Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

31. A era jk, jango e jânio

Capítulo 31

 

A ERA JK, JÂNIO E JANGO

Foi um tempo em que, para usar a expressão do ensaísta Roberto Schwarz, o país estava “irreconhecivelmente inteligente”. Havia a bossa nova, o cinema novo e a Novacap. A política externa era independente – o que, talvez, quisesse dizer apenas que estava “desvinculada” dos Estados Unidos. Falava-se cada vez mais em “libertação nacional” e ela estava diretamente ligada a slogans ultraotimistas, do tipo “50 anos em 5”, “transformações estruturais” e “reformas de base”. O “nacional-desenvolvimentismo” parecia ser o “caminho do meio” entre nacionalismo e “entreguismo”, entre economia estatizada e liberalismo. O latifúndio recuava, e a reforma agrária se punha em movimento. Árvores caíam, e carros roncavam – e isso era visto como símbolo inequívoco de progresso. Em 41 meses, uma cidade futurista surgira no meio do nada, e o presidente era um sujeito jovial e sorridente, alto e boa-pinta: o presidente bossa-nova.

Após quase duas décadas de democracia, o país se sentia jovem e ousado, esperançoso e otimista. A instabilidade política e a econômica permaneciam as mesmas – mas, pelo menos, naqueles anos de ouro, pararam de fazer “tabelinha”: era uma ou outra; quase nunca as duas ao mesmo tempo. Ainda assim, o ovo da serpente estava em gestação e, em menos de uma década, a nação se confrontaria outra vez mais com seus equívocos e descaminhos, com sua alma dúbia, suas recaídas autoritárias, sua elite irredutível e seu povo despreparado ou omisso, seus temores e seu desleixo. Mas, dos anos JK ao turbulento reinado populista de João Goulart, ao Brasil foi permitido sonhar. A segunda metade dos anos 1950 e a primeira parte da década de 1960 foram muito mais arejadas e auspiciosas do que os 20 anos que vieram antes e os 20 que viriam depois.

Image Ainda assim, a posse de JK, em janeiro de 1956, seria um retrato das atribulações que estavam por vir. Eleito em outubro de 1955, Kubitschek só tomou posse graças a um golpe militar – o único golpe legalista da história brasileira. Com o novo presidente, assumiu o vice, João Goulart, o Jango – cuja atuação como ministro de Vargas fora um dos estopins da crise que acabou desembocando no suicídio de Getúlio. JK conseguiu estabilizar o país politicamente, mas o entregou endividado ao sucessor Jânio Quadros, que tomou posse em janeiro de 1961. Jânio – certa vez definido como “marxista da linha Groucho” – era um político desequilibrado e instável, que governou enviando “bilhetinhos” a seus assessores, regulamentou o tamanho do maiô das misses, proibiu corridas de cavalos “em dias úteis” e renunciou abruptamente em agosto de 1961.

Ocupando outra vez a Vice-Presidência, João Goulart – para horror dos militares e dos conservadores – tomou posse em setembro. Durante três anos e meio, governou um país em turbilhão permanente, rachado entre a miragem utópica e temerária das esquerdas e os receios e rancores hidrófobos da direita de farda e de paletó. O confronto teria um resultado previsível. Os anos de ouro desembocaram nos anos de chumbo, e o Brasil “inteligente” seria soterrado em 20 anos de arbítrio.

LOTT E O GOLPE PREVENTIVO

Em novembro de 1954, Juscelino Kubitschek, então governador de Minas Gerais, lançou sua candidatura à Presidência pelo PSD. Em abril do ano seguinte, o PTB decidiu fazer aliança com o PSD e lançou João Goulart para vice de Juscelino. Formava-se novamente a dobradinha entre os dois partidos nascidos à sombra de Vargas – e cuja união, em 1945, dera ampla vitória a Dutra contra a UDN, que a chamara de “coligação maldita”. Em maio de 1955, depois de muita hesitação, o general Juarez Távora enfim aceitou o convite feito por Jânio Quadros para ser o novo candidato militar da UDN. Nas semanas seguintes, apesar de derrotado pelo próprio Jânio nas eleições para o governo de São Paulo (em outubro de 1954), Ademar de Barros decidiu concorrer pelo PSP. Se Vargas estivesse vivo, Ademar seria o candidato oficial à sucessão, mas agora estava desamparado. O quadro eleitoral se completou com o lançamento da candidatura do integralista Plínio Salgado. Embora os rumores de um golpe militar fossem cada vez mais frequentes, as eleições se realizaram no dia 3 de outubro de 1955.

As urnas deram a vitória a Juscelino por uma margem estreita. JK teve 36% (3.077.411 votos) contra 30% (ou 2.610.462 votos) de Juarez Távora. Ao obter 26% dos votos, Ademar de Barros teve um papel decisivo na eleição. Plínio Salgado não passou dos 8%. Derrotada nas urnas, a UDN – supostamente um partido legalista – começou a propor abertamente a mudança das regras do jogo eleitoral: só poderia assumir o candidato que tivesse recebido a metade dos votos mais um. Era um evidente artifício para impedir a posse de JK.

De acordo com o governador do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti, a UDN não tinha nada contra JK: “Nosso problema é o Jango.” Desde os tempos em que era ministro de Vargas, Jango era visto como “incitador de greves e articulador da república sindicalista”. Em setembro de 1955, o jornalista Carlos Lacerda já tentara envolvê-lo em um episódio de cartas falsas (similar ao que abalara Artur Bernardes, em 1922). Em 1º de novembro de 1955, no enterro do presidente do Clube Militar, o coronel Bizarria Mamede atacou a “mentira democrática” e disse que “a vitória da minoria” estabelecia uma “pseudolegalidade imoral e corrompida”. O general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra do governo Café Filho – um militar legalista que já anunciara que o Exército seria “a espada neutra” no processo sucessório –, pretendia punir Mamede. Como diretor da Escola Superior de Guerra, porém, o coronel Mamede estava submetido diretamente ao presidente.

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ASSIM NA TERRA COMO NO AR: JK desfila em um tanque ao lado do marechal Lott (acima). Na página 376, o “presidente bossa-nova” testa um jato da Aeronáutica brasileira.

Em 5 de novembro, Café Filho teve um ataque cardíaco – ou fingiu que tivera, de acordo com JK. O presidente da Câmara, deputado Carlos Luz, tomou posse provisoriamente – e se recusou a punir o coronel. Em 11 de novembro, depois de se demitir do Ministério, o general Lott colocou as tropas na rua e destituiu Carlos Luz, dando o chamado “golpe preventivo”, não para impedir, mas para garantir a posse de JK. Lacerda ainda tentou articular uma reação, mas o presidente do Senado, Nereu Ramos, assumiu o governo sob estado de sítio. No dia 21 de novembro de 1955, dizendo-se recuperado, Café Filho anunciou-se disposto a retomar a Presidência, mas foi declarado “impedido” pelo Congresso. Em 31 de janeiro de 1956, JK foi, afinal, empossado.

CAFÉ FILHO NO PODER

Embora tivesse sugerido que ambos renunciassem, assim que Getúlio Vargas se matou, o vice-presidente Café Filho (à direita) assumiu a chefia da nação. O impacto provocado pelo suicídio de Vargas impediu que a “República do Galeão” tomasse o poder. A posse de Café Filho foi a solução constitucional. O potiguar João Café Filho (1899-1970) era um político com um passado de esquerda que, como bom fisiologista, ligara-se ao populismo ademarista. Fora o próprio Ademar de Barros quem o indicara para vice de Vargas nas eleições de 1950. Ao ser empossado, Café Filho manteve a posição que adotara durante a crise que levou Vargas ao suicídio: permaneceu na oposição ao governo anterior e montou um Ministério no qual o predomínio da UDN era evidente. Ainda assim, Café Filho se comprometeu a cumprir o calendário eleitoral, mantendo as eleições para a Câmara, Senado e governos estaduais (marcadas para outubro de 1954) e as eleições presidenciais, previstas para outubro de 1955. E cumpriu a promessa. Após a eleição de JK, porém, Café Filho teria participação indireta na tentativa de golpe com a qual a UDN tentou impedir a posse do presidente eleito.

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JK, O PRESIDENTE BOSSA-NOVA

Quando, durante a campanha de 1955, um repórter da revista O Cruzeiro lhe perguntou sobre “o problema do café”, o então candidato à presidência JK replicou: “Qual deles? O vegetal ou o animal?” Dono de um sorriso luminoso, Juscelino Kubitschek de Oliveira era bem-humorado, esguio, boa-pinta, “moderno”. Estava pronto para ser o presidente bossa-nova e comandar um país que voltava a acreditar em si mesmo. Descendente de checos, nascido em Diamantina – MG, em setembro de 1902, JK, apesar da infância pobre, se formou em Medicina em 1927. Foi eleito deputado federal em 1934, prefeito de Belo Horizonte em 1940 e governador de Minas Gerais em 1950. Em 1955, era o nome ideal para encabeçar a dobradinha PSD-PTB – articulada por Osvaldo Aranha e Tancredo Neves no enterro de Vargas.

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Uma vez no poder, JK revelou-se dinâmico, empreendedor, competente e astuto, e seu otimismo contagiou a nação. Apesar de conciliador, JK não fez concessões à UDN: dos 24 ministros civis, dezesseis eram do PSD e seis do PTB. O “partido golpista” não recebeu uma única pasta. Ainda assim, os anos JK seriam marcados pela estabilidade política: a cúpula militar se acalmara; os golpistas tinham perdido duas paradas altas – a tentativa de derrubar Vargas acabou se tornando o suicídio de um “mártir” e a tentativa de impedir a posse de JK esbarrou na “espada neutra” do general Lott. Embora uma pequena rebelião liderada por dois oficiais da Aeronáutica, deflagrada duas semanas após a posse do presidente, em fevereiro de 1956, tivesse ocorrido em Jacareacanga, no Pará, JK teria toda a tranquilidade para governar.

Para executar seu ambicioso Plano de Metas – resumido no slogan “50 anos em 5” e baseado no binômio “energia e transportes” (leia na p. 380) –, JK, disposto a derrotar a burocracia, criou órgãos paralelos e horários alternativos de trabalho. Ao obter recursos que lhe permitissem concretizar seus planos, ele acabou forjando a expressão “nacional-desenvolvimentismo” – uma astuciosa política econômica que combinava a ação do Estado com a empresa privada nacional e o capital estrangeiro. Entre muitas ações que marcaram um surto desenvolvimentista sem precedentes no país, o governo JK se notabilizou pelo grande impulso dado à indústria automobilística. Ainda em 1956, o presidente criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia). Graças à incentivos fiscais, empresas automobilísticas multinacionais, como a Ford e a General Motors (que estavam no Brasil desde 1919 e 1925, respectivamente), passaram a fabricar utilitários, em 1957, e outras montadoras se instalaram na região do ABC – SP.

Devido ao interesse primordial dos Estados Unidos no mercado da Europa, foram justamente empresas europeias as que vieram para o país – entre elas a Volkswagen, alemã, e a Simca, francesa. Em 1959, foi lançado o primeiro Fusca montado no Brasil – e JK orgulhosamente desfilou a bordo do automóvel que se tornaria um dos mais vendidos e amados do país. Também em 59 a Simca lançou a luxuosa linha Chambord, logo transformada em símbolo de requinte e eficiência, que seria associada à era JK. Entre 1957 e 1960, foram produzidos mais de 320 mil veículos, 90% acima do previsto. O Brasil se movia sobre quatro rodas.

O PREÇO DO PROGRESSO

Ao encontrar-se com o engenheiro Bernardo Saião, responsável pela construção da estrada Belém-Brasília, JK lhe disse: “Vamos arrombar esta selva.” Disposto a “integrar” o Brasil e a estimular o consumo de automóveis, JK determinou a abertura de “um cruzeiro de estradas” cortando o Brasil, dos quatro pontos cardeais ao centro de Brasília. De 1955, ano anterior à sua posse, a 1961, foram abertos 13 mil quilômetros de estradas e pavimentados 7 mil. Era uma época em que as florestas, que JK queria “arrombar”, eram tidas como “mato” e representavam um “entrave” ao progresso. O surto desenvolvimentista do governo JK foi acompanhado por uma devastação ecológica sem par na história do Brasil. A assessoria de imprensa do presidente distribuía fotos de JK derrubando árvores centenárias a bordo de tratores, ou caminhando sobre troncos tombados. A expansão da indústria automobilística enfraqueceu os transportes fluvial e ferroviário no Brasil, mas JK era adorado, e o menestrel Juca Chaves compôs uma elegia a ele: “Bossa nova mesmo é ser presidente/ Desta terra descoberta por Cabral/ Para tanto basta ser/ Simpático, risonho, original.” Quanto ao engenheiro Bernardo Saião, em uma trágica ironia, morreu esmagado por uma árvore.

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BRASÍLIA: A NOVA CAPITAL

Era uma cidade longamente profetizada. Já em 1883, ela aparecera, reluzente, nas visões do santo italiano João Bosco. Um século antes, fizera parte dos sonhos libertários dos inconfidentes, fulminados em 1789. Em 1813, o jornalista Hipólito José da Costa, redator do Correio Braziliense, editado em Londres, deu novo alento à ideia de transferir a capital do Brasil para o interior, “junto às cabeceiras do rio São Francisco”. No início de 1822, surgiria, em Lisboa, um livreto, redigido nas cortes, determinando que, “no centro do Brasil, entre as nascentes dos confluentes do Paraguai e do Amazonas fundar-se-á a capital do Brasil, com a denominação de Brasília”. No mesmo ano, após a Independência, José Bonifácio defenderia, na Constituinte, a ideia de erguer a nova capital “na latitude de 15º, em sítio sadio, ameno, fértil e regado por um rio navegável”. Em 1852, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen tornou-se o principal defensor de Brasília e, em 1877, seria o primeiro a viajar ao Planalto Central tentando demarcar o ponto ideal.

Achou-o “no triângulo formado pelas lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas, pelo fato de fluírem para o Amazonas, o São Francisco e o Prata”. Proclamada a República, o artigo 3º da nova Constituição estabeleceu que a capital de fato seria mudada para o Planalto Central. Por isso, em 1892, à frente da recém-formada Comissão Exploradora do Planalto Central, o cientista Luís Cruls demarcou “um quadrilátero de 14.400 quilômetros para nele ser erguida a nova cidade”. Em 1922, o presidente Epitácio Pessoa baixou um decreto determinando que no dia 7 de setembro daquele ano (centenário da Independência) fosse assentada a pedra fundamental da nova capital, na cidade de Planaltina – GO, localizada no “quadrilátero Cruls”, hoje perímetro urbano de Brasília. A ideia de transferir a capital para os longínquos descampados do cerrado seria mantida nas constituições de 1934 e de 1946. Mas só começou de fato a sair do papel no dia 4 de abril de 1955, num comício em Jataí – GO, quando o então candidato à Presidência Juscelino Kubitschek decidiu fazer a mais óbvia das promessas de campanha: jurou que iria “cumprir a Constituição”. Então, como o próprio JK conta no livro Por que construí Brasília, algo de surpreendente aconteceu – e mudou os destinos do Brasil.

De acordo com JK, ao final do comício em Jataí, “uma voz forte se impôs” e o interpelou. “O senhor disse que, se eleito, irá cumprir rigorosamente a Constituição. Desejo saber se pretende pôr em prática a mudança da capital federal para o Planalto Central.” JK olhou para a plateia e identificou o interpelante: era um certo Toquinho. Embora considerasse a pergunta embaraçosa e já tivesse seu Plano de Metas pronto, JK respondeu que construiria a nova capital. A partir daí, Brasília virou a “meta-síntese” de seu governo. Ao assumir a Presidência, apresentou o projeto ao Congresso como fato consumado. Em setembro de 1956, foi aprovada a Lei nº 2.874, que criou a Cia. Urbanizadora da Nova Capital. As obras se iniciaram em fevereiro de 1957, com apenas 3 mil trabalhadores – batizados de “candangos”. Os arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa foram encarregados de projetar a cidade “futurista”.

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A NOVACAP: dos esboços de Niemeyer (página ao lado, abaixo) à realidade concreta no coração árido do Planalto Central, Brasília se materializou como miragem, dando ao país uma sensação de euforia e modernidade.

Nove meses depois, cerca de 12 mil pessoas viviam e trabalhavam em Brasília. Mais de 45 milhões de metros cúbicos de terra vermelha foram deslocados numa terraplanagem monumental. Redigida por San Tiago Dantas, a Lei da Novacap permitia ao governo fazer todas as operações de crédito sem passar pelo Congresso. Houve corrupção e desvios de verbas, é claro, mas, em 41 meses, onde havia apenas deserto e se escutava só “o miado da onça”, erguia-se uma das cidades mais modernas do mundo. O ritmo de construção, “excessivamente rápido”, foi duramente criticado por políticos e empresários. Lançado em 1991, o filme Companheiros velhos de guerra, de Vladimir Carvalho – um pungente documentário sobre a construção da cidade –, revela como, a partir de Brasília, o Brasil se tornaria o campeão mundial de acidentes de trabalho: centenas de operários morreram. Os acidentes eram rapidamente abafados e JK tinha o apoio de intelectuais, estudantes, líderes sindicais e, é evidente, dos grandes empreiteiros. Embora ousado e inovador, o projeto de Brasília prima pela frieza – e um futuro presidente iria declarar que “Niemeyer deveria ser condenado a morar no Palácio da Alvorada”. De qualquer forma, em fins de 1987, Brasília foi tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, sendo o único monumento arquitetônico com menos de cem anos a receber tal honraria.

O PLANO DE METAS: 50 ANOS EM 5

A construção de Brasília tornou-se a “meta-síntese” do ousado Plano de Metas de JK, cujo objetivo estava explícito no slogan “50 anos em 5”. Brasília simbolizava a conclusão e o sucesso de um programa de 31 metas divididas em cinco grupos, que eram o coração do sonho desenvolvimentista de JK. Informe publicado pelo governo divulgava os percentuais do Plano de Metas (tão otimistas que simplesmente ultrapassavam os 100%). O grupo 1, o da Energia, receberia 43,4% dos investimentos e teria cinco metas: energia elétrica, energia nuclear, carvão, petróleo e refinamento de petróleo. O grupo 2 era o dos Transportes, dono de 29,6% dos investimentos. Suas oito metas eram reequipamento e construção de estradas de ferro, construção e pavimentação de estradas de rodagem, portos e barragens, marinha mercante e transportes aéreos. O grupo 3, o dos Alimentos, teria 3,2% e seis metas: trigo, armazéns e silos, frigoríficos, matadouros, mecanização da agricultura e fertilizantes. As Indústrias de Base compunham o grupo 4 e, com 20,4% dos investimentos, tinham doze metas: cimento, aço, alumínio, metais não ferrosos, álcalis, papel e celulose, borracha, exportação de ferro, construção naval, equipamento elétrico, indústria de veículos motorizados e maquinaria pesada. O quinto grupo era o da Educação. Com 4,3% dos investimentos, tinha como meta um programa de alfabetização.

Os resultados do Plano de Metas, nas áreas industrial, de transportes e de energia, foram excepcionais. O sucesso no setor de energia foi tal que, em 1960, o Congresso aprovou a criação do Ministério de Minas e Energia (que voltaria a receber grande impulso durante o regime militar, após o golpe de 1964). No setor da indústria de base, as metas do aço, da indústria automobilística, do cimento e da construção naval alcançaram praticamente 100% dos objetivos propostos. A construção de estradas foi igualmente bem-sucedida.

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MEIO SÉCULO EM MEIA DÉCADA: ainda no Palácio do Catete, JK apresenta à nação seu ousado Plano de Metas. A vertigem desenvolvimentista nunca pareceu tão palpável e plausível.

Apesar de ter fracassado quase por completo nas áreas de educação e agricultura – às quais talvez faltasse o “charme” futurista e a sanha desenvolvimentista –, o enorme sucesso do Plano de Metas provocou, entre 1957 e 1961, o crescimento do PIB em taxas de 7% ao ano. Em termos comparativos, o crescimento do PIB brasileiro durante a década de 1950 foi três vezes maior do que o dos demais países da América Latina. Segundo dados citados pelo historiador Bóris Fausto, o valor da produção industrial no Brasil, entre 1955 e 1961, cresceu 80% descontada a inflação, com porcentagens mais altas registradas nas indústrias do aço (110%), comunicações (380%), mecânicas (125%) e de material de transporte (600%).

Empregados, empregadores, políticos e militares, sindicalistas e estudantes estavam todos satisfeitos com o “nacional-desenvolvimentismo” dos anos JK. Ao combinar habilmente um forte intervencionismo estatal com interesses da indústria privada nacional e o estímulo à entrada do capital estrangeiro, JK livrou o país do aflitivo debate entre “nacionalismo” e “entreguismo”, que tanto agitara os últimos anos do governo Vargas.

Sob muitos aspectos, a política econômica de JK prenunciaria os rumos do surto desenvolvimentista do “Brasil Grande”, forjado, em outro contexto, pelos governos militares pós-64. Como voltaria a acontecer nos anos 1970, o Plano de Metas de JK, embora reluzente e febril, geraria, já a partir de 1958, uma crise econômica (provocada pela dívida externa e por uma “corrida inflacionária”), que seria herdada pelo governo seguinte, de Jânio Quadros.

Como metáfora exata de um país que, a partir de então, mais inchou do que cresceu, Brasília não tem só 700 mil habitantes como queriam seus criadores, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. No alvorecer do século XXI, já havia passado de 2 milhões.

ELEIÇÃO E RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS

Embora acusado de articular “planos continuístas”, JK nunca tentou alterar a Constituição, que o impedia de concorrer à reeleição em 1960. De todo modo, tinha certeza de que venceria o pleito de 1965. Mantendo-se fiel à dobradinha PSD-PTB, o presidente bossa-nova decidiu apoiar o general Lott, candidato da aliança às eleições de outubro de 1960. Mas a inflação e a carestia resultantes do Plano de Metas de JK acabariam sendo responsáveis pelo surgimento de uma das candidaturas mais surpreendentes da política brasileira: em abril de 1959, com o apoio de Lacerda e sob a legenda do minúsculo PTN, o governador de São Paulo, Jânio Quadros, foi feito candidato de uma chapa que, mais tarde, iria compor a bizarra coligação entre UDN, PTN, PDC, PR e PL (mais dissidências do PTB, do PSD e do PSB).

Com um discurso populista e tom moralista, Jânio apresentava-se como “o homem do tostão contra o milhão” que iria “sanear” a nação. Não bastasse o fato de Jânio ter conquistado o apoio maciço da classe média e de setores militares, Lott revelou-se um candidato desastroso, que, além de soar artificial em sua defesa do getulismo, falava mal em público. O terceiro candidato era Ademar de Barros, do PSP, já derrotado por Jânio na eleição ao governo de São Paulo em 1954. Em outubro de 1960, Jânio recebeu uma das mais expressivas votações da história do Brasil: 48% dos votos.

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Em 30 de junho de 1961, a revista Time dedicou sua capa a Jânio (e contratou Portinari para retratá-lo). O texto dizia: “Saindo não se sabe de onde para liderar a maior votação popular da história, Jânio Quadros aparece ao mundo como a própria imagem do Brasil – temperamental, brilhando com independência, ambicioso, assombrado com a pobreza, lutando para aprender, ávido de grandeza”. Já a revista France Soir foi mais irônica e o comparou a “Marx – não Karl, mas Harpo.” Ao mesmo tempo, no Brasil, aliados e inimigos esforçavam-se para definir o “enigma político” que comandava a nação. Para o udenista Mário Martins, cinco personagens históricos pareciam ter influenciado Jânio: Cristo, Shakespeare, Lincoln, Lênin e Chaplin. “O problema é que nunca se sabe quando ele imita esse ou aquele (…) Às vezes procuramos Cristo e damos de cara com Lênin!” Para Lacerda – que durante a campanha dissera que Jânio tinha “cheiro de povo” –, o presidente era “o mais mutável, o mais desequilibrado, o mais pérfido de todos os homens públicos que apareceram no Brasil”. A melhor definição, porém, parece ter sido a de Afonso Arinos. Para o ministro das Relações Exteriores de Jânio, ele era “a UDN de porre”.

Apoiada em quase 6 milhões de votos, a vitória de Jânio só não foi total porque, graças à desvinculação dos votos, João Goulart, que fizera chapa com Lott, elegeu-se vice-presidente. Articulada à revelia de seus dois integrantes, a dobradinha Jan-Jan tinha tudo para dar errado.

Em sua campanha, Jânio usara como símbolo uma vassoura e o jingle “Varre, varre vassourinha/ Varre, varre a bandalheira/ O povo já está cansado/ De viver dessa maneira”. Uma vez no poder, o novo presidente revelou-se tão histriônico quanto se poderia supor. Enviava centenas de “bilhetinhos” (mais de 2 mil em 206 dias de trabalho) a ministros e assessores. Ele também proibiu a propaganda em cinemas, regulamentou os horários e as normas do jogo de cartas em clubes e a participação de crianças em programas de TV e de rádio, entre outras medidas.

Mas Jânio governava sem base política: o PTB e o PSD dominavam o Congresso, Lacerda passara para a oposição, Jânio não consultava a UDN, e o país estava endividado. Em 24 de agosto de 1961, Lacerda fez um discurso no rádio denunciando uma suposta tentativa de golpe articulada por Jânio. No dia seguinte, após quase sete meses no governo, o primeiro presidente a tomar posse em Brasília estarrecia a nação ao anunciar sua renúncia. Embora se referisse a “forças terríveis”, Jânio nunca explicou detalhadamente o episódio. Pouco antes de morrer, em fevereiro de 1992, ele admitiria que a renúncia era apenas um blefe: ele achava que sua saída do poder não seria aceita pela sociedade nem pelos militares – já que ela implicaria a posse do vice, João Goulart. Mas o tiro de Jânio saiu pela culatra e resultou em desastre.

O GOVERNO GOULART

Como se não bastassem as acusações que militares e udenistas lhe faziam havia anos, no momento em que Jânio Quadros renunciou, o então vice-presidente João Goulart estava na China comunista. Embora se tratasse de uma visita oficial, eram tempos de Guerra Fria e Jango sempre fora visto como o “líder da república sindicalista”, um comunista travestido de democrata. O próprio Jânio parecia compartilhar dessa opinião e tentou o blefe da renúncia por achar que nem os militares nem o Congresso entregariam o país “a um louco que iria incendiá-lo”. Porém, não havia ninguém ao lado de Jânio Quadros e sua encenação falhou. Isso estava longe de significar que os ministros, militares e os conservadores estivessem dispostos a deixar o mais destacado político do fim da era Vargas tomar o poder. Mas, além de o Congresso se negar a vetar a posse de Jango, o general Augusto Lopes, chefe do 3º Exército (com sede no Rio Grande do Sul), instigado pelo então governador Leonel Brizola, declarou-se disposto a pegar em armas para garantir o cumprimento da Constituição.

A crise foi contornada com a criação de uma comissão no Congresso que propôs a diminuição dos poderes do novo presidente e a adoção de um regime parlamentarista. Assim sendo, depois de tortuosa viagem de volta, Jango chegou ao Brasil em 31 de agosto de 1961 e, no aniversário da Independência, tomou posse em Brasília. A situação estava parcialmente resolvida. Tancredo Neves foi nomeado primeiro-ministro do novo regime.

Em julho de 1962, Tancredo renunciou e houve nova crise quando Jango quis nomear San Tiago Dantas (favorável ao afastamento dos Estados Unidos e à aliança com nações socialistas). No final, o gaúcho Brochado da Rocha, do PSD, assumiu o cargo. Em janeiro de 1963, um plebiscito deu ampla vitória ao presidencialismo (9 milhões de votos) sobre o parlamentarismo (2 milhões). Só então João Goulart virou presidente de verdade.

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PASSANDO A TROPA EM REVISTA: Desde o início de seu governo, Jango Goulart foi alvo de forte pressão dos militares, que tentaram até impedir sua posse na presidência.

O fato de se tornar presidente com seus plenos poderes restaurados não trouxe tranquilidade para Jango. Ele assumia o comando de um país cada vez mais polarizado, volátil e inquieto. Constantemente fustigado pela esquerda (que queria reformas imediatas) e pela direita (que temia qualquer avanço social), Jango foi pego entre dois fogos. De um lado, Leonel Brizola, Miguel Arraes e Francisco Julião. De outro, Carlos Lacerda e os generais Olímpio Mourão e Costa e Silva. Após quase 20 anos de democracia, a sociedade civil estava dividida, mas organizada: se os trabalhadores tinham o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), os empresários criaram o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), um dos núcleos civis do golpe de 1964. Se os estudantes da esquerda se aglutinavam na UNE (União Nacional dos Estudantes), seus adversários fundaram o hidrófobo MAC (Movimento Anticomunista). Havia as “revolucionárias” Ligas Camponesas, mas havia também o ultraconservador Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Se a esquerda cristã tinha a Ação Popular, as mulheres católicas formaram a UCF (União Cívica Feminina), organizadora da Marcha da Família, em março de 1964. Pelos primeiros, Jango era visto como “frouxo”; pelos outros, como um “incendiário”.

De janeiro a julho de 1963, sob o comando do ministro Celso Furtado, Goulart pôs em prática o Plano Trienal, baseado em “reformas de base”. O Congresso recusou-se a cooperar com o projeto. Greves estouravam pelo país. Jango – que, embora fosse um estancieiro nascido em São Borja, não era o típico caudilho gaúcho – sentiu-se forçado a dar uma guinada à esquerda. Para pressionar o Congresso a aprovar as reformas, decidiu realizar um comício-monstro, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Ao fazê-lo, decretou o começo do fim de seu governo (leia na p. 388).

LEONEL BRIZOLA

No dia 31 de agosto de 1961, João Goulart chegou a Porto Alegre, vindo da China (via Paris-Nova York-Montevidéu). Foi aclamado na “capital da legalidade”. O Rio Grande do Sul, governado por seu cunhado, Leonel Brizola, liderava o movimento favorável à posse do vice-presidente. Desde a renúncia de Jânio, Brizola ocupara militarmente as principais rádios da cidade, organizando a chamada “rede da legalidade”, com mais de cem estações. Apesar de o ministro da Guerra, Odílio Denys, ter determinado que o comandante do 3º Exército enfrentasse Brizola (dando ordens para bombardear o palácio e, se preciso, assassinar o governador), o general Machado Lopes ficou a favor da Constituição.

Graças a essas movimentações, Jango pôde tomar posse no dia 7 de setembro. Brizola – que cercara o palácio Piratini com barricadas e armara a população – foi um dos maiores responsáveis pela solução constitucional e um dos principais adversários da “saída” parlamentarista. Após o retorno do presidencialismo, porém, o mesmo Brizola se tornaria um dos maiores agentes da desestabilização do governo Goulart, por causa de suas pregações exaltadas e medidas “anti-imperialistas”, que incluíram a nacionalização das companhias telefônica e eletricitária do Rio Grande do Sul (ambas norte-americanas). Em 1964, o radicalismo de Brizola teria o efeito inverso do que tivera em 1961.

Filho de pequenos lavradores, Leonel Brizola nasceu no planalto do Rio Grande do Sul em janeiro de 1922. Seu pai, que apoiava as forças federalistas de Assis Brasil, foi tirado de casa e morto pelos republicanos de Borges de Medeiros, na Revolução de 1923. Brizola mudou-se para Porto Alegre em 1936. Em 1939, empregou-se como graxeiro numa refinaria de Gravataí. No ano de 1945, quando conseguiu entrar para a Escola de Engenharia, filiou-se ao PTB. Dois anos depois elegeu-se deputado. Casou-se com Neuza Goulart, irmã de Jango, em 1950, e Getúlio Vargas foi seu padrinho de casamento. Ainda em 1950, Brizola seria um dos principais articuladores da candidatura de Vargas à Presidência. Eleito deputado federal em 1954, virou o maior opositor de Lacerda, após o suicídio de Vargas. Eleito prefeito de Porto Alegre em 1955, derrotando a coligação PSD, PL e UDN, sua administração o qualificou a eleger-se governador do Rio Grande do Sul em 1958. Brizola então construiu mais de 6 mil escolas e contratou 40 mil professores, além de nacionalizar duas grandes empresas norte-americanas – ligadas às multinacionais Bond and Share e ITT –, provocando uma crise entre o Brasil e os Estados Unidos que explodiria na Presidência de Jango. Em outubro de 1962, ao receber quase 300 mil votos, Brizola se tornou o deputado federal mais votado do Brasil. Um ano e meio depois, seria forçado a se exilar no Uruguai.

O ENGENHEIRO LEONEL

Após o golpe militar de 31 de março de 1964 – que, de certa forma, suas próprias pressões sobre o governo Jango tinham ajudado a precipitar –, Brizola se tornou o inimigo público número um do novo regime. Depois que Jango chegou a Porto Alegre, no dia 2 de abril, Brizola ainda tentou organizar a resistência ao golpe. Mas o Exército aderiu ao novo regime e, enquanto Jango partia para o Uruguai, Brizola passou dois meses escondido em fazendas da fronteira, exilando-se no Uruguai até o fim de maio. Durante dois anos, conspirou contra militares, apesar de viver sob vigilância de policiais uruguaios, no balneário de Atlântida. Em setembro de 1977, Brizola foi expulso pelo governo do Uruguai, sob alegação de violar as normas de asilo. Surpreendentemente, mudou-se para Nova York, amparado pela política de direitos humanos do então presidente Jimmy Carter, que retirou o apoio que os Estados Unidos davam às ditaduras militares do Cone Sul. Em janeiro de 1978, Brizola transferiu-se para Lisboa, onde o socialista Mário Soares chegara ao poder depois da queda da ditadura salazarista. De Lisboa, coordenou o ressurgimento do PTB no retorno do Brasil ao pluripartidarismo. Perdeu a sigla para Ivete Vargas e fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Acusado de “divisionista” pela oposição do regime militar, Brizola voltou ao Brasil, em 6 de setembro de 1979, visitando túmulos de Jango e de Vargas em São Borja. Em novembro de 1982, foi eleito governador do Rio de Janeiro pelo PDT, fazendo uma gestão polêmica e contestada. Concorreu à Presidência em 1989, mas não chegou ao segundo turno, disputado por Fernando Collor e Lula. Voltou a concorrer em 1994, mas, desgastado, ficou num constrangedor quinto lugar, com dois milhões de votos. Morreu em junho de 2004, aos 82 anos.