Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção
15. Brasil amazônico
Capítulo 15
BRASIL AMAZÔNICO
De “inferno verde” a rain forest, de floresta sem fim a campos dos sonhos, de última fronteira da civilização a “pulmão ao mundo”, a Amazônia percorreu uma longa trajetória no imaginário ocidental. Desde que o homem branco a penetrou pela primeira vez, há cinco séculos, a floresta permanece praticamente a mesma – e o maior rio do mundo também. O que se modificou foram as imagens que a mata majestosa, seus habitantes (humanos ou não) e sua complexa ecologia passaram a adquirir na mente dos pesquisadores, dos cientistas e da população urbana das maiores cidades do mundo.
Desde a sua descoberta casual, em 1542, a Amazônia tem funcionado como uma espécie de cabo de guerra entre fato e ficção, fantasia e realidade. De imediato, a maior região selvagem do mundo se tornou o novo palco de dois antigos mitos: a lenda das ferozes guerreiras amazonas e a miragem de Shangri-lá, a cidade perfeita (nos trópicos transfigurada em Eldorado), foram ambas transplantadas para o seio da imensa mata virgem. Esses dois mitos fariam muita gente perder a cabeça – literalmente.
Gonzalo Pizarro, Lope de Aguirre e Walter Raleigh, exploradores que, por anos a fio, procuraram as amazonas e o Eldorado, foram decapitados ao retornar de mãos vazias para a Europa. Mas quem poderia duvidar que, numa região dominada pelos superlativos – onde as árvores tinham 50 metros, as cobras oito metros e uma única planta aquática (a vitória-régia) chegava a dois metros de diâmetro –, não pudesse, de fato, existir uma cidade de ouro e um reino de mulheres guerreiras?
Assim que os ensandecidos conquistadores do século XVI foram substituídos pelos meticulosos cientistas do século XIX – entre eles o francês La Condamine, o “descobridor” da borracha –, ficou claro que o maior tesouro da Amazônia era vegetal. A borracha seria responsável pela primeira corrida da história provocada não por um minério, mas por uma planta. Pouco antes, estudos feitos na Amazônia pelos precursores de Darwin estavam ajudando o homem a entender seu papel no planeta. Infelizmente, isso não seria suficiente para fazer com que o homem descobrisse qual, afinal, era o seu papel na Amazônia.
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O RIO DAS MULHERES GUERREIRAS
“Eram mulheres muito alvas e altas, com cabelo longo, entrançado e enrolado na cabeça. São muito robustas e andam nuas em pelo, tapadas suas vergonhas, com os arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra quanto dez índios homens e, em verdade, houve uma que enterrou uma flecha a um palmo de profundidade no bergatim, e as outras pouco menos, de modo que, finda a luta, nossos barcos pareciam porcos-espinhos.”
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AS AMAZONAS: o antigo mito grego foi transplantado para o seio da maior floresta de planeta através da pena e da imaginação de frei Gaspar de Carvajal.
Naquele 24 de julho de 1542, a malfadada expedição de Francisco de Orellana já estava havia meio ano navegando pelas águas intempestivas de um rio tão largo, grande e forte quanto jamais se vira, quando o frei dominicano Gaspar de Carvajal, cronista oficial da desventura, sacou da pena para registrar a primeira aparição “factual” das mitológicas amazonas na história das Américas. Junto com Orellana e outros 21 homens, Carvajal deixara Quito, no Equador, em fevereiro de 1541. A expedição fora se juntar ao imenso grupo liderado por Gonzalo Pizarro, que havia partido da capital do império inca em busca do reino da canela – localizado, em tese, além da cordilheira. Boa para o pulmão, antisséptica e digestiva, a canela era uma riqueza inestimável no século XVI. Tanto que poderia valer a vida de duzentos cavalos, mil cães (treinados para matar), dois mil porcos, quatro mil índios e 250 fidalgos espanhóis – o número de sacrificados nessa viagem de danação, cujo único resultado prático seria a descoberta do maior rio do mundo.
No Natal de 1541, quando, famintos e febris, Pizarro e Orellana enfim venceram a árida e gelada barreira dos Andes, mergulharam num ambiente ainda mais ameaçador: a maior floresta jamais vista por qualquer europeu. Indignado, Pizarro jogou aos cães metade dos índios sobreviventes e queimou vivos os restantes. Mas em breve não haveria mais cães, porcos ou cavalos para alimentar os espanhóis. Então, no dia 26 de dezembro, Orellana foi autorizado a construir um barco e, com 57 homens, descer o rio que viria a se chamar Coca.
O plano era saquear as grandes aldeias indígenas que existiriam por lá. Seria uma viagem sem volta: em seis dias a corrente o empurrou quase mil quilômetros rio abaixo. Não havia aldeias: só mata e água. Os viajantes comeram seus cintos e suas botas fervidos com ervas. O rio Coca deságua no Napo, que é afluente do Ucayali, que no Brasil se chama Solimões e é um dos formadores do majestoso rio no qual aquela nau de insensatos entrou em 11 de fevereiro de 1542. Enquanto isso, na floresta, Pizarro esperou por 40 dias antes de retornar para Quito, amaldiçoando Orellana e acusando-o de traição. Com 80 homens esmaecidos, chegou à cidade em agosto de 1542 – sem canela, sem cães, sem cavalos, sem ouro. Exatas duas semanas mais tarde, a 26 de agosto, um mês após enfrentar doze amazonas (e matar sete delas) e de ter navegado 7.250 quilômetros, Orellana e 48 sobreviventes chegaram ao oceano Atlântico. Tornavam-se os primeiros homens a navegar o maior e mais misterioso rio do planeta.
O REINO DO ELDORADO
Ao chegar à ilha de Cubágua, a 200 quilômetros de Trinidad, depois da inacreditável viagem em companhia de Orellana, frei Gaspar de Carvajal tratou de redigir no ato o relato da expedição – e o olho que uma flechada lhe roubara não o atrasou nessa missão. Embora as dimensões do rio recém-percorrido fossem espantosas, o que mais chamou a atenção em seu diário foi a menção às amazonas, com as quais os expedicionários teriam se confrontado ao chegar na confluência do rio que hoje se chama Madeira.
O HOMEM DE OURO: outro antigo mito europeu transplantado para a Amazônia foi o da cidade de Eldorado.
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WALTER RALEIGH
Favorito da Rainha Elizabeth I, com quem teve um caso, Walter Raleigh foi uma das dinâmicas e controversas figuras da colonização inglesa. Descobridor das Guianas e primeiro colonizador dos EUA (fundou a Virgínia e a Carolina do Norte), sir Walter Raleigh, tido como o introdutor do tabaco na Inglaterra, ficou conhecido como o “homem que pesou a fumaça”. Para ganhar uma aposta, colocou um charuto numa balança, fumou-o e pesou as cinzas. A diferença entre uma medida e outra era “o peso da fumaça”. O mais romanesco dos ingleses se tornou um herói popular.
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Aquele era um mito antigo, de origem grega, como a própria palavra (amazos, ou “sem seios”). Embora Carvajal jamais tenha afirmado que as guerreiras que seu grupo enfrentou retiravam o seio para melhor manejar o arco, resolveu chamá-las pelo mesmo nome que Homero utilizara, no século VIII a.C., para balizar as mulheres guerreiras da antiga Cítia.
Carvajal seria criticado ainda em vida pelo cronista López de Gomara: “Dentre os disparates que disse, o maior foi afirmar que havia amazonas, (já que) nunca tal se viu nem tampouco se verá neste rio.” Para o próprio Gomara, porém, “que mulheres andem com armas e pelejem, ali não é muito, pois esse é seu costume nas Índias”. Duzentos anos depois, Humboldt e La Condamine ofereceriam a mesma explicação para a cena descrita por Carvajal: na América, era fato corriqueiro as mulheres irem à luta ao lado dos maridos. Ainda assim, na terceira vez que o Amazonas foi navegado da nascente à foz, em 1639, nem o português Pedro Teixeira, nem seu cronista, Cristóbal de Acuña, viram sinal das tais amazonas.
LOPE DE AGUIRRE
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Comparadas à delirante jornada de Lope de Aguirre pela Amazônia, as viagens de Francisco de Orellana e Pedro Teixeira pelo maior rio do mundo foram piqueniques de escoteiro. Um dos caudilhos mais ensandecidos da história, Aguirre era tenente na expedição liderada pelo governador Pedro de Ursua, que partira de Lima em 1559 em busca do Eldorado. Após um ano de tormento e volteios pela selva, Aguirre amotinou-se, matou Ursua e assumiu o comando da expedição, em 1º de janeiro de 1561. Pretendia fundar um reino na atual Venezuela, do qual seria o monarca. Antes de ser preso e decapitado, Aguirre descobriu a ligação entre o Amazonas e o Orinoco – perdida por duzentos anos depois dele. Sua alucinada viagem virou filme de Werner Herzog (ao lado, Klaus Kinski no papel do tirano).
Pouco antes de Pedro Teixeira se tornar o chefe da primeira expedição a subir o Amazonas e de Cristóbal de Acuña vir a ser o segundo cronista do rio, narrando a viagem de volta, de Quito a Belém, o Amazonas se tornaria berço de outro mito – quase tão longevo quanto o das amazonas. El Dorado era o nome do rei do país dos Omáguas e senhor de sua reluzente capital, Manoa, cidade dos telhados de ouro. Todas as manhãs, o Homem Dourado tinha seu corpo polvilhado de ouro (veja imagem na página 171), antes de mergulhar num lago sagrado no qual seus súditos jogavam joias e adornos. Depois que um certo Juan Martínez chegou à ilha de Trinidad afirmando que vivera sete meses como prisioneiro em Manoa do Eldorado, uma nova febre do ouro tomou conta dos conquistadores espanhóis na América – e logo afetaria ingleses, alemães e holandeses.
Mesclando elementos de A utopia, de Thomas Morus, da Nova Atlântida, de Francis Bacon, e de romances de cavalaria, como Amadis de Gaula, a lenda do Eldorado se espalhou como fogo na palha. A primeira expedição a meter-se na selva em busca do reino de ouro foi a de Pedro de Ursua e Lope de Aguirre (leia box na página ao lado). As mais alucinadas aventuras em busca do Eldorado, porém, foram patrocinadas por sir Walter Raleigh: primeiro em 1595 e depois em 1617 (após permanecer treze anos encarcerado na Torre de Londres). Raleigh navegou pelo Orinoco e percorreu o planalto das Guianas em busca de uma cidade que não estava lá. Na volta para Londres, acabou decapitado por ordem do rei James.
A ÉPICA VIAGEM DE PEDRO TEIXEIRA
Em 5 de fevereiro de 1637, ao desembarcar em Belém, os frades espanhóis Andrés de Toledo e Domingo de Brieva, acompanhados por seis soldados castelhanos, tornaram-se, quase exatamente um século depois da extraordinária aventura de Orellana e Carvajal, os primeiros homens a navegar o imenso rio Amazonas da nascente até a foz. Tão logo foi informado da impressionante façanha daqueles oito homens – e apoiando-se no fato de Portugal e Espanha estarem então unidos sob a mesma coroa –, o governador do Pará, Jacomé Noronha, decidiu de imediato enviar uma expedição pelo mesmo caminho que trouxera os espanhóis, só que na direção inversa.
Para comandar tal missão, Noronha escolheu o capitão-mor Pedro Teixeira. Em 28 de outubro de 1637, Teixeira, acompanhado por setenta soldados e 1.200 indígenas, partiu de Belém rio acima, com 47 canoas “de bom porte”. Oito meses depois, em 24 de junho de 1638 – com menos da metade da tripulação (a maior parte dos nativos desertou ou morreu) –, a expedição chegava a Quito, tendo realizado a prodigiosa tarefa de vencer, em barcos movidos a remo, a forte correnteza do Amazonas (cuja velocidade é de seis nós). Mais do que surpreso, o governador de Quito ficou alarmado com o feito: ele temia que, a partir de então, o rio começasse a ser utilizado como via de acesso para a conquista do Peru pelos portugueses. O governador tratou Teixeira com a devida cortesia, mas mandou-o em seguida de volta a Belém.
LA CONDAMINE
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Enviada para Quito para medir o raio equatorial da Terra – que, segundo a polêmica teoria de Newton, deveria ser menor do que o raio polar (o que tornaria o planeta um “elipsoide achatado”) –, a missão que o cosmógrafo francês Charles Marie de la Condamine fez à Amazônia, entre 1735 e 1746, iria inaugurar um novo período na história das viagens à América. Rico, ilustrado, amigo do filósofo Voltaire, foi La Condamine quem abriu a era das grandes expedições científicas. Desembarcando no Equador em fins de 1735, perambulou por oito anos pela cordilheira dos Andes. Em maio de 1743, decidiu descer o Amazonas da nascente até a foz – viagem que, surpreendentemente, foi autorizado a fazer, tanto pelos espanhóis como pelos portugueses (que, meio século depois, proibiriam a entrada do barão Von Humboldt no Brasil). A jornada durou dez meses, consagrando La Condamine como “descobridor” da borracha (leia p. 176), do quinino e da platina.
Para acompanhar – e descrever – a longa jornada de retorno, as autoridades espanholas destacaram os jesuítas Cristóbal de Acuña e Andrés de Artieda. Em 16 de fevereiro de 1539, em companhia de Teixeira e sua tropa, eles zarparam do Equador. Dez meses mais tarde, em 12 de dezembro, o grupo original estava de volta ao porto de partida: Belém do Pará. Pedro Teixeira tornou-se, assim, o primeiro homem a ter percorrido toda a extensão do maior rio do planeta nos dois sentidos, numa espantosa jornada de ida e volta. Cristóbal de Acuña, por seu turno, seguiu imediatamente para a Espanha, onde redigiu o relato Novo descobrimento do grande rio das amazonas – um livro em tudo superior ao que o dominicano e inquisidor Gaspar de Carvajal produzira um século antes.
Embora a viagem fosse atribulada e repleta de imprevistos, e segundo Acuña, as margens do grande rio estivessem ocupadas por cerca de dois milhões de indígenas, nem ele, nem Teixeira, nem ninguém viu qualquer sinal das fabulosas “amazonas”. A expedição, de qualquer forma, não se tornou apenas um marco na história das explorações: foi graças à coluna de pedra que Teixeira fincou, em 16 de agosto de 1639, na confluência dos rios Aguarico e Napo (atualmente fronteira entre o Equador e Peru) – numa petulante tentativa de estabelecer um limite entre as possessões espanholas e portuguesas na América –, que a maior parte da região amazônica e praticamente todo o curso do rio que a percorre passariam a fazer parte do território brasileiro. Como pagamento pela façanha, Pedro Teixeira ganhou trezentos casais de escravos indígenas.
A JORNADA DE RODRIGUES FERREIRA
Ao retornar para Lisboa, em janeiro de 1793, depois de dez anos percorrendo quase 40 mil quilômetros pela região amazônica, nas capitanias do Grão-Pará, do Rio Negro, do Mato Grosso e de Cuiabá, Alexandre Rodrigues Ferreira não estava apenas se tornando o primeiro brasileiro a realizar uma grande expedição científica pelo Brasil: estava coroando também o breve ciclo de missões exploratórias promovido por Portugal no fim do século XVIII. Embora nascido na Bahia, em 1756, Rodrigues Ferreira era um cientista de formação lusitana. Membro da Academia de Coimbra, fora escolhido pelo mestre italiano Domenico Vandelli para chefiar a grande expedição ao Brasil. Fundador do museu e do jardim botânico da mais importante universidade portuguesa, Vandelli era o grande renovador de Coimbra. Apesar de sua influência na Corte ser considerável, a missão amazônica que ele planejara jamais teria sido aprovada, não fizesse ela parte do projeto lançado pelo poderoso marquês de Pombal de investigar as riquezas do Brasil.
Como a colônia estava fechada a cientistas estrangeiros, não havia outra opção senão recorrer aos acadêmicos de Coimbra. Ninguém jamais se arrependeu da decisão: o desempenho de Ferreira à frente da expedição foi exemplar, e até hoje, o conjunto de seus relatos, reunido no livro Jornada filosófica, permanece um modelo de investigação científica. Os méritos não cabem apenas a ele: acompanhado pelos ilustradores José Freire e Joaquim Codina e pelo coletor Agostinho do Cabo, Ferreira legou à posteridade um estudo belo e profundo sobre a maior floresta do planeta, apesar do errático destino de seu acervo.
A expedição partiu de Lisboa em 1º de setembro de 1783 e chegou a Belém em 31 de outubro. Enquanto aguardava apoio logístico para realizar sua grande viagem pelos principais rios da bacia amazônica, Ferreira e sua equipe limitaram-se a explorar os arredores da cidade e o vizinho rio Tocantins. Foi só depois de um ano, em setembro de 1784, que a equipe pôde enfim seguir para a capitania do Rio Negro, transformando a localidade de Barcelos em sua segunda cidade-base. Após cinco anos percorrendo a vasta bacia do rio Negro, Ferreira partiu para Mato Grosso – uma viagem tremendamente acidentada que lhe tomou treze meses e dezoito dias.
Instalando-se em Cuiabá, o grande cientista explorou o Pantanal, suas chapadas e toda a bacia do rio Paraguai. Tendo percorrido 39.372 quilômetros, ele então retornou a Belém, em janeiro de 1792. Ao longo de dez anos, Alexandre Rodrigues Ferreira tinha produzido relatórios sobre a situação urbana, demográfica, administrativa e econômica de todas as povoações que percorrera; havia redigido memórias sobre a fauna, a flora e os minerais dessas regiões; ao mesmo tempo que coletava e armazenava milhares de espécies animais, vegetais e minerais, descrevia as etnias indígenas e recolhia os objetos de maior interesse etnográfico.
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DESENHO DE GENTIO: à esquerda, uma aquarela de José Joaquim Freire, um dos ilustradores portugueses que percorreu o interior do Brasil em companhia de Alexandre Rodrigues Ferreira.
Ao retornar a Lisboa, Ferreira tornou-se membro da prestigiosa Ordem de Cristo. Mas, a partir de então, nada mais deu certo: bom no trabalho de campo, ele era fraco no gabinete. E, como se não bastasse o fato de tê-lo catalogado de forma confusa e dispersa, Alexandre Rodrigues ainda veria seu material ser saqueado por Geoffroy de Saint-Hilaire, cientista francês que, por ordem do general invasor Andoche Junot, levou-o para Paris em 1808. Parte do espólio retornaria a Lisboa em 1814, após o fim da ocupação francesa, mas até hoje o acervo recolhido por Alexandre Rodrigues Ferreira – o Humboldt brasileiro – ainda não foi devidamente estudado.
AS AVENTURAS DE HENRY BATES
Por volta de 1845, os naturalistas ingleses Henry Walter Bates e Alfred Russel Wallace podiam ser vistos caçando borboletas nos arredores da cidade de Leicester e trocando cartas sobre o assunto de interesse comum. Três anos mais tarde, no dia 18 de maio de 1848, os dois jovens cientistas já estavam desembarcando em Belém para iniciar uma longa permanência na Amazônia, durante a qual não apenas capturaram dezenas de milhares de borboletas, como ajudaram a mudar os rumos da ciência. Wallace queria que Bates o ajudasse a encontrar uma família de borboletas com o maior número possível de espécies, de modo que eles pudessem estudar de que forma elas se modificavam. Esses estudos seriam a base da teoria da origem das espécies, mais tarde consagrada por Darwin. Filho de um operário têxtil, Bates não dispunha de capital para financiar suas explorações e se sustentava com a venda de espécimes, principalmente insetos, para museus ingleses. Deste modo, permaneceu onze anos na Amazônia, de 1848 a 1859, recolhendo 14.712 espécies de mamíferos, aves, répteis e insetos, sendo oito mil delas novas para a ciência. De início, Bates e Wallace permaneceram juntos em Belém e arredores e percorrendo o Tocantins. Depois, Bates seguiu sozinho pelo Solimões até a fronteira com o Peru, retornando mais tarde para Manaus e daí para Londres. Em 1863, ganhou fama com a publicação de O naturalista no rio Amazonas. Ilustrado com desenhos minuciosos feitos por ele próprio e escrito num estilo primorosamente vívido, o livro cativou a imaginação vitoriana, tornando-se, mais tarde, um favorito também de George Orwell e de D. H. Lawrence. Bates se tornou o maior especialista em mimetismo e um dos grandes responsáveis pelo surgimento da teoria que fez a fama de Darwin.
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O VOO DAS BORBOLETAS: os belos insetos coletados por Henry Bates e Alfred Wallace na Amazônia ajudaram a lançar as bases da teoria da evolução das espécies. Abaixo, Bates participa da caça ao jacaré, que descreveu em seu livro.
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A FEBRE DE ALFRED RUSSEL WALLACE
No dia lº de julho de 1858, o naturalista Alfred Russel Wallace apresentou para a Linnean Society, em Londres, um texto chamado Sobre a tendência das espécies de se afastarem indefinidamente do tipo original. Foi um momento histórico, pois, naquela mesma tarde, outro cientista, de nome Charles Darwin, leu o manuscrito do que viria a ser A origem das espécies pela seleção natural – um texto em tudo similar ao de Wallace. Nenhum dos dois foi acusado de plágio, pois a academia sabia que ambos estavam desenvolvendo a mesma teoria, paralela e simultaneamente – sem contato prévio. Wallace chegara às suas conclusões durante um forte ataque de malária, nas ilhas Molucas, em 1857, enquanto meditava sobre a tese de Malthus a respeito do crescimento das populações. Mas não há dúvida de que ele jamais teria a inspiração para desenvolver sua tese se não tivesse permanecido por quatro anos na Amazônia.
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Nascido em janeiro de 1823, Wallace chegou a Belém aos 25 anos, em companhia de Bates. No dia 26 de março de 1850, os dois se separaram em Manaus. Wallace prosseguiu então pelas desconhecidas regiões do Alto Rio Negro e pelo Uaupês, coletando borboletas e estudando também a espantosa biodiversidade dos peixes amazônicos, até chegar a território venezuelano. No dia 6 de agosto de 1852, depois de retornar a Belém, Wallace partiu para a Inglaterra. Mas o Helen, navio no qual viajava, incendiou em alto-mar, queimando todas as coleções e diários que ele coletara. Depois de dez dias à deriva nos escaleres, sedentos e famintos, Wallace e os demais sobreviventes do naufrágio foram resgatados a cerca de duzentas milhas da costa das Bermudas. Com ajuda da memória prodigiosa e das coleções de plantas e animais que enviara antes para a Inglaterra, Wallace começou a redigir seu primeiro livro.
O CICLO DA BORRACHA
“A resina chamada cautchu nas terras da província de Quito, vizinhas ao mar, é também muito comum nas margens do Marañón e se presta para os mesmos usos. Quando fresca, pode ser moldada na forma desejada. É impermeável à chuva, mas o que a torna mais notável é sua grande elasticidade. Fazem-se garrafas que não são frágeis, botas, bolas ocas, que se achatam quando apertadas, mas retornam à forma original quando cessa a pressão.”
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No dia 28 de julho de 1743, a seiva da seringueira – em breve batizada de látex – estava fazendo sua entrada oficial no mundo da ciência, pela pena meticulosa do francês Charles Marie de la Condamine. Em poucos anos se tornaria o produto vegetal mais importante e mais cobiçado do planeta – provocando o boom econômico que faria Manaus se transformar, quase que da noite para o dia, de aldeia indígena em capital industrial e recolocando (depois do açúcar e antes do café) o Brasil no mapa econômico mundial. O sonho, porém, não iria durar muito tempo.
Os portugueses conheciam a borracha há dois séculos e a utilizavam, como disse o próprio La Condamine, para fazer “seringas”, “com a forma de uma pera oca, com um canudo na ponta, que eles enchem d’água e apertam quando estão cheias”. Por isso, batizaram a árvore de seringueira, embora jamais tenham pensado em utilizá-la de outra maneira. La Condamine levou amostras da cao o’chu (ou “árvore que chora” – de acordo com o seu simbólico e poético nome indígena) para a Europa, e lá, após uma série de experiências científicas, a borracha provaria ser, senão a maior, pelo menos a primeira das maravilhas vegetais da era industrial. Mais tarde, iria estabelecer forte vínculo com a era do petróleo e dos motores de combustão, ajudando a transformar por completo os usos e costumes da humanidade.
Tudo começou em 1770, quando Joseph Priestley descobriu que ela apagava os riscos deixados pelo grafite no papel. Em 1823, um escocês chamado Charles Mackintosh infiltrou a borracha em tecidos, lã e couro, criando os primeiros “impermeáveis” (que ficavam duros no inverno e derretiam no verão). Em 1839, Charles Goodyear inventou a vulcanização, adicionando enxofre à borracha quente.
Em 1888, John Dunlop ajudou seu filho a ganhar uma corrida de bicicletas amarrando uma tira de borracha em cada roda e inflando-as. Três anos antes, Karl Benz criara o primeiro automóvel movido a gasolina – que logo teria pneus de borracha vulcanizada. Foi o começo do boom.
Em 1830, Manaus se chamava Barra e era uma vila de três mil habitantes. Em 1880, a cidade tinha 50 mil habitantes e exportava 12 mil toneladas de borracha para a Europa. A terrível seca de 1877-79, no Ceará, provocara um fluxo migratório para o Amazonas, e os retirantes viraram seringueiros, esvaindo a seiva de oito milhões de árvores espalhadas por três milhões de quilômetros quadrados.
Image A ÁRVORE QUE CHORA: conhecida há milênios pelos indígenas, a seringueira – na página ao lado, em desenho científico feito no século XIX – foi “descoberta” em 1743 pelo francês La Condamine, que a revelou para a indústria ocidental.
As ruas, hotéis e cafés de Manaus fervilhavam, repletas de banqueiros ingleses, investidores norte-americanos e prostitutas francesas. A cidade tinha trezentos telefones, dezesseis quilômetros de linhas de bondes elétricos e três linhas de navegação que a ligavam à Europa e aos EUA. Em 1896, foi inaugurado o primeiro teatro do Brasil, o fabuloso Amazonas, decorado com opulência.
Mas em 1904, quando Manaus estava no zênite, exportando 80 mil toneladas de borracha por ano, as sete mil sementes de seringueira que o inglês Henry Wickham contrabandeara trinta anos antes enfim brotavam na Malásia. Em breve, fariam a produção brasileira ruir como um castelo de cartas. Em 1906, Manaus havia virado quase uma cidade fantasma. Seu teatro fechou – e com ele acabou-se a farsa do lucro fácil.
Embora a produção de borracha brasileira viesse a ganhar sobrevida com a eclosão da II Guerra Mundial, a exploração incompetente, cruel e irracional deste extraordinário recurso vegetal acabaria transformando aquele ciclo econômico numa espécie de ópera-bufa.
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