Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 36 de 102

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Estou Bem

Deus é azul

Curioso. No mesmo período em que Virgilio Sánchez-Ocejo vivia a desconcertante experiência com

seu neto Rigo, alguém que não consegui identificar (e veja só, eu tentei) fez chegar às minhas mãos o

rascunho de um livro que ignoro se foi publicado ou não. Nele, fala-se das experiências de quase morte

(EQM). Pois bem, a partir da página 67, descreve um caso que me deixou atônito. Era parecido com o

que se manifestou com Rigo. A experiência foi vivida por uma menina paquistanesa. Eis aqui o texto que,

como eu digo, me foi enviado – misteriosamente – em 1997:

 

No final do outono de 1968, a mais nova de minhas duas filhas, que até então tinha dois anos e meio,

acabou morrendo em pouco tempo. Estava há vários meses enferma, piorando progressivamente.

Começou a ficar paralítica e mais tarde apresentou episódios de vômitos e cegueira. Eu era médico

militar e tinham me transferido para uma pequena unidade ao pé do Himalaia. Levamos Durdana ao

hospital militar, a alguns quilômetros de distância, para que a examinassem, contudo os exames

terminaram sendo de pouca ajuda. Os resultados apontaram que os sintomas poderiam ser sequelas de

uma encefalite virótica, que havia pouco tempo tinha acabado com a vida de muitas crianças da região.

Eu estava ocupado numa consulta quando meu ajudante entrou correndo para dizer-me que chamasse

minha mulher, que algo havia acontecido com a pequena Durdana.

Vivíamos num dos aposentos do quartel, numa casa ao lado do consultório militar. Durdana tinha

passado uma noite ruim, e, temendo o pior, fui correndo para casa. Após um rápido exame não

identifiquei sinais de vida. “Ela está morta”, disse. Com uma expressão quase de alívio, porque a menina

tinha sofrido muito, minha esposa pegou com delicadeza o corpo sem vida de nossa filha e se apressou a

levá-lo para dentro. Eu a segui. Existem certas medidas de emergência que são obrigatórias, segundo o

regulamento militar, e um colega, que tinha me acompanhado desde o consultório, saiu em busca do

equipamento necessário.

Minha esposa levou a menina para nosso quarto e a colocou na cama. Após outro exame, segui com o

procedimento das medidas de emergência prescritas, sabendo que era improvável que surtissem algum

tipo de efeito. Enquanto eu fazia o exame, me surpreendi repetindo, de modo meio inconsciente e em voz

baixa: “Volte, filha, volte”.

Cabeçalho da prova tipográfica que nenhuma pessoa identificada me enviou… Agora eu sei por que tinha que chegar às minhas mãos.

 

 

Como último recurso, minha esposa verteu na boca da menina umas poucas gotas de niquetamida, um

estimulante do coração que também lhe havíamos dado na noite anterior. Um fiozinho de líquido saiu de

sua boca sem vida e deslizou pela maçã do rosto. Nós continuamos a observá-la com tristeza. Então, para

nosso assombro, a menina abriu os olhos e, após fazer uma careta estranha, disse com seriedade que o

medicamento era amargo. Então voltou a fechar os olhos. Apressei-me a examiná-la de novo, e ela

começou a dar sinais de vida, se bem que muito débeis de início.

Poucos dias depois, quando Durdana havia se recobrado da sua “morte” e minha esposa, da sua

comoção, mãe e filha estavam no jardim.

– Para onde foi minha pequena alguns dias atrás? – perguntou minha mulher.

– Bem longe, para as estrelas – foi a surpreendente resposta.

Agora, Durdana é uma menina inteligente e se expressa muito bem, e o que ela diz deve ser levado a

sério, senão ela fica bem brava.

– E o que você viu ali, querida?

– Jardins.

– E o que havia nesses jardins?

– Maçãs, uvas e romãs.

– E o que mais?

– Havia riachos; um riacho branco, um marrom, um azul e um verde.

– E tinha alguém ali?

– Sim, meu avô estava ali, e a mãe dele e outra senhora que era bem parecida com você.

Minha esposa estava muito intrigada.

– E o que eles lhe disseram?

– O vovô disse que estava muito alegre em ver-me, e sua mãe me sentou em seu colo e me deu um

beijo.

– E depois?

– Então ouvi o papai dizer: “Volte, filha, volte”. E daí eu disse para o vovô que o papai estava me

chamando e tinha que voltar. Ele me disse que eu deveria perguntar isso a Deus. Assim, fomos encontrar

Deus, e o vovô lhe explicou que eu queria regressar. “Você quer voltar?”, perguntou-me Deus. “Sim”,

respondi eu, “devo voltar, meu pai está me chamando”. “Está bem, então vá”, respondeu Deus. E desci

das estrelas até a cama do papai.

Cerca de 12 mil quilômetros separam Miami do Himalaia.

 

Isso era o mais interessante. Durdana tinha descido realmente para minha cama, onde raras vezes

esteve, levando em conta que as meninas dormem ou brincam em suas camas ou na de sua mãe, nunca na

minha. E, quando Durdana voltou a si, não estava em condições suficientes para saber onde estava. Mas

minha mulher estava mais interessada na entrevista de Durdana com o Todo-Poderoso.

– Como era Deus? – perguntou-lhe.

– Azul – foi a desconcertante resposta.

– Mas como era a sua aparência?

– Azul.[1]

Por mais que tentasse naquele momento, e depois, conseguir que a menina descrevesse Deus com mais

detalhes, ela apenas repetia que ele era azul.

Pouco depois, levamos Durdana para Karachi, a fim de submetê-la a uma neurocirurgia e seu devido

tratamento no Hospital de Jinnah. Após uma complexa operação no cérebro, Durdana começou pouco a

pouco a recuperar-se. Eu voltei para o meu trabalho, enquanto minha mulher permanecia em Karachi com

Durdana em convalescência. Antes de regressar, vários parentes e amigos foram nos visitar. Na casa de

um dos meus tios, enquanto eles conversavam tomando uma xícara de chá, Durdana começou a passear

pelo ambiente, apoiando-se nos móveis para não perder o equilíbrio, porque estava tão debilitada depois

da enfermidade que ainda não era capaz de permanecer em pé por si mesma. De repente gritou: “Mamãe,

mamãe!” Minha mulher foi correndo até ela. “Veja”, disse animada Durdana, apontando a velha fotografia

da mesa, “esta é a mãe do vovô. Eu a conheci nas estrelas. Ela me pôs em seu colo e me deu um beijo”.

Durdana tinha razão. Mas minha avó morreu muito antes que a menina nascesse; e havia somente duas

fotos dela, ambas em posse do meu tio. Era a primeira vez em sua vida que minha filha visitava aquela

casa, e não poderia ter visto aquela fotografia antes…

 

Naturalmente, até o dia de hoje, nem Rigo sabia da existência de Durdana, nem ela sabia sobre o

acontecido entre Virgilio e seu neto. Na verdade, na Cabala, o número 67 (número da página do

manuscrito enviado), entre outras equivalências, tem o mesmo valor numérico que as palavras “avó” e “anciã” (!).