Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
14. O brasil dos viajantes
Capítulo 14
O BRASIL DOS VIAJANTES
Decididos a impedir que a exuberância dos recursos e da natureza brasileira despertassem a cobiça dos demais povos europeus, por três séculos os portugueses mantiveram o Brasil completamente fechado aos olhos estrangeiros. Essa situação só começou a se modificar a partir de 1808, com a chegada da família real ao Rio de Janeiro e a abertura dos portos. A partir daí, um ávido enxame de sábios, cientistas e naturalistas desembarcou no Brasil. E houve um efeito-cascata: cada trabalho publicado na Europa atraía novas levas de estudiosos. Antes disso, porém, Portugal impedira que alguns cientistas de renome estudassem a natureza brasileira. Em 1768, por exemplo, ao realizar sua grande viagem de circum-navegação, o capitão James Cook aportou no Rio de Janeiro – mas os botânicos, os zoólogos e os astrônomos que o acompanhavam foram proibidos de desembarcar. Mais grave ainda foi o fato de as autoridades portuguesas terem impedido a entrada no Brasil, em 1800, do maior de todos os sábios naturalistas, o barão alemão Alexander von Humboldt, que estava na Venezuela. Os prejuízos para o desenvolvimento da ciência no Brasil foram imensos – e irremediáveis.
Embora a “abertura” oficial do Brasil ao olhar estrangeiro tenha se dado em 1808, pouco antes Portugal já baixara a guarda – e evidentemente em favor dos ingleses. É o que explica a entrada no país, em 1802, do viajante Thomas Lindsey. Mais surpreendente ainda foi a permissão que seu compatriota John Mawe obteve para visitar a fechadíssima região das Minas Gerais, em 1807 – e escrever minuciosamente sobre elas. Três outros ingleses logo viriam ao Brasil: John Luccock, em 1808, e Henry Koster, no ano seguinte, ambos autores de relatos notáveis. O terceiro viajante era Richard Francis Burton, príncipe dos exploradores britânicos, tradutor das Mil e uma Noites e do Kama-Sutra, descobridor das nascentes do Nilo e primeiro ocidental a entrar em Meca. Burton foi cônsul britânico em Santos – SP e redigiu dois livros sobre o Brasil, um deles perdido para sempre. Na esteira dos ingleses – e muito influenciados pela obra de Humboldt – chegaram alemães e austríacos, como o príncipe Maximiliano, Langsdorff, Spix e Martius.
Todos trouxeram grandes artistas consigo e, assim, além de publicarem textos notáveis sobre o Brasil, foram responsáveis também pela produção de belas obras de arte.
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OS CIRCUM-NAVEGADORES
Durante os anos de clausura, as autoridades portuguesas só permitiam que ancorassem no Brasil expedições de circum-navegação – e apenas para reequiparem seus navios com a maior brevidade possível. Desde a primeira viagem ao redor do globo, realizada, sob bandeira espanhola, pelo navegador lusitano Fernão de Magalhães, o Rio de Janeiro serviu de ponto de escala. Magalhães partiu da Espanha em 20 de setembro de 1519, com cinco navios e 250 tripulantes, e chegou ao Rio em 13 de dezembro. Sua viagem foi narrada pelo italiano Francesco de Pigafetta, um nobre que conseguiu embarcar na nau Trinidad e que seria um dos únicos dezoito sobreviventes a retornar, três anos depois, ao ponto de partida.
Pigafetta não se surpreendeu apenas com a beleza da baía de Guanabara: também as frutas, como o abacaxi, os animais, como a preguiça, e, em especial, a franqueza sexual das nativas o espantaram. Os primeiros homens a navegar em torno do globo partiram da “Terra do Verzino” (como Pigafetta chamou o Brasil) no dia 27 de dezembro de 1519. Cerca de um ano depois, acharam o estreito que unia o Atlântico ao Pacífico e que foi batizado com o nome de seu descobridor. A descoberta abriu caminho para os corsários ingleses Drake e Cavendish, os circum-navegadores seguintes.
O temível Francis Drake passou ao largo do Brasil antes de atacar o Peru, em 1578. Treze anos depois, a colônia não teria a mesma sorte: no dia de Natal de 1591, Thomas Cavendish atacou Santos, antes de se arriscar pelo estreito de Magalhães. Impedidos de atracar no Rio, os holandeses Olivier van Noort, em 1598, e Joris van Spilbergen, em 1614, usaram Ilhabela, em São Paulo, como porto de reabastecimento antes de cruzar o amedrontador estreito e completar a volta ao mundo.
As viagens ao redor do globo iriam adquirir nova dimensão depois que o capitão James Cook partiu de Plymouth, Inglaterra, em agosto de 1768. Levando consigo botânicos, zoólogos e astrônomos – e financiado pela Royal Society –, Cook estava inaugurando a era das grandes expedições científicas. Embora seu navio tenha obtido permissão para abastecer-se de água no Rio, seus tripulantes não puderam desembarcar. O botânico Joseph Banks – um cientista genial – ficou desolado. Teve de se contentar com uma breve excursão pela ilha Rasa, onde foi capaz de recolher 320 espécies, entre as quais orquídeas e bromélias lindíssimas, logo retratadas pelo artista Sidney Parkinson.
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OS EXPLORADORES: o capitão James Cook, o navegador Fernão de Magalhães, o cientista Charles Darwin e o aventureiro italiano Pigafetta (abaixo, da esquerda para direita) estiveram todos no Brasil.
A BUGANVÍLIA
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Em junho de 1767, o conde Louis Antoine de Bougainville aportou na ilha de Santa Catarina, onde iria passar quinze dias reabastecendo os dois navios com os quais se tornaria o primeiro francês a dar a volta ao mundo. Durante suas incursões às florestas da ilha, o conde – um autêntico iluminista do século XVIII, aristocrata, militar, filósofo e amigo de Diderot – descobriu a belíssima trepadeira que hoje leva seu nome: a Bougainvillea spectabilis, também chamada de primavera ou três-marias. Alguns meses depois, a planta seria coletada no Rio de Janeiro pelo genial botânico Joseph Banks, que acompanhava a expedição de James Cook, e então desenhada (gravura ao lado) por Sidney Parkinson, brilhante artista que o assessorava.
As viagens de Cook abriram caminho e a mente do jovem cientista Charles Darwin, cuja obra estava destinada a mudar os rumos da história natural.
Em 27 de dezembro de 1830, a bordo do Beagle, Darwin partiu da Inglaterra para uma viagem de cinco anos ao redor do globo. Os estudos que realizou da fauna e da flora de diversas partes do mundo lhe permitiram elaborar a inovadora teoria da evolução das espécies.
Embora as ilhas Galápagos tenham tido papel mais importante na elaboração da teoria, Darwin esteve duas vezes no Brasil – em Fernando de Noronha, em Salvador e no Rio –, na ida e na volta da viagem, e impressionou-se profundamente com sua natureza. O primeiro contato com os trópicos se deu em 28 de fevereiro de 1831, quando Darwin desembarcou na Bahia. No dia seguinte, ele anotaria no diário: “O dia passou-se deliciosamente. Mas ‘delícia’ é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. A elegância da relva, a novidade dos parasitas, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens e, acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos para uma contemplação maravilhada. Jamais poderei experimentar tanto prazer.”
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A VIAGEM DO PRÍNCIPE MAXIMILIANO
Oficial hussardo mais afeito às plantas e aos animais do que às armas, o príncipe alemão Maximilian von Wied esteve no Brasil de junho de 1815 a maio de 1817. Embora sua jornada, terrestre e fluvial, do Rio à Bahia, não tenha sido tão duradoura nem tão ampla se comparada às de outros viajantes, a quantidade de informações que o príncipe conseguiu coletar é impressionante. Melhor ainda é que seu livro, Reise nach Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817 (Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817), publicado em 1820, em Frankfurt, em dois volumes, foi escrito em estilo denso e direto, sem as divagações frequentemente encontradas no texto de muitos viajantes.
O príncipe viajou com o botânico Friedrich Sellow e o ornitologista Freyreiss: juntos, os três sábios fizeram a primeira expedição realmente científica ao Brasil, realizada sob a influência do barão Von Humboldt – o maior de todos os naturalistas e que, em junho de 1800, fora impedido de entrar no Brasil. Dedicado, austero e incansável, como era de se esperar de um oficial hussardo, Maximiliano realizou um trabalho exemplar no Brasil.
Maximilian Alexander Philip von Wied-Neuwied era filho, neto, bisneto, tio e irmão de soldados. General de divisão do Exército alemão, ganhou a Cruz de Ferro em campo de batalha e entrou em Paris, depois da derrota de Napoleão, em companhia de Frederico Guilherme III, da Prússia. Tão logo pôde, trocou as batalhas pelas viagens científicas. No Brasil, sob o pseudônimo de Max von Braunsberg, percorreu a mata costeira do litoral do Rio, do Espírito Santo, do norte de Minas e do sul da Bahia. Embora o legado zoológico, botânico e linguístico da expedição de Maximiliano seja grandioso, sua maior contribuição foi etnográfica. Os estudos que o príncipe fez dos Puri, dos Botocudo e dos Pataxó foram pioneiros e inovadores. Maximiliano ligou-se aos Botocudo, que eternizou na aquarela Luta entre Botocudos. O príncipe virou grande amigo do Botocudo Quack e levou-o para a Europa. Morreu em 1867, em Neuwied, aos 85 anos, tão enamorado de borboletas, índios, árvores e plumas, fósseis e crânios como nas primeiras décadas de sua existência movimentada e intensa.
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O PRÍNCIPE E O BOTOCUDO: à direita, Maximiliano de Wied e seu fiel companheiro, o botocudo Quack. Acima, a gravura Luta de Botocudos, feita sob a orientação do príncipe para ilustrar o livro Viagem ao Brasil, que ele publicou em 1820.
A EXPEDIÇÃO DE SPIX E MARTIUS
Quando a arquiduquesa Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo veio de Viena para o Rio, em novembro de 1817, já casada por procuração com D. Pedro I, trouxe consigo um grupo de quinze cientistas. Eram os integrantes da chamada Missão Austríaca. D. Leopoldina ouvira falar que D. Pedro era um amante das ciências naturais e imaginou que ele adoraria a ideia. Embora entre as várias paixões de D. Pedro não se incluíssem rochas, plantas e aves, a Missão Austríaca foi um marco na ciência no Brasil – especialmente porque, entre seus membros, estavam o zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Cari Friedrich Phillip von Martius. A marcha de Spix e Martius pelo interior do Brasil se tornaria não só uma das mais longas já realizadas na colônia como também uma das mais produtivas. Homens de formação humanista, herdeiros intelectuais de Humboldt, dedicados e destemidos, Spix e Martius devotaram os melhores anos de suas vidas ao Brasil. Spix e Martius chegaram ao Rio em 15 de julho de 1817. Depois de quatro meses de deslumbramentos e descobertas numa das mais belas cidades do mundo, partiram para São Paulo no dia 8 de dezembro, dando início à jornada que os levaria a percorrer mais de vinte mil quilômetros ao longo de três anos. De São Paulo, foram para Minas (Mariana, Sabará e Vila Rica, onde realizaram várias pesquisas geológicas), cruzaram o sudoeste da Bahia até Goiás e daí, pelo vale do rio São Francisco, seguiram até Salvador. Depois de uma excursão a Ilhéus, voltaram a Salvador. Então seguiram para Juazeiro, cruzando os sertões de Pernambuco e do Piauí até o Maranhão. De São Luís, seguiram por mar até Belém, de onde subiram o Amazonas até Manaus, onde se separaram: Spix então subiu pelo Solimões até o Peru, enquanto Martius seguia pelo rio Japurá até os Andes. Em março de 1820, os dois se reencontraram em Manaus. Três meses depois, partiram do Rio para a Europa com um dos maiores acervos já reunidos no Brasil. O material botânico, zoológico e etnográfico coletado por Spix e Martius daria trabalho para uma vida inteira. E a ele ambos se dedicaram até o fim de seus dias – sem poder concluí-lo.
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CABEÇAS PENSANTES: Spix e Martius foram dois dos mais geniais cientistas a percorrerem o Brasil. Sua obra foi fartamente ilustrada com imagens como as faces dos indígenas retratadas acima.
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ALDEIA DOS APIACÁS: a belíssima aquarela acima foi pintada por Hercule Florence, um dos artistas que acompanharam a triste marcha de Langsdorff pelo Brasil. O quadro original está em São Petersburgo, na Rússia.
Em 1826, Spix morreu prematuramente, aos 46 anos, participando apenas da redação do primeiro dos três volumes da portentosa Reise in Brasilien (Viagem ao Brasil), concluída por Martius. Embora inacabado, seu estudo sobre a fauna brasileira – em especial os primatas – é exemplar. Nada, porém, que se possa comparar à monumental Flora brasiliensis, à qual Martius se dedicou pelo resto da vida. Durante meio século, de 1821 até sua morte, em 1868, Martius entregou-se de corpo e alma à tarefa de catalogar, classificar e desenhar magníficos exemplares da vegetação brasileira. Concluída em 1906, com o apoio de três monarcas, entre os quais D. Pedro II, Flora brasiliensis tem quinze volumes, 20.773 páginas e 3.811 gravuras, classificando oito mil espécies de plantas.
A FEBRIL JORNADA DE LANGSDORFF
“A imaginação mais rica, mais feliz e perfeita nem de longe pode dar conta dos tesouros desta natureza. Quem quer que anseie por motivos poéticos, que vá ao Brasil, pois ali a natureza responde aos seus pendores. Qualquer pessoa, inclusive a menos sentimental, se deseja descrever as coisas como são, ali se transforma num poeta.” O barão Georg Heinrich von Langsdorff era um apaixonado pelo Brasil e pela sua natureza exuberante. Ao descrevê-la fervorosamente, em diários e cartas, tornou-se um poeta, mas enlouqueceu. A expedição que ele convencera o czar de todas as Rússias, Alexandre I, a financiar, em 1825, estava destinada a ser uma das mais ambiciosas que já percorrera o desconhecido interior do Brasil. Três anos e meio mais tarde, ao retornar ao Rio de Janeiro, de onde partira, com apenas doze dos seus 34 integrantes, ela se tornara a mais trágica de muitas missões científicas a penetrar nas florestas e nos rios brasileiros. Ainda assim, embora o barão nunca mais recuperasse as faculdades mentais, o legado etnológico, botânico e iconográfico da expedição Langsdorff é um dos maiores tesouros científicos do Brasil.
Alemão de nascimento, Langsdorff era cônsul da Rússia no Brasil, onde esteve pela primeira vez em 1803, apaixonando-se pela ilha de Santa Catarina. Voltou ao país em 1820, para fixar residência no Rio, onde adquiriu a Fazenda da Mandioca, que logo se tornou reduto de altas pesquisas agrícolas. Em pleno regime escravocrata, o barão contratou colonos alemães – e os pagava bem. Em setembro de 1825, Langsdorff partiu para sua grande expedição científica pelo interior do Brasil: a aventura custaria 350 mil rublos ao czar e estava fadada ao fracasso. Ao longo de dois anos e 16 mil quilômetros, os 34 homens de Langsdorff – entre os quais os pintores Hercule Florence e Adrien Taunay – percorreram a rota das monções, coletando cem mil amostras de plantas. A marcha foi marcada por doenças, febres, suicídios, paixões e lutas ardentes, delírios e descaminhos. Em abril de 1828, o barão enlouqueceu e, em outubro, doze debilitados expedicionários retornavam ao Rio. Por anos a fio, o esplendoroso legado científico da missão ficaria jogado nos porões do museu de São Petersburgo, na Rússia.
O POBRE BARÃO
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Georg Heinrich von Langsdorff (ao lado) nasceu na Alemanha em 1774. Em 1803, entrou para a Academia de Ciências da Rússia. Desenvolveu projetos de agricultura sustentável em sua fazenda, no Rio. Vitimado por uma febre tropical, ficou louco em 1828, vivendo isolado até a morte em Freiburg, em 1852.
O OLHAR DE RUGENDAS
Amagnitude do trabalho de Johann Moritz Rugendas só encontra paralelo, no Brasil, na obra de Jean-Baptiste Debret. As semelhanças não são apenas históricas, mas estéticas: há grande similaridade estilística e conceitual entre o suntuoso registro visual que Rugendas e Debret legaram ao Brasil. Eles estiveram na colônia na mesma época, conheceram-se e trocaram ideias e desenhos. Rugendas, filho de artistas, nasceu na Alemanha em 20 de março de 1802. Veio para o Brasil com Langsdorff em 1822. Brigou com o barão, desligou-se da expedição e foi substituído por Adrien Taunay e Hercule Florence. Mas Rugendas ficou no Brasil até 1825, quando encontrou Debret. Seu esplêndido livro, lançado em francês e alemão, intitulado Voyage pittoresque dans le Brésil ou Malerisch reise in Brasilien, saiu entre 1827 e 1835. Não era um livro como o dos demais viajantes: o texto (que não foi escrito por Rugendas, mas pelo jornalista V. H. Huber) é mero comentário sobre cem pranchas selecionadas. Os desenhos de Rugendas falam por si: sua visão da natureza do Brasil, seus índios e suas cidades compõem um conjunto orgânico, cosmogênico e transcendente que revela o nascimento de uma nação. Rugendas voltou à América do Sul entre 1831 e 1847, visitando novamente o Brasil. Morreu na Baviera, em maio de 1858.
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Já o francês Hercule Florence chegou ao Brasil em busca de aventura em 1824. Juntou-se à expedição de Langsdorff, já que Rugendas desistira dela. Ao longo dos 13 mil quilômetros de marcha, revelou-se um pintor inspirado e detalhista. Após o retorno da expedição, Florence se fixou em Campinas – SP, e lá, em 1833, virou um dos pioneiros mundiais na invenção da fotografia.
ADRIEN TAUNAY
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De todas as tragédias ocorridas durante a expedição Langsdorff, nenhuma foi mais marcante do que a morte do jovem e talentoso pintor Aimé-Adrien Taunay. Filho do subchefe da missão francesa, Nicolas-Antoine, Adrien chegou ao Brasil com o pai. Em 1818, com apenas 15 anos, embarcou numa longa viagem com Louis Freycinet, visitando a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, onde fez muitos desenhos. Depois de um naufrágio no cabo Horn, voltou ao Rio e foi contratado por Langsdorff. Em agosto de 1827, o barão dividiu seu grupo em dois. Taunay fazia parte da equipe que deveria seguir de Cuiabá ao Amazonas pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira. No dia 5 de janeiro de 1828, o jovem aventureiro, confiando na sua perícia de nadador, jogou-se afoitamente às águas do revolto rio Guaporé. Morreu afogado e foi enterrado em Vila Bela – MT.
O SORRISO DE SAINT-HILAIRE
Para muitos estudiosos da história das expedições científicas ao Brasil, o maior dos viajantes a percorrer o território foi o francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1774-1853). Apesar de a obra científica de Saint-Hilaire ter sido gloriosa, não foram seus estudos sobre a flora brasileira que o transformaram no mais cultuado de todos os viajantes que estiveram no Brasil no século XIX. Observador minucioso, crítico feroz dos costumes, generoso e ferino em uma só frase, iracundo e conformado na seguinte, Saint-Hilaire traçou um retrato tão vívido, tão dinâmico, tão humano do Brasil que, passados mais de um século e meio desde a sua publicação, os nove volumes nos quais ele narra sua ampla jornada pela colônia continuam sendo uma leitura apaixonante – e bastante elucidativa.
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Saint-Hilaire percorreu mais de doze mil quilômetros em lombo de mula, a pé ou em frágeis pirogas indígenas, coletando plantas e observando a inexorável marcha do progresso que transformava florestas em descampados, índios em indigentes e negociantes desonestos em poderosos oligarcas. Como seu conterrâneo Lévi-Strauss concluiria um século mais tarde, Saint-Hilaire percebeu que esses eram tristes trópicos. Em seu único retrato conhecido (acima), Saint-Hilaire exibe um sorriso à Gioconda – misterioso, debochado, gentil e melancólico. Foi com esse espírito que ele nos legou uma das mais ácidas análises da alma da nação.
Saint-Hilaire nasceu em Orléans, na França, em outubro de 1774. Filho da pequena nobreza rural, foi levado para a Alemanha durante a revolução de 1789. Lá, conheceu Aimé Bompland, amigo e íntimo colaborador de Humboldt, um apaixonado pelo Brasil. Convencido por ele, Saint-Hilaire juntou-se à missão francesa que veio ao Brasil com o duque de Luxemburgo, partindo de Brest em abril de 1816. Depois de alguns meses no Rio, Saint-Hilaire iniciou seu périplo pelo Brasil: primeiro percorreu a região de Minas Gerais (descrita nos dois primeiros volumes de seus Voyages dans 1’intéríeur du Brésil). A seguir, penetrou no Distrito Diamantino (terceiro volume), passando logo depois para o Espírito Santo (quarto volume), onde ficou até fins de 1818. Em janeiro de 1819, partiu do Rio rumo a Goiás (quinto volume), retornando para São Paulo pelo caminho dos boiadeiros (sexto volume). Percorreu essa província, mais o Paraná e Santa Catarina (sétimo volume), entrando no Rio Grande do Sul em junho de 1820 (oitavo volume), seguindo pelas Missões até Montevidéu, daí retornando ao Rio e, a seguir, partindo para Paris. Saint-Hilaire levou dez anos para publicar sua obra – e o fez meticulosamente, enquanto preparava a monumental Flora Brasiliae Meridionalis (inédita no Brasil). Em fevereiro de 1821, Saint-Hilaire havia sido envenenado pelo mel da abelha lechiguana. Os sintomas da doença o infernizaram pelo resto da vida, até a morte, em 1853. Os dois últimos volumes de sua viagem só foram publicados postumamente.