Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção

1. Antes do brasil

Capítulo 1

 

ANTES DO BRASIL

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No Brasil, como no restante do Novo Mundo, o que separa a história da préhistória é mais do que um mero prefixo. Existe, entre os dois períodos, um abismo de desconhecimento e incompreensão. Embora o trabalho dos arqueólogos literalmente se aprofunde cada vez mais, restam ainda imensas lacunas a respeito dos habitantes que, em tempos remotos, ocuparam o território que viria a ser o Brasil. O que já se sabe, porém, permite afirmar que a herança “pré-histórica” – ou seja, o legado dos povos que por no mínimo dez milênios aqui viveram – é bem mais sólida e está muito mais presente do que o senso comum em geral supõe.

É preciso não esquecer, afinal, que, por pelo menos cem séculos, esses povos ancestrais – cuja própria origem ainda não pôde ser inteiramente esclarecida – testaram um repertório de alternativas e um leque de possibilidades alimentares, ecológicas e logísticas que os conquistadores europeus, sob risco de colocarem em perigo a própria sobrevivência, não puderam descartar desde o instante em que desembarcaram no então “novo” e desconhecido território, oficialmente em abril de 1500.

Pode-se afirmar que as trilhas e os caminhos pelos quais o país se expandiu, os sítios onde se erguem suas grandes cidades, inúmeros produtos agrícolas que hoje saciam a fome da nação, bem como vários hábitos e costumes nacionais, são fruto direto de um conhecimento milenar – que, embora esteja dessa forma preservado, na essência se perdeu. É preciso ter em mente, portanto, que uma compreensão mais plena do Brasil impõe um mergulho no passado – e que esse passado é muito mais profundo do que apenas os últimos cinco séculos.

O conhecimento da pré-história, bem como de certos condicionalismos geológicos e de determinadas imposições geográficas, apresenta-se, assim, como uma ferramentachave para uma interpretação mais coerente do “processo civilizatório” do país, na medida em que ajuda a dissipar as sombras que obscurecem um dos pilares a partir dos quais portugueses em particular e europeus em geral ergueram a “civilização brasileira”. E embora, por um lado, o legado indígena tenha tornado menos árduo o processo de adaptação desses “povos transplantados” ao Novo Mundo, por outro, ele próprio reforça que, de certo modo, ainda somos, como apontou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, uns “desterrados em nossa própria terra”.

O PALCO GEOLÓGICO

Opalco geológico no qual viria a se desenrolar a história do Brasil é constituído por um extenso mosaico no qual se alternam terrenos de origem antiquíssima – remanescentes da Pangea, o supercontinente ancestral – com amplas bacias sedimentares cuja origem é muito mais recente. Quando a Pangea começou a se partir, há cerca de 180 milhões de anos, a massa terrestre se dividiu em duas grandes porções continentais: a Laurásia (englobando os atuais territórios da América do Norte, da Europa e da Ásia) e a Gondwana (que reunia a América do Sul, a África, a Índia, a Austrália e a Antártida). É curioso perceber que, em tempos históricos, os navegadores portugueses iriam restabelecer, por mar, a conexão que, em eras remotas, unira o Brasil à África e à Índia. Cerca de 36% do território brasileiro (algo em torno de três milhões de quilômetros quadrados) é constituído por maciços antigos que fizeram parte da Gondwana. Eles formam a ossatura rochosa do país. São antiquíssimos escudos (ou planaltos) cristalinos, de base granítica, remanescentes da Era Pré-cambriana. Sua idade varia entre um e três bilhões de anos. O escudo das Guianas, localizado em Roraima, no extremo norte do país, por exemplo, formou-se há cerca de 2,5 bilhões de anos.

Os outros 64% do território brasileiro (cerca de seis milhões de quilômetros quadrados) estão recobertos pelos sedimentos e detritos resultantes da ação erosiva das águas e dos ventos sobre as antigas e suntuosas montanhas graníticas da Gondwana: vento rápido e água mole se chocando sem cessar contra pedra dura, ao longo de dois bilhões de anos. Nessas áreas sedimentares surgiram as chapadas e chapadões tipicamente brasileiros. Boa parte dessas formações está recoberta pela lava resultante dos estupendos derrames basálticos ocorridos no Período Triássico, há cerca de 220 milhões de anos, quando o Brasil foi palco de estrondosas atividades vulcânicas.

Já os terrenos formados durante a Era Cenozoica, iniciada há 66 milhões de anos, são de pequena espessura, mas possuem ampla distribuição horizontal. São áreas que estiveram anteriormente recobertas pelo mar (leia o box abaixo) e se concentraram basicamente na região amazônica e no Pantanal.

Por fim, o mais recente capítulo da história geológica brasileira desenrolou-se há cerca de um milhão de anos, no Período Quaternário, durante o qual se formaram as planícies costeiras, constituídas pelo lento depósito da areia jogada pelo oceano Atlântico sobre a grande massa granítica que forma a plataforma continental brasileira, ao longo de todo o litoral.

O MAR ANCESTRAL

Os mais dramáticos e surpreendentes episódios da história geológica do Brasil – embora permaneçam desconhecidos pela absoluta maioria dos brasileiros – foram as chamadas “transgressões marítimas”, denominação dada aos períodos nos quais o mar “invadiu” boa parte do território que hoje constitui o país. Tais acontecimentos se desenrolaram na escala do tempo geológico, o que os torna extremamente complexos e cambiantes. Mas, em linhas gerais, pode-se resumir a ação “transgressora” do oceano em dois momentos-chave. O primeiro ocorreu no período Siluriano (entre 443 e 417 milhões de anos atrás), muito antes do surgimento da cordilheira dos Andes, quando virtualmente toda a porção oeste da América do Sul era ocupada por um “mar siluriano”, que se expandia por toda a bacia amazônica, através da qual “desaguava” no oceano Atlântico. Maior e ainda mais espantosa é a ação do chamado “mar devoniano”, que, entre 417 e 354 milhões de anos atrás, inundou boa parte do território brasileiro, ocupando as atuais bacias do Paraná e do Maranhão, unidas pela chamada “passagem marinha Araguaia-Tocantins” (um braço marítimo que se localizava ao largo dos vales hoje ocupados por aqueles dois rios). Um terço da superfície do Brasil esteve recoberto pelas águas rasas e fervilhantes de vida desse mar ancestral.

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O LEGADO PRÉ-HISTÓRICO

Continua sendo difícil estabelecer um quadro global e coerente da pré-história brasileira. O desafio tem-se revelado frustrante para os pesquisadores porque, além de compreender um período de tempo que, talvez, seja de cerca de quinhentos séculos (ou 50 mil anos), a área de pesquisa – estendendo-se da Amazônia ao Pampa e do Nordeste ao Pantanal – possui vastidão continental. Como se não bastasse a amplitude do tempo e do espaço – e as enormes modificações climáticas ocorridas na região ao longo de milênios –, pouquíssimas pesquisas foram realizadas no Brasil antes de 1965. E, nessa época, como ainda ocorre hoje, milhares de sítios arqueológicos já haviam sido destruídos.

Não se sabe com certeza desde quando o homem está na América, embora a estimativa e a via de penetração oficialmente aceitas – doze mil anos atrás, através de migrações via estreito de Behring (a ponte de gelo que, em épocas glaciais, unia a Ásia ao Alasca) – estejam sob o ataque constante de novas datações e novas teorias. Há indícios (ainda não inteiramente comprovados) de que os primeiros paleoíndios possam ter chegado ao Brasil há pelo menos 50 mil anos e que talvez tenham vindo por via marítima, descendo ao longo da costa americana do Pacífico. Seja como for, é certo que por volta de 12 mil A.P. (ou Antes do Presente, que, por convenção, significa “antes de 1950”) – como dizem os arqueólogos –, durante a transição entre os períodos Pleistoceno e Holoceno, boa parte do território hoje brasileiro já se encontrava ocupado por grupos de caçadores e coletores pré-históricos.

Tais grupos são divididos pelos arqueólogos em tradições, estabelecidas de acordo com os resquícios de sua cultura material – essencialmente instrumentos de pedra e pinturas rupestres. Grande parte das atuais regiões Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, por exemplo, era ocupada por membros da chamada tradição nordeste, que possuía indústria lítica refinada e fazia belas pinturas rupestres. Ao redor de sete mil anos atrás, esse grupo foi substituído pelas tribos da tradição agreste, que não dominava as artes, exceto a da guerra. No Sul, a tradição mais antiga é a ibicuí, estabelecida na bacia do rio Uruguai há cerca de treze mil anos. Eram caçadores que enfrentavam e se alimentavam de animais da megafauna, como o megatério. Entre 6.500 e 2.000 A.P. surgiu, da região que agora é o Estado de São Paulo para o Sul, a tradição humaitá. A agricultura desenvolveu-se a partir de 3.500 A.P., e a cerâmica, pouco depois. Não é fácil estabelecer um vínculo preciso entre os grupos pré-históricos e as tribos indígenas que seriam encontradas pelos portugueses a partir de abril de 1500. Na verdade, muitos dos primeiros habitantes do Brasil se extinguiram, ou foram massacrados, ou absorvidos por grupos indígenas que chegaram ao território brasileiro muitos séculos depois daqueles pioneiros.

De todo modo, o certo é que, quanto mais se iluminarem as trevas do passado, mais o Brasil conhecerá seu próprio futuro.

O SENHOR DAS OSSADAS

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Foi um encontro fortuito e desconcertante, mas, acima de tudo, revelou-se uma coincidência decisiva. Em outubro de 1834, Peter Lund, naturalista dinamarquês – homem refinado, culto e rico, amigo do filósofo Sören Kierkegaard –, cavalgava pelo mar de morros areentos e chapadões requentados do cerrado de Minas Gerais. No vilarejo de Curvelo, parou para descansar numa taberna imunda à beira da estrada. Lá, acabou deparando-se com o também dinamarquês Peter Claussen, um sujeito em tudo diferente dele: brutal, ganancioso e rústico. Ainda assim, aquele seria um momento fundamental não só para o próprio Lund mas para a história da ciência mundial. Foi Claussen quem conduziu Lund às grutas calcárias repletas de ossadas de animais “antediluvianos” dispersas por todo a vale do rio das Velhas. Aqueles eram os primeiros fósseis encontrados no trópico, e a eles Peter Lund dedicaria o resto de sua vida. Durante meio século, passado nas mais árduas condições, Lund se entregou às páginas de pedra do grande livro que, ao longo dos milênios, a natureza havia inscrito nas reentrâncias encantadas das grutas de Minas Gerais. Penetrou em mais de duzentas cavernas e identificou as ossadas de 115 mamíferos pré-históricos. Em 1843, depois de descobrir fósseis como os do megatério (o “preguiça gigante”) e de visitar inúmeras vezes a soberba gruta de Maquiné, Lund fez a mais espantosa de suas descobertas: os ossos do Homem de Lagoa Santa – os primeiros vestígios de ocupação humana até então encontrados no Novo Mundo. Apesar de nunca mais ter saído de Minas Gerais, Lund – cujo trabalho era financiado pela Sociedade de Ciências de Copenhague – tornou-se famoso na Europa, sendo citado por Charles Darwin (de quem discordava) no clássico A origem das espécies. Lund escreveu mais de 40 livros sobre a fauna e a flora pré-históricas do Brasil, a maior parte deles ainda inédita em português. Morreu em maio de 1880 e está enterrado na sua amada Lagoa Santa.

OS PRIMEIROS BRASILEIROS

Quem foram os primeiros – os autênticos – descobridores do Brasil? Que visão tiveram do território – em que época e a partir de que região? As respostas ainda estão longe de ser conclusivas. Uma coisa, porém, é certa: quanto mais sabem, mais os arqueólogos descobrem quanto ainda falta saber. A complexa e fascinante questão sobre quem foram os “primeiros brasileiros” passa, evidentemente, pela indagação primordial: quem foram os primeiros seres humanos a colonizar o que viria a ser chamado de América? Sabendo-se que jamais existiram, no continente, grandes primatas que pudessem evoluir para a forma humana, arqueólogos e antropólogos cedo partiram da premissa de que os homens haviam chegado ao Novo Mundo vindos de outro (ou outros) continentes. Mas de onde e quando?

A primeira e mais óbvia resposta apontava para uma migração através do estreito de Behring – transformado numa ponte de gelo que, durante os períodos glaciais, unia o extremo leste da atual Sibéria, na Ásia, ao extremo oeste do Alasca, na América. Arqueólogos norte-americanos consideram o período entre 11 mil e 11.500 anos A.P. o mais propício para aquela dificílima travessia. Mas a partir da década de 1980 descobertas realizadas na América do Sul começaram a teoria de acordo com a qual o continente teria sido ocupado somente ao redor do ano 11.500 A.P., após um único fluxo migratório (realizado por populações de origem mongol – portanto, asiáticas).

Mas foi no Brasil que surgiu um dos mais intrigantes achados da pré-história americana. Em 1974, no sítio da Lapa Vermelha – MG, a equipe da arqueóloga Annette Laming-Emperaire encontrou o crânio de uma mulher – mais tarde batizado de “Luzia”. Luzia teria morrido há cerca de onze mil anos. A surpresa do achado não está relacionada, portanto, com sua antiguidade. A questão realmente surpreendente é que, tão logo o Dr. Richard Neave, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, realizou a reconstituição facial do crânio de Luzia, seus traços negroides ficaram evidentes. Graças a tal constatação, os arqueólogos passaram a trabalhar, a partir de 1996, com o chamado “modelo das Quatro Migrações”. De acordo com essa nova hipótese, a América teria sido ocupada a partir de quatro fluxos migratórios. Os três últimos foram, todos eles, empreendidos por populações mongóis (cujo DNA é o mesmo das populações indígenas atuais). Anteriormente aos três fluxos dos mongóis, no entanto, teria havido um ciclo migratório de povos não mongóis, cujos traços eram muito similares aos dos atuais africanos e aborígenes australianos. Esse grupo ancestral – que também povoara a Ásia em tempos remotos – teria sido assimilado, ou substituído, pelas levas mongóis.

O crânio de Luzia (à direita) contempla os estudiosos, materializando a pergunta que não quer calar: quem foram os primeiros habitantes do Novo Mundo? Os mistérios desse primeiro – e autêntico – descobrimento do Brasil permanecem em aberto. O que, aliás, só aumenta seu fascínio.

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