Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
24. O reinado do café com leite
Capítulo 24
O REINADO DO CAFÉ COM
LEITE
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Para milhões de brasileiros, o sinal mais evidente de que o país estava entrando no século XX foi a construção, no Rio de Janeiro, da esplêndida avenida Central. O amplo bulevar de dois quilômetros de comprimento e 33 metros de largura, com calçadas de sete metros ladeadas por prédios suntuosos, rasgou o coração da capital federal, marcando sua transformação de cidade malsã em cidade maravilhosa. O termo “rasgou” deve ser tomado literalmente: agindo com poderes que os jornais definiam como “ditatoriais”, a equipe contratada pelo presidente Rodrigues Alves (eleito em março de 1902 e, depois de Prudente de Morais e Campos Sales, o terceiro paulista a ocupar sucessivamente o cargo) derrubou 614 imóveis em menos de um ano. A obra foi terminada no tempo recorde de 18 meses.
Como as outras ações saneadoras e urbanizadoras do governo Rodrigues Alves – entre as quais a remodelação do porto, a construção da avenida Beira-Mar e o combate à febre amarela, à varíola e à peste bubônica –, a empreitada foi altamente polêmica e gerou uma série de protestos. Mas, quando a avenida foi inaugurada, em 15 de novembro de 1905, o povo do Rio de Janeiro – e, por extensão, o do resto do Brasil – percebeu que uma era se iniciava. O bulevar possuía imenso significado metafórico: era uma vitrine da civilização; era o símbolo quase miraculoso da eficiência, saúde e beleza do país; era a materialização da pujança trazida pelo café. Era o fim da letargia tropical. Mais do que uma rua, era uma proclamação.
Embora refinada e fascinante, a nova avenida recendia à nostalgia parisiense. Em suas fachadas típicas do estilo batizado de “ecletismo francês”, em sua volúpia de vidro e ferro fundido, mais lembrava a via principal de uma metrópole europeia deslocada no espaço e no tempo. Mas seus cafés e lojas finas, os almofadinhas que flanavam por suas calçadas e os automóveis que logo começariam a circular por seu leito concederam ao país uma ilusão de progresso, riqueza e modernidade. Ao caos urbano seguiu-se o fausto burguês e o fetichismo consumista. E Rodrigues Alves – ex-monarquista e republicano de última hora – passaria à história como o mais eficiente presidente da República Velha. Era o homem que “civilizara” o país.
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O GOVERNO DE RODRIGUES ALVES
Conselheiro nos tempos do Império, abolicionista convicto, jornalista e chefe de redação do jornal 16 de Junho (que pertencia ao Clube Conservador), juiz de direito, deputado de 1872 a 1879, deputado constituinte após a proclamação da República, ministro da Fazenda dos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Morais, rico cafeicultor, liberal na economia e conservador na política, Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) fora sempre o primeiro em tudo na vida. De acordo com seus aliados, era um homem de “caráter sisudo, inteligência cultivada e ideias sãs”. Em 1900, ele havia assumido a Presidência de São Paulo e lançado um plano de reurbanização da cidade – trocando lampiões de gás por luz elétrica, fazendo rede de esgotos e abrindo largas avenidas. Em 1902, foi eleito o quinto presidente do Brasil, com o apoio das elites de São Paulo e de Minas Gerais.
Porém, uma vez no poder, revelou-se mais um conservador do que propriamente um republicano, dirigindo o país com pulso forte e se colocando acima dos partidos. Para surpresa de seus aliados, Rodrigues Alves agia como um monarquista antioligárquico, ignorando tanto as oligarquias de oposição (do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e do Norte) quanto as situacionistas (de São Paulo e de Minas Gerais), que o tinham alçado ao poder. Seu governo foi marcado pela vigorosa reurbanização do Rio de Janeiro – uma de suas promessas de campanha – e por sua posição radical na eclosão da Revolta da Vacina, em 1904, quando enfrentou os militares rebeldes da Escola da Praia Vermelha e os venceu. Embora cafeicultor (levado ao poder por cafeicultores como ele), Rodrigues Alves se opôs às artimanhas do Convênio de Taubaté – o plano dos fazendeiros paulistas para fazer subir os preços internacionais do café (leia na p. 294). A “traição” tinha explicação: além de apologista do liberalismo econômico – e, portanto, contra a intervenção do Estado na economia, o protecionismo e a quebra do padrão monetário –, o presidente precisava ser fiel ao Banco Rothschild, principal credor do Brasil e sustentáculo de sua política de contenção de emissões, equilíbrio orçamentário e valorização da moeda nacional.
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Desse modo, Rodrigues Alves acabou fazendo um governo criticado “por cima” (pelas elites oligárquicas) e “por baixo” (pelo povo, empobrecido depois da carestia no governo Campos Sales e ainda por cima expulso do centro do Rio pela especulação imobiliária e o aumento dos aluguéis resultantes da reurbanização da cidade). Mas o velho conselheiro se manteve firme até o fim – encarando a Revolta da Vacina (leia na p. 288) e ainda empenhando-se ao máximo para fazer do paulista Bernardino de Campos seu sucessor. Na batalha sucessória, porém, o presidente foi vencido pelas manobras do senador gaúcho Pinheiro Machado, que conseguiu indicar o mineiro Afonso Pena. Findo o mandato, seus ministros publicaram uma nota nos jornais: “A História dirá, apreciando os atos e acontecimentos desse período de governo, se o honrado Sr. Dr. Rodrigues Alves poderia ter cumprido melhor o seu dever.”
O RIO CIVILIZA-SE
No alvorecer do século XX, o Rio de Janeiro continuava uma cidade de ruas sujas e estreitas, vielas tortuosas e epidemias mortíferas – conservava “o cunho desolador dos velhos tempos do rei e dos vice-reis”. Embora tida mundialmente como uma cidade belíssima, era linda apenas vista de um navio. Tanto que muitas linhas de navegação ofereciam “trânsito direto para Buenos Aires, sem passar pelo Brasil e pelos perigosos focos de febre amarela do Rio de Janeiro”. Ironicamente, fora através dos navios que as duas doenças mais graves que assolavam a população haviam chegado à cidade. Um cargueiro norte-americano teria trazido a peste bubônica por volta de 1890. Com os navios dos imigrantes chegara a varíola, a partir de 1850. Era justamente para receber mais imigrantes – braços para o café – que o cafeicultor Rodrigues Alves pretendia remodelar a cidade. “A capital da República não pode continuar a ser apontada como sede de vida difícil, quando tem fartos elementos para constituir o mais notável centro de atração de braços, de atividades e de capitais nesta parte do mundo”, dissera o presidente em seu discurso de posse. Empossado, partiu da teoria para a prática.
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O PREFEITO BOTA-ABAIXO
Ao assumir a Presidência, em novembro de 1902, Rodrigues Alves declarou ao Congresso e à nação que seu objetivo era “atrair mais imigrantes, remodelar o porto do Rio de Janeiro e reurbanizar a cidade”. Para tocar esse projeto – e de forma muito mais ousada do que se poderia supor –, o presidente montou uma equipe altamente capacitada. O time, liderado pelo general catarinense Lauro Müller, ministro de Viação e Obras Públicas, tinha como maior estrela o prefeito de quase 70 anos, Francisco Pereira Passos (à direita, posando para o escultor Rodolfo Bernardelli. Pereira Passos (1836-1913), filho de um barão cafeicultor, havia decidido cursar engenharia em vez de entrar para a faculdade de Direito, como então era a praxe entre os membros da elite. Formado pela Escola Militar, Pereira Passos se mudara para Paris em 1857, presenciando a grande reurbanização feita por Georges Haussmann naquela capital. De volta ao Brasil em 1860, iniciou carreira como engenheiro ferroviário, construindo as principais estradas de ferro do país, algumas delas em associação com o barão de Mauá.
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Com um empréstimo de oito milhões de libras tomado na Inglaterra e com uma equipe afinada com seus objetivos, Rodrigues Alves deflagrou a grande revolução urbana, cujo ponto focal era a construção da avenida Central (hoje, avenida Rio Branco). As obras começaram em 29 de fevereiro de 1904. Em nove meses, 614 imóveis foram postos abaixo “sob o hino jubiloso das picaretas regeneradoras”. Muita gente perdeu suas propriedades – inclusive o fotógrafo Marc Ferrez, cujo ateliê, na rua São José, foi derrubado. Os aluguéis dispararam e o “povaréu prosaico e malindumentado” foi expulso do centro.
O projeto era de tal forma exclusivista que, para instalar-se na nova avenida, os prédios precisavam ter as fachadas e os projetos aprovados por uma comissão, da qual faziam parte Lauro Müller, Paulo de Frontin, Pereira Passos e sete outros notáveis. Os “cartões-postais” da avenida eram o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Palácio Monroe e o prédio do Jornal do Commercio. Além da avenida Central, foi remodelada a rua do Ouvidor e construída a avenida Beira-Mar – graças à qual os cariocas descobriram quão linda era a orla onde sua cidade se erguia. As ruas mais amplas permitiram também que a população vislumbrasse as montanhas, percebendo que a cidade ficava entre dois monumentos naturais: a serra e o mar. O fascínio com o novo esplendor urbano era tanto que no Carnaval de 1904 surgiu a marchinha que dizia: “Sem igual no mundo inteiro/ Cidade Maravilhosa/ Salve o Rio de Janeiro.” Um século depois da missão francesa, o Rio de Janeiro “civilizava-se” – e outra vez pelo modelo francês.
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Mas nem tudo eram elogios. Enquanto as classes mais altas bebericavam café nas mesinhas na calçada da nova avenida, a insatisfação corroía as classes mais baixas. A política anti-inflacionária adotada no governo Campos Sales deixara os pobres mais pobres e os ricos mais ricos. A avenida Central custara mais de quarenta mil contos – e os trabalhadores, como sempre, pagaram a conta. Seria graças a outro braço da política reurbanizadora do governo Rodrigues Alves – o braço sanitarista, operado pelo jovem cientista Osvaldo Cruz – que uma revolta popular eclodiria em 1904, com o nome inusitado de Revolta da Vacina. Por trás dela, além da insatisfação do povo, escondiam-se as frustrações dos jacobinos positivistas, dispostos a instaurar uma ditadura que restaurasse a “pureza” original dos ideais republicanos.
AS PICARETAS DO PROGRESSO
Como prefeito do Rio de Janeiro, de 1903 a 1906, Pereira Passos virou a cidade de cabeça para baixo. Contou com a ajuda de Paulo de Frontin, responsável pela mais notável das reformas – a abertura da avenida Central –, e de Francisco Bicalho, encarregado da modernização do porto (que ganhou 52 novos armazéns). Além de responsável pelo planejamento global das mudanças, Pereira Passos construiu a avenida Beira-Mar, fez ruas e calçadas, pavimentou estradas, abriu o túnel do Leme, iniciou a avenida Atlântica, uniu a cidade aos subúrbios do Flamengo e de Botafogo, embelezou as praças e proibiu a circulação de vacas, porcos e cães vadios pela cidade, a exposição de carne na porta dos açougues, o ato de cuspir no assoalho dos bondes, o descuido com as fachadas e vários outros costumes “bárbaros e incultos”, como o “desfile de blocos de Carnaval sem autorização”. Foi apelidado de “prefeito bota-abaixo”. Seus métodos rígidos e suas “picaretas do progresso” foram instrumentos utilizados para “civilizar”– e “afrancesar” – o Rio de Janeiro.
A REVOLTA DA VACINA
Irrompeu com o nome improvável de “Revolta da Vacina” – ou, mais apropriadamente, “Revolta contra a Vacina”. O estopim da virulenta insurreição popular que eclodiu no Rio de Janeiro em novembro de 1904 foi, de fato, a recusa de boa parte da população da cidade – em especial as classes baixa e média – em aceitar o cumprimento da lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola. Aprovada pelo Congresso em 31 de outubro, a lei era uma vitória pessoal do jovem médico Oswaldo Cruz – sanitarista que, poucos anos antes, retornara da Europa disposto a erradicar uma série de epidemias que assolavam duas das maiores cidades portuárias do Brasil: Santos e Rio de Janeiro. Desconhecida no Brasil, a vacina contra a varíola – já testada com êxito em vários países da Europa – era encarada com desconfiança pelos brasileiros em geral e pelos cariocas em particular. Por isso, tão logo as chamadas Brigadas Sanitárias passaram a entrar em todas as casas da cidade, acompanhadas da polícia, para vacinar os moradores à força, os adversários da medida começaram a chamá-las de “violadoras de lares” e “túmulos da liberdade”.
A eclosão da revolta era mera questão de tempo. E não foi preciso esperar muito: quando, num comício contra a vacina, realizado no centro do Rio de Janeiro, no dia 10 de novembro, um orador foi preso em pleno palanque, a multidão partiu para o confronto. Imóveis derrubados pelo prefeito Pereira Passos forneciam grande quantidade de pedras. Com elas, o povaréu passou a alvejar os policiais. A revolta espalhou-se como um rastilho de pólvora: ao longo de quatro dias, os revoltosos dominaram o centro da cidade, tombando e incendiando bondes, depredando e saqueando estabelecimentos comerciais, destruindo os novos postes de luz estilo art noveau.
A ÁRDUA MISSÃO DE OSWALDO CRUZ
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“Quem é, afinal, esse Oswaldo Cruz?”, quis saber Rodrigues Alves. Pai que chorava a morte de um filho pela febre amarela, o presidente estava decidido a sanear o Rio de Janeiro. Por isso, mandara chamar, no Instituto Pasteur, em Paris, o célebre sanitarista Émile Roux. Mas o diretor do instituto preferiu indicar um “brilhante discípulo seu”: o jovem Oswaldo Cruz. Com menos de 30 anos, Cruz aceitaria a missão de combater a febre que assolava a cidade no verão (causando cerca de mil mortes por ano); a varíola, que atacava no inverno (4 mil óbitos anuais), e a peste bubônica. “Se eu não exterminar a febre amarela em três anos, pode me fuzilar”, disse ao presidente. Cruz ganhou “liberdade de ação” e, em 3 de março de 1903, começou a trabalhar, “com métodos ditatoriais”. Primeiro, combateu a peste: criou um esquadrão que caçava ratos pela cidade, pagando 300 réis por roedor morto. Depois, convencido de que a febre era transmitida por mosquitos, decretou a luta contra o inseto. Criou a “polícia de focos”, que interditava mocambos e pulverizava casas e quintais. Batizado “czar dos mosquitos”, o “Dr. Cruz” virou o alvo favorito da imprensa caricata.
Embora o número de óbitos despencasse, o que era brincadeira virou caso de polícia quando o Congresso aprovou a lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola. A “impudente tirania” foi contestada até por Rui Barbosa, o maior intelectual do país, que se recusou a ter seu “sangue envenenado por um vírus”. O tenente-coronel Lauro Sodré, num ataque virulento, diria que a lei era “um ato de força ao qual se poderia opor a própria força”. Mas ele não estava exatamente pensando em vírus, ratos ou mosquitos.
O que poderia estar por trás de uma revolta com tais proporções?
No dia 14 de novembro, uma das principais – e talvez a mais reveladora – das várias faces da rebelião começou a se desvendar: a Escola Militar da Praia Vermelha decidiu “unir-se” ao povo e aderir ao levante. Ficou evidente que a “vacina” era apenas um pretexto para a eclosão de um movimento político-social.
A carestia, a inflação, o achatamento salarial, o aumento abusivo dos aluguéis, o projeto excludente e elitista de remodelação do centro do Rio – tudo havia provocado um genuíno clamor de indignação entre as classes média e baixa.
Para os cadetes positivistas da Escola Militar da Praia Vermelha não se tratava apenas de uma traição aos ideais do golpe republicano de 1889: tratava-se também da ocasião providencial para tentar derrubar os cafeicultores paulistas que haviam assumido o controle da nação a partir de 1894. De fato, desde o afastamento dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, o Brasil era presidido por civis diretamente ligados ao café e a São Paulo (Prudente de Morais, Campos Sales e o então presidente Rodrigues Alves). Os militares achavam que já era mais do que hora de reinstaurar uma ditadura republicana: ou seja, um “governo de salvação nacional exercido no interesse do povo”. O homem providencial, naquele caso, era o tenente-coronel Lauro Sodré – que seria “proclamado ditador” tão logo o levante vingasse.
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O MUNDO DE PERNAS PARA O AR: Cartão-postal traz a imagem de um dos coletivos virados pelos rebeldes durante a eclosão da virulenta Revolta da Vacina, que contagiou boa parte das camadas populares do Rio de Janeiro
Contando com o auxílio dos chamados “jacobinos” e tendo a certeza de que obteriam o apoio do restante da população, os cadetes da Escola Militar, liderados pelo general Travassos, saíram às ruas dispostos a tomar o Catete. Mas o governo reagiu com rapidez e dureza. Após declarar que “só morto” sairia do palácio, Rodrigues Alves conseguiu arregimentar tropas leais ao governo, decretando a repressão à revolta. Após um terrível tiroteio, travado ao longo de quase toda a noite do dia 15 de novembro (não por acaso, aniversário – o décimo quinto – da proclamação da República), o general Travassos e cerca de 200 cadetes estavam mortos, o tenente-coronel Lauro Sodré fora ferido e preso e a rebelião havia sido sufocada.
No dia seguinte, Rodrigues Alves solicitou, e o Congresso aprovou, a decretação do estado de sítio, válida por um mês. Aproveitando-se das prerrogativas do regime de exceção, a polícia e as tropas leais ao governo invadiram cortiços e favelas, prendendo não apenas quem participara do motim, mas desempregados e desvalidos em geral. Centenas deles foram enfiados em porões de navios e despachados para o longínquo Acre (território que o Brasil acabara de conquistar da Bolívia). A vacinação – suspensa no dia 11 – foi então reiniciada em larga escala. Dali a poucos meses, a varíola estava erradicada do Rio de Janeiro.
Bombardeada durante o levante, a Escola Militar da Praia Vermelha foi fechada e desativada naquele mesmo mês de novembro de 1904. Três anos mais tarde, o enorme prédio de dois andares seria demolido para dar lugar aos estandes da fulgurante Exposição Nacional de 1908 – planejada para revelar ao mundo como o Rio de Janeiro fora saneado e remodelado. A ditadura positivista teria que esperar até 1930.
O MATA-MOSQUITOS
Não foi Oswaldo Cruz quem descobriu que a peste bubônica era provocada pela pulga dos ratos nem que a febre amarela era transmitida por um mosquito. Mas ele sabia que as novas descobertas científicas estavam corretas – especialmente a do médico cubano Carlos Finlay, que identificara, em 1881, o mosquito rajado Stegomya fasciatta (hoje Aedes aegypti) como o transmissor da febre. Cruz era fascinado por um novo ramo da medicina, a microbiologia, e, desde os tempos de estudante, ganhara destaque com a publicação de teses e trabalhos inovadores. Em 1899, ele retornara ao Brasil depois de estudar no Instituto Pasteur, em Paris. Ele então combateu – e venceu – uma epidemia de peste bubônica no porto de Santos. Em 1902, assumiu a direção-geral do Instituto de Manguinhos (hoje, Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro) e logo deu inicio à total remodelação da instituição, por dentro e por fora. Por fora, Oswaldo Cruz mandou construir um palácio em estilo mourisco. A obra, feita com verbas da Saúde Pública, causou viva polêmica. Por dentro, contratou uma equipe de sanitaristas, jovens e brilhantes como ele. Dela faziam parte o dr. Carneiro de Mendonça, que viria a ser o chefe da “brigada mata-mosquitos” (apelidado pela imprensa de “mosquiteiromor” e “fanático estegomicida”); Carlos Chagas, descobridor da moléstia que hoje se chama de doença de Chagas, pelo inseto “barbeiro”, portador do protozoário Trypanossoma cruzi e Adolfo Lutz, bacteriologista em malária, disenteria e febre tifoide. Foram esses homens, trabalhadores incansáveis, que sanearam o Rio de Janeiro, enfrentando as críticas e chacotas. O Brasil, que passara a contar, em São Paulo, com uma cidade fabril, deixaria, graças à equipe do dr. Cruz, de ter, no Rio, uma cidade febril.
O GOVERNO AFONSO PENA
Depois de três paulistas terem ocupado sucessivamente a Presidência da República, o mineiro Afonso Pena (que fora o vice de Rodrigues Alves) assumiu o cargo, em 15 de novembro de 1906, para dar continuidade à política do café com leite. Apesar de vir da terra do leite, Pena foi um presidente “cafeeiro”. Na verdade, só obteve a vitória contra o candidato paulista Bernardino de Campos porque deixou claro que seria a favor da “política da valorização do café” – estabelecida em fevereiro de 1906 pelo Convênio de Taubaté (leia mais na p. 294). Menos ortodoxo em matéria fiscal e financeira do que Rodrigues Alves, Pena bancou um empréstimo de 15 milhões de libras para custear a intervenção do Estado no mercado do café. Incentivou a “internacionalização” do mercado cafeeiro e estabeleceu a política de desvalorização da moeda nacional.
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Entre 1906 e 1910, especuladores internacionais retiveram 8,5 milhões de sacas de café para forçar o aumento do preço do produto. O esquema beneficiou os atravessadores, mas vários produtores ficaram arruinados e a dívida externa brasileira aumentou muito. O café não era a única preocupação de Afonso Pena: ele promoveu a criação de parques industriais (embora não fosse industrialista), incentivou a construção de linhas férreas, modernizou os portos do Recife, de Vitória e do Rio Grande do Sul. Promoveu a conquista do Oeste, a cargo de Rondon, e organizou a Exposição Nacional de 1908, para mostrar que o Rio se civilizara.
“Política faço eu”, declarou Afonso Pena pouco depois de assumir o cargo. A frase era uma resposta ao apelido que seu ministério – formado por jovens com pouca experiência em cargos públicos – recebera da imprensa: “Jardim da Infância.” O objetivo de Pena era desvincular o governo das pressões articuladas pelas oligarquias estaduais e fortalecer o poder central. A exceção no ministério de Pena era o ministro da Guerra, Hermes da Fonseca, de 41 anos, modernizador do Exército. Seria justamente ele que desestabilizaria o processo sucessório.
Para sua sucessão na Presidência, Pena pretendia indicar o presidente de Minas Gerais, João Pinheiro, que morreu. O presidente optou então por seu ministro da Fazenda, Davi Campista. Mas, diz a lenda, o marechal Hermes entrou no Catete e, “de modo rude”, anunciou que pretendia concorrer à Presidência da República – enfatizando a proposta com um golpe de espada na mesa.
Inconformado com o perfil militarista de Hermes, o eterno candidato ao “trono” presidencial, Rui Barbosa, lançou o próprio nome. Já doente, Afonso Pena não resistiu a três golpes consecutivos: a briga com o ministro da Guerra, as críticas violentas de ex-aliados, como o oligarca mineiro Bias Fortes, por sua interferência no processo sucessório, e, por fim, a morte do filho mais velho. Solitário e isolado – e desafiado também por Rui Barbosa –, morreu em junho de 1909, um ano e meio antes do término de seu mandato.
O VICE EM EXERCÍCIO
Embora o panorama político estivesse tumultuado pela luta sucessória e faltassem ainda 17 meses para o fim do mandato de Afonso Pena, o vice-presidente Nilo Peçanha (à direita) assumiu a Presidência dentro da normalidade constitucional. Apesar de terem sido as pretensões presidencialistas e centralizadoras de Pena que abriram as primeiras fissuras na política do café com leite, os maiores estragos no esquema montado por Campos Sales seriam provocados pelo próprio Nilo Peçanha: ao apoiar abertamente a candidatura de Hermes da Fonseca, Peçanha foi forçado a romper não só com o Partido Republicano Paulista como também com o Partido Republicano Fluminense, do qual fora um dos fundadores. Peçanha aproximou-se então do Partido Republicano Conservador, fundado pouco antes pelo senador gaúcho Pinheiro Machado. Apesar de ter aberto seu voto, Nilo Peçanha procurou montar um ministério de conciliação e fazer um governo moderado e pacifista. Ainda que vários comícios no Rio de Janeiro tenham terminado com derramamento de sangue e o governo sido forçado a intervir na Bahia, em Sergipe, no Maranhão e no Amazonas, Peçanha alcançou seu objetivo e manteve o país sob relativo controle até o fim de seu mandato, em novembro de 1910.
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A SEMENTE AMARGA DO PROGRESSO
Era a droga ideal para o século que nascia. Ilegal até o século XVI, aclimatada no Brasil desde o século XVII, a planta estava agora não só plenamente liberada: havia se tornado também uma coqueluche mundial. Quente, estimulante e negro; precedido da fama de “provocar ideias” e servido de forma quase ritual, o café – cada dia mais barato e acessível – se tornara um hábito irresistível para poetas em Paris, músicos em Viena, banqueiros em Berlim e, em especial, para as multidões de Nova York e os caubóis do Velho Oeste. O Brasil alimentava o novo vício mundial: na virada do século, quatro quintos da produção global provinham do país. Só os ingleses continuavam preferindo o chá – mas e daí? Os 74 milhões de sacas produzidas entre 1891 e 1900 e absorvidas de imediato pelo mercado transformaram o café no “ouro verde” do Brasil. Era a “semente do progresso”.
Mas, como tudo o que sobe um dia desce, a febre cafeeira que incendiou o Brasil logo teria seu reverso. Uma série de supersafras (a primeira ocorrida já em 1896, seguida pelas de 1901 e 1906), a profusão de braços trazida pelo aumento da imigração europeia, a liberação franca de empréstimos para a abertura de novas áreas de cultivo, a produtividade inicial das terras virgens e a elevação do preço do café em moeda nacional (em razão da queda do câmbio) acabariam causando um desastre: café demais, barato demais.
Em 1901, o Brasil produziu dezesseis milhões de sacas de café. O consumo mundial era ligeiramente superior a quinze milhões de sacas. Na supersafra de 1906, foram colhidos o equivalente a vinte milhões de sacas, mas o consumo planetário mal chegava a 16 milhões. Resultado: o preço internacional do café despencou. Para piorar, a queda do preço de mercado se seguiu ao plano do governo de valorizar a moeda nacional, mantendo elevadas taxas de câmbio. Os exportadores perdiam na venda (por preços mais baixos) e na conversão da libra em mil-réis (por cotações artificialmente mais altas). O negócio só era bom para firmas exportadoras (financiadas por capital inglês): atravessadores compravam na época da colheita, estocavam o café e só o revendiam na entressafra, obtendo lucros enormes.
Em fevereiro de 1906, dispostos a reverter essa situação, os presidentes de São Paulo, Jorge Tibiriçá, do Rio, Nilo Peçanha, e de Minas, Francisco Sales, se reuniram com os maiores cafeicultores do Brasil em Taubaté – SP para exigir do governo uma “política de valorização do café”. O plano consistia, primeiro, em convencer o governo a fazer um empréstimo externo para comprar a produção excedente; depois, forçá-lo a desvalorizar o mil-réis. Embora cafeicultor, o então presidente Rodrigues Alves se recusou a executar tal projeto.
Os cafeicultores de São Paulo decidiram então agir por conta própria. Firmando o Convênio de Taubaté, tomaram um empréstimo de quinze milhões de libras com o qual, até fins de 1907, foram comprados 8,2 milhões de sacas.
Muitas ficaram armazenadas na Europa e nos EUA; outras foram queimadas. Em 1908, o novo presidente, Afonso Pena, convenceu o Congresso a tornar a União fiadora desse empréstimo. Apesar da polêmica, a medida foi aprovada. Embora corretas em tese, as medidas do Convênio de Taubaté acabaram por favorecer apenas grandes produtores, banqueiros internacionais e casas comissárias.
Em 1909, quando o preço do café subiu, muitas fazendas já tinham sido vendidas – algumas para estrangeiros, outras para grandes empresas, como a Prado Chaves, que adquiriu 14 propriedades com cerca de 3,5 milhões de pés de café. Os desdobramentos do Convênio de Taubaté formalizaram um fenômeno econômico-político-social bem brasileiro, batizado de “socialização das perdas” pelo economista Celso Furtado. Ou seja: ao desvalorizar a moeda para favorecer a cafeicultura, o governo encarecia as importações, pagas pelo conjunto da população. Assim, enquanto os lucros do café permaneciam privados – e cada vez mais concentrados –, seus prejuízos eram compartilhados com o país. Era o socialismo tupiniquim.
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A METRÓPOLE E A AVENIDA DO CAFÉ
Depois de ocupar – e devastar – todo o vale do rio Paraíba do Sul, o café “deu um salto” sobre a área ocupada pela cidade de São Paulo (imprópria para o cultivo) e se instalou nas férteis planícies do noroeste do Estado. Ali, a lavoura se desenvolveria como nunca. Nada poderia ter sido melhor para a capital paulista; agora, em seu caminho rumo ao porto de Santos, o café precisava passar por ela. Não apenas isso: por volta da década de 1880, entediados com a clausura pastoril e estimulados pelas obras de reurbanização feitas na capital, vários cafeicultores tinham decidido se mudar para São Paulo. Quando a pujança lhes bateu à porta – e o presidente da Província, Rodrigues Alves, saneou a cidade, iluminou-a e a embelezou, contando com o esforço e o vigor do prefeito Antônio Prado –, os barões do café se puseram em marcha, numa espécie de “êxodo rural” inteiramente diferente daqueles que o Brasil conhecia.
Faltando quinze anos para o fim do século XIX, São Paulo era uma cidade modesta, com cerca de 200 mil habitantes. A marca de seu desabrochar urbano, iniciado em 1877, ironicamente se chamava viaduto do Chá. Quando a principal obra pública de São Paulo foi enfim inaugurada, em 1892, a cidade já havia se tornado a metrópole do café – e seu requintado viaduto apontava em direção a novos bairros.
São Paulo estava orgulhosamente pronta para receber seus novos e ilustres habitantes: os magnatas do café. Gente tão fina não poderia, é evidente, instalar-se nas áreas infectas do centro, do Brás ou da Mooca, fervilhando de tifo e peste e agitadas pelo rebuliço permanente de gente em busca de emprego. Transpondo os alagadiços do vale do Anhangabaú, o viaduto do Chá apontava para uma região recém-loteada, entre a rua da Consolação e Pacaembu. Em 1890, era aberta a avenida Higienópolis – sadia e altiva como o próprio nome indicava. Em 1892, no topo do espigão granítico do Caaguaçu (“grande mata”, em tupi) era inaugurada a avenida Paulista (na página ao lado) – um bulevar ladeado de plátanos e carvalhos (árvores europeias, plantadas para substituir a vegetação nativa, derrubada para abrir caminho ao progresso e tida por menos “nobre” que as espécies exóticas vindas do Hemisfério Norte).
Na virada do século, os barões do café tinham, à disposição de seu dinheiro, um recanto urbano à sua altura: “redutos de convívio quase exclusivo com gente de seu próprio nível”, como diria um cronista da cidade. Em breve, os amplos lotes de cinco mil metros quadrados que ladeavam a Paulista estavam todos vendidos – igualmente acontecendo com os terrenos ao longo da avenida Higienópolis. A seguir, começariam a surgir os palacetes do fausto e da fartura.
Nas primeiras décadas do século XX, São Paulo começou a se tornar não só a capital do café, mas também um poderoso polo industrial. Os lucros excedentes do café, a instabilidade dos preços do produto e a abundância de braços europeus oferecida por imigrantes que se recusavam a ir para o campo fizeram com que a criação de indústrias se tornasse opção óbvia para a aplicação dos capitais. E assim, além dos suntuosos casarões neoclássicos e art nouveau, a avenida Paulista começou a ser ocupada também por palacetes em estilos “estrangeiros regionais”, como o florentino e o árabe, e por mansões de caráter arquitetônico francamente indefinível. Eram as casas de industrialistas nouveaux riches. A avenida Paulista se tornaria o equivalente e o contraponto da avenida Central, no Rio: ao passo em que esta simbolizava a pujança pública, a outra era uma ode urbana ao lucro privado.
A partir dos anos 50 do século XX, os casarões da Paulista começaram a ser derrubados (assim como os prédios suntuosos da avenida Central), para dar lugar aos espigões de grandes bancos, instituições financeiras e edifícios residenciais – aos pés dos quais hoje dormem meninos de rua. A avenida Paulista permanece, ainda assim e por isso mesmo, como símbolo das vertigens, das obsessões, do vigor e do exclusivismo das elites brasileiras e do processo socioeconômico que move a nação.
Image A AVENIDA DOS BARÕES DO CAFÉ: abaixo, a avenida Paulista no dia de sua inauguração mas antes da construção das mansões dos cafeicultores. A via pública se tornaria um símbolo da riqueza privada.
O GOVERNO DE HERMES DA FONSECA
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Tendo ou não batido com a espada na mesa do gabinete presidencial de Afonso Pena, o fato é que, ao lançar sua candidatura ao Catete, o marechal Hermes da Fonseca foi identificado com a “espada providencial” que militares aguardavam para “purgar” os equívocos da nação e “restaurar” os ideais de 1889. Mas nem tudo saiu como eles esperavam. A candidatura do gaúcho Hermes, tendo como vice o mineiro Venceslau Brás, indicava uma aliança entre Rio Grande do Sul e Minas. Mas, ao ver-se alijado da corrida presidencial, São Paulo reagiu e, junto com a Bahia, apoiou a candidatura de Rui Barbosa. Iniciou-se então “a luta da pena contra a espada”: após duas décadas de regime republicano, o país viveria sua primeira campanha eleitoral de verdade. As eleições anteriores haviam tido fraudes descaradas e, antes da apuração dos votos, já se sabia que o vencedor seria o nome referendado pelo governo. É provável que Afonso Pena achasse que o esquema se repetiria na sua sucessão. Para seu lugar na Presidência, Pena lançara o nome do ministro Davi Campista, mineiro como ele. Conseguiu desagradar a gregos e troianos: os paulistas se injuriaram, os militares se injuriaram, os gaúchos se injuriaram. Em 14 de maio de 1909, Hermes da Fonseca, ministro da Guerra de Afonso Pena, reuniu-se em particular com o presidente. Não se sabe ao certo o que se passou no gabinete presidencial. Sabe-se, isso sim, que no dia seguinte Hermes saía do governo e, uma semana depois, lançava-se como candidato. No início de junho, Rui Barbosa decidiu enfrentar o marechal. Na noite do dia 14, morria Afonso Pena. A morte do presidente que rompera com a política do café com leite reverteu a cena eleitoral: Hermes passou da oposição para a situação, já que o vice Nilo Peçanha, que substituiu o presidente falecido, decidiu dar apoio à candidatura do marechal. Rui Barbosa deflagrou então a chamada “campanha civilista”.
RUI, O CIVILISTA
Dono de inteligência privilegiada, oratória inflamada e coragem indômita, Rui Barbosa (1849-1923) representava, para os brasileiros letrados, as mais altas esperanças de uma democracia liberal. Apesar de não ter sido propagandista republicano na década de 1880, Rui participara da conspiração que derrubou o antigo regime e dominou o governo provisório de Deodoro, quando redigiu a nova Constituição do país. Caiu em desgraça por causa de sua desastrada política do Encilhamento, não escapando das acusações de ter-se locupletado com ela. Mas se opôs ativamente à ditadura de Floriano, amargando dois anos de exílio. Em 1907, chefiou a delegação do Brasil na Conferência de Paz de Haia, revelando ser jurista brilhante. Apesar de ter sido considerado pelo chefe da delegação alemã como o membro “mais enfadonho” do encontro, para os brasileiros Rui virou a “Águia de Haia”. Em 1909, preterido tanto por Pinheiro Machado como por Afonso Pena, Rui decidiu lançar sua candidatura independente. Percorreu o país inteiro fazendo conferências, tentando atrair o voto da classe média, defendendo princípios democráticos e o voto secreto, dando à campanha um tom de reação contra a intervenção do Exército na política. “Embora a base política mais importante de Rui fosse a oligarquia paulista, sua campanha se apresentou como a luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, contra o Brasil inculto, oligárquico e autoritário”, conforme escreveu o historiador Bóris Fausto. Em 15 de novembro de 1910, porém, Hermes da Fonseca recebeu 403.897 votos contra os 223.784 de Rui Barbosa – uma proporção de quase dois para um.
Após uma campanha incendiária que agitou as principais capitais do país, em 15 de novembro de 1910, o senador Pinheiro Machado anunciou à nação que o marechal Hermes fora vencedor, tendo recebido os célebres “400 mil votos redondos”. Era a volta dos militares ao poder, depois de quatro presidentes civis. Hermes da Fonseca (1855-1923) era sobrinho do marechal Deodoro. Militar desde a juventude, durante o império fora ajudante de ordens do odiado conde d’Eu. Promovido pelo tio após a Proclamação da República, foi ministro do Supremo Tribunal Militar e ministro da Guerra de Afonso Pena. Modernizou e profissionalizou o Exército, apoiando militares “tarimbeiros” e desferindo o golpe de morte nos “científicos”.
Uma vez na Presidência – à qual chegou com o apoio não só dos militares e de Pinheiro Machado, mas da classe média baixa e de radicais remanescentes do florianismo –, Hermes iniciou a chamada política das “salvações nacionais”.
De qualquer forma, o governo teve de enfrentar duas terríveis revoltas, a da Chibata e a do Contestado. Venceu-as, mas se enfraqueceu politicamente. Em 1912, já nacionalmente tido como “uma nulidade”, Hermes se casou com a caricaturista Nair de Teffé. A “linda donzela cujos dotes de espírito lhe inspiraram tão violenta paixão” fez com que o presidente virtualmente se “esquecesse” de governar. O país caía nas mãos ardilosas do senador gaúcho Pinheiro Machado.
A REVOLTA DA CHIBATA
Se fosse necessário algum prenúncio de que o governo Hermes da Fonseca seria um dos mais turbulentos da política brasileira, não foi preciso aguardar mais do que uma semana por ele. Já na manhã do dia seguinte à posse do sétimo presidente da República, começaria a fermentar, nas fileiras da Marinha do Brasil, uma séria rebelião interna, de consequências trágicas, que iria passar à história com o nome de Revolta da Chibata. Os incidentes desembocaram em um dos mais infames episódios de repressão a militares rebeldes na história do Brasil.
O QUÊ: a Revolta da Chibata, como o próprio nome indica, foi um movimento que eclodiu dentro da marinha brasileira em protesto contra os castigos corporais a que eram submetidos os marinheiros. Contrastando com a “aristocracia” dos oficiais, o recrutamento dos marinheiros era forçado e feito entre “indivíduos de má conduta” que deveriam “ser corrigidos”. Embora um decreto assinado no primeiro dia da República tivesse banido a prática do açoite, um novo decreto, firmado por Rui Barbosa em abril de 1890, por pressão dos oficiais, restabeleceu as “penas disciplinares” – que, além dos açoites, incluíam o “bolo” (palmatória) e a prisão a ferro, na solitária a pão e água.
Image O POTEMKIN BRASILEIRO: os marinheiros do encouraçado Minas Gerais, (na página 298) sob a liderança de João Cândido (à direita), depois chamado de “Almirante Negro”, deflagraram a Revolta da Chibata.
QUANDO: no dia 16 de novembro de 1910, um dia após a posse de Hermes da Fonseca, toda a tripulação do encouraçado Minas Gerais foi convocada para assistir à punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, que havia ferido um cabo. As 250 chibatadas, aplicadas ao rufar de tambores, foram desferidas pelo comandante João Batista das Neves – conhecido pelo prazer com que chicoteava seus subalternos. Seis dias mais tarde, sob a chefia do marinheiro João Cândido, a tripulação do Minas Gerais se rebelou. Os amotinados tomaram o navio e mataram o comandante Neves. Os encouraçados São Paulo, Deodoro e Bahia logo aderiram ao movimento e, neles, dois outros oficiais foram assassinados. Ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, os amotinados – mais de dois mil homens, sob a liderança de João Cândido, a partir de então chamado de Almirante Negro – exigiam o fim da chibata, o aumento dos soldos e melhor alimentação a bordo.
COMO A CRISE FOI CONTORNADA: reunidos no Congresso e no palácio do Catete, o presidente, seus assessores e os influentes senadores Pinheiro Machado e Rui Barbosa concordaram com as exigências dos rebeldes e prometeram anistiá-los.
QUAIS OS DESDOBRAMENTOS DA CRISE: no dia 25 de novembro, os amotinados arriaram as bandeiras vermelhas que sinalizavam sua rebelião, e o episódio parecia encerrado. Em 28 de novembro, porém, um decreto presidencial permitiu ao ministro da Marinha expulsar da corporação os principais envolvidos no movimento. Para agravar ainda mais a situação, no dia 10 de dezembro, os fuzileiros navais alojados na ilha das Cobras também decidiram se rebelar. Para evitar a repressão, os marinheiros dos encouraçados Minas Gerais, Bahia e São Paulo – que nada tinham a ver com os protestos dos fuzileiros – não hesitaram em bombardear as instalações onde se encontravam seus companheiros de corporação. Ainda assim, não foi o bastante: alarmado com a onda de conspirações, o governo Hermes da Fonseca deflagrou uma repressão sangrenta ao levante. E aproveitou a oportunidade para prender 69 marinheiros já anistiados que haviam participado da Revolta da Chibata (embora, como já foi dito, eles nada tivessem a ver com a revolta da ilha das Cobras). Muitos foram fuzilados sumariamente.
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João Cândido foi encarcerado numa cela minúscula, na qual 17 prisioneiros morreram asfixiados depois que cal virgem misturada a água foi jogada dentro do cubículo. Após 18 meses numa masmorra subterrânea, o Almirante Negro foi internado num hospício por três médicos da Marinha, embora os psiquiatras do Hospital de Alienados afirmassem que ele não era nem estava louco. Ainda assim, a sorte de João Cândido foi melhor que a de outros 250 marinheiros presos: junto com cerca de 250 ladrões, 180 desordeiros, 120 cafetões e 44 meretrizes, eles foram enfiados no cargueiro Satélite e mandados para o exílio no Acre. O “navio da morte” zarpou do Rio no dia 24 de dezembro de 1910. No dia 1º de janeiro de 1911, nove marinheiros que haviam tomado parte na Revolta da Chibata foram fuzilados a bordo e seus corpos jogados ao mar. Dos que chegaram vivos ao Acre (onde, ironicamente, João Cândido lutara, em 1904, no bando do caudilho Plácido de Castro), duzentos foram incorporados à Comissão Rondon, que instalava linhas telegráficas na região, e os demais ficaram abandonados às margens do rio Madeira, para trabalhar junto com os seringueiros. Quase todos eram negros e mulatos. Quanto a João Cândido Felisberto, libertado da prisão em 1914, morreu de câncer, na mais completa miséria, numa favela do Rio, em dezembro de 1969.
A GUERRA DO CONTESTADO
Menos de dois anos depois da Revolta da Chibata, uma outra insurreição – muito mais sangrenta, duradoura e problemática – iria abalar os já frágeis alicerces do governo Hermes da Fonseca. A chamada Guerra do Contestado seria uma espécie de reprise, ocorrida quinze anos mais tarde e em pleno sul-maravilha, do massacre que se desenrolara em Canudos em 1896. Os dois episódios se assemelham em muitos aspectos: no messianismo primitivo, no desespero dos “fanáticos”, na crueldade quase demente dos soldados que os combateram, nos interesses exclusivistas das elites, nos delírios apocalípticos do “monge” João Maria (à direita), tão similares aos de Antônio Conselheiro. Acima de tudo, os dois casos se unem também pelo desfecho trágico e sangrento.
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O QUÊ: a Guerra do Contestado foi o conflito armado entre o exército e os camponeses miseráveis da região sudoeste do Paraná e noroeste de Santa Catarina. Território de 48 mil quilômetros quadrados, disputado desde os tempos do Império pelas províncias de Paraná e Santa Catarina, a área “contestada” era delimitada pelos rios Uruguai, Iguaçu e do Peixe e pela fronteira com a Argentina. Essa remota “terra de ninguém”, rica em pinheirais e ervais, havia sido ocupada por refugiados das revoluções gaúchas e por desvalidos em geral. Em 1900, o governo cedeu uma faixa de trinta quilômetros de largura para a Brazil Railway, no centro da qual seria construída a ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. Posseiros que ocupavam a área foram desalojados à força. A seguir, a madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization se instalou na região e “contratou” milhares de camponeses, transformando-os em mão de obra semiescrava. Ambas as empresas, a Brazil Railway e a Southern Lumber, pertenciam ao magnata norte-americano Percival Farquhar, um dos “donos” do Brasil. Na região do Contestado, quem não trabalhava para Farquhar trabalhava para os “coronéis” da ervamate, em ervais onde a semiescravidão também imperava. Em 1906, quando as obras da ferrovia foram suspensas, oito mil homens foram sumariamente demitidos e deixados ao léu, perambulando pela região. Estava preparado o terreno para a fermentação da revolta.
QUANDO: em novembro de 1911, surgiu em Palmas – PR um homem alto, cabeludo, desdentado e barbudo, um gaúcho mestiço de índio chamado Miguel Lucena de Boaventura, desertor da Força Pública do Paraná. Citando a Bíblia e um livro infantil ilustrado sobre Carlos Magno, dizia-se “herdeiro espiritual” do beato João Maria, líder messiânico que havia percorrido aquela mesma região cerca de dez anos antes, na época da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul. Lucena logo mudou de nome, passou a se chamar de “monge José Maria” e reuniu em torno de si dois mil seguidores.
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A GUERRA DOS PELADOS:, uma milícia de “peludos”, composta por camponeses da região do Contestado, contratada para combater os rebeldes que se autodenomiram“pelados”.
COMO A GUERRA ECLODIU: José Maria pregava a proximidade do fim dos tempos, afirmava que o comércio era “coisa do demônio” e que o rei português D. Sebastião (morto no Marrocos, em 1578) voltaria para reinar sobre os homens. Dizendo-se eleito por Deus para erguer na Terra uma “Monarquia Celeste”, o monge fundou seu primeiro “quadro santo” no município de Curitibanos – SC. A área era delimitada por cruzes nos quatro cantos e uma tosca capela ao centro. Ali se instalaram seus dois mil seguidores. Alertado pelos coronéis da região, o exército foi chamado para expulsar os “fanáticos”, depois que José Maria se recusara a depor na delegacia de Palmas – PR. Em outubro de 1912, uma tropa de 400 homens, chefiada pelo capitão João Gualberto, atacou o “quadro santo” erguido no município de Irani, onde os seguidores do monge tinham se refugiado. Quando a metralhadora da tropa de Gaulberto engasgou, os “fanáticos”, soprando berrantes, investiram contra os invasores. Embora José Maria tenha sido um dos primeiros a tombar, o capitão Gualberto e mais treze soldados também foram mortos, e o restante da tropa bateu em retirada, deixando armas e munições para os rebeldes.
COMO A GUERRA ACABOU: apesar de José Maria não ter ressuscitado como anunciara, seus seguidores continuaram combatendo os “peludos”. Após alguns caboclos terem seus cabelos raspados pela polícia, os “fanáticos” do Contestado decidiram também cortar os seus e passaram a se autodenominar “pelados”. Os inimigos da Monarquia Celestial começaram então a ser chamados de “peludos”. Com outros líderes e adotando táticas de guerrilha, os “pelados” resistiam a todas as investidas dos “peludos”. A virgem de quinze anos Maria da Rosa virou chefe militar, enquanto o “menino deus” Joaquim, de onze, era tido como porta-voz de José Maria – que, por meio de mensagens enviadas do além, “comandava” o exército de cinco mil sertanejos.
Os rebeldes chegaram a dominar 25 mil km2, vencendo sete expedições militares enviadas contra eles. Em setembro de 1914, o general Setembrino de Carvalho chegou a Curitiba com ordens do ministro da Guerra para sufocar a rebelião. Com sete mil homens bem-armados (80% do exército brasileiro de então) e os primeiros aviões usados para fins militares na história do Brasil, Carvalho atacou os “fanáticos” implacavelmente, matando homens, mulheres e crianças. Ainda assim, a “guerra santa” perdurou até janeiro de 1916. Em cinco anos de luta, nove mil casas haviam sido queimadas e o espantoso número de vinte mil pessoas tinham sido mortas.
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