Estou Bem

J. J. Benítez · Capítulo 92 de 102

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Estou Bem

O cartuxo

Esta não menos desconcertante história nasceu, para mim, no dia 2 de junho de 1992 em La Coruña,

Espanha. Eu andava, como sempre, atrás de pistas sobre óvnis…

Leio o que está escrito no caderno de campo correspondente:

 

… Dia 2 de junho de 1992. Terça-feira.

Chamadas telefônicas às 9h30 para localizar Luis Saavedra. Ficou combinado nos encontrarmos às

13h no Cantón, um bar na Praça de la Mina. Disse que se lembrava do assunto.

Ato seguido, telefonema para a Xunta de Galicia (Governo Regional da Galícia), em Santiago de

Compostela, para tentar localizar o navio Chilreu, com base em Ferrol. Seu comandante, Darío Lanza…

Ao que parece, depois de me passar de um telefone ao outro, ninguém sabe nada desse caso do óvni. (!)

Telefonema para o tenente-coronel Ángel Bastida, da Inteligência, para marcar uma reunião em Madri.

Não está. Devo voltar a chamar mais tarde…

Localizo, finalmente, o comandante Darío Lanza, em Ferrol. Combinamos um encontro para amanhã,

quarta-feira, no Arsenal de Ferrol.

Chamada telefônica para Joaquín Garat. Ficou de nos encontrarmos em sua casa (Ferrol) entre as

12h30 e as 13h.

Localizo (!) Antonio Murga em Pontevedra. Ficou de telefonar esta noite para tentar uma entrevista

amanhã à tarde.

Nada mal. Vamos dar três batidinhas na madeira…

E, nessa manhã-tarde, como estava previsto, às 13h, fui para o bar Cantón.

 

Dom Pedro Soto y Domecq, na companhia do Sr. Juan, pai do rei da Espanha. Segundo consta nos registros do Ministério dos Assuntos

Exteriores espanhol, Pedro foi diplomata em Londres (24 de novembro de 1922). Idem no Ministério (20 de dezembro de 1924). Não tomou

posse. Diplomata em Washington (2 de março de 1925). Terceiro secretário no Ministério (29 de março de 1927). Idem na comissão, na

Secretaria Particular do Rei (15 de setembro de 1927). Segundo secretário em La Paz (6 de abril de 1929). Não tomou posse. Excedente

voluntário (6 de maio de 1929). Licenciado em Direito. (Cortesia do Sr. Juan Pedro de Soto.)

 

Chovia, embora a temperatura estivesse agradável.

Luis Saavedra, especialista da IBM, é um homem aberto e simpático. Conversamos muito e falamos

sobre óvnis.

Na metade da conversa, en passant, ele mencionou a história de um parente seu. Havia tido algum tipo

de encontro (?) com uma estranha mulher, numa curva.

Não dei a menor importância para o assunto. Desses casos – a mulher da curva – tinha investigado

meia dúzia. Esse assunto definitivamente não me atraía.

Mas Luis insistiu. Algo estranho tinha acontecido…

E anotei o nome e o telefone da pessoa que podia orientar-me. Chamava-se Pilar Maldonado e era mãe

de Luis.

Prometi telefonar.

E assim fiz.

Cinco dias depois, já em Madri, “algo” me obrigou a telefonar para Pilar Maldonado.

Bem, não entendi na época (pelo menos agora, sim). O caso da “senhora da curva” não era prioridade.

E, no entanto, telefonei para Pilar. Ela me recebeu no mesmo domingo, 7 de junho, ao meio-dia em sua

casa, em Torrejón.

Pilar tinha então 84 anos.

E começou a conversa com uma advertência que eu não soube avaliar:

– Estimado amigo: não minto nunca e menos ainda agora, que já estou perto do final…

Luis estava errado. A experiência que sua mãe relatou não tinha relação com a célebre “mulher da

curva”. Se cabe dizer, era muito mais apaixonante…

Aqui está, em síntese, o que foi narrado por Pilar Maldonado:

 

O protagonista – afirmou – era um primo meu…

Era um Domecq. Chamava-se Jorge…

Domecq era marquês…

E um dia conheceu em Málaga uma linda senhorita.

A garota, bem jovem, chamava-se María Luisa… María Luisa Treviña…

Ela era de Granada…

Estou falando de algo que ocorreu há muitos anos…

Bem, e começaram a sair…

Eles se gostavam…

Da última vez que saíram, ela esqueceu um [1] pañolón …

Domecq voltou no dia seguinte à casa de María Luisa. Queria devolver o pañolón …

A garota tinha morrido anos atrás…

Isso foi o que os familiares disseram…

O marquês viu as fotos de María Luisa. Não havia dúvida. Era ela…

E contou-me que, na última tarde em que eles se encontraram, ela lhe disse:

– Somos uns inúteis… Iremos para o céu com as mãos vazias…

Isso aconteceu no verão de 1947…

Pouco depois, meu primo tomou a decisão de deixar tudo e se tornar cartuxo…[2]

 

Naquela conversa, enquanto eu tomava notas, cometi vários erros:

A saber:

1. A história do cartuxo não me pareceu urgente. E a deixei repousar. Deveria ter

perguntado muito mais.

2. Escrevi equivocadamente o sobrenome da senhorita. Não era Treviña e sim Trevilla.

Isso, chegado o momento, provocaria lentidão e atrasos na investigação…

3. Ao falar do seu primo, Pilar Maldonado também cometeu um erro. Não se chamava

Jorge…

E o Destino, como sempre, aguardou.

Assim, transcorreram vinte anos.

E, em 2012, quando o Destino tocou em meu ombro, fazendo-me saber que havia chegado o momento

de escrever Estou bem, a história do cartuxo regressou, porém verde, verdíssima…

Deus meu! Que desastre!

 

María Luisa Trevilla, falecida em 25 de novembro de 1934. (Cortesia da família.)

 

O cartuxo estava morto.

A Srta. Trevilla, mortíssima. Sua família também…

E minha informante – Pilar Maldonado –, falecida.

Não tinha opção. Tinha que começar do zero.

E assim fiz.

As pessoas que me conhecem sabem que não me rendo facilmente.

Não sou muito inteligente, mas Deus me deu de presente a constância e a determinação.

E assim foi: abri três frentes.

Investigaria os cartuxos, os Domecq e os familiares de María Luisa Trevilla, ao menos os que

ficaram…

E coloquei mãos à obra, com a inestimável ajuda de Blanca, minha mulher, Lara, minha filha, e

Fernando Sierra, seu marido. Repartimos o trabalho.

Lara passou um pente-fino na Ordem dos Cartuxos.

Aqui vai uma síntese do seu achado:

Lara se dirigiu à Ordem dos Cartuxos de Montealegre e perguntou pelo monge Jorge Domecq. A

resposta me deixou mais confuso:

 

Valência: Cartuxos da Porta Coeli (de Saragoça foi transferida para Valência). Falou com o padre

prior e o mestre dos noviciados…

Bom dia, de novo.

Deve existir uma confusão, pois precisamente eu sou um dos que veio de Aula Dei (Saragoça) e

conheço o padre ao qual faz referência. O dito padre (Jorge), que partiu para a Argentina, tem outro

sobrenome, que não é Domecq.

Talvez o nosso padre prior tenha misturado os nomes e sobrenomes de diferentes pessoas.

 

O prior de Miraflores, frei Agustín María, com J. J. Benítez. (Foto: Agus P. Aguirre.)

 

O único Domecq que tivemos nos últimos anos foi o famoso conde, mas já se passaram uns vinte anos

de seu falecimento, e não se chamava Jorge…

 

Este foi o erro de Pilar Maldonado.

Em outra comunicação, a Ordem dos Cartuxos dizia o seguinte:

 

Agora fica a dúvida sobre qual monge lhe interessa, se é o padre Jorge (não Domecq), que esteve em

Aula Dei e partiu para a Argentina, ou o padre Domecq (não Jorge), que nunca esteve em Aula Dei e

faleceu já há muitos anos… Em todo caso, não se trata de Jorge Domecq…

 

A confusão estava feita, como eu disse.

E pensei, seriamente, em ir até a Argentina. Falaria com o padre Jorge. Mas algo me conteve. E foi

outra comunicação da Ordem dos Cartuxos de Valência. Assim dizia:

Ordem dos Cartuxos de Miraflores, na qual o conde ingressou. (Foto: Agus P. Aguirre.)

 

Obituário de María Luisa Trevilla. Se for verdadeira a história de sua relação com o Sr. Pedro Soto y Domecq, o “acontecimento

extraordinário” teve seu lugar quando María Luisa estava morta havia treze anos.

 

Falei com Pablo, da Ordem dos Cartuxos de Burgos. Ele disse que tem um registro de um tal Agustín

Soto Domecq. Pediu-me que eu escrevesse para o padre prior…

 

Decidi arriscar-me. Deixei tudo e viajei para a Ordem dos Cartuxos de Miraflores, em Burgos, no

norte da Espanha. Tinha que esclarecer algumas das muitas incógnitas. Seria Agustín Soto Domecq o

cartuxo da história?

No dia 11 de novembro de 2012 fui recebido pelo prior de Miraflores, Agustín María Royo.

O monge, amabilíssimo, escutou a história até o final, mas disse que não sabia de nada sobre esse

assunto.

Minha alegria foi pelo ralo da pia…

O padre Agustín María confirmou a existência de um Domecq na Ordem dos Cartuxos…

Assustei-me.

– Mas isso já faz muito tempo – sorriu.

O Domecq em questão não se chamava Agustín, e sim Pedro.

Tinha entrado em Miraflores em 1947. Depois chegou a ser prior da Ordem dos Cartuxos de Évora, em

Portugal. Faleceu em Valência em 1980. E ali está enterrado.

 

Maria Luisa Trevilla morreu em Madri em novembro de 1934. Está enterrada ali. Estava com 21 anos de idade. O “acontecimento

extraordinário” registrou-se em Málaga, em 1947. (Foto: Fernando Sierra.)

 

Pilar Maldonado, minha informante, estava certa. O conde ingressou na Ordem dos Cartuxos em 1947.

E o prior de Miraflores prometeu investigar o assunto entre os monges veteranos da Ordem dos

Cartuxos, alguns deles companheiros de Pedro Soto Domecq, conde de Puerto Hermoso.

Poucos dias depois, como bem prometeu, o prior de Miraflores fez chegar até mim o currículo

religioso do Sr. Pedro. [3] Nele se confirmava a data de ingresso na Ordem (1947), assim como a de sua

morte: 28 de agosto de 1980 em Porta Coeli (Ordem dos Cartuxos de Valência).

Fernando Sierra, por seu lado, levou adiante a missão de encontrar o currículo profissional do conde,

até o momento de sua entrada na Ordem dos Cartuxos. O Sr. Pedro Soto Domecq tinha sido diplomata, tal

como adiantou o prior de Miraflores. Foi licenciado em ciências econômicas e era advogado. Trabalhou

na Secretaria Particular do rei Afonso XIII, e, ao chegar à República, “para não servi-la”, renunciou à

carreira diplomática, colocando-se ao comando dos negócios e das vinícolas das famílias Domecq.

Era um milionário, solteiro, que perseguia Manolete onde fosse tourear. Viajava sempre em Rolls-

Royce.

A informação que Pilar Maldonado proporcionou continuava sendo de “primeira classe”…

E continuaram chegando notícias da Ordem dos Cartuxos de Miraflores em Burgos.

Nesse mesmo mês de novembro de 2012, o padre prior anunciava-me o seguinte:

 

Meu caro Sr. Juan José:

Nosso arquivista tem procurado cuidadosamente e não encontrou nada referente ao assunto que o

senhor investiga sobre o Sr. Pedro Soto Domecq. Envio-lhe a ficha de nosso livro-registro, na qual

encontrará, minuciosamente resenhados, todos os dados de interesse. Não encontramos nenhuma foto

dele, apenas um recorte de um jornal dos anos 1950, em que aparece acompanhado do núncio

apostólico Mons. Antoniutti em sua visita a nossa Ordem. A qualidade da foto, como o senhor poderá

constatar, é péssima, porém, é a única que temos.

Na Ordem dos Cartuxos ninguém escutou sobre o relato que o senhor me contou. Há dois irmãos

que rondam os noventa anos, os irmãos Carlos e Luis, que o conheceram bem. O irmão Carlos esteve

com Sr. Pedro na Ordem dos Cartuxos de Évora e nunca escutou esse relato. O irmão Luis nos disse

que, na origem de sua vocação, houve algum fenômeno extraordinário, mas não sabe em que consistiu. Desconhecia completamente a história que o senhor me referiu…

 

A frase do frei Agustín María (melhor dizendo, o irmão Luis) deixou-me perplexo: “… na origem de

sua vocação, houve algum fenômeno extraordinário…”

A que se refere o irmão Luis? O que ele entendia por “fenômeno extraordinário”?

A carta do prior assim finaliza:

 

… O arquivista, que também conheceu o Sr. Pedro, disse que ele era uma pessoa

extraordinariamente discreta. Nunca falava sobre sua família nem de sua vida passada. De qualquer

forma, se a história de fato aconteceu, parece ser que somente o confessor a conhecia, já que nunca

revelou à comunidade.

Isso é tudo o que eu pude averiguar.

 

Pensei em regressar a Burgos e interrogar o irmão Luis. E já estava a ponto de partir quando chegou

uma nova mensagem do prior de Miraflores:

 

Se alguma vez o senhor viajar para Burgos – dizia –, não há nenhum inconveniente que fale com o

irmão Luis, mas não creio que irá acrescentar nada à sua investigação, já que ele mesmo me disse que

nunca falou sobre este tema com o Sr. Pedro. Esse irmão esteve por muitos anos em nossa Ordem dos

Cartuxos de Defensión de Jerez (Ordem esta que cerrou suas portas faz poucos anos) e, quando disse que

na origem da inesperada decisão do Sr. Pedro de entrar na Ordem dos Cartuxos houve um feito

extraordinário, isso faz eco ao que se dizia em Jerez e que por força também chegou à Ordem dos

Cartuxos jerezana, mas sem saber exatamente em que consistiu esse feito extraordinário…

 

Suspendi a viagem.

O prior tinha razão. Não valia a pena deslocar-me até Burgos para isso.

Mas, na minha mente, ficou flutuando a notícia do “acontecimento extraordinário”.

Pilar Maldonado estava certa…

E o tenaz e rigoroso frei Agustín, de Miraflores, continuou enviando informação. A verdade é que me

fez um enorme favor. Revolveu a Ordem dos Cartuxos de Valência e de Évora e o resultado foi

interessante.

 

Em Porta Coeli, Valência – escrevia –, há dois monges de idade avançada e que foram companheiros

do Sr. Pedro. Não sei se o prior daquela casa lhe permitiria falar com eles. De qualquer forma, eu vivi

onze anos com eles em Porta Coeli e mais de uma vez ouvi-os contar anedotas de Pedro: que o Mestre o

tratou de forma muito dura, durante os primeiros anos de noviciado em Miraflores, para testar sua

vocação. Que uma vez chegou do passeio semanal com os pés ensanguentados por causa dos sapatos (que

são fabricados na Ordem dos Cartuxos, e cada sapato tanto valia para o pé direito como para o pé

esquerdo) e pediu ao padre mestre que lhe proporcionasse uns sapatos apropriados para o passeio e que

o padre mestre respondeu: “Para que veio à Ordem dos Cartuxos, para viver como um filhinho de papai

ou fazer penitência?” Nunca escutei falar sobre a história que o senhor me contou, nem sequer ouvi dizer

que a origem da sua vocação tenha sido por causa de um feito extraordinário. Por isso não acredito que

possam ajudá-lo muito em sua investigação…

Lara Benítez, ao lado da tumba da família Trevilla. (Foto: Fernando Sierra.)

 

Finalmente, por um pedido meu, o prior de Burgos consultou o responsável da Ordem dos Cartuxos em

Évora, Portugal.

Conhecia a história do pañolón?

Segundo o currículo, o conde foi prior daquela casa. Quem sabe alguém escutou ou soube de algo…

As gestões do frei Agustín deram frutos.

No dia 22 de novembro, ele me remetia o seguinte:

 

Meu prezado Juan José:

Não sei se estará viajando à América. De qualquer modo, eu lhe envio a resposta do superior da

pequena comunidade da Ordem dos Cartuxos de Scala Coeli, Évora, que conheceu muito bem o Sr.

Pedro. Inclusive me envia uma breve biografia dele (veja documento anexo).

Ele me responde o seguinte: “É a primeira vez que escuto essa lenda, porém, por vários caminhos,

me chegou outra, que contei ao Sr. Pedro aqui e ele riu. É a seguinte: eles saíam de uma reunião de

amigos e chovia. Acompanhou-o uma amiga até a sua casa (outros dizem namorada), aristocrata como

ele, e para atravessar o jardim, do carro até o palacete, deixou-lhe sua capa. Pouco depois, soube da

morte da garota e foi ao cemitério, para rezar em sua tumba, e viu a tumba coberta com sua capa. A

história é superior à lenda. Ele me contou que deixou, sim, um amor humano, porém, por amor a Deus.

Anexo uma breve biografia escrita por mim, para seus sobrinhos, na qual faço alusão a essa lenda.[4]

O Sr. Pedro não escreveu nada sobre si mesmo e fugia dos jornalistas que o procuravam”.

 

A alusão do prior de Évora a uma história parecida a que Pilar Maldonado me contou deixou-me

pensativo. Nem Pilar nem eu estávamos totalmente fora dos trilhos.

E qual foi a reação do conde?

Não negou. Simplesmente caiu na risada, segundo o monge.

Que cada um tire suas próprias conclusões…

Naturalmente, continuamos com as pesquisas.

Interrogamos 12 Domecq e mais 41 Trevilla. Ninguém sabia de nada, ou não quiseram se comprometer,

falando alguma coisa.

A investigação continua em aberto.