iria lentamente adquirir ares imperiais.
A MISSÃO FRANCESA
Foi uma missão civilizatória – e, como todas as demais, incompreendida pelos “nativos”. Disposto a declarar o Brasil um reino e fazer do Rio uma cidade digna de um rei, D. João VI decidiu trazer ao país um grupo de pintores, escultores, gravadores e arquitetos franceses. A obra deles daria à cidade um verniz de civilização. Quem se encarregou de selecionar os artistas foi Antônio de Araújo de Azevedo, o conde da Barca, intelectual francófilo. Quem contratou a missão foi o marquês de Marialva, embaixador de Portugal em Paris. Marialva e Barca não tiveram dificuldades em encontrar mestres dispostos a trocar Paris pelo Rio: a missão francesa seria formada por artistas que apoiaram Napoleão e que, com a derrota do autoproclamado imperador, tinham caído em desgraça na França. Era um time de primeira, indicado pelo barão de Humboldt:
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A QUINTA DA BOA VISTA: doada para a família real por um rico traficante de escravos, a “casa apalaciada” erguida em São Cristóvão tornou-se a moradia de D. João VI.
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JOACHIN LEBRETON (1760-1820) era o chefe da missão. Fora um dos organizadores do Louvre e, ao se recusar a devolver obras pilhadas durante as campanhas de Napoleão, caiu em desgraça na Europa. Trouxe para o Brasil 54 telas do Louvre. Elas apodreceram.
NICOLAS-ANTOINE TAUNAY (1755-1830), pintor de motivos históricos e subchefe da missão (imagem acima), veio ao Brasil com os quatro filhos, entre os quais os pintores Félix-Émile e Aimé Adrien, mais o irmão Auguste-Marie.
AUGUSTE-MARIE TAUNAY (1768-1824), escultor que fez vários bustos de bronze e lecionou escultura na Academia de Belas-Artes.
GRANDJEAN DE MONTIGNY (1766-1850), arquiteto de renome, foi escolhido para fazer o prédio que abrigaria a Escola de Belas-Artes. Poucos de seus projetos saíram do papel. Os que tiveram tal sorte foram derrubados mais tarde.
CHARLES PRADIER (1768-1848), pintor, fez um dos melhores retratos oficiais de D. João VI.
MARC E ZÉPHYRIN FERREZ, irmãos escultores, gravaram a primeira moeda brasileira.
Ao todo, eram 46 pessoas (algumas vieram com família e criados), entre os quais se incluíam artífices, como o serralheiro Nicolas Enout, o carpinteiro Louis Roy, os curtidores de peles Fabre e Pilite, o ferreiro Level e o maior de todos, o pintor Jean-Baptiste Debret. Apesar dos problemas que enfrentaram, estes homens conseguiram mudar a face do Rio. O projeto inicial do marquês de Marialva propunha a instalação no Brasil de uma Escola de Ciências, Artes e Ofícios, na qual “as artes liberais e de luxo deviam ceder o passo às úteis e necessárias”. Mas, ao embarcar na fragata Calpe, em 22 de fevereiro de 1816, Lebreton já se decidira a criar uma Academia de Belas-Artes. A chegada ao Rio se deu em 26 de março. De início, o conde da Barca conseguiu contornar o conflito entre os políticos favoráveis às “artes úteis” e os defensores das “artes liberais”. Mas o protetor da missão morreu no início de 1817. Então, vitimada por campanhas difamatórias, inveja de artistas luso-brasileiros e brigas internas, a missão quase gorou. Além do mais, vários artistas já chegaram ao Brasil brigados entre si. No Rio, foram duramente atacados pelo cônsul francês Maler, que os considerava “subversivos”. Depois, revoltaram-se os artistas locais, que, com “empeçonhada rivalidade contra os que julgavam intrusos protegidos por injustos e inadmissíveis privilégios”, desferiram uma série de ataques à missão.
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O ARQUITETO-CHEFE: à direita, retrato de Grandjean de Montigny, um dos nomes de maior destaque da Missão Francesa no Brasil. Acima, o pintor Nicolas-Antoine Taunay.
Quando, amargurado e desgostoso, Joachin Lebreton morreu, em 1820, o mundo ruiu para os artistas franceses. Embora continuassem a receber seu salário de 800 mil-réis anuais, além das refeições, depois que o português Henrique José da Silva assumiu o comando da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, os integrantes originais da Missão passaram a comer o pão que o diabo amassou. Pintor medíocre, pai de doze filhos que mal podia sustentar, mas com amizades sólidas entre os políticos, Silva armou todos os entraves burocráticos para obstaculizar o trabalho dos franceses. Determinou que, antes de qualquer outro curso, todos os alunos da Escola Real deveriam fazer, ao longo de três anos, cadeira de Desenho. Quem era o professor de Desenho? Ele próprio. Impedidos de lecionar na Escola fundada por eles mesmos, alguns missionários retornaram à França. Outros alugaram casas nos arredores da cidade e passaram a viver de aulas particulares. Ainda assim – e embora até hoje sejam acusados de ter destroçado o barroco brasileiro e retardado a chegada do modernismo ao Brasil –, o legado da missão francesa se impôs em inúmeras obras e quadros e permanece mais do que vivo nos traços de Jean-Baptiste Debret.
A OBRA DE DEBRET
Acima de tudo, era um flaneur. Percorria, atento e deslumbrado, calçadas e cascatas, matas e morros, o cais e os caminhos que dali partiam. Entrava em fazendas e favelas, frequentava palácios e paços. Não dava um passo sem o bloco no qual rabiscava esboços minuciosos que, a seguir, no silêncio laborioso de seu ateliê, transformava em quadros e pranchas. Sem as cerca de duzentas gravuras que Jean-Baptiste Debret realizou do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul – seus nobres e seus escravos; seus costumes e seus animais; suas ruas e suas casas –, é quase impossível supor que imagem faríamos do Brasil de 1820. É provável que não fizéssemos imagem nenhuma – pelo menos não uma confiável. Debret registrou os avanços e as mazelas, os horrores e as maravilhas, a rudeza e os encantos do país com o rigor de um historiador e a finesse de um artista inspirado. Não fossem seus quadros, a maior parte dos livros didáticos sobre a história do Brasil seria mais maçante do que já é. Um quadro de Debret, detalhista e lúcido, vale quase uma tese. Sua obra revela como era – e por que viria a ficar como está – um país que é quase um continente.
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Jean-Baptiste Debret nasceu em Paris em 18 de abril de 1768, filho de funcionário público graduado e primo do pintor Jacques-Louis David, seu primeiro mestre. Em 1791, ao eclodir a Revolução Francesa, teve de abandonar a Escola de Belas-Artes. Formou-se, então, engenheiro na Escola Politécnica. Voltou a pintar em 1798 e foi premiado no Salão de Paris com obras sobre as campanhas de Napoleão, de quem era admirador. Em 1814, a derrota do imperador não abalou Debret apenas moralmente: acabou com sua carreira na França, além de surpreendê-lo num momento de crise financeira. Foi, portanto, com alívio e alegria que recebeu o convite de Lebreton para juntar-se à missão francesa que viria para o Brasil. Só não podia imaginar que permaneceria por quinze anos no Novo Mundo.
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O TEATRO DAS GENTES: Debret compôs um autêntico painel da vida pública e privada no Brasil de D. João VI. Suas gravuras valem por um compêndio.
Ao longo da década e meia durante a qual esteve no Brasil, Jean-Baptiste Debret jamais obteve as condições ideais para a realização de seu trabalho. Ainda assim, deixou uma obra monumental que, um século e meio após sua publicação, não encontra paralelo na iconografia brasileira. Ao desembarcar no Rio, em março de 1816, Debret já se envolvera nas polêmicas internas que abalavam a Missão Artística Francesa. Mas o ambiente com o qual se deparou transformaria aquelas meras discussões acadêmicas em mexericos de comadres. Embora tenha sido nomeado pintor da Casa Imperial e tenha ajudado a decorar o Rio para a festa de aclamação de D. João VI (quando teve a ideia de iluminar com lâmpadas de zinco e lustres de cristal os monumentos de Montigny, transformando o Rio numa cidade-luz tropical), Debret esbarrou na muralha de ignorância e inveja erguida por artistas e políticos locais. Decidido a não voltar para a França, alugou uma casa no Catumbi e passou a viver de aulas particulares. Conseguiu fazer alguns retratos da família real, mas os “nobres” cariocas, acostumados a viver em casas de paredes nuas, jamais lhe encomendaram um só quadro. Debret tinha, assim, tempo de sobra para flanar pelo Rio, que se transformava rapidamente.
JEAN-BAPTISTE DEBRET
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Debret (à esquerda, em retrato feito por Manuel de Araújo Porto Alegre, seu principal discípulo) tornou-se o maior cronista visual do Brasil do século XIX. Sua obra, centrada no Rio de Janeiro, antecipou a temática dos romances burgueses: transformou as ruas em teatros e as gentes – fossem ricos desembargadores, fossem pobres escravos – em atores sociais. Debret pintou uma história da vida privada no Brasil.
Em 1827, tomou a sua grande decisão e partiu rumo ao Rio Grande do Sul, acompanhando um grupo de tropeiros. Praticamente refez a trilha que seu conterrâneo Auguste Saint-Hilaire percorrera poucos anos antes. Ao retornar ao Rio, depois de passar por Rio Grande, Desterro, Curitiba, Sorocaba e São Paulo, trazia o material para sua obra definitiva. Em 1831, voltou para a França e deu início à edição da Voyage pittoresque et historique au Brésil, obra monumental, lançada em três volumes, entre 1834 e 1839, na qual, em 151 pranchas, capturou um país que crescia com rapidez e brutalidade. O livro segue o “traçado lógico da civilização no Brasil”: o primeiro volume é dedicado aos indígenas e às florestas; no segundo, surgem escravos e artesãos; o terceiro investiga os usos e costumes urbanos e os acontecimentos políticos. Constituem uma aula inesquecível, repleta não apenas de cores: é como se as pinturas de Debret possuíssem também sons e odores preservados no tempo e no espaço.
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O IMPÉRIO DA BUROCRACIA
Ao trazer cerca de 12 mil acompanhantes na sua transmigração para o Brasil, D. João VI, ao chegar ao Rio, não se viu forçado apenas a achar lugar para toda aquela gente morar. Também foi preciso dar-lhes um emprego – e um emprego público, é claro. Logo nos primeiros dias, D. João montou seu ministério, formado por três secretarias: a dos Negócios do Reino, a da Guerra e dos Estrangeiros e a da Marinha e Ultramar. A primeira, e mais importante delas, ficou sob o comando de Fernando José Portugal, marquês de Aguiar. “Minguado de faculdades criadoras para sacar da própria mente e da meditação fecunda as providências que as necessidades do país fossem ditando, o marquês de Aguiar parece ter começado por consultar o almanaque de Lisboa e, à vista dele, ter-se proposto a satisfazer a grande comissão que o príncipe lhe delegara, transplantando para o Brasil, com seus próprios nomes e empregados (para não falar de vícios e abusos), todas as instituições que lá havia, as quais se reduziam a muitas juntas e tribunais, que mais serviam de peia do que de auxílio à administração, sem meter em conta o muito que aumentou as despesas públicas, e o ter-se visto obrigado a empregar um sem-número de nulidades, pela exigência da chusma de fidalgos que haviam emigrado da Metrópole e que, não recebendo dali recursos, não tinham o que comer”, escreveu, em 1854, o historiador Francisco Adolfo Varnhagen.
O pior para D. João VI foi que, ao abrir os portos “às nações amigas” (que, ele sabia, era apenas a Inglaterra), privou o Estado de sua única fonte de renda: os impostos extorsivos. A tributação dos produtos ingleses, os únicos disponíveis, baixou para 24% já em 1808. Dois anos mais tarde, foi reduzida para 15%. Dessa forma, a única maneira que D. João VI encontrou para obter dinheiro foi fabricá-lo. Por isso, criou o Banco do Brasil (leia box na p. 154). Ao imprimir papel-moeda sem lastro, mergulhou o Brasil no poço sem fundo da inflação.
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BUROCRACIA E PATRIMONIALISMO: na gravura de Debret, abaixo, o passeio de um funcionário público e sua família. Na página à esquerda, cena do interior de uma moradia carioca na hora do almoço.
O BANCO DO BRASIL
Quando D. João fundou o Banco do Brasil, em 12 de outubro de 1808, só havia três bancos emissores no mundo. A ideia, portanto, em tese, era boa. Mas, criado com capital inicial de 1.200 contos e com objetivo de gerar fundos para manter a Corte no Brasil, o banco logo passou a emitir mais do que arrecadava. A seguir, começaram os desfalques, os desvios e o “extravio”’ do dinheiro. Em vez de “preceder a rigoroso inquérito, como aconselhava a salvação da instituição”, o governo “impôs o silêncio pela violência aos que davam curso àqueles boatos”, como relatou, injuriado, em 1821, o conselheiro Pereira da Silva. Seu colega, o conselheiro José Antônio Lisboa, também lastimou “o mau uso que se fazia dos fundos do Banco e as prevaricações de seus empregados”. Em abril de 1829, quando as notas emitidas pelo banco já tinham sido desvalorizadas em 190% com relação ao ouro, o então ministro da fazenda Miguel Calmon (mais tarde marquês de Abrantes) apresentou à Câmara dos Deputados proposta para dissolução da instituição. Após calorosos debates, no dia 11 de dezembro de 1829 – data na qual se esgotavam os privilégios previstos na fundação –, o Banco do Brasil foi então liquidado judicialmente. Só seria restabelecido um quarto de século mais tarde, em 1853.
Embora desprezasse os traficantes de escravos, que eram os verdadeiros senhores do Rio de sua época, D. João aproximou-se deles e obteve empréstimos em troca de terras e de comendas. Tais prêmios asseguraram a esses ricos párias uma rápida ascensão social.
A vida social do Rio tornou-se intensa, e as malcuidadas e quase insalubres casas dos ricos lusobrasileiros tiveram de ser remodeladas. Não apenas elas, como seus guarda-roupas. Já os cortesãos circulavam pelas ruas recém-abertas esforçando-se ao máximo para exibir trajes e modos em tudo superiores aos dos nativos. A cena não passou despercebida a Debret, que a imortalizou na prancha Um funcionário a passeio com sua família (página 153), na qual “uma família de fortuna média, cujo chefe é funcionário”, sai de casa para visitar a rua do Ouvidor, “repleta de lojas de moda francesa”.
D. CARLOTA JOAQUINA
Na madrugada de 25 de abril de 1821, antes de o dia raiar, a rainha Carlota Joaquina – acompanhada de seu marido, o rei D. João VI, do filho D. Miguel, das seis princesas e de quatro mil cortesãos (e de boa parte do Tesouro Real, mais 50 milhões de cruzados sacados sorrateiramente do Banco do Brasil) – embarcou na nau que, enfim, a levaria de volta à Europa. Reza a lenda que, ao pôr os pés no navio, D. Carlota teria batido um sapato contra o outro e dito: “Nem nos calçados quero como lembrança a terra do maldito Brasil”.
A rainha de fato odiava o Brasil – e os quase cinco mil dias que nele viveu não foram suficientes para fazê-la mudar de opinião. Mais do que ao Brasil, D. Carlota só odiava uma coisa: o marido D. João, com o qual estava casada havia 36 anos, mas com quem não convivia há vinte. Ainda assim, tivera nove filhos. Prole tão numerosa num casal que mal podia se olhar gerara muitas suspeitas: dizia-se que pelo menos cinco dos nove rebentos não seriam fruto de D. João. De fato, talvez não fossem, embora nem o rei nem a rainha aparentemente dessem muita importância para o fato. Além desse desinteresse mútuo, uma outra coisa D. João e D. Carlota tinham em comum: eram ambos feiíssimos.
D. Carlota Joaquina de Bourbon, infanta de Espanha, rainha de Portugal e imperatriz honorária do Brasil, nasceu nos arredores de Madri em 22 de abril de 1775. Aos dez anos de idade, casou-se por procuração com D. João. Realizada por uma questão de Estado, a união foi vexatória desde o início: num dos primeiros encontros, a noiva mordeu selvagemente a orelha do noivo e jogou-lhe um castiçal no rosto. O casal só iniciou sua vida conjugal cinco anos depois do casamento, logo após a primeira menstruação da princesa. A chegada dos filhos não mudou em nada o relacionamento entre ambos. Na prática, comportavam-se como monarcas inimigos.
De certa forma, D. Carlota e D. João eram mesmo inimigos. Fiel às origens espanholas, a rainha conspirou com frequência contra o trono português. Por isso, os historiadores luso-brasileiros gostam de descrevê-la como uma bruxa: “A mulher era quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas de bexiga ainda faziam mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena, quase anã, claudicante… uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados”, escreveu Octávio Tarquínio de Souza, em sua obra clássica, História dos fundadores do Império do Brasil.
Uma das mais cruéis descrições de D. Carlota, no entanto, foi feita pelo escritor inglês William Beckford, que a conheceu e deplorava “suas incessantes intrigas de todos os matizes, seus caprichos extravagantes, seus atos desumanos de crueldade”.
A verdade é que, feia ou não, D. Carlota lutava pelos interesses da Espanha – em especial quando estes a favoreciam. Quando Napoleão rompeu com Madri e entronou o próprio irmão no lugar de Carlos IV, pai de D. Carlota, ela quis ser rainha do Prata. D. João bloqueou os planos. D. Carlota, então, fixou-se na casa de praia de Botafogo, onde se banhava nua. Continuou colecionando amantes (mandando matar a mulher de um deles) e começou a fumar a erva diamba (hoje chamada maconha). Amazona audaz, montava como homem. Cantava e dançava o flamenco. Não foi boa mãe, especialmente depois que seu primogênito, Antônio, morreu aos 6 anos. Seu outro favorito era D. Miguel, tido como filho do marquês de Marialva. D. Carlota nunca deu atenção para o príncipe herdeiro, D. Pedro. Ao sair pelas ruas do Rio, era precedida por um séquito de seguranças que forçavam todos os súditos a se ajoelhar. D. Carlota Joaquina morreu em Lisboa, aos 54 anos, sem jamais ter retornado à sua amada Espanha.
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A RAINHA MONTADA: D. Carlota Joaquina era uma amazona ousada que gostava de se vestir com roupas chamativas. Ao deixar o país bateu os sapatos para “não levar nem o pó do maldito Brasil”.
PERFIL E LEGADO DE D. JOÃO VI
Dom João VI passou à história vitimado pela própria aparência e por uma série de características caricaturais. Cabeça enorme, corpo roliço, pernas curtas, mãos e pés minúsculos, rosto avermelhado surgindo de um conflito de volteios e papadas, o rei não apenas era feio (“fealdade que se reputa das maiores ocorridas em pessoas de casa real de qualquer país da Europa”, disse um cronista), como também um glutão inveterado que ignorava as mais primárias normas de higiene e asseio. É fato histórico que ele enfiava frangos assados inteiros nos bolsos de casacas engorduradas, sujas e puídas que se recusava a trocar. Também é verdade que odiava o contato com a água. “Não havia memória na Casa Real, em Lisboa ou no Rio de Janeiro, de D. João ter tomado banho de corpo inteiro”, escreveu, em 1927, o historiador Tobias Barreto.
Não é de se estranhar, portanto, que o rei tivesse erupções e doenças de pele constantes e coceiras permanentes. “Coçava-se por detrás e por diante, sendo que com essa mão dava assim mesmo a beijar”, anotou um cortesão. Não bastasse, D. João VI ainda era traído publicamente pela mulher, D. Carlota Joaquina, e, dizia-se, mantinha um caso com seu camareiro.
Nascido em 13 de maio de 1767, D. João VI era o segundo filho de D. Pedro III e D. Maria I. Não fora criado para ser rei, nem o pretendia. Mas, em 1788, a varíola matou seu irmão mais velho, D. José, e D. João tornou-se o primeiro na linha sucessória. D. Pedro III (tio e marido de D. Maria I) morrera em 1786, de embolia cerebral. Em 1792, D. Maria enlouqueceu, e D. João assumiu o governo, mas só aceitou o cargo de regente em 1799, quando sua mãe foi declarada incurável. No trono, revelou-se tímido, distante, fleumático, bucólico, calado e indeciso.
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UM REI BONACHÃO? Retratado por vários artistas, D. João VI parece ter passado à História vitimado por alguns aspectos caricaturais de suas feições e seu estilo.
Detestado por muitos de seus biógrafos, atacado por vários de seus contemporâneos – não só estadistas brasileiros, mas políticos portugueses –, D. João VI surge, em muitos livros, como um monarca preguiçoso e bobalhão, vítima de um bucolismo inconsequente. Afinal, reunia-se regular e longamente com seus ministros e conselheiros, sopesava cuidadosamente todas as questões e, sempre que possível, não tomava decisão alguma. Mas o que era visto como covardia talvez devesse ser interpretado como astúcia. Espremido entre um continente dominado pelo Exército francês e um oceano controlado pela marinha britânica, D. João VI adotou o estilo mais apropriado para Portugal numa época em que qualquer ação ousada poderia levar o reino à ruína. Tornou-se um radical de cautela.
De qualquer forma, o D. João imundo e glutão que chegou ao Brasil revelou-se um governante com frequentes rasgos de bondade e muitas ações práticas. Além de abrir os portos, declarar o Brasil um reino unido a Portugal e remodelar o Rio de Janeiro, ele permitiu a instalação de indústrias e aparelhou as Forças Armadas, criando a Academia da Marinha, a Academia Militar e uma fábrica de pólvora (assim como outras obras, essa foi paga pelos traficantes de escravos do Rio). Construiu o Jardim Botânico, um observatório astronômico e um museu mineralógico. Fez o teatro, a biblioteca pública e a tipografia real, cuja primeira publicação foi A riqueza das nações, de Adam Smith.
No Brasil, D. João não precisava ser pouco mais que um súdito da Inglaterra e só partiu porque era inevitável. Ao fazê-lo, disse ao filho Pedro: “Se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros.” Mais do que um conselho, foi uma profecia.
OS CONFLITOS DO REI
Ao longo dos treze anos que ficou no Brasil, D. João VI envolveu-se em três conflitos armados. O primeiro foi a invasão da Guiana Francesa, colônia que o país de Napoleão mantinha na América do Sul. Foi uma ação rápida e tranquila: com setecentos homens e a ajuda naval inglesa, a capital Caiena foi tomada em janeiro de 1809. O território seria devolvido à França em 1817. Em julho de 1821, depois de anos de escaramuças na fronteira sulista, D. João incorporou ao Brasil a Banda Oriental do Uruguai, que seu exército havia tomado em 1817. Rebatizado de Província Cisplatina, o novo território permaneceria sob controle do Brasil até 1825.
O conflito interno mais grave ocorrido durante o período de D. João VI no Brasil foi a chamada Revolução Pernambucana de 1817. Movimento autonomista de inspiração republicana e maçônica, foi fruto do forte sentimento nativista e separatista que grassava em Pernambuco desde a expulsão dos holandeses, em 1654. Em março de 1817, um grupo de revolucionários assumiu o poder na província, declarando-a uma república separada do resto do Brasil. O novo regime só durou até maio, quando tropas portuguesas invadiram o Recife e debelaram o movimento. Seus três principais líderes (entre eles o padre Miguelinho) foram fuzilados.
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