Estou Bem
O elevador de Valme
Naquela segunda-feira, 22 de dezembro de 2003, por volta das 13h, algo me impulsionou para mudar
de planos. Segui a intuição.
O veículo em que o Dr. Rafael López de la Manzanara viajava, no momento em que foi resgatado das águas no rio Guadalquivir. (Foto: Ángel Doblado.)
Eu saía de Cádiz e me dirigia a Sevilha (Espanha), com a finalidade de dar continuidade a algumas
investigações habituais. Pois bem, como eu disse, “algo” me obrigou a sair da estrada. Pouco tempo
depois eu me encontrava em frente ao Hospital de Valme, no sul da mencionada cidade de Sevilha.
Nesse momento eu trazia nas mãos um caso tão espetacular quanto trabalhoso[1], e decidi arriscar a
sorte. Os médicos e enfermeiras daquele hospital tinham que saber algo a respeito daquilo.
E continuo lendo o caderno de campo: “… Procuro no terceiro andar do hospital (Setor da
Maternidade)… Pergunto e pergunto. Médicos, enfermeiras e supervisores conheciam o Dr. De la
Manzanara, mas não sabem nada sobre o assunto do parto… Que falta de sorte…
Alguém me sugere conversar com Isabel Pavón, a supervisora.
Eu a localizo e lhe explico… Ela me deixa falar… Nega com a cabeça… Tampouco sabe algo sobre
essa história, contudo sabe de outra, não menos intrigante. Ela me conta, narrando os mínimos
detalhes…”
Foi assim que eu iniciei a investigação do caso do “Elevador de Valme”.
Alguns dias depois regressei ao hospital e, por intermédio de Gemma Núñez e da citada Isabel Pavón,
finalmente tive acesso ao protagonista do acontecido: um supervisor ao qual eu chamarei de FM.
Os fatos se registraram da seguinte maneira:
No outono de 1988, FM se ausentou do hospital para participar de um curso na cidade de Granada
(Espanha). Ficou ali até julho de 1989. Depois retornou a Valme e retomou suas atividades como
supervisor do andar.
E então chegou o inverno de 1990. FM não se lembrava da data exata.
– Nesse dia, o meu turno era no período da noite… Por volta das 11h desceu uma das auxiliares da
Maternidade e me pediu um remédio. Conversamos por alguns instantes. Não lembro o nome…
“Cerca de 1h da madrugada decidi fazer uma pausa no trabalho e subir até o sexto andar. Precisava
fumar…”
FM se encontrava no primeiro andar.
– Caminhei até o elevador, verifiquei se estava funcionando ou não, e apertei o botão. “Alguém
chamou o elevador”, pensei. Mas não…
“Chegou vindo de algum andar de baixo. Não sei se do 0 ou do –1…
“As portas se abriram, e me encontrei com Carmen Montero, auxiliar de enfermagem… Eu a conhecia
há anos…
Botões do elevador que FM tomou. (Foto: J. J. Benítez.)
Diagrama traçado do encontro com Carmen Montero, extraído do caderno de campo de J. J. Benítez.
“Ela apareceu recostada perto dos botões do elevador…
“Eu a cumprimentei. Dei-lhe boa-noite, mas não obtive resposta… Ela não disse nada. Encostei-me no
canto oposto e a observei… Parecia cansada. Tinha o olhar fixo na parede. Estava ausente… Estava
vestida de branco, mas sem a credencial.
“Não dei importância à aparente falta de consideração. Era tarde. A essas horas, cada um já está
envolvido em seus próprios pensamentos…
“Segundos depois, as portas se abriram e Carmen caminhou lentamente… Saiu do elevador e virou à
esquerda em direção à Sala de Partos… Normal… Ela trabalhava ali…”
FM retificou:
– Normal, não… Ao sair tampouco se despediu…
O elevador havia parado no terceiro andar (Maternidade).
FM regressou à sua sala e acabou comentando o seu encontro com Carmen. Seus companheiros ficaram
desconcertados. Isso não podia ser. Carmen Montero del Pozo tinha morrido em março de 1989 no
Hospital García Morato, em Sevilha, em decorrência de um aneurisma de aorta. E isso fazia mais de um ano.
FM compartilhou o elevador com a falecida durante pelo menos doze segundos. Caderno de campo de J. J. Benítez.
Contudo, FM não estava enganado. A “pessoa” que se encontrou com ele no elevador era Carmen. A
descrição coincidia com o que ele e os companheiros sabiam: loira, alta, pele clara, olhos azuis, forte,
lábios pintados (inclusive quando trabalhava)…
– Carmen tinha muita vitalidade e era extrovertida. Ela adorava brincadeiras. Sempre estava de bom
humor… Por isso achei estranho que ela não tivesse me cumprimentado…
Indaguei no hospital, e os dados estavam corretos.
FM não soube da morte de Carmen Montero porque, como disse, quando ocorreu o falecimento dela,
ele se encontrava na cidade de Granada, portanto ausente do hospital. Quando retornou a Valme, ninguém
lhe falou nada sobre o assunto. Para FM, portanto, Carmen estava viva quando se encontrou com ela no
elevador.
Na opinião de FM, o elevador poderia estar vindo do andar –1. Ficam ali os vestiários e o
laboratório. O supervisor achou que Carmen tivesse descido ao andar –1 porque esquecera algo no
armário ou porque levava uma amostra ao laboratório. Depois, obviamente, teve que pressionar o botão
do terceiro andar. Como se pode recordar, o elevador se deteve no dito andar, mas não tinha ninguém
esperando ali. O mecanismo, portanto, teve que ser ativado do interior do elevador. Em outras palavras,
tinha que ser a falecida quem o fizera.
Segundo meus cálculos, o elevador precisava de cerca de seis segundos para deslocar-se de um andar
ao outro. Se a “mulher” (?) acionou o botão para o andar –1 e a máquina se deteve no terceiro andar, isso
quer dizer que Carmen permaneceu no interior do elevador durante o espaço de 24 segundos,
aproximadamente. FM, de sua parte, compartilhou a cabine com a “falecida” durante doze segundos mais
ou menos.
Outras pessoas do Hospital de Valme asseguram ter visto a “loira” em vários lugares daquela
instalação; especialmente no local das empilhadeiras. Mas essa é outra história…