Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

2. O brasil indígena

Capítulo 2

 

O BRASIL INDÍGENA

Quem são, de onde vieram, para onde vão? Cinco séculos depois do primeiro encontro, os indígenas do Brasil permanecem um mistério para o homem branco. Não se pode afirmar com certeza de onde vieram, embora a teoria da migração via estreito de Behring continue sendo a mais provável – mesmo tendo perdido a exclusividade. Quando teriam chegado à América também é assunto ainda polêmico: 12 mil, 38 mil ou 53 mil anos atrás? Ninguém sabe ao certo. Sabe-se apenas que aqui estavam.

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De qualquer modo, sua simples presença já configurava um enigma. Quem seriam aqueles homens “nus, pardos, de bons narizes e bons corpos”, que negros não eram, nem mouros, nem hindus? Descenderiam de qual das dez tribos de Israel? Ou de qual dos três filhos de Noé? Teriam alma? Em caso afirmativo, como poderiam ter vivido tanto tempo “à margem de Deus”?

Cristóvão Colombo, achando que chegara ao Oriente, decidira chamá-los de “índios” – mas índios os portugueses sabiam que não eram. O que seriam então esses “negros da terra”? Bons selvagens, como sugeriu Pero Vaz de Caminha (e os filósofos Montaigne, Rosseau e Diderot ecoaram), ou antropófagos bestiais, como afirmaram outros cronistas? Defini-los de que forma, se alguns eram brutais e intratáveis, como os Aimoré – que comiam carne humana “por mantimento e não por vingança ou pela antiguidade de seus ódios” –, e outros tão mansos e pacíficos, como os Carijó, “o melhor gentio da costa”?

Passados 500 anos de convivência sempre conflituada, os indígenas continuam sendo pouco mais do que um mito brasileiro. Afinal, são pessimistas incuráveis, que se suicidam por puro desespero, como membros dos Guarani-Kayowá, ou empresários bem-sucedidos, como os Kayapó? Podem ser apenas sete, como os Xetá, ou 23 mil, como os Tikuna. Para onde vão? A resposta não depende deles.

A história brasileira não celebra um único herói indígena – nem aqueles que ajudaram os portugueses a conquistar a terra, como o Tupiniquim Tibiriçá, que salvou São Paulo em 1562; o Temiminó Arariboia, que tomou parte na vitória sobre os franceses em 1567; ou o Potiguar Felipe Camarão, que ajudou a derrotar os holandeses em 1649. O “cacique” Kayapó Raoni é um herói – mas não no Brasil. É um herói para alguns europeus cheios de boas intenções e má consciência. Raoni parece ter se tornado uma imagem. Uma imagem tão incongruente quanto a do quadro O Último Tamoio, de Rodolfo Amoedo. Na história real, ao contrário da pintura, nenhum jesuíta jamais chorou a morte do último Tamoio – que eram aliados dos franceses e foram abandonados pelos padres. Haverá alguém para chorar pelo último Ianomâmi?

OS SENHORES DO LITORAL

Dos baixios lamacentos do que é o atual estado do Maranhão às longas extensões arenosas da costa do sul do Brasil, praticamente todo o litoral brasileiro estava ocupado por tribos do grupo Tupi-Guarani quando, em abril de 1500, Pedro Álvares Cabral desembarcou nas praias de areias faiscantes de Porto Seguro. Havia cerca de 500 anos, Tupinambá e Tupiniquim tinham assegurado a posse dessa longa e recortada costa, expulsando, para os rigores do agreste, as tribos “bárbaras”, que eles chamavam de “Tapuí”.

O que os conduzira até lá não fora apenas um impulso nômade: partindo dos vales dos rios Madeira e Xingu (afluentes da margem direita do Amazonas), os Tupi-Guarani deram início, no começo da Era Cristã, a uma ampla migração de fundo religioso, em busca de uma suposta “Terra Sem Males”. Em vez do paraíso, depararam, quinze séculos depois, com estranhos homens barbudos e pálidos, vindos do Leste. A história desse encontro é a história de um genocídio. As seguintes tribos ocupavam as praias brasileiras, de norte a sul:

POTIGUAR: Senhoreavam a costa em dois territórios distintos: desde os arredores da atual cidade de São Luís, no Maranhão, até as margens do rio Parnaíba; e das margens do rio Acaraú, no Ceará, até as proximidades da atual cidade de João Pessoa, na Paraíba. Exímios canoeiros, eram inimigos dos portugueses. Seriam uns 90 mil.

TREMEMBÉ: Grupo não Tupi, que vivia do sul do Maranhão ao norte do Ceará, entre os dois territórios potiguares. Grandes nadadores e mergulhadores, foram, alternadamente, inimigos e aliados dos portugueses. Eram cerca de 20 mil.

TABAJARA: Viviam entre a foz do rio Paraíba e a ilha de Itamaracá. Aliaram-se aos portugueses. Eram aproximadamente 40 mil.

CAETÉ: Os deglutidores do bispo Sardinha viviam desde a ilha de Itamaracá até as margens do rio São Francisco. Depois de comerem o bispo (leia p. 47), foram considerados “inimigos da civilização”. Em 1562, Mem de Sá determinou que fossem “escravizados todos, sem exceção”. Assim se fez. Seriam 75 mil.

TUPINAMBÁ: veja texto no box ao lado.

AIMORÉ: Grupo não Tupi, também chamado de Botocudo, vivia do sul da Bahia ao norte do Espírito Santo. Grandes corredores e guerreiros temíveis, foram os responsáveis pela derrocada das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Só foram vencidos no início do século XX. Eram apenas 30 mil.

TUPINIQUIM: Foram os indígenas que tomaram contato com a expedição de Cabral. Viviam em dois territórios: no sul da Bahia e em São Paulo, entre Santos e Bertioga. Eram 85 mil.

TEMIMINÓ: Ocupavam a ilha do Governador, na baía de Guanabara, e o sul do Espírito Santo. Inimigos dos Tamoio, aliaram-se aos portugueses. Sob a liderança de Arariboia, foram decisivos na conquista do Rio. Eram 8 mil na ilha e 10 mil no Espírito Santo.

GOITACÁ: Ocupavam a foz do rio Paraíba do Sul. Tidos como os nativos mais selvagens e cruéis do Brasil, infligiram temor aos portugueses.

Grandes canibais e intrépidos pescadores de tubarão. Eram cerca de 12 mil e não pertenciam ao grupo Tupi.

TAMOIO: Os verdadeiros senhores da baía de Guanabara, aliados dos franceses e liderados por Cunhambebe e Aimberê, lutaram até o último homem. Eram 70 mil.

CARIJÓ: Seu território ia de Cananeia – SP até a Lagoa dos Patos – RS. Considerados “o melhor gentio da costa”, foram receptivos à catequese. Isso não impediu sua escravização em massa por parte dos colonos de São Vicente. Em 1564, participaram de um grande ataque a São Paulo. Eram cerca de 100 mil.

OS TUPINAMBÁ

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Os Tupinambá constituíam o povo Tupi por excelência – o pai de todos, por assim dizer. As demais tribos Tupi eram, de certa forma, suas descendentes, embora o que de fato as unisse fosse a teia de uma inimizade crônica. Os Tupinambá propriamente ditos ocupavam da margem direita do rio São Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de 100 mil. De todos os povos indígenas litorâneos, é o mais conhecido. A gravura ao lado mostra um dos seis nativos que, em 1612, capuchinhos franceses levaram do Maranhão para Paris; abaixo, um dos guerreiros Tupinambá (“muito belicosos, amigos de novidades e demasiadamente luxuriosos”).

ANTES E DEPOIS: um líder Tupinambá em 1557 (abaixo) e um Tupinambá (acima) levado para a França em 1614 e batizado como Louis Henri.

OS TUPINIQUIM

Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato com cerca de quinhentos nativos. Eram, se saberia depois, Tupiniquim – uma das tribos do grupo Tupi-Guarani que, no início do século XVI, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os Tupi-Guarani tinham chegado à região numa série de migrações de fundo religioso (em busca da “Terra sem Males”), no começo da Era Cristã. Os Tupiniquim viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Bertioga, em São Paulo. Eram cerca de 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra contra os Tupinambá-Tamoio, aliados dos franceses. A aliança durou menos de um século: por volta de 1600, os Tupiniquim já estavam praticamente extintos, escravizados pelos próprios portugueses ou mortos por doenças infecciosas que grassaram em seus aldeamentos.

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De todos os “costumes bárbaros” que professavam os índios brasileiros quando da chegada dos colonizadores ao Novo Mundo, nenhum se revelou mais espantoso ao olhar europeu do que a antropofagia. Ainda que o canibalismo não fosse prerrogativa dos indígenas e já houvesse, em plena Europa, o registro de casos ocorridos em épocas de crise e fome, nada conhecido até então se comparava aos requintes tétricos do chamado “banquete antropofágico” tal como realizado por quase todos os Tupi e alguns grupos Tapuia.

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A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos representavam o ponto culminante de uma cerimônia cujo sacramento maior, e o objetivo quase único, era a vingança. O festim canibal foi minuciosamente descrito por cronistas coloniais, entre os quais o pastor calvinista Jean de Léry, o franciscano André Thevet e o capuchinho Claude Abbeville – os três, franceses. A narrativa mais impressionante, porém, foi feita pelo mercenário alemão Hans Staden, prisioneiro dos Tupinambá entre 1554 e 1557. Graças a eles – e aos estudos realizados nas primeiras décadas do século XX pelo antropólogo francês Alfred Métraux –, é possível reconstituir, passo a passo, as etapas do banquete.

A vítima era capturada no campo de batalha e pertencia àquele que primeiro a houvesse tocado. Triunfalmente conduzido à aldeia do inimigo, o prisioneiro era insultado e maltratado por mulheres e crianças. Tinha de gritar: “Eu, vossa comida, cheguei.” Após essas agressões, porém, era bem tratado, recebia como companheira uma irmã ou filha de seu captor e podia andar livremente – fugir era uma ignomínia impensável. O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia de sua execução – o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos). Quando a data fatídica se aproximava, os guerreiros preparavam ritualmente a clava com a qual a vítima seria abatida. A seguir, começava o ritual que se estendia por quase uma semana e do qual participava toda a tribo, das mulheres aos guerreiros, dos mais velhos aos recém-nascidos.

Na véspera da execução, ao amanhecer, o prisioneiro era banhado e depilado. Depois, deixavam-no “fugir”, apenas para recapturá-lo em seguida. Mais tarde, o corpo da vítima era pintado de preto, untado de mel e recoberto por plumas e cascas de ovos. Ao pôr do sol, iniciava-se uma grande beberagem de cauim – um fermentado, ou “vinho”, de mandioca.

No dia seguinte, pela manhã, o carrasco avançava pelo pátio, dançando e revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: “Não pertences à nação… (tal ou qual), nossa inimiga? Não mataste e devoraste, tu mesmo, nossos parentes?” Altiva, a vítima respondia: “Sim, sou muito valente, matei e devorei muitos…” Replicava, então, o executor: “Agora estás em nosso poder; logo serás morto por mim e devorado por todos.” Para a vítima, aquele era um momento glorioso, já que os indígenas brasileiros consideravam o estômago do inimigo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca da vítima. Velhas recolhiam, numa cuia, o sangue e os miolos: o sangue devia ser bebido ainda quente. A seguir, o cadáver era assado e escaldado, para permitir a raspagem da pele. Introduzia-se um bastão no ânus, para impedir a excreção. Os membros eram esquartejados e, depois de feita uma incisão na barriga do cadáver, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. A seguir, retalhava-se o tronco, pelo dorso. Língua e miolos eram destinados aos jovens. Os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos sexuais. As mães embebiam o bico dos seios em sangue e amamentavam os bebês. As crianças eram encorajadas a besuntar as mãos no sangue vertente e celebrar a consumação da vingança. Os ossos do morto eram preservados; o crânio, fincado numa estaca, ficava exposto em frente à casa do vencedor; os dentes eram usados como colar e as tíbias transformavam-se em flautas e apitos.

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O PRATO PRINCIPAL: a vingança era o objetivo primordial do ritual antropofágico praticado pelos grupos Tupi que habitavam o litoral do Brasil. O costume causou espanto e horror entre colonizadores europeus. Na imagem menor da página à esquerda, efígie do líder tribal Cunhambebe, chefe Tamoio que teria “deglutido” mais de 60 portugueses.

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UM SHOW “BRASILEIRO” NA FRANÇA: a iluminura acima, feita por autor anônimo em 1551, mostra (no canto à esquerda, entre as árvores) a apresentação dos indígenas brasileiros realizada em 1550, em Rouen, na Normandia.

UMA FESTA BRASILEIRA NA FRANÇA

O profundo impacto que os indígenas brasileiros provocaram nos viajantes europeus, ao serem vistos – desnudos, pintados, dançando (e eventualmente devorando uns aos outros) – nas praias do Novo Mundo, seria largamente amplificado assim que alguns deles foram levados para a Europa e exibidos nas cortes. O primeiro teria embarcado já na naveta que Cabral fez retornar a Portugal com a notícia da descoberta – pelo menos de acordo com o relato que o padre Simão de Vasconcelos escreveu em 1658 (mais de 150 anos depois daqueles acontecimentos, portanto): “E foi recebido com alegria do Rei e do Reino. Não se fartavam os grandes e pequenos de ver e ouvir o gesto, a fala, os meneios daquele novo indivíduo da geração humana. Huns o vinhão a ter por um Semicapro, outros por um Fauno, ou por alguns daqueles monstros antiguos, entre poetas celebrados.”

A surpresa não foi exclusividade portuguesa: já em 1504, o francês Paulmier de Goneville levou para a França o filho de um líder Carijó, chamado Essomeriq (supostamente “Içá-Mirim”). Ele seria apenas o primeiro de uma longa série de nativos conduzidos a Paris, Rouen e Dieppe durante as seis décadas que os franceses frequentaram as costas brasileiras, traficando pau-brasil e permanentemente dispostos a estabelecer uma colônia em pleno coração do território português, fosse no Rio, fosse no Maranhão.

Mas nenhuma iniciativa dos franceses envolvendo os nativos do Brasil pode ser comparada, em assombro e magnificência, à chamada “Festa Brasileira em Rouen”. Dispostos a impressionar o rei Henrique II e a rainha Catarina de Médici – e convencê-los a investir mais nas expedições “ilegais” ao Brasil –, os armadores e os comerciantes de Rouen prepararam uma impressionante celebração quando da visita real à cidade, no dia 1º de outubro de 1550. Em uma área, às margens do rio Sena, montaram uma autêntica maquete das terras brasileiras: as árvores foram enfeitadas com flores e frutos trazidos do Brasil, o cenário ficou repleto de micos, saguis e papagaios. Entre as malocas indígenas, desnudos e bronzeados, andavam trezentos homens e mulheres. Pelo menos cinquenta eram Tupinambá genuínos, trazidos da Bahia ou do Maranhão especialmente para a comemoração. Os demais eram marinheiros normandos que conheciam bem o Brasil, fluentes em tupi e habituados no trato com os nativos. As mulheres foram recrutadas entre as prostitutas locais.

Era mais do que uma exibição: era um quadro vivo. E, desde o início, havia ação: indígenas e figurantes caçavam, pescavam, namoravam nas redes, colhiam frutas e carregavam o pau-brasil. E então, subitamente, no clímax do espetáculo, a aldeia Tupinambá foi assaltada por um bando de Tabajara – índios que, no Brasil, eram aliados dos portugueses. Ocas foram incendiadas, canoas viradas, árvores derrubadas. Houve um combate simulado, ainda que feroz, ao fim do qual os Tabajara haviam sido amplamente derrotados. Na plateia, além do rei e da rainha franceses, estavam também a rainha Mary Stuart, da Escócia, duques, condes e barões, os embaixadores da Espanha, da Alemanha, de Portugal e da Inglaterra, bispos, prelados, cardeais e inúmeros príncipes, além de Nicolas Villegaignon, futuro líder da chamada “França Antártica” –, todos assombrados com aquela espetacular representação da vida nos trópicos: o primeiro show brasileiro na Europa.

Durante décadas os indígenas brasileiros continuariam causando sensação na França. Em 1613, três deles tocaram maracas na composição que Gautier, um músico da corte, fez para homenagear os Tupinambá (gravura abaixo). Mais tarde, inspirando um outro tipo de homenagem – desta vez, filosófica.

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AO SOM DAS MARACAS: três Tupinambá do Maranhão, levados para a França em 1613, foram batizados e apresentados à Corte, onde exibiram seus dotes musicais. Durante mais de um século, centenas de nativos do Brasil estiveram na França.

O MITO DO BOM SELVAGEM

O principal legado da atribulada relação entre Brasil e França durante o período colonial não foi político nem econômico: deu-se no campo das ideias. É provável que tenha sido a frequente presença de nativos brasileiros em cidades portuárias francesas, como Dieppe, Rouen e Saint-Malo, a principal responsável pelo surgimento do mito do bom selvagem – tese que, dois séculos depois de seu aparecimento, adquiriria contornos revolucionários e se transformaria num dos motores da Revolução Francesa. Pelo menos essa é a instigante ideia defendida pelo escritor Afonso Arinos de Mello Franco no saboroso ensaio O índio brasileiro e a Revolução Francesa – As origens brasileiras da teoria da bondade natural, publicado em 1937.

Tudo começou com Michel de Montaigne (1533-1592), que não apenas tinha um criado que convivera com os nativos do Brasil, durante a malfadada experiência da França Antártica entre 1556 e 1558, no Rio, como manteve contato pessoal com três Tupinambá, na França, em 1562. A partir desses dois episódios, e da leitura atenta que fez dos livros de André Thevet e Jean de Léry, Montaigne compôs seu clássico ensaio Dos canibais, texto que está na origem do mito do bom selvagem e cujos efeitos seriam duradouros.

Com o fulgor e o radicalismo típicos, Montaigne traçou um painel idílico e vigoroso da vida selvagem, da qual se serve, como num espelho convexo, para atacar os “malefícios da civilização”. Ainda assim, ao final do texto, não se esquece de ironizar os índios que idealizou: “Está tudo muito bem, mas, bom Deus, eles não usam calças!”

Dos canibais teria duradoura influência, tanto entre filósofos do século XVII, como Locke e Espinosa, como, mais especialmente, entre os humanistas do século XVIII. Em O espírito das leis, que redigiu em 1748, Montesquieu louva o amor à liberdade e o igualitarismo entre os índios. No verbete “Selvagens” de sua monumental Enciclopédia, publicada em 1751, Diderot também apresenta uma versão idealizada e altamente elogiosa dos povos indígenas. Nada se compara, porém, ao clamor revolucionário e à paixão incandescente com a qual Jean-Jacques Rousseau escreveu, entre 1753 e 1760, o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e O contrato social.

Ambos os textos foram meditados em seus devaneios de caminhante solitário pela floresta, em Montmorency. Ambos defendem a ideia da bondade natural do homem e de sua corrupção pela civilização. Ambos serviram para estimular os revoltosos de julho de 1789.

Voltaire, uma espécie de versão bizarra de Rousseau, também abordaria o tema. Como lhe convinha, porém, o fez com escárnio e escracho no romance Cândido, de 1759. Além do ataque frontal aos jesuítas, Cândido, o herói “otimista” de Voltaire, viaja, em companhia de sua amante, pelo Paraguai, Brasil e Guianas, deplorando os costumes canibais. Nesse sentido, Voltaire ecoa o ceticismo cínico de Shakespeare, que, dois séculos antes, zombara do idealismo de Montaigne ao criar, na peça A tempestade, o personagem Caliban – selvagem rude e cruel. Ainda assim, foram as ideias defendidas por Montaigne as que prevaleceram. E até hoje são elas que parecem pautar – para o bem e para o mal – a visão dos europeus sobre os nativos americanos.

O FUTURO DOS ÍNDIOS NO BRASIL

Como na história bíblica de Ló – o sobrinho de Abraão que sobreviveu à destruição de Sodoma e Gomorra e teve de praticar o incesto com as duas filhas para evitar o fim da própria tribo –, apenas uma relação incestuosa poderá salvar os índios Avá-Canoeiro da extinção. Outrora temidos e numerosos – eram mais de três mil em 1750 –, os Avá-Canoeiro não são, na aurora do Terceiro Milênio, mais do que dez. Entre essa única e última dezena de sobreviventes, apenas o garoto Trumack (nascido em 1987) e a menina Potdjawa (de 1989) podem ter filhos. Só que Potdjawa e Trumack são irmãos. Como entre muitos outros povos do mundo, entre os Avá-Canoeiro a pena para o incesto é a morte. O dilema dessa tribo é exemplar: haverá para os índios do Brasil futuro que não seja perverso?

Tão desesperador quanto o caso dos Avá-Canoeiro é o dos Xetá, do Paraná, tribo da qual só restam sete membros. Do descobrimento até hoje, mais de mil grupos étnicos já foram extintos no Brasil. Sobram 200 tribos e pouco mais de 300 mil índios. Suas reservas ocupam 850 mil quilômetros quadrados, ou cerca de 10% do território nacional – área sob constante ameaça de invasores e posseiros. Em pleno século XXI, o Brasil ainda trata seus nativos como mero entrave ao avanço da civilização. Qual o caminho da salvação para os habitantes originais de Pindorama, a Terra das Palmeiras?

De todos os dramas vividos pelas tribos brasileiras, o mais rumoroso tem sido o do suicídio coletivo dos Guarani-Kayowá, de Mato Grosso do Sul. Agrupados em reservas improdutivas, submetidos a um regime de trabalho semiescravo e despojados de suas tradições, 236 Kayowá se mataram em menos de uma década. Só em 1995, foram 54 os que cometeram o deduí, o suicídio ritual – ou rito de “apagar o Sol”, como os próprios índios, trágica e poeticamente, o denominam. Com suas reservas ameaçadas também pela usina de Belo Monte, mais membros da tribo ameaçam tirar a própria vida numa sombria cerimônia coletiva.

No Brasil, a Idade da Pedra ainda não acabou.

A POPULAÇÃO NATIVA

Jamais se saberá com certeza, mas quando os portugueses chegaram à Bahia, os índios brasileiros somavam mais de dois milhões – quase três, segundo alguns autores. Mas, no alvorecer do Terceiro Milênio da Era Cristã, não passam de 325.652 – menos do que dois estádios do Maracanã lotados. Foram dizimados por gripes, sarampo e varíola; escravizados aos milhares e exterminados pelo avanço da civilização e pelas guerras intertribais, em geral estimuladas pelos colonizadores europeus. Ainda assim, os povos remanescentes constituem 215 nações e falam 170 línguas diferentes.

De acordo com dados do ano 2000, obtidos junto à Fundação Nacional do Índio (Funai), as tribos mais ameaçadas de extinção são os Xetá, do Paraná (restam apenas sete indivíduos), os Juma, do Amazonas (cinco) e os Avá-Canoeiro (dez, dos quais só seis contatados). As tribos mais numerosas são os Ticuna (23 mil índios), os Xavante e os Kayapó. A idade média dos índios brasileiros é 17,5 anos, porque mais da metade da população tem menos de 15 anos. A expectativa de vida é de 45,6 anos, e a mortalidade infantil é de 150 para cada mil nascidos. Existem pelo menos 30 grupos que jamais mantiveram contato com o homem branco, 41 dos quais sequer se sabe onde vivem – embora seu destino já pareça traçado: a extinção os persegue e ameaça.