Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
10. A corrida do ouro
Capítulo 10
A CORRIDA DO OURO
Embora não tenha havido um Jack London para eternizá-la em meia dúzia de obrasprimas da literatura, nem uma indústria como a de Hollywood para transformá-la numa epopeia dramática, o fato é que o Brasil não apenas teve a sua corrida do ouro como ela foi, no mínimo, tão dinâmica, vertiginosa e rentável quanto aquela que, em 1848, determinou a ocupação da Califórnia e a que, meio século depois, exportou para os confins gelados do Alasca todos os horrores da civilização. Como em suas equivalentes norte-americanas, a febre do ouro que tomou conta do Brasil, no crepúsculo do século XVII, revolucionou a colônia de todas as formas concebíveis: provocou um imenso e desordenado êxodo populacional que esvaziou as cidades; causou um considerável aumento no preço dos escravos, dos rebanhos e dos víveres; forçou reformas políticas de vulto; levou milhares de indígenas à extinção e abriu novos caminhos de penetração, incorporando regiões até então ermas e inexploradas. Fez mais: ajudou a enfraquecer o ciclo do açúcar, deixando plantações entregues às ervas daninhas.
Embora sua ressonância internacional seja, hoje, virtualmente nula, em seu auge a corrida do ouro brasileira revolucionou o mundo ocidental. Ainda assim, quase todo o metal arrancado das entranhas das Minas Gerais cruzou Lisboa apenas de passagem: as artimanhas do Tratado de Methuen, assinado em 1703, fizeram com que o minério brasileiro fosse parar na Inglaterra – e lá ajudasse a financiar a Revolução Industrial da mesma forma como, um século antes, o ouro e a prata saqueados dos astecas e dos incas ajudaram a incrementar a revolução mercantilista.
É impossível quantificar os números da corrida do ouro de Minas Gerais, uma vez que, desde o início, o contrabando revelou-se mais constante e eficiente do que as normas para impedi-lo. Ainda assim, sabe-se com certeza que as descobertas de 1693-1694 de imediato tornaram o Brasil o maior produtor mundial de ouro da época. As estatísticas são muito variáveis, mas calcula-se que cerca de 84 toneladas do metal foram extraídas – sem auxílio mecânico – entre 1700 e 1799 (foram 27 toneladas entre 1752 e 1787; para fins comparativos: na década de 1980, Serra Pelada produziu 35 toneladas).
A massa humana que se dirigiu às minas entre 1700 e 1720 foi superior a 150 mil pessoas, das quais mais de cem mil eram escravos. Ao longo do século XVIII, cerca de 430 mil paulistas, cariocas, baianos, portugueses, indígenas e negros da Guiné ou de Angola percorreram as trilhas escabrosas que separavam o litoral do Sudeste do Brasil das serras da fortuna e da danação. “Todos os vícios tiveram morada na região das minas. Todas as paixões desencadearam-se ali; ali se cometeram todos os crimes”, escreveu, um século mais tarde, o viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, para quem aqueles que tinham tomado parte na corrida ao ouro eram “a escória do Brasil e de Portugal”. Nas minas, matava-se por tudo e por nada. Nas minas, travou-se a terrível Guerra dos Emboabas. Nas minas, mais tarde, quando o ouro ainda reinava, foram descobertos diamantes – e o ciclo se reiniciou, tão alucinado e voraz quanto antes. Nas minas, nasceu um gênio cuja arte eternizou – em altares, estátuas e capitéis – o esplendor de uma época de excessos e esperança. A obra do Aleijadinho é um dos parcos legados dos áureos dias do Brasil.
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O MAPA DA MINA
Por 200 anos, mais do que uma obsessão, o ouro – ou a ausência dele – fora uma maldição para os portugueses que viviam no Brasil. Ao contrário do que acontecia nos territórios conquistados pela Espanha, não parecia haver, na terra do pau-brasil, “coisa de metal algum” como diagnosticara, já em 1502, o florentino Américo Vespúcio. O padrinho do Novo Mundo fora mais cético do que o primeiro cronista do Brasil. Em abril de 1500, ao redigir sua carta para o rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha revelava toda a esperança dos descobridores em achar o “fulvo metal” na terra nova: o simples fato de um indígena ter olhado para o colar de ouro que ornamentava o peito de Cabral e, em seguida, apontar para as montanhas, foi tomado como sinal inequívoco de que, naquelas serranias, deveria haver ouro, muito ouro. A ilusão perduraria por dois séculos – e reclamaria muitas vidas antes de se tornar uma espantosa realidade.
Embora algumas pepitas tenham sido encontradas no sopé do pico do Jaraguá, em São Paulo, em 1590, e certos ribeiros do litoral do Paraná revelassem areia aurífera, o fato é que, até 1693, no Brasil quase nada que refulgia era ouro – com exceção, é claro, da pedra conhecida como “ouro dos tolos”, a pirita. No entardecer do século XVII, porém, Portugal e Brasil se encontravam numa crise financeira tão profunda que, em 1674, o próprio regente Pedro II (coroado rei em 1683) escrevera aos “homens bons” da vila de São Paulo, encorajando-os a partir para o sertão em busca de metais. Não dissera, em 1519, o capitão Hernán Cortez ao líder asteca Montezuma que os espanhóis sofriam de uma “doença do coração que só o ouro pode curar”? Um século e meio mais tarde, Portugal e Brasil pareciam de tal forma enfermos que só um Eldorado poderia salvá-los. Pois ele existia e logo seria encontrado – embora trouxesse consigo outras moléstias.
Alguns historiadores acham que “os efeitos psicológicos” que as missivas reais de Pedro II teriam exercido sobre os onze sertanistas que as receberam não devem ser desconsiderados. Mas o fato é que aos bandeirantes de São Paulo não restava outra forma de manter suas vidas nômades senão caçando ouro: seus “currais” indígenas estavam esgotados. Ao rei também não sobrava outra opção: anos antes, enquanto perdurava a União Ibérica, foram enviados da Corte especialistas em minas para estudar as potencialidades minerais do Brasil. O único deles que resistiu às agruras do sertão – o espanhol Rodrigo Castelo Branco – foi assassinado por Borba Gato, genro de Fernão Dias, assim que chegou à mina que o “caçador de esmeraldas” acabara de descobrir. Depois desse crime sem castigo, quem não fosse bandeirante e paulista não se arriscaria a percorrer os ermos do Brasil. Aos paulistas caberia a façanha de encontrar a maior jazida de ouro já descoberta no mundo. Mas não seriam eles que lucrariam com ela.
A discussão acadêmica sobre qual o primeiro ouro descoberto nas Gerais é tamanha que não restam dúvidas de que os achados foram simultâneos, o que indica também que havia várias expedições percorrendo a serra da Mantiqueira e os vales dos rios das Velhas e das Mortes em busca do metal. Borba Gato teria sido o primeiro a achar ouro, mas, após o crime de lesa-majestade que cometera, fora obrigado a se esconder em matos remotos. Em 1693, por sua vez, chegava ao Espírito Santo o paulista Antônio Ruiz de Arzão “com cinquenta e tantas pessoas, entre brancos e Carijó domésticos de sua administração, todos nus e esfarrapados, sem pólvora ou chumbo”: vinham do sertão de Minas, onde, durante a caça aos escravos, haviam sido duramente atacados por ferozes cataguás.
A expedição, porém, fora vitoriosa: entre os trapos que o cobriam, Arzão trazia dez gramas de ouro. Impossibilitado de voltar ao sertão, deu o mapa da mina para o cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira (que, pouco antes, perdera toda sua herança no jogo). Siqueira partiu no rumo indicado e em janeiro de 1695 precisou informar que o ouro não era mais miragem.
A “grandeza das lavras” e a “fertilidade das minas” eram evidentes, e Siqueira teve de comunicar isso ao governador do Rio, Castro e Caldas. Em fins de 1696, já se contavam aos milhares os paulistas que saíam de Taubaté (ponto de partida de Arzão e Siqueira) rumo ao “sertão dos Cataguases”, do outro lado da Mantiqueira.
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MONTANHAS DO FAUSTO E DA DANAÇÃO: para além dos contrafortes da serra da Mantiqueira ficavam os riquíssimos “currais auríferos” das Minas Gerais. Ao lado, o mapa dos dois caminhos que conduziam ao ouro.
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AS BESTAS DE CARGA: as mulas, em geral vindas do Rio Grande do Sul e trazidas por tropeiros, só começaram a chegar à região das minas mais de uma década após o começo da corrida do ouro. No início, tudo era transportado nas costas e nos ombros dos mineiros e de seus escravos.
A jornada até as minas durava cerca de dois meses e meio, e o roteiro conduzia de Taubaté a Lorena (via Guaratinguetá). Do vale do rio Paraíba, cruzava-se a serra da Mantiqueira pela garganta do Embaú, atingindo-se, então, os três principais polos mineradores: nas nascentes do rio das Mortes, tendo por centro São João del Rei; na região de Ouro Preto e Mariana, na serra do Tripuí; e no Sabará e sua vizinha Caeté. Em 1699, Garcia Rodrigues Pais (filho de Fernão Dias) abriu um caminho bem mais curto, por meio do qual o percurso entre o Rio de Janeiro e as minas podia ser vencido em apenas quatorze dias.
Naquela época, a região já estava povoada por toda espécie de aventureiros: levas incessantes de peregrinos que partiam de todos os cantos do Brasil, “os mais pobres deles só com suas pessoas e o seu limitado trem às costas”. De acordo com esse mesmo cronista, eram “indivíduos tão alucinados que, vindos de distância de 30 ou 40 dias de jornada, partiam sem privilégio algum – assim, pelo caminho, muitos acabaram de irremediável inanição e houve quem matasse o companheiro para lhe tomar uma pipoca de milho”.
Um grande surto de fome assolou as minas em 1696-1698. Muitos mineiros, com os alforjes cheios de ouro, morreram sem encontrar um pedaço de mandioca, pelo qual dariam uma pepita. Mas os horrores da fome seriam apenas os primeiros a acometer o efervescente sertão dos Cataguás e as fulgurantes “minas de Taubaté”. Enquanto a terra ia sendo escavada, novas desgraças estavam sendo fermentadas.
A GUERRA DOS EMBOABAS
Apesar da fome que assolou as Minas em 1696-1698 ter sido terrível, uma crise de desabastecimento ainda mais devastadora se abateria sobre a região em 1700. Três anos depois da descoberta das primeiras jazidas, cerca de seis mil pessoas tinham chegado às minas. Na virada do século XVIII, esse número quintuplicara: 30 mil mineiros perambulavam pela área. Simplesmente não havia o que comer: qualquer animal ou vegetal que pudesse ser consumido já o fora. “Chegou a necessidade a tal extremo que se aproveitavam de imundos animais, e, faltando-lhes esses para poderem alimentar a vida, largaram as minas e fugiram para os matos para comerem cascas e raízes”, relatou o governador Artur de Sá à Corte, em 1701. Foram devorados sapos, içás, cobras e “bichos mui alvos criados em paus podres”, cuja ingestão às vezes era fatal aos famintos. Formigas tostadas viraram uma iguaria comparada à “melhor manteiga de Flandres”. Os preços de qualquer comestível que chegava à região se tornaram exorbitantes: quando os baianos abriram o caminho que, pelas margens do São Francisco, conduzia ao polo minerador, um boi, que em Salvador valia 4 mil-réis, era revendido nas Minas por 96 mil-réis. No Caeté, uma galinha valia 14 gramas de ouro.
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O pior estava por vir. “Morreu muita gente naquele tempo, de doença e necessidades e outros que os matavam para os roubar, na volta, que levavam ouro (…) matavam uns aos outros pela ambição de ficarem com ele, como aconteceu em muitos casos”, anotou uma testemunha. Em 1707, o previsível aconteceu: rebentou a guerra nas Gerais. De um lado, os paulistas; de outro, os “forasteiros”, chamados de emboabas.
A Guerra dos Emboabas prolongou-se por quase três anos e deixou duas centenas de mortos. Seus episódios são confusos e contraditórios, e os relatos da época foram redigidos por partidários de uma facção ou de outra. A seguir, o resumo do conflito e seus desdobramentos:
O QUE FOI: A Guerra dos Emboabas foi o confronto entre os paulistas – descobridores das minas e dos caminhos que levavam até elas – e os “forasteiros” (especialmente portugueses), que chegaram depois e se apoderaram (pela força das armas ou do dinheiro) de algumas das melhores lavras. Os paulistas queriam exclusividade na mineração.
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OS RUDES PAULISTAS: audazes sertanistas e experientes tropeiros – como o homem retratado na imagem acima, feita por Charles Landseer, em meados do século XIX –, os paulistas descobriram as minas gerais, mas não foram os que lucraram com elas.
QUANTO DUROU: O primeiro confronto deu-se em maio de 1707, quando um paulista matou o português dono de uma estalagem em Ponta do Morro (vilarejo próximo a São João del Rei). O último combate ocorreu a 22 de novembro de 1709, quando, depois de oito dias de luta, os paulistas desistiram de tentar tomar o arraial onde os emboabas estavam entrincheirados.
COMO COMEÇOU: Depois do incidente em Ponta do Morro, três episódios semelhantes ocorreram em menos de um semestre. Em todos eles, um paulista matara um emboaba por motivo fútil. Sob a liderança de Manoel Nunes Viana – um influente comerciante e minerador, que viera da Bahia –, os emboabas reagiram, incendiando Sabará e expulsando boa parte dos paulistas da zona das minas. Então, em 1708, o próprio Nunes Viana se tornou “governador” da região das minas, assumindo o posto antes ocupado pelo paulista Borba Gato. Diz a lenda que, ao chegarem em casa derrotados, os paulistas foram forçados por suas mulheres a retornar ao campo de batalha. Apesar de terem matado oitenta emboabas durante o sítio ao Arraial Novo, não conseguiram a vitória.
A PALAVRA EMBOABA: Existem dezenas de explicações etimológicas, mas o mais provável é que seja um termo vindo do tupi amô-abá, cujo significado é “estrangeiro”.
CONSEQUÊNCIAS: Na prática, os paulistas perderam o controle das minas, mas, em 1710, São Paulo acabaria se tornando uma capitania independente.
A FEBRE DO OURO
Ainda que a literatura e o cinema pouco tenham se servido da corrida do ouro de Minas Gerais, a auri sacra fames (ou “febre do ouro”) que inflamou os espíritos foi admiravelmente descrita pelo jesuíta italiano Antônio Andreoni em seu clássico Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, escrito sob o pseudônimo André João Antonil. Embora não tratasse apenas das minas (que só ocupam um quarto do livro e nas quais Antonil jamais esteve), o livro faz a mais vívida descrição delas. Publicado em 6 de março de 1711, foi proibido dez dias depois de seu lançamento e teve sua primeira edição destruída. O livro só voltou a ser relançado em 1898, depois de Capistrano de Abreu ter descoberto que Antonil e Andreoni (nascido em Luca a 1649 e morto em 1716) eram a mesma pessoa. Quando Cultura e opulência do Brasil foi originalmente publicado, as autoridades perceberam que o texto iria aumentar o já incontrolável fluxo de migrantes. Pelo que escreveu, Andreoni sabia disso:
“A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e meterem-se por caminhos tão ásperos, como são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do mínimo das pessoas que atualmente lá estão. (…) Dizem que mais de 30 mil almas se ocupam, umas em catar, outras em mandar catar nos ribeiros do ouro; outras em negociar, vendendo e comprando o que se há mister não só para a vida, mas para regalo, mais que nos portos de mar. Cada ano vêm nas frotas quantidades de portugueses e estrangeiros. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, padres e clérigos.”
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Graças ao relato de Andreoni/Antonil, sabe-se também como eram exploradas e distribuídas as minas. O ouro descoberto estava, de fato, quase que à flor da terra – em sua maior parte, foi explorado em aluviões, nas areias e nos cascalhos dos rios: “Era uma autêntica catagem, que só necessitava braço humano, sem jeito especial ou inteligência amestrada.” A legislação real estabelecia que aos descobridores de cada jazida cabiam duas datas (pequenas extensões de terras auríferas na beira dos rios) de 900 braças (4.356 metros quadrados). Uma data do mesmo tamanho seria reservada à Coroa. As demais datas (de igual dimensão) seriam repartidas entre os mineradores que possuíssem pelo menos doze escravos. Aos mineiros com menor número de escravos seriam entregues datas de 25 braças por escravo.
Dispositivos legais posteriores dispunham sobre o direito dos mineradores ao corte de madeira e à repartição das águas. Quando a exploração se iniciava, os cursos dos rios eram desviados, separando-se trechos de seus leitos por uma ensecadeira (veja a gravura de Rugendas, na p. 109). Cavadeira e almocafre eram os utensílios mais utilizados no desprendimento do cascalho, mas eram as bateias, as gamelas e os pratos os instrumentos finais para a “apuração” do ouro. De início, o grosso dos escravos levados às minas era de índios “domésticos” capturados pelos paulistas. Eles logo se finaram. Em março de 1709, D. João V assinou um alvará “franqueando” o tráfico de africanos aos paulistas (até então limitado a duzentos por ano). Em 1738, já 101.477 escravos labutavam nas minas. “O trabalho da bateia e do carumbé, do almocafre e da pá foram operações que converteram o Brasil das minas em um superinferno de negros, perto do qual o dos engenhos e fornalhas de açúcar, por Antonil apontado, não passou de indulgente purgatório”, escreveu o historiador paulista Afonso Taunay.
O OURO NA BALANÇA
Total de ouro extraído de Minas: 87,4 toneladas em 80 anos (1700 a 1780).
Outras descobertas: Em Goiás, em 1727, pelo Anhanguera (essas minas renderam 16 toneladas) e em Mato Grosso, por Moreira Cabral, em 1729 (renderam 6 toneladas).
Consequências no Brasil: A mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, a ocupação de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso e a fomentação da independência.
Consequências em Portugal: A Coroa deixou de depender dos humores do Senado da Corte, aumentando seu poder e sua independência internos. Externamente, após o Tratado de Methuen (1703), Portugal se tornou totalmente dependente da Inglaterra. Desinteressada de promover a industrialização – já que recebia bens manufaturados ingleses em troca de seus vinhos –, a Coroa lusa acabaria cedendo a maior parte do ouro do Brasil para os ingleses.
Quem mais lucrou no Brasil: O padre Guilherme Pompeu, “que às minas jamais foi ter”, virou magnata ao se tornar fornecedor e banqueiro dos bandeirantes.
Quem mais lucrou em Portugal: Embora a riqueza das minas fizesse com que D. João V ficasse conhecido como o “Rei-Sol português”, foi depois da morte dele, em 1750, e a consequente ascensão de D. José I, que chegou ao poder o homem que, politicamente, mais se beneficiou com o ouro brasileiro: o todo-poderoso marquês de Pombal.
COBIÇA E CONTRABANDO
Como aconteceria um século mais tarde na Califórnia e, em seguida, no Alasca e na África do Sul, a região das Minas Gerais, logo após a descoberta do ouro, “constituía uma república onde o atrevimento imperava armado e o direito vivia inerme”. A lei e a ordem levaram seis anos para chegar ao reino da cobiça. Nesse período – de 1694 a 1700 –, as fronteiras da civilização no Brasil eram percorridas “por homens de toda a casta e de todas as partes, gente de cabedais e aventureiros sem vintém, em número enorme: os primeiros, arrogantes e prepotentes, acompanhados por espingardeiros, violentos, vingativos, jogadores e devassos; os demais, em geral, vadios e ladrões inveterados, traidores e assassinos”.
Quando o poder constituído enfim se estabeleceu nas “minas de Taubaté”, a figura escolhida para representá-lo não poderia ser mais dúbia. Arthur de Sá e Meneses, ex-capitão-general do Maranhão, tornou-se governador do Rio em abril de 1697.
Em outubro do mesmo ano, foi a São Paulo (inflamada por uma guerra civil entre dois clãs rivais). Lá, além de perdoar Manoel Borba Gato do assassinato de Rodrigo Castelo Branco, nomeou-o guarda-mor dos sertões mineiros (a nomeação só se tornou oficial três anos depois) e instigou os demais habitantes da cidade a “dar todo o calor à laboração das minas”.
Entusiasmado pelo ouro que teria recebido de Borba Gato, Arthur de Sá decidiu partir ele próprio para Minas em agosto de 1700, permanecendo lá até junho do ano seguinte. Em setembro de 1701, resolveu passar mais dez meses na região. Quando retornou ao Rio, em 12 de junho de 1702, trazia consigo 40 arrobas de ouro (cerca de 580 quilogramas) “oferecidas” pelos mineradores. Ao embarcar para Portugal, em 1705, “arquissatisfeito com o resultado das jornadas a que se abalançara”, o ex-capitão de infantaria tinha se tornado “um dos sujeitos mais opulentos da monarquia”.
As duas jornadas às minas, porém, haviam lhe debilitado de tal modo a saúde que, quatro anos mais tarde, Arthur de Sá – chorado publicamente como uma “indeslembrável figura” – morria em Lisboa, sem deixar herdeiros.
A herança de Arthur de Sá e Meneses fora a primeira legislação mineira aplicada aos fabulosos achados auríferos das Minas Gerais. Antes da descoberta, a disposição legal sobre a tributação do ouro se resumia às Ordenações Manuelinas, de 1521, estipulando que um quinto do minério extraído pertencia à Coroa. Com a riqueza aflorando da terra, e a dívida externa de Portugal sendo duas vezes superior a sua renda, as Minas seriam vitimadas por uma das mais rigorosas taxas de tributação criadas até então. Aos mineradores não eram cobrados apenas os quintos, mas também “direitos de entradas” (sobre todos os produtos vindos de fora, em alguns casos até 75% do valor da mesma mercadoria no porto do Rio), “direitos de passagem” (espécie de pedágio cobrado nos rios), dízimos para a Igreja e o “subsídio voluntário” (criado pelo marquês de Pombal para ajudar na reconstrução de Lisboa depois do terremoto de 1755). Dos dízimos pagos pelos mineiros ao receberem suas datas provinham os ordenados dos superintendentes, guardas-mores, guardas-menores, oficiais e policiais que patrulhavam furiosamente a região das Minas. Todas as estradas, rios e passagens possuíam casas de registro e o ouro só podia circular em barras ou com uma guia.
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OURO SEM LUSTRO: boa parte dos quadros que retrata a corrida às Minas foi produzida dois séculos depois dos acontecimentos, no seio do Museu Paulista. São imagens como Ciclo do Ouro, de Rodolfo Amoedo (acima, à esquerda) e Provedor das Minas – 1700, de Joaquim da Rocha Ferreira (acima, à direita).
Ainda assim, calcula-se que pelo menos 35% do metal (cerca de 30 toneladas) extraído da terra foi contrabandeado. A legislação mudou inúmeras vezes (em 1701, 1713, 1715, 1718, 1719,1725, 1730 e 1750). Em 1713, os mineradores ofereceram, em troca da suspensão do quinto, uma “finta” de 30 arrobas anuais à Coroa (baixada para 25 arrobas em 1718 e aumentada para 37 arrobas anuais em 1719). Mas, em 1735, quando o governador Gomes de Freire quis estabelecer um imposto de 17 gramas por ano por escravo, os mineradores ofereceram uma finta de cem arrobas anuais à Coroa. Mais do que o esgotamento dos veios, foi a tributação abusiva que provocou a decadência das minas, não sem antes ter feito eclodir, em Vila Rica, a Conjuração Mineira.
O DISTRITO DIAMANTINO
Como se todo o fausto e os favores que o ouro trouxera para a Metrópole não fossem o bastante, em 1727 chegava a Portugal a notícia de que, nas fraldas do Serro Frio, num lugarejo conhecido por Arraial do Tijuco (hoje Diamantina), surgira uma grande lavra com os mais reluzentes diamantes. D. João V exultou. Pelo reino todo se celebraram “festas esplêndidas, e te-déuns e procissões inumeráveis que extasiaram o povo português, por quadrarem à sua religiosidade. Para Roma remeteu o governo as primeiras amostras. Ações de graça solenes se deram ao Todo-Poderoso na capital do mundo católico. O Santo Papa, os cardeais e todos os monarcas da Europa felicitaram D. João V. Não se ocuparam os povos da terra com outro objeto e notícia. Dir-se-ia que se descobrira coisa que devia regenerar e felicitar o universo”, escreveu, com algum exagero, o historiador Joaquim Felício dos Santos.
No Tijuco, porém, a alegria iria durar pouco. A política que Portugal instaurou no Distrito Diamantino para controlar a exploração e a saída das pedras preciosas seria das mais repressivas e opressoras da colonização europeia na América.
A notícia oficial da descoberta dos diamantes somente foi feita uns dez anos após os primeiros achados. O português Bernardo da Fonseca Lobo, que achou uma “faisqueira” em 1723, é tido como o primeiro descobridor, mas desde 1714 havia notícias do surgimento de diamantes e topázios. Assim que a riqueza do veio se tornou evidente, Lisboa anulou todas as cartas de datas concedidas na região e declarou a extração de diamantes total monopólio da Coroa, constituindo o Distrito Diamantino, com sede no Tijuco.
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A MALDIÇÃO DOS DIAMANTES: escravos manejam peneiras e bateias na litogravura Extração de diamantes em Curralinho, MG, feita para ilustrar o livro de viagens de Spix e Martius, que visitaram as Minas em 1818.
Por quase cem anos, a Coroa manteve a zona diamantina na mais absoluta clausura, proibindo a presença de “negros e pardos livres, de desocupados ou pedintes”. Vendas e tabernas foram fechadas, comerciantes, expulsos.
Um estado policial se instalou na região. A situação permaneceu a mesma depois de 1740, quando a Coroa decidiu “vender” o direito de exploração a um contratante privado. O novo sistema perdurou por trinta anos e revelou-se mais eficiente: extraíram-se, então, 1.666.569 quilates das minas.
O Brasil jogou tantos diamantes no mercado europeu que o preço do quilate caiu 75%. Dos seis contratantes que detiveram o poder de explorar os diamantes, quatro caíram em desgraça depois que o marquês de Pombal assumiu o comando da Corte em Lisboa. Ao longo de sete décadas (de 1740 a 1810), o Brasil produziu cerca de três milhões de quilates. Mais de dez mil escravos trabalharam nas minas – muitos deles, bem como vários “vadios” capturados na região, foram torturados até a morte sob a acusação (às vezes irreal) de roubo de diamantes.
Apesar da clausura virtualmente medieval imposta às minas, em 1809, o viajante inglês John Mawe – geólogo diletante mas extremamente competente – obteve a raríssima permissão para visitar o Arraial do Tijuco. Fez um relato detalhista e fluente. Assim como o clássico Memórias do Distrito Diamantino, escrito em 1868 pelo historiador Joaquim Felício dos Santos, e a Viagem ao interior do Brasil, de Mawe, permanece como a fonte fundamental para o estudo do reluzente e trágico período em que, no Brasil, os diamantes estiveram longe de ser eternos.
XICA DOS DIAMANTES
De todos os incríveis personagens forjados pela opulência diamantina, talvez nenhum tenha sido mais extraordinário do que a ex-escrava Xica da Silva, também conhecida como “Xica que manda”. Amante do desembargador João Fernandes de Oliveira, sexto contratador de diamantes – homem “rico como um nababo, poderoso como um príncipe e soberano do Tijuco” –, Francisca da Silva era filha de um português com uma africana e fora escrava de José Silva Oliveira (pai do inconfidente José Oliveira Rolim). Assim que foi libertada e se tornou amante de desembargador, Xica da Silva virou a pessoa mais influente do Arraial do Tijuco. O marido mandava na cidade – e ela, pelo menos segundo a lenda, mandava no marido.
Xica da Silva ia à missa coberta de diamantes, acompanhada de doze mulatas esplendidamente trajadas.“O lugar mais distinto do templo era-lhe reservado”, conta Joaquim Felício dos Santos, segundo o qual Xica era “alta, corpulenta, de feições grosseiras e cabeça raspada; não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito”. Mas o historiador não a conheceu pessoalmente: ele nasceu doze anos depois da morte de Xica (ocorrida em 1796). Deve-se a Felício a descrição do “magnífico edifício em forma de castelo, com teatro particular, delicioso jardim de plantas exóticas, cascatas artificiais e um vasto tanque, com um navio em miniatura para oito ou dez pessoas que João Fernandes – logo derrubado por Pombal – mandara construir para satisfazer a amada”.
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