Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 69 de 102

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Estou Bem

A volta do Guerrero del Antifaz

A história de Manuel Gago aconteceu como em outras ocasiões. Primeiro recebi uma carta. A data

assinalada era de 16 de janeiro de 2000. Usei a técnica da “geladeira”, e deu resultado.

Assim dizia aquela primeira missiva:

 

Querido amigo;

Não o conheço senão por meio de seus livros, e, no entanto, o cabeçalho desta carta é totalmente

sincero…

Estou lhe escrevendo porque hoje tive uma intuição que me levou a redigir esta carta…

Acabo de “devorar” Cavalo de Troia 6 – Hermon. Fabuloso, em especial as quatro semanas de

convivência com o Mestre, as palavras Dele para Jasão e Eliseu…

Não vou lhe perguntar sobre as fontes que inspiram seu trabalho. Isso pertence somente a você,

mas… E a documentação científica? Como é possível abarcar tanto?

Li os seis livros da série Cavalo de Troia e, em muitas vezes, ao aparecer o Mestre, senti arrepios…

de carinho em relação a Ele.

Não quero cansá-lo ou aborrecê-lo mais, senão lhe fazer partícipe de uma experiência que, até

agora, não pude compartilhar com ninguém, nem sequer com meus familiares mais diretos. Eis aqui,

muito sintetizada, a “história”:

Nasci dia 20 de fevereiro de 1949 (estou nervoso e perco um pouco o controle da caneta-tinteiro), e

desde que tive consciência de mim mesmo me vi como um sujeito estranho, excessivamente

“delicado”, assustadiço e assustado… Bem, não. Isso aconteceu quando veio ao mundo meu irmão

Miguel, e tudo mudou para mim. O mundo, que tinha sido de cores radiantes, passou a ser branco e

negro… E assim foi durante muitos anos.

1. O pai de Manuel Gago aparece no dormitório. 2. Beija o filho e em companhia de sua nora se retira da sala. 3. Conversam por 2 horas. 4 e

5. Lola vai até a cozinha e oferece um copo de água para o “ressuscitado”. 6. Caminham até a porta do dormitório, e aí ele se despede e

desaparece. Caderno de campo de J. J. Benítez.

 

No colégio dos Irmãos Maristas de Valência ouvi falar, pela primeira vez, de Jesus de Nazaré

(continuo nervoso), e aí então começaram meus primeiros movimentos de racionalização a esse

respeito… Do tipo: Como era possível que aqueles “irmãos” pregassem as maravilhas de Jesus se eles

foram tão maus?

As respostas viriam com os anos, a experiência e a inteligência que me foi concedida.

O caso é que, ao nascer meu irmão, com quem tenho uma diferença de três anos e meio, minha mãe

se desvinculou emocionalmente de mim e passou a ignorar-me, e então me tornei um menino

deprimido, envergonhado e apático. Esse “despojo” quem o acolheu foi meu pai, que trabalhava em

casa (em sua sala-estúdio), e ali eu passava meu tempo quando não estava em companhia dos terríveis

Maristas… Definitivamente, busquei refúgio nele, e ele me acolheu. E assim se passaram muitos anos.

Quando eu já estava combalido, no que se refere a minha adaptação social e laboral, meu pai

faleceu. Foi no dia 29 de dezembro de 1980 [1] .

O mundo caiu.

Eu estava sozinho.

Meu suporte havia ido embora para sempre.

Chamaram-me da editora para a qual meu pai havia trabalhado e me encomendaram que eu

continuasse as Nuevas Aventuras del Guerrero del Antifaz, que meu pai deixara inacabadas.

Aceitei, e escrevi e desenhei seis horrorosos episódios que vieram à luz em 1995…

No dia 2 de julho de 1981, casei-me com uma pessoa que, como eu, embora por outras razões, era

desafortunada.

Pois bem, na noite de 12 de fevereiro de 1982, deitei ao seu lado com a firme determinação de que,

no dia seguinte, assim que eu saísse na rua, procuraria um advogado e daria entrada na

documentação para o início do processo de separação e divórcio.

Porém, assim que despertei, minha esposa, ao meu lado, me disse textualmente:

– Você passou a noite inteira falando com seu pai.

Pensei que tivesse sido um sonho, mas não…

E ela prosseguiu:

Manuel Gago, criador do Guerrero del Antifaz. (Cortesia da família.)

 

– Despertei e o vi sentado ao pé da cama…

“Ele sorria e perguntou:

“– Você sabe quem eu sou, não é verdade?

“– Sim – respondi –, o pai do Manolo…

“Então ele deu a volta na cama, agachou-se e deu um beijo em você… “Depois me disse que

saíssemos dali, para não acordar você…

“E fomos para a sala.

“Ali conversamos…”

Lola, minha mulher, continuou:

– Perguntei-lhe se ele queria um café, e respondeu que não, mas, sim, tomaria um copo com água…

“Fui até a cozinha e levei a ele sua água…

“Bebeu, e ficamos conversando…

“Parecia cansado. Tirava os óculos e voltava a colocá-los. Esfregava muito os olhos…

“Perguntei-lhe como estava, e ele disse que bem (melhor do que antes), mas ainda lhe faltavam

coisas…

“– Que coisas?

“Ele me olhou e respondeu:

“– Algum dia todos nós estaremos muito bem…

“Disse isso rindo, como se não pudesse dizer mais nada…”

A mensagem – prossegue Manuel Gago em sua carta – era para mim. Lola foi somente a receptora-

transmissora. Ela praticamente não entendeu nada do que meu pai terreno lhe transmitiu, mas eu senti

arrepios porque as coisas que disse apenas quem sabia era eu…

O tremor e a alegria me inundaram. E perguntei para a minha mulher:

– E como é que eu não acordei? Você não acendeu a luz?

– Não precisava – respondeu Lola. – Ele trazia sua própria luz…

Por estarem envolvidas outras pessoas nesse “acontecimento” não posso (por ora) relatar o seu

conteúdo íntimo. Apenas expressarei agora, para finalizar, a “despedida”. Foi assim:

– Bom, já é bem tarde e tenho que ir – manifestou meu pai.

“Assim que você acordar, diga ao Manolo tudo o que eu lhe disse. Você vai esquecer dentro em

breve, mas ele se lembrará por toda a vida.”

– Quer que eu o acompanhe até a porta? – perguntou Lola.

– Não, não é preciso. Conheço o caminho… Deite-se. Agora virá a sua avó.

Sorriu. Disse adeus com a mão e desapareceu.

Lola disse-me que, pouco depois, chegou sua avó, mas não lhe disse quase nada; que conhecia meu

pai, que tinha demorado porque ela estava mais longe… E que há quem nasce com estrela e quem

nasce estrelado.

A partir daí, minha vida mudou…

Lola não quer mais ouvir falar “daquilo”…

Ou seja, do divórcio. Continuo casado com ela. Eu a amo e aprendi a ter paciência (quase infinita).

Deixei de ser um desastre social. Estudei magistério, apesar dos meus 33 anos…

Aquela aparição, os incompletíssimos evangelhos, seus livros, outros livros que falam do Mestre, do

nosso Mestre, o carinho que os alunos têm por mim e que eu tenho por eles, e a “centelha” de Abba,

me sustentam e me animam, e dão sentido à minha vida…

 

Manuel Gago, filho, ao lado do retrato do seu pai. (Cortesia da família.)

 

Depois dessa carta, seguiram-se outras.

Finalmente, em outubro de 2012, quando avaliei que tinha transcorrido o tempo adequado, fui para

Valência e tive uma longa conversa com Lola e Manuel Gago.

A esposa confirmou a experiência e reportou alguns valiosos detalhes. Conferindo:

1. A aparição não foi um sonho. Foi real.

2. O que despertou a mulher foi uma luz no dormitório. A luz que saía do corpo do falecido.

3. Após beijar o filho, eles foram para a sala.

4. Ela fumou sem parar. Na manhã seguinte, contaram as bitucas: sete. Isso significava umas duas

horas, em tempo real. O cinzeiro deveria estar vazio (eles costumavam limpá-lo antes de deitar).

5. O pai de Manuel Gago bebia água em pequenos goles. Depois pousava o copo na mesinha. As

possíveis impressões digitais não foram analisadas.

6. A luz que emitia o personagem se refletia nas lentes dos seus óculos.

7. Ao despedir-se, o “ressuscitado” deu umas palmadinhas no braço da mulher. Lola sentiu como algo

físico.

8. A mulher conhecia seu sogro por fotografias. Os óculos que usava nessa ocasião eram diferentes dos

que ela havia visto.