Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 63 de 102

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Estou Bem

“Olha que quarto mais lindo…”

Num dia de junho de 2006 recebi uma carta procedente de um escondido e belo povoado asturiano.

Quem a remetia era Maria de los Ángeles Martínez Vior. Reproduzirei a missiva integralmente:

 

J. J. Benítez

Apartado Postal 141

Barbate 11160 – Cádiz

Sr. Benítez, atrevo-me a dirigir-me ao senhor e roubar-lhe alguns minutos do seu precioso tempo,

porque, casualmente, encontrei seu endereço em um dos seus livros e decidi escrever-lhe para que o

senhor saiba de um evento que, para mim, foi maravilhoso.

Explico-me:

Sou uma pessoa cética quanto à religião, embora tenha que dizer-lhe que Jesus de Nazaré sempre

me intrigou e li tudo o que eu pude sobre Ele. Também devo dizer que sou (para minha desgraça) uma

dessas pessoas um pouco “incomuns” que têm “pressentimentos” sobre coisas que ainda não

aconteceram, mas que para meu “desespero” acontecem.

Bem, vou direto ao assunto.

Quando meu pai adoeceu (eu o adorava) lidei terrivelmente com isso. Não aceitava e como

consequência me rebelava (tenho um caráter bastante forte). Durante um ano fui a sombra do meu pai,

indo de médico em médico, sempre esperando que nos dessem alguma esperança, quando não havia.

Quando, inexoravelmente, chegou o fim, me irritei tanto com o Chefe que fiquei nove meses sem falar

com Ele.

 

María de los Ángeles Martínez Vior. (Cortesia da família.)

Entretanto, no meu interior, precisava saber que meu pai estava bem. Só precisava disso, tão pouco,

mas era muito para mim.

Quando estava nessa luta comigo mesma, comecei a ler seu livro Cavalo de Troia. Fiquei tão

impressionada que li a série completa. O senhor me apresentou um Deus humano, acessível e sincero.

Tudo o que eu, sem saber, provavelmente buscava. Isso me deu um pouco de paz, e então um milagre se

fez.

Uma noite, enquanto dormia, tive um “sonho” que não foi normal. Não sei explicar. Foi como se

tivesse sido levada para estar ao lado do meu pai e ele me disse: “Não fique triste… Estou bem”.

Eu nunca me lembro do que sonho, mas na manhã seguinte eu era outra pessoa. Comecei a

reconsiderar e me dei conta de que Ele sempre esteve ali, comigo, embora eu estivesse tão irritada que

não fosse capaz de vê-lo. Lembrei-me do aroma de rosas, de um certo roçar de lábios na minha testa

(isso já havia acontecido comigo antes). Ele tratava de me consolar, mas eu não deixava. O Chefe,

como um pai paciente, que sabe que seu filho tem uma birra, esperou que eu me tranquilizasse para

abrir seus braços e dizer-me: “Estou aqui. Eu a compreendo e a aceito como é”.

Sr. Benítez, o senhor me devolveu Jesus de Nazaré, aquele que eu sempre procurei…

 

Deixei o assunto repousar e, seis anos depois, interroguei Marian sobre o sonho que havia esboçado na

carta anterior. A carta com a resposta chegou em setembro de 2012. Entre outras coisas, dizia o seguinte:

 

… Em meu “sonho” eu estava brincando com minha mãe e minha irmã Elena, que é deficiente

mental… Brincávamos de esconde-esconde… Por um grande corredor de hotel, com portas à esquerda

e à direita, elas corriam, rindo e olhando para trás… Eu também corria, para pegá-las, quando o

corredor terminou… Estava a ponto de pegá-las quando, de repente, meu pai “saiu” da parede e,

colocando-se entre mim e elas, pôs as mãos na cintura (coisa que fazia quando me repreendia), olhou-

me nos olhos, sorriu e disse: “Por que está tão irritada e triste?… Eu estou bem”. E desapareceu.

 

Magdalena e Valentín, pais de Marian e de Elena. (Cortesia da família.)

 

Como lhe disse, eu estava com uma grande depressão. Meu pai morreu de câncer… Tivemos que

sofrer toda uma peregrinação por hospitais e médicos… Houve luta e decepção… Acabei sem

esperanças. Entretanto, acima de tudo, eu precisava saber que meu pai estava bem…

E o Chefe o colocou diante de mim… No sonho, meu pai mostrava um aspecto jovial, como quando estava com 40 ou 45 anos. Mostrava-se sorridente… Apresentou-se oito meses após a sua morte,

ocorrida no dia 27 de dezembro de 1999…

Depois de sete anos da morte do meu pai, minha mãe faleceu… Mas eu já tinha aprendido a lição…

Dessa vez não senti ódio nem rancor. Somente uma imensa dor por sua partida, contudo algo me dizia

que os dois estavam juntos… Dessa vez não recebi notícias de sua chegada, mas minha irmã sim, que,

devo lembrar-lhe, é deficiente mental. Porém, esse é outro sonho que talvez em outra ocasião eu lhe

conte.

 

É lógico que me interessei pelo sonho da irmã. Marian respondeu em outubro. Dizia, entre outras

coisas:

 

– Minha irmã se chama M. Elena e tem deficiência mental, reconhecida oficialmente pelos médicos,

de 68 por cento… É como ter em casa uma criança que não cresce, embora tenha 42 anos… É uma

borderline (transtorno de personalidade limítrofe, por sofrimento no ventre durante o parto). Desde

que ela nasceu, meus pais trataram de protegê-la mais do que a nós (somos três), e sempre a

preocupação deles era com seu futuro. Quando o papai morreu, ela ficou com a mamãe, e iam juntas

para todos os lados.

Já que chegamos a este ponto, tenho que esclarecer que vivo em outra cidade, a 1 hora de viagem.

Então, mamãe adoeceu de câncer, e todos os seus esforços para obter uma cura eram por minha

irmã. No entanto, pouco a pouco, seu estado foi se deteriorando, até que morreu no dia 22 de maio de

2006.

Trouxemos Elena para minha cidade, para viver conosco, e a comoção em sua vida foi total. Porém,

com amor, paciência e boa vontade, superamos todas as dificuldades…

Assim, quase sem me dar conta, chegou o primeiro aniversário da morte de mamãe. Numa manhã,

Vanessa, minha filha, levantou-se para ir ao trabalho e, chorando, me contou que se sentia triste

porque havia “sentido a presença” dos seus avós… Fora naquela noite; ela sentira medo e os avós

retrocederam e partiram… Eu a consolei, e então ela saiu. Pouco depois, Elena, minha irmã, levantou-

se e durante o café da manhã contou:

– Esta noite meu pai e minha mãe estiveram no meu quarto.

Senti o sangue congelar em minhas veias. Só consegui responder:

– Conte-me.

E Elena prosseguiu:

– Eu estava em minha cama, mas não estava dormindo… Por isso sei que não foi um sonho… Além

do mais, eu não os vi… Somente os escutei falar… Primeiro ouvi a porta do meu quarto se abrindo e

achei que era você para me dar boa-noite… Depois, escutei as portas do meu armário e pensei que

você estava guardando minha roupa, mas então ouvi a voz do papai que dizia:

Elena (à esquerda) escutou seus pais mortos no quarto. Vanessa (à direita), filha de Marian, também sentiu a presença deles, mas se assustou.

(Cortesia da família.)

 

“– Veja que quarto mais lindo que María Elena tem… Está muito bom…

“E, do outro lado da minha cama, mamãe lhe respondeu:

“– Sim, mas eu a deixei sozinha.

“E papai lhe disse:

“– Ande, venha comigo. Vamos…

“As persianas se mexeram, escutei algumas pequenas batidinhas e tudo acabou… Não tive medo…

Eu me sentia muito bem.”

 

Simplesmente assombroso…