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F. Paul Wilson · Capítulo 1 de 36

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F. Paul Wilson

 

Título original: IMPLANT

 

Tradução de SYLVIO GONÇALVES

 

EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO SÃO PAULO, 1997

* A Semana de 17 de Setembro

 

* 1

 

GINA

 

— A linha ainda está reta — disse alguém.

Droga, eu sei, pensou Gina Panzella, olhando impotente para o monitor de ECG, rezando para o fio de luz acusar uma sístole, um espasmo muscular, qualquer coisa. Ele a ignorou. Apenas uma pequena interferência de sessenta ciclos perturbava seu curso sereno.

O odor acre da morte encheu o ar. As três enfermeiras que compunham a equipe de parada cardíaca olharam para Gina, aguardando que ela admitisse o óbvio.

Tudo bem, disse Gina para si mesma, desista.

— Não adianta. Ele não vai voltar.

As enfermeiras assentiram e se puseram a guardar os instrumentos no carrinho de emergência. Gina recuou um passo para olhar pela última vez o corpo pálido, inchado, nu e sem vida do Sr. Nussbaum, 52 anos. Os membros estavam estendidos, um tubo plástico saía—lhe da boca aberta, fios desgarravam—se a partir de emplastros plásticos no peito, tubos intravenosos transparentes penetravam nos braços e sob a clavícula direita. No dia anterior, o Sr. Nussbaum fora submetido a uma laparoscopia da vesícula biliar e resistira bem. Essa noite — manhã, na verdade, por volta das três e meia — ele sofrera um ataque cardíaco, e o alarme soara.

Como não havia nenhum cardiologista de plantão no hospital, Gina, como plantonista, atendera ao alarme. A equipe já colocara a prancha sob as costas de Nussbaum e iniciara o processo de ressurreição cardiopulmonar quando Gina chegou. Ela intubou o paciente, e então, sob sua direção, a equipe trabalhou nele durante quarenta minutos. Ela usou tudo que podia no Sr. Nussbaum: injeção intracardíaca, defibrilação repetida... tratamento completo. Tentou tudo, menos abrir o peito de Nussbaum e apertar—lhe o coração com as mãos.

Nada. O coração de Nussbaum desistira, e nada o faria mudar de idéia.

— Bom procedimento de emergência, doutora—disse Judy Hooper, abraçando Gina à altura do ombro. Judy era alta, magra, com uma auréola de cabelos louros e cacheados em torno do rosto angular; estava no fim dos trinta, sendo uns dez anos mais velha que Gina... e mais acostumada com emergências do que Gina gostaria de ser um dia.

— Não tão bom assim—disse Gina, apontando com a cabeça para o Sr. Nussbaum. —Aquele ali vai para a geladeira.

— Você lhe deu todas as chances. Dez contra um que a autópsia revelará uma tremenda EP. Não há muito que se possa fazer quanto a isso.

Gina assentiu. Geralmente, quando os pacientes obesos tinham ataques como esse, era devido à embolia pulmonar — um coágulo enorme em algum lugar da perna impedindo a passagem de sangue para o pulmão. Todas as drogas e choques elétricos do mundo não seriam capazes de limpar uma artéria pulmonar obstruída.

— É bom trabalhar com você—disse Judy, e então se voltou para retirar os tubos do Sr. Nussbaum.

Sim, pensou Gina. É realmente bom.

Gina torceu para jamais ficar insensível como Judy Hooper. Mas na posição de Hooper, insensibilidade talvez fosse essencial para a sobrevivência.

Gina começou a sentir os músculos relaxarem ao sair para o corredor silencioso, anti—séptico e suavemente iluminado. Estava a meio caminho do elevador quando viu uma enfermeira jovem aproximar —se dela. Tinha cabelos ruivos cortados rentes, pele ruim e os dentes possuíam uma mal—oclusão considerável. No crachá estava escrito: T. Graves, Enfermeira.

— Dra. Panzella, seria muito incômodo pedir à senhora que verificasse o tubo intravenoso do quarto 307?

— Onde está a equipe de intravenosas?

— Bem...—Esfregou nervosamente as mãos.—Estou neste turno, e não consigo...

A enfermeira parecia estar morrendo de medo de Gina.

— Vamos dar uma olhada.

— Puxa, obrigada! — Ela conduziu Gina pelo corredor à direita. — Nem posso dizer o quanto estou agradecida.

— Não é nada demais.

— Bem, ontem à noite pedi que o Dr. Grady me ajudasse com outro paciente e ele ficou... irritado.

Se conheço Grady, ele quase arrancou sua cabeça, pensou Gina. Residente do terceiro ano em Georgetown, Grady era brilhante, mas tendia a ser um pouco cheio de si. Lynnbrook era um hospital comunitário na seção noroeste, ofuscado pelo Georgetown Medicai Center. Não era um hospital universitário como seu vizinho famoso, mas dava conta do recado.

Gina conhecia alguns dos plantonistas, especialmente aqueles que se sentiam insultados quando alguém lhes pedia que fizessem uma intravenosa. A própria Gina de vez em quando não gostava. Afinal, o hospital pagava uma equipe de intravenosas para fazer esse trabalho, e Gina para fazer o dela. Contudo, cedo ou tarde, qualquer profissional, a despeito do quanto fosse bom, passava por um mau bocado tentando achar uma veia.

— Ela está na cama perto da janela—disse Graves.—É uma das pacientes do Dr. Conway. Teve pneumonia. Ela vem recebendo antibióticos via intravenosa, mas agora está apenas no soro. Não encontrei muitas veias e todas estavam bem consumidas. A última veia utilizável infiltrou no fim do último turno, e não consegui encontrar outra.

Gina deparou com uma mulher idosa, frágil, com feições ossudas e cabelos brancos curtos. Estava sentada na cama, completamente acordada, olhando para elas. A mulher estava com o topo de seu lençol embolado nas mãos, manipulando—o como massa de bolo.

— Por favor, não me mande para casa amanhã — disse ela.

— Ela recebe alta amanhã? — perguntou Gina. Graves passou o prontuário da paciente para Gina.

— Provavelmente—disse a enfermeira.

O prontuário trazia o nome "Harriet Thompson" no alto. Idade: 78. O Dr. Conway era um dos médicos que atendiam às famílias locais—calmo, competente, com um séquito leal. Gina o encontrara algumas vezes e simpatizara com ele. Leu por alto o prontuário codificado por cores. O último raio X do pulmão da Sra. Thompson não acusara nada. As anotações de progresso rabiscadas apressadamente pelo Dr. Conway pela manhã diziam: "Fazer novo exame para alta ao meio—dia."

Gina escreveu no prontuário:" Suspender IV até o meio—dia." Rabiscou seu nome e devolveu a ficha à enfermeira.

— Pronto. Isso resolve o problema da intravenosa. Graves sorriu.

— Ótimo—respondeu a enfermeira, pegando a cesta de agulhas e tubos e já se dirigindo ao paciente seguinte na lista.

— Conhece o Dr. Conway?—perguntou a Sra. Thompson. Gina se virou.

— Um pouco—respondeu.

— Diga a ele que não me mande para casa amanhã. Estou muito fraca.

— Não posso dizer a ele o que fazer. Sou apenas uma plantonista.

— Mas estou sem forças. Não sei o que vou fazer. Gina deu uma palmadinha na mão da velha.

— Vou lhe dizer o que farei, senhora... O nome da velha lhe escapou.

— Thompson. Mas pode me chamar de Harriet.

— Certo, Harriet. Se por acaso eu me encontrar com o Dr. Conway, conversarei sobre isso com ele.

— Obrigada — disse, sorrindo pela primeira vez. — Você é muito gentil.

Gina não esperava cumprir a promessa, mas enquanto estava na sala dos médicos, escovando o cabelo preto e lustroso e decidindo se passaria batom, viu o Dr. Bill Conway entrar.

— Saindo mais cedo?—perguntou Conway, com um sorriso. Era jovem, talvez dois ou três anos mais velho que ela, e podia ser confundido com um dos irmãos Baldwin. Gina o considerava atraente; gostava de sua aparência e modos. Mas Conway usava uma aliança na mão esquerda. Casadíssimo.

— Grady está me cobrindo — disse Gina. —Ainda não estou atendendo pacientes. Meu trabalho diário é assistir Duncan Lathram uma ou duas vezes por semana.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Vejam só! Eu não sabia que você andava em círculos tão refinados. E desde quando se tornou cirurgiã?

— Em geral odeio cirurgia, mas o que Duncan faz é fascinante.

É como arte.

— A arte da plástica de nariz. Bom título para um livro.

— Por que não? Se Donald Trump pôde escrever um livro, por que não Duncan Lathram? Best seller garantido na classe médica. Mas, mudando de assunto, o tubo intravenoso de uma de suas pacientes infiltrou na noite de ontem e o suspendi até que você chegasse.

— Thompson na enfermaria Norte Três?

— Certo. Todas as veias estavam usadas.

— Droga!

Gina ficou um pouco surpresa com a reação. Não vira nenhuma razão premente para a intravenosa.

— Sempre se pode usar a artéria subclávia...

— Não, não é isso. O conselho está pegando no meu pé. Eles querem que eu dê alta à paciente. Segundo o prontuário, a paciente não precisa de cuidados hospitalares. Sua pneumonia clareou, então vamos chutá—la.

— Ela disse alguma coisa sobre estar se sentindo fraca e com medo de ir para casa.

Ele estava assentindo.

— É um daqueles casos em que a paciente está bem na teoria, mas não na prática. A radiografia do pulmão não acusou nada, a febre baixou, a contagem de glóbulos brancos está normal, os eletrólitos estão balanceados, mas ela não está em condições de cuidar de si mesma. Não pode passar uma semana numa casa de repouso porque morre de medo de ficar com estranhos e sua filha, que vive em San Diego, não pode ou não quer ficar com mamãe durante alguns dias. Então, o que faço?

— Fale ao conselho sobre o caso dela—disse Gina.

— Sim, certo. Quando foi a última vez que aqueles burocratas trataram de um paciente? Se exercessem de verdade a medicina, não teriam tempo de enfiar os narizes nos prontuários dos outros médicos.—Ele suspirou.

—Aquele tubo intravenoso era dispensável, mas me dava uma desculpa para mantê—la conosco por mais alguns dias. Mas agora que ela está sem tubo, eles vão me pressionar ainda mais para dar—lhe alta. Quer apostar comigo daqui a quantas horas vou receber um telefonema da diretoria?

— Logo depois do almoço, acho.

Ela sabia qual era a prioridade da diretoria do hospital: dinheiro. O conselho não podia chutar a Sra. Thompson, mas podia determinar que sua condição não requeria mais cuidados hospitalares.

Com isso, a previdência social deixaria de pagar pelos serviços, deixando por conta do hospital os dias extras durante os quais ela seria mantida, e o Dr. Conway não receberia enquanto isso. Gina tinha certeza absoluta de que Conway estava pouco se lixando em manter a Sra.

Thompson por mais uns dias sem que o hospital recebesse nada por isso.

Mas ela duvidava que a diretoria pensasse do mesmo jeito.

Mais uma vez Gina se perguntou se queria mesmo exercer sua profissão em instituições particulares. As vezes, trabalhar como médico de família para o restante da vida não parecia tão ruim.

— E então, que vai fazer? Conway deu com os ombros.

— Que se danem. Ela fica até estar pronta para ir.

Gina se despediu de Conway imaginando quanto tempo ele conseguiria suportar a pressão.

O sol levantava—se. O ar estava fresco e revigorante, os pássaros entoavam um coro como o de uma sala cheia de monitores cardíacos. Gina pulou para dentro de seu velho Pontiac Sunbird vermelho e seguiu para casa. Mas não para a cama. Tinha um compromisso importante. Dormir não estava nos planos.

Não se sentia cansada. Até alguns meses atrás, quando era residente—chefe no programa de atendimento comunitário da Tulane University, Gina trabalhara por mais de cem horas semanais. Agora com seus três turnos de doze horas semanais como plantonista em Lynnbrook, além de trabalhar como assistente no centro cirúrgico de Duncan Lathram durante três manhãs por semana, o tempo total de trabalho chegava apenas a sessenta horas semanais.

Quase férias. Mal sabia o que fazer com tanto tempo livre.

Bem, sabia sim. Ou pelo menos imaginava o que queria fazer. O senador Hugh Marsden estava presidindo a Comissão Mista de Diretrizes para a Ética e a Prática da Medicina. Ela queria participar da equipe dele, para trabalhar como assistente legislativa. E tinha uma entrevista às dez da manhã no escritório de Marsden.

Todos que conheciam Gina consideravam—na maluca por isso. Ela estava tentando fazer seus pais entenderem, mas era difícil.

Claro, o governo ainda não mantinha a classe médica sob supervisão absoluta, mas isso parecia inevitável. Quando Gina estava completando sua residência em Tulane, olhou em torno e se perguntou para onde iria e como poderia fazer alguma coisa importante. Leu tudo que lhe caía nas mãos, encheu os ouvidos de todos que conhecia, e acabou percebendo que o futuro da medicina seria decidido em Washington por pessoas que sabiam quase nada a respeito dessa ciência. Portanto, ela talvez pudesse fazer mais por seus pacientes — e pela profissão médica em si — em Washington do que naquele grupo médico multidisciplinar de Louisiana que lhe oferecera um belo salário inicial.

A medicina agora estava se tornando um jogo novo. Era chegada a época de uma nova espécie de médico, um que pudesse agir nos dois mundos—ser capaz de clinicar e ainda poder influenciar os burocratas. Se esse novo tipo de médico tivesse talento, motivação e o conhecimento de como essas regras estavam sendo moldadas, ele poderia desenvolver respeito e credibilidade suficientes para causar um impacto decisivo.

Gina se sentia estranhamente convicta de que pertencia a esse novo tipo de médico.

Convicta o bastante para, em nome disso, retornar para a terra na qual crescera, deixando para trás o homem que amava.

Afastou da mente a memória da expressão abalada de Peter Hanson na última vez que o vira. Os cabelos castanhos molhados de chuva, os olhos escuros cheios de mágoa e descrença, enquanto ela subia a rampa de embarque. Gina lembrou como acenara para Peter, como resistira ao ímpeto de correr de volta e se jogar nos braços dele. Mas sabia, no fundo do coração, que se fizesse isso, passaria a vida inteira imaginando como poderia ter sido. Não queria tornar—se uma resmungona, sempre se perguntando "e se..."

Tudo que pedia agora era uma chance de mostrar o que sabia fazer. O primeiro passo na direção dessa chance estava marcado para dali a algumas horas.

Gina fez uma oração silenciosa: Não deixe que eu ponha tudo a perder.