Implante
* 36
SEXTA—FEIRA
Duncan perdera toda a paixão pelo seu plano.
Sentia—se terrivelmente mal. Dirigindo através de Chevy Chase durante as primeiras horas da manhã, Duncan não pensava em outra coisa senão em Gina. Fora assim durante a noite inteira. Queria saber como ela estava.
Depois de seu encontro com Gina, Duncan se encaminhara até um telefone público, discara 911, dera o endereço de Gina à telefonista e dissera que havia uma mulher inconsciente no apartamento. Uma equipe de emergência iria resgatá—la e levála até um hospital. Duncan não ficara para presenciar isso. A polícia estaria atenta para todos os transeuntes, tentando adivinhar quem dera o telefonema. Duncan não podia permitir que fosse visto.
Duncan decidira no último momento que colocaria um segundo implante no trocarte depois de ter perfurado a coxa de Gina. Uma voz subliminar, mais atenta à tenacidade de Gina do que sua mente consciente, sussurrara para Duncan, dizendo que, em relação a Gina, todo cuidado era pouco. E de fato, a voz interior de Duncan acertara em cheio. Gina abrira a própria perna e arrancara um dos implantes.
Mas apenas um. Duncan dissolvera ambos — o do frasco e o que ainda estava na coxa. A prova fora anulada e também uma mente brilhante.
Levariam anos até que os efeitos da DTP desaparecessem. Depois que se recobrasse, seria praticamente impossível para Gina recuperar a licença médica. Todos os seus anos de treinamento teriam sido em vão. Todas as suas esperanças de uma carreira em medicina seriam destruídas.
Duncan chorara como uma criança enquanto voltara para casa. Ele entrara sorrateiramente na própria casa para não ter de falar com Oliver. Sabia que o irmão estava confortável lá no porão. O aposento era aquecido e provido de um banheiro. Lá embaixo havia também uma geladeira cheia de sucos e bebidas. Todas as conveniências da vida moderna, menos um telefone.
Oliver provavelmente teve uma noite mais confortável que a minha, pensou Duncan.
Duncan deitara no sofá, onde passara a noite inteira acordado, ouvindo Oliver ocasionalmente gritar seu nome, e relembrando a expressão magoada e aterrorizada de Gina antes de desmaiar.
Durante algum tempo pensou em abandonar todos os seus planos. Poderia telefonar para o agente do serviço secreto que lhe dera o cartão, o tal Decker, e dizer—lhe que a cirurgia fora cancelada. Ou telefonar para o Dr. VanDuyne e mandar o presidente para o inferno. Ele que encontrasse outro cirurgião para consertar suas malditas pálpebras.
Mas depois de tudo que passara, Duncan não podia se permitir esse luxo.
Não depois do que fizera com Gina. Fizera aquilo em nome de uma causa.
Não prosseguir o plano significaria que ele a fizera sofrer por nada. E isso seria monstruoso.
Era por causa disso que ele estava dirigindo para o centro cirúrgico às quatro e meia da manhã, meia hora mais cedo do que planejara. Oliver continuava trancado no porão. Assim que o presidente saísse para Camp David, com sorte carregando um implante na coxa, Duncan retornaria para casa e libertaria Oliver. O que aconteceria em seguida caberia ao irmão caçula.
Talvez convencesse Oliver a ficar calado. Ele devolveria a DTP restante e juraria não fazer nada ao presidente. Diria que passara por um período de comportamento aberrante mas que estava melhor agora, e que se submeteria à terapia. Alegaria não saber nada sobre a condição de Gina, e juraria que a procurara a noite inteira sem conseguir achá—la.
Oliver suspeitaria, mas não teria como saber. Afinal, Gina removera o implante—o próprio Oliver o vira. E se Duncan pudesse convencê—lo de que dali em diante seria um bom menino, que deixaria tudo para trás, Oliver talvez não o delatasse. Talvez.
Afinal, se o caso se tornasse público, a condenação atingiria também Oliver e seus implantes. Sua invenção estaria maculada para sempre porque fora usada com intenções perniciosas. A FDA talvez até mesmo deixasse de aprovar a substância.
Oliver ficará calado, disse Duncan a si mesmo. Se eu for prejudicado, ele também sofrerá com isso. E ele sabendo que o bem que os implantes dele podem fazer compensará toda a dor que causei.
Duncan destrancou a entrada particular e entrou. Caminhou até o teclado do alarme para desativá— lo, mas o encontrou desligado. Droga. Barbara esquecera de ligá—lo ao sair. Se não fosse uma excelente secretária...
Duncan pensaria nisso na semana seguinte. No momento, tinha outras preocupações. Em meia hora, uma equipe do serviço secreto chegaria ao prédio para organizar a segurança.
Tinha tempo de sobra para encher um implante com DTP.
Acendeu as luzes do corredor e entrou no escritório. Ao acender as luzes, deparou com seus livros, diários e documentos espalhados pelo chão. O escritório fora completamente revirado. Alguém entrara aqui à procura de alguma coisa. Quem? A procura do quê?
Da DTP?
Correu até a mesa. Gemeu ao ver que a gaveta superior fora arrombada.
Era como se alguém a tivesse aberto a marteladas. Verificou o interior da gaveta. A garrafa de DTP desaparecera. E o trocarte também.
Não!
Seu coração começou a bater freneticamente. Correu de volta até o corredor e olhou nos dois sentidos.
Mas quem? Aprisionara Oliver, e Gina estava numa sala de emergência em algum lugar. Quem mais sabia a respeito...
Duncan girou sobre os calcanhares ao escutar um ruído leve, como uma cadeira sendo movida. Viera do fundo do corredor. Ele viu que a porta para o andar inferior estava aberta. No subsolo? Quem estaria na sala de registros ou no...
Laboratório de Oliver!
Movendo—se o mais silenciosamente que pôde, Duncan atravessou o corredor e desceu as escadas na ponta dos pés. No andar de baixo, viu uma luz vazando pela porta aberta do laboratório de Oliver. E ruídos vinham de lá. Oliver devia ter fugido do porão. Gina contara—lhe onde a DTP estava escondida e agora ele estava livrando—se dela.
Esquecendo toda cautela, Duncan correu até a porta.
— Oli—! —A palavra ficou presa na garganta, e Duncan ficou sem ar.
Uma mulher pálida e desmazelada, de longos cabelos escuros e vestindo suéter e calças de moletom, estava parada diante do balcão, segurando o frasco de DTP. Virou—se para olhar. Seus olhos arregalados e chocados cuspiram fogo contra ele.
Duncan recuperou a voz.
— Gina!
Ela ergueu o braço para arremessar o frasco contra Duncan, mas o médico investiu para a frente, segurando—a pelo pulso antes que ela completasse o movimento. Gina gritou, arranhando o rosto de Duncan com as unhas e batendo—lhe com a mão livre. Ela é forte como uma tigresa, pensou Duncan, enquanto tentava agarrar o frasco com a ponta dos dedos.
Finalmente conseguiu empurrá—la e puxar o frasco. Enfurecida, Gina o atacou com as mãos, berrando palavras desconexas entre os dentes cerrados. Parecia uma loba ferida. Fora isso que a DTP fizera a ela?
Gina se desvencilhou de Duncan e correu para a porta. Duncan agarrou—a pelo braço e jogou—a contra o balcão; em seguida, fechou a porta e se encostou contra ela.
Duncan e Gina olharam um nos olhos do outro, ambos arfando.
— Filho da puta! — gritou ela, enquanto lágrimas corriam—lhe dos olhos—Seu veado filho duma puta! Como pôde fazer aquilo comigo?
Dito isso, Gina cruzou os braços sobre o balcão, abaixou a cabeça sobre eles e começou a chorar.
Duncan se sentiu confuso. Parecia sã agora. Irada, sim, mas completamente racional. Mas o implante... a DTP Será que o transdutor não conseguira dissolvê—lo?
Só podia ser isso. Pilha fraca, interferência, ou qualquer outro motivo.
O ultra—som falhara.
O que faria agora?
De uma coisa Duncan tinha certeza: precisava de tempo para pensar.
Voltou—se para a porta, encontrou o ferrolho e fechou—o. Isso pelo menos retardaria Gina se ela tentasse...
Duncan gritou ao sentir uma pontada aguda na parte traseira da coxa.
Colocou a mão sobre o local da dor e se virou.
~ Gina estava parada a centímetros de Duncan, encarando—o, enquanto segurava o trocarte na mão como uma adaga.
O sangue de Duncan gelou. Puxou o trocarte das mãos de Gina.
— Não! Você não pôde ter feito isso, Gina! Não pôde! Gina assentiu lentamente, esboçando um sorriso malicioso. Olhando por sobre o ombro, Duncan localizou uma bandeja no balcão com os três implantes e uma seringa. Tocou novamente a parte de trás da perna e olhou os dedos.
Sangue.
O medo que Duncan estava sentindo deu lugar à raiva. Mas ao dar um passo na direção de Gina, ela levantou a outra mão. Seus dedos envolviam o controle do transdutor de ultra—som que Oliver usava para seus experimentos com as membranas—implante.
Duncan recuou, batendo de costas contra a porta.
— Não, Gina!—Ele quis gritar, mas as palavras saíram como um sussurro rouco. — Por favor... não!
— Por que não? — perguntou Gina, ainda com um sorriso sádico.
O brilho selvagem nos olhos dela aterrorizou Duncan até a alma. Parecia à beira de um colapso. Uma palavra errada, um movimento errado, e ela perderia completamente o controle.
— Por que não?— repetiu. —Você quis fazer isso comigo!
— Não, Gina. Essa era a última coisa que eu queria. Eu não tinha escolha. Eu...
— Não me venha com mentiras! — gritou, apontando o transdutor contra ele. — Desmaiei ontem porque eu estava doente, assustada e fraca. Você achou que era a DTP atingindo meu organismo. Você tentou fritar meu cérebro ontem à noite, Duncan. E chegou muito perto. Se não tivesse roçado a ponta do dedo naquele segundo implante quando estava cavando atrás do primeiro, eu estaria agora numa cela acolchoada no D.C.
General. Por sorte, recobrei os sentidos e saí do meu apartamento antes da ambulância chegar.
— O que é uma prova de que eu não queria feri—la. Fui eu quem chamou a ambulância.
— Certo. Depois de disparar o ultra—som contra mim.
Ela se aproximou e Duncan se moveu para a direita. Ele não ousaria tentar tirar o controle do transdutor das mãos de Gina. Ela já estava com o dedo sobre o botão. Uma pequena pressão e o implante em sua perna se dissolveria, e logo o mesmo aconteceria com a mente. Tinha de mantê—la falando.
— Você não compreende—disse, continuando a se mover para a direita. — Oliver me disse que você removera os dois implantes. Eu fui lá apenas...
— Oliver não sabia disso! Ele viu apenas aquele no frasco, o segundo. O primeiro caiu na banheira, dissolveu e escoou pelo ralo.
Duncan continuou se movendo, centímetros por vez. Adoraria colocar o balcão entre os dois, mas Gina estava acompanhando cada movimento, brandindo aquele transdutor contra ele.
— Gina...
— Como teve coragem de fazer aquilo comigo, Duncan? Como pôde tentar arruinar minha vida desse jeito? Você poderia muito bem ter posto uma arma na minha cabeça. Eu confiei em você, Duncan!
O coração de Duncan começou a bater mais forte quando viu a fúria crescer nos olhos de Gina. Olhou em torno, procurando por uma arma, uma saída, qualquer coisa, mas estava encurralado. Teria de parar de recuar e se arriscar numa luta contra ela.
Súbito, Duncan avistou sua salvação, a menos de meio metro de distância.
Se ele pudesse alcançá—lo...
— E eu confiei em você, Gina!—exclamou Duncan, tentando ganhar algum tempo colocando—a na defensiva. — Eu lhe dei um trabalho, lhe dei as chaves do meu prédio e o que você fez? Você arrombou a minha gaveta e invadiu a minha privacidade!
A fúria nos olhos de Gina diminuiu, mas apenas ligeiramente.
— Como descobriu isso?
Ele estava perto agora, quase dava para alcançar. Se pudesse esticar a mão...
— Você deixou um pedaço da sua gazua para trás. — Ele levantou a mão direita mantendo o dedão e o indicador a meio centímetro um do outro. — Só um pequeno...
Com um movimento brusco, segurou o cabo de força da unidade de ultra—som e puxou—o da parede, deixando Gina segurando um pedaço de metal inerte.
Levantou a mão.
— Dê—me isso, Gina. Não serve para mais nada.
— Não conte com isso!
Gina deu um passo para trás e jogou o controle do transdutor contra o rosto de Duncan, que se esquivou, mas não a tempo de evitá—lo por completo. O controle do transdutor chocou—se dolorosamente contra seu crânio. Quando ele se empertigou, balançando a cabeça para espantar a dor e olhou em volta, Gina soltara o ferrolho da porta e a estava abrindo. Saiu antes dele conseguir agarrá—la.
Gina arfava ao subir correndo os degraus. Tomara o restante dos antibióticos que pegara no banheiro de Oliver, mas ainda se sentia mal e fraca. Não conseguiria manter uma grande distância entre si e Duncan por muito tempo.
Alcançou o andar térreo e desatou a correr...
Direto para os braços de três homens de terno.
— Que diabos você está fazendo aqui? — disse o moreno alto no meio, enquanto o outro à sua direita, aquele contra quem se chocara, segurava firme o braço de Gina. Os dedos do homem pareciam de aço. Jamais conseguiria se soltar dele.
— Agente Decker! — disse a voz de Duncan atrás dela. — Graças a Deus vocês já chegaram! Encontrei esta jovem aqui quando cheguei.
Aparentemente ela invadiu o prédio durante a noite. — Ele levantou o trocarte. —Acaba de me ferir com isto.
Gina virou—se e viu Duncan parado à porta para o subsolo.
— Apenas fiz a Duncan o que ele ia fazer ao presidente!
— Opa — disse o homem alto e moreno que Duncan chamara de agente Decker.
— Espere um minuto, senhorita.
— Ela está perturbada—disse Duncan, chegando mais perto — Perdeu completamente o contato com a realidade.
— Mentira! — gritou Gina. — Eu trabalho aqui. Sou médica! E ele está planejando matar o presidente hoje!
O que não era bem verdade, mas Gina precisava atrair a atenção deles. E agora conseguira.
— É verdade, ela já trabalhou conosco, agente Decker —apressou—se Duncan em explicar. — Mas ela vem apresentando um comportamento errático ultimamente. Tentamos providenciar ajuda psiquiátrica, mas ela teve um colapso antes de conseguirmos finalizar esses arranjos.
— Qual é o seu nome, senhora?—perguntou Decker.
— Dra. Gina Panzella. Sou uma médica formada com mérito, e sou tão sã quanto você!
Gina começou a listar todas as desgraças que aconteceram aos membros da Comissão de Diretrizes que tinham sido pacientes de Duncan, mas Duncan a interrompeu depois de cada frase.
— Agente Decker, precisamos ouvir esses delírios? Cheque com o FBI. Na semana passada ela os fez correr atrás do próprio rabo com alguma história insana sobre eu haver injetado veneno no senador Marsden.
— Não acreditem nele! — exclamou Gina. — Ele me fez pensar que fizera isso!
Duncan balançou a cabeça enquanto olhava para Gina. O desgraçado é bom ator, pensou Gina. O Jack Nicholson da classe médica. Ela mesma estava quase acreditando que Duncan sentia pena dela.
— Fizeram um exame de ressonância magnética no senador e não encontraram nada—disse Duncan. — Podem checar isso.
— Pode ter certeza de que vamos checar—afirmou Decker. —Vamos checar tudo.
— Bom. O nome do agente encarregado desse fiasco era Canney. Ele foi induzido a acreditar nessa história pela Dra. Panzella.
— Canney? — disse Decker. — Certo, vamos ligar para ele.
— Esperem! — disse Gina. — Vocês precisam ouvir o que tenho a dizer!
— Vamos ouvir todo mundo—disse Decker. Ele virou—se para o homem que a estava segurando. — Você e Briggs levem a moça para depor na central. Vou entrar em contato com Mallard e ver se podemos adiar a cirurgia do presidente. Não estou gostando nada desta história.
— Graças a Deus — disse Gina, enquanto eles começavam a levá—la para os fundos do prédio. — Não me importo se vocês acreditam em mim ou não; apenas não deixem o presidente vir aqui hoje!
Ao abrir a porta do estacionamento, Decker olhou para Gina com um novo interesse.
— Nem sempre cabe a nós decidirmos isso, senhora. Então você conhece Gerry Canney?
Ele sabia o primeiro nome de Gerry!
— Sim! Desde aescola.Você o conhece?
— Já nos encontramos. Foi você quem contou a ele sobre a cirurgia do presidente?
— Fui eu! Foi para você que ele ligou? Decker não respondeu isso. Estava olhando para o carro que acabara de entrar no estacionamento.
Uma noite longa. Longa e ruim. Gerry não fechava os olhos desde as seis da manhã do dia anterior. Sentia—se cansado, o estômago ardia e ele estava terrivelmente frustrado.
Desde que deixara o hotel Tremont, Gerry não conseguia achar mais nenhuma pista de Gina. A única ação de toda a noite fora a denúncia de que havia uma mulher desmaiada no apartamento de Gina, o que se revelara um alarme falso. Não havia ninguém no apartamento quando a ambulância chegou lá, mas a porta estava aberta.
Havia alguma coisa estranha e funesta naquele telefonema. Estava acontecendo alguma coisa que Gerry não conseguia entender, e saber disso o impedia de descansar.
Ele não conseguira convencer—se a desistir. Gerry telefonara para a Sra.
Snedecker e perguntara se Martha poderia passar a noite com ela. Martha não se importou. Gostava de dormir em qualquer lugar, o que às vezes preocupava Gerry. Depois de falar com ela pelo telefone do carro, Gerry passara o restante da noite dirigindo pela cidade, parando ocasionalmente no prédio do FBI. Ele havia até mesmo falado com os pais de Gina. Não, eles não tinham nenhuma notícia dela. Gerry torcia para eles terem lhe dito a verdade; não queria ter patrulhado a cidade a noite inteira a troco de nada.
Acabara de passar mais uma vez no apartamento de Gina. Continuava vazio.
E agora, pela terceira vez na noite — ou melhor, na manhã, porque o sol já ameaçava se levantar — estava checando o prédio de Lathram.
Para sua surpresa, ao entrar no estacionamento dos fundos, Gerry deparou com três carros — dois deles federais, de acordo com as placas. Enquanto estacionava e saía do carro, viu uma Gina cabisbaixa sendo escoltada do prédio por três homens de terno.
Enfraquecido pelo alívio súbito, Gerry se encostou contra o carro.
Graças a Deus!
Pelo menos estava viva, embora não estivesse com uma aparência nada boa.
E os três homens com ela... só podiam ser do serviço secreto. Bob Decker era um deles.
Serviço secreto... a cirurgia do presidente. Merda. Se Gina tinha razão quanto a isso, sobre o que mais estaria certa?
Bateu com violência a porta do carro. Merda!
O rosto de Gina se iluminou com um sorriso.
— Gerry!
— Falando no diabo... — disse Decker. — Nós já íamos.
— Seu filho duma puta!—gritou Gerry enquanto caminhava até eles. Filho duma puta\
Os dois agentes com Decker recuaram e começaram a enfiar as mãos sob os paletós.
— Tudo bem — disse Decker. — Eu o conheço. É do FBI.
— Gina, você está bem? — perguntou Gerry. O sorriso se intensificou.
— Agora, sim.
Parecia muito pequena e frágil entre os dois homens. Gerry quis tomá—la nos braços e dizer—lhe que tudo ficaria bem agora, mas essa não era a hora, nem o lugar, nem a companhia certa.
Virou—se para Decker.
— Disse—me que não sabia nada sobre a cirurgia do presidente e aqui está você no centro cirúrgico de Lathram às cinco da manhã. Quer explicar isso, companheiro?
Decker encolheu os ombros.
— Se o Homem diz para ninguém falar, ninguém fala.
— Isto poderia ter terminado em desastre, sabia?
— Você quer dizer, se tivéssemos deixado esta jovem à solta lá dentro?
— Não, seu idiota, se ela não tivesse conseguido chegar aqui!
— Gerry!—disse Gina, os olhos arregalados. —Acredita em mim?
— Não sei exatamente no que acredito, mas sei que há tanta coisa suspeita em torno desse Dr. Lathram que, no lugar de vocês, eu não deixaria que ele chegasse a um quilômetro do presidente.
De repente o bom humor de Decker desaparecera.
— Ele nos disse que semana passada esta senhora fez você e o FBI ficarem correndo atrás dos próprios rabos.
— Aconteceu isso sim, mas não tenho certeza se a culpa foi dela.
— E o doutor lá dentro disse que ela o feriu.
— Com o trocarte—explicou Gina.—O mesmo que ele usou em mim. O mesmo que ele ia usar no presidente.
Gerry ficou preocupado. A história de Gina parecia fantástica demais para alguém poder acreditar nela.
O que funcionava a favor de Lathram.
E se ele tivesse manipulado as coisas para serem desta forma desde o começo?
— Meus agentes vão levá—la até a central para ela depor.
— Esperem! — gritou Gina.—Podemos acertar tudo agora. Eu sei como.
— Vamos, senhorita—disse o agente ruivo que a segurava, e começou a guiá—la até o carro.
Gerry colocou uma mão no peito do agente.
— Dê—lhe um minuto. Vamos ouvir o que ela tem a dizer. Se eu tivesse feito isso antes, talvez nós cinco estivéssemos em casa dormindo, e não parados aqui fora.
Ela estivera certa a respeito da cirurgia do presidente. Sobre mais o que estaria certa?
O olhar grato que Gina lhe dirigiu mais do que compensou todas aquelas horas insones.
— Muito bem — disse Decker. —Vamos dar—lhe cinco minutos. Depois a levaremos.
Duncan não conseguia imaginar como as coisas poderiam ficar piores, mas temia que isso fosse possível.
Ao ver o serviço secreto escoltando Gina para o estacionamento, descartou todos os planos de uso para a DTP. Sua preocupação mais premente era o controle de danos.
E a primeira coisa, e mais importante, era livrar—se da DTP.
Duncan tirou o frasco de líquido âmbar do bolso e desceu correndo as escadas até o laboratório de Oliver. Colocou—a na pia, cobriu—a com uma toalha de papel e quebrou—a em pequenos fragmentos. Abriu a torneira da pia e deixou correr água por algum tempo; em seguida, embolou os cacos de vidro remanescentes no papel—toalha molhado. Lavou com acetona a seringa e a agulha que Gina usara, desfazendo todos os resíduos de DTP.
Em seguida simplesmente jogou—os na lata de lixo junto com todas as outras seringas descartadas.
Deixou a água correndo enquanto subiu até o banheiro masculino, onde jogou os restos do frasco, seu selo e a toalha de papel na rede de Chevy Chase.
E pronto. DTP? Não sei do que ela está falando. Pode vasculhar o lugar.
Fiquem à vontade.
A última amostra existente do composto estava implantada na coxa dele.
Esse era um pensamento assustador. Duncan suava só de pensar no que lhe aconteceria se o implante rompesse antes de ser removido. Teria de ser muito cuidadoso durante as próximas horas. E à tarde, quando tudo tivesse se acalmado, ele providenciaria para que o implante fosse removido. Qualquer um de seus muitos amigos cirurgiões cuidaria disso sem perguntas.
Lavou as mãos. Enquanto as enxugava, olhou—se no espelho.
Está acabado, pensou. Talvez você tenha conseguido alguma coisa desfazendo a Comissão de Diretrizes, talvez não. Pelo menos Lisa está vingada.
Algum arrependimento?
Apenas ter agido contra Gina. E ter perdido a oportunidade de atacar aquele vampiro na Casa Branca. A oportunidade de uma vida!
Suspirou. Mas um homem tinha de saber quando desistir. E esse momento era agora.
Enxugou as mãos e retornou ao corredor.
— Dr. Lathram — era a voz do agente Decker. Virou—se e viu uma pequena multidão aproximar—se dele. Gina,
os três homens do serviço secreto, e um quarto homem, Canney, o agente do FBI. O que estava acontecendo?
— Podemos descer ao subsolo? — perguntou Decker. — Estamos tentando esclarecer algumas coisas aqui e acho que o senhor poderia nos ajudar.
Duncan não gostou da forma como Decker disse isso, e não gostou do olhar predatório nos olhos de Gina. Por um instante pensou em telefonar para um advogado, mas acabou mudando de idéia. Isso apenas atrairia mais suspeitas.
Conseguiria lidar com essas pessoas.
Gina estudou o agente Decker quando ele começou a falar. Era um tipo frio, parecendo quase impassível. Mas seus olhos azuis nunca paravam de se mover. O tipo de sujeito sempre atento para todas as nuances.
— Dr. Lathram, o senhor nos disse que a Dra. Panzella o feriu. O senhor quer registrar a queixa?
Gina viu uma expressão de alívio no rosto de Duncan.
— Não. Absolutamente não. Ela está fora de si. Não quero que seja presa.
Desejo apenas que receba tratamento psiquiátrico.
Gina cerrou os dentes para conter—se e não gritar. Como planejado, o agente do FBI — seu nome era Reilley — posicionara Gina na extremidade do banco do laboratório. Gerry estava parado do lado mais próximo de Duncan, parcialmente bloqueando sua visão de Gina.
Querido Gerry. Nunca se sentira tão feliz em ver alguém em toda a vida como no momento em que eles haviam se encontrado no estacionamento. Ele não havia desistido dela. Gerry passara a noite inteira à procura dela.
Sentia vontade de abraçá—lo ali mesmo.
— Isso é muito generoso da sua parte—disse Decker.—Mas estamos preocupados com a sua segurança. A Dra. Panzella disse que injetou alguma espécie de cápsula de veneno no senhor.
— Ridículo—disse Duncan.—Isso faz parte do delírio dela. Imagina que fiz isso a outras pessoas, inclusive a ela mesma, de modo que imagina que fez o mesmo comigo. Ela precisa de terapia, cavalheiros. E quanto mais cedo vocês a levarem para uma instituição que possa cuidar dela, melhor.
Tão natural, pensou Gina, enquanto colocava o plugue do ultrasom de volta na tomada. Um demônio de fala macia.
Ela apertou o botão de LIGA do ultra—som. A lâmpada vermelha começou a brilhar.
— Pronto—sussurrou.
Gerry piscou para ela enquanto segurava o controle do transdutor.
Virou—se para Duncan e empunhou o controle de modo que ele pudesse vê—lo.
— Se isso é verdade, Dr. Lathram, então suponho que o senhor não se importará de expor sua perna a este aparelho.
Gina percebeu os olhos de Duncan se arregalarem quando viu que a lâmpada indicadora de funcionamento da máquina estava piscando. Ele deu meia—volta e tentou fugir, mas Briggs estava perto da porta, e Duncan não conseguiria passar por ele.
— Afaste isso de mim!—gritou. — Pelo amor de Deus, desligue essa coisa!
Decker olhou para Gina e meneou a cabeça, em sinal de positivo.
A fadiga que atormentava Gina deu lugar a uma sensação de triunfo. Isso!
Mais um na lista de crentes!
— Sente—se, Dr. Lathram — disse Gerry, gesticulando para uma cadeira ao lado do balcão com o transdutor.
— Por favor, cuidado com...
— Sente—se! Duncan se sentou.
Gina ficou admirada com a forma como Gerry conquistou depressa uma posição de comando naquela sala. Sentiu orgulho dele.
— Há um implante cheio de alguma coisa chamada DTP na sua perna?
— Não.
Gerry examinou o controle do transdutor.
— Então acho que não há nenhum problema em ligar esta coisa e...
— Está certo! — gritou Duncan—Sim! Sim! Há sim! Há um implante na minha perna! — Estava visivelmente trêmulo agora. — Por favor, largue essa coisa!
— Só mais umas perguntinhas. Você colocou um implante similar na perna do senador Vincent depois de fazer a cirurgia plástica dele?
— Não tenho de responder isso.
— Claro que não—disse Gerry. Ele se virou para Gina, apontando o botão de LIGA no controle. — É este aqui que faz esta coisa funcionar?
— Sim! — gritou Duncan. — Sim, eu coloquei! Ele disse! Graças a Deus!
— E quanto a Lane, AllardeSchulz?
— Sim, sim! — Estava andando de costas, a voz alta, quase chegando a um grito. — Está satisfeito? Sim, maldição! Agora desligue essa coisa!
— Já ouvi o suficiente—disse Decker.
— E eu também—emendou Gerry. Ele encaixou o controle de volta na máquina de ultra—som.
Acabou, pensou Gina, inclinando—se sobre o balcão. Finalmente acabou.
Decker se virou para o agente ao lado de Gina e apontou para Duncan.
— Reilley, por que você não faz companhia ao Dr. Lathram? Todo mundo permaneça onde está por um momento. Preciso subir para dar alguns telefonemas.
Gerry esticou a mão sobre o balcão até ela. Enfraquecida, mas aliviada, Gina segurou—lhe a mão.
— Como vai você? — perguntou Gina.
— Bem melhor, agora que você está aqui. Ele fitou os olhos de Gina.
— Me diga uma coisa... lá no Tremont... o sangue no banheiro...você...?
Ela assentiu, e Gerry cerrou os olhos por um momento. Ao abri—los, estava olhando para longe.
— Você é incrível. Sinto muito ter duvidado de você. Aquelas palavras soaram como música. Segurou a mão dele entre as dela.
— Fomos manipulados por um mestre. O importante é que você não desistiu de mim. Isso significa mais para mim que qualquer coisa no mundo.
Gerry olhou por sobre o ombro para Duncan.
— Ele não parece um cara que vai ser acusado de assassinato em segundo grau e uma infinidade de crimes federais.
Gina entendeu o que Gerry queria dizer. Agora que o ultrasom fora desligado, Duncan parecia calmo e controlado em sua cadeira. Ela começou a andar em torno do balcão para se aproximar dele.
— Aonde está indo?
— Quero trocar algumas palavras com meu antigo patrão. — Meu antigo ídolo. Tinha de ser cuidadosa. Tinha algo a dizer mas não queria que seus sentimentos a influenciassem.
Apenas olhar para ele agora fazia com que quase irrompesse em lágrimas.
— Percebeu o que você se tornou, Duncan? Ele levantou os olhos para Gina.
— Acho que você vai me contar.
— Desde que vim para Washington tenho ouvido você falar sobre ética, honestidade e probidade e como ninguém no governo adere a nenhuma moral ou padrão de conduta. E infelizmente você não estava de todo errado quanto a isso. Sempre presumi que você estivesse falando de um patamar superior. Mas eu me enganei. Durante todo aquele tempo você estava quebrando seu juramento como médico. Sei que aqueles homens magoaram você, e podiam muito bem ser os ladrões, trapaceiros e lascivos que você dizia que eram, mas isso não importa. Eles foram até você em busca de um médico e você os aceitou como pacientes. Estavam contando com você ser melhor do que eles. Essa é uma confiança sagrada...primum non nocere... e você a profanou.
Ela notou Decker retornando para a sala, mas ele não a interrompeu. Bom, porque ela não terminara ainda.
— Sei o que você era antes, Duncan—quem você era antes — e eu admiro aquela pessoa mais do que qualquer outra no mundo. Mas você se tornou exatamente como as pessoas que tanto detesta: alguém para quem o fim sempre justifica os meios. Veja o que tentou fazer comigo. — Percebeu que estava ficando com muita raiva. Precisava calar—se antes de explodir. — Você se tornou o inimigo, Duncan. E agora vai pagar por isso.
— Talvez, sim—disse Duncan com suavidade.—Talvez, não.
— Não se faça de bobo—disse Gina, sentindo sua fúria cada vez mais intensa. — Você acaba de confessar na frente de uma sala cheia de gente.
Ele sorriu.
— As declarações que fiz foram obtidas por coerção, induzidas por ameaças físicas. — Olhou em volta para os quatro agentes do governo.—Pergunte a qualquer um desses cavalheiros se ele acha que alguma palavra dita aqui seria admissível num tribunal.
Gina os observou. Ninguém precisava dizer nada. Os olhos de Gerry já diziam tudo.
Gina subitamente perdeu o controle.
— Quer dizer que ele vai ficar livre!
Gerry começou a dizer alguma coisa, mas Gina não escutou. Depois de toda a dor que sentira, dos momentos em que questionara a própria sanidade, e da sensação de ter sido traída, Duncan sairia livre!
Ela se virou, agarrou o controle do ultra—som e apertou o botão de LIGA.
— Livre—se disso!
— NÃO!—gritou Duncan, e levou a mão à coxa.—Oh, Deus, NÃO!
O laboratório subitamente virou um hospício, com Reilley empurrando Gina para longe de Duncan, Gerry arrancando o controle da mão dela, e Decker dizendo:
— Por Deus! Gerry, tire essa mulher daqui!
Firme, mas gentilmente, Gerry imobilizou Gina, segurandoa pelos braços, e conduziu—a até a porta, fazendo—a passar por Duncan, que agora estava agachado no chão, segurando a coxa, choramingando e gemendo: — Não—não—não—não, por favor, Deus, não—não—não—não!
E então os dois estavam no corredor estreito em frente ao laboratório.
Gerry fechou a porta por trás de si, soltou Gina e virou—a para si: — Meu Deus, Gina! Não posso acreditar que você fez isso!
— Eu queria que ele ficasse tão assustado quanto eu. Queria que ele soubesse o que é estar aterrorizado.
— Posso entender isso. Veja, sei o que ele tentou fazer a você mas depois de tudo que você lhe disse, eu jamais pensaria...—Ele ficou sem palavras e olhou para ela.—Por que você está sorrindo?
Ela realmente amava o senso de decência daquele homem.
— Esqueci de mencionar que o implante de Duncan estava vazio.
— Vazio? Ela assentiu.
— Isso mesmo. Ele me descobriu no laboratório antes de eu conseguir encher o implante. Assim, injetei nele uma cápsula vazia.
Ela observou a expressão boquiaberta de Gerry, e em seguida as pontas de seus lábios se curvando para cima. Um segundo depois ele estava balançando a cabeça e sorrindo.
— Adorei. Você lhe deu uma dose do próprio remédio, ou pelo menos fez com que ele pensasse isso. — Ele a envolveu com os braços e puxou—a para perto. — Eu estava tão preocupado com você... Por que não ligou?
— Achei que não acreditaria em mim. — Subitamente, sentiu—se fraca e trêmula. — Podemos nos sentar?
Ele a guiou até uma das cadeiras na sala de espera e puxou outra para se sentar ao lado dela. Colocou um braço protetor sobre os ombros de Gina.
— Isso nunca mais vai acontecer de novo, Gina. Sempre vou acreditar em você, juro.
— Bom. Espero nunca mais me envolver numa situação como esta.
— Somos dois. Ou melhor, três, contando com Martha. Ela está sentindo falta de você. — Ele se aproximou mais. — Acho que o que aconteceu esta manhã vai acertar minha situação no FBI. O que significa que provavelmente serei promovido. Estou pensando em mudar com Martha para longe da capital. E você? Ainda está animada para trabalhar no Capitólio?
Gina balançou a cabeça.
— Estou farta deste lugar. Acho que vou querer medicar numa cidadezinha onde haja apenas coisas à venda, não pessoas.
— Ótimo. — Seus olhos encontraram os dela.—Talvez pudesse escolher uma cidade com uma agência do FBI. O que acha disso?
— Uma ótima idéia—disse ela suavemente.
Aporta do laboratório abriu atrás deles. Briggs saiu e passou por eles, caminhando até as escadas. Olhou para Gina com uma expressão preocupada.
Quando a porta foi aberta novamente, Gina ouviu a voz de Duncan.
— Vocês têm de me levar para um hospital! Agora! Não mais tarde! Isto é uma emergência!
E então a porta se fechou.
— Quando vai contar a ele? — perguntou Gerry.
— Contar? Não vou contar nada. Ele vai descobrir mais cedo ou mais tarde. Deixe o desgraçado sofrendo até lá.
Gerry riu.
— Lembre—me de nunca irritar você.
Gina segurou a gravata dele e puxou—o para mais perto.
— É bom mesmo, moço. Sabe do que sou capaz. Eles se beijaram.
FIM
Você terminou Implante
F. Paul Wilson