Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 22 de 102

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Estou Bem

“Vovô, o que está fazendo aqui?”

Madeline é uma jovem sensível e especialmente inteligente. Encontrei-me com ela nos Estados Unidos.

Ao saber que eu investigava casos de “ressuscitados”, ela veio me encontrar para narrar uma série de

acontecimentos, protagonizados por ela na adolescência.

Primeiro caso:

 

Eu tinha quinze anos. Minha vida se centrava basicamente na escola e em casa. Sou a mais nova de três

irmãos e a única mulher. Meus pais são galegos, dessa maravilhosa geração de emigrantes que teve que

passar por tantas coisas…

Meu avô paterno, Camilo, faleceu quando eu tinha treze anos. Eu não estava em Caracas quando

aconteceu. Nesse verão, minha mãe teve que viajar para a Espanha para resolver não sei que papéis

importantes e me pediu que eu a acompanhasse. O vovô já estava mal, mas a viagem não poderia ser

postergada. Meu pai ficou com meus irmãos.

Alguns dias mais tarde, estando em Coruña com minha mãe, eu estava meio que dormindo quando

escutei a voz da minha mãe ao telefone. Dizia: “Bem, Senén, tinha que acontecer… Ele agora está melhor

do que nós… Não se preocupe… Eu direi a Madeline que o vovô faleceu”.

Naquele momento, não saberia dizer se eu estava sonhando ou se realmente havia escutado a voz da

minha mãe. Algum tempinho depois soube que não fora um sonho. Eu me levantei e chorei.

O avô Camilo sempre esteve próximo de nós. Minha avó materna morreu quando eu era pequena. Meu

avô materno faleceu antes que eu nascesse. A avó materna sempre viveu na Espanha. Eu somente a via no

verão, e durante poucos dias, quando meus pais decidiam ir à aldeia. O avô Camilo, em contrapartida,

sempre viveu em Caracas. Antes de morrer, passou alguns meses em casa conosco. Eu ainda me lembro

dele descendo a escada enquanto eu o tomava pelo braço.

A verdade é que eu não estava em Caracas quando ele se foi. Não fui ao enterro nem tive consciência

de que aquilo havia sido real…

E dois anos se passaram…

Nesse dia, eu me recostei. Foi um dia normal, não houve nada que tivesse relação com meu avô. Não

falamos sobre ele, nem eu me lembrei dele de algum modo especial. Então tive um sonho muito

estranho…

Eu estava com meu irmão do meio, Álex, em frente a nossa casa, em Caracas. Todas as portas do carro

estavam abertas. Álex estava perto – eu sabia disso –, mas na realidade, na cena, a única coisa que eu via

era o automóvel e a mim mesma…

Virei em direção à rua para pegar algo, como que para limpar o carro por dentro, e de uma hora para

outra, quando voltei a olhar para o carro, ali estava ele!… Era o meu avô Camilo! Eu o vi igualzinho

como o recordava, com os olhos azul-celeste, os lábios finos, calças cinza, uma camisa de manga longa, a

bengala e a inseparável boina…

Eu o olhei com assombro e lhe disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo: “Vovô, o que está

fazendo aqui? Você não está morto?”

Ele me olhou tranquilamente e respondeu: “Sim, Madeline, estou morto… Só vim aqui para dizer-lhe

que ainda falta muito tempo para que esteja conosco, quero que você se porte bem… para quando chegar

o momento de estar com sua avó e comigo. Escute-me bem, falta muito tempo, você ainda tem muito chão

pela frente, contudo saiba que irá se encontrar em situações difíceis, e só quero que você se comporte

bem”.

Por algum motivo, meu irmão Álex me chamou, e eu girei de novo a cabeça em direção à rua para

dizer-lhe que me esperasse, que estava falando com o vovô. Não deu tempo de nada. Voltei a cabeça em

direção ao Corolla e o vovô já não estava mais ali…

Na manhã seguinte, despertei com um intenso sentimento de nostalgia. Não sabia se deveria contar o

sonho para meu pai. Já se tinham passado dois anos. Decidi contar para minha mãe. Porém, ela é uma

mulher prática, e, embora tenha se impressionado, não quis dar importância ao assunto. Suponho que para

que eu não me assustasse…

Sim, foi um sonho, mas algo muito real, muito sentido. E ficou gravado para sempre na minha

memória…

 

Segundo caso:

 

Um tempo depois, tive outro sonho estranho. Desta vez foi com Lola, uma tia que vivia em Barcelona,

Espanha.

 

Madeline Mazaira Hermida. (Cortesia da família.)

 

Da mesma maneira que a avó Ángela, Madeline somente via a sua tia Lola na época do verão.

Pois bem, no sonho ela se apresentou diante de mim, muito próximo do meu rosto. Eu somente podia

ver seu rosto. O sonho todo se resumia a isso: seu rosto. E repetia várias vezes: “Ajude-me, Madeline!…

Ajude-me, ajude-me!”

Desta vez eu acordei chorando e muito tensa. Fui procurar minha mãe e contei para ela o sonho. A

princípio mamãe não me deu importância, mas acabou telefonando para a Espanha. A tia Lola estava

hospitalizada…

Vovô Camilo. (Cortesia da família.)

 

Terceiro caso:

 

Eu ia completar dezessete anos. Minha mãe tinha uma boa amiga que acabou falecendo de câncer. Era

uma mulher muito simpática, eu gostava dela…

Pelo que me lembro, tinham se passado cinco anos desde sua morte…

Então tive um sonho. Em Caracas há um centro comercial (shopping) que naquela época era muito

frequentado. Chamava-se Centro Ciudad Comercial Tamanaco (CCCT).

Por alguma razão que desconheço, eu estava ali, caminhando sozinha pelo CCCT. E de repente, no

fundo de um dos corredores, vi essa amiga da minha mãe…

Fiquei assombrada. Fazia cinco anos que tinha morrido!

Caminhava normalmente como se nada tivesse acontecido, e estava rodeada de meninos e meninas

entre sete e nove anos…

Pareciam contentíssimos…

Aproximei-me e lhe disse: “Rosita, o que está fazendo aqui? Você não morreu?”. E ela respondeu

tranquilamente: “Sim, Madeline, mas é que, de vez em quando, me dão permissão para eu vir passear

com as crianças”.

Presumi que essas crianças fossem pessoas que estivessem perto de nascer. Não sei por que pensei

isso…

E ela continuou: “Eu vim dizer-lhe que, por favor, diga à minha filha que ela pare de chorar… Estou

bem… Ela não tem que continuar se lamentando pelo fato de eu não estar mais com ela…”

E repetiu: “Estou bem… Estou tranquila e feliz”.

Nesse momento, despertei.

Lembrava-me perfeitamente do vestido rosa, de duas peças, que Rosita estava vestindo e também de

seu rosto maquiado, como de costume, quando estava viva…

Novamente fui falar com minha mãe, mas ela se recusou a telefonar para a filha de Rosita. Insisti

muito, e minha mãe acabou telefonando. A filha reconheceu que não conseguia deixar de se lembrar da

mãe e que chorava sem cessar…