Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 77 de 102

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Estou Bem

Na sacada e de cueca

Em uma das minhas viagens ao Panamá (maio de 1997), encontrei-me com Álvaro Marcos Menéndez

Franco, escritor e filósofo panamenho.[1]

Conversamos muito, e – não sei por quê – ele narrou duas experiências com “ressuscitados”, cada uma

mais singular do que a outra.

Eis aqui a primeira:

 

Durante a greve dos motoristas de transportes públicos no ano de 1965, eu me vi obrigado a caminhar

desde o Distrito de Río Abajo, na Cidade do Panamá, até San Francisco de la Caleta…

Para chegar até a Rua 92 (antiga Rua 70), atravessei La Carrasquilla a pé…

Pois bem, ao passar pela rua transversal anterior ao lugar onde havia funcionado o Departamento de

Aquedutos e Esgotos, olhei para a sacada do primeiro andar de uma velha casa de madeira, pintada de

verde com fundo branco…

Que surpresa!

Inclinado sobre a sacada e olhando-me fixamente encontrava-se um político, marido da minha tia

materna Elva Ticiola Franco…

 

Álvaro Marcos Menéndez foi diplomata antes da invasão do Panamá. (Foto: Blanca.)

 

Era o bacharel Carlos Alvarado Alemán, falecido em outubro do ano anterior (1964)!…

Alvarado foi um advogado que se destacou nos assuntos de educação…

Foi casado com minha tia por 35 anos…

Eu vivi com eles no interior do país entre 1946 e 1948…

E o conhecia muito bem…

Ele estava sem roupa, somente de cueca. O que chamamos aqui de “flanela branca”…

Estava com óculos – parecidos com os óculos de Gandhi – sobre a ponta do nariz e, como eu lhe disse antes, olhava-me atentamente…

Senti os pelos do meu corpo se arrepiarem e continuei caminhando…

Na realidade, corri até o perder de vista na Via Belisario Porras…

Não tenho a menor dúvida: era ele!…

Dias depois, comentei o que houve com a viúva…

Elva me olhou fixamente e manifestou:

 

– Em 1936, meu marido Carlos trabalhava no comando da Polícia Nacional, aqui no Panamá, e uma

noite, nessa casa onde você disse que o viu, enfrentou uns malfeitores… Meu marido acabou ferido na

cabeça…

 

A segunda vivência de Álvaro registrou-se anos mais tarde. Tampouco ele a esquecerá…

 

Aconteceu em 1970…

Nessa data, entrou em vigor uma anistia política no Panamá, e eu pude sair da prisão…

Certo dia, decidi pegar um pequeno ônibus, dos que faziam a rota da Praça 5 de Mayo até Balboa…

Minha intenção era ir até o popular café dos políticos, o Coca-Cola…

 

Teodoro Palacios, morto na cadeia de Coiba, no Pacífico, a trinta horas do Panamá. (Cortesia da família.)

 

E, ao me dispor a subir no ônibus, dei de cara, descendo do veículo, com um velho e excelente

amigo…

Era Teodoro Palacios, líder sindical e nativo de Colón…

Teodoro foi um dos líderes da Marcha del Hambre y la Desesperación…[2]

Fomos presos pelas autoridades do Panamá em 1963, quando ambos regressávamos de Havana…

Esse acontecimento nos uniu muito. Éramos bons amigos…

Eu afavelmente o cumprimentei. Fazia muitos anos que não o via…

Quis abraçá-lo, mas ele se esquivou…

E me olhou com um olhar estranho, como se eu lhe fizesse recordar alguém que ele odiava…

E desapareceu…

Entrei no ônibus, seriamente preocupado…

O que eu havia feito a ele?

Dias depois, fui conversar com um sacerdote, amigo meu, e contei-lhe o que houve no ônibus…

O homem me olhou com incredulidade e expressou:

– Não é possível… Palacios morreu em junho na Colônia Penal da Ilha de Coiba… Eles o penduraram

de cabeça para baixo e o golpearam com um taco de beisebol…

Estávamos em outubro… Ele morrera em junho!… Como pude vê-lo descendo do ônibus?…

Teodoro vestia guayabera azul-clara e calça comprida escura. Não me lembro de ter visto seus pés…