Estou Bem
Os “vestidos de branco”, de novo
Acredito que chegou o momento de abordar o fascinante e desconhecido universo dos sonhos; algo
muito mais real e tangível do que supomos…
Compartilho a opinião que aparece em Cavalo de Troia: “Os sonhos são o pátio por trás da
Divindade”. O Mestre dizia com frequência: “Busque a pérola nos sonhos”.
O presente caso foi protagonizado por um avô e sua neta, ao mesmo tempo, e em circunstâncias
singulares.
Não estou autorizado a revelar suas identidades, e bem que lamento isso. Deixarei que seja um dos
filhos do dito avô quem narre o sucedido. Nós nos conhecemos desde 1974. Eu o considero como meu
irmão mais velho. É uma pessoa brilhante e honesta.
O duplo acontecimento teve seu lugar no País Basco, Espanha. Meu amigo me contou tanto
verbalmente como por escrito. A carta dizia:
Querido Juanjo:
Respondo à sua carta de 1-9-1978. A partida do meu pai deste mundo material aconteceu em 22-11-
1978, tendo ele 78 anos de idade na época (sua idade andava junto com o século). A outra
protagonista do episódio do qual você me pergunta não foi, portanto, minha neta, que agora tem cinco
aninhos, mas sim minha filha mais velha, que nasceu em 1970 e estava na ocasião com oito anos de
idade.
Eu me lembro do episódio com exatidão, porque essas coisas a gente não esquece. Meu pai tinha
sofrido de bronquite crônica durante longo tempo, e que já havia complicado para um enfisema
pulmonar secundário. Ele levava uma vida bastante limitada pela dificuldade respiratória e passou
por duas ou três internações hospitalares pelos severos episódios de crise aguda. Mas tinha cumprido,
também, um dos seus- grandes sonhos: comemorar um mês antes, em 24-10-78, suas bodas de ouro
(cinquenta anos de casamento) com minha mãe, mandando celebrar uma missa no salão da sua casa,
com um banquete e a presença de todos os seus filhos e netos. Estivemos todos ali.
Eu tinha o costume de, antes de ir para a minha casa à tarde, depois do trabalho, passar pela casa
dos meus pais (vivíamos perto, dobrando a esquina) para ver como estavam e ficar conversando um
pouco com eles.
Em uma dessas tardes, meu pai disse: “Filho, veja só, quero dizer que estou bem e em pleno uso das
minhas faculdades mentais. Pode ser que eu não dure muito mais tempo, mas isso não importa. Vivi
uma vida de plenitude, comemorei minhas bodas de ouro e estou preparado para ir embora quando
Deus quiser. Desejo morrer na minha casa e na minha cama. Não quero mais internações hospitalares.
No dia em que eu piorar, você cuida de mim e o que você fizer estará bem-feito, e, se eu falecer, será o
normal, porque esta situação já não dá mais”.
Depois de poucos dias dessa declaração, meu pai voltou a piorar. Eu continuei tratando dele, com
altos e baixos na evolução do quadro, e, um dia, minha filha mais velha (repito, de oito anos de idade
na época) me disse: “Aita, ontem à noite sonhei com o aitite” (como você sabe, aita e aitite significam “pai” e “avô” em basco). Não dei importância, e a coisa ficou assim, por isso mesmo.
Porém, no dia seguinte, voltei a estar, como de costume, com meu pai. Eu o encontrei na cama,
entretanto bastante estável. Ele queria me perguntar algo: “Escute, filho, já sabe que, quando
envelhecemos, cada vez dormimos menos a cada noite e eu gostaria de acender a luminária da
cabeceira e ler; contudo, para não incomodar a sua mãe, que dorme ao lado, fico com a luz apagada,
deitado, apoiado em alguns travesseiros para poder respirar melhor (já tinha começado a congestão
cardíaca) e fico com os olhos abertos olhando a escuridão, bem confortável e tranquilo. E aqui é onde
eu vi algo que me surpreendeu, e queria perguntar se há relação com algum medicamento que você me
dá e que pudesse dar algum tipo de efeito secundário. O que ocorre é que eu estou vendo pessoas
vestidas de branco que se aproximam da minha cama, me olham e vão embora. Na verdade, não sinto
nenhum medo, ao contrário, nesses momentos eu me sinto muito bem”.
Esclareci a ele que isso não era efeito colateral de nenhum dos medicamentos e lhe perguntei:
“Você conhece alguma dessas pessoas?”.
“Não. Não sei quem são. Mas ontem à noite, sim, reconheci uma delas. Era a sua filha María! E eu
lhe disse: ‘Olá, María!’ Ela ficou me olhando por alguns instantes, não respondeu nada e depois
desapareceu. Me deixou com uma sensação de estranheza.”
Quem ficou cheio de estranheza e boquiaberto fui eu. E, assim que cheguei a casa, falei com a
minha filha:
– María, você se lembra do sonho que teve com o aitite alguns dias atrás?
– Lembro, sim. Eu estava na minha cama, saí e fui para a casa do aitite.
– Um momentinho! Quer dizer que você se levantou, se vestiu, saiu de casa, desceu pelo elevador,
foi andando pela calçada até a casa do aitite…
Ela me olhou como alguém que vê uma pessoa irremediavelmente tola.
– Aita! Não é assim que se faz. É assim: a gente sai flutuando pela rua e passa pela parede e entra
no dormitório do aitite.
– Ah! E o que você viu?
– Vi a cama do aitite, e na cama tinha dois aitites. Um era um aitite muito velho que estava recostado
em uns travesseiros. O outro era um aitite jovem, branco, que ficou me olhando e me disse: “Olá,
María!”.
– E você, o que fez?
– Nada, fiquei olhando e depois voltei para a cama.
Dois ou três dias depois desse encontro astral, no dia 22 de novembro de 1978, na primeira hora da
manhã, meu pai precisou ir ao banheiro e pediu ajuda a minha mãe, para acompanhá-lo. Quando
tentou levantar-se, não conseguiu. Ficou sentado à beira da cama e se despediu da minha mãe.
“Adeus! Vou partir. Foi uma alegria viver tantos anos com você.” E caiu morto. Cruzou a fronteira…
Não tive como evitar.
O relato de meu amigo me fez recordar outra experiência, vivida por meu pai quando estava a ponto de
morrer. Ele também viu pessoas vestidas de branco ao redor da cama do hospital[1]:
– … Apareceram à noite. Eu não os conhecia – assegurou meu pai. – Eles me olhavam e falavam entre
si… Pareciam enfermeiros, médicos… Então aconteceu algo estranho. Aquelas pessoas – “os
enfermeiros” – tocaram minha testa, e eu me senti em paz. Foi uma sensação incrível e desconhecida.
Desapareceu a dor, e a angústia também. Senti-me feliz… Naquela madrugada eu falei com você e tentei
contar-lhe isso.
– Não me lembro – respondi.
– Eu estava acordado. Você se aproximou da cama, pegou minha mão e a tomou entre as suas. Senti seu
calor e sua força. E então você me disse: “Papai, fique tranquilo”. Eu, então, envolvido por esse imenso
amor que me preenchia, respondi: “Não… quem tem que ficar tranquilo é você”. Mas acho que você não me compreendeu. Depois, docemente, tudo escureceu. Deixei de ouvir e de sentir. Parecia um sonho.
– Um sonho?
– Isso mesmo, um doce e benéfico sonho.
– E a morte?
– Assim é a morte, querido filho. Você dorme, nada mais…
– Parece simples.
– E é o que é… Seu Chefe (creio que é dessa forma que você chama o bom Deus) é muito discreto…
Deus nos treina todos os dias para morrer… A morte é um mecanismo simples, necessário para
prosseguir. Cada noite, ao deitar-se, a gente ensaia essa última cena. E o faz com tranquilidade e
credulidade. Pois bem, a única diferença é que, ao morrer, você desperta em outro lugar… E sem pijama.
O pai do meu amigo faleceu em 1978. Enfim livre! foi publicado no ano 2000. Obviamente, o pai do
meu amigo não pôde ler o livro no qual se fala das pessoas “vestidas de branco”…
Como dizia o Mestre: “Quem tiver ouvidos que ouça”.
Por causa da publicação de Enfim Livre! venho recebendo muitas cartas e e-mails. Uma dessas
comunicações me deixou perplexo. Vinha de Konstanz, Alemanha. Quem a assinou foram dois
professores da universidade, aos quais chamarei de Eva e Franc.
O evento aconteceu em 1998.
A carta dizia assim:
Querido amigo: permita-me que eu lhe trate de “você” em vez de lhe tratar como “senhor”. Acabo
de ler o livro Enfim Livre! que você dedicou a Eva. Após ler as primeiras páginas, nas quais você fala
da morte do seu pai, me veio à memória um fato que ocorreu faz dois anos e lhe relatarei em seguida.
Uma amiga da minha mãe, uma pessoa muito boa e carinhosa, começou a sentir-se muito mal.
Depois de se consultar com vários médicos, foi diagnosticado que sofria de câncer. O estado da
doença estava muito avançado; assim sendo, não havia muito a fazer…
As dores, no final, eram terríveis. Entretanto, um dia, essas dores passaram. Isso foi pouco antes de
sua morte.
A seguir, o que o marido conta que aconteceu:
“Eu estava no quarto e de repente a vi olhar para o vazio e sorrir. Nós dois estávamos sozinhos. Eu
lhe perguntei por que sorria, e ela me disse que alguns enfermeiros muito bonitos, vestidos de branco,
tinham estado ali e a haviam tocado; fizeram uma punção em sua língua e ela já não sentia dor. O
problema é que eu não vi ninguém”.
Essa história é a que o marido contou para minha mãe quando ela foi visitar sua amiga, pouco
antes do final. Minha mãe, não sei por quê, me contou imediatamente.
Não pude ir vê-la. Não tinha coragem suficiente.
Espero que, se os “homens de branco” que essa senhora viu são os mesmos que visitaram seu pai,
minha amiga também se encontre ao lado do bom Deus.
Um abraço…
Algum tempo depois, através da minha página oficial na web[2], recebi uma notícia muito semelhante à
anterior. Devo esclarecer que até o dia de hoje nenhuma dessas duas experiências veio à luz. Nem os
professores alemães sabiam de Anita, nem Anita, por sua vez, sabia da experiência dos amigos de
Konstanz.
Mas vamos ao que interessa.
A informação, como eu dizia, chegou à minha página da internet em 2008. Quem assinava era Carlos
López Sánchez, técnico em arquitetura. Mais tarde, viajei a Alicante, Espanha, e tive o prazer de
conhecer Carlos e María de la Gracia, sua esposa.
Conversamos muito. Realmente, foi muito interessante…
Em síntese, essa foi a experiência vivida por Anita, a mãe de María de la Gracia.
– Minha mãe – explicou a filha – era muito especial. Tinha a mente aberta, era sensível e possuía uma
cabeça avançada para seu tempo. Dizia que a vida era um sonho. Somente isso. Falava e falava do além.
Repetia que tinha estado lá em diferentes ocasiões…
Mas, em maio de 1997, num checape de rotina, detectaram câncer no abdome de Anita. Ela estava com
76 anos.
Anita. (Cortesia da família.)
A situação mudou a vida da família.
E María de la Gracia se dedicou por completo ao cuidado da mãe.
Pouco depois, começaram as dores. Eram espantosas e diárias. Como rajadas de vento furioso. Anita
acabou prostrada na cama. Não podia mais caminhar.
Pois bem, um mês antes do seu falecimento, ocorreu algo pouco comum…
– Eu estava em casa – expôs María de la Gracia –, ocupada com os afazeres habituais. Talvez fosse
17h. Minha mãe estava em seu quarto, na cama. Ela me chamou…
“– Mari!… Mari!…
“Fui ver imediatamente o que estava acontecendo. Pensei que ela estivesse precisando de algo.
“– O que houve, mamãe?
“– Sente-se, filha, sente-se… Veja só… Vou lhe contar uma coisa… Você sabe que eu não minto, não é
verdade?
“– Claro, mamãe… Mas… por que está me dizendo isso?
Carlos e María de la Gracia. (Cortesia da família.)
“– Você vai ver… espere… É que…
“Minha mãe, com as mãos entrelaçadas sobre o peito, hesitava. Não se atrevia a contar o que tinha
acontecido. Em seu rosto podia se adivinhar a preocupação. Era a cara de uma criança que está disposta
a confessar uma travessura…
“– Vamos, mamãe!… Conte!
“– Veja só, filha… Vieram três senhores… Vestiam jalecos brancos… Eram bem altos e magros…
Para mim, eram médicos…
“– Como?… Três médicos? Por onde entraram? Não ouvi a porta abrir…
“– Sim – replicou a mãe –, acabaram de ir embora.
“Sinceramente, eu me senti confusa. Minha mãe não mentia. Nunca fez isso. Tinha a cabeça no lugar.
Contudo, como expliquei, eu não tinha aberto a porta para ninguém.
Quarto de Anita e a posição dos três misteriosos “médicos” que a visitaram um mês antes do seu falecimento. Caderno de campo de J. J.
Benítez.
“Busquei reencontrar a serenidade e a deixei falar.
“– Um deles se aproximou da cama… Os outros ficaram um pouco mais para trás, ao lado da janela…
O que estava ao meu lado me fez massagens no ventre e nas pernas… Depois, todos desapareceram.
“– Eles vieram para curá-la?
“– Não, filha, vieram para preparar-me. Resta-me pouco tempo. Eles vieram para que eu não sofra
mais.
“– Mas eles falaram? Te disseram algo?
“– Não, eles apenas olhavam… Eu acho que são os médicos do céu.
“Não consegui que ela me dissesse mais nada – prosseguiu Gracia. – Não se lembrava dos rostos dos
‘médicos’. Perguntei se ela tinha sentido medo. Negou com a cabeça.
“As dores desapareceram.”
– Não precisou de morfina?
– Ninguém conseguiu compreender como aquela mulher, com um câncer em estado terminal, não
precisava de sedativos.
Um mês depois, no dia 18 de janeiro de 2000, Anita faleceu.
Faltavam treze dias para que eu concluísse o texto do livro Enfim Livre!
– Como ela morreu?
– Feliz. Eu lhe perguntei se ela sentia medo. Disse que não. Disse que sabia que não ia desaparecer e
que conhecia o lugar para o qual estava indo. “Eu vou para o meu lugar”, manifestou. Sorriu. Fechou os
olhos e se foi…
– Como era esse “além” que ela dizia ter visitado?
– Mamãe assegurava que era um mundo paralelo, um lugar a que não temos acesso (ainda). Outra
dimensão… Dizia que, ali, as pessoas trabalham e estudam. E afirmava que os “cientistas do céu”
transmitem ideias aos da Terra… Falava de edifícios de cristal e de flores cujas cores não conhecemos.
E fazia cara de brincalhona quando mencionava o “dinheiro do céu”.
– Por quê?
– Porque no céu as coisas não funcionam com dinheiro. Isso era o que ela dizia. Ela queria voltar ao
que chamava seu lar, sua verdadeira pátria…
Assim era Anita, a mulher que viu os “médicos do céu”.