Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 15 de 102

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Estou Bem

Carícias, abraços e beijos

No dia 27 de abril de 2011, chegou à minha página na web uma extensa carta. Quem a assinou foi

Paqui Sánchez Roque. Acreditei que devia publicá-la na íntegra. Eis aqui o seu conteúdo:

 

Título da mensagem: A carta que nunca enviei

Quantas e quantas vezes me dispus a digitar o início deste escrito…

 

Olá! Meu nome é Paqui e cheguei à conclusão de que, para contar o que eu tento contar, é melhor

transcrever a carta que um dia, há onze anos, decidi mandar ao Sr. Benítez e que depois guardei entre as

páginas de seu livro Enfim livre!

Por que tantos anos sem relatar minha história? Creio que por medo de que me considerassem louca,

maluca etc. Já sabe: essa série de impropérios que são usados de forma tão divertida quando se fala

sobre esses temas.

Depois de onze anos, aqui está, em minhas mãos, a carta sem enviar…

Hoje – que corajosa eu sou! – decido compartilhá-la neste fórum. Não sei se o Sr. Benítez lerá, ou se

farão chegar a ele. Eu gostaria que sim… Inclusive, eu poderia enviar-lhe pelo correio, para sua caixa

postal… Mas não sei. Não consigo entender por que não faço isso. Entretanto, hoje eu me atrevo a

colocar aqui… Faz quatro anos que me registrei para postar, mas não me atrevi. Não sei o que vai

parecer para o senhor o que venho contar. Somente espero respeito. Então, passo a transcrever a carta,

escrita a caneta em 11 de agosto de 2000:

 

Meu querido e estimado Juan José:

Não sei como começar esta carta. Acabo de terminar de ler seu livro Enfim Livre!. E só tenho uma

coisa a dizer: “OBRIGADA”.

Precisava falar com alguém que me entendesse…

Entretanto, me assusta esta folha em branco diante de mim…

Venho de uma família normal, de classe média. Somos cinco irmãos (eu sou a quarta filha, tenho 34

anos). Meus pais, fantásticos, como todos os pais, me educaram, cuidaram de mim e têm me dado todo

o amor que os pais podem dar.

Estou casada com um homem maravilhoso e tenho uma filha pequena, de cinco aninhos.

Meu marido fala que sou uma pessoa justa, boa, um pouco obstinada, e que o que me deixa perdida

é que fico revirando as coisas em minha linda cabecinha… Embora ele também me agradeça porque,

graças a isso, muitas vezes ele chegou a ver e a compreender o que não via em sua teimosia.

Vou direto ao ponto.

Faz três meses (3 de junho de 2000) que uma prima-irmã chamada Lola faleceu.

Eu gostava dela, aliás, gostava muito dela, como se fora uma irmã.

Lola conviveu comigo por alguns anos na casa dos meus pais quando eu ainda era solteira,

enquanto estudava na Academia de Arte Dramática. Compartilhamos muitas coisas naqueles anos.

Ela morreu depois de sofrer seis meses angustiosos, lutando contra o câncer. Tinha 38 anos.

Em bate-papos na madrugada, quando vivíamos na casa dos meus pais, uma vez saiu o assunto da

morte. Ela era muito medrosa, como eu. Mas quando seu pai morreu, cinco anos antes, ela me

confessou que perdera um pouco o medo, devido a alguns acontecimentos que tinham ocorrido com ela

e que não relatarei, por respeito a ela.

Ainda assim, o tema dos fenômenos paranormais associados aos espíritos a assustavam. Da mesma

forma que a mim, embora no meu caso e na minha casa, desde que a minha filha nasceu, se

registrassem eventos de difícil explicação e que o psiquiatra com quem me consultei se encarregou de

desmascarar desacertadamente à base de remédios… Naturalmente, aquele tratamento acabou, mas

não os acontecimentos estranhos…

Jamais contei ao psiquiatra que meu marido também “padecia” dos acontecimentos que ocorriam

na minha casa. Ele teria diagnosticado isso como “histeria coletiva”, e meu marido não estava

disposto a tomar nenhuma medicação, nem estava de acordo com que eu a tomasse. Mas eu pensava

que aquelas coisas tinham que ter alguma explicação e achei que estivesse doente.

Ainda me lembro do sorriso do psiquiatra, zombando de mim. Que ignorante!

Volto ao tema.

A morte da minha prima mergulhou toda a família em uma grande tristeza. Ela era tão jovem… Tão

cheia de vitalidade… Era a alegria em todas as festas da família… E, quando nos juntávamos (somos

25 primos), ela era a predileta.

Estranhamente depois de sua morte, quando tentei me comunicar com seus irmãos, foi impossível.

Suponho que eu quisesse respeitar o luto deles e, ao mesmo tempo, era como se algo tivesse se

interposto entre nós. Uma separação ilógica.

Três semanas depois de sua morte, minha irmã comentou comigo que tinha sonhado com ela, com

Lola. Tive inveja de sua sorte. Oxalá eu pudesse vê-la, ouvi-la… Embora não fosse crédula, nem dada

a súplicas desse tipo, lancei esse pedido ao céu.

Não foi preciso rezar. Pouco tempo depois sonhei com ela. Foi um sonho normal. Bem, não tão

normal assim. Quanto ao seu aspecto físico, ela estava bem, como se mostrava antes da quimioterapia.

Havia mais pessoas no sonho. Curiosamente, estávamos todos montando um presépio de Natal. E

saliento a questão do presépio porque, tanto eu como ela, tínhamos grandes dúvidas a respeito do

tema religioso. É curioso que estivéssemos montando um presépio!

Quando acabei de colocar a estrela, ao voltar-me e olhá-la, vi que sua aparência já não era a

mesma. A quimioterapia tinha feito o seu trabalho, e Lola estava com um lenço na cabeça e um olhar

de ternura. Tinha um sorriso no rosto.

Despertei muito angustiada. Chorei muito. Meu marido tentava me consolar. Tive uma necessidade

urgente de falar com minha prima, a irmã de Lola. Desde que ela havia morrido, eu nunca mais tinha

falado com ela. Assim, telefonei. Do outro lado do telefone, seu amigo me dizia que minha prima não

podia atender nesse momento; não estava bem. A ligação telefônica vinha num mau momento, ele

dizia. “Ela está chorando… É que hoje faz um mês que faleceu a irmã.”

Eu não tinha me dado conta!

Olhei para o calendário e, de fato, fazia um mês que Lola falecera.

Acaso?

Em um mês eu não tinha falado com eles, e me dá vontade de telefonar justo nesse dia, bem no dia

do sonho…

Mas esse não é o motivo da minha carta.

A vida continua. E voltou a acontecer.

Foi em agosto de 2000.

Um dia, como outro qualquer, chegou a noite. Deitei e dormi.

E, de repente, algo me despertou. Era uma voz suave que me chamava: “Paqui… Paqui… Paqui, sou eu… Paqui, sou eu!”

Para minha surpresa, não me assustei com essa voz me chamando. Comecei com esforço a abrir os

olhos.

“Sou eu, Paqui… Não vai me dizer que não me conhece…”

Consegui abrir os olhos. Estava amanhecendo. A luz começava a entrar no quarto. Meu marido

dormia ao meu lado. A sensação foi de calma, muita calma. Nem um ruído. E comento isso porque vivo

perto de uma avenida com muito trânsito. O tráfego dos carros e dos caminhões costuma me despertar

todos os dias, bem como o piar dos pássaros que se atrevem a viver nas árvores à beira da via. Repito:

silêncio total e aquela LUZ…

“Meu Deus! Lola…!”

Isso foi o que pensei. E repetia em minha mente: “Lola, Lola…”

Eu a vi! Estava ali!

Foi inexplicável.

O que mais se aproxima de sua descrição é LUZ! Tudo era luz no quarto e, no meio, o seu rosto,

flutuando na luz. O cabelo era preto, longo e cacheado. Estava com a aparência que tinha antes de

ficar doente. Era toda felicidade e amor. Sei que vinha acompanhada de outra mulher, mas não soube

quem era. Essa “mulher” era uma luz maior e ainda mais linda.

Tentei despertar meu marido, mas não consegui. Meus movimentos eram lentos, muito lentos…

Parecia como se eu estivesse anestesiada.

Então, Lola falou comigo. Não mexia os lábios. Sorria sem cessar. E me disse: “Vim somente para

dizer-lhe que gosto muito de você… Para que fique tranquila… Fiquem tranquilos, estou bem… Muito

bem… Divinamente”.

Eu me remexi na cama. Olhei para o meu marido, que continuava dormindo. Quis avisá-lo de novo,

mas tudo era muito pesado, como em câmara lenta… Eu quase a toquei.

Então senti uma grande carícia. E escutei ela dizer: “Pssss, durma! Durma tranquila!”

E caí num profundo sono. Tão profundo que nem sequer senti meu marido sair quando foi trabalhar.

Meu despertar foi brusco, como alguém que inspira forte depois de ter estado sem respiração ou

que está se afogando no mar. Tudo na minha cabeça ficou amontoado. Tapei o rosto com as mãos e

comecei a chorar. Uma angústia tremenda começou a se apoderar de mim. Não foi um sonho, sei disso.

 

Paqui Sánchez. (Foto: Blanca.)

 

Telefonei para meu marido no trabalho e, de uma forma meio atropelada, contei o que acontecera.

Ele tentou me acalmar. Estava no trabalho, não podia fazer nada. Disse-me que eu telefonasse para

minha irmã. Fiz isso. Ela me aconselhou a me tranquilizar. Eu tinha a sensação de que eles não entendiam o que eu tentava dizer-lhes. Foi uma quebra de paradigmas! Todos os meus sistemas

preestabelecidos foram por água abaixo!

Uma pergunta começou a martelar na minha cabeça: Para quem eu poderia contar isso? Quem

poderia me ajudar? Eu sempre me havia perguntado o que há por trás da morte. E de repente era como

ter descoberto a resposta: AMOR!

Passei o dia relativamente tranquila, pensando…

Eu precisava falar com alguém que me “entendesse”.

Um padre?

Nãoooo!

Descartei a possibilidade. Faz muitos anos que não piso numa igreja.

Voltar ao psiquiatra?

Não estava disposta. Eu não estava doente!

Dormi tranquila essa noite. E na manhã seguinte recordei de um livro de Juanjo Benítez, do qual

tinha ouvido falar… Mas não me lembrava do título. Assim, fui a algumas grandes livrarias num

impulso irrefreável. Procurei pelo nome do autor. Nada. Não o encontrava.

De repente, na estante da parte de ficção científica (!), ali estava: Enfim Livre!

Às cinco da tarde terminei de lê-lo. Ou de devorá-lo. Eu o lerei de novo, com mais calma… Agora

só quero AGRADECER-LHE. Chorei lendo o livro. Você sim me entendeu sem ter me escutado…

OBRIGADA NOVAMENTE. Estou feliz e quero “VIVER”. E gostaria de compartilhar isso que

aconteceu comigo, mas… Com quem partilhar essa experiência? Creio que, no momento, fica entre

mim e você.

Com muito carinho: Paqui.

 

Essa carta é a que não foi enviada e que agora me atrevo a relatar-lhe… O que antes me deixava

angustiada agora confirma a maneira como penso. Saudações a todos.

P.S.: Agora só me resta um passo… Enviar-lhe.

Em 19 de agosto de 2011 tive a oportunidade de conversar pessoalmente com Paqui e seu marido. Foi

assim que eu a conheci, e, de viva voz, escutei essas e outras experiências. Algum dia eu me animo a

narrá-las. Neste momento, preferi tornar públicas as interessantes e significativas aparições de Lola.

 

“Estou bem”, manifestou-se Lola para sua prima-irmã Paqui. (Cortesia da família.)

O caso de Paqui me fez lembrar outro evento…

Quem o protagonizou foi Ana María Alonso de la Sota, uma egiptóloga com a qual mantive uma longa

e proveitosa amizade.

Ana María partiu deste mundo no dia 30 de dezembro de 2011, aos 84 anos de idade.

Uma das filhas me deu a notícia. E, ao interessar-me pelas circunstâncias de sua morte, Marina

respondeu o seguinte:

 

Prezado Sr. Benítez,

Sou Marina, a filha que vivia com ela. Esta carta é bem difícil de escrever, mas vou tentar

responder às suas perguntas.

Durante dois meses minha mãe estava num estado que não era ela. Não tinha vontade de viver.

Estava sempre dormindo. Parece que o oxigênio não chegava ao sangue, mesmo tendo o aparelho

ligado 24 horas. Enfim, estava cansada de viver. Às vezes me dizia: “Como é difícil morrer!”.

Quando recebeu seu último livro, mamãe ficou muito contente, enfiou dentro dele vários recortes

que tinha de revistas, recortou o envelope – é o que ela fazia sempre, mas não teve tempo… Deu

somente para folheá-lo. Não teve forças para lê-lo.

 

Ana María Alonso com seu esposo. Ela dizia: “A vida se transforma, não se perde”. (Cortesia da família.)

 

No dia 24 de dezembro, nós a internamos no Hospital Beata María Ana. Parecia que melhorava.

Estava mais animada. Mas, na madrugada do dia 30, teve uma parada cardíaca e descansou.

Como sei que o senhor também pensa que a morte não é o final, vou contar o que aconteceu dia 29

de janeiro de 2012. À tarde, eu estava vendo televisão e recordando os últimos momentos que passei

com ela, quando de repente senti que mamãe me dava um beijo na testa, e fui inundada por uma paz

que não dá nem para imaginar. Eu senti que ela estava em paz. Senti que já poderia ir para um lugar

melhor…

Ela gostava muito do senhor. Estava muito orgulhosa de seus livros com sua dedicatória. Muito

obrigada por suas condolências.

Saudações,

Marina.

Eu também a amava…

 

Em 2002, a Editora Planeta me fez chegar a seguinte missiva:

 

Valência, 17 de outubro de 2002.

Meu querido e tão admirado Juan José!

Eu lhe escrevo mesmo sabendo que o mais provável é que jamais chegue a ler esta carta.

Primeiro porque não sei qual é o seu endereço – sei apenas que vive em Barbate –, e segundo

porque devem ser tantas as cartas que recebe que não terá tempo de folhear todas.

De toda forma, aproveito que minha filha de onze meses dorme e meu marido está trabalhando para

fazer isso, que por outro lado nunca pensei poder fazer porque, como disse, nem sequer tenho ideia de

onde o senhor mora.

O caso é que, vendo sua foto na primeira página do jornal Enigmas Express – o que entregam com a

revista –, reparei em seu olhar. É uma mistura de tristeza, dúvida, desconcerto e inclusive desencanto.

Li que precisa de tempo para colocar ordem em suas ideias. Certamente não esperava que o senhor,

um homem jovem, forte e são vivesse algo assim [1] . Talvez agora lhe assaltem certas dúvidas em

relação ao porquê. Por que passei por isto? Por que não vi nada “do outro lado”? O que eu tenho a

aprender com esta experiência? Por que entrei com tanta segurança na sala de cirurgia? etc.

Certamente sobre essas e outras perguntas o senhor deve estar se questionando agora. Veja só, eu

não tenho a resposta, mas talvez minha experiência lhe sirva para alguma coisa.

Meus pais são da sua idade, aproximadamente. Meu pai nasceu em 1943 e minha mãe em 1948.

Ambos são de setembro, como o senhor. Foi ele que me fez ficar aficcionada pela leitura de seus livros.

Transcorria o ano de 1985.

Como o senhor fazia meu pai pensar, com suas teorias!

Pois bem, meu pai – um homem de uma compleição muito forte (era estivador), bem corpulento, era

um burro de carga, como se diz. Passou toda a sua vida carregando sacos no porto .

E no dia 7 de junho de 1991, no porão de um navio, sofreu um infarto. Teve outro na ambulância a

caminho do posto de saúde, e, embora tentassem reanimá-lo, quando chegou, já estava morto… Foi

inútil.

Tinha 47 anos.

Eu tinha dezenove.

No funeral, eu não podia acreditar que meu pai – o homem mais forte que eu conhecia – estivesse

morto. Eu o olhava através de um vidro e só conseguia pensar em duas coisas:

1. Coitado do papai…

2. O que houve para ele nos deixar? Logo ele, que tanto nos ama…

Nesse momento, querido Juan José, ouvi a voz do meu pai soando na minha cabeça. Não nos meus

ouvidos. Na cabeça! E me disse: “Fique tranquila, meu bebê… Não está vendo o quanto estou bem,

tolinha?”

O senhor certamente deve estar pensando que foi a tensão do momento ou que talvez eu tenha

imaginado isso. Não, eu sei que ouvi essa voz na minha cabeça, no meu interior.

Por que estou lhe contando tudo isso?

Juan Dionisio Estors Leandro, com sua filha Mari Cruz. (Cortesia da família.)

 

 

Muito simples. Meu pai tinha três hábitos que o senhor também tem, melhor dizendo, três amores: a

família, o trabalho e o tabaco.

Não tenho nenhuma foto do meu pai sem o cigarro na mão, exceto na sua carteira de identidade.

Significa alguma coisa para o senhor? Em seu último livro, o senhor aparece muito lindo, dando um

beijo na mão de uma criança, mas estaria mais lindo ainda se não estivesse com o “cigarro de

plantão”.

Veja bem, talvez seja verdade que exista uma vida antes desta e certamente também deve haver uma

depois, mas a única coisa que realmente é certa é o que temos: “AQUI E AGORA”. Pode ser que o

senhor tenha escolhido esse corpo e essa experiência, mas… E se não for assim? Pense que seu corpo

é o templo da “centelha” divina. Por que se empenha em enfumaçar a casa que é uma parte de Deus?

Cuide do seu corpo. O senhor sabe muito bem que só tem esse…

 

Li a carta e lhe dei razão. O cigarro não é bom.

E me lembro de que uma “força” estranha me obrigou a guardá-la. Poderia tê-la destruído. Diariamente

recebo em torno de dez cartas (em média). Mas, como já disse, “algo” mais poderoso que eu me forçou a

conservá-la. E eu a arquivei.

Dez anos depois (!), ao trazer à luz a documentação que me serviria de base para escrever Estou bem,

apareceu a carta manuscrita de Mari Cruz. Eu a li de novo e, perplexo, me apressei em responder. A

paciente mulher respondeu no dia 24 de outubro de 2012. Que paciência os leitores têm! E voltou a

narrar a experiência com seu pai falecido.

As palavras foram idênticas às escritas em 2002.

Chegou às minhas mãos e milagrosamente eu a conservei durante dez anos… Sim, o destino é mágico.

 

“Fique tranquila, meu bebê… Não está vendo o quanto estou bem, tolinha?”

E acrescentava em um dos parágrafos:

 

Dia 9 de outubro passado, uma amiga me telefonou. Estava histérica. Ela me disse que sua filha

acabava de morrer em um acidente de carro. Quando desliguei o telefone, fiquei surpresa comigo

mesma, porque estava chorando e rezando para Deus, em voz alta, que não acontecesse o mesmo com

nenhuma das minhas duas filhas. E, entre soluços, olhei para a minha filha mais velha nos olhos e

disse: “Isso não pode acabar aqui… Sei o que ouvi, sei que não foi coisa da minha imaginação… Ele

falou comigo depois de morto… Meu pai falou comigo!”

 

Mari Cruz – com essas palavras – resumiu, perfeitamente, o sentido deste livro.

 

A ideia da morte deixava Irene assustada. Agora não mais…

Conheço Irene de los Ángeles López Reyes desde sempre. Brincávamos em Barbate quando éramos

crianças.

Sua mãe se chamava Ángela e também sentia pavor diante da possibilidade de morrer. Mas um dia…

– No dia 26 de agosto de 2009 – explicou Irene em minha primeira entrevista – minha mãe teve que ser

internada no Hospital de Puerto Real, em Cádiz. Ali detectaram câncer de pâncreas em estado terminal.

Ela tinha 83 anos. Eu a levei para o hospital e recebi a notícia. Foi uma enxurrada e não apenas um jato

de água fria… Estivemos por quatro dias esperando a sua morte, mas ela resistiu. Fizeram-lhe uma

cirurgia pequena, para eliminar a bilirrubina. Ela ficou com o corpo amarelo. As enfermeiras pediam que

rezássemos, para que ela morresse. Mas, como eu estou lhe dizendo, mamãe seguiu em frente.

“No mesmo dia da operação, no período da tarde, ela adormeceu. Ao despertar me chamou.

“– Irenilla – disse-me –, tive um sonho maravilhoso…

“– Que sonho?… Não me assuste…

“– Não, filha… Veja só. Cheguei a um lugar que estava repleto de flores amarelas, vermelhas, verdes,

rosa… Uma preciosidade.

“– Um jardim?

“– Sim, um prado bem grande… E vi o vovô e a vovó.

(Os pais de Ángela, já falecidos.)

“– Como estavam?

“– Muito bem.

“– Disseram algo para você?

“– Com as mãos, eles fizeram alguns sinais para que eu partisse… “– Quem lhe disse que deveria ir?

“– A vovó…

“– Falaram com você?

“– Sua avó disse: ‘Agora não, Ángela’.

“E minha mãe afirmou algo impensável:

“– Não tive medo, filha… Se eu tivesse morrido nesse momento, teria sido a mulher mais feliz do

mundo.

“Falei para ela pentear macacos, parar com essa conversa boba.

 

Ángela, com a filha Irene de los Ángeles. (Cortesia da família.)

 

“Pouco a pouco, mamãe se recuperou e tivemos a sorte de tê-la em casa durante dez meses. Morreu dia

26 de junho de 2010, às seis da tarde.

“Foi o pior momento da minha vida…

“E comecei a perguntar-me: ‘Como estará? Onde estará?’.

“Depois, isso se transformou em uma obsessão. E eu lhe rogava: ‘Mamãe, me dê um sinal… Quero

saber se você está bem’.

“Insistia e insistia.

“Quando se passou um mês do seu falecimento, sonhei com ela. Eu estava no sofá. Rezei e lhe pedi de

novo que me desse um sinal. ‘Você está bem?’ E adormeci.

“Então, suponho que foi no sonho, ela apareceu ao meu lado. Estava sentada no sofá. Olhava-me. E eu

lhe perguntei: ‘Mamãe, você está bem?’ Ela sorriu para mim.”

– Que aparência tinha?

– Havia rejuvenescido uns quinze anos.

– E a roupa?

– Vestia uma saia preta e uma blusa branca, com gola. Estava com os lábios pintados e muito bem

penteada. Essa era a roupa que – segundo dizia – queria usar no enterro do seu marido.

– Ela lhe disse alguma coisa?

– Não, apenas sorria. Então me abraçou bem forte e eu apoiei a cabeça em seu peito, do mesmo jeito

que fazia quando era pequena. Interpretei o sonho como uma resposta ao meu pedido: “Estou bem… Não precisa se preocupar”.

Desde então, Irene não teme mais a morte.

 

Chuni e Antonio eram amigos meus. Em realidade, são…

Antonio Martínez morreu em Málaga, Espanha, em consequência de um infarto. Que ocorreu no dia 9

de janeiro de 2012. Tinha 59 anos de idade.

Um mês depois, Chuni Sánchez, a viúva, teve um sonho pouco comum.

Eis aqui a síntese do dito sonho:

 

Antonio e Chuni. (Foto: Rosa Paraíso.)

 

Eu me encontrava em casa, no quarto. Passava os dias me fazendo a mesma pergunta: “Onde está

Antonio?”

E, de repente, no sonho, ele apareceu em um lugar ao ar livre. Era como um colégio ou, talvez, como

uma quadra de beisebol… Havia cadeiras, em degraus… Estavam ocupadas… Penso, ao tentar recordar

do sonho, que eram todos homens…

E eu o vi… Era Antonio… Encontrava-se sentado à minha esquerda, entre as pessoas… Vestia uma

camisa branca de manga curta… Tinha uma aparência mais jovem do que quando faleceu… Aparentava

ter uns quarenta anos…

Eu estava no ar (?) flutuando… Quem sabe, a uns 5 ou 6 metros do chão (?)…

Eram filas de cadeiras de uns 10 metros de comprimento cada uma… Havia três filas em cada lado…

Então tive uma estranha sensação: eu não deveria estar ali…

E pensei: “O que faz com que eu esteja aqui?”

A visão de Antonio pode ter durado cerca de uns seis segundos. Talvez mais… Então eu o vi inclinar a

cabeça em direção ao senhor que estava à sua esquerda… O homem lhe disse algo e, logo em seguida,

Antonio se levantou e caminhou entre as pessoas, afastando-se…

Nem olhou para mim…

Nesse momento, senti uma pressão do lado direito da cabeça, como se fosse um golpe…

Escutei a voz de Antonio: “Te amo”. E acordei.

Imagem de Antonio no sonho. “Em outro momento”, informou Chuni, “meu marido apareceu e disse: ‘Chuni, Nossa Senhora, Jesus e outros

estão aqui… Você não vai acreditar: estou assistindo uma aula e estudando… Tenho que ir. Já estão me chamando’”. (Cortesia da família.)

 

Reconstrução aproximada do lugar que Chuni viu no sonho. Caderno de campo de J. J. Benítez.

 

Chuni respondeu às minhas perguntas até onde foi possível.

– Como você descreveria o lugar?

– A visão se apresentou de repente. Não saberia dizer com exatidão. Era um lugar sem teto, com

paredes brancas. As cadeiras pareciam cômodas, com apoio para os braços. Eu diria que era um centro

onde se recebia algum tipo de ensino ou instrução. Todo mundo estava prestando atenção. Pareciam estar

muito atentos…

– Como estavam vestidos?

– Normalmente.

– Quando Antonio se levanta e se afasta, no sonho, qual foi a sensação que você sentiu?

– Que o vizinho o havia advertido da minha presença. Por isso pensei que não deveria estar ali.

– Tem certeza de que todos eram homens?

– Creio que sim.

– Ao receber o “golpe” na cabeça, você reconheceu a voz de Antonio?

– Com absoluta clareza. Era a voz dele.

– Ele tinha o costume de dizer-lhe “eu te amo”?

– Sim, diariamente.

– Quantas pessoas poderiam estar sentadas nesse “centro”?

– Não menos de sessenta.

– Você conhecia mais alguém?

– Não, ninguém.