Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 67 de 102

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Estou Bem

O homem do bote

Aquela manhã de agosto em Águilas, Espanha, foi tranquila (aparentemente).

O mar se mostrava azul e sereno.

Tudo convidava a um banho.

E as irmãs Purificación e Carmen Flores decidiram entrar na água e nadar um pouco. A mãe – também

chamada Carmen – aderiu à ideia e nadou com as filhas em direção a umas boias de sinalização.

As mulheres não suspeitavam do que estava prestes a acontecer…

Eu soube desse fato em julho do ano de 2000, em uma inesquecível viagem pelo Egito. As irmãs

Flores faziam parte do grupo. Francamente, a viagem foi boa…

E uma tarde – não lembro por quê – Mari Puri e Mari Carmen contaram o que aconteceu naquela

quente manhã de agosto, na praia murciana de Águilas:

 

Era meio-dia…

Toda a família se encontrava na praia…

Era o habitual em agosto…

O mar estava muito tranquilo e decidimos tomar um banho…

Minha mãe veio conosco…

Não éramos boas nadadoras, mas a água parecia estar gostosa e calma…

E nadamos…

E nadamos sem problemas, até o lugar fixado…

 

Uma oportuníssima imagem: Carmen, com touca, e as irmãs Flores nas águas de Águilas. (Cortesia da família.)

 

Calculo que nadamos uns 100 metros, ou um pouco mais…

Foi então, ao decidirmos que deveríamos voltar, que começaram os problemas…

A margem estava longe, e nossa mãe não se sentiu com forças para voltar…

Não dava pé, e lhe dissemos que boiasse virada para cima, para descansar…

Tentamos animá-la e tranquilizá-la…

Não tínhamos pressa. Podíamos regressar pouco a pouco…

Porém, nossa mãe, cada vez mais nervosa, a única coisa que dizia é que não nos aproximássemos

dela…

Tudo o que ela mais queria é que a deixássemos e que não a tocássemos…

Imagine a tensão…

Minha irmã e eu – prosseguiu Mari Puri – não sabíamos o que fazer nem como reagir…

Obviamente, não podíamos deixá-la ali. Ela poderia se afogar…

Tampouco devíamos nos aproximar e tentar ajudar. Se nós tivéssemos nos aproximado, o mais

provável é que as três estariam correndo perigo em função do seu nervosismo…

Foram momentos horríveis…

Não sabíamos o que fazer…

Nisso, à nossa direita, apareceu um bote…

Minha irmã Mari Carmen levantou o braço…

Agora, pensando friamente, não consigo entender – comentou Mari Puri. – Estávamos sozinhas na água.

De onde saiu aquele bote?…

Era um bote a remo…

E a pequena embarcação se aproximou de nós…

O homem que a conduzia não nos disse nada. Não questionou. Continuou sentado na popa, com as mãos

sobre os remos…

Nós nos limitamos a ajudar a nossa mãe…

Não sabemos como, mas conseguimos levar a mamãe para cima do pequeno bote…

O homem continuava sentado e mudo…

 

Mari Carmen (à esquerda) e Mari Puri, durante a viagem ao Egito (julho do ano 2000). (Foto: Blanca.)

Carmen Cano, a mãe. (Cortesia da família.)

 

 

Uma vez que nossa mãe subiu na embarcação, o homem começou a remar, e o bote se distanciou em

direção à beira da praia…

E nós ficamos ali…

Foi desconcertante. O homem não se preocupou conosco. Nem sequer perguntou se precisávamos de

ajuda…

Contudo, o mais incrível é que nossa mãe tampouco se interessou por nós…

Continuou no bote, silenciosa, até que o homem a deixou na margem…

Permanecemos na água, boiando, tentando nos recuperar do susto e comentando sobre a sorte que

havíamos tido…

Depois a ficha caiu: De onde saiu aquele bote? Estávamos sozinhas…

Três anos depois da viagem ao Egito, pude entrevistar novamente as irmãs Flores e Carmen Cano, a

mãe.

O relato de Carmen foi idêntico ao já mencionado. E ela acrescentou alguns detalhes:

– Eu estava morrendo de medo. Permaneci sentada e encolhida no bote, sem me mover…

– Como era o homem?

Carmen não se lembrava. A aparência do “pescador” havia se apagado de sua memória…

– O homem remou por cinco ou dez minutos – prosseguiu –, e o fez em silêncio. De repente, começou a

falar: “Da próxima vez, não vá tão longe”…

Alberto Cano, falecido um ano antes do incidente nas águas de Águilas, Múrcia. (Cortesia da família.)

 

Anotações no caderno de campo de J. J. Benítez.

 

– Você teve a sensação de que o conhecia?

– Não sei… Foi tudo tão confuso…

Então, a certa distância da orla, o homem falou pela segunda vez.

– “Bem, deixo você aqui”, declarou ele. Verifiquei onde estávamos e então constatei que ainda

estávamos longe da praia, e pedi que me deixasse mais perto. Sentia medo…

E o homem continuou remando…

Ao saltar na água, estavam ali os familiares e amigos, todos em estado de alerta. Tinham observado a

cena da praia, mas não prestaram atenção no “pescador”.

– No dia seguinte, ou dois dias depois – acrescentou Carmen –, fui me consultar com um tal de Felipe,

um curandeiro. Fui por outro assunto… E, assim que me viu, ele falou do susto que passamos e do homem

do bote… Disse que era um familiar meu, já morto, e que se chamava Alberto…

Eu, desajeitado como sempre, segui perguntando sobre o bote:

– Era novo?

– Não sei…

– Que objetos havia no bote?

Carmen negou com a cabeça. Não se lembrava de nada.

– Como o “pescador” estava vestido?

– Acho que usava um casaco, ou uma roupa social, mas não tenho certeza…

– Um pescador com roupa social?

Carmen encolheu os ombros.

Não consegui novos dados. Ela não se recordava do rosto nem do tom de sua voz. Nada.

Mari Puri fez algumas pesquisas e confirmou que um familiar de sua mãe, chamado Alberto Cano,

faleceu em 31 de julho de 1978. Está enterrado em Baza, Granada. Carmen tinha contato com ele.

Costumavam trocar cartas, e ela o ajudava com algum dinheiro, de vez em quando.

O incidente nas águas de Águilas, portanto, aconteceu em agosto de 1979. O “pescador” estava

falecido há um ano.

Isso explicaria, em parte, a singular atitude do homem do bote…

Explicaria por que apareceu do nada, chegando de repente…

Explicaria por que se manteve na popa, com as mãos nos remos…

Explicaria por que não perguntou nada e por que não mostrou interesse pelas irmãs…

Nenhum pescador de verdade se comportaria como Alberto Cano, o tio de Carmen…