Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 13 de 102

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Estou Bem

Suicidas

Em janeiro de 1983, um jovem ao qual chamarei de I.J., de 23 anos, suicidou-se em uma pequena

cidade da Colômbia.

Beatriz Merly, sobrinha de I.J., tinha nessa época oito anos.

A menina se perguntou muitas vezes: “Por que ele fez isso? Era um garoto lindo, com todo o futuro

pela frente… Era brilhante… Tinha uma bebezinha… Por quê?”

Não obteve resposta à sua pergunta até maio de 1993.

– Desde que meu tio se suicidou – disse Beatriz –, eu sentia que o via pela casa. Ele entrava e saía dos

quartos. Mas eu só via as pernas.

E um belo dia, na casa de uma amiga, em Cali, na Colombia, enquanto estudavam, alguém – meio de

brincadeira – sugeriu que jogassem o tabuleiro Ouija. [1] Eram cinco garotas.

– Dito e feito. Improvisamos um tabuleiro, colocamos uma base de papel e escrevemos as letras e os

números… Eu lembro que pintamos também um sol e uma lua… Debaixo da mesa colocamos um copo

com água… Quando nos sentamos ao redor do Ouija, eu tinha as mesmas perguntas na cabeça: “Por que

ele fez isso? Por que se suicidou?”

“Minhas amigas perguntaram bobagens. Eu permaneci em silêncio. A moeda que nós utilizamos se

movia sem parar. Ninguém a tocava.

“Finalmente perguntei sobre meu tio.”

Beatriz nesse momento tinha dezoito anos.

 

Beatriz Merly nos dias atuais. A queimadura que apareceu no seu braço esquerdo fazia recordar os dedos de uma pequena mão. A marca

permaneceu no braço até a manhã do dia seguinte. (Foto: Blanca.)

E voltou para sua casa com uma ideia: o Ouija podia ser um instrumento para averiguar a verdade.

– Na família corriam rumores sobre o motivo do suicídio de I.J…. Diziam que a esposa tinha um

amante… Jogaram a culpa da morte de meu tio sobre ela.

Nessa mesma manhã, Beatriz comentou com a sua mãe sobre o Ouija.

– Eu lhe pedi que assistisse a uma sessão e verificasse as respostas. Minha mãe conhecia I.J. melhor

do que eu e dispunha de informações às quais eu não tinha acesso.

A mãe aceitou, e uma tarde, por volta das 14h, elas se sentaram em torno de um improvisado

“tabuleiro” de papel.

– Nós éramos três pessoas: minha mãe, um amigo e eu… Invocamos um espírito, e se apresentou uma

senhora… Deu seu nome. Minha mãe disse que a conhecia… Era uma vizinha que – segundo minha mãe –

a protegia quando sua mãe (minha avó) tentava lhe dar uma surra… Eu não sabia quem era… A mulher

morreu quando eu ainda era bebê…

Então aconteceu algo desconcertante.

– A moeda deixou de se mover e se apresentou um espírito brincalhão… Colocou a mão em meu braço

esquerdo e me queimou, deixando a marca dos seus dedos… Paramos por alguns instantes… A

queimadura doía… Depois continuamos e invocamos o espírito de I.J…. E ele se apresentou!… Falava

do mesmo jeito que em vida, usando uma gíria própria. Minha mãe se lembrava disso perfeitamente… E

se assustou…

Beatriz, então, começou a formular perguntas.

– Era eu quem anotava as respostas – pormenorizou a garota. – E perguntei por que ele havia se

suicidado.

A resposta foi imediata: “O papai (já morto) aparecia e pedia que eu fosse me encontrar com ele”.

Fiquei perplexo, mas continuei escutando Beatriz.

– Minha mãe sabia dessa circunstância. Eu não estava inteirada disso…

 

Interpretação da passagem para outra dimensão, mediante o mecanismo da morte. Caderno de campo de J. J. Benítez.

 

“Também perguntei sobre o suposto amante. A resposta nos deixou gelados: disse que sim, era

verdade, e deu nome e sobrenomes… A esposa, como já lhe contei, foi responsabilizada pelo suicídio e

afastada da família… Ela pegou sua filha e desapareceu… I.J. também nos deu outra informação: que

tinha ido até a loja de ferragens, onde comprou o que precisava para enforcar-se, mas, no último instante,

se arrependeu… Tentou se agarrar à corda e quebrou o pescoço.”

Beatriz perguntou para I.J. sobre sua avó, falecida em 1992.

“A velha está bem”, respondeu o suposto espírito.

– Era sua forma de falar – acrescentou Beatriz. – Minha mãe, a essa altura da sessão, estava

convencida. Era ele.

Depois disso, Beatriz centrou as perguntas no “além”.

– Eu queria saber de tudo…

– E o que ele respondeu?

– A primeira coisa que disse é que não repetisse mais a sessão do Ouija.

– Por quê?

– Afirmou que o Ouija é uma espécie de “portal” que se comunica com outra dimensão e que o ser

humano não está preparado para isso. Disse textualmente que “Deus não nos havia dado o conhecimento

para abrir esse canal”. Fez-me jurar que não repetiria isso… Prometi que sim, não faria de novo. Depois

me falou da morte… Assegurou que a morte é somente um passo (mecânico) para o outro mundo… Tomei

muitas notas.

– Um passo mecânico?

– Ele falou de um mundo físico, porém diferente do nosso. Ali há edifícios. Ele disse que é como se

fosse uma enorme universidade…

– Mas como se passa de um mundo para outro?

– Há um túnel… Por ali se conectam os dois planos. Nós não descobrimos… Ainda.

“Nesse novo mundo[2] tudo é perfeito. Tudo está bem. Tudo está superlimpo. Não há doenças. Não há

morte… E insistiu: ‘Temos que estudar muito…’”

– Falou de estudar?

– Suas palavras foram: “Você se levanta estudando e vai dormir estudando”.

– Existe noite e dia?

– Deduzi isso.

Ao perguntar sobre a questão do estudo, Beatriz se interessou pela avó, que era analfabeta, e

perguntou:

– Ela também estuda?

“A resposta foi afirmativa, mas não explicou o que a avó estudava.

“Perguntei se I.J. estava perto de Deus, e ele disse que sim.

– Somente isso? Sem mais delongas?

– Sim, só isso.

“Ele tinha uma casa. Disse que vivia numa cidade em que havia grandes edifícios. E insistiu: todo

mundo está bem, tudo é perfeito e limpo…”

– Ele foi castigado por ter se suicidado?

– Disse que não. Ali ninguém julga ninguém…

A sessão do Ouija se estendeu por cinco horas.

A mãe de Beatriz perguntou dados concretos sobre a vida de I.J. As respostas foram corretas.

Anos depois, Beatriz se encontrou com a mulher que fora esposa de seu tio. Conversaram, e a mulher

confessou que havia se casado de novo.

– Ela me revelou o nome e os sobrenomes do esposo. Fiquei gelada.

– Por quê?

– Era o homem que I.J. mencionou no Ouija…

– Portanto, ele estava certo: a esposa tinha um amante.

– Isso mesmo…

Em 22 de novembro do ano 2000, ao meio-dia, fui até uma emissora de televisão, no Distrito Federal

mexicano. Era um programa de entrevistas. O programa se chamava Eco, e quem o apresentava era um

prestigioso jornalista: Ricardo García Sandes.

Falei sobre a morte e o além.

Ricardo, muito impressionado, esperou que o programa terminasse para me contar uma experiência

vivida por ele mesmo.

– Aconteceu na minha casa, não faz muito tempo… Uma amiga havia se suicidado… Eu estava triste…

E tive um sonho… Vi essa amiga… Estava cabisbaixa… Eu lhe perguntei se ela tinha visto Deus… Ela

negou com a cabeça… O sonho terminou aí.

Nesse instante, a mãe de Ricardo, que dormia num quarto perto dali, escutou passos e o rangido da

madeira no corredor.

Ela acreditou que era seu filho, que tinha se levantado para ir ao banheiro ou à cozinha.

Na manhã seguinte, meio que esclareceram as coisas: Ricardo não se moveu da cama. De quem eram

os passos? Na casa, estavam somente mãe e filho…

 

Nesse mesmo período, o cardiologista Victor López García-Aranda, um grande estudioso desses

temas, me contou o seguinte:

 

Conheci o caso de uma senhora, cuja identidade não estou autorizado a revelar, que viveu também uma

singular experiência relacionada com outro suicídio…

O marido pegou uma escopeta e disparou dois tiros. Um lhe arrancou uma mão. O outro lhe desfigurou

o rosto…

 

Dr. López García-Aranda, veterano estudioso de experiências de quase morte. (Cortesia da família.)

 

Em seguida, o marido se suicidou com a mesma escopeta…

A mulher, então, viveu uma experiência de quase morte (EQM).

Viu o túnel, a grande luz, os parentes mortos que saíam para recebê-la…

E, de repente, apareceu o marido. Que estava atrás de uma grade… Ele lhe pediu perdão, e ela o

perdoou no mesmo instante.

Então, a mulher retornou ao seu corpo físico.

 

Nesses momentos, enquanto permanecia inconsciente, a mulher não soube que o marido havia tirado a própria vida. A notícia chegou depois.

 

A Semana Santa de 1987 não será facilmente esquecida por María José, uma enfermeira espanhola de

muita experiência profissional. Mas, antes de narrar o que foi vivido por essa mulher, será melhor que eu

faça um pequeno preâmbulo.

 

Caderno de campo de J. J. Benítez.

 

O jovem apareceu à esquerda do portão de ferro. Nos seus pés, flutuava algo que parecia névoa. (Foto: Blanca.)

 

María tem uma irmã (a qual eu chamarei de Garfio). Naquela época, Garfio estava casada com um

ilustre médico (ao qual chamarei de Campanilla).

Pois bem, meses antes dessa Semana Santa de 1987, o casal Garfio-Campanilla conheceu um jovem,

vizinho da cidade sevilhana em que residiam. Tornaram-se amigos. O jovem se apaixonou por uma

garota, mas o pai a rejeitou, ameaçando o filho de deserdá-lo. Os problemas se multiplicaram. O jovem

se envolveu com drogas e a mãe – a única que o protegia – acabou falecendo. Garfio e Campanilla o

ajudaram até onde foi possível.

Um dia, após a visita do pai ao centro de desintoxicação no qual se encontrava, o jovem atirou em si

mesmo e perdeu a vida. Era o outono de 1986.

Em dezembro desse ano (1986), María, a enfermeira, mudou de casa, saiu de Huelva e foi para

Sevilha, Espanha.

María nunca conheceu o jovem que acabou se suicidando.

Cinco meses depois do suicídio – na referida Semana Santa de 1987 –, María se encontrava em sua

nova casa. Eram 10h, aproximadamente…

– Estava sozinha, com a companhia apenas de um cachorro. Eu vivia a uns 100 metros do cemitério…

E, de repente, o cachorro começou a latir… Foi até a porta de casa e ali se manteve, latindo… Deduzi

que havia alguém no jardim ou perto do portão de ferro… Tive uma sensação estranha… Não gostei… O

cachorro latia e gemia…

Nesse momento – e para assombro de María –, a torneira do banheiro, próximo da entrada principal,

abriu-se misteriosamente.

– Ninguém mexeu nela… Fui até o banheiro, fechei a torneira e me dirigi à porta… O cachorro latia

sem parar, com o olhar fixo na madeira da porta…

– Quanto tempo se passou desde que o cachorro começou a latir até que você abrisse a porta?

– Uns dez minutos…

 

Anotações sobre o terreno. Caderno de campo de J. J. Benítez.

Caderno de campo de J. J. Benítez.

 

María finalmente abriu a porta.

– Então eu o vi… Era um homem… Encontrava-se do outro lado do portão… Tinha a mão esquerda

apoiada nos ferros…

Ao fazer as devidas medições, comprovei que o “homem” se encontrava a 9 metros da porta de

entrada.

– Como ele estava vestido?

– Usava uma jaqueta marrom, talvez de camurça, e calças jeans… Com a mão direita subia e baixava a

trava do portão… E fazia isso sem parar… E eu gritei: “O que você quer?”… Então, olhando-me, ele

respondeu: “Campanilla, Garfio… Ajuda!”… Repetiu três vezes: “Campanilla, Garfio… Ajuda!”

– Viu os pés dele?

– Essa parte estava coberta por uma espécie de névoa… Depois, após repetir os nomes da minha irmã

e do meu cunhado, ele desapareceu…

– Foi se distanciando?

– Não, simplesmente deixei de vê-lo.

– Você o conhecia?

– Não, nunca o tinha visto antes na minha vida…

– Quanto tempo você acha que durou a conversa?

– Cerca de um ou dois minutos…

– Como era o tom da voz dele?

– Parecia de angústia…

– Era jovem?

– Calculei trinta anos… Cabelo preto, até o pescoço.

– Qual foi o comportamento do cachorro quando a porta foi aberta?

Segunda presença do suicida. Nessa ocasião, no pequeno terraço do primeiro andar. A janela, no momento da aparição, estava fechada. (Foto:

Blanca.)

 

– Ele se manteve ao meu lado o tempo todo. Quando o “homem” desapareceu, o cão parou de latir e

regressou comigo para o interior da casa.

Nessa tarde, María foi visitar sua irmã e comentou o que aconteceu. Garfio tinha certeza. A descrição

coincidia com a do jovem que havia se suicidado meses antes. O rapaz tinha um tique: subia e descia a

trava do portão constantemente.

Uma semana depois, voltou a acontecer…

María viu de novo o suicida na casa.

– Subi para o primeiro andar… Ao entrar em um dos quartos, eu o vi… Fiquei na porta paralisada

pelo medo… Ele estava do outro lado do vidro de uma sacada, num pequeno terraço… E me olhava…

Acho que estava vestido da mesma forma… Foi apenas por um segundo… Girei o corpo e corri escada

abaixo, aterrorizada…

Segundo a testemunha, a segunda visão aconteceu também pela manhã. O jovem se encontrava a 2

metros dos vidros, no canto esquerdo do terraço. María não sabe se ele tocava o chão ou se flutuava.

Naturalmente, ninguém bateu à porta da residência nem subiu pelo exterior da casa.

María telefonou imediatamente para sua irmã.

E foi nesses dias que se registrou outro singular fenômeno. María foi a única testemunha, que eu saiba.

– Com frequência – relatou a enfermeira –, de dia ou pela noite, comecei a ver uma luz de cor branca,

um tipo de laser, que descia do céu e caía no cemitério… Fazia sempre a mesma trajetória: da esquerda

para a direita e descia…

O cemitério, como disse María, se encontrava a 100 metros da casa. Era perfeitamente visível da

moradia.

Um belo dia, intrigados, María, Garfio e Campanilla entraram no dito cemitério, à procura de não se

sabe o quê.

– Foi impactante – resumiu María. – Campanilla logo nos avisou: tinha encontrado o túmulo do jovem

que se suicidou… Era o lugar em que a luz desaparecia!… Foi uma espécie de confirmação.

Trajetória da misteriosa luz branca que incidia no cemitério, sobre o túmulo do jovem suicida. (Foto: Blanca.)

 

Em maio de 2013, recebi a seguinte carta:

 

Antes de qualquer coisa, deixe que eu me apresente. Eu me chamo Charo e sou de Barcelona. Tenho

quarenta anos…

O motivo pelo qual envio esta carta é para contar-lhe algo que aconteceu comigo há muito tempo.

Em realidade, são duas histórias diferentes.

 

Charo. (Foto: Blanca.)

 

Primeira história:

 

Eu devia ter uns dez anos de idade e, quase como em todas as tardes, depois de fazer meus deveres

da escola, fui brincar com minha irmã, de cinco anos. Pulávamos de cama em cama e deixávamos tudo

de pernas para o ar. Minha mãe reclamava um pouco, mas nos deixava brincar.

Minha irmã se chama Montse, e naquela época passava mal durante a noite .

Fez todos os exames médicos, mas estava tudo bem.

O caso é que ela não queria dormir daquele lado da casa.

Naquela noite, ela não chegou a ir para a sua cama. Foi para a cama de minha mãe, do outro lado

da casa.

Ela fazia isso com frequência, mas não dávamos importância.

Naquela noite eu entendi por quê…

Minha mãe e minha irmã foram dormir juntas, levando em consideração que meu pai estava

trabalhando fora. Minha outra irmã estava em seu quarto.

Fui dormir e caí no mais profundo sono.

Não posso precisar a hora em que despertei, mas era tarde; talvez já passasse da meia-noite. Sei

disso porque o bar que existe na frente da minha casa já estava fechado .

A cama da minha irmã, no meu quarto, não tinha sido arrumada. Eu não a havia arrumado, como

sempre, embora prometesse a minha mãe que faria isso.

Despertei, sem saber o motivo. Não era normal que eu despertasse de madrugada.

Vi uma luz branca, bem longa.

Não conseguia ver o rosto, mas soube que era alguém…

Você pode imaginar o meu medo?

O mais estranho é que esse “alguém” começou a arrumar a cama da minha irmã.

Eu me cobri com o lençol e a colcha por cima da cabeça.

E repetia para mim mesma: “É um sonho, é um sonho…”.

Cheguei a me beliscar e doeu.

Não estava dormindo…

E pensei: “Se você não se mover, certamente ele pensará que está dormindo”. Contudo, o mais

curioso é que esse “alguém” me cobriu.

Demorei para colocar a cabeça para fora. Estava paralisada pelo medo, embora o que eu mais

queria era sair correndo para a cama da minha mãe.

Por fim, o sono me venceu.

Pela manhã, quando me levantei, a cama da minha irmã estava arrumada.

Eu não entendi nada…

Perguntei para minha mãe se ela tinha arrumado a cama.

Disse que não. Ela pensou que tinha sido eu (uma coisa bem incomum da minha parte).

Desde esse momento entendi por que minha irmã sentia tanto medo…

Contei para minha mãe, mas ela disse que era coisa da minha imaginação.

Eu sei o que vi…

É curioso: pouco a pouco minha irmã começou a dormir melhor e o assunto virou piada.

 

Segunda história:

 

Tem a ver com sonhos. Acredito que o sonho é uma ponte para um lugar no qual nos conectamos

com outros mundos paralelos.

O que eu me disponho a lhe contar é mais recente. Aconteceu na noite do dia 10 de abril de 2008.

Como já lhe disse, não tenho problemas para dormir. Pego no sono com facilidade e durmo

profundamente .

Nessa noite dormi rapidamente.

E tive um sonho muito estranho…

No sonho eu me encontrava em Pliego, Múrcia, Espanha, na cidade onde minha mãe nasceu. Ali nós

passamos muitos verões. Ali também conheci Manuel, meu primeiro e grande amor. A coisa não deu certo. Ele se meteu no mundo das drogas. Eu tentei ajudá-lo, mas foi impossível. E a relação terminou.

Deixamos de ser um casal de namorados, embora eu reconheça que continuava gostando dele. A

última vez que eu o vi, estava acabado. Foi muito doloroso para mim.

Mas voltando ao sonho…

Eu caminhava pela Plaza Mayor em direção à casa de minha avó.

Tudo estava em obras. Achei aquilo esquisito…

Então, ao entrar em uma das ruas, dei de frente com ele. Era Manuel! Caminhava com uma garota

que eu não conhecia.

Assim que ele me viu, parou e me disse: “Olhe, que bom… Eu não esperava ver você, mas aproveito

para despedir-me porque vou partir.”

Pensei que ele fosse para a América do Sul. E lhe respondi: “Por que vai embora?… Lá não tem

nada”.

E ele respondeu, no sonho: “É que também não tenho nada por aqui”.

 

Manuel. (Cortesia da família.)

 

De repente, senti como se ele se lançasse sobre mim… Não foi o seu corpo, foi a sua energia. E ele

me disse: “Diga que me ama”.

Acordei num pulo. Estava muito assustada.

Pela manhã, achei que deveria telefonar para a irmã de Manuel e perguntar se estava tudo bem…

Fui trabalhar e, por volta das 11 horas, uma amiga da cidade me telefonou. E me deu a notícia:

Manuel tinha se enforcado na noite anterior.

Eu não podia acreditar…

Havia me despedido dele no sonho. E justamente naquela noite…

 

Fui para Barcelona assim que tive uma oportunidade.

E no dia 13 de outubro tive uma longa conversa com a amabilíssima Charo.

Resumindo, assim transcorreu a entrevista:

– Vamos falar sobre a primeira história. Você identificou a “pessoa” que fez a cama da sua irmã?

– Não, embora eu sempre tenha achado que era uma energia feminina.

– Talvez algum parente já falecido?

– É possível.

– Segunda história. A que horas Manuel se suicidou?

– Eu entendo que tenha sido entre às 22h e às 23h30 de 10 de abril.

– Como aconteceu?

– Ele subiu até o sótão para fumar um cigarro, e se enforcou lá.

– A que horas você adormeceu essa noite?

– Aproximadamente às 23h.

– Ele estava em Múrcia…

– Sim, em Pliego, e eu em Barcelona.

– A que horas você despertou?

– Às 2h da madrugada. Eu me lembro bem porque bati a cabeça no beliche. Como disse a você, me

sobressaltei. Os bares já estavam fechados. E eu soube, não me pergunte como, que tinha acontecido

algo.

– Quer dizer que, quando você despertou, por volta das 2h da madrugada, Manuel já estava morto…

– Sim. Podia ter falecido mais ou menos duas ou três horas antes.

– Falemos do sonho. Você me disse que a praça estava em obras…

– Sim, de fato. O curioso é que, um mês depois, em 4 de maio, quando fui a Pliego, a praça estava de

pernas para o ar, em obras. No sonho cheguei a ver as lâmpadas para iluminar os trabalhos…[3]

– Onde ocorreu o encontro com Manuel?

– Na Rua Posada, bem perto da praça. Supus que ele vinha da Rua Aduana. Ali está a casa da minha

avó. Eu caminhava naquela direção…

– A Rua Posada estava iluminada?

– Não me lembro. Creio que a iluminação vinha das lâmpadas da obra.

– Que aspecto Manuel tinha no sonho?

– O mesmo de um ano antes, quando o vi pela última vez.

– A que distância ele se manteve?

– Bem perto; coisa de um metro…

 

Plaza Mayor de Pliego, Múrcia, Espanha. Assinalado com a flecha, o lugar do encontro no primeiro sonho. (Foto: Charo Alcaraz.)

 

– Fale-me da pessoa que o acompanhava…

– Não a conhecia. Era uma garota jovem, de pele branca. Parecia peruana ou algo assim. Era mais

baixa que Manuel. Ele media 1,80 metro.

– O que ela disse?

– Nada. Apenas olhava.

– Em que posição estava?

– À direita de Manuel, muito perto dele.

– Algo chamou sua atenção?

– Pensei que fosse a namorada dele. Devia ter uns vinte anos e cabelo liso e escuro.

– Como estava vestida?

– Não me lembro.

– Consegue reconstituir o diálogo entre vocês?

– “Que bom encontrar você”, disse-me Manuel, “porque assim posso me despedir…” Para onde você

vai?…” “Vou embora, daqui porque aqui não tenho nada.”

– Por que você pensou na América do Sul?

– Pelos traços dela.

Eu a animei, para que ela continuasse.

– Mas, em geral, as pessoas de lá vêm pra cá… – Você chegou a pensar, no sonho, que ele estava

morto?

– De jeito nenhum.

– E o que aconteceu?

– Vi aquela luz branca que o preenchia… E se lançou para cima de mim… Era ele, sei disso… E me

disse: “Diga-me que me ama”.

Então eu acordei sobressaltada e bati a cabeça no beliche.

 

Três anos depois, um pouco antes da Semana Santa, Charo teve outro sonho…

 

Eu estava com Manuel em uma espécie de grande banheira… Não sei explicar… Era meio ovalada,

muito macia e polida… Toquei nela várias vezes… Estávamos deitados… Minha cabeça descansava

sobre seu peito… Manuel parecia mais jovem… Aparentava ter uns 25 anos… E me disse: “Estou bem.

Sou muito feliz. Só sinto falta dos seus beijos. Deixaram-me vir para lhe dizer que estou bem”… E eu

perguntei: “De onde você vem?”… Mas Manuel não respondeu. Limitou-se a sorrir… E eu insisti:

“Quem foi que deixou você vir?”… Silêncio… Apenas sorria… “Vamos sair daqui”, eu disse a ele. E ele

respondeu: “Não posso sair. Não posso me mover daqui”… Depois despertei, e uma grande paz me

inundou… Fiquei vários dias flutuando.

 

Desenho de Charo Alcaraz.

 

– De que cor era a “banheira”?

– De um branco puríssimo. Era como se saísse luz das paredes.

– Que idade Manuel tinha quando morreu?

– Tinha 42 anos. No sonho, no entanto, apresentava um aspecto mais jovem.

– Descreva…

– Uns 25 anos. Magro. Cabelo longo e cacheado. Voz tranquila. Estava feliz…

– Estava de barba feita?

– Sim.

 

Representação do objeto oval que apareceu no segundo sonho. Caderno de campo de J. J. Benítez.

 

– Ele tinha alguma cicatriz em vida?

– Sim, no rosto. Foi num acidente de carro.

Charo ficou pensativa. Finalmente declarou:

– Mas na “banheira”, como você a chama, não tinha nenhuma cicatriz.

– Tem certeza disso?

– Sim, e também não vi umas manchinhas que ele tinha no olho esquerdo…

– Pestanejava?

– Não me lembro, mas creio que não.

– Você me disse que estava com a cabeça apoiada em seu peito.

Charo assentiu.

– E diga-me, lembra-se se ouvia o palpitar do seu coração?

– O coração não batia…

– Vamos voltar ao tema da “banheira”. Fez você recordar algum material?

– Eu me apoiei e escorreguei. Parecia pedra.

– Era fria?

– Não.

– Vibrava ou se movia?

Charo negou com a cabeça. E acrescentou:

– Somente posso lhe dizer que foi uma sensação estranha e desconhecida, muito agradável.

– Por que você escreveu para mim?

– Ao ler Cavalo de Troia, “algo” me disse que deveria fazer isso…

E Charo e eu continuamos conversando. Para ela – e para mim – Manuel continua vivo…

O segundo sonho de Charo me recordou o vivido por Verónica V. García.

Eis aqui o seu testemunho:

 

Espero que possa ler esta carta… Queria comentar o seguinte: trata-se de umas experiências que

tenho tido… São experiências que têm me proporcionado uma paz e uma tranquilidade

indescritíveis…

Vi algumas entrevistas nas quais você falava sobre um livro que vai publicar, em que narra

experiências de pessoas que viram, falaram e tocaram familiares mortos e enterrados… Pois bem, eu

tive a oportunidade de experimentar isso em sonhos… Entretanto, eram tão reais… Não pareciam

sonhos, embora, como o senhor disse, os sonhos são a antessala do céu…

Vou lhe contar algumas:

Uma delas com meus avós… Objetivamente, uma vez sonhei com meu queridíssimo avô… Eu o

adorava… Cada vez que vou ao cemitério (ultimamente bem pouco) sempre lhe peço o mesmo: que me

visite em sonhos… E, como o senhor disse, é preciso ter cuidado com o que uma pessoa deseja, porque

isso se realiza… Pois bem, uma vez sonhei com ele… Era tão real… Podia tocá-lo… Não sei como

explicar… Ele me disse que estava muito bem… E recordo de algo que eu lhe perguntei: “Por que não

volta comigo?”… Ele respondeu textualmente: “Não podemos”… Insisti, e ele replicou: “Isso é

proibido”…

Longe de me irritar ou me chatear, as respostas do meu avô produziram em mim uma intensa

sensação de paz… Ele está em outro lugar, em outro plano, que não posso descrever…

Vou lhe contar uma segunda experiência.

Em abril de 2011 um tio meu faleceu… Era como um pai para mim… Eu o adorava… Senti muito a

sua morte… E uma noite ele “veio me visitar” em sonhos… Para mim, ele estava excelente… Tinha

um aspecto impecável… Disse-me que se encontrava muito bem… E eu lhe fiz a mesma pergunta que

fiz para meu avô: “Por que você não volta?”… Ele me respondeu: “Não podemos”… Chamou-me a

atenção que ele estava com um braço enfaixado desde a mão até o cotovelo… Acho que consigo

lembrar, era o braço direito… O assunto do braço enfaixado não parecia ter importância, até que

comentei com um primo meu sobre o sonho… E esse primo ficou petrificado… Meu tio faleceu por

causa de uma pancreatite… Esteve dezessete dias na UTI… Eu não entrei para vê-lo… Faleceu ali…

Pois bem, como lhe dizia, quando eu contei para o meu primo sobre o braço enfaixado que vi no

sonho, ele me disse que tiveram que enfaixar por causa dos tubos cirúrgicos… Ao que parece, lhe

provocaram feridas… Como eu iria saber disso? Ninguém havia me contado…

Enfim, sei que os que morrem estão aí, vivos… Estão em outra dimensão, não sei como chamar, mas

estou certa de que a vida não termina aqui…