Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

21. República ainda que tardia

Capítulo 21

 

REPÚBLICA AINDA QUE

TARDIA

Não houve um só tiro que pudesse revelar que se tratava de um golpe e não de uma parada militar. Se ecoassem disparos (na verdade, houve dois, mas ninguém os escutou), talvez aqueles seiscentos soldados percebessem que não estavam ali para participar de um desfile, e sim para derrubar um regime. Na verdade, alguns dos militares de alta patente ali presentes sabiam que estavam tomando parte em uma quartelada. Mas, mesmo os que pensavam assim, achavam que quem estava sendo derrubado era o presidente do Conselho de Ministros, visconde de Ouro Preto. Jamais o imperador D. Pedro II – e muito menos a monarquia que ele representava.

Não é de se estranhar a ignorância dos soldados do 1º e do 3º Regimento de Cavalaria e do 9º Batalhão. Afinal, até poucas horas antes, o próprio líder do levante se mostrava indeciso. Mais: estava doente, de cama, e só chegou ao Campo de Santana, na zona central do Rio de Janeiro, quando os canhões dos insurretos já apontavam para o quartel. Talvez ele não tenha dado o “Viva o imperador” que alguns juraram tê-lo ouvido gritar. Mas com certeza impediu que pelo menos um cadete berrasse “Viva a república” – o grito que, supostamente, estava entalado em muitas gargantas.

A cena foi bem estranha. Montado em seu belo cavalo, o marechal Deodoro da Fonseca desfilou longa lista de queixas, pessoais e corporativas, contra o governo – o governo do ministro Ouro Preto, não o do imperador. O imperador – isso o rebelde fazia questão de deixar claro – era seu amigo pessoal: “Devo-lhe favores.” O Exército, porém, fora maltratado. Por isso, derrubava-se o ministério. Difícil imaginar que Deodoro estivesse dando um golpe, ainda mais golpe republicano – afinal, além de legalista, ele sempre fora monarquista. Ao seu lado estava o tenente-coronel Benjamin Constant, militar que odiava andar fardado, não gostava de armas nem de tiros e, até cinco anos antes, também falava mal do regime republicano. Ambos, Deodoro e Constant, contavam agora com o apoio de republicanos civis. Mas não havia sinal de “paisanos” por perto – eles apenas tinham incentivado a aventura golpista dos dois militares (por coincidência ou não, dois militares ressentidos).

O fato é que, naquele confuso alvorecer de 15 de novembro de 1889, o ministro Ouro Preto foi preso e todo o seu gabinete derrubado. Mas ninguém teve coragem de falar em república. Apenas na calada da noite, quando golpistas civis e militares se reuniram, foi que proclamaram – em silêncio e provisoriamente – o advento de uma república federativa. “Provisoriamente” porque se aguardaria o pronunciamento definitivo da nação, livremente expressado pelo sufrágio popular”. Por falar em vontade popular, como estava o “povo” a todas essas?

Bem, o povo assistiu a tudo “bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”, de acordo com o depoimento do deputado Aristides Lobo. Embora Lobo fosse republicano convicto e membro do primeiro ministério do novo governo, sua opinião tem sido contestada por alguns historiadores (que citam as várias revoltas populares ocorridas naquele período como um indicativo do grau de insatisfação com o regime imperial). De qualquer forma, o Segundo Reinado, que começara com um golpe branco, terminava com um golpe esmaecido. A monarquia, no Brasil, não caiu com um estrondo, mas com um suspiro. E o plebiscito para “referendar” a república de fato foi convocado – em 1993, com 104 anos de atraso. Os dias imperiais do Brasil tinham terminado havia mais de um século.

O OCASO DO IMPÉRIO

Oficialmente, a festa era para recepcionar os oficiais do cruzador chileno Cochrane, que estavam no Brasil havia duas semanas. Na verdade, o baile – o primeiro promovido pela família imperial brasileira e o mais pomposo dos que se tivessem realizado – fora organizado para celebrar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde d’Eu. Era 9 de novembro de 1889, e tudo havia sido preparado para tornar a festa inesquecível: milhares de velas iluminavam o palácio da ilha Fiscal, na baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, todo ornamentado com balões e lanternas venezianas. Três mil disputadíssimos convites foram enviados para o “melhor da sociedade” imperial. Cascatas de camarão, champanhe e vinho jorravam aos borbotões. A festança se prolongou até o raiar do dia.

Por uma dessas ironias que parecem construir a história, no instante em que a monarquia, insuflada, fazia ecoar seu canto do cisne numa ilha de fantasia, não longe dali o tenente-coronel e professor de matemática Benjamin Constant presidia uma reunião do Clube Militar. Nela, criticou arduamente o governo imperial e sua “hostilidade” contra os militares. No fim, fez um pedido: “Mais do que nunca preciso que me sejam dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com a honra e a dignidade. Comprometo-me, sob palavra, se não encontrar dentro de oito dias uma solução honrosa para o Exército e a Pátria, resignar aos empregos públicos e quebrar minha espada.”

Constant não precisou de oito dias. Uma semana após a festa e a reunião conspiratória, ele encontraria sua solução honrosa – na forma de um golpe militar.

Várias são as ironias históricas que cercam o baile da ilha Fiscal. D. Pedro II, por exemplo, passou a noite retraído. Era do seu feitio, mas, todos sabiam, o imperador não estava bem de saúde. Quem o substituiria se ele viesse a “faltar”? Embora os chilenos fossem convidados de honra, os reais homenageados eram Isabel e o conde d’Eu. E ninguém – talvez nem mesmo eles – achava que teriam chances de assumir o trono caso o monarca morresse ou renunciasse. Além de “estrangeiro”, d’Eu, nascido na França, era um tipo estranho, vítima de acusações grosseiras e alvo de piadas populares.

Além disso, fora justamente num encontro com os tais oficiais chilenos do Cochrane, ocorrido na Escola Militar, alguns dias antes, que Constant tivera seu primeiro grande espasmo público a favor do republicanismo, ao final do qual, afrontando as autoridades presentes, seus alunos gritavam em coro: “Viva a república… do Chile.” E mais: ao sair da reunião conspiratória do dia 9 de novembro, Constant teve de ir até o cais Pharoux, por exigência de sua esposa, que queria ver a ilha iluminada.

Ele bem que tentou ir até a própria ilha no barco dos convidados – “sem desembarcar”. Mas não o deixaram ver o Império bailando. Duas semanas depois, Benjamin e a família eram os convidados de honra da festa que o governo republicano deu para se despedir dos oficiais chilenos.

Muitos fatores ajudaram na queda do Império, mas pode-se dizer que a monarquia quase caiu por si – como fruta mais do que madura.

A QUESTÃO RELIGIOSA

Um conflito aparentemente banal entre a Igreja Católica e a maçonaria quase acabou se transformando num confronto entre o próprio imperador D. Pedro II e o papa Pio IX. A chamada “Questão Religiosa” se prolongou por três anos, desgastando a imagem imperial aos olhos do povo. Apesar disso, o episódio não parece ter tido maior influência na queda do regime monárquico ocorrida 14 anos depois, já que o povo pouco teve a ver com o golpe que afastou o imperador, e a Igreja quase não exercia influência sobre militares e republicanos. Ainda assim, muitos livros didáticos continuam apontando “o conflito entre o trono e o altar” como uma das causas que levaram à derrocada da monarquia no Brasil.

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TRONO X ALTAR: o confronto entre o império e a Igreja não escapou do deboche dos caricaturistas de plantão. Abaixo, “D. Pedro II dá a mão à palmatória do papa Pio IX”, ilustração publicada no jornal O Mosquito em 1876.

Tudo começou no Rio de Janeiro, em 3 de março de 1872, quando o padre Almeida Martins pronunciou um sermão “em termos tirados da linguagem maçônica” para saudar a aprovação da Lei do Ventre Livre, que beneficiava filhos de escravos nascidos no Brasil. A ideia era homenagear o autor da proposta, visconde do Rio Branco, que, além de presidente do Conselho de Ministros, era grão-mestre da maçonaria.

Porém, o bispo do Rio de Janeiro, Pedro Lacerda, não gostou das ousadias do padre Martins e resolveu suspendê-lo de suas funções. O que deveria ser um mero exercício canônico de autoridade eclesiástica acabou se transformando em questão nacional depois que o bispo Vital de Oliveira, de Olinda, apoiou a atitude do bispo Lacerda e decidiu afastar de sua diocese dois padres que se recusaram a abandonar a maçonaria.

Recém-empossado, jovem e exaltado, o capuchinho Vital impediu também que o monsenhor Pinto de Campos celebrasse o casamento de um maçom. Foi imediatamente apoiado pelo bispo do Pará, D. Antônio Costa, que interditou os templos dirigidos por maçons em sua região. O conflito então se generalizou.

A constituição brasileira de 1824 previa a “união entre o trono e o altar”, e o país herdara de Portugal o regime do padroado, de acordo com o qual o governo indicava os principais sacerdotes e os padres eram pagos pelo Estado. Por outro lado, as bulas papais somente tinham aplicação no Brasil se sancionadas pelo imperador. Quando Pio IX assumiu o Vaticano em 1848, criticando “as liberdades modernas” e reafirmando a preponderância da Igreja sobre o “poder temporal”, a questão tornou-se fonte potencial de conflito. A polêmica explodiu de vez quando, em 1874, o imperador D. Pedro II mandou prender os bispos de Olinda e do Pará, condenando-os a quatro anos de prisão com trabalhos forçados. Embora a pena tenha sido transformada em prisão simples, o papa Pio IX – mesmo que, a princípio, desaprovasse a conduta dos bispos – ergueu-se em defesa deles e a Questão Religiosa adquiriu proporções internacionais. Tudo acabou em setembro de 1875, com um arranjo que favorecia a Igreja: os bispos foram anistiados e o gabinete do visconde de Rio Branco caiu, sendo substituído por um novo ministério chefiado pelo conservador duque de Caxias.

A QUESTÃO MILITAR

Uma série de eventos, ocorridos entre 1883 e 1887, colocou em rota de colisão oficiais do Exército brasileiro e políticos monarquistas, especialmente os ligados ao Partido Conservador. Tais acontecimentos marcaram a afirmação de uma “classe militar”, supostamente unida e coesa, que nos anos seguintes deflagraria o movimento que conduziu à Proclamação da República. As desavenças entre ambos os grupos começaram em razão do crescente ressentimento dos militares (que afirmavam ter “se arriscado pelo país na Guerra do Paraguai”) em relação ao “pavoroso egoísmo, fundamentalmente antipatriótico, da classe política, no momento em que o sangue brasileiro corria em regatos”.

O estopim da chamada “Questão Militar” foi o fato de os militares estarem proibidos por lei de se pronunciar sobre assuntos políticos. O primeiro incidente envolveu o tenente-coronel Antônio de Sena Madureira, punido por ter defendido publicamente o fim da escravatura. Madureira não era um radical, embora anteriormente já houvesse protagonizado outros dois confrontos. Em 1883, ele se manifestara contra a contribuição obrigatória ao montepio dos militares, apresentada como projeto de lei no Senado pelo visconde de Paranaguá. Foi advertido e, a seguir, punido. No ano seguinte, como comandante da Escola de Tiro de Campo Grande, organizou uma recepção festiva para o jangadeiro Francisco do Nascimento, que havia se negado a transportar escravos no Ceará. Foi então transferido para a Escola Preparatória de Rio Pardo – RS, onde passou a defender abertamente o fim da escravatura. Para agravar a situação, apresentou seus pontos de vista em um artigo no jornal republicano A Federação, uma publicação incendiária dirigida pelo republicano radical Júlio de Castilhos.

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O PIVÔ DA CRISE: o coronel Sena Madureira, cujos artigos publicados em jornal deflagraram a chamada “questão militar”.

Ao mesmo tempo, outro acontecimento grave contribuiu para o recrudescimento da hostilidade entre as duas classes. Em agosto de 1885, o coronel Cunha Matos, ligado ao Partido Liberal, apurou irregularidades num quartel do Piauí e pediu o afastamento do comandante corrupto, ligado ao Partido Conservador. Matos foi atacado, na Câmara, pelo deputado Simplício Rezende, amigo e correligionário do comandante punido, que o acusou de covardia na Guerra do Paraguai. Quando se defendeu em artigos de jornal – recurso que era vedado aos militares –, Matos foi preso por dois dias, acirrando ainda mais a questão.

Em 23 de setembro de 1886, Júlio de Castilhos escreveu, em seu próprio jornal, um artigo intitulado “Arbítrio e inépcia”, atacando o Império e transformando a Questão Militar em “questão” política e nacional. O texto de Castilhos apresentava o Exército como a única força que se mantinha “impoluta” em meio a uma “nação em ruínas”. Duas semanas antes, o marechal Deodoro, comandante em armas e presidente em exercício da Província do Rio Grande do Sul, havia decidido que não iria punir Sena Madureira, mas o ministro da Guerra, Alfredo Chaves, que antes mandara prender Cunha Matos, já o havia feito.

Em outubro, os alunos da Escola Militar da Praia Vermelha – conhecida como “tabernáculo da Ciência” e berço da chamada “mocidade militar” – declararam seu apoio a Deodoro (que fora exonerado e transferido para Mato Grosso) e a Sena Madureira (que se demitira do Exército).

Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 26 de janeiro de 1887, Deodoro e Sena Madureira foram recebidos como heróis pelos cadetes. A tensão estava se tornando incontrolável, e D. Pedro II precisou tomar decisões que preservassem a integridade do Império. Em maio do mesmo ano, Chaves caiu, Madureira, Deodoro e Cunha Matos foram perdoados e a Questão Militar supostamente se encerrou. Pela primeira vez na história do Brasil, os militares haviam se afirmado como classe unida, antecipando o papel que teriam dois anos mais tarde.

O REPUBLICANISMO

Embora o papel de golpistas tenha sido confiado aos militares e as fricções com a Igreja tenham ajudado a abalar a imagem pública do Império – sem falar de todo o desgaste político decorrente da tortuosa luta pela abolição –, o fato é que, sem a base social fornecida por um largo setor da burguesia cafeeira de São Paulo, politicamente organizada em torno do Partido Republicano Paulista (PRP), o movimento de novembro de 1889 jamais se concretizaria.

O ideal republicano no Brasil era bem anterior à fundação do PRP. Tanto é que não apenas a Conjuração Mineira como várias revoltas internas do período regencial já sonhavam com a queda da monarquia. Mas a tais movimentos faltara sempre base legalista e econômica – além do apoio das classes conservadoras.

Em 1870, surgira, no Rio, o Partido Republicano – a primeira organização partidária com esse caráter a ter existência legal. Em 3 de dezembro do mesmo ano, foi lançado, também no Rio, o célebre “Manifesto Republicano” de 1870, redigido por Quintino Bocaiuva com 58 signatários. A base social do republicanismo carioca era constituída de profissionais liberais e jornalistas e o partido almejava uma transição pacífica da monarquia para a república, de preferência após a morte do imperador.

De todo modo, o republicanismo brasileiro só iria adquirir a solidez conservadora que as elites pareciam exigir para sacramentá-lo como força política com a fundação do Partido Republicano Paulista. O PRP nasceu em 16 de abril de 1873, durante a convenção de Itu. Formado para representar os interesses da oligarquia rural paulista, de seus 133 convencionais, 78 eram fazendeiros. Como observou o historiador Bóris Fausto, enquanto os republicanos cariocas associavam o regime republicano à maior representação política dos cidadãos, aos direitos individuais e ao fim da escravidão, o PRP estava quase que inteiramente devotado à luta pelo regime federalista. Descentralização, maior autonomia provincial e uma nova política de empréstimos bancários eram palavras de ordem dos republicanos da grande lavoura, latifundiários oriundos do chamado “Oeste Novo” de São Paulo. Na questão abolicionista, o PRP agiu sempre com cautela, só aderindo ao movimento na última hora. Para o partido, mais do que o destino dos escravos, interessava saber como substituí-los.

Em 1884, o PRP detinha apenas um quarto do eleitorado paulista. Aliado aos conservadores, elegeu apenas dois deputados – ambos, Prudente de Morais e Campos Sales, viriam a ser os primeiros presidentes civis da República. Embora nunca tenha havido grandes interesses comuns nem mesmo contato intenso entre os militares e o PRP, foi a burguesia cafeeira paulista que, implicitamente, deu aos militares a convicção de que sua aventura golpista poderia contar com uma sólida base de apoio econômica e social.

BENJAMIN CONSTANT

Em março de 1867, do campo de batalha no Paraguai, Benjamin Constant enviou uma carta para sua mulher. “Espero que toda esta porcaria acabe o mais depressa possível”, lamuriava-se. “Nada mais tenho em vista, mesmo porque não posso, e não devo, ser militar com a numerosa família que tenho, e pelos nenhuns recursos que dá esta desgraçada classe em nosso país.” O desabafo era explícito: Benjamin Constant não só não gostava de guerras como se julgava mal pago.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães só havia entrado para a carreira militar pela mais pura necessidade. Nascido em Niterói – RJ em fins de 1836, era filho de um tenente da Marinha portuguesa que se transferira para o Brasil. Seu pai morreu de tifo em 1849 e a mãe tinha graves problemas mentais. Aos 12 anos, Benjamin tentou o suicídio. O único emprego que lhe ofereceram antes do quartel foi o de servente de pedreiro. Na caserna, Benjamin descobriu suas duas verdadeiras paixões: a matemática e o positivismo, doutrina criada pelo filósofo francês Augusto Comte (leia box na p. 254). Em 1872, Constant entrou para o magistério da Escola Militar da Praia Vermelha e, quatro anos mais tarde, foi um dos fundadores da Sociedade Positivista do Brasil. Mas, numa doutrina marcada pela mais absoluta ortodoxia, logo teve problemas e tratou de romper com o grupo que ajudara a formar – embora, até o fim de seus dias, tenha se mantido um discípulo fiel e devotado de Augusto Comte.

Graças ao desempenho como professor na Escola da Praia Vermelha, Benjamin Constant tornou-se líder da chamada “mocidade militar” – grupo formado por jovens tenentes “científicos”, a maioria deles adeptos da racionalíssima “religião da humanidade” fundada por Comte. Muitos desses alunos eram republicanos, e parece terem sido eles que influenciaram o mestre. Afinal, ainda em 1879, Benjamin falava mal da República. Mas o fato é que, mal pago e desprezado na cátedra, como já o fora no quartel (suas promoções eram frequentemente adiadas), o “doutor” Benjamin tornou-se um militante. A princípio, para defender a “classe” na Questão Militar; a seguir, para atacar o Império (que o maltratara tanto, e aos seus colegas de farda – que ele próprio evitava ao máximo vestir).

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DOUTOR BENJAMIN: professor de matemática e fervoroso positivista, Benjamin Constant foi o principal líder da chamada “mocidade científica” do exército.

O POSITIVISMO

O positivismo é a escola filosófica nascida das ideias do pensador francês Augusto Comte (1798-1857). Em meio a uma série de teorias, baseadas em sua “filosofia da história” e na sua “classificação das ciências”, Comte criou o que ele próprio chamou de “religião da humanidade” – um culto não teísta no qual Deus seria substituído por uma humanidade racional e evoluída, que atingiria esse estágio “mais elevado” tão logo fosse conduzida a ela por “homens mais esclarecidos”. Para Comte (à direita), a melhor forma de governo era a ditadura republicana – um “governo de salvação nacional exercido no interesse do povo”. O ditador comtiano, em tese, deveria ser representativo, mas poderia “afastar-se” do povo em nome do “bem da república”. Não é difícil entender por que os “militares científicos” se apaixonaram pela tese.

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Quando suas “merecidas” promoções enfim vieram, o pacato professor, que antes vivia “constantemente imerso num sonambulismo matemático”, já havia se transformado num ativista. Tanto é que, em maio de 1887, junto com o marechal Manuel Deodoro da Fonseca, fundara o Clube Militar. Então, no dia 23 de outubro de 1889, Constant proferiu um surpreendente discurso de quase uma hora, durante a visita de oficiais chilenos à Escola da Praia Vermelha – foi a senha pública para o golpe que nascia. A “mocidade militar” enfim encontrara seu líder. Agora, só faltava se unir aos militares mais velhos – os chamados “tarimbeiros” – e sair de casa, de madrugada, para derrubar o regime. Foi justamente o que o Dr. Benjamin fez na madrugada de 15 de novembro de 1889.

O PODER DOS QUARTÉIS

Os profundos ressentimentos nutridos por Benjamin Constant e por Deodoro da Fonseca talvez estivessem fundamentados em meros entraves burocráticos, em questiúnculas pessoais ou, quem sabe, numa certa mania de perseguição que, porventura, afetasse os dois oficiais. De qualquer forma, o tratamento dispensado a ambos pelo governo imperial – constantes adiamentos de promoções, baixos soldos, transferências e punições – era um reflexo da situação de penúria que o Exército brasileiro vivia naquela época. Tanto é que mesmo um monarquista convicto como o político e historiador Eduardo Prado se via forçado a reconhecer, às vésperas do golpe, a existência, no Brasil, de “um exército esquecido, mal-organizado, mal-instruído e mal pago”. Prado lamentava o fato de Pedro II estar “divorciado das coisas militares”.

Embora D. Pedro II realmente tivesse horror às armas, a fragilização do Exército se iniciara antes de ele assumir o poder. Até a abdicação de D. Pedro I – precipitada, aliás, pelo primeiro “golpe” da história do país que contou com o envolvimento dos militares –, a participação de oficiais do Exército no governo sempre fora significativa. Mas a presença das tropas em várias das agitações populares do período regencial fizera com que a instituição passasse a ser vista com desconfiança pelo poder central. Tanto é que – temerosos de que “um grande exército” fizesse surgir “pequenos Napoleões”, como já acontecera no México e na Argentina – os liberais da Regência, sob a liderança de Diogo Feijó, reduziram drasticamente os efetivos do Exército e criaram uma Guarda Nacional.

A partir de então, o quadro de oficiais do Exército perdeu suas características de grupo de elite – ao contrário do que se deu na Marinha. A maior parte dos jovens oficiais provinha de famílias tradicionais do interior do Nordeste (então em declínio) ou eram filhos de fazendeiros (também relativamente decadentes) do Rio Grande do Sul. Foi essa a oficialidade mandada à guerra contra o Paraguai. “Em minha vida, só tive um protetor: Solano López. Devo a ele, que provocou a Guerra do Paraguai, a minha carreira”, desabafara Deodoro da Fonseca, em agosto de 1889. O marechal tinha razão: foi depois da guerra contra López que o Exército adquiriu uma identidade institucional e um orgulho “classista” até então desconhecidos. Depois de lutar no Chaco, os militares sentiram-se preparados para os lodaçais da política.

O centro da fermentação golpista foi a Escola Militar da Praia Vermelha – conhecida como o “Tabernáculo da Ciência”, já que lá se estudava mais filosofia e matemática do que estratégia militar. Seus cadetes, a “mocidade militar”, eram chamados de “científicos” e a maior parte deles defendia ideias positivistas e republicanas. Tal grupo nada tinha a ver com a facção representada pelo marechal Deodoro da Fonseca, que, como militar de carreira, era apenas um “tarimbeiro” – termo depreciativo, originário do estrado de madeira (a tarimba) sobre o qual os soldados dormiam nos quartéis, e que os “científicos” usavam para designar os oficiais ligados à tropa, sem estudos superiores. O único elo entre “tarimbeiros” e “científicos” era a ligação entre Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca – por sua vez unidos pelo ressentimento. Foram os “científicos”, com a bênção de Deodoro (que fora cooptado por Benjamin), que encaminharam o golpe de 15 de novembro. Não mais do que uma quinta parte do Exército estava ciente da trama. A absoluta maioria da tropa agiu como o próprio povo: “Ficou estranha ao acontecimento, que tomou como fato consumado.” De todo modo, como avaliou com brilhantismo o historiador Celso Castro, “a história escrita pelos protagonistas de golpe de 1889 deixou inscrita na história política do país a visão de que um grupo ‘esclarecido’ de militares pode ‘salvar’ a Nação, em seu nome”.

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OS MILITARES E A REPÚBLICA: imagem alegórica mostra o Marechal Deodoro e os principais articuladores do golpe militar de novembro de 1889 entregando a bandeira nacional nas mãos da República.

O MARECHAL DEODORO

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Militar por vocação, herança e necessidade, Manuel Deodoro da Fonseca foi oficial de carreira que ascendeu na tropa graças à bravura em combate, à determinação e ao comportamento irrepreensível. Participou da repressão à Revolta Praieira, do cerco a Montevidéu e de uma dezena de batalhas na Guerra do Paraguai. Sua ascensão foi tal que, em 1883, além de comandante das Armas do Rio Grande do Sul, tornou-se também presidente provisório daquela província. E foi então que se envolveu na Questão Militar, alinhou-se a Júlio de Castilhos e desafiou pela primeira vez o regime monárquico.

Embora a Questão Militar em tese tenha acabado bem para todos, Deodoro sentiu-se prejudicado pelo arranjo proposto pelo imperador, já que, apesar de continuar como comandante de Armas de uma província, sua transferência do Rio Grande do Sul para Mato Grosso, em janeiro de 1887, soou-lhe como uma espécie de desterro. Mas dois anos e novos desacertos ainda seriam necessários antes que Deodoro se tornasse de fato um inimigo do Império. Em agosto de 1889, o coronel Cunha Matos, o mesmo da Questão Militar, foi feito presidente de Mato Grosso – o que significava que um coronel iria mandar num marechal. Pouco mais tarde, Gaspar Silveira Martins – que Deodoro odiava – virou presidente do Rio Grande do Sul. Embora tivesse se tornado amigo de Júlio de Castilhos, Assis Brasil, Ramiro Barcelos e de outros republicanos gaúchos, Deodoro não era um deles. Tanto é que, logo após chegar ao Rio, em 13 de setembro de 1889, após abandonar seu cargo no Mato Grosso sem ter dado maiores explicações ao governo, Deodoro escreveu numa carta a um sobrinho: “República no Brasil é coisa impossível porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela.” Faltavam 63 dias para o marechal dar o golpe republicano.

Deodoro estava doente; passou quase todo o mês de outubro na cama. Apesar de amargurado com o governo imperial, ele relutou muito antes de conspirar. Parece ter sido quase um “inocente útil”, atraído à rebelião por Benjamin Constant – para servir de ponte entre a velha-guarda e a “mocidade militar”. Talvez isso explique seu vacilo diante das tropas, no Campo de Santana, quando derrubou o ministro Ouro Preto, mas não ousou proclamar a República. A República de fato só seria proclamada à noite, na casa de Deodoro, com ele na cama, ainda adoentado. Alguém espalhou o boato (infundado) de que D. Pedro II escolhera Gaspar Silveira Martins para ocupar a Presidência do Conselho de Ministros, no lugar do visconde de Ouro Preto. As hesitações de Deodoro então acabaram. Ele chamou Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Aristides Lobo e falou: “Digam ao povo que a República está feita”.

Deodoro se tornaria o primeiro presidente do novo regime, e Benjamin Constant, o ministro da Guerra. O convívio entre ambos não foi pacífico – como não era o dos “tarimbeiros” com os “científicos”. Numa reunião ministerial, em 1890, ambos quase se agrediram e Deodoro chegou a desafiar Constant para um duelo. Mas dali a dois anos ambos estariam mortos, vencidos pela desilusão. Deodoro, que havia pedido demissão do Exército, exigiu ser enterrado em trajes civis.

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O RÍGIDO MARECHAL: ao assumir a Presidência, Deodoro acabou se revelando um político pouco hábil, dono de um temperamento irascível, o que precipitou sua renúncia.