Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 45 de 102

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Estou Bem

O Joven Alonso

A manhã do dia 8 de dezembro de 1960 foi negra e triste para Barbate, província de Cádiz (Espanha).

A notícia correu como pólvora.

Um navio pesqueiro, com base no pequeno povoado gaditano, tinha desaparecido no fim da tarde ou

começo da noite do dia anterior.

Um fortíssimo vendaval o tragou.

O acontecimento ocorreu na costa do Marrocos, perto do cabo Espartel.

Desapareceram 39 homens.

Um deles – o timoneiro – apareceu morto na praia marroquina. Do resto das pessoas e do barco, nunca

mais se soube…[1]

 

Imagem do Joven Alonso. (Foto: Riera.)

 

No povoado ficaram cem órfãos.

Nesses dias – anteriores e posteriores à tragédia – foram registrados estranhos acontecimentos em

Barbate. Ninguém soube explicá-los.

Eu dediquei muito tempo à investigação dos tais fatos, assim como a conversar com os familiares e

amigos dos tripulantes do [2] Joven Alonso . No total, foram três anos de pesquisas.

Eis aqui uma síntese de alguns desses fenômenos inexplicáveis:

 

1. A primeira pista sobre Rosario Palomar Vite me foi proporcionada por meu amigo e pesquisador

Rafael Vite, de Vejer de la Frontera. Dizia assim:

A Sra. Palomar é uma pessoa de religião católica, é crente e praticante. Ela possui em sua residência numerosos quadros de santos pendurados nas paredes, entre eles a imagem da Virgem de la Oliva,

padroeira de Vejer de la Frontera, em Cádiz. Segundo ela, a avó que a criou era natural da dita cidade.

Faz aproximadamente 25 anos que ela foi limpar o recipiente da lamparina de confirmação que ela

tinha acendido diante de um dos quadros, e, ao colocar de novo o recipiente em seu lugar, verificou,

perplexa, o aparecimento repentino, no seu interior, da imagem de um barco. Após vários movimentos

violentos, o dito barco começou a afundar, cravando-se finalmente no fundo. E, após produzir um grande

alvoroço de pedras e areia, ficou semissepultado. Ela acrescenta que, enquanto o barco ia afundando,

observou uma coisa pequeníssima, no formato de um fósforo, que se separava da embarcação. Finalmente

pôde contemplar, horrorizada, a cena de terror e espanto que havia no interior do navio.

 

Assinalado pelo círculo, o possível local em que o Joven Alonso afundou.

 

Essa trágica visão, ao que parece, se manifestou dois dias antes do naufrágio do Joven Alonso, barco

de pesca matriculado em Barbate.

A partir de então, a Sra. Palomar caiu em depressão e abatimento, o que durou por muito tempo. De

maneira contínua, dizia aos seus familiares – quando eles tentavam animá-la – que jamais conseguiria

apagar de sua mente a trágica cena do interior do barco.

 

Interroguei várias vezes Rosario Palomar na cidade de Cádiz, onde vivia, e sempre respondeu com a

mesma versão:

 

O barco caiu de boca para baixo…

E ficou enterrado na areia e entre as rochas…

Por isso não saiu nada…

Eu tive a visão no dia 5 de dezembro de 1960…

Navio pesqueiro Joven Alonso. Folha 986 da terceira lista de matrícula de Barbate, Cádiz, Espanha. Motor “Laval”, de 103,02 CVE. Ano de

construção: 1948, em Barbate. Propriedade de Francisco Domínguez e irmãos.

 

Como disse Vite, ela visualizou dois dias antes o desaparecimento do barco.

Quando eu lhe perguntei sobre a estranha “coisa” que viu sair da embarcação naufragada, Charo

comentou:

 

Era reluzente como a luz de um fósforo, porém violeta e muito pequena. Subiu vagarosamente…

Depois eu vi o que ocorria no interior do navio… Foi espantoso… As pessoas tentavam fugir, mas não

podiam… Morreram abraçados uns aos outros… Depois vi a escuridão e o silêncio… E as bolhas que

saíam… Ali ficaram os mortos, com os olhos abertos e espantados… E seguem ali…

 

Efetivamente, apesar do esforço das autoridades e dos pescadores da região, o Joven Alonso

desapareceu sem deixar rastro.

 

2. A segunda experiência relacionada com o barco foi vivenciada por Ricardo Romero, irmão de um

tio meu.

Ricardo tinha então vinte anos.

Era tripulante do Joven Alonso.

Naquela manhã, quando se preparavam para partir, Ricardo sentiu-se repentinamente enfermo.

 

Foi uma angústia muito grande, explicou. Não tinha dor, mas não podia mover-me.

E caí em prantos…

Não sabia identificar o que ocorria… Os nervos me comiam…

Deram-me chá de tília, mas a tristeza não desaparecia…

Quiseram me levar ao médico, mas eu não conseguia me mexer.

Eu vivia na Rua San José, n o 3, bem perto da casa de Esteban, o dono do barco… Esteban soube o que

estava ocorrendo e disse para minha mãe que não me preocupasse… Eles me pegariam ao voltar de

Ceuta…

 

Ricardo Romero ficou em terra e se salvou.

Ricardo Romero salvou-se no último momento. (Cortesia da família.)

 

A angústia desapareceu nesse mesmo dia, quando o Joven Alonso se lançou ao mar…

Agora eu compreendo… Mais ou menos.

 

E Ricardo e eu continuamos conversando sobre o caprichoso e mágico Destino…

 

3. Sebastián Díaz Barrios, cujo apelido era Chano ou Chan, foi tropeiro por toda a sua vida. Um dia

decidiu ir para o mar. E embarcou no Joven Alonso. Foi outro dos marinheiros desaparecidos.

Pois bem, o tal Chano, uma vez morto, protagonizou vários eventos estranhos na localidade de

Barbate, onde havia vivido.

O primeiro foi vivido por Antonia Domínguez, sobrinha de Chano.

 

Nessa madrugada de 7 para 8 de dezembro, comentou ela, por volta das 3h, escutei a voz do meu tio,

que me chamava:

– Antoñica!… Antoñica!

A voz soou tão clara que me levantei da cama e fui para a porta…

Não havia ninguém ali…

No dia seguinte soube da tragédia… Eu não sabia que Chano ia nesse barco…

 

Chano se apresentou num sonho para Carmen Varo, sua mulher, e lhe disse:

 

– Estou muito longe… Estamos todos juntos, trabalhando.

 

E foi em sonhos, igualmente, que Antonio viu o seu irmão Chano.

 

– Estou bem – disse-me. – Não se preocupe.

Em outra ocasião eu o vi em um barco de Cádiz… Estava dormindo, encolhido no convés… Eu tentei

me aproximar, mas ao chegar perto ele acordou, me fez um gesto para que eu não avançasse e comentou:

“Tenha muito cuidado com os temporais”. Há pouco, naufragamos em frente ao Arroyo Judío…

 

Ana Díaz Barrios, irmã de Chano, na tarde da tragédia (7 de dezembro) se encontrava no quintal de sua

casa, em Barbate. De repente, em plena luz do dia, ela e uma vizinha, que a chamava de Pirraca, viram cair algo luminoso do céu. Espantaram-se. Esse “algo” tinha a forma de calça e precipitou-se num barril

de água. Ana e Manuela Escudero, a vizinha, se esforçaram para averiguar o que havia caído no barril.

Não encontraram nada.

Horas mais tarde, chegava a notícia do desaparecimento do barco.

Pouco depois, Ana sonhou também com o garoto Chan, como chamavam Sebastián Díaz Barrios.

 

Eu o vi num bosque, perto de uma árvore, no lodo, afundando…

Eu lhe estendi a mão e o ajudei a sair…

Então ele disse que vinha de muito longe…

O caso de Juani, filha de Chano, foi insólito também:

 

Pouco depois de ser registrado o desaparecimento, comentou ela, eu estava em minha casa, pintando o

teto. Tinha subido numa escada dobrável…

Descuidei-me e, ao mover o corpo para trás, perdi o controle e comecei a cair…

Dei um grito e, nesse instante, senti umas mãos nas minhas costas que me seguravam…

Essas mesmas mãos foram as que me empurraram e me puseram novamente em pé, sobre a escada…

 

Juani, com o retrato do seu pai, Sebastián Díaz Barrios, apelidado de Chano ou Chan. (Foto: J. J. Benítez.)

 

Posso jurar, por tudo que há de mais sagrado, que não havia ninguém ali…

 

Segundo Juani, a “pessoa” que evitou a perigosa queda foi Chano, seu pai, recentemente desaparecido.

 

4. Beatriz Malía Varo, viúva de Francisco Domínguez Acuña, também desaparecido no Joven Alonso,

viveu duas experiências que jamais esquecerá.

 

A primeira aconteceu sete meses depois do naufrágio. Minha filha, Ana María, de quatro anos, ficou

doente…

Pois bem, um dia, quando estava prestes a entrar no quarto da menina, vi meu marido, de pé, inclinado

sobre o berço…

Olhava atentamente para sua filha…

Quando fui entrar no quarto, Francisco desapareceu…

A segunda vez que o vi, eu estava no quarto, dormindo…

Algo me fez acordar, e eu o vi em frente à janela, olhando para a rua…

Foi por um segundo. Depois desapareceu…

 

5. No dia 7 de dezembro de 1960, Loli González Muñoz estava cozinhando grão-de-bico com acelga.

 

Deveriam ser mais ou menos 21h30…

Meu marido – Francisco López Sánchez – estava navegando. Era um dos marinheiros do Joven

Alonso…

De repente, meu filho Fernando, que estava com 30 meses de idade, se dirigiu a mim e exclamou:

“Mamãe… Papai caiu!… Pum!… Tá todo sujo!… Água!”

Eu não lhe dei importância…

No dia seguinte, eu soube do desaparecimento do barco…

O naufrágio provavelmente aconteceu ao redor das 21h ou 21h30 do dia 7 de dezembro…

 

Francisco López Sánchez. (Cortesia da família.)

 

Loli González Muñoz, viúva de Francisco López Sánchez. (Foto: J. J. Benítez.)

 

6. José Román Rodríguez, mais conhecido como Corre, foi outro dos tripulantes do Joven Alonso. Vivia em Vejer de la Frontera, Cádiz, bem perto de Barbate. Tinha 31 anos quando desapareceu. Era uma

grande pessoa e muito brincalhão. Sua irmã e sua namorada me proporcionaram dados sobre ele:

 

Nesse dia, antes de pegar a bicicleta e descer para o porto, José permaneceu na porta de casa,

hesitante… Não sabia se ia ou não ia para o barco… Ficou assim por meia hora… Finalmente foi…

Nunca mais voltamos a vê-lo…

 

Corre tinha um costume. Cada vez que passava pela rua em que vivia sua namorada, gostava de jogar

pedras à janela do quarto de Antonia. Assim foi, dia após dia, durante os onze anos de namoro…

 

Juana, irmã de Corre. À direita, Antonia Pérez, namorada de José Román. (Foto: J. J. Benítez.)

 

No dia 8 de dezembro de 1960, bem cedo, a namorada escutou as batidas das pedrinhas contra o vidro

da janela.

Foi até a janela, mas não viu seu namorado.

 

Não podia ser, comentou. Corre estava no mar. Embarcara dias antes…

 

Àquela hora, de fato, o Joven Alonso já estava perdido.

 

E as batidas, na janela, se prolongaram por vários dias…

Eu sei – confessou a namorada – que era ele…

 

7. O que ocorreu com Antonia Utreta Domínguez, mais conhecida em Barbate como La Carabinera,

tampouco tem explicação lógica.

La Carabinera. (Cortesia da família.)

 

Na noite do naufrágio – explicou – vi uma luz debaixo da cama…

Era pequena, do tamanho da chama de uma vela…

Brilhava muito, com uma cor amarelada…

De repente, veio na minha direção e deu algumas voltas…

Depois, voltou ao lugar onde eu a tinha visto primeiro: debaixo da cama…

Meu corpo inteiro tremia, de puro medo…

E, depois de algum tempo, a luz saiu de baixo da cama e repetiu a operação. Girou ao redor da minha

cabeça e voltou para o seu lugar…

Ali esteve por duas horas…

De uma hora para outra, bateram à porta e a luz desapareceu…

Alguém trouxe a notícia da perda do Joven Alonso…

O estranho é que nesse barco não ia nenhum parente meu…